Categoria: Editorial

  • Mobilidade no discurso, imobilidade para o cidadão

    Mobilidade no discurso, imobilidade para o cidadão


    A mobilidade tornou-se uma dessas palavras de luxo da política contemporânea. Surge em conferências, planos estratégicos, debates autárquicos, apresentações ministeriais e dossiers de propaganda institucional com a mesma insistência com que outrora se falava de modernização, inovação ou sustentabilidade.

    Mobilidade, convenhamos, é uma palavra elegante. Como a resiliência para Montenegro. Sugere fluidez, inteligência urbana, eficiência, integração modal e cidades humanas. O Carlos Moedas anda sempre com a palavra no bolso. O ministro Pinto Luz em cada poro. É palavra que fica bem em qualquer lado e em discursos com gráficos coloridos.

    Mas essa mobilidade de que falam os políticos raramente coincide com a mobilidade de quem vive a cidade.

    A mobilidade do decisor político é, em regra, uma mobilidade de quatro rodas, com motorista, agenda protegida, percursos optimizados, acesso facilitado, estacionamento reservado e uma confortável imunidade à experiência ordinária do cidadão comum. Não há ministro do Ambiente, secretário de Estado das Infra-estruturas, vereador da Mobilidade ou presidente de câmara que organize a sua vida quotidiana em função da incerteza de saber se o próximo metro, autocarro, comboio ou barco chega em três minutos ou em meia hora.

    Nenhum deles calcula se compensa apanhar um autocarro ou simplesmente caminhar. Nenhum deles organiza a sua pontualidade profissional em função da lotaria operacional da Carris, do Metro, da Transtejo ou da CP.

    Os passageiros podem esperar mais de 10 minutos numa estação do Metro de Lisboa. / Foto: PÁGINA UM

    Falam eles de mobilidade como quem discursa sobre uma paisagem observada da varanda.

    Quem vive cá em baixo conhece outra realidade.

    Não sou utilizador intensivo de transportes públicos. Uso-os moderadamente. Insisto, aliás, em continuar a usá-los, até por uma convicção racional de que uma cidade funcional precisa de transporte colectivo eficiente. Mas essa convicção é testada com frequência quase masoquista. Muitas vezes, opto por ir a pé porque já sei, antes sequer de abrir uma aplicação, que andar será mais rápido, mais previsível e incomparavelmente menos irritante.

    Uso Uber com alguma regularidade — provavelmente entre três e seis vezes por semana, conforme as necessidades. Se ando acompanhado chega até a ser mais económico do que os transportes público, o que é uma aberração económica e ambiental.

    Foto: PÁGINA UM

    Uso esse transporte cada vez mais não por militância automóvel, não por snobismo, não por aversão ao transporte colectivo. Uso porque, demasiadas vezes, o transporte público em pleno centro devLisboa transformou-se numa garantia de irritação solene.

    Dou um exemplo banal, exactamente por ser banal.

    Hoje mesmo, vi-me perante um trajecto urbano de apenas 2,6 quilómetros. Distância curta para ser quase caricatural numa discussão sobre mobilidade moderna. O Google Maps indicava 36 minutos a pé de um ponto ao outro. Saí de casa na zona da Graça às 15h13. Desci a pé até ao Intendente para apanhar o metro. Ao chegar, perco por segundos a composição e descubro a habitual oferenda da gestão lisboeta da mobilidade: 12 minutos de espera pelo próximo comboio. Não três. Não quatro. Doze.

    Doze minutos entre composições numa linha de metropolitano é coisa de ramal suburbano esquecido, não de metropolitano de uma capital europeia. Não estamos a falar de uma linha periférica, de uma ligação regional ou de um serviço residual de fim de noite. Estamos a falar do metropolitano da capital portuguesa, em pleno funcionamento diurno.

    No dia 17 de Maio, passageiros partilharam a existência de baratas numa composição de um comboio da Fertagus. As queixas sobre atrasos de comboios e cancelamentos são frequentes. / Foto: D.R. | Facebook

    Uma espera destas não é um detalhe operacional; é um sintoma de degradação. Na verdade, uma vergonha.

    Com a cronologia toda somada — deslocação até à estação, espera, embarque, percurso e chegada ao Cais do Sodré — cheguei às 15h50. Ou seja: 37 minutos. A pé, teria demorado 36.

    O transporte público conseguiu, portanto, a façanha de ser mais lento do que caminhar.

    Num trajecto de 2,6 quilómetros, o Metro de Lisboa ofereceu-me uma velocidade média efectiva de cerca de 4,2 km/h. A pé, teria feito 4,3 km/h.

    Isto não é transporte rápido. Isto é uma caminhada burocratizada, com bilhete, escadas, validações e irritação incluída.

    Foto: PÁGINA UM

    O drama urbano português é este: construiu-se uma retórica política de mobilidade sem se assegurar uma condição elementar — a superioridade funcional face à deslocação pedonal ou ao transporte individual.

    A questão já nem é se o transporte público se apresenta mais lento do que o automóvel. Isso acontece em muitas cidades e mostra-se aceitável quando a diferença é equilibrada por custo, previsibilidade e cobertura. A questão é quando o transporte colectivo se torna inferior às próprias pernas do cidadão. Nesse momento, deixa de ser solução.

    E o mais notável é a naturalização disto. Aceitamos frequências indignas num metropolitano urbano como se estivéssemos perante inevitabilidades geológicas. Aceitamos material circulante envelhecido, interrupções recorrentes, supressões mal explicadas, escadas rolantes paradas, elevadores avariados, degradação operacional e uma cultura institucional onde o utilizador é tratado como variável passiva.

    Um utente da linha de Cascais partilhou esta foto tirada ontem às 11h40, relatando que mesmo fora das horas de ponta, as carruagens vão cheias, devido aos horários praticados pela CP. / Foto: D.R.| Facebook

    Depois aparecem campanhas públicas a incentivar o abandono do automóvel. Mas porquê? E para quê?

    Por consciência ecológica? Muito bem. Mas a consciência ecológica não substitui a racionalidade logística. O cidadão não organiza a vida para satisfazer narrativas governamentais. Organiza-a para chegar a horas, preservar sanidade mental e minimizar desperdício de tempo.

    O verdadeiro problema da política pública portuguesa é este abismo entre discurso e experiência. A mobilidade consolidou-se como obsessão verbal de quem raramente depende dela.

    Quem depende, adapta-se como pode: caminha, chama um Uber, resigna-se ou chega atrasado.

    Foto: Soflusa

    Talvez a solução fosse simples: durante seis meses, todos os governantes e administração política com responsabilidades na mobilidade urbana ficaria proibida de usar carro oficial, motorista ou estacionamento reservado. Usariam metro, autocarro, comboio suburbano, interfaces e deslocações reais, como qualquer cidadão. Não para teatro mediático de um dia. Para rotina.

    Talvez então percebessem que aquilo a que chamam mobilidade é, demasiadas vezes, apenas imobilidade com comunicação institucional. E, aí sim, mudaria tudo.

  • 11 meses depois, a deputada Isabel Moreira mostra ser a virgem ofendida dos trinta dinheiros

    11 meses depois, a deputada Isabel Moreira mostra ser a virgem ofendida dos trinta dinheiros


    Numa democracia representativa, um político eleito não é apenas alguém que ocupa um cargo; é alguém a quem os cidadãos confiam, por mandato, uma parcela de representação, responsabilidade e palavra pública. Essa confiança não constitui licença comercial, nem activo patrimonial susceptível de exploração em mercados paralelos de opinião.

    Um deputado não é eleito para transformar notoriedade política em rendimento complementar, alugando a sua voz a operadores mediáticos ou sujeitando a sua intervenção pública a cláusulas contratuais de exclusividade, como se a opinião política fosse uma marca licenciável ou um direito televisivo transaccionável. A política, quando ainda preserva algum sentido republicano, constitui um serviço público e não uma intermediação remunerada da própria influência.

    Com uma complacência quase indecente, foi-se aceitando como normal aquilo que, visto de fora, deveria envergonhar qualquer democracia minimamente séria. Tornou-se banal ver políticos no activo, autarcas e deputados da República, dirigentes partidários e outras figuras com responsabilidade institucional transformarem-se em comentadores pagos, opinando sobre a actualidade que eles próprios ajudam ou ajudaram a construir, influenciar ou condicionar.

    Como se não bastasse essa promiscuidade estrutural entre poder político e espaço mediático, chegámos ao requinte degradante de ver como normal a existência de contratos de exclusividade, transformando representantes eleitos em activos cativos de operadores privados, como futebolistas em mercado de transferências ou mercadoria editorial com valor de grelha.

    O ‘denúncia’ da deputada socialista Isabel Moreira — que esta quinta-feira decidiu lamentar-se por ter tido um contrato remunerado de exclusividade com a CNN Portugal que a impedia de aceitar convites de outros canais, nomeadamente da SIC Notícias — tem a utilidade involuntária de uma confissão pública, involuntariamente vergonhosa.

    A política que, aos 50 anos conta 15 anos como deputada, queixa-se que deixou de ser chamada para comentar determinados temas na CNN Portugal e que não o pode fazer noutros canais ou na imprensa. Aparentemente, só veio à praça pública denunciar o ‘problema’ quando recebeu um e-mail a dispensá-la, e a cortar o rendimento, presume-se. Isto quando já não aparecia naquela canal desde Junho do ano passado. E então, sim, apresentou-se como vítima, quase silenciada, como se tivesse sido objecto de censura.

    Convém repor alguma ordem moral nesta opereta.

    Ninguém apontou uma arma à cabeça de Isabel Moreira quando assinou esse contrato de exclusividade. Ninguém a coagiu. Ninguém a obrigou a assinar um contrato restringindo a circulação da sua própria palavra política. Se tal tivesse acontecido, estaríamos perante matéria criminal e o contrato seria nulo. Não sendo esse o caso — e tudo indica que não é — estamos perante uma escolha livre, voluntária e remunerada.

    Ou seja: uma deputada da República aceitou dinheiro para limitar contratualmente a sua intervenção pública. E agora lamenta-se, cerca de 11 meses depois da sua última aparição na estação televisiva, quando a descartam.

    Não, minha senhora. A vítima aqui não é quem vendeu a exclusividade da própria voz política e depois descobriu que o comprador não a queria usar com a frequência desejada. A vítima é a democracia.

    Na verdade, Isabel Moreira interessa aqui apenas enquanto sintoma; o problema é muito maior do que a sua pessoa. Quantos políticos em Portugal vivem neste circuito? Quantos deputados, dirigentes partidários ou governantes mantêm relações económicas com órgãos de comunicação social (e também com entidades privadas), que, em teoria, deveriam escrutinar a sua actividade com independência? Quantos são simultaneamente actores políticos e activos editoriais? Quantos entram num estúdio não como cidadãos livres a intervir no debate público, mas como produto contratualizado, com avença, cachet e, em certos casos, exclusividade? Ou cuja própria dependência contratual cria incentivos subtis de autocensura, alinhamento ou prudência interessada?

    A palavra certa para este ecossistema, involuntariamente exposto por Isabel Moreira, nem sequer é apenas promiscuidade; é mercenarismo político.

    Aquilo que ela e muitos outros políticos vendem, em contratos de exclusividade, não é pensamento independente, nem erudição desinteressada, nem espírito crítico — comercializam capital político, notoriedade, influência e proximidade ao poder. Mercantilizam o reconhecimento público acumulado graças a um mandato representativo conferido pelos cidadãos. Em suma: alimentam um activo político construído com base em confiança democrática que depois convertem em rendimento privado.

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    Foto: Francesco Alberti.

    Os trinta dinheiros continuam a circular; apenas mudaram de forma, de moeda e de departamento financeiro. Judas, convenhamos, ao menos teve a frontalidade trágica da traição explícita. Aqui temos versões mais elegantes, com contratos redigidos por departamentos jurídicos, estúdios climatizados, maquilhagem profissional e linguagem higienizada sobre “pluralismo” e “debate”. Mas a lógica de fundo não é assim tão diferente: trocar um valor superior por proveito imediato.

    E não me venham com o argumento pueril da liberdade individual. Claro que qualquer pessoa é livre de assinar contratos. A questão nem é jurídica; é ética e democrática. Um deputado pode, em abstracto, aceitar contratos que remunerem a sua disponibilidade. Mas vender a exclusividade da sua palavra? A resposta, para qualquer pessoa com um mínimo de exigência republicana, deveria ser simples: não.

    Além disso, em que espécie de imprensa nos transformámos para considerar isto aceitável? Que independência resta quando o objecto de escrutínio passa a integrar a folha salarial? Como pode um jornalista confrontar com verdadeira distância crítica alguém que pertence ao mesmo ecossistema empresarial? Como pode um canal alegar independência editorial quando integra políticos em funções como activos regulares da sua programação?

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    Foto: Markus Spiske

    A imprensa existe para vigiar o poder, não para o contratar. Existe para fazer perguntas incómodas, não para oferecer avenças. Existe para escrutinar, não para acolher o escrutinado como talento da casa.

    Quando um canal integra um político activo no seu circuito remunerado, cria inevitavelmente proximidade, dependência e familiaridade. Mesmo que não haja favorecimento consciente, a percepção pública fica contaminada. E numa democracia, a confiança na independência das instituições é quase tão importante como a independência em si.

    Por isso, neste aspecto, a exclusividade de um político leva tudo isto a um patamar ainda mais obsceno. Já não estamos apenas perante políticos pagos para opinar; estamos perante representantes eleitos que aceitam restringir a circulação da sua própria palavra pública, através de um contrato.

    Última vez que Isabel Moreira esteve em estúdio na CNN Portugal, de acordo com o site da estação foi em Junho de 2025. Esperou cerca de 10 meses para denunciar a alegada censura, enquanto recebia o pecúlio. Foto: captura de ecrã da CNN portugal.

    Isso significa que a sua intervenção deixa de obedecer a critérios de interesse público, convicção política ou liberdade de expressão, passando a submeter-se a regras comerciais privadas.

    Traduzindo sem eufemismos: Isabel Moreira aceitou deixar de participar em toda a sua plenitude política porque existia uma cláusula contratual que a impedia. Haverá mais contratos? E ainda vem chorar para a praça pública?

  • Burla nas escolas: décadas de impunidade e um silêncio cúmplice

    Burla nas escolas: décadas de impunidade e um silêncio cúmplice


    Em Portugal, há ilegalidades que sobrevivem não pela sofisticação dos métodos usados, mas pela passividade das instituições que deveriam travá-las. O caso da Advance Station — e das múltiplas designações que tem usado ao longo dos anos, como Associação Internacional Lusófona para a Educação (AILE), Act Academy, Skills Gym, Instituto Unicenter ou Joviform — é um desses exemplos.

    Há pelo menos duas décadas que pais e professores relatam que a empresa usa as escolas para práticas comerciais agressivas e enganosas — e ilegais. O método usado é conhecido: entrada em escolas públicas através de apresentação de cursos, alegados inquéritos, rastreios ou avaliações; recolha de contactos de alunos e encarregados de educação; telefonemas a convocar pais para reuniões apresentadas como tendo ligação à escola; e, no final, pressão comercial para venda de cursos caros, frequentemente associados a contratos de longa duração.

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    Foto: DeltaWorks

    Apesar das denúncias acumuladas desde, pelo menos, 2006, apesar de processos judiciais e apesar de condenações relacionadas com práticas comerciais abusivas, a actividade continuou. E continua.

    Ainda no passado fim de semana, segundo informações recolhidas pelo PÁGINA UM, encarregados de educação de Ponte de Lima foram contactados a partir de dados obtidos em contexto escolar e “convocados” para reuniões realizadas num centro de explicações junto de uma escola onde a Advance Station já não pôde entrar depois de alertas feitos às direcções escolares pelo Ministério da Educação. Nessas “reuniões” apresentadas com tendo um propósito pedagógico, repetiu-se o padrão descrito ao longo dos anos: exploração das preocupações dos pais relativamente ao desempenho escolar dos filhos e venda agressiva de cursos de elevado custo.

    Quem actua desta forma há tantos anos fá-lo porque sabe que dificilmente enfrentará consequências sérias.

    João Dias é dono da Advance Station e apresenta-se como presidente da AILE, uma associação que usa o NIF de outra entidade e sobre a qual não se encontram quaisquer registos públicos ou órgãos sociais, além de um site. A sede da AILE é na mesma morada, em Lisboa, da empresa Advance Station. / Foto: D.R.

    Os números ajudam a perceber porquê. Só em 2024, a Advance Station facturou 1,6 milhões de euros na venda de formações. O modelo de negócio permanece lucrativo. E só permaneceu operacional ao longo dos anos porque demasiadas entidades públicas optaram pela indiferença, pela fragmentação de responsabilidades ou pela simples ausência de acção.

    A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) e a Direção-Geral do Consumidor sacodem a água do capote, apesar de se tratar de um caso grave de práticas comerciais desleais e de entre as vítimas haver famílias carenciadas e imigrantes que mal falam português. Mas, graças à ASAE e à DGC, a actividade da empresa prossegue sem perturbações.

    Também preocupante é o papel de entidades do sector educativo. A Inspeção-Geral da Educação e Ciência e a Direção-Geral da Educação foram alertadas para o funcionamento destas iniciativas ilegais em escolas públicas. Apesar disso, autorizações e permissões continuaram a existir durante anos para entrada de entidades associadas à Advance Station em estabelecimentos públicos de ensino.

    Na Escola Gil Vicente, em Lisboa, a Advance Station/AILE esteve a fazer inquéritos junto dos alunos na última semana de Abril. Na sequência das notícias do PÁGINA UM, a escola enviou um e-mail à AILE a indicar que deveria remeter os resultados dos inquéritos apenas à direcção escolar. Mas o mal estava feito: os inquéritos com os contactos de encarregados de educação já estavam na posse da Advance Station que agora os poderá usar como é habitual para vender os seus cursos. / Foto: PÁGINA UM

    Uma das entidades usadas para aceder às escolas — a alegada associação AILE — levanta sérias dúvidas quanto à sua existência formal e enquadramento institucional, já que não se encontram registos públicos sobre a sua constituição, órgãos sociais ou NIF. Sabe-se que tem utilizado o NIF de outra associação, o Núcleo para a Criatividade e Desenvolvimento de Competências, fundada aparentemente pelos pais do dono da Advance Station. Ainda assim, durante anos conseguiu apresentar-se em escolas públicas com aparência de legitimidade suficiente para recolher dados de alunos e encarregados de educação. Num site da DGE, consta que a AILE recebeu mesmo, por três vezes, desde 2014, autorização para realizar inquéritos em escolas públicas.

    Tudo isto expõe uma falha grave e estrutural do Estado. Não basta abrir investigações ocasionais ou reagir quando surgem denúncias públicas. O que está em causa é saber como foi possível, durante tantos anos, permitir que entidades privadas utilizassem o ambiente escolar — um espaço de confiança pública — como porta de entrada para operações comerciais abusivas e ilegais dirigidas a famílias. Já para não falar de funcionários da Advance Station e da suposta associação AILE terem tido contacto directo com alunos menores dentro das escolas. Quem são essas pessoas? Possuem antecedentes criminais? Nada se sabe.

    Quando o Estado falha na fiscalização, quando as autoridades se escondem atrás de burocracias e quando ninguém assume responsabilidades, cria-se um ambiente de impunidade. E a impunidade é o combustível perfeito para a repetição de ilegalidades.

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    O acumular de queixas e denúncias tem encontrado um muro burocrático e as autoridades competentes têm permitido que a cada semana surjam mais vítimas, algumas com carências económicas ou imigrantes com poucos conhecimentos da língua portuguesa e que pensam que é obrigatório pagar mais de 130 por mês à Advance Station para manter os filhos na escola pública.

    Mas este caso veio, sobretudo, abalar a confiança das famílias nas escolas e no Ministério da Educação. Afinal, quem controla o que se passa nas escolas? Quem verifica os acessos às escolas? E por que motivo o Ministério da Educação não actuou para travar as acções ilegais da Advance Station e das entidades a ela associada?

    Enquanto as autoridades competentes continuarem a assobiar para o lado, a racha que se abriu na confiança dos pais nas escolas e no Ministério da Educação continuará inevitavelmente a alargar-se. E mesmo que, finalmente, as práticas ilegais atribuídas à Advance Station venham a ser travadas de forma definitiva, permanecerá uma dúvida mais profunda: saber se essa brecha na confiança pública ainda terá reparação possível.

    Pode acompanhar todas as notícias sobre a burla nas escolas neste link.

  • A vacina da covid-19 e o hantavírus entram num bar…

    A vacina da covid-19 e o hantavírus entram num bar…

    A pandemia da covid-19 deixou uma herança paradoxal. Por um lado, expôs fragilidades graves na comunicação científica, no escrutínio mediático e até na transparência institucional em torno de decisões sanitárias de enorme impacto. Por outro, abriu espaço a um ruído tão intenso de especulação, simplificações grosseiras e teorias conspirativas que, por lamentável ironia, acabou por contaminar também críticas legítimas e perguntas sérias. O resultado tem sido um debate intoxicado, onde a exigência de rigor convive com absurdos que apenas servem para descredibilizar qualquer questionamento ponderado.

    O episódio recente em torno do hantavírus é um excelente mas grave exemplo dessa degradação do debate público. A partir da alegada presença da expressão “hantavirus” em documentação associada à farmacovigilância das vacinas contra a covid-19, rapidamente surgem insinuações de que uma vacina poderia “provocar hantavírus” ou “causar infecção por hantavírus”, como se estivéssemos perante uma espécie de geração espontânea virológica.

    Representação do hantavírus. Fonte: UKHSA.

    Para um crítico da narrativa mediática e da gestão política da pandemia – como sou – torna-se difícil não olhar para certos argumentos sem perplexidade. Uma reacção adversa a um medicamento ou a uma vacina não consiste na criação ex nihilo (a partir do nada) de um agente infeccioso inexistente no organismo. Uma vacina contra o SARS-CoV-2 não contém hantavírus, não transporta hantavírus, não produz hantavírus e não transforma biologicamente alguém num reservatório infeccioso de um vírus completamente distinto. Dito de forma simples: uma vacina pode, em tese, associar-se a determinados eventos biológicos, ms não cria um vírus onde ele não existe.

    Mesmo assim a crítica ao absurdo não dispensa rigor conceptual, porque há perguntas mais sofisticadas e cientificamente admissíveis. A primeira seria a hipótese de reactivação viral. Sabe-se que alguns vírus, como os herpesvírus, permanecem em latência no organismo e podem reemergir quando ocorrem alterações imunológicas relevantes. Por exemplo, o vírus varicela-zoster pode permanecer silencioso durante décadas e reaparecer sob a forma de zona; o Epstein-Barr e o citomegalovírus também têm mecanismos de persistência e eventual reactivação, sobretudo em contextos de imunossupressão ou perturbação imunitária. Nesses casos, discutir se uma infecção, uma doença, um tratamento ou mesmo uma resposta imunitária intensa pode alterar esse equilíbrio não é absolutamente nada irracional.

    Contudo, sucede que o hantavírus não se enquadra nesse modelo clássico. Trata-se de um vírus RNA zoonótico, transmitido sobretudo por contacto com excreções de roedores infectados. O modelo epidemiológico habitual é simples: exposição, incubação, infecção aguda, resolução ou, nos casos graves, evolução clínica severa. Não existe evidência robusta de que o hantavírus permaneça dormente no organismo humano à maneira dos herpesvírus, aguardando um momento oportuno para ressurgir. Falar de “reactivação de hantavírus” como hipótese geral revela, no mínimo, desconhecimento da biologia básica do agente infeccioso.

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    Foto: Johaehn

    A segunda hipótese, mais séria, é outra: uma alteração imunológica transitória que aumentasse susceptibilidade a determinada infecção. Aqui já entramos num terreno conceptualmente admissível, ainda que longe de conclusões apressadas. Qualquer estímulo imunológico intenso provoca reorganizações temporárias no sistema imunitário — redistribuição de linfócitos, alterações em perfis de citocinas, activação de respostas celulares, etc. Isso faz parte da fisiologia da imunidade. Mas daí a concluir que uma vacina cria vulnerabilidade clínica relevante a infecções oportunistas vai uma distância considerável. Em alguns contextos foram discutidos episódios de reactivação de vírus latentes, como herpes-zoster, mas extrapolar daí para uma vulnerabilidade generalizada ou para associações arbitrárias com agentes infecciosos raros é bastante imprudente.

    No caso específico dos hantavírus, a literatura mostra, aliás, algo importante: a exposição prévia não é irrelevante. Uma meta-análise recente estimou a seroprevalência global de anticorpos contra hantavírus em cerca de 2,9%, com variações geográficas — aproximadamente 2,4% nas Américas, 3% na Europa e valores mais elevados em certas regiões asiáticas. Isto significa que uma fracção não negligenciável da população mundial (cerca de 238 milhões de pessoas) já teve contacto prévio com estes vírus, muitas vezes de forma assintomática ou subclínica. Mas mesmo esse dado deve ser interpretado com prudência. Seropositividade não significa doença activa, nem muito menos que qualquer alteração imunológica passageira explique surtos específicos.

    Aliás, mesmo admitindo por hipótese académica que alguma alteração transitória da resposta imunitária pudesse aumentar susceptibilidade individual à manifestação clínica após exposição recente, isso continuaria muito longe de explicar surtos epidemiológicos ou de sustentar relações causais com campanhas vacinais. Para isso seriam necessários dados sólidos: séries clínicas consistentes, análises comparativas entre vacinados e não vacinados, plausibilidade temporal robusta, mecanismos imunológicos confirmáveis e exclusão de factores de confusão evidentes. Sem isso, estamos no domínio da especulação.

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    Foto: D.R.

    Aqui reside, portanto, um drama contemporâneo no debate científico e mediático. Nos últimos anos, quem levantava dúvidas legítimas sobre transparência regulatória, qualidade da evidência ou proporcionalidade de certas medidas sanitárias era frequentemente arrumado na prateleira do negacionismo pelos zelotas pandémicios – uma boa síntese feita por John Ioannidis para classificar quem, com preguiça intelectual, recusam o confronto científico. Porém, na verdade, proliferaram e continuam a proliferar teorias obtusas e interpretações pseudo-críticas que confundem farmacovigilância com causalidade provada, listagens técnicas com efeitos confirmados e hipóteses abstractas com factos demonstrados. Ambos os extremos empobrecem o debate.

    A ciência não precisa de fé nem de paranoia, mas sim de método, contexto e humildade epistemológica. Confundir crítica rigorosa com teorias conspirativas é mau. Mas deixar que teorias ou hipóteses absurdas contaminem críticas sérias talvez seja ainda pior, porque destrói o espaço onde a investigação racional deveria prosperar. Por isso, quando metem, no mesmo ‘bar’, hantavírus e vacinas covid, o cocktail que dali sai jamais será vantajoso para o apuramento da verdade.

  • Estará o jornalismo a disseminar ou a usurpar a ciência?

    Estará o jornalismo a disseminar ou a usurpar a ciência?

    Se há nomes na ciência que dispensam apresentações, não por ubiquidade mediática, mas por consistência intelectual, o norte-americano John P. A. Ioannidis está no topo. Epidemiologista de referência mundial, número 40 mundial em todas as áreas científicas, com um h-index no Scopus na ordem dos 268, tornou-se uma figura incontornável da meta-ciência — a disciplina que estuda a própria qualidade da investigação científica.

    O seu artigo “Why most published research findings are false” [“Porque a maioria dos resultados de investigação publicados são falsos”, em tradução livre], publicado em 2005, é hoje um dos textos científicos mais citados de sempre (15.697 vezes), não apenas pela provocação do título, mas pela solidez do argumento: a ciência, tal como é praticada, está sujeita a enviesamentos sistemáticos que comprometem a fiabilidade dos seus resultados.

    John Ioannidis. Foto: D.R.

    Durante a pandemia de COVID-19, Ioannidis voltou a ocupar um lugar central no debate científico e público, mesmo sob censura, por manter essa postura crítica: alertou para a fragilidade dos dados iniciais, questionou modelos preditivos, analisou a variabilidade do impacto entre países e denunciou a influência de pressões políticas e mediáticas sobre a produção e comunicação científica.

    Sou, por isso, um atento e respeitoso leitor dos seus trabalhos. Nos últimos anos, o PÁGINA UM deu eco de diversos dos seus trabalhos, onde a sua abordagem crítica — por vezes incómoda — à produção científica contemporânea se revelou pertinente.

    Foi, portanto, com redobrada atenção que li agora um novo texto seu, ainda em fase de revisão por pares, que me chamou a atenção desde o título: “Science journalism and advocacy: disseminating, facilitating, advocating, shaping, terrorizing, or usurping science?” [“Jornalismo científico e advocacia: disseminar, facilitar, defender, moldar, aterrorizar ou usurpar a ciência?”, em tradução livre].

    Foto: D.R.

    A pergunta não é retórica — pelo contrário, representa uma acusação em forma de tipologia. Ioannidis destaca que o jornalismo científico deixou de ser apenas um veículo de transmissão de conhecimento para se tornar, em muitos casos, um actor interveniente — e, no limite, intrusivo — no próprio processo científico. A distinção que estabelece é clara: há um jornalismo que dissemina e facilita a compreensão da ciência, e há outro que a molda, a condiciona e, por vezes, a substitui.

    O ponto mais desconfortável do artigo surge quando descreve os extremos dessa evolução. Num registo que dificilmente pode ser ignorado, Ioannidis admite que o jornalismo científico pode até “aterrorizar campos científicos”, criando um ambiente em que a dissidência é penalizada e o debate acaba comprimido. Mais do que isso: pode mesmo “usurpar” a ciência, ao impor narrativas antes de a evidência estar consolidada. Ou seja, a comunicação deixa de seguir a ciência — passa a precedê-la.

    Não se trata de uma crítica superficial. Ioannidis conhece demasiado bem os mecanismos internos da produção científica para cair em simplificações. Identifica, sim, uma alteração estrutural no ecossistema da ciência: a crescente intersecção entre jornalismo, activismo e política científica. Ora, quando estas esferas se sobrepõem sem transparência, o resultado não é uma ciência mais comunicada, mas uma ciência mais condicionada.

    Foto: D.R.

    O problema, como sempre, não está, portanto, apenas nas intenções, mas nos incentivos. O jornalismo alimenta-se da atenção, enquanto a ciência vive da validação. Por isso, quando a lógica mediática se impõe à lógica científica, a tentação de transformar hipóteses em certezas e incertezas em conclusões torna-se quase inevitável. E é nesse ponto que a crítica de Ioannidis ganha densidade: não se trata de denunciar excessos pontuais, mas de expor uma tendência sistémica.

    Há, nisto, um paradoxo que Ioannidis destaca: nunca houve tanta ciência disponível, nunca houve tantos jornalistas a escrevê-la e, no entanto, a qualidade da comunicação científica permanece desigual. Ioannidis sugere que o problema não é, assim, quantitativo, mas qualitativo: demasiada comunicação, com pouca distinção entre informar e persuadir. E, sobretudo, há uma crescente dificuldade em separar jornalismo de advocacia. E eu acrescentaria: de interesses comerciais.

    As soluções que propõe são, nesse sentido, quase clássicas: maior transparência, responsabilização dos autores, documentação rigorosa das fontes e primazia da evidência sobre a opinião. Mas o seu diagnóstico é tudo menos trivial. Ao colocar o jornalismo científico sob escrutínio, Ioannidis está, no fundo, a lembrar que a ciência não é apenas o que se produz em laboratórios — é também o que se constrói no espaço público.

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    Foto: D.R.

    E é aqui que o artigo se torna fulcral para quem escreve, lê e interpreta ciência. A questão nem sequer se coloca em saber se o jornalismo científico é necessário — isso mostra-se óbvio. A questão é saber até que ponto está a cumprir a sua função sem a ultrapassar ou até a deturpar. Quando a imprensa deixa de mediar para começar a determinar, quando deixa de explicar para passar a impor, o risco deixa de ser apenas informativo, passando a ser estrutural.

    Num tempo em que a ciência, sobretudo nos últimos anos, se tornou argumento político, matéria mediática e instrumento de decisão pública, a advertência de Ioannidis merece ser levada a sério. Não por ser cómoda, mas precisamente pelo contrário.

  • Senhor Presidente da República, veja os ‘métodos’ da ERC para nos dizer se há imprensa livre em Portugal

    Senhor Presidente da República, veja os ‘métodos’ da ERC para nos dizer se há imprensa livre em Portugal

    No espaço de vinte e quatro horas, ficámos a conhecer duas ideias de imprensa. A primeira foi proclamada por António José Seguro, que, com a solenidade própria dos discursos institucionais, lembrou que uma imprensa livre é contrapoder, incómoda por natureza, resistente à sedução do aplauso fácil e, sobretudo, independente. Seguro já foi ‘alvo’ de notícias do PÁGINA UM (aqui e aqui): quero presumir que as tenha levado como um acto de imprensa livre e incómoda.

    A segunda ideia chegou esta tarde sob a forma de uma deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC): a instauração de um processo de contra-ordenação ao Página Um. Entre a teoria e a prática, medeia apenas um dia — e um abismo.

    Helena Sousa, Pedro Correia Gonçalves, Carla Martins, Telmo Gonçalves e Rita Rola: a ERc em todo o seu esplendor. Foto: D.R.

    Vejamos a razão deste processo — o segundo no espaço de três meses. O PÁGINA UM publicou, como lhe foi imposto pelo regulador, um direito de resposta do director do Diário de Notícias, Filipe Alves, sobre uma notícia relativa às suas empresas Atlas Extrovertido e Parágrafo Mágico, conforme registos públicos no sistema aberto do Ministério da Justiça.

    E, como a própria Lei de Imprensa permite — não é tolerar ou sugerir: é permite (n.º 6 do artigo 26.º) —, acrescentei uma nota de direcção estritamente circunscrita à correcção de uma inexactidão factual: a comparação entre objectos sociais de empresas, que o autor do direito de resposta tratara com intencional viés.

    Nada mais. Nenhuma reescrita, nenhuma adulteração, nenhum expediente retórico para “subverter” o conteúdo alheio. Apenas o exercício, aliás previsto na lei, de apontar um erro de facto, convidando os leitores a seguirem os tais registos oficiais abertos do Ministério da Justiça e a consultarem tanto os objectos sociais da Atlas Extrovertido e da Parágrafo Mágico como o da Página Um.

    O PÁGINA UM escreveu esta nota de direcção a seguir a um direito de resposta, prevista no n.º 6 do artigo 26.º da Lei da Imprensa. A ERC quer aplicar uma coima entre 1.000 e 5.000 euros. Será esta a imprensa livre que o Presidente da República propugnou ontem?

    Porém, de uma forma enviesada, a ERC entende que essa nota — breve, factual e documentada — constitui uma subversão do direito de resposta. E entende-o ao mesmo tempo que censura o facto de nela se citar apenas um ponto da sua própria deliberação, sugerindo que se deveria citar mais. Ora, eis a contradição em estado puro: exige-se brevidade e, simultaneamente, extensão; critica-se a síntese por não ser exaustiva; pune-se a precisão por não ser redundante. Tudo isto quando a deliberação da ERC em causa estava integralmente disponível, acessível ao leitor, sem qualquer ocultação, em dois sítios.

    Mais grave ainda, na sua deliberação a ERC anuncia que me abriu um outro processo autónomo, porque revelei endereços dos sócios de empresas constituídas legalmente, e que constam por obrigação legal nos registos comerciais. Ou seja, vou ter um processo porque mostrei um pdf integral, sem rasuras, de um documento oficial constante de uma base de dados aberta do Ministério da Justiça. Se houver dúvidas sobre esta matéria, basta seguir este link e colocar, à vez. os seguintes NIF/NIPC: 516870297, 517350726 e 517350726.

    Se isto não fosse matéria séria, dir-se-ia que estamos perante um exercício de lógica recreativa. Mas não: trata-se de um processo sancionatório, o segundo em três meses, e com um terceiro a caminho, dirigido a um jornal que tem feito da documentação, da verificação e da exposição de factos a sua prática quotidiana.

    António José Seguro é o Presidente da República de um país que tem esta ERC a defender a liberdade de imprensa constitucionalmente consagrada. Foto: D.R.

    As fragilidades jurídicas destes processos da ERC são tais que dificilmente resistirão ao crivo de um tribunal administrativo. Mas o objectivo destes membros do Conselho Regulador não é, propriamente, ganhar em tribunal. O objectivo das senhoras Helena Sousa, Carla Martins e Rita Rola e dos senhores Pedro Correia Gonçalves e Telmo Gonçalves, circunstanciais e lamentáveis membros de um regulador criado para defender a liberdade de imprensa, é mais prosaico e mais eficaz: desgastar.

    Desgastar com processos, com notificações, com o tempo que se perde a responder ao que não deveria sequer ter sido levantado. Desgastar com a pressão administrativa que, não sendo censura formal, produz efeitos práticos de condicionamento. Desgastar com deliberações atrás de deliberações, como aquele ‘frete’ que fizeram ao almirante Gouveia e Melo, talvez para me verem condenado em tribunal. Saí absolvido, como se sabe.

    Esse padrão de actuação da ERC torna-se ainda mais nítido desde que o vice-presidente Pedro Correia Gonçalves foi exposto por uma situação prolongada de acumulação de funções incompatíveis com o estatuto de funcionário público, mantendo, durante anos, a gerência de uma empresa de consultadoria de que era proprietário. A reacção institucional não foi o esclarecimento transparente, mas o silêncio e, depois, a hostilidade administrativa.

    E, como se isso não bastasse, temos ainda uma recente derrota da ERC no Tribunal Central Administrativo do Sul que a vai obrigar a disponibilizar documentação que pretendia ocultar sobre negócios envolvendo a Global Notícias e a Notícias Ilimitadas e ainda as operações mediáticas ligadas à IURD — matéria que, por si só, justificaria um zelo regulatório que nunca se viu.

    Neste plano, a coincidência entre o discurso presidencial e a actuação do regulador deixa de ser apenas irónica para se tornar reveladora: a imprensa é exaltada como contrapoder — desde que não o exerça em excesso.

    Concedo que a minha leitura seja abusiva, que falar em perseguição ou selectividade é calúnia, que tudo não passa de aplicação neutra da lei. Mas há um ponto em que as palavras deixam de ter utilidade: quando os factos são demasiado evidentes para serem dissolvidos em retórica. E os factos são estes: um jornal cumpre uma imposição legal, acrescenta uma nota permitida por lei para corrigir uma inexactidão factual, cita a própria deliberação do regulador — e, por isso mesmo, vê-se alvo de um processo de contra-ordenação pelo regulador.

    man sitting on chair holding newspaper on fire
    Foto: Nijwam Swargiary

    Enquanto isso, acumulam-se os sinais de degradação: o descalabro da Trust in News, a crise mal explicada da Impresa e a sombria entrada de uma multinacional italiana, as transacções pouco ortodoxas entre a Global Notícias e a Notícias Ilimitadas, as promiscuidades entre jornalismo e marketing, e as ocultações — quer da averiguação da Spinumviva pela PGR, quer da identificação dos donativos aos partidos pela Entidade das Contas e Financiamentos Políticos, instaurando mesmo intimações incómodas nos tribunais administrativos para acesso à informação que deveria ser pública.

    Sobre tudo isto, a ERC nada diz. Prefere, sim, inventar processos de contra-ordenações ao jornal que se atreve a pegar nestes assuntos sem temor nem reverências. Yo no creo en brujas… pero que las hay, las hay. E também não creio que o Presidente da República — esse mesmo que defender a liberdade de imprensa é um acto de cidadania, que jamais deve aceitar que “uma voz jornalística se cala por medo, por impossibilidade económica ou por captura” — conheça os métodos desta ERC.

  • Aos fins-de-semana, as escolas do ministro Fernando Alexandre são antros para os mais torpes negócios

    Aos fins-de-semana, as escolas do ministro Fernando Alexandre são antros para os mais torpes negócios

    Ser político não visa ocupar um cargo público: é assumir uma responsabilidade. E governar não é administrar silêncio: é responder, decidir e agir — sobretudo quando aquilo que está em causa não é um detalhe burocrático, mas a integridade do espaço público e a protecção de cidadãos em situação de vulnerabilidade.
    Um governante digno desse nome, ainda mais sendo ministro da Educação, não se mede pela habilidade em evitar problemas, mas pela prontidão em enfrentá-los. E é precisamente aqui, nesse ponto essencial da função política, que Fernando Alexandre falha — não por ignorância, mas por inacção.

    Esta sexta-feira, o PÁGINA UM tentou, de forma insistente e documentada, obter uma resposta da assessoria de imprensa do Ministério da Educação sobre factos bastante graves do ponto de vista social e político. Fê-lo com base em factos e evidências, não em conjecturas ou insinuações. Enviou documentação detalhada à assessoria de comunicação de Fernando Alexandre que demonstra que escolas públicas estão a ser utilizadas como plataforma para um esquema comercial encapotado, assente numa pseudo-associação sem fins lucrativos, denominada Associação Internacional Lusófona para a Educação (AILE), que serve de fachada para práticas de venda agressiva. Silêncio absoluto. Nem uma palavra. Nem uma explicação. Nada.

    Fernando Alexandre com Luís Montenegro. Foto: D.R.

    Aquilo que está em causa é de uma gravidade que dispensa eufemismos, porque dilacera a confiança que a sociedade deve ter, até do ponto de vista simbólico, com a Escola Pública. Ora, em dezenas de escolas secundárias deste país — de norte a sul, continente e ilhas —, com o beneplácito do Ministério da Educação, alunos são submetidos a inquéritos em sala de aula, sob a capa de um alegado projecto educativo. Esses dados são depois utilizados por uma empresa para segmentar encarregados de educação, que são convocados para sessões realizadas ao fim-de-semana dentro das próprias escolas.

    E é aí que a máscara cai: entram em cena representantes de uma empresa privada que, com técnicas de marketing agressivo, pressionam pais — sempre na presença dos filhos, para colocar emocionalmente as famílias entre a espada e a parede — a assinar contratos, a ceder IBAN, a tomar decisões imediatas sob o pretexto de uma “oportunidade única”.

    Este método é indigno e repugnante, ainda mais feito entre paredes de escolas públicas, que se transformam em ‘mercados da banha da cobra’. Primeiro, enaltece-se a criança: o filho é especial, acima da média, potencialmente “superdotado”. Depois, instala-se a ansiedade: sem intervenção, esse potencial pode perder-se. Por fim, surge a solução — um curso online, inicialmente apresentado como tendo um custo elevado, mas que, graças a uma suposta “bolsa”, é reduzido para um valor ainda assim significativo. Tudo isto num ambiente controlado, emocionalmente condicionado, onde a presença dos filhos amplifica a pressão sobre os pais. Não se trata de educação. Trata-se de manipulação.

    Um ministro não tem de ter apenas pose, mas acção. Foto: D.R.

    Mais perturbador ainda é o cenário institucional que permite isto. A associação que serve de porta de entrada apresenta-se como entidade sem fins lucrativos, mas não exibe órgãos sociais, não apresenta relatórios, não tem histórico verificável, não responde a contactos. Nem sequer se encontra um número fiscal que prove a sua existência formal. Nada. Um vazio absoluto de transparência. E, no entanto, entra em escolas públicas com a invocação de autorização ministerial.

    A promiscuidade entre essa associação e a empresa que vende os cursos não é uma suspeita: é um facto documentado. Partilham morada. Partilham intervenientes. Partilham objectivo. A associação abre a porta; a empresa entra e factura. Tudo isto dentro de salas de aula, em instalações públicas, sem supervisão efectiva, sem controlo, sem responsabilização. E com a complacência — activa ou passiva, pouco importa — das direcções escolares e do Ministério da Educação.

    Dir-se-á, como sempre se diz nestes casos, que as escolas são apenas intermediárias. Que não têm responsabilidade sobre conteúdos ou execução. Que confiaram numa entidade “validada”. Mas essa linha de defesa não resiste ao mais elementar escrutínio: quem permite que o espaço escolar público seja utilizado tem o dever de saber para quê. E quem tutela esse espaço — o Ministério — tem o dever de garantir que não é instrumentalizado para fins comerciais disfarçados de pedagogia.

    Panfleto com venda de um curso apresentado aos pais que preencheram o inquérito da AILE distribuído nas escolas públicas. As sessões de venda, com métodos de marketing agressivo e enganador, realiza-se em salas de aulas de escolas públicas durante o fim-de-semana sem qualquer supervisão.

    Fernando Alexandre não pode alegar desconhecimento — foi informado, confrontado e instado a esclarecer. Escolheu não responder. E essa escolha — porque é disso que se trata — define-o politicamente. Não como vítima de circunstâncias, mas como agente de uma omissão. Num país onde se exige transparência aos cidadãos, onde se regulam, com aparente minúcia, as actividades privadas, torna-se inaceitável que o próprio Estado permita — ou ignore — a infiltração de práticas comerciais desta natureza no coração do sistema educativo.

    Enquanto o ministro descansa — legitimamente, dir-se-á — há escolas abertas ao fim-de-semana para acolher sessões de venda da ‘banha da cobra’ disfarçadas de orientação pedagógica. Enquanto o ministro gere a sua agenda política, há pais a serem pressionados, contratos a serem assinados, IBANs a serem cedidos, expectativas a serem exploradas. E tudo isto sob o selo implícito de uma autoridade pública que se demite de exercer controlo.

    Um ministro não é um espectador, nem um comentador tardio, nem um gestor de silêncios. Um ministro é responsável. E, por isso, quando o espaço público é capturado por interesses privados com métodos eticamente torpes, essa responsabilidade é inescapável.

    street signage
    Foto: D.R.

    Aquilo que se anda a passar nas escolas com supostos projectos educativos não é apenas uma falha administrativa. Mostra-se sobretudo como uma quebra de confiança, porque transforma a escola — que deveria ser um espaço de formação, de equidade e de protecção — num palco de exploração comercial dirigida a famílias. Fica-se perante a banalização de práticas que, fora daquele contexto, seriam imediatamente identificadas como abusivas.

    Tudo isto é, sobretudo, uma vergonha. E já nem tanto pela astúcia de quem vende, mas pela passividade de quem deveria impedir.

  • Os incêndios rurais e o ministro: o alerta de hoje serve para explicar o falhanço político de amanhã?

    Os incêndios rurais e o ministro: o alerta de hoje serve para explicar o falhanço político de amanhã?

    Luís Neves, ministro da Administração Interna decidiu avisar o país social e florestal, no dia 1 deste mês, que o Verão será “muito duro”, acrescentando três semanas depois que “vai ser terrível e pode ser muito difícil”. Estes alertas – ainda mais acompanhado de um apelo paternalista para os proprietários florestais (“façam a vossa parte”) e de (mais um) adiamento da reforma do sistema de protecção civil) – não são tanto um diagnóstico ou uma previsão mas um género literário consolidado da política portuguesa.

    Todos os anos são duros. Todos os anos são difíceis. E, curiosamente, os anos que não são catastróficos devem-no quase sempre ao facto de os anteriores já o terem sido, consumindo o combustível acumulado. Em matéria de incêndios rurais, Portugal vive numa espécie de continuidade trágica onde a excepção é a regra.

    Luís Neves em Janeiro de 2025 na Assembleia da República como director da Polícia Judiciária, mostrava sobriedade na comunicação. Foto: captura de ecrã.

    Nada disto surpreende. Nem deveria. Aquilo que merece atenção não é o conteúdo da mensagem, mas o seu propósito. Para que serve, afinal, anunciar com antecipação um cenário “terrível”? Para mobilizar o país? Para prevenir comportamentos de risco? Ou, mais prosaicamente, para construir desde já o enquadramento explicativo de um eventual fracasso? A resposta não está apenas nas palavras, mas no contexto em que são proferidas.

    Luís Neves não chegou à política como um neófito da comunicação institucional. Enquanto director da Polícia Judiciária, construiu uma imagem de sobriedade discursiva, evitando alarmismos e distinguindo, com alguma disciplina, entre percepção e realidade. Era, nesse domínio, um dos raros responsáveis públicos que compreendia o risco de amplificar medos sem correspondência nos dados. Hoje, no exercício de funções governativas, o registo altera-se. A prudência cede lugar à antecipação enfática. A contenção dá lugar à dramatização controlada. Não se trata de incoerência pessoal; trata-se de adaptação ao cargo.

    O poder executivo tem uma lógica própria. E essa lógica assenta, em larga medida, na gestão da responsabilidade futura. Ao declarar que o Verão será “vai ser terrível e pode ser muito difícil”, o ministro não descreve apenas um risco: delimita um campo de interpretação. Se os incêndios vierem a devastar o território, o aviso estava feito. Se, por circunstâncias meteorológicas favoráveis ou por simples aleatoriedade, a época for menos severa, o Governo poderá reivindicar mérito pela preparação antecipada. Em qualquer dos cenários, o discurso funciona como seguro político.

    Luís Neves, agora como ministro da Administração Interna, já amplifica cenários catastróficos para fugir já de responsabilidades. Foto: D.R.

    Entretanto, a realidade estrutural mantém-se intocada. O próprio ministro reconhece factores conjunturais agravantes — mais combustível disponível, árvores derrubadas pelas tempestades e caminhos obstruídos, embora isso esteja circunscrito á zona afectada pela tempestade Kristin — e apela à colaboração dos proprietários para a limpeza dos terrenos. Mas, no essencial, transfere-se, uma vez mais, para a esfera privada uma responsabilidade que é, em grande medida, consequência de décadas de ausência de política pública consistente. A fragmentação da propriedade, o abandono do mundo rural, a inexistência de gestão florestal integrada e a desarticulação institucional não são fenómenos meteorológicos. São escolhas — ou, mais frequentemente, a ausência delas.

    O detalhe mais revelador desta estratégia talvez nem esteja na retórica, mas na agenda. Perante um cenário que o próprio classifica como potencialmente “terrível”, o Governo opta por adiar a reforma da Protecção Civil para Outubro, isto é, para depois da época crítica de incêndios. A decisão invoca uma racionalidade operacional — evitar mudanças no período mais sensível —, mas expõe um paradoxo evidente: a estrutura que reconhecidamente necessita de reforma permanece inalterada precisamente quando o risco atinge o seu ponto máximo.

    A imagem é quase grotescamente simples: anuncia-se que seguimos num carro sem travões, em direcção a uma descida perigosa, mas decide-se não mexer no sistema de travagem porque não há tempo para ir ao mecânico. O arranjo fica para depois — para quando? Para depois da queda? Para o Outono, talvez. Ou, mais provavelmente, para um calendário sempre deslocado: chega Outubro, depois Novembro, depois Dezembro; surge um novo ano, seguem-se Janeiro e Fevereiro, e rapidamente estaremos outra vez à porta de mais um Verão, com a mesma reforma por fazer e a mesma urgência por adiar.

    Foto: D.R.

    É assim que a política se transforma num exercício de perpetuação do provisório: reconhece-se o problema, adia-se a solução e, no intervalo, constrói-se um discurso que prepara o terreno para explicar por que razão, mais uma vez, nada mudou. Este padrão repete-se com notável consistência ao longo dos anos. A política florestal portuguesa vive de reacções e não de antecipação estrutural. A cada ciclo de incêndios, multiplicam-se relatórios, comissões e promessas de reforma. A cada Inverno, surgem novos diagnósticos sobre a necessidade de limpar, ordenar, gerir. E a cada Primavera, regressa o apelo à responsabilidade individual, como se o problema pudesse ser resolvido pela soma de decisões dispersas de milhares de proprietários, muitos deles ausentes, envelhecidos ou sem capacidade financeira para intervir.

    A narrativa dominante procura, de um modo invariável, um elemento externo que funcione como explicação agregadora: o calor extremo, a seca prolongada, o vento imprevisível e, hélas, as “alterações climáticas”. Nenhum destes factores é irrelevante. Mas nenhum deles explica, por si só, a dimensão recorrente das tragédias. Países com condições climáticas semelhantes ou até mais adversas não registam, ano após ano, a mesma magnitude de área ardida. A diferença está na organização do território, na gestão do combustível, na estrutura fundiária e na continuidade das políticas públicas.

    Ao insistir numa retórica de excepcionalidade — “ano difícil”, “ano muito duro”, “Verão terrível” —, o poder político dilui a percepção de responsabilidade estrutural. Se todos os anos são excepcionais, então nenhum é verdadeiramente anómalo. E, nesse cenário, a repetição do desastre deixa de ser interpretada como falha sistémica para passar a ser vista como fatalidade inevitável. Apenas é uma forma subtil, mas eficaz, de normalizar o anormal.

    Área ardida em hectares desde 2001. O ano de 20025 foi o quarto pior do século e o pior desde 2017. Fonte: ICNF.

    A questão central não é, portanto, saber se o próximo Verão será duro, terrível ou o que o dicionário quiser. A questão é saber por que razão continua a sê-lo, década após década, com variações marginais. E, sobretudo, por que razão o discurso político, agora de Luís Neves, permanece ancorado na gestão do risco imediato em vez de enfrentar, com continuidade e consistência, as causas profundas do problema.

    Portugal não precisa de mais avisos sobre Verões difíceis. Precisa de menos Verões difíceis. E essa diferença não se faz com adjectivos, por mais enfáticos que sejam, mas com política pública efectiva, persistente e mensurável. Enquanto essa mudança não ocorrer, cada novo “alerta” será apenas mais uma peça de um guião antigo, onde o final já é conhecido.

  • Trust in News: é possível uma directora financeira deixar falir uma empresa de media e depois ir gerir fundos públicos? Claro que sim…

    Trust in News: é possível uma directora financeira deixar falir uma empresa de media e depois ir gerir fundos públicos? Claro que sim…

    No Tribunal de Sintra, de forma discreta mas indelével, tem decorrido o julgamento, como epílogo, de uma empresa de media mal gerida — mas que se mostra, sobretudo, como o retrato de um sistema mediático que escolheu, deliberadamente, não se olhar ao espelho.

    Desde 2023, o PÁGINA UM alertou, com dados concretos e persistência documental, para a situação financeira absolutamente calamitosa da Trust in News, dona de cerca de uma dezena e meia de títulos, com destaque para a revista Visão. Fê-lo quando poucos queriam ouvir. Fê-lo quando o silêncio era mais confortável do que a confrontação. E fê-lo, também, quando destapi o véu de um dos processos mais obscuros e rocambolescos da história recente da imprensa portuguesa: a (suposta) venda por 10,5 milhões de euros de um portefólio relevante de revistas da Impresa — pertencente à família Francisco Pinto Balsemão — a uma empresa de Luís Delgado com um capital social de apenas 10 mil euros.

    Foto: D.R.

    A desproporção entre o valor da transacção e a estrutura financeira do comprador não era apenas um detalhe curioso: era um sinal de alarme. Um de muitos. No PÁGINA UM já se denunciava em 2023 um passivo crescente, com dívidas ao Estado na ordem de muitos milhões e, sobretudo, uma engenharia financeira que levantava dúvidas sérias quanto à transparência das contas. Em particular, destacava-se uma rubrica onde figuravam mais de 10 milhões de euros na rubrica “outras contas a receber” — uma categoria contabilística que, como se tem vindo a confirma em tribunal, serviu para inflacionar artificialmente resultados e ocultar prejuízos estruturais.

    Aquilo que era suspeita está a tornar-se prova. Aquilo que era indício está a tornar-se num testemunho da falibilidade do jornalismo até a verificar o seu edifício – e a manter-se com um comportamento de avestruz.

    No julgamento em curso à gerência da Trust in News, tem sido exposto um padrão reiterado de registos contabilísticos sem suporte documental, incluindo receitas futuras fictícias ou não comprovadas, utilizadas para “transparecer” uma realidade financeira que nunca existia. Dora Rodrigues, então directora financeira, confirmou em tribunal que tais lançamentos eram feitos por indicação da gerência, admitindo a existência de ordens verbais para registar valores sem documentação que os sustentasse. Não era meia dúzia de tostões. Eram milhões de euros que, simplesmente, nunca existiram.

    Luís Delgado, gerente e proprietário único da Trust in News: um investimento de 10 mil euros que terminou em dívidas de mais de 30 milhões de euros. Foto: D.R.

    Mais: esses mecanismos permitiram à empresa apresentar lucros fictícios sucessivos enquanto, na verdade, acumulava prejuízos e dívidas superiores a 30 milhões de euros, incluindo mais de 15 milhões ao Estado.

    Este não foi apenas um caso de má gestão – foi um caso de construção deliberada de uma realidade paralela.

    E, no entanto, perante a gravidade do colapso de uma empresa que detinha mais de uma dezena de títulos — entre os quais a emblemática Visão —, a imprensa portuguesa generalista tem optado pelo silêncio. Nem a Lusa, nem o Expresso, nem o Público, nem o Diário de Notícias, nem qualquer televisão, está a acompanhar este julgamento que expõe práticas que deveriam alarmar qualquer redacção minimamente consciente da sua função.

    Este silêncio não é neutro: é uma escolha editorial.

    E essa escolha revela um problema mais profundo: a incapacidade — ou falta de vontade — da comunicação social em escrutinar o seu próprio sector. Num momento em que a credibilidade dos media enfrenta um desgaste crescente junto da sociedade, este fechamento corporativo não só agrava a desconfiança como a legitima.

    Foto: D.R.

    Mas talvez o elemento mais perturbador de todo este processo não resida apenas no passado da Trust in News, mas no presente de alguns dos seus protagonistas. Por exemplo, Dora Rodrigues, directora financeira durante os anos em que se registaram estes lançamentos contabilísticos de milhões sem suporte documental — e que, no mínimo, teve responsabilidade operacional directa sobre essas práticas — transitou de imediato, após o colapso, para funções no Estado, integrando a Estrutura de Missão Recuperar Portugal, responsável pela gestão de fundos do PRR.

    A questão que se impõe já nem sequer é, neste caso, jurídica — essa será dirimida nos tribunais. A questão é política, institucional e ética. Como é possível que alguém que esteve no centro de um sistema contabilístico que, segundo o próprio tribunal está a apurar, terá servido para mascarar prejuízos e iludir credores, trabalhadores e reguladores, passe a gerir fundos públicos?

    Como é possível que não exista, sequer, um escrutínio público sério sobre estas transições? Como é possível que o Estado absorva quadros provenientes de contextos de falência e suspeita sem uma avaliação rigorosa do seu percurso?

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    Foto: Tingey Injury Law Firm

    A resposta, infelizmente, é simples: porque ninguém pergunta. E quando ninguém pergunta, tudo passa.

    O caso Trust in News não é um acidente isolado – é um sintoma. Um sintoma de um sistema onde a promiscuidade entre sectores, a opacidade dos negócios e a ausência de escrutínio interno criam as condições ideais para que o colapso não seja apenas possível — mas previsível.

  • Sequelas das vacinas covid-19 nos jovens: após a reportagem da CMTV, não será tempo da imprensa pedir desculpas?

    Sequelas das vacinas covid-19 nos jovens: após a reportagem da CMTV, não será tempo da imprensa pedir desculpas?

    A reportagem exibida ontem pela CMTV sobre jovens com sequelas graves após a vacinação contra a covid-19 não trouxe, em rigor, uma revelação substantiva. Trouxe, isso sim, rostos, nomes e histórias concretas àquilo que, desde 2021 e 2022, já constava — ainda que de forma fragmentada e muitas vezes desvalorizada — nos sistemas de farmacovigilância e em bases de dados nacionais e europeias, incluindo o Infarmed e a Agência Europeia de Medicamentos, com valores preocupantes. Não é, portanto, a existência de efeitos adversos que surpreende nem o desprezo do Governo português sobre essas vítimas. Aquilo que surpreende, e inquieta, é tudo o resto.

    Aliás, desde cedo que o PÁGINA UM procurou, com insistência, aceder aos dados completos da farmacovigilância, identificar padrões, quantificar ocorrências e, sobretudo, perceber se existia — ou não — um acompanhamento sistemático dos casos sinalizados. Começámos em finais de 2021. Essa persistência esbarrou, demasiadas vezes, em opacidade institucional, respostas evasivas e um silêncio administrativo que, sendo já preocupante em tempos normais, se torna ainda mais grave quando está em causa uma intervenção médica massiva numa população saudável, incluindo jovens e menores.

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    Foto: Iván Díaz

    Mesmo depois de um acórdão do Tribunal Central Administrativo do Sul, em Julho de 2024, ter concedido o direito ao PÁGINA UM de aceder à base de dados do Portal RAM, um senhor de seu nome Rui Santo Ivo, presidente do Infarmed e promovido a líder da Agência Europeia do Medicamento (por certo — e isto é a minha opinião — mais pelos bons serviços à indústria farmacêutica do que pela defesa da saúde comunitária), tudo tem feito para sonegar dados integrais. Corre neste momento um novo processo (incidente de inexecução de sentença), desde Julho do ano passado, para que lhe seja aplicada uma multa diária e se termine com o seu obscurantismo.

    Em todo este processo, o PÁGINA UM esteve sozinho. Não houve sequer uma notícia sobre esta luta judicial nem sobre os diversos trabalhos de investigação sobre esta temática. E essa falta de pressão mediática, por inércia e desinteresse da generalidade dos órgãos de comunicação social de maior dimensão, concede ao Infarmed uma percepção de impunidade, Não dão informação nem querem saber.

    Assim, a reportagem da CMTV limita-se, em boa verdade, a corporizar aquilo que os números já sugeriam, embora com a grande virtude de alcançar algo que os relatórios estatísticos nunca conseguem alcançar: devolve humanidade ao problema. E era precisamente aqui que o jornalismo deveria ter começado — não terminado.

    Reportagem da CMTV apresentou três casos pessoais de jovens afectados por reacções adversas das vacinas contra a covid-19.

    Porém, mais perturbadora do que a ausência de novidade factual é a memória, ainda recente, do comportamento generalizado da comunicação social durante a pandemia. Em particular, na forma como foram tratados — ou melhor, desqualificados — os alertas vindos de uma minoria de médicos que, bem ou mal, com coragem (porque em Portugal havia um “ajudante de Torquemada” em funções de bastonário da Ordem dos Médicos), levantavam dúvidas legítimas sobre a vacinação de jovens saudáveis.

    Isto por uma razão muito simples: até à data não tinha morrido qualquer menor saudável por covid-19. Vacinar quando ainda por cima existia uma elevada incerteza seria, no mínimo, uma imprudência: qualquer morte ou sequela desequilibraria a balança.

    Neste aspecto, o caso do médico Diogo Cabrita (que já escreveu para o PÁGINA UM) é paradigmático. Em 2021, protagonizou uma iniciativa pública de sensibilização, através de uma caminhada que intitulou “Marcha pelas Crianças”, defendendo prudência na administração de vacinas a grupos de baixo risco. A resposta mediática foi, em muitos casos, não a análise crítica dos seus argumentos, mas a sua redução a um rótulo.

    Um dos casos mais dramáticos apresenta o relato de uma enfermeira que confessou ter sentido a pressão social para que o filho, afectado por reacções adversas bastante graves, fosse vacinado.

    Por exemplo, a revista Sábado — do mesmo grupo da CMTV, a Medialivre —, numa peça de 16 de Outubro de 2021, não se limitou a noticiar a abertura de um processo disciplinar pela Ordem dos Médicos — liderada então pelo tal “ajudante de Torquemada” — como reiterou, de forma insistente, a designação de “negacionista”. Cinco vezes, no mesmo texto. Não como citação contextualizada, mas como carimbo editorial. Não como hipótese interpretativa, mas como sentença.

    Este tipo de prática, repetitiva ao longo da pandemia, não foi jornalismo — foi rotulagem. Tinha como único fito sujar de lama alguém que contestasse, mesmo se usasse argumentos racionais. E a rotulagem, em contexto de incerteza científica — que era, à data, inegável —, transforma-se num mecanismo de ostracização que empobrece o debate público e condiciona a própria evolução do conhecimento. Porque a ciência não avança por unanimidade mediática, mas por confronto de hipóteses, validação empírica e revisão contínua.

    A questão nunca foi — nem deve ser — saber se Diogo Cabrita tinha razão em tudo aquilo que dizia. A questão é saber se os jornalistas (e houve alguns ‘arautos justiceiros’) cumpriram a sua função: escrutinar, contextualizar, questionar, sem substituir a análise pela adjetivação.

    Notícia de Setembro de 2021 não assinada da Sábado que usa a palavra negacionista para catalogar o médico Diogo Cabrita.

    E aqui, a resposta, olhando para trás, é desconfortável. Tanto mais que, em abono da verdade, Diogo Cabrita acabaria com todas as acusações arquivadas pela Ordem dos Médicos e continua a ser um excelente médico do SNS. Os jornalistas que o acusaram, esses, continuam a achar-se bom jornalistas — algo que somente a ausência de consciência dos actos e a falta de escrúpulos lhes permite nessa auto-avaliação.

    Eu próprio, e o PÁGINA UM, fomos ‘alvos’ da própria empresa nesta tentativa de descredibilização por parte de directores de órgãos de comunicação social que envergonharam os princípios do jornalismo. Basta recordar a atitude da CNN Portugal, através de um (suposto) jornalista (Henrique Magalhães Claudino), que, poucos dias depois do nascimento do PÁGINA UM, fez uma ultrajante notícia intitulada “Covid-19: dados confidenciais de crianças internadas em UCI partilhados em página negacionista” – e isto porque se revelara o cenário real (com dados anonimizados) do reduzido impacte da doença em crianças (dos 5 aos 11 anos): no primeiro ano da pandemia, num grupo que envolvia mais de 600 mil pessoas, contabilizam-se zero mortes e uma taxa de hospitalização que rondariaos 0,5% dos infectados.

    Note-se que não havia qualquer falta de rigor do PÁGINA UM nem sequer qualquer irregularidade ética (os dados estavam anonimizados), mas a CNN Portugal (e outros media que seguram uma narrativa ‘fabricada’ pela Ordem dos Médicos para descredibilizar o PÁGINA UM) criaram um alegado facto rotulando um jornalista. E nem a alegada queixa para a Comissão Nacional de Protecção de Dados alguma vez existiu. Era pura lama.

    Notícia do Público, fazendo eco da CNN Portugal: imprensa generalista participou activamente em conspurcar quem se oponha à vacinação de menores contra a covid-19. Valeu tudo.

    Nestes tempos, o Público ainda se portou pior, porque insistiu mesmo na recusa de um direito de resposta, e até alegou, numa providência cautelar que perdeu, que “a omissão do nome da página do Facebook ou do jornal que a alimenta foi uma decisão deliberada da Direcção Editorial do jornal PÚBLICO e da editora da secção da Sociedade que, com sentido de responsabilidade, não quiseram dar publicidade à publicação que, manifestamente, tinha tomado posições claramente atentatórias contra a necessidade de se criar consenso social em favor da vacinação, algo que o jornal assumiu e defendeu desde a primeira hora”.

    A pandemia colocou os media perante um dilema complexo: informar sem alarmar, promover a adesão a políticas públicas sem abdicar do espírito crítico. Falharam nestes dois planos básicos: alarmaram e abdicaram do espírito crítico. E pior ainda: optaram alegremente por uma terceira via — a da adesão acrítica, revestida de uma linguagem moralizante que dividia o espaço público entre “responsáveis” e “negacionistas”. Essa dicotomia, útil para simplificar narrativas, foi profundamente nociva para o rigor informativo.

    Hoje, quando surgem reportagens que dão corpo a efeitos adversos — reais, embora se deva averiguar, obrigando o Infarmed a mostrar dados, a sua prevalência sem aldrabices —, a reacção dominante não é a de aprofundamento, mas de silêncio ou desconforto sobre os comportamentos passados de muitas direcções editoriais e de muitos jornalistas. Como se reconhecer a complexidade do tema implicasse admitir falhas passadas. E talvez implique.

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    Foto: CDC

    Não se trata de reescrever a História nem de alimentar narrativas conspirativas. Trata-se de recentrar a reflexão sobre as funções do jornalismo que se perderam na pandemia: olhar para os factos, mesmo quando são incómodos, e interrogar o seu próprio desempenho. Perguntar se houve excesso de zelo, falta de contraditório, dependência excessiva de fontes institucionais. Perguntar se, em nome de uma causa considerada justa, se sacrificou a dúvida legítima.

    Na verdade, se a reportagem da CMTV tiver algum mérito duradouro, não será o de revelar o desconhecido. Será o de obrigar a comunicação social a fazer aquilo que raramente faz: olhar para si própria com o mesmo rigor com que diz olhar para os outros. Porque, no fim, a credibilidade do jornalismo não se mede apenas pela exactidão do que publica, mas pela forma como lida com aquilo que preferia não ter publicado assim.

    Por isso, ainda tenho esperança de que a CMTV e tantos outros órgãos de comunicação social assumam que falharam na cobertura noticiosa da pandemia. E corrijam o erro por duas vias: emitam um pedido de desculpas e, em simultâneo, façam pressão sobre as autoridades para revelarem informação integral, algo que só o PÁGINA UM anda a fazer desde 2021.