A mobilidade tornou-se uma dessas palavras de luxo da política contemporânea. Surge em conferências, planos estratégicos, debates autárquicos, apresentações ministeriais e dossiers de propaganda institucional com a mesma insistência com que outrora se falava de modernização, inovação ou sustentabilidade.
Mobilidade, convenhamos, é uma palavra elegante. Como a resiliência para Montenegro. Sugere fluidez, inteligência urbana, eficiência, integração modal e cidades humanas. O Carlos Moedas anda sempre com a palavra no bolso. O ministro Pinto Luz em cada poro. É palavra que fica bem em qualquer lado e em discursos com gráficos coloridos.

Mas essa mobilidade de que falam os políticos raramente coincide com a mobilidade de quem vive a cidade.
A mobilidade do decisor político é, em regra, uma mobilidade de quatro rodas, com motorista, agenda protegida, percursos optimizados, acesso facilitado, estacionamento reservado e uma confortável imunidade à experiência ordinária do cidadão comum. Não há ministro do Ambiente, secretário de Estado das Infra-estruturas, vereador da Mobilidade ou presidente de câmara que organize a sua vida quotidiana em função da incerteza de saber se o próximo metro, autocarro, comboio ou barco chega em três minutos ou em meia hora.
Nenhum deles calcula se compensa apanhar um autocarro ou simplesmente caminhar. Nenhum deles organiza a sua pontualidade profissional em função da lotaria operacional da Carris, do Metro, da Transtejo ou da CP.

Falam eles de mobilidade como quem discursa sobre uma paisagem observada da varanda.
Quem vive cá em baixo conhece outra realidade.
Não sou utilizador intensivo de transportes públicos. Uso-os moderadamente. Insisto, aliás, em continuar a usá-los, até por uma convicção racional de que uma cidade funcional precisa de transporte colectivo eficiente. Mas essa convicção é testada com frequência quase masoquista. Muitas vezes, opto por ir a pé porque já sei, antes sequer de abrir uma aplicação, que andar será mais rápido, mais previsível e incomparavelmente menos irritante.
Uso Uber com alguma regularidade — provavelmente entre três e seis vezes por semana, conforme as necessidades. Se ando acompanhado chega até a ser mais económico do que os transportes público, o que é uma aberração económica e ambiental.

Uso esse transporte cada vez mais não por militância automóvel, não por snobismo, não por aversão ao transporte colectivo. Uso porque, demasiadas vezes, o transporte público em pleno centro devLisboa transformou-se numa garantia de irritação solene.
Dou um exemplo banal, exactamente por ser banal.
Hoje mesmo, vi-me perante um trajecto urbano de apenas 2,6 quilómetros. Distância curta para ser quase caricatural numa discussão sobre mobilidade moderna. O Google Maps indicava 36 minutos a pé de um ponto ao outro. Saí de casa na zona da Graça às 15h13. Desci a pé até ao Intendente para apanhar o metro. Ao chegar, perco por segundos a composição e descubro a habitual oferenda da gestão lisboeta da mobilidade: 12 minutos de espera pelo próximo comboio. Não três. Não quatro. Doze.
Doze minutos entre composições numa linha de metropolitano é coisa de ramal suburbano esquecido, não de metropolitano de uma capital europeia. Não estamos a falar de uma linha periférica, de uma ligação regional ou de um serviço residual de fim de noite. Estamos a falar do metropolitano da capital portuguesa, em pleno funcionamento diurno.

Uma espera destas não é um detalhe operacional; é um sintoma de degradação. Na verdade, uma vergonha.
Com a cronologia toda somada — deslocação até à estação, espera, embarque, percurso e chegada ao Cais do Sodré — cheguei às 15h50. Ou seja: 37 minutos. A pé, teria demorado 36.
O transporte público conseguiu, portanto, a façanha de ser mais lento do que caminhar.
Num trajecto de 2,6 quilómetros, o Metro de Lisboa ofereceu-me uma velocidade média efectiva de cerca de 4,2 km/h. A pé, teria feito 4,3 km/h.
Isto não é transporte rápido. Isto é uma caminhada burocratizada, com bilhete, escadas, validações e irritação incluída.

O drama urbano português é este: construiu-se uma retórica política de mobilidade sem se assegurar uma condição elementar — a superioridade funcional face à deslocação pedonal ou ao transporte individual.
A questão já nem é se o transporte público se apresenta mais lento do que o automóvel. Isso acontece em muitas cidades e mostra-se aceitável quando a diferença é equilibrada por custo, previsibilidade e cobertura. A questão é quando o transporte colectivo se torna inferior às próprias pernas do cidadão. Nesse momento, deixa de ser solução.
E o mais notável é a naturalização disto. Aceitamos frequências indignas num metropolitano urbano como se estivéssemos perante inevitabilidades geológicas. Aceitamos material circulante envelhecido, interrupções recorrentes, supressões mal explicadas, escadas rolantes paradas, elevadores avariados, degradação operacional e uma cultura institucional onde o utilizador é tratado como variável passiva.

Depois aparecem campanhas públicas a incentivar o abandono do automóvel. Mas porquê? E para quê?
Por consciência ecológica? Muito bem. Mas a consciência ecológica não substitui a racionalidade logística. O cidadão não organiza a vida para satisfazer narrativas governamentais. Organiza-a para chegar a horas, preservar sanidade mental e minimizar desperdício de tempo.
O verdadeiro problema da política pública portuguesa é este abismo entre discurso e experiência. A mobilidade consolidou-se como obsessão verbal de quem raramente depende dela.
Quem depende, adapta-se como pode: caminha, chama um Uber, resigna-se ou chega atrasado.

Talvez a solução fosse simples: durante seis meses, todos os governantes e administração política com responsabilidades na mobilidade urbana ficaria proibida de usar carro oficial, motorista ou estacionamento reservado. Usariam metro, autocarro, comboio suburbano, interfaces e deslocações reais, como qualquer cidadão. Não para teatro mediático de um dia. Para rotina.
Talvez então percebessem que aquilo a que chamam mobilidade é, demasiadas vezes, apenas imobilidade com comunicação institucional. E, aí sim, mudaria tudo.









































