Morrerá um dia — como morrem todos, até os que se julgam eternos por decreto associativo — uma criatura chamada José Jorge Letria, nascida em Cascais, em 1951, de méritos escassos e currículo generosamente inflacionado, cuja principal contribuição mensurável para a indústria cultural portuguesa tem sido indirecta: o estímulo involuntário à proliferação de eucaliptais, indispensáveis ao fornecimento de celulose para o papel onde se imprimiram centenas dos seus romances, ensaios, poemas e declarações de intenções de reduzido fulgor literário e nula necessidade histórica.
Não se lhe conhece obra que tenha deslocado o eixo do pensamento, perturbado consciências ou acrescentado uma vírgula essencial à literatura portuguesa. Conhecemo-lo, isso sim, pela longa e pachorrenta ocupação de cargos — não no sentido nobre de servir, mas no sentido viscoso de ocupar a Sociedade Portuguesa de Autores: cadeira aquecida, clube fechado, presidência inamovível, dessas que trespassam décadas como as pirâmides atravessam desertos, desde os tempos em que Moisés azucrinava a paciência de um faraó com pragas pedagógicas até ao presente burocrático, onde a rotina colapsa qualquer ideia de grandeza.

Foi nesse contexto — de longevidade institucional sem equivalente em produção intelectual — que surgiu a proeza final. O senhor José Jorge Letria, ou alguém por ele (o que, tratando-se de instituições fossilizadas, vai dar ao mesmo), subscreveu uma nota de pesar pelo falecimento da Clara Pinto Correia que conseguiu a rara façanha de ser simultaneamente mesquinha, falsa, injusta, infeliz e mal escrita — aquilo a que, com rigor geométrico, se poderá chamar a ‘pentatura do círculo’ da mediocridade cultural portuguesa.
Não foi apenas um nojo por conter uma afirmação sobre uma suposta carreira académica “complexa” marcada por uma acusação de plágio inexistente — frase lançada sem rigor, sem contexto e sem pudor, como quem atira lama para um caixão ainda quente. É um nojo maior por reduzir uma mulher de obra científica e literária ímpar a uma nota lateral, quase uma cláusula subordinada de rodapé moral, numa hora que exigia contenção, elevação e respeito.
Mais grave ainda: afirmar que Clara Pinto Correia estaria “afastada dos círculos culturais e mediáticos” quando, no ano anterior, lançara novo romance, mantinha vários projectos literários em curso e se aproximava já da centena de crónicas publicadas no Página Um, onde escrevia com regularidade desde Setembro de 2022. Não é ignorância: é desleixo travestido de autoridade.

Mas o que torna o parágrafo verdadeiramente imperdoável — e aqui entramos no domínio elementar da filologia — é o português da Sociedade Portuguesa de Autores. Um português de escola primária fatigada: gramática manca, tempos verbais em guerra civil — “tendo”, “viria a ter”, “teve”, “tendo estado” — arremessados em duas frases onde cabem três ideias malcozinhadas e nenhuma consciência sintáctica. Um estilo que faria corar um aluno desleixado da quarta classe do Estado Novo e que, vindo de quem passou décadas a administrar direitos de autor, se constitui como uma performance conceptual involuntária sobre a falência da forma.
E ainda assim, o mais grave nem foi o erro inicial. Erros cometem-se. Foi o gesto subsequente: corrigir em silêncio, apagar à socapa, fingir que ninguém reparou e não pedir desculpa.
A Sociedade Portuguesa de Autores do senhor José Jorge Letria, de má letra e pior decência, eliminou a versão original e substituiu-a por um texto anódino, saturado de banalidades, como se a memória colectiva fosse um rascunho editável. Nem à memória de Clara Pinto Correia, nem aos leitores, nem à língua portuguesa — ali violentada sem consentimento — foi dirigido um pedido sincero de desculpas.

Este não é, pois, o obituário de um homem. É sobretudo o obituário de um estilo de poder cultural neste portugalzinho mesquinho: o do dirigente que confunde longevidade com relevância, cargo com autoridade moral e nota pública com licença para o desleixo ético e linguístico. Um estilo que sobreviverá talvez mais alguns anos, alimentado por papel de eucalipto e solenidades ocas, até que, como tudo o que é oco, colapse por falta de substância.
Quando esse dia chegar, não será preciso escrever nota de pesar. Bastará fechar o parágrafo.










































