Um silêncio ensurdecedor instalou-se nas redacções nas últimas duas semanas, apesar de revelações que, num ambiente mediático minimamente exigente, teriam imposto escrutínio continuado e debate sério. O jornal Nascer do Sol trouxe à superfície matéria que, na linha de várias investigações sobre o tema por parte do PÁGINA UM, jamais poderá ser desvalorizada: elementos inquietantes sobre a gestão da pandemia e, sobretudo, sobre a dimensão negocial associada às vacinas — dimensão tantas vezes negada e tantas vezes diluída na retórica da urgência sanitária.
Ficou exposto que em 2021, perante um risco virtualmente nulo para adolescentes e jovens, o Governo socialista manteve a decisão de adquirir e administrar vacinas contra a covid-19 a menores, através de contratos onde se estabeleciam dúvidas sobre os efeitos adversos no futuro.

Persistiram assim contratos, persistiram compromissos, persistiu uma lógica de execução que pareceu sobrepor-se à prudência clínica. Isto não foi apenas imprudência; foi crime: ainda mais quando o então bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães – desejoso de um futuro político – engavetou um parecer desconfortável do presidente do Colégio de Especialidade de Pediatria, e incentivou os seus acólitos – com Filipe Froes à cabeça – para que apresentassem queixa para a abertura de um processo disciplinar ao médico ‘insurrecto’ Amil Dias.
Este comportamento de Guimarães, Froes & Ca. ficará para os anais da vergonhosa falta de coluna vertebral de um conjunto de médicos que se vergaram a interesses económicos e financeiros das farmacêuticas.
Entretanto, na quinta-feira passada, novamente o Nascer do Sol acentuou uma dissonância comprometedora: o presidente da Apifarma – a associação sectorial da indústria farmacêutica em Portugal – não se vacinou contra a covid-19 e recorreu preventivamente à ivermectina. Assumindo-se que era e é homem saudável, a atitu de não se vacinar foi, convém dizer, da mais elementar prudência, embora seja pena que João Almeida Lopes não tenha dito na altura a mais do que aos seus amigos e próximos. Isto porque, nos anos da pandemia, qualquer postura de considerar desnecessária a vacina – por haver imunidade forte em caso de doença prévia, mesmo se grave, como foi o meu caso – ou qualquer legítima hesitação era tratada como desvio cívico e qualquer alternativa terapêutica imediatamente catalogada como charlatanismo.

A forma como a imprensa mantém, já alguns anos após o fim da pandemia, não se trata de distracção editorial. Trata-se de uma escolha: evita-se reabrir o que foi encerrado à pressa, evita-se rever o que foi apresentado como indiscutível. Aliás, mesmo dentro do grupo mediático que alberga o Nascer do Sol, ou seja, Media Capital (dona da TVI e da CNN Portugal), a ausência de aprofundamento revela uma clivagem evidente entre publicar e investigar.
Mas pior do que isto é a manutenção de figuras sinistras no cenário mediático. Por exemplo, Filipe Froes, omnipresente no comentário público durante a pandemia, continua ainda agora, depois de todas as revelações, a desqualificar quem questiona e a reafirmar certezas que já não resistem intactas ao confronto com a realidade.
O padrão repete-se: simplificação agressiva do debate, rotulagem de críticos como ignorantes e defesa reiterada de determinadas soluções terapêuticas, num alinhamento demasiado conveniente com o universo das entidades com as quais manteve relações profissionais. Não se trata de um episódio isolado, mas de uma consistência. Ainda há uma semana na sua crónica no Diário de Notícias voltou à carga com a sua verve armada em argumento de autoridade, ou ainda com maior desfaçatez no seu mural do Facebook, onde impede comentários que o confrontem.

Convém, por isso, recuperar um momento recente para memória mediática. Em Março passado, o Tribunal de Lisboa absolveu-me de todas as acusações de difamação apresentadas por um conjunto alargado de queixosos, entre os quais Filipe Froes. Assim de memória, além das críticas éticas, chamei-lhe ‘lobbista’, ‘caixeiro-viajante’, ‘hipócrita’ e mais alguns mimos. Fui meigo. Nove audiências no Campus da Justiça de Lisboa permitiram confrontar versões, testar coerências e retirar o discurso do seu ambiente protegido. Não houve nenhuma mentira que me foi assacada e, nas próximas semanas, haverá novidades…
Nesse contexto, quero porém, antecipar um pormenor sobre como, neste julgamento, em que Froes era o ‘acusador’, o tiro lhe saiu pela culatra. A juíza não lhe permitiu o uso de falácias de autoridade e confrontou-o com a sua falta de argumentos em ambiente dócil. A sentença regista, aliás, um excerto que dispensa adornos:
“O facto a que alude a alínea n), resultou não provado, desde logo porque das declarações do assistente Filipe Froes não resulta nenhum destes estados de espírito, tendo tido um discurso que mais parecia de arguido do que de testemunha, afastando-se sistematicamente do objecto do processo, não respondendo a perguntas que para si fossem incómodas, tentando ocupar o seu tempo, a evidenciar o seu saber científico ao pormenor, apesar de instado a responder às perguntas que lhe iam sendo feitas. Insistiu muito em justificar as suas condutas.”

Ou seja, fora do seu circuito mediático que o acolhe (aqui e aqui, opara exemplos recentes) e apaparica, o discurso de Filipe Froes (e de muitos outros) revela outra consistência — ou, mais precisamente, a sua fragilidade.
Mas a responsabilidade não se esgota, por isso, na figura de Filipe Froes. Existe um sistema mediático que o legitima, o amplifica e o protege do confronto sério, permitindo que um discurso já confrontado com a realidade continue a circular com estatuto de autoridade.
Por isso, o jornalismo que evita o contraditório e abdica do confronto crítico deixa de escrutinar para passar a validar — e, nesse momento, abdica também da sua função. E esse jornalismo tem os dias contados se continuar a contar com pessoas como Filipe Froes.

As revelações recentes sobre a pandemia não podem já ser classificadas como marginais nem descartáveis: abriram uma fissura num discurso que durante anos foi apresentado como monolítico. Ignorá-las não é prudência, é recusa deliberada de revisão.
Por isso, espero que, neste ponto, se esteja a assistir aos últimos estertores de um delegado de propaganda médica — exposto não apenas pelas suas próprias contradições, mas pelo sistema que, durante demasiado tempo, insistiu em sustentá-lo. Ou é ele ou a imprensa que o sustenta — sustentada, por sua vez, na indústria farmacêutica.















































