Categoria: Editorial

  • A parolice do ano: o jornal ECO premiou o CEO da Impresa como Gestor do Ano

    A parolice do ano: o jornal ECO premiou o CEO da Impresa como Gestor do Ano


    A crise da imprensa não é apenas uma crise de receitas, nem sequer começa por sê-lo. Antes de chegar às contas, aos despedimentos, às audiências, aos subsídios, às parcerias, aos patrocínios e aos expedientes de sobrevivência, começa por uma coisa mais simples e mais grave: uma crise de exigência.

    Exigência perante o jornalismo, que deixou demasiadas vezes de se medir pela independência, pela investigação e pela capacidade de incomodar, para passar a medir-se pela docilidade, pela circulação nos salões certos e pela facilidade com que se confunde proximidade com relevância.

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    Foto: Glenn Carstens-Peters

    Mas também exigência perante a gestão das empresas de media, onde se foi aceitando como normal aquilo que em qualquer outro sector seria visto como sinal de falência estratégica: negócios cronicamente endividados, redacções emagrecidas, produtos editoriais desvalorizados, dependência crescente do Estado, promiscuidade com marcas, fóruns, conferências, patrocínios e parcerias que transformam o jornalismo numa extensão cerimonial do mercado e do poder.

    Nesse contexto, a atribuição pelo jornal ECO do prémio de Gestor do Ano a Francisco Pedro Balsemão, CEO da Impresa desde 2016, é mais do que discutível: é, a todos os títulos, absurda.

    Não porque a Impresa não tenha melhorado alguns indicadores em 2025. Melhorou, mas teria sido difícil igualar os 64 milhões de prejuízos de 2024.

    Regressou, é certo, a um lucro, mas simbólico, com uma reducão ligeira da dívida (quatro milhões de euros, que representou um de acréscimo de apenas 3.1%) e aumentou o EBITDA recorrente em cerca de 3,7 milhões de euros.

    Leitão Amaro: nada melhor do que festejar a imprensa portuguesa com a presença do membro do Governo que ‘tutela’ a comunicação social… Foto: captura de ecrã de noticiário da SIC.

    Mas distinguir como gestor do ano o responsável executivo de uma empresa que, ao fim de quase uma década de liderança, apresenta receitas estagnadas, dívida remunerada líquida de 126,9 milhões de euros e resultados financeiros negativos de 11,1 milhões é transformar a fasquia da excelência numa linha pintada no chão.

    A Impresa não é uma história de gestão exemplar; é uma história de sobrevivência condicionada. O lucro de 1,2 milhões de euros em 2025, apresentado como regresso triunfal, representa menos de 1% das receitas.

    A dívida continua a comer uma parte substancial da capacidade operacional do grupo. O balanço permanece pesado. O goodwill (que é ‘fumo’ para mais tarde dar origem a imparidades) pesa mais do dobro do capital próprio. E a própria continuidade das operações é justificada, nas contas, com referência a cash-flow esperado, plafonds de crédito, linhas renováveis e aumento de capital posterior.

    O Gestor do Ano do Eco a falar para a sua própria televisão… Foto: captura de ecrã de noticiário da SIC.

    Isto não parece nada o retrato de um capitão de indústria a abrir mares novos; é mais a imagem de alguém a manter o navio à tona depois de o ter deixado navegar demasiados anos com água no porão.

    Na verdade, a Impresa só não foi ainda ao fundo porque acabará por ser adquirida pela MFE, a multinacional italiana controlada pela família Berlusconi.

    O aspecto mais grotesco do prémio atribuído pelo ECO, porém, não está apenas nas contas. Está na perda completa da noção do ridículo. Um jornal económico atribuir o prémio de Gestor do Ano ao líder de um grupo de media familiar, estruturalmente endividado, com receitas praticamente paradas e resultados líquidos anémicos, diz muito sobre o estado do jornalismo económico em Portugal.

    A exigência desapareceu até dos prémios. Já não se distingue a criação de valor; distingue-se a resistência ao colapso. Já não se celebra a excelência; celebra-se o facto de a empresa ainda respirar.

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    Foto: Nijwam Swargiary

    E talvez seja esse o retrato mais cruel da imprensa portuguesa: um sector que pede confiança aos leitores enquanto se habituou a viver de expedientes; que proclama independência enquanto se aproxima demasiado do Estado (o ministro Leitão Amaro esteve na entrega do prémio a botar faladura), das grandes empresas e dos seus próprios pares; que se queixa da crise do jornalismo enquanto aceita transformar o jornalismo numa mercadoria de prestígio para vender em conferências, rankings, prémios e jantares.

    Quando a exigência desce ao ponto de fazer de Francisco Pedro Balsemão o Gestor do Ano, o problema já não é apenas da Impresa. É do próprio jornalismo que aplaude.

  • O Instituto Nacional de Estatística ‘não sabe contar, yo’

    O Instituto Nacional de Estatística ‘não sabe contar, yo’


    Tantas vezes repetida que acabou por perder a força, há ainda assim uma frase que sintetiza um princípio elementar da política: quem não mede não governa. A realidade, porém, é ainda mais severa. Quem não mede governa às cegas. Quem mede mal governa pior. E quem mede a realidade com instrumentos desajustados acaba, inevitavelmente, por fabricar políticas erradas para problemas mal compreendidos.

    As estatísticas não são uma curiosidade académica. Não são uma colecção de tabelas destinadas a preencher relatórios anuais ou a ornamentar conferências de imprensa. Constituem a matéria-prima da decisão pública. Não existe política séria sem quantificação, tal como não existe planeamento hospitalar sem números fiáveis. Não existe política de habitação sem conhecer a população, nem gestão escolar sem saber quantas crianças existem. Não existe sequer democracia funcional quando o Estado desconhece a sociedade que administra.

    Foto: D.R.

    Portugal, infelizmente, nunca desenvolveu uma verdadeira cultura estatística. Multiplicam-se os especialistas que debitam percentagens sem perceberem verdadeiramente aquilo de que estão a falar. Confundem indicadores com conclusões, repetem gráficos como quem recita poesia decorada, mas são incapazes de interpretar uma série temporal, compreender uma quebra metodológica ou identificar os limites de um indicador. Decorar números nunca foi o mesmo que compreender a realidade.

    Quem trabalha regularmente com dados conhece as fragilidades crónicas do Instituto Nacional de Estatística (INE). Raramente é simples encontrar séries longas, consistentes e comparáveis ao longo do tempo. Quadros desaparecem, indicadores mudam de definição, variáveis deixam de existir, séries são interrompidas sem continuidade, critérios metodológicos alteram-se sem que seja assegurada uma verdadeira ponte entre o antes e o depois. O investigador transforma-se num arqueólogo estatístico, obrigado a reconstruir aquilo que deveria encontrar organizado.

    Na saúde, na economia, no ambiente, na habitação, na emigração e na imigração, em quase todos os sectores, estes problemas assumem, muitas vezes, contornos caricatos. Agregações pouco transparentes, alterações sucessivas de classificações, documentação insuficiente e critérios que mudam sem explicação dificultam aquilo que deveria ser elementar: conhecer o país através de informação consistente.

    Mas nada disto se compara ao verdadeiro escândalo que agora ficou exposto.

    Foto: Sede do Instituto Nacional de Estatística. Fonte: D.R.

    Durante os últimos anos, Portugal viveu uma transformação demográfica sem precedentes. A imigração alterou profundamente a composição da população residente. Alterou a procura de habitação, pressionou escolas, hospitais, centros de saúde, transportes, segurança social e mercado de trabalho. Alterou todos os indicadores relevantes para quem governa.

    E, no entanto, o Estado continuou a trabalhar sobre uma fotografia profundamente desfocada. O próprio INE acabou por reconhecer, na semana passada, que as estimativas da população residente entre 2021 e 2024 estavam erradas, não em milhares ou dezenas de milhares de pessoas, mas em mais de 600 mil. Em vez de cerca de 10,7 milhões de habitantes, Portugal deveria ter contado, em 2024, cerca de 11,4 milhões. Uma diferença desta dimensão só pode ser entendida à luz da incapacidade de captar atempadamente a verdadeira escala da imigração.

    Além da revisão da população, esse desvio obrigará a recalibrar múltiplas operações estatísticas, incluindo o Inquérito ao Emprego, componentes das Contas Nacionais e diversos indicadores por habitante. Não estamos perante uma pequena correcção técnica. Estamos perante o reconhecimento de que uma parte importante da arquitectura estatística do Estado assentou, nos últimos anos, sobre estimativas que afinal estavam erradas.

    A pergunta impõe-se: como foi isto possível?

    Vivemos numa Administração Pública, que deveria estar imunes aos interesses politiqueiros dos Governos que a lideram, onde existem registos administrativos, dados fiscais e de segurança social, Serviço Nacional de Saúde, autorizações de residência, certificados de residência, múltiplas bases de dados públicas e um grau de digitalização incomparavelmente superior ao de há vinte anos. Mesmo assim, Portugal não incorporou essa informação na produção estatística oficial. Só agora o fez – e serviu para demonstrar um desastre: o INE não soube contar.

    As consequências são devastadoras. Durante quatro anos produziram-se estudos, elaboraram-se políticas públicas, fizeram-se previsões económicas e discutiram-se estratégias de habitação, emprego, saúde, educação e integração de imigrantes com base numa população que, afinal, não correspondia à realidade.

    Nenhum país sério pode aceitar isto com um simples encolher de ombros.

    O INE existe para cumprir uma missão simples na formulação, mas extraordinariamente exigente na prática: medir a realidade tal como ela é, e não tal como convém que pareça. A independência estatística não constitui um ornamento institucional nem uma garantia protocolar para relatórios internacionais; é uma condição elementar da democracia e da própria racionalidade do Estado.

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    Foto: Sven Mieke

    Ora, nos últimos anos, a direcção do INE e os técnicos responsáveis pela produção estatística acabaram por pactuar, por acção ou omissão, com a retórica humanitária através da qual os governos socialistas procuraram apresentar a abertura desordenada à imigração. Mantiveram durante demasiado tempo uma metodologia incapaz de captar a dimensão real do fenómeno, apesar de existirem instrumentos administrativos que poderiam e deveriam ter sido mobilizados mais cedo para obter estimativas muito mais próximas da realidade.

    Independentemente das consequências produzidas por quatro anos de maus dados estatísticos, tornou-se entretanto evidente que, durante meia década, se alimentou uma narrativa destinada a esconder uma política bem menos nobre. A imigração massiva serviu quase só para reforçar a Segurança Social (sem sequer pensar nos efeitos a longo prazo) com novos contribuintes: jovens, mal pagos, frágeis na relação laboral e, muitas vezes, sem capacidade efectiva de reivindicação. Não se tratou, em larga medida, de acolher e integrar; tratou-se de importar mão-de-obra barata, suficientemente precária para trabalhar, contribuir e não perturbar demasiado o equilíbrio de um modelo económico assente em salários baixos.

    A integração cultural, a habitação, a pressão sobre os serviços públicos e a dimensão efectiva do fluxo migratório foram remetidas para o rodapé da narrativa, como se reconhecer estes problemas constituísse uma manifestação de desumanidade. Pelo contrário: desumano foi trazer centenas de milhares de pessoas para um país sem lhes assegurar condições dignas de habitação, integração, estabilidade laboral ou participação plena na comunidade que as recebeu.

    Foto: PAV

    O INE foi um dos protagonistas desse discurso falso de normalidade, ao permitir que o país discutisse imigração, crescimento populacional, emprego, escolas, hospitais e habitação com base numa fotografia estatística desfocada. Portugal tem hoje praticamente o dobro dos imigrantes que tinha há cinco anos, mas continua sem conhecer com rigor como vivem, onde residem, em que condições trabalham, se estão integrados, se são explorados e qual é o impacto social, económico e territorial de uma transformação demográfica desta dimensão.

    Tudo isto sucedeu porque a independência do INE falhou durante anos — por inércia, incapacidade metodológica, excesso de prudência burocrática ou excessiva permeabilidade às prioridades do poder político. E quando um instituto estatístico deixa de medir a realidade para preservar a aparência de normalidade, não falha apenas uma instituição: falha o próprio Estado.

  • António José Seguro, um chico-esperto em Belém?

    António José Seguro, um chico-esperto em Belém?


    Uma curiosa tradição da política portuguesa atravessa gerações, ideologias e partidos com uma vitalidade invejável: a arte de parecer pobre quando se é remediado, remediado quando se é confortável e confortável quando, na verdade, se vive bastante acima daquilo que o eleitor comum alguma vez poderá aspirar.

    O político português, sobretudo quando entra em campanha eleitoral, sofre quase sempre uma súbita conversão franciscana. Descobre os prazeres da parcimónia, gaba-se de usar o mesmo casaco há vinte anos, fala das dificuldades da vida, das compras feitas com prudência e das virtudes de quem nunca desperdiça um euro. A riqueza, quando existe, passa a ser um assunto embaraçoso, quase obsceno.

    António José Seguro, Presidente da República. Foto: D.R,

    Percebe-se porquê. Num país onde uma parte significativa da população vive com salários que mal chegam ao fim do mês, apresentar-se como um homem abastado dificilmente renderá votos. Pelo contrário: alimenta, de imediato, a suspeita de que esse património tenha alguma explicação menos edificante. Não por via da corrupção em sentido penal, mas algo talvez mais frequente e socialmente aceite: a utilização da política como gigantesco trampolim e rede de contactos, de onde brotam administrações, consultorias, conselhos estratégicos, negócios e portas giratórias que permitem transformar alguns de vida pública numa confortável reforma privada.

    António José Seguro parecia, à primeira vista, escapar a esse retrato. Estava afastado da política activa havia largos anos, dedicara-se ao ensino universitário numa universidade privada, à agricultura, ao alojamento local e a algumas actividades empresariais. Nada disso fazia supor uma fortuna extraordinária. Mas havia um elemento que o discurso público cuidadosamente secundarizou: a sua mulher, Margarida Maldonado Freitas, empresária farmacêutica nas Caldas da Rainha, cuja empresa acumulou, segundo revelou o PÁGINA UM em Fevereiro passado, cerca de 2,2 milhões de euros de lucros líquidos em apenas cinco anos, colocando o agregado familiar numa posição patrimonial muito distante da imagem de discreta modéstia que o candidato procurava transmitir.

    Não existe, nem pode existir, qualquer desonra em ser rico. Muito menos quando essa riqueza resulta de uma actividade empresarial legítima e bem-sucedida. O problema nunca foi esse. O problema começa quando alguém constrói uma narrativa pública de austeridade pessoal enquanto omite elementos que permitiriam aos eleitores conhecer a verdadeira dimensão da sua situação patrimonial.

    O candidato presidencial António José Seguro era remediado; o Presidente da República António José Seguro é milionário por via de rectificações. Foto: D.R.

    Durante a campanha presidencial, António José Seguro até fez questão de afirmar que divulgava, de forma voluntária, informação que nem sequer lhe era legalmente exigida, apresentando essa opção como demonstração superior de transparência. A transparência, porém, tem um defeito terrível: não admite prestações. Ou existe ou não existe. Não pode funcionar como um buffet onde cada candidato escolhe aquilo que considera conveniente colocar em exposição e aquilo que prefere deixar, de um modo, discreto na despensa.

    E foi aqui que a narrativa moral e ética de António José Seguro colapsa.

    A declaração agora apresentada na Entidade da Transparência enquanto Presidente da República passou a incluir património financeiro superior a um milhão de euros, contas bancárias anteriormente inexistentes na declaração do candidato e outros elementos entretanto justificados pela Presidência como correspondendo a bens titulados pela esposa. A explicação pode resolver parte do problema jurídico, mas dificilmente resolve o problema político.

    Na verdade, aquilo que hoje surge como uma “rectificação” acaba por ser omissões graves e intencionais, que não elimina a pergunta essencial: por que razão essa realidade patrimonial não foi apresentada aos portugueses quando estes ainda tinham de decidir em quem votar?

    Palácio de Belém. Foto: D.R.

    Emerge em tudo isto uma figura muito portuguesa, velha conhecida da nossa cultura cívica: o chico-esperto. Não é o burlão de esquina, nem o criminoso, nem sequer o político corrupto. O chico-esperto é outra coisa: conhece suficientemente bem as regras para delas retirar sempre a interpretação que mais lhe convém. O chico-esperto é aquele que nunca mente frontalmente, mas também nunca esclarece de forma integral. O chico-esperto é aquele que transforma a transparência num exercício de geometria variável: hoje mostra-se isto; amanhã acrescenta-se aquilo; depois explica-se que tudo estava afinal em ordem.

    Legal? Talvez.

    Edificante? Dificilmente.

    Ser Presidente da República não é um cargo político nem só um cargo constitucional – é uma magistratura moral. Quem ocupa aquela função deixa de representar apenas um partido ou uma maioria eleitoral, passando a representar a própria ideia de República. E essa representação exige um grau de exigência ética superior ao mínimo legal.

    Um Presidente não pode limitar-se a cumprir a letra da lei quando lhe convém e invocar esclarecimentos posteriores quando surgem dúvidas. Deve antecipá-las. Deve afastá-las antes mesmo que existam. A confiança pública não se constrói através de sucessivas correções; constrói-se evitando que sejam necessárias.

    Foto: D.R.

    Talvez António José Seguro considere que tudo isto é um pormenor administrativo. Talvez muitos dos seus apoiantes também o entendam assim. Mas os símbolos contam. E na política, sobretudo na Presidência da República, os símbolos contam quase tanto como os actos.

    Afinal, quem escolhe apresentar-se como campeão da transparência não pode depois refugiar-se na confortável sombra das rectificações. Porque, nesse momento, António José Segura já não é vítima de um lapso. Começa, de uma forma inevitável, a parecer mesmo demasiado próximo daquela figura nacional que todos conhecemos desde crianças e que continua a prosperar em demasiadas áreas da vida pública: o eterno chico-esperto.

  • Origem da covid-19: imprensa ‘mainstream’ ignora o que 48 milhões viram

    Origem da covid-19: imprensa ‘mainstream’ ignora o que 48 milhões viram


    Uma das mais curiosas — e também mais inquietantes — transformações do jornalismo contemporâneo reside no facto de determinadas notícias deixarem de ser consideradas relevantes não porque tenham sido desmentidas, refutadas ou sequer escrutinadas com seriedade, mas simplesmente porque uma parte substancial dos meios de comunicação social decide ignorá-las.

    Não se trata de uma novidade absoluta: sempre houve assuntos que demoraram a atravessar as portas das redacções, fontes que procuraram silenciar factos incómodos e interesses que preferiram que certas matérias não ganhassem luz pública. A diferença crucial está em que, durante décadas, era o silêncio do poder que constituía uma razão suplementar para as investigações jornalísticas. Quando um Governo escondia documentos, quando uma empresa se recusava a responder ou quando uma instituição pública evitava prestar esclarecimentos, esse silêncio não era tomado como uma resposta satisfatória. Era um indício — e, muitas vezes, o princípio de uma investigação.

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    Foto: Kristina Flour.

    Mas hoje, em determinados temas, o silêncio parece ter adquirido uma estranha respeitabilidade editorial. Já não é objecto de escrutínio; torna-se, ele próprio, numa decisão. Um assunto pode ter repercussão internacional, mobilizar milhões de pessoas, envolver documentos oficiais ou declarações de titulares de cargos de grande responsabilidade institucional e, ainda assim, ser tratado como se não existisse. E não por ter sido demonstrada alguma falsidade, irrelevância ou inconsistência, mas porque parece não encaixar no perímetro narrativo dentro do qual determinadas redacções se sentem confortáveis.

    A recente divulgação de documentos desclassificados por Tulsi Gabbard, até à semana passada directora do National Intelligence (DNI), sobre as origens do SARS-CoV-2 e as actividades do laboratório de Wuhan financiado pelos Estados Unidos, é um exemplo revelador desse fenómeno. O essencial nem é, para já, saber se todas as conclusões retiradas desses documentos resistirão ao escrutínio mais exigente, se algumas alegações serão confirmadas ou se outras acabarão por se revelar inconsistentes. O jornalismo serve, numa primeira fase, para isso mesmo: para ler, verificar, confrontar, contextualizar e, quando necessário, desmontar.

    Ora, o que torna este episódio relevante é a sua origem institucional. Não estamos perante um comentário perdido numa rede social, produzido por um blogueiro anónimo especializado em teorias conspirativas, ou perante um canal alternativo instalado num qualquer subúrbio digital. Estamos a falar da directora do DNI, responsável pela coordenação da comunidade de informações norte-americana.

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    Foto: Stevepb

    Quando uma figura com essa posição divulga documentação desclassificada relacionada com a origem da COVID-19, com o financiamento de investigação científica e com o papel desempenhado por Anthony Fauci, seria natural esperar uma reacção jornalística proporcional à importância institucional do acto. Não significaria aceitar as conclusões sem reserva, nem transformar documentos em dogmas, nem substituir o método pela fé. Significaria, sim, fazer aquilo que os jornais sempre disseram fazer: abrir os documentos, procurar especialistas, ouvir contraditório, identificar omissões, testar afirmações e explicar ao público o que está, ou não está, em causa.

    Mas essa reacção praticamente não existiu. Mesmo nos Estados Unidos, só alguns meios de grande expressão abordaram o tema, como a Newsweek, a Fox News ou o New York Post. Jornais e televisões com grande projecção, como o New York Times, a CNN, a CBS ou o Washington Post, nada disseram. Na imprensa europeia, nada. Em Portugal, só o PÁGINA UM abordou o tema.

    Jornais, televisões e plataformas — que durante anos produziram milhares de páginas, horas de emissão, podcasts, especiais, entrevistas e editoriais sobre a pandemia — deixaram de se interessar, de súbito, por documentos desclassificados divulgados pela responsável máxima da comunidade de informações dos Estados Unidos. Poder-se-ia dizer que o tema da pandemia já não suscita interesse mediático.

    Publicação de Tulsi Gabbard, então Directora Nacional de Informações dos Estados Unidos, alcançou 46 milhões de visualizações na rede X, sem despertar atenção comparável nos grandes meios de comunicação social.

    Mas essa reconfortante justificação dos directores editoriais — que vivem na sua “bolha” — cai por terra quando se observa a dimensão da circulação do tema fora dos circuitos mediáticos tradicionais. A publicação de Tulsi Gabbard na rede social X ultrapassou os 48 milhões de visualizações. Quarenta e seis milhões. E mais 123 mil partilhas e mais de 23 mil comentários. Estes números não certificam a veracidade de uma alegação, nem convertem documentos em prova definitiva, nem dispensam análise independente. Mas transformam, de forma inevitável, o assunto num fenómeno público.

    Significa que dezenas de milhões de pessoas encontraram naquele conteúdo matéria relevante para parar, ler, partilhar, discutir e questionar. E quando dezenas de milhões de pessoas discutem documentos divulgados por uma responsável da administração norte-americana, o jornalismo não ganha credibilidade fingindo que o assunto não existe.

    Este caso é o paradigma — e o paradoxo — de uma das grandes contradições do jornalismo actual. Durante muito tempo, os media tradicionais assumiram que a sua função consistia, entre outras coisas, em definir a agenda pública: seleccionar os temas relevantes, determinar prioridades, separar o acessório do essencial e fornecer aos cidadãos um critério de importância.

    Tulsi Gabbard foi congressista democrata pelo Havai entre 2013 e 2021. Abandonou o Partido Democrata em Outubro de 2022, aproximou-se progressivamente de figuras e causas republicanas e formalizou a adesão ao Partido Republicano em Outubro de 2024. Foi nomeada Directora Nacional de Informações dos Estados Unidos em Fevereiro de 2025 e anunciou a saída do cargo em Maio de 2026, com efeitos no final de Junho.

    Essa capacidade foi profundamente abalada pelas redes sociais. Hoje, um assunto pode ganhar uma dimensão gigantesca sem passar pelos filtros de uma redacção, sem merecer chamada de primeira página, sem ser validado pela CNN, pelo New York Times, pela BBC ou por qualquer uma das velhas catedrais da mediação jornalística.

    Perante esta alteração, seria lógico esperar uma adaptação. Seria natural que as redacções acompanhassem aquilo que mobiliza milhões de pessoas, não para o reproduzir acriticamente, mas para o escrutinar. Em muitos casos, porém, parece ter sucedido o contrário. Quando o tema nasce fora dos circuitos habituais, quando é impulsionado por actores politicamente inconvenientes ou quando ameaça perturbar consensos instalados, algumas redacções comportam-se como se a melhor forma de o enfrentar fosse ignorá-lo. Como se a ausência de cobertura fosse suficiente para reduzir a relevância de uma discussão que já está a ocorrer diante de milhões de pessoas.

    Não é.

    Num ambiente mediático fragmentado, o silêncio dos órgãos de comunicação social tradicionais tornou-se, ele próprio, uma informação. Os leitores reparam. Os espectadores reparam. Os utilizadores das redes sociais reparam. E, mais cedo ou mais tarde, começam a fazer a pergunta inevitável: porquê? Talvez exista uma explicação legítima. Talvez os documentos estejam ainda a ser analisados. Talvez os jornalistas considerem que as alegações não possuem, para já, solidez suficiente. Talvez aguardem confirmações independentes, fontes adicionais ou elementos capazes de desmontar aquilo que foi divulgado. Tudo isso seria aceitável — e até desejável. Mas, nesse caso, a resposta não pode ser o apagamento. Deve ser o jornalismo: reportagens, verificações, análises, explicações e contraditório.

    Anthony Fauci foi director do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA (NIAID) entre 1984 e 2022 e tornou-se uma das figuras mais influentes e controversas da resposta norte-americana à COVID-19. Foto: D.R.

    Aquilo que gera desconfiança não é o contraditório — é a ausência dele. O jornalismo não se fragiliza por examinar documentos incómodos; fragiliza-se quando transmite a ideia de que certos documentos não devem sequer ser examinados. Não se torna menos responsável por verificar alegações politicamente desconfortáveis; torna-se menos credível quando parece escolher as matérias que merecem investigação e as que devem permanecer numa gaveta, à espera de que o esquecimento faça o trabalho que a verificação não quis fazer.

    A pandemia deixou uma herança bastante estranha no ecossistema mediático. Durante anos, determinadas posições foram classificadas como aceitáveis e outras como suspeitas; certas perguntas foram consideradas legítimas e outras inconvenientes; algumas dúvidas eram tratadas como expressão natural do debate científico e outras como indício de desvio moral, irracionalidade ou má-fé.

    O combate à desinformação era, e continua a ser, necessário. Mas, em demasiados casos, esse combate degenerou numa zona de conforto narrativa, dentro da qual certas perguntas deixaram de merecer a mesma curiosidade jornalística que seria aplicada a qualquer outro assunto de interesse público.

    A close-up of a stack of newspapers resting on a desk, symbolizing information and media.
    Foto: D.R.

    A curiosidade selectiva nunca foi uma virtude jornalística. O jornalista não existe para proteger consensos, nem para confirmar narrativas, nem para decidir, antes de abrir uma pasta, quais os documentos que devem ser considerados dignos de atenção e quais os que podem ser ignorados porque chegaram através da pessoa errada, no momento errado ou com implicações incómodas para certezas que durante anos foram apresentadas como indiscutíveis.

    Talvez os documentos divulgados por Tulsi Gabbard acabem por não alterar de forma significativa aquilo que se sabe sobre a pandemia. Talvez algumas alegações sejam infirmadas, outras relativizadas e outras reduzidas a notas de rodapé de uma discussão mais vasta. Mas essa conclusão deve nascer de investigação, não de silêncio. Deve resultar de leitura, confronto, verificação e escrutínio. E nunca da cómoda decisão de desviar os olhos.

  • O activismo que apaga factos: a falsa equivalência sobre a ‘medicina integrativa’

    O activismo que apaga factos: a falsa equivalência sobre a ‘medicina integrativa’


    O jornalismo não se torna mais rigoroso por adoptar o tom de uma brigada sanitária. Nem a defesa dos utentes exige que se suspenda a obrigação elementar de distinguir situações diversas, de ler as deliberações até ao fim e de não transformar um caso concreto numa condenação abstracta de tudo o que não caiba na ortodoxia editorial de uma redacção.

    Os jornalistas Tiago Ramalho e João Pinhal têm dedicado atenção, no Público, a práticas pouco convencionais na área da saúde, da nutrição e do bem-estar, através do projecto editorial Factness.

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    O Público apresentou uma deliberação da ERS relativa a uma clínica como prova de que a expressão “medicina integrativa” é, por si só, enganadora e de que 54 espaços semelhantes escapam impunes. Mas o artigo omite vários aspectos essenciais da deliberação

    Esse trabalho é, em princípio, necessário e meritório: vende-se demasiada banha da cobra sob embalagens de luxo, diplomas vagos e promessas de rejuvenescimento, desintoxicação e cura ou optimização universal. Existem falsos terapeutas, profissionais sem habilitação, estabelecimentos que confundem deliberadamente os utentes e negócios que exploram o medo, a doença e a fragilidade humana. A intervenção dos reguladores é, nesses casos, não apenas legítima, mas indispensável.

    O problema começa, porém, quando o impulso de denunciar se transforma numa espécie de reflexo justiceiro, incapaz de reconhecer diferenças entre fraude, publicidade enganosa, práticas sem demonstração suficiente, terapêuticas legalmente reguladas e actos médicos realizados por quem não possui habilitação para os exercer. Nessa passagem, o activismo deixa de servir o rigor, e passa a servir-se dele como adereço — tal como acontece na notícia intitulada “Regulador da saúde condenou clínica que se promovia como ‘medicina integrativa’. Mas há 54 centros a fazê-lo“.

    A Medicina convencional não é uma fortaleza construída no vazio, isolada da História, da Botânica, da observação empírica e das práticas tradicionais. A indústria farmacêutica moderna não inventou todos os seus princípios activos numa sala branca, iluminada por uma lâmpada fluorescente e uma apresentação de PowerPoint.

    D.R.

    A quinina resulta da exploração medicinal da cinchona; a artemisinina foi isolada da Artemisia annua, usada há séculos na medicina tradicional chinesa; a digoxina deriva da dedaleira; e a história dos salicilatos antecede, de muito, a síntese industrial do ácido acetilsalicílico.

    Nada disto demonstra, evidentemente, que toda a medicina popular seja eficaz, nem transforma a homeopatia, o reiki ou a ozonoterapia em práticas automaticamente validadas. Demonstra apenas que a ciência séria não avança por decreto editorial nem por desprezo automático de tudo o que não nasceu dentro de uma farmacêutica ou de um bloco operatório.

    Portugal, aliás, não trata todas as terapêuticas não convencionais como clandestinas ou equivalentes a charlatanismo. A lei reconhece e regula a acupunctura, a fitoterapia, mesmo a homeopatia, a medicina tradicional chinesa, a naturopatia, a osteopatia e a quiropráxia.

    Foto: D.R.

    O reconhecimento legal, que exige registos públicos — aspecto omitido pelo Público —, não dispensa escrutínio, não garante eficácia universal e não autoriza promessas terapêuticas abusivas. Mas impede que se coloque tudo no mesmo saco, como se um osteopata com formação e cédula profissional, um acupunctor legalmente habilitado e um indivíduo que administra anestésicos sem habilitação médica fossem variantes da mesma fraude.

    A notícia do Público comete esse erro crasso quando transforma uma deliberação da Entidade Reguladora da Saúde (ERS) de 2024 — ou seja, desenterrada agora para servir uma ‘causa’ — relativa à empresa unipessoal Clínicas Dr. Joel Portugal – Medicina Funcional e Integrativa numa espécie de precedente geral contra a utilização da expressão “medicina integrativa”. O título do artigo noticioso anuncia que o regulador “condenou clínica que se promovia como ‘medicina integrativa’”. O subtítulo vai mais longe: afirma que a expressão induzia os utentes em erro e que o jornal detectou 54 centros “na mesma situação e que escapam impunes”.

    No corpo do artigo, refere-se apenas que “uma análise do PÚBLICO aos estabelecimentos de saúde registados na própria ERS e uma pesquisa no Google Maps permitiram identificar 54 centros ou clínicas que se promovem com estas expressões [medicina ‘funcional”, “integrativa”, natural” ou de “antienvelhecimento”] que a ERS já considerou inadequadas noutra instância.” Porém, nem uma sequer é listada para se conferir se encontra paralelismo com o caso abordado em 2024 pela ERS.

    Foto: D.R:

    Ora, os jornalistas do Público omitem, ao longo de toda a sua notícia, que esse caso de 2024 não incidiu sobre uma clínica regularmente instalada, com profissionais devidamente habilitados, que usasse a expressão “medicina integrativa” como fórmula comercial ou descritiva. A fiscalização do regulador detectou, sim, que o estabelecimento nem sequer se encontrava registado no Sistema de Registo de Estabelecimentos Regulados da ERS e não dispunha de uma licença de funcionamento para a actividade de clínica ou consultório médico.

    Mais grave: a documentação da ERS refere que o responsável pelo estabelecimento, sendo apenas fisioterapeuta, realizava procedimentos com medicamentos sujeitos a receita médica, injecções de anestésicos e punções articulares, sem deter, portanto, as habilitações necessárias para tais actos. A deliberação da ERS também regista que não foi, portanto, encontrada inscrição do responsável na Ordem dos Médicos (OM), nem registo na listagem da ACSS relativa às terapêuticas não convencionais, embora tivesse inscrição activa na Ordem dos Fisioterapeutas.

    Este é o núcleo material do caso, que os leitores do Público não tiveram oportunidade de saber: uma pessoa apresentada ao público como “Dr.”, ligada a uma clínica designada por “Medicina Funcional e Integrativa”, realizava actos e procedimentos para os quais a ERS concluiu não possuir as qualificações exigidas. A entidade reguladora considerou que esses factos eram susceptíveis de provocar prejuízo grave e irreparável para os utentes, determinando a suspensão imediata da actividade indevidamente prosseguida.

    white and red medication pill on yellow box
    Foto: Melany @ tuinfosalud.com

    Perante este quadro, ao contrário do que induz a notícia dos jornalistas Tiago Ramalho e João Pinhal, a expressão “medicina funcional e integrativa” não foi analisada pela ERS como uma palavra maldita, proibida em qualquer circunstância e para qualquer profissional. Essa expressão foi analisada no contexto específico de uma publicidade que poderia levar os utentes a acreditar que os serviços anunciados eram prestados por quem possuía habilitação médica ou terapêutica reconhecida para os exercer.

    A própria deliberação é clara quando refere que o risco residia na confusão quanto à natureza dos serviços, aos atributos do prestador e às qualificações dos trabalhadores.

    O Público até publica, mais adiante, a opinião de uma professora da Faculdade de Direito que explica que a decisão da ERS não constitui uma proibição directa do uso da palavra “medicina” e que a apreciação depende do contexto concreto, dos serviços anunciados, das qualificações profissionais e dos requisitos legais para o exercício da actividade. A ERS disse o mesmo, ao responder que a legitimidade das expressões deve ser analisada caso a caso.

    a young boy in a wheelchair holding a stuffed animal
    Foto: Ortopediatri Çocuk Ortopedi Akademisi

    Ou seja, alguém que use a palavra “medicina” para publicitar actos terapêuticos deve ser sempre médico. Mas a peça enterra essa ressalva depois de já ter construído, no título e no enquadramento inicial, a ideia de que 54 entidades seriam versões impunes da clínica visada.

    Este é um colossal erro de método e de seriedade. Para afirmar que 54 centros estão “em tudo similares” ao caso sancionado, seria necessário verificar, em cada um deles, quem presta os serviços, que habilitações possui, se o estabelecimento está registado e licenciado, que actos são realizados, que publicidade é divulgada e se existe ou não risco concreto de indução em erro.

    A pesquisa no Google Maps e no registo da ERS pode ser um ponto de partida jornalístico, mas nunca de chegada, sobretudo quando nem sequer se salienta que uma parte considerável das clínicas que surgem no conhecido motor de busca usando a expressão “medicina integrativa” têm, efectivamente, corpo clínico de médicos devidamente inscritos na Ordem dos Médicos.

    Foto: D.R.

    Em suma, o Público poderia e deveria procurar saber se havia, em 2026, centros que anunciam serviços de forma enganosa como em 2024 fez a empresa Clínicas Dr. Joel Portugal – Medicina Funcional e Integrativa. Mas não fez isso. Apenas insinuou que a simples utilização de certas expressões basta para os colocar sob suspeita equivalente à de uma entidade onde eram realizados actos médicos por profissional sem habilitação para tal. Essa confusão não protege os utentes. Pelo contrário: dilui os casos realmente graves numa cruzada sem gradações, em que a palavra “integrativa” passa a ter mais relevo do que a ausência de licença, a falta de habilitação e a prática de actos clínicos potencialmente perigosos.

    O rigor jornalístico exige combater a fraude, a burla, a publicidade enganosa e a invasão de actos médicos. Requer também exigir provas para alegações terapêuticas e transparência sobre qualificações, riscos e custos. Mas exige, de igual modo, não fazer do combate ao charlatanismo uma licença para simplificar a realidade até ela caber numa manchete militante.

    A Medicina não se esgota nos remédios de uma indústria farmacêutica, nem no bisturi de um cirurgião. Também não se salva através de promessas vagas de equilíbrio, longevidade ou cura integral. Entre um dogmatismo e outro existe uma obrigação que deveria ser comum a reguladores, jornalistas e profissionais de saúde: olhar para os factos concretos, distinguir o lícito do ilícito, separar a dúvida legítima da fraude demonstrada e não confundir uma designação discutível com um acto perigoso.

    Foto: D.R.

    Em suma, a notícia do Público parte de uma questão legítima — a publicidade em saúde pode induzir os utentes em erro e merece escrutínio —, mas constrói a sua tese central através de uma falsa equivalência. A deliberação da ERS não condenou uma clínica por utilizar a expressão “medicina integrativa”; incidiu sobre um conjunto de infracções que incluíam falta de registo, ausência de licenciamento, publicidade enganosa e a realização de actos médicos por pessoa sem habilitação para os praticar.

    Ao omitir esse núcleo essencial e sugerir que 54 entidades estão automaticamente na mesma situação, o artigo sacrifica o rigor à pulsão activista. Classificar isto como inaceitável até se mostra um eufemismo.

    ***

    Nota: Este texto também foi publicado no ContraProva.

  • Liberdade vs. Gustavo Carona, ou como hoje vi médicos verticais

    Liberdade vs. Gustavo Carona, ou como hoje vi médicos verticais


    Regressei esta tarde a Lisboa, depois de mais uma audiência no Tribunal do Bolhão, no Porto, por causa do processo em que estou a ser julgado por textos que escrevi sobre Gustavo Carona e sobre o papel que desempenhou enquanto uma das vozes mais influentes da comunicação sanitária durante a pandemia.

    Quem acompanha este caso sabe que, para mim, aquilo que escrevi nunca foi apenas uma questão pessoal. Está em causa algo muito mais importante: saber até que ponto, numa democracia que celebrou há pouco mais de meio século a Revolução dos Cravos, continua a existir espaço para a crítica, para a indignação e para a liberdade de expressão quando se questionam figuras públicas, entre os quais influencers sanitários, que exerceram influência relevante no debate nacional.

    Onde me tenho sentado desde Setembro nas minhas visitas ao Porto. Foto: D.R.

    Hoje sai, porém, desta audiência com um sentimento de serenidade. Não porque as testemunhas tenham procurado defender-me ou elogiar-me. Os tribunais não existem para distribuir elogios. Sai satisfeito porque tive a oportunidade de ouvir dois homens que me merecem respeito intelectual e humano: Jorge Amil Dias, antigo presidente do Colégio da Especialidade de Pediatria da Ordem dos Médicos, e António Ferreira, médico de Medicina Interna, antigo administrador do Hospital de São João e actual professor universitário.

    Aquilo que mais me impressionou nem foram as posições concretas que assumiram. Foi a sua postura, que já haviam mostrado durante a pandemia, onde oram dos poucos médicos que não enveredaram pelo sim camaleónico e reverente. Foi a forma como responderam às perguntas. Foi a recusa em ceder a simplificações. Foi a preocupação em distinguir factos de opiniões. Foi a defesa da honestidade intelectual acima das conveniências. Foi por serem verticais. E, por vezes, nesta nobre arte da Medicina, conhecemos muitos médicos exímios, muitos exímios e bondosos – mas já são raros, aqueles que, sendo exímios e bondosos, acumulam com a verticalidade.

    Talvez por isso tenha saído do tribunal a recordar porque escrevi aquilo que escrevi durante a pandemia. Não porque tivesse qualquer animosidade pessoal contra Gustavo Carona ou contra qualquer outra figura pública. Eles eram mais do que eles próprios – foram a personificação de uma imposição intolerável em democracia. Escrevi porque sempre desconfiei dos unanimismos, sobretudo quando são apresentados como ciência indiscutível. A ciência avança pela dúvida, pelo contraditório, pela permanente confrontação de hipóteses. Quando a divergência passa a ser tratada como heresia e a crítica como pecado moral, deixamos o terreno da ciência para entrar no da ortodoxia.

    Gustavo Carona. Foto: D.R.

    Conheço bem o peso das doenças, mas o pior que se pode fazer é combatê-la com alarmismo e emoção e com falta de racionalidade. Faz exactos cinco anos que me encontrava em coma, literalmente entre a vida e a morte. Não preciso que ninguém me explique a gravidade que uma doença pode assumir.

    Neste momento, não sei se, em caso de desfecho fatal, a “culpa” teria sido da covid-19, de uma infecção nosocomial no hospital que talvez pudesse ser evitada ou de uma gravíssima negligência médicaque me ‘meteu’ um fio guia do cateter a ‘passear-se’ entre o ventrículo direito e a aurícula direita. Sei é que o atestado de óbito seria covid-19 – porque assim se determinava –, e jamais se questionava, naquela altura, a higiene hospitalar ou a imprudência de colocarem um interno a usar a técnica de Seldinger sem supervisão e conferência.

    Nunca consegui aceitar que uma discussão pública fosse reduzida a uma única narrativa, apresentada como a única moralmente aceitável, sobretudo em questões de saúde, segurança e direitos fundamentais como a liberdade.

    a man laying in a hospital bed next to a monitor
    Foto: Engin Akyurt

    Continuo convencido de que muitas das consequências mais graves daqueles anos da pandemia não resultaram apenas do vírus. Resultaram também das decisões tomadas em seu nome. Milhares de consultas, exames e cirurgias foram adiados. Doentes de outras patologias ficaram para trás. Promoveu-se o sedentarismo em larga escala, quando a actividade física constitui um dos mais importantes factores de saúde – e eu acredito ter sido uma dessas ‘vítimas’, porque não apresentava comorbilidades compatíveis com um agravamento da saúde.

    Aceitar que uma emergência exigia medidas excepcionais não implica aceitar sem debate que todas as medidas adoptadas tenham sido proporcionais, eficazes ou sequer benéficas. Muitas foram absurdas e mesmo maléficas: vacinar jovens saudáveis foi apenas uma das mais graves e imprudentes.

    Também nunca aceitei a tendência para dividir a sociedade entre cidadãos virtuosos e cidadãos condenáveis – que foi aquilo que Gustavo Carona desejava e incentivava. Entre os que seguiam a linha oficial e os que ousavam fazer perguntas. Entre os que mereciam reconhecimento público e os que eram alvo de censura social, profissional ou mediática. Foi precisamente essa lógica que procurei combater nos meus textos.

    Estocolmo, Suécia, em Agosto de 2020, enquanto em Portugal estava tudo ‘confinado’. Foto: PAV.

    Gustavo Carona tornou-se uma das faces mais visíveis desse período. Não apenas pelas opiniões que expressava, mas pela influência que exercia no espaço público. E quanto maior é a influência de alguém, maior deve ser a possibilidade de escrutínio. A minha crítica foi dura, incisiva e muitas vezes mordaz. E até cómica: de entre os ‘crimes’ está o tê-lo apodado de Gustavo ‘BreaveHeart’ Carona, Doutor Full HD (uma alusão à sua auto-promoção como Humanitarian Doctor a tempo inteiro) ou Cónego Guca Stavorona. Nunca o neguei. Mas teve sempre uma motivação cívica: contestar ideias e comportamentos que considerava prejudiciais ao debate público e à convivência democrática.

    Num tempo em que tantas vezes se confundem divergências com ofensas e críticas com perseguições, foi reconfortante assistir a depoimentos marcados pela independência de espírito e pela procura da verdade.

    No fundo, porque é isso que este processo representa para mim. Não está apenas em causa um conjunto de artigos ou opiniões, escrito com estilo mais ou menor mordaz. Está em causa saber se, numa democracia madura, em 2026, em Portugal, continua a existir espaço para criticar figuras públicas influentes, questionar consensos dominantes e exprimir indignação perante ideias que consideramos erradas ou perigosas.

    Independentemente do desfecho deste processo, que terá a sua continuação no próximo dia 9 de Julho, continuo convencido de que uma sociedade livre depende da existência de cidadãos capazes de discordar, questionar e até indignar-se. Sem isso, a liberdade transforma-se numa palavra vazia.

    Hoje, pelo menos, saí do tribunal com a sensação de que ainda existem pessoas dispostas a defender esse princípio. E, por isso, a viagem de regresso a Lisboa, na companhia dos meus inexcedíveis advogados, Miguel dos Santos Pereira e Bruno dos Santos Pereira, foi bastante gratificante.

  • Serafim, 18 anos: a maioridade do ‘Mascot’ do PÁGINA UM

    Serafim, 18 anos: a maioridade do ‘Mascot’ do PÁGINA UM


    Serafim,

    Não sei se os gatos compreendem o tempo. Suspeito que não. Suspeito que vivem numa sucessão de dias perfeitos, delimitados por refeições, sestas, janelas, telhados, afectos e pequenas rotinas que, para vocês, constituem o universo inteiro. Talvez por isso se inveje os gatos. Nós, os humanos, carregamos o peso da memória e a inquietação do futuro; vocês parecem possuir o raro talento de habitar apenas o presente.

    Hoje fazes dezoito anos.

    Escrevo esta frase e volto a lê-la, porque os números, por vezes, são incapazes de traduzir o verdadeiro significado. Dezoito anos não são apenas dezoito anos. São quase duas décadas de companhia, milhares de manhãs, milhares de noites, mudanças de casa, de ruas, de cidades, são livros escritos, amores encontrados, vividos e perdidos, amizades achadas, projectos começados e colapsados, batalhas travadas, alegrias inesperadas e algumas tristezas que só a passagem do tempo conseguiu acomodar e arquivar.

    Foto oficial do Serafim.

    E tu estiveste comigo.

    Não como testemunha activa, porque os gatos não testemunham; observam. Nem como confidente, porque os gatos não escutam realmente; acompanham. Nem sequer como amigo no sentido humano da palavra, porque talvez a relação entre um homem e um gato pertença a uma categoria diferente, mais silenciosa e por isso mesmo mais profunda.

    Quando penso e falo em ti, porém, não começo pelo gato elegante e aristocrático que coloco no Arranhadelas, nem pelo gato magricela que dorme tranquilamente na Graça. A memória leva-me sempre para um certo quarteirão do bairro de Santa Catarina, que já não existe.

    Muitas cidades desaparecem através de guerras, incêndios ou catástrofes. Dantes, havia velhos à janela. Havia crianças na rua. Havia discussões de vizinhos. Havia roupa estendida. Havia portas abertas. E havia gatos.

    Meu Deus, como havia gatos.

    Interior do quarteirão de Santa Catarina algures num tempo perdido…

    No quarteirão onde eu vivia, pululavam e pulavam felinos de todos os feitios. A expressão parece um jogo de palavras, mas é sobretudo uma descrição rigorosa. Havia-os pretos, malhados, ruivos, cinzentos, gordos, escanzelados, aristocráticos, brigões, tímidos, aventureiros e filósofos. Alguns pareciam viver permanentemente envolvidos em disputas territoriais; outros pareciam ter atingido um grau de iluminação espiritual que os colocava acima das preocupações mundanas.

    Neste grupo sedentário, que, parece-me, recrutava nómadas e se reproduzia, havia uma gata negra, que depois baptizaria de Preta, e uma gata cinzenta, a quem dei o nome de Xu. Entravam pela minha janela quando lhes apetecia, como se a casa lhes pertencesse. Não lhes dava sequer comida ou água. Visitavam-me furtivamente se viam a janela aberta, remexiam roupas, deitavam-se na cama, escapuliam-se quando me viam. Depois, comecei a deixar-lhes comida e água. Entre mais de uma dezena de gatos, só estas me visitavam. E foram ficando. Durante algum tempo pensei que as estava a acolher; só mais tarde percebi que elas me tinham aceitado.

    Continuavam a vida entre os telhados e a casa. Em certa altura, no início de um mês de Maio, reparei que a Preta tinha um certo volume abdominal. E assim, numa bela manhã do Santo António do ano da graça de 2008, sexta-feira 13, eis-me a acordar com dois pequenos seres acabados de nascer na minha cama. Ainda de olhos fechados. Tão frágeis que pareciam pertencer mais ao mistério do que ao mundo.

    Um deles eras tu.

    Serafim, assistindo-me, durante a escrita de um dos meus romances, no início de 2009, quando a qualidade das selfies era fraca.

    Nunca te contei isto — embora alguém me possa acusar de mentiroso —, mas não eras um gato bonito quando nasceste. Tinhas uma mancha preta debaixo do queixo, colocada sem qualquer preocupação estética, eras magro, desengonçado e revelaste desde cedo uma certa inclinação para a tontice. Ao invés, o teu irmão era um gato de pelagem cinzenta, uniforme, que em poucas semanas me subia pelas pernas acima até ao ombro. E tu, apenas brincalhão, roendo a cauda da tua mãe até ao desespero, mantinhas aquela tontice de inocência distraída, olhando para tudo o que eu fazia ou não fazia. Como não poderia nascer ternura nisto?

    Como sucede com algumas amizades e com alguns amores, não escolhemos. Apenas percebemos, demasiado tarde para voltar atrás, que a escolha já foi feita. E fiquei contigo. O teu irmão seguiu outro caminho. Ofereci-o sabendo que ficaria bem cuidado. Morreu cedo, vítima de uma infecção após a esterilização.

    Durante anos pensei muitas vezes no teu irmão com que fizestes as primeiras diabruras. E talvez tenha sido também por causa dele que te conservei inteiro, escolha que inaugurou uma longa e complexa negociação diplomática entre dois seres com visões muito diferentes acerca da liberdade individual. Tu defendias uma interpretação particularmente ampla dos teus direitos naturais. Eu defendia algumas limitações regulamentares.

    Em 2009, comemorando a saída do romance ‘A Mão Esquerda de Deus’, com a sua mãe a passar…

    Houve desacordos. Houve discussões. Houve gritos. Houve fugas. Houve perseguições. Mas, como sucede nas relações duradouras, acabámos por chegar a um compromisso imperfeito. Talvez isto explique a longevidade da nossa relação.

    Enquanto partilhámos a vivência com a tua mãe Preta — e a deliciosa Xu —, que foi engravidando de quando em vez até ter sido esterilizada e, certa vez, ter desaparecido, vivi numa espécie de comunidade de gatos. Depois, deste mundo felino, por volta de 2012, ficaste só tu. Na verdade, olhando para trás, apercebo-me de que crescemos juntos.

    Enquanto tu aprendias a ser gato — que presumo ser complexo —, eu aprendia a ser homem. Parece uma frase grandiloquente, mas não é. Quando chegaste, eu era mais novo do que sou hoje, mais impaciente, mais impulsivo, talvez mais arrogante em algumas matérias e mais ingénuo noutras. Tinha ainda a ilusão de que a vida obedecia a planos. Hoje sei que a vida se parece muito mais com os gatos: segue caminhos próprios, ignora instruções e raramente pede autorização.

    Tu viste tudo isso acontecer. E o tempo a passar.

    Serafim, sempre altivo mesmo no caos.

    Viste-me escrever. Viste-me falhar. Viste-me acertar. Viste-me recomeçar. Viste-me apaixonar-me e desapaixonar-me. Viste-me ganhar algumas batalhas e perder outras. Viste projectos nascerem de uma mesa vazia e transformarem-se em algo real. Viste pessoas chegarem cheias de promessas e partirem sem aviso. Viste outras permanecerem. Viste dias felizes e dias difíceis.

    E estiveste sempre ali. Não fazendo nada de especial, o que torna tudo isto tão especial.

    Existe uma tendência humana para valorizar os grandes gestos. Admiramos quem salva vidas, quem muda o curso da História, quem descobre continentes, quem escreve obras-primas. Talvez por isso nos escape tantas vezes a importância das presenças discretas. Mas a verdade é que a vida é feita sobretudo dessas presenças. Pessoas — e, por vezes, animais — que não resolvem os nossos problemas, não alteram o destino do mundo, não produzem feitos memoráveis, mas cuja simples existência torna a travessia mais suportável. Corrijo: agradável. Corrijo melhor: em certos dias, maravilhosa.

    Serafim, no dia do seu 18.º aniversário.

    Tu tens sido uma dessas presenças.

    Ao longo dos anos, acompanhas-me sem exigências. Nunca te interessaram os meus sucessos. Nunca te impressionaram os meus fracassos. Nunca te preocupaste com estatutos, cargos, distinções ou reconhecimentos. Nunca quiseste saber se os meus livros tiveram leitores, se os meus artigos produziram efeito ou se algum projecto correu bem. As tuas prioridades são mais sensatas: encontrar um bom lugar ao sol, exigir comida à hora certa e garantir que nenhum ser humano se esquece da importância de uma boa sesta.

    Talvez minta um pouco. Enquanto escrevia muitos dos meus livros pela noite dentro, estavas ali, em cima da minha mesa de trabalho, enroscado no meu colo, ou, melhor ainda, instalado no topo do recosto da cadeira, donde, de quando em quando, massajavas o meu ombro com as tuas patas dianteiras, como se presidisses, com gravidade felina, ao acto da escrita.

    Também gostavas de brincar com os meus atacadores, de responder com patadas às minhas investidas, de miar ininterruptamente sempre que eu estava ao telefone, ou de entrar comigo em pequenos despiques de miados sempre que eu falava para ti. E sei ainda que, em 2020, quando estive quase um mês a viajar por Itália, em plena pandemia, deixaste de comer na última semana da minha ausência e só recomeçaste depois da minha chegada.

    Serafim procurando redutos eruditos para descansar…

    Pergunto-me ainda se sentirias aquilo a que os humanos chamam saudade.

    Hoje és um velho cavalheiro.

    Caminhas mais devagar. Dormes mais. Escolhes cuidadosamente os sítios onde te deitas. Tens o corpo magro dos sobreviventes e o olhar tranquilo de quem já viu passar muitas estações. Há dias em que te observo e me dou conta de uma verdade que procuro afastar: dezoito anos são uma bênção, mas também um aviso. O tempo que celebramos é o mesmo tempo que passa.

    Talvez seja por isso que escrevo estas linhas.

    Não para ti.

    Ou não apenas para ti.

    Escrevo-as também para mim.

    Para te agradecer, mesmo que não saibas ler.

    (Será isto mais uma das minhas mentiras?)

    Para fixar uma memória.

    Para deixar registado que existe um gato chamado Serafim que tem acompanhado uma parte muito significativa da minha vida. Um gato que nasceu numa cama de Santa Catarina, numa manhã de Santo António. Um gato que atravessou comigo quase duas décadas de existência. Um gato que se tornou, sem nunca o pretender, parte da minha história.

    Na ficha técnica do PÁGINA UM apareces identificado como ‘Mascot’. Foi uma brincadeira. Uma excentricidade para irritar, mas também um pequeno gesto de afecto transformado em formalidade editorial. Mas talvez não seja apenas isso.

    Afinal, poucos colaboradores acompanharam tão de perto a construção deste jornal. Poucos estiveram presentes em tantas noites de trabalho. Poucos ouviram tantas conversas, tantas preocupações, tantas ideias, tantas dúvidas. Poucos mereceram tanto o direito de ali figurar.

    Por isso, hoje, nesta data improvável em que um jornal interrompe por momentos a vertigem da actualidade para celebrar um gato, quero apenas dizer-te uma coisa simples.

    Serafim, numa das suas poses (artificiais), como autor de Arranhadelas, no PÁGINA UM.

    Obrigado.

    Obrigado pelas manhãs.

    Obrigado pelas noites.

    Obrigado pela companhia.

    Obrigado pela paciência para com as excentricidades humanas.

    Obrigado pela fidelidade silenciosa.

    Obrigado por teres estado presente durante dezoito anos da minha vida.

    Daqui a pouco receberás fiambre. Talvez um pouco de bife. Suspeito que essa recompensa te parecerá muito mais valiosa do que este texto.

    E provavelmente tens razão.

    Mas os humanos são criaturas estranhas. Precisamos de palavras para dizer aquilo que os gatos resolvem apenas com a presença.

    Não sei quanto tempo mais teremos.

    Ninguém sabe.

    Eu e tu… quando éramos mais novos.

    Mas sei que, quando um dia olhar para trás e tentar recordar os anos que vivi, encontrar-te-ei sentado algures, deitado sobre um manuscrito que eu precisava de consultar, a arranhar um sofá, acomodado numa cadeira que eu pretendia usar ou simplesmente a dormir, indiferente ao ruído do mundo.

    Parabéns, meu querido Serafim.

    Pedro

  • Trust in News: contas falsas, falência real e o silêncio cúmplice dos media

    Trust in News: contas falsas, falência real e o silêncio cúmplice dos media


    Se a Trust in News (TIN) não fosse uma empresa de media, será que a imprensa teria noticiado e dado destaque ao julgamento dos três gerentes da empresa, agora condenados pela insolvência culposa da dona da revista Visão?

    Se Luís Delgado não fosse dono de uma empresa de media, como é o caso da TIN, será que teria sido alvo de notícias sobre o facto de estar a cumprir uma pena suspensa de cinco anos por abuso de confiança fiscal agravada?

    Luís Delgado, proprietário e gerente da Trust in News, foi condenado por insolvência culposa. O gestor está a cumprir uma pena suspensa pelo crime de abuso de confiança fiscal agravado, mas tem cinco anos para pagar as dívidas ou cumprirá pena de prisão. Sem fundos disponíveis, só a manutenção da TIN em actividade pode evitar que vá para trás das grades. / Foto: D.R.

    A resposta é: claro que sim. Mas a falência da TIN está a expor também a falência da credibilidade e da independência da imprensa de referência em Portugal.

    Veja-se o caso da agência Lusa. Em todas as notícias que publicou sobre a crise e insolvência da TIN, em nenhuma achou ser importante mencionar que os três gerentes da empresa foram condenados e estão a cumprir pena suspensa. Também ninguém na Lusa considerou relevante fazer a cobertura noticiosa do julgamento que agora levou à condenação dos gerentes da TIN por insolvência culposa.

    O mesmo se pode afirmar da generalidade dos órgãos de comunicação social ditos nacionais. Nem um jornalista dos maiores media portugueses pôs os pés no Tribunal de Sintra para escutar os testemunhos que puseram a nu as contas fabricadas na TIN ao longo de anos.

    Luísa Meireles, directora de informação da Lusa. / Foto: Captura de ecrã de conferência | YouTube

    Será que a imprensa acredita que se não publicar noticias sobre um tema, o público não sabe? Por que será que fez este boicote a noticiar factos desfavoráveis a Luís Delgado? Será que o dono da TIN tem assim tanto poder juntos dos media, ao ponto de os silenciar, levando a que censurem qualquer informação negativa para Delgado?

    Este caso expôs também a importância de haver, em Portugal, jornais verdadeiramente independentes. O PÁGINA UM foi o primeiro a dar o sinal de alerta sobre a crise da TIN. E foi o PÁGINA UM o único jornal a ter um jornalista a acompanhar o julgamento que decretou a insolvência culposa da TIN.

    Sem o PÁGINA UM, os portugueses apenas saberiam, sobre a crise da TIN, a parcela de informação que a imprensa considerou que o público tinha direito a ter. E isso não é Jornalismo.

    Foto: D.R.

    A imprensa mostrou ao público que este só tem direito a conhecer os factos que a imprensa quer e não os factos que são notícia. Perdeu, de uma penada, toda a independência e credibilidade que tanto usa em bandeiras hasteadas e de punho em riste enquanto pede apoios ao Governo ou assinaturas aos leitores.

    E ainda há um grande novelo de mistérios a desenrolar sobre a TIN. Os leitores podem continuar a contar com o PÁGINA UM para continuar a desvendá-los. Até porque o caso da crise da empresa está longe de estar resolvido.

    Duas decisões tomadas, nos últimos dias, pela juíza encarregue do caso da insolvência da TIN, Diana Campos Martins, são decisivas para o futuro da revista Visão e para Luís Delgado, dono da empresa que fundou em 2017 para ajudar a salvar o grupo Impresa, que precisava “livrar-se” de um conjunto de publicações.

    Na sala do Tribunal Judicial de Sintra onde decorreu o julgamento sobre insolvência culposa da TIN, apenas um jornalista marcou presença, do jornal PÁGINA UM /. Foto: PÁGINA UM

    Uma decisão, de 6 de Junho, foi declarar a insolvência culposa da TIN, condenando os seus três gerentes, Luís Delgado, Claudia Campos e Filipe Passadouro (que renunciou ao cargo de gerente em Abril de 2023, ficando na empresa como consultor), à inibição do exercício de funções de gestão durante seis anos.

    A outra decisão, adoptada a 2 de Junho, anuncia o fim do processo de insolvência, porque transitou em julgado a decisão do Supremo Tribunal de Justiça de homologar o plano de insolvência de Delgado, com a excepção de uma condição que pretendia proteger o gestor de processos de execução e cobrança de dívidas. Assim, vai ser encerrado o processo de insolvência e não haverá mais nenhuma assembleia de credores para decidir sobre o futuro dos activos da empresa.

    Ou seja, perante a ausência de resposta de Luís delgado, sobre se vai ou não implementar o plano homologado pelo Supremo, a juíza do processo de insolvência decidiu encerrar o caso. Assim, o gestor condenado por insolvência culposa tem nas mãos a empresa e tem homologado um plano que desenhou para a tentar “salvar” — e tentar adiar a ida para a prisão.

    Revista Visão (Foto: PÁGINA UM)

    Mas o plano entra de imediato em incumprimento, caso Luís Delgado não pague logo a primeira prestação mensal prevista à Autoridade Tributária e à Segurança Social — as quais poderão já estar vencidas. Se assim for, os dois maiores credores da TIN podem requerer de novo… a insolvência da TIN.

    Entretanto, os jornalistas da Visão, que têm tido como “patrão” a massa insolvente da TIN, podem “ficar a chuchar no dedo”, com o fim do processo de insolvência da empresa. E começam a ver o leilão da Visão “por um canudo”.

    Pelo meio, correm outros processos que podem condenar os gerentes da TIN a pena de prisão efectiva. Num deles, relativo a uma dívida elevada ao Fisco, Luís Delgado pediu a abertura de instrução, mas não deverá ter “sorte” e o caso deverá seguir para julgamento.

    Claudia Serra Campos, Luís Delgado e Luís Filipe Passadouro formaram o trio de gerentes que liderou a TIN desde o seu arranque. Passadouro renunciou ao cargo de gerente da empresa em Abril de 2023 mas manteve-se ainda na empresa como consultor. Os três gestores estão a cumprir uma pena suspensa mas arriscam vir a cumprir pena de prisão efectiva por dívidas acumuladas da TIN ao Fisco e à Segurança Social. / Fotos: D.R.

    Mas a imprensa não vai noticiar nada sobre estas informações vistas como desfavoráveis para Delgado. Nem vai noticiar novas condenações de Delgado na Justiça.

    Pode ainda não se saber em que mãos vai ficar a revista Visão ou sequer se vai sobreviver a estas manobras de Delgado. Nem se sabe o que será da TIN. Mas sabe-se que os gerentes da TIN falsificaram as contas da empresa e enganaram credores e trabalhadores durante anos. E sabe-se isto: a imprensa portuguesa faliu na sua credibilidade e independência na cobertura deste caso. E isso é ainda mais grave do que a falência de uma empresa de media.

  • A poluição saiu das manchetes, não das chaminés

    A poluição saiu das manchetes, não das chaminés


    Comecei no jornalismo a escrever sobre Ambiente. Foi há mais de três décadas, numa época em que os temas ambientais ainda não tinham sido transformados numa gigantesca indústria política, comunicacional e financeira. Escrevi na revista Fórum Ambiente, mais tarde no Expresso, acompanhei debates sobre poluição industrial, resíduos perigosos, qualidade da água, saneamento básico, ordenamento do território, impactes ambientais e conservação da natureza. Nessa altura, o Ambiente era um tema complexo, multifacetado e, sobretudo, concreto.

    Ao longo dos anos fui diversificando as minhas áreas de trabalho jornalístico. O Ambiente nunca desapareceu das minhas preocupações, mas acabou por perder espaço no meu quotidiano profissional. Ainda assim, o interesse manteve-se. Talvez por isso tenha recuperado e registado novamente a marca Fórum Ambiente, não por nostalgia, mas porque continuo a acreditar que o jornalismo ambiental é demasiado importante para ser reduzido a slogans publicitários ou a campanhas de marketing institucional.

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    Foto: Alexander Tsang.

    Nos anos 90 escrevi muito sobre alterações climáticas. Fi-lo quando o tema ainda não ocupava manchetes diárias nem alimentava conferências internacionais com milhares de participantes. Contudo, à medida que o debate evoluiu, fui também desenvolvendo um crescente espírito crítico relativamente ao modo como as alterações climáticas passaram a ser utilizadas como instrumento político, económico e reputacional.

    Não deixei de questionar a existência do fenómeno nem a necessidade de o estudar de forma séria, e tomar medidas. Questiono, isso sim, a forma como uma parte significativa do discurso público europeu, perante um facto de ser a China hoje a ‘ditar as regras’ (pela dimensão das suas emissões), transformou as alterações climáticas numa espécie de monarquia absoluta do Ambiente, capaz de canibalizar todos os outros problemas ambientais.

    O resultado está hoje à vista. Enquanto governos anunciam metas de neutralidade carbónica, empresas exibem relatórios de sustentabilidade cuidadosamente ilustrados e parte da comunicação social reproduz comunicados empresariais com escasso espírito crítico, temas como a poluição atmosférica convencional, a contaminação da água, os resíduos industriais, os metais pesados ou a degradação dos ecossistemas foram desaparecendo da agenda mediática. Não porque os problemas tenham sido resolvidos. Simplesmente porque deixaram de ser convenientes. Aliás, hoje muitos problemas estruturais são ‘desculpados’ alegando as alterações climáticos: os incêndios rurais são um exemplo.

    Refinaria de Sines. Foto: Galp.

    O fenómeno tornou-se muito visível na relação estabelecida entre alguns dos maiores grupos económicos nacionais e uma parte da imprensa portuguesa. Empresas como a Galp, a Navigator, a Secil ou a Cimpor surgem, com frequência, associadas a grandes campanhas de comunicação sobre sustentabilidade, transição energética ou responsabilidade ambiental. Muitas dessas iniciativas beneficiam de uma cobertura jornalística surpreendentemente benevolente, quando não mesmo de parcerias mediáticas cuja promiscuidade deveria suscitar maior reflexão editorial. O resultado é um debate público centrado na narrativa e menos atento à realidade mensurável.

    Mas a realidade tem uma característica incómoda: insiste em existir independentemente das narrativas.

    Por essa razão, o PÁGINA UM decidiu iniciar um novo grande dossier ambiental baseado em dados oficiais. Fomos analisar o Pollutant Release and Transfer Register (PRTR), a base de dados gerida em território nacional pela Agência Portuguesa do Ambiente que reúne as emissões declaradas por centenas de instalações industriais e produtivas. Não começámos pelo dióxido de carbono. Não porque seja irrelevante, mas porque o seu peso esmagador tende a ocultar tudo o resto.

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    Foto: Patrick Hendry.

    Aquilo que encontrámos foi um retrato muito mais complexo da poluição atmosférica portuguesa. A análise das emissões declaradas em 2024 mostra que refinarias, cimenteiras, fábricas de pasta e papel, centrais de biomassa, siderurgias, unidades vidreiras e até algumas infra-estruturas ambientais continuam a libertar para a atmosfera quantidades significativas de partículas, óxidos de azoto, óxidos de enxofre, compostos orgânicos voláteis, metais pesados e outros contaminantes com impacto directo na saúde humana e nos ecossistemas.

    Entre os nomes que surgem, de forma repetida, ao longo dos diversos poluentes encontram-se empresas como a Galp, através da Refinaria de Sines, a Navigator, a Cimpor e a Secil, ao lado de outros operadores industriais relevantes.

    Importa sublinhar que este trabalho não pretende demonizar empresas nem ignorar a importância económica dos sectores industriais. Uma sociedade moderna precisa de energia, cimento, papel, vidro, aço e inúmeras outras actividades produtivas. O problema começa quando o debate público deixa de querer saber quais são os custos ambientais associados a essas actividades. Uma democracia madura não escolhe entre Economia e Ambiente. Exige transparência sobre ambos.

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    Foto: Robina Weermeijer.

    Este primeiro trabalho constitui apenas o início. Nas próximas semanas analisaremos a poluição da água, os resíduos, os contaminantes específicos e outras dimensões agora frequentemente esquecidas do problema ambiental português. Não partimos de preconceitos nem de agendas ideológicas. Partimos de dados oficiais.

    Talvez a principal conclusão deste primeiro capítulo seja, em simultâneo, simples e incómoda. A poluição não desapareceu. Apenas deixou de ser notícia. E quando um problema deixa de ser notícia sem ter deixado de existir, isso diz-nos muitas vezes mais sobre o estado do jornalismo do que sobre o estado do Ambiente.

  • No Congo, em duas semanas, o Ébola matou 48 pessoas. E a malária 3000…

    No Congo, em duas semanas, o Ébola matou 48 pessoas. E a malária 3000…


    O grave surto de Ébola na República Democrática do Congo tem ocupado manchetes em todo o mundo, substituindo subitamente o hantavírus no ciclo mediático do medo. Trata-se, sem dúvida, de um acontecimento relevante: o Ébola é uma doença potencialmente devastadora e qualquer surto exige uma resposta rápida das autoridades sanitárias. Contudo, uma coisa é noticiar um risco real; outra, bem diferente, é apresentá-lo sem contexto, contribuindo para uma percepção distorcida da realidade epidemiológica.

    Após semanas de alarmismo, com Portugal a definir normas de actuação e a identificar três hospitais de referência — Curry Cabral, São João e Dona Estefânia —, como se estivesse iminente uma catástrofe sanitária, a própria Organização Mundial da Saúde veio agora corrigir substancialmente os números divulgados. Afinal, em vez dos 906 casos suspeitos e 233 mortes que circularam na passada sexta-feira, a OMS passou a contabilizar 321 casos confirmados e 48 mortes desde meados de Maio.

    Os números actualizados do surto de Ébola na república Democrática do Congo desceu para 48 óbitos desde 15 de Maio. Foto. D.R.

    Em termos práticos, a revisão reduziu o número de mortes atribuídas ao surto em cerca de 80%, por razões de validação e classificação epidemiológica. Mesmo admitindo que estes números venham a aumentar, continuamos a falar de algumas dezenas de mortes acumuladas ao longo de várias semanas.

    Para compreender a verdadeira dimensão deste surto é indispensável olhar para o país onde ele ocorre. Segundo um relatório de 2024 da Organização Mundial da Saúde, a República Democrática do Congo registou 857.667 mortes em 2021. Isto significa que morrem, em média, cerca de 2.350 pessoas por dia. Dito de outra forma: num único dia morrem normalmente no Congo quase cinquenta vezes mais pessoas do que todas as mortes confirmadas atribuídas ao actual surto de Ébola desde a sua declaração.

    A comparação torna-se ainda mais elucidativa quando se observam as principais causas de morte num país com uma esperança média de vida de apenas 62 anos — cerca de vinte anos inferior à portuguesa — e uma mortalidade infantil próxima dos 61 óbitos por mil nados-vivos, contra menos de três por mil em Portugal.

    A malária matou na República Democrática do Congo mais de 60 vezes mais pessoas do que o Ébola desde 15 de Maio. Foto: D.R.

    As infecções respiratórias inferiores representam 9,7% de todas as mortes. Em números absolutos, isso corresponde a cerca de 83.200 mortes por ano, ou aproximadamente 228 mortes por dia. A malária é responsável por 8,5% da mortalidade total, equivalendo a cerca de 72.900 mortes anuais, ou 200 mortes diárias.

    A tuberculose provoca cerca de 51.500 mortes por ano, o que corresponde a 141 mortes por dia. As doenças diarreicas causam aproximadamente 39.500 mortes anuais, ou 108 mortes por dia. Já as complicações associadas à prematuridade representam cerca de 134 mortes diárias.

    Dito de forma ainda mais simples: todos os dias morrem no Congo cerca de 200 pessoas de malária. Todos os dias morrem cerca de 140 pessoas de tuberculose. Todos os dias morrem mais de 100 pessoas de doenças diarreicas. Só estas três causas de morte representam quase 450 óbitos diários. Em apenas um dia, matam várias vezes mais pessoas do que o actual surto de Ébola matou desde que foi declarado.

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    Na República Democrática do Congo a taxa de mortalidade infantil é mais de 20 vezes superior ´de Portugal. Foto: Imani Bahati.

    Isto não diminui a gravidade do Ébola. O que faz é enquadrá-lo. O Congo não é uma sociedade que vive em condições sanitárias comparáveis às europeias e que foi inesperadamente confrontada com um vírus exótico. É um país que enfrenta permanentemente uma carga epidemiológica brutal, marcada por doenças infecciosas endémicas, mortalidade infantil elevada, fragilidades estruturais dos sistemas de saúde e enormes dificuldades no acesso a cuidados médicos básicos.

    Por isso, causa perplexidade assistir às comparações simplistas que já começaram a surgir entre o Ébola e o SARS-CoV-2, frequentemente acompanhadas de referências à transmissibilidade como se estivéssemos perante ameaças comparáveis. Não estamos. São doenças profundamente diferentes. O SARS-CoV-2 revelou uma capacidade extraordinária de transmissão respiratória, permitindo a sua disseminação global em poucos meses.

    O Ébola transmite-se sobretudo através do contacto directo com fluidos corporais de pessoas infectadas ou falecidas. A sua elevada letalidade é acompanhada por uma capacidade de propagação muito mais limitada. Ignorar estas diferenças fundamentais para alimentar receios ou produzir manchetes mais impactantes não contribui para informar melhor; contribui apenas para degradar a qualidade da informação.

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    Foto: Dimitri Karastelev.

    O papel do jornalismo não é alimentar receios nem minimizar riscos. A sua função é fornecer contexto, proporção e sentido crítico. E a proporção, neste caso, exige recordar que o actual surto de Ébola ocorre num país onde a mortalidade diária normal ultrapassa as duas mil pessoas e onde doenças infecciosas evitáveis ou tratáveis matam, todos os dias, muitíssimo mais pessoas do que o Ébola matou até agora.

    Sem essa contextualização, o leitor recebe uma imagem incompleta da realidade. E uma imagem incompleta da realidade é, muitas vezes, apenas outra forma de desinformação — mesmo quando apresentada por quem afirma combatê-la.