Durante semanas — para não dizer meses — o espaço público português foi inundado por sondagens, tracking polls, “barómetros” diários e projecções que se pretendiam científicas, mas que acabaram por revelar outra coisa: um sistema inteiro a falhar em bloco. Não falhar por um ou dois pontos, não falhar pontualmente, mas falhar de forma sistemática, previsível e sempre no mesmo sentido. A eleição presidencial confirmou aquilo que já era evidente para quem não confunde números com oráculos: as sondagens deixaram de medir a realidade para passar a condicioná-la.
Os resultados definitivos são claros: 66,8% para António José Seguro, 33,2% para André Ventura. Uma vitória confortável, inequívoca e politicamente relevante. Mas muito distante da narrativa construída até à exaustão pelas sondagens e, sobretudo, pelas projecções à boca das urnas, que apontavam para resultados entre os 68% e os 73%, com insinuações reiteradas de um “resultado histórico” capaz de ultrapassar Mário Soares. Nada disso aconteceu. E não aconteceu porque nunca esteve verdadeiramente nos dados — esteve apenas na expectativa que se quis criar.

A gravidade deste falhanço não pode ser relativizada com o argumento, recorrente mas estatisticamente iletrado, de que “se errou por pouco”. Sempre que uma projecção à boca das urnas — que não é uma sondagem típica mas já uma medição comportamental que deveria reduzir a incerteza e aproximar a estimativa do resultados real — é apresentada sob a forma de intervalo, existe necessariamente uma estimativa central. Esye ‘ponto médio’ corresponde ao valor mais provável do modelo; é o intervalo é apenas a sua margem de incerteza, por vezes generosa.
Ora, recorde-se, então, o que foi dito no início da noite eleitoral após o fecho integral das urnas: das três projecções distintas, de entidades diferentes, apresentadas como independentes, todas sobrestimaram Seguro e subestimaram Ventura.
Mesmo assim, a Intercampus — responsável pela projecção para a CMTV, Now e Jornal de Negócios — pode considerar-se que acertou no intervalo de incerteza estimado, que se situava entre 66,8% e 71,8% para Seguro, mesmo se o ponto médio era de 69,3%, traduzindo um erro de cerca de +2,5 pontos percentuais face ao resultado real. [leia a nota de direcção no final do texto]
Muito pior esteve o consórcio ICS/ISCTE-GfK-Pitágórica — que trabalhou para a SIC, SIC Notícias, TVI e CNN — indicava 67% a 71,4%, com um ponto médio de 69,2% e um erro de +2,8 pontos; e a Universidade Católica Portuguesa — que realizou a projecção para a RTP — avançava com um intervalo entre 68% e 73%, cujo ponto médio, 70,5%, falhou por +4,1 pontos.

O resultado real, de 66,8% para Seguro e 33,2% para Ventura, ficou fora de dois dos três intervalos estimados, sendo que um acerta marginalmente (para um intervalo implícito de erro de ±2,5%).
Convém salientar que, para projecções à boca das urnas, um intervalo implícito de ±2,5% fica claramente acima dos benchmarks internacionais, onde é comum trabalhar-se entre ±1% e ±2%, descendo ainda mais à medida que a noite avança e entram calibrações com resultados reais.
Do ponto de vista técnico, este erro de ±2,5% significa que se usou uma uma amostra efectiva de apenas cerca de 1.500 inquiridos (assumindo p≈0,5 e IC≈95%), um número modesto para um exit poll nacional, sobretudo quando segmentado por regiões, idade e sexo — o que reduz drasticamente a amostra útil por estrato.

Um intervalo desta dimensão não traduz prudência estatística, mas, na verdade, uma grande fragilidade metodológica. E esta pode resultar de uma amostra curta ou mal estratificada, de níveis elevados de não-resposta corrigidos à pressa com ponderações agressivas, ou de um viés sistemático que o próprio intervalo tenta acomodar. Ou seja, em qualquer cenário, alargar a margem de incerteza não resolve o problema: apenas o disfarça — e mal.
No limite do absurdo, se um órgão de comunicação social quisesse garantir que nunca falha uma projecção num confronto entre dois candidatos, bastar-lhe-ia ouvir quatro pessoas num universo de 10,9 milhões de eleitores: assumindo os pressupostos estatísticos habituais (intervalo de confiança de 95%, proporção no pior caso p = 0,5 e amostragem aleatória simples), seria então possível apresentar uma projecção “seguríssima”, atribuindo 50% a cada candidato, com uma margem de erro próxima dos 49% — formalmente defensável, mas de uma absoluta inutilidade informativa.
Mas o problema não começou nesta noite eleitoral nem nestas eleições presidenciais. Começou muito antes, com as chamadas tracking polls, esse produto patético que passou a ser apresentado como acompanhamento científico do “sentimento do país”, quando não passa de uma sucessão de micro-amostras instáveis, metodologicamente frágeis e altamente sensíveis a enviesamentos sociais. Sondagens diárias, semanais, quase horárias, usadas não para informar, mas para criar climas de inevitabilidade, de vitória esmagadora, de consenso moral.

A isso somou-se um fenómeno ainda mais corrosivo: o condicionamento social explícito. Quem não votava em Seguro era tratado, em muitos espaços mediáticos, como um problema a corrigir.
Houve censura, crítica moral, desqualificação pública e uma pressão simbólica constante para alinhar com o “lado certo da História”. Isto não é neutro. Isto afecta respostas em sondagens. Isto produz o chamado efeito de desejabilidade social, em que o inquirido responde aquilo que sente ser socialmente aceitável — não aquilo que efectivamente vota.
O resultado foi um eleitorado de Ventura sistematicamente sub-medido. Não porque não existisse, mas porque foi empurrado para a invisibilidade estatística. Quando esse mesmo viés atravessa todo o ecossistema — das sondagens pré-eleitorais às projecções à boca das urnas — o problema deixa de ser técnico e passa a ser estrutural.

Do ponto de vista da ciência estatística, aquilo a que assistimos é grave. Porque a estatística vive de uma coisa simples: confiança pública.
Quando os números falham repetidamente, quando os intervalos de confiança são usados como ferramentas narrativas e não como limites prudentes, quando o topo do intervalo é apresentado como destino provável e não como hipótese extrema, o resultado é inevitável: a estatística passa a ser percebida como adivinhação. Ou pior, como manipulação.
Isto é profundamente lamentável. Não porque as sondagens tenham de acertar sempre — não têm. Mas porque não podem errar sempre do mesmo lado sem consequências. Cada erro deste tipo fragiliza a credibilidade das medições futuras, alimenta o cinismo dos eleitores e contribui para a degradação do debate democrático. Uma democracia saudável precisa de informação rigorosa, não de climas fabricados. Precisa de números que iluminem a realidade, não que a distorçam.

António José Seguro venceu com clareza. Não precisava de sondagens inflacionadas para o legitimar. Quem precisava delas era o próprio sistema mediático, preso à lógica do espectáculo, da inevitabilidade e da pedagogia moral disfarçada de ciência.
Se a estatística continuar a ser usada de forma alegre, irresponsável e acrítica, o dano será duradouro. Não para um candidato ou outro, mas para a própria ideia de que os números servem para compreender o país — e não para o conduzir pela mão. E isso, sim, é um mau serviço à democracia.
N.D. 10/2/2026 – Originalmente, o editorial referia que “a Intercampus — responsável pela projecção para a CMTV, Now e Jornal de Negócios — apontava para 69,3% a 71,8% para Seguro, o que implica um ponto médio de 70,6%, traduzindo um erro de +4,2 pontos percentuais face ao resultado real”. Ora, esta referência tinha sido retirada de uma notícia do Público [ver aqui], mas que se revelou falsa. Na verdade, o intervalo da projecção da Intercampus para António José Seguro estava compreendida entre 66,8% e 71,8%, conforme se pode observar aqui, o que considerando o resultado provisório de 66,82% deve concluir-se que acertou, mesmo se por uma ‘unha negra’ do limite inferior do intervalo. Embora por um erro involuntário, e decorrente da informação do Público, um pedido de desculpas à Intercampus e aos órgãos de comunicação social da Medialivre.














































