Ser político não visa ocupar um cargo público: é assumir uma responsabilidade. E governar não é administrar silêncio: é responder, decidir e agir — sobretudo quando aquilo que está em causa não é um detalhe burocrático, mas a integridade do espaço público e a protecção de cidadãos em situação de vulnerabilidade.
Um governante digno desse nome, ainda mais sendo ministro da Educação, não se mede pela habilidade em evitar problemas, mas pela prontidão em enfrentá-los. E é precisamente aqui, nesse ponto essencial da função política, que Fernando Alexandre falha — não por ignorância, mas por inacção.
Esta sexta-feira, o PÁGINA UM tentou, de forma insistente e documentada, obter uma resposta da assessoria de imprensa do Ministério da Educação sobre factos bastante graves do ponto de vista social e político. Fê-lo com base em factos e evidências, não em conjecturas ou insinuações. Enviou documentação detalhada à assessoria de comunicação de Fernando Alexandre que demonstra que escolas públicas estão a ser utilizadas como plataforma para um esquema comercial encapotado, assente numa pseudo-associação sem fins lucrativos, denominada Associação Internacional Lusófona para a Educação (AILE), que serve de fachada para práticas de venda agressiva. Silêncio absoluto. Nem uma palavra. Nem uma explicação. Nada.

Aquilo que está em causa é de uma gravidade que dispensa eufemismos, porque dilacera a confiança que a sociedade deve ter, até do ponto de vista simbólico, com a Escola Pública. Ora, em dezenas de escolas secundárias deste país — de norte a sul, continente e ilhas —, com o beneplácito do Ministério da Educação, alunos são submetidos a inquéritos em sala de aula, sob a capa de um alegado projecto educativo. Esses dados são depois utilizados por uma empresa para segmentar encarregados de educação, que são convocados para sessões realizadas ao fim-de-semana dentro das próprias escolas.
E é aí que a máscara cai: entram em cena representantes de uma empresa privada que, com técnicas de marketing agressivo, pressionam pais — sempre na presença dos filhos, para colocar emocionalmente as famílias entre a espada e a parede — a assinar contratos, a ceder IBAN, a tomar decisões imediatas sob o pretexto de uma “oportunidade única”.
Este método é indigno e repugnante, ainda mais feito entre paredes de escolas públicas, que se transformam em ‘mercados da banha da cobra’. Primeiro, enaltece-se a criança: o filho é especial, acima da média, potencialmente “superdotado”. Depois, instala-se a ansiedade: sem intervenção, esse potencial pode perder-se. Por fim, surge a solução — um curso online, inicialmente apresentado como tendo um custo elevado, mas que, graças a uma suposta “bolsa”, é reduzido para um valor ainda assim significativo. Tudo isto num ambiente controlado, emocionalmente condicionado, onde a presença dos filhos amplifica a pressão sobre os pais. Não se trata de educação. Trata-se de manipulação.

Mais perturbador ainda é o cenário institucional que permite isto. A associação que serve de porta de entrada apresenta-se como entidade sem fins lucrativos, mas não exibe órgãos sociais, não apresenta relatórios, não tem histórico verificável, não responde a contactos. Nem sequer se encontra um número fiscal que prove a sua existência formal. Nada. Um vazio absoluto de transparência. E, no entanto, entra em escolas públicas com a invocação de autorização ministerial.
A promiscuidade entre essa associação e a empresa que vende os cursos não é uma suspeita: é um facto documentado. Partilham morada. Partilham intervenientes. Partilham objectivo. A associação abre a porta; a empresa entra e factura. Tudo isto dentro de salas de aula, em instalações públicas, sem supervisão efectiva, sem controlo, sem responsabilização. E com a complacência — activa ou passiva, pouco importa — das direcções escolares e do Ministério da Educação.
Dir-se-á, como sempre se diz nestes casos, que as escolas são apenas intermediárias. Que não têm responsabilidade sobre conteúdos ou execução. Que confiaram numa entidade “validada”. Mas essa linha de defesa não resiste ao mais elementar escrutínio: quem permite que o espaço escolar público seja utilizado tem o dever de saber para quê. E quem tutela esse espaço — o Ministério — tem o dever de garantir que não é instrumentalizado para fins comerciais disfarçados de pedagogia.

Fernando Alexandre não pode alegar desconhecimento — foi informado, confrontado e instado a esclarecer. Escolheu não responder. E essa escolha — porque é disso que se trata — define-o politicamente. Não como vítima de circunstâncias, mas como agente de uma omissão. Num país onde se exige transparência aos cidadãos, onde se regulam, com aparente minúcia, as actividades privadas, torna-se inaceitável que o próprio Estado permita — ou ignore — a infiltração de práticas comerciais desta natureza no coração do sistema educativo.
Enquanto o ministro descansa — legitimamente, dir-se-á — há escolas abertas ao fim-de-semana para acolher sessões de venda da ‘banha da cobra’ disfarçadas de orientação pedagógica. Enquanto o ministro gere a sua agenda política, há pais a serem pressionados, contratos a serem assinados, IBANs a serem cedidos, expectativas a serem exploradas. E tudo isto sob o selo implícito de uma autoridade pública que se demite de exercer controlo.
Um ministro não é um espectador, nem um comentador tardio, nem um gestor de silêncios. Um ministro é responsável. E, por isso, quando o espaço público é capturado por interesses privados com métodos eticamente torpes, essa responsabilidade é inescapável.

Aquilo que se anda a passar nas escolas com supostos projectos educativos não é apenas uma falha administrativa. Mostra-se sobretudo como uma quebra de confiança, porque transforma a escola — que deveria ser um espaço de formação, de equidade e de protecção — num palco de exploração comercial dirigida a famílias. Fica-se perante a banalização de práticas que, fora daquele contexto, seriam imediatamente identificadas como abusivas.
Tudo isto é, sobretudo, uma vergonha. E já nem tanto pela astúcia de quem vende, mas pela passividade de quem deveria impedir.













































