Os cifrões da covid longa, ou Filipe Froes e o seu ‘negacionismo farmacológico’

Assinala-se hoje, 15 de Março, o Dia Internacional de Consciencialização para a Covid Longa, uma dessas efemérides sanitárias que deveriam servir para aprofundar o conhecimento científico e acabam transformadas num exercício de reafirmação narrativa. Nos últimos anos, a data tem sido usada sobretudo para consolidar uma explicação oficial destinada a empurrar para a categoria de “covid longa” sintomas (mais ou menos) persistentes atribuídos à infecção por SARS-CoV-2, enquanto outras hipóteses clínicas ou epidemiológicas — como os efeitos adversos das vacinas, sobretudo em populações mais jovens — são tratadas com um silêncio quase disciplinar.

É precisamente nesse contexto e ambiente inquinado, com o beneplácito de certa imprensa, que se deve ler o recente texto do pneumologista Filipe Froes, que veio ao espaço público denunciar aquilo a que chama “revisionismo pandémico”, em mais um artigo de opinião no Diário de Notícias, onde jamais revelou as suas ligações comerciais com mais de duas dezenas de farmacêuticas.

Filipe Froes, um dos médicos portugueses com mais ligações à indústria farmacêutica, mantém-se como consultor da DGS e com intenso palco mediático.

A escolha das palavras não é inocente — ainda mais estando em causa Filipe Froes. O termo “revisionismo” pretende colocar qualquer investigação crítica no mesmo plano das teorias conspirativas ou do negacionismo puro. Trata-se de uma técnica retórica antiga e estafada: quando os dados são incómodos, redefine-se o campo do debate de modo que a pergunta deixa de ser científica e passe a ser moral. No texto de Froes, o mecanismo atinge o absurdo do descaramento. O pneumologista não discute dados específicos, nem confronta estudos concretos; prefere recorrer a uma estratégia discursiva baseada em três pilares clássicos: argumento de autoridade, caricatura do opositor e apelo à respeitabilidade institucional.

O problema é que essa forma de argumentação não surge num vazio. Filipe Froes nunca foi um observador neutro da pandemia. Durante os anos de covid-19 transformou-se numa das figuras mediáticas mais omnipresentes no comentário sanitário português, ocupando simultaneamente múltiplos lugares no sistema: especialista frequentemente citado nos telejornais, membro activo de estruturas científicas ligadas à pneumologia e interlocutor privilegiado das autoridades sanitárias. A sua voz tornou-se, em muitos momentos, uma espécie de extensão oficiosa da narrativa institucional sobre a pandemia.

Essa posição teria exigido um escrutínio rigoroso sobre eventuais conflitos de interesse e sobre a proximidade entre certos especialistas e a indústria farmacêutica. Aquilo que aconteceu foi exactamente o contrário. Froes é um dos médicos com mais elevado grau de promiscuidade com a indústria farmacêutica — que jamais revela publicamente — e durante a pandemia foi um dos porta-estandartes de uma forma peculiar de unanimismo médico-mediático que transformou qualquer dúvida metodológica num acto de irresponsabilidade cívica.

Com Froes e outros da sua laia, a ciência deixou de ser um campo de debate para se converter num instrumento de legitimação política.

Neste ponto, Filipe Froes tornou-se uma figura simbólica de um fenómeno mais vasto que poderíamos designar por “negacionismo farmacológico” — a recusa sistemática em admitir a possibilidade de que medicamentos promovidos em larga escala possam gerar problemas que merecem investigação séria. Enquanto o negacionismo clássico nega a existência de fenómenos científicos, o negacionismo farmacológico faz o inverso: nega a legitimidade de investigar determinados efeitos adversos.

O texto de Froes no vetusto Diário de Notícias encaixa perfeitamente nesse padrão. O pneumologista insiste que as notificações de eventos adversos nas bases de dados de farmacovigilância não demonstram causalidade — algo que é, evidentemente, verdadeiro. Mas a conclusão implícita que tenta extrair é de uma desonestidade intelectual quase exemplar: se não existe prova definitiva de causalidade, então qualquer investigação que procure essa causalidade deve ser tratada como desinformação.

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Esta inversão lógica é profundamente anticientífica. Os sistemas de farmacovigilância existem precisamente para detectar sinais inesperados e para gerar hipóteses de investigação. A ausência de prova definitiva não é prova de ausência. A História da Medicina está repleta de exemplos em que efeitos adversos raros foram identificados anos depois da introdução de um medicamento, muitas vezes graças a investigadores que desafiaram consensos aparentemente sólidos.

Aliás, a tese de Froes esconde — e ele é perito nessa ocultação — o funcionamento concreto dessas bases de dados. Em teoria, os sistemas europeus de farmacovigilância deveriam permitir análises estatísticas detalhadas que identifiquem padrões de risco. Na prática, grande parte desses dados permanece subutilizada, sendo apresentada ao público apenas sob a forma de relatórios agregados que pouco dizem sobre possíveis relações causais.

O caso português é paradigmático. Nem após um acórdão do Tribunal Central Administrativo do Sul o Infarmed disponibilizou os dados detalhados das reacções adversas das vacinas contra a covid-19. Corre ainda em tribunal um novo processo destinado a obrigar o presidente do Infarmed, Rui Santos Ivo, a fornecer todos os dados, sob pena de multa. Mas os dados já divulgados mostram um cenário perturbador, sobretudo pela ausência de acompanhamento clínico e pela falta de conclusões.

Artigo de Filipe Froes no Diário de Notícias, onde jamais revela as suas ligações comerciais com a indústria farmacêutica, incluindo as empresas que lucraram com a pandemia.

Com efeito, entre as 27.220 reacções adversas reportadas apenas no primeiro ano da vacinação em Portugal, o Página Um identificou 513 casos classificados como graves ocorridos em pessoas com menos de 25 anos, dos quais 225 permanecem sem qualquer registo de evolução clínica. Nove mortes ocorreram em pessoas com idades entre os 25 e os 49 anos — grupo etário para o qual a mortalidade associada à covid-19 era, mesmo antes da vacinação, residual.

Houve ainda casos de recém-nascidos, não vacinados, que sofreram reacções adversas através do leite materno após a vacinação das mães, e situações de embolias pulmonares, acidentes vasculares cerebrais, tromboses venosas cerebrais e perturbações raras do sistema nervoso — todas registadas como graves — mas também, na maioria, sem que o Infarmed tenha realizado qualquer seguimento sistemático. No caso das alterações menstruais, fenómeno amplamente reportado em todo o mundo, o Portal RAM já contabilizava duas centenas de notificações apenas até Dezembro de 2021, mas nenhuma foi objecto de análise pública ou contextualização por parte do regulador.

Tão grave quanto isto tem sido a postura institucional de Portugal, que trata como párias as vítimas de reacções adversas. O nosso país é um dos poucos na Europa que não dispõe de qualquer sistema administrativo de compensação por danos causados por vacinas ou medicamentos, obrigando os cidadãos a recorrer aos tribunais para provar a causalidade.

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Na pandemia de covid-19 cientistas de topo que se opunham às posições da OMS foram censurados e perseguidos.

Esta ausência institucional não é um detalhe burocrático. Revela uma contradição profunda na política de saúde pública. Enquanto vários países europeus criaram regimes “no-fault” de compensação — reconhecendo que políticas de vacinação em massa implicam riscos residuais que devem ser assumidos colectivamente — Portugal optou por transferir esse risco jurídico para o indivíduo.

O conceito de “covid longa” transformou-se assim, de forma atroz e hipócrita, numa espécie de dogma clínico de contornos elásticos. Froes e a gente da sua laia demonstram uma fé quase inabalável na covid longa, admitindo sintomas persistentes mesmo em indivíduos sem infecção confirmada. Mas quanto à hipótese — igualmente plausível do ponto de vista imunológico — de que alguns desses sintomas possam estar relacionados com respostas pós-vacinais, essa possibilidade é colocada fora de qualquer debate institucional e científico.

A ciência não funciona assim. A investigação médica exige precisamente o contrário: examinar hipóteses concorrentes, testar mecanismos biológicos plausíveis e confrontar dados contraditórios. Quando determinadas perguntas passam a ser tratadas como tabu, a medicina aproxima-se perigosamente da teologia.

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Mas a estratégia de Froes — o médico amigo das farmacêuticas — consiste sobretudo na desqualificação moral dos críticos. Segundo ele, quem levanta dúvidas sobre a segurança vacinal não merece confiança. Curiosamente, o mesmo pneumologista tentou recorrer aos tribunais para limitar a forma como podia ser criticado no espaço público — um episódio que terminou recentemente com uma decisão judicial a reconhecer o meu direito a utilizar linguagem dura e incisiva ao referir-me aos seus métodos e à sua actuação pública.

Essa decisão não é apenas um detalhe jurídico — é sobretudo um lembrete elementar: em sociedades democráticas, figuras que participaram na construção da narrativa sanitária de uma crise histórica não estão acima da crítica — muito pelo contrário, sobretudo de tiverem os comportamentos e atitudes de um Filipe Froes.