Nos últimos meses, tem sido amplamente celebrada — e em parte com razão — a abnegação de uma dúzia de jornalistas que, sem recursos, em teletrabalho, sem salários regulares, continuaram a produzir a revista Visão a partir de casa, mantendo o título vivo enquanto se aguarda um veredicto sobre o seu futuro.
Esse esforço foi elevado quase a um hino cívico: jornalistas despojados, mas dignos, fiéis à missão e resistentes num deserto empresarial. A isso somou-se um crowdfunding liderado pelos próprios jornalistas, sob a direcção de Rui Tavares Guedes, com sucesso assinalável — até hoje foram angariados 263.311 euros provenientes de cerca de 6.100 doadores — e com o apoio entusiástico de múltiplas figuras públicas, para tentar salvar a marca que deverá ir a leilão no próximo mês, no contexto da insolvência da massa falida da Trust in News, permitindo, ao menos em teoria, compensar parcialmente os credores.

Convém, porém, suspender por um instante o aplauso e perguntar: o que é que está realmente a acontecer aqui?
Os credores não são uma abstração. Entre eles estão a Segurança Social, a Autoridade Tributária, jornalistas, fornecedores e outros lesados. E no centro do descalabro está a Trust News, empresa que em 2018 adquiriu cerca de uma dezena e meia de títulos à Impresa, controlada pela família Balsemão, que então já apresentava dificuldades financeiras em manter essas publicações.
A Trust in News ‘caiu do céu’ para salvar o imbróglio da família Balsemão, e foi criada pelo antigo jornalista Luís Delgado com um capital social de apenas 10 mil euros. Pouco tempo depois, começaram os incumprimentos em cadeia, as dívidas ao Estado, os salários em atraso, até que o passivo conhecido atingiu valores na ordem dos 31 milhões de euros — e isto sem que as contas de 2024 tenham sequer sido apresentadas, o que por si só já diz muito. Há sinais fortes de fraude, engenharia financeira, há opacidade estrutural, há um rasto de destruição que não pode ser explicado apenas com a palavra mágica “crise”.

Este desastre não aconteceu por acaso. Foi protagonizado por Luís Delgado e foi permitido pelo Estado e pelo Governo — sobretudo pelo Governo socialista — que assistiram durante anos, com uma passividade cúmplice, a um dos maiores colapsos da imprensa portuguesa recente. Mais grave ainda: Luís Delgado e outros gerentes têm já condenações judiciais e execuções fiscais em curso, tornando todo o enredo ainda mais pesado do ponto de vista ético e institucional.
E é aqui que o caso deixa de ser apenas trágico para se tornar verdadeiramente obsceno.
Porque, apesar de todo este quadro, apesar de os jornalistas da Visão, e o seu director Rui Tavares Guedes, afirmarem ser vítimas de uma má gestão; apesar de a empresa estar falida; apesar de não se saber sequer, hoje, quem responde juridicamente pela Visão nem como é paga a produção da revista – eis a surpresa obscena: Luís Delgado continua a ser cronista regular da Visão, e não me parece que seja ao arrepio da vontade do seu director editorial, Rui Tavares Guedes. Este ano já escreveu nove artigos publicados na edição online, o mais recente na segunda-feira passada.

Isto não é um detalhe. É o nó central da história.
Não se pode, ao mesmo tempo, apresentar-se como vítima e manter como voz legitimada e publicada, o principal responsável pelo desastre. Não se pode pedir solidariedade pública, donativos, compreensão moral, apelos a perdões do Estado, enquanto se oferece espaço editorial a quem conduziu o navio ao fundo e deixou uma montanha de dívidas ao Estado, aos trabalhadores e ao sector. Não se pode invocar a ética do jornalismo e normalizar esta promiscuidade como se fosse um pormenor secundário.
Algo está muito mal contado na história da revista Visão. Muito mesmo.
Neste momento, a revista parece existir num limbo jurídico e financeiro: sem empresa claramente responsável, sem transparência sobre os fluxos que permitem a sua produção, sem respostas claras a perguntas elementares. E, perante isto, a indulgência acrítica não ajuda o jornalismo – só o descredibiliza.

A tolerância cega, mesmo quando movida por boas intenções, transforma-se em cumplicidade. E o jornalismo, se quer sobreviver com dignidade, não pode aceitar dormir com o lobo enquanto se apresenta ao público como uma ovelha que luta para não ser sacrificada.
É duro dizê-lo. Mas é ainda mais duro fingir que não se vê. Os jornalistas da Visão que permanecem a bordo — e, sobretudo, o seu director, Rui Tavares Guedes — perderam a noção do limite. Se é verdade que quem não quer ser lobo não lhe veste a pele, neste caso impõe-se uma máxima ainda mais justa: quem quer parecer ovelha, para colher condescendência pública, não pode então dormir com o lobo.
