Viajo num comboio para Madrid que partiu de Lisboa. Sou um lisboeta e um madrileño que nasceu em Alfama.
Sou do Benfica e do Real Madrid.
Eu e um indivíduo de aspecto duvidoso, que parece castelhano pelo excesso de gel no cabelo e pelos Yumas que tem calçados – uma marca que só os espanhóis admiram porque eram as Puma espanholas dos anos 70 – reparo que somos os mais despertos, já que os restantes passageiros parecem meio adormecidos ou meio acordados.
O espanhol pisca-me o olho como se tivéssemos uma cumplicidade nocturna – se calhar temos. Ele tem a máscara no queixo e, pouco antes, tinha-a na testa, em jeito de provocação. Mas, como todos dormiam… por mim, tudo bem.
Devido à minha profissão de médico, já estava vacinado com a Pfizer, algo de que me arrependo, e já tinha sido também um dos famosos assintomáticos covidianos, acredite-se ou não.
Em espanhol, a este tipo de personagens chama-se gamberros, os excessivos, os mal-educados, os chungas. Por ser de Alfama e do bairro madrileno de Vallecas, já estava vacinado contra os chungas, embora fosse amigo de muitos. Tive uma infância ibérica difícil, em que fui inoculado contra muita coisa.
Olho pelo vidro e só vejo o meu reflexo na escuridão.
Entretanto, o comboio pára em Mangualde e ainda consigo dar três passas num Lucky’s, sozinho na estação e por entre o nevoeiro que ofusca por completo o fumo do meu cigarro.
Penso em como a vida tem, de uma forma ou de outra, muito para oferecer e, se quisermos, os nossos cinco sentidos estarão sempre em apuros.
Volto para a carruagem e deparo-me com uma imagem soberba: estavam todos a dormir, sem excepção, embora não fôssemos muitos a habitar aquele comboio-fantasma.
Estavam todos de máscara na cara, incluindo o gamberro. Dormiam de máscara.
Uma vez, num avião, aconteceu-me algo parecido: os passageiros dormiam todos com aquelas vendas anti-luz nos olhos. Qual delas a mais estranha. Numa não queriam luz; nesta não queriam vírus. Pensavam eles, enganados. Ajustava-se ao momento, ou mesmo à era de trevas que parecíamos estar a viver.
Imaginava que estavam todos mortos e eu era o único morto-vivo do comboio em andamento.
Volto à janela e, desta vez, para além do meu reflexo, vejo também o dos meus amigos mais próximos, como se fossem estetas da escuridão e fantasmas da minha alma — uma miragem verdadeira e pouco soturna.
A nossa luz até pode ser escura, mas deve incendiar os mais incautos. Pensei nos meus amigos mais uma vez e nas suas expressões sorridentes. Vejo-os como uns heróis deste novo western, em que as pistolas foram substituídas pela boca e as balas são o oxigénio.
Vou até ao bar analógico e invento um futuro em que o digital existe, mas só cabe num frame. Não estou num comboio; estou num filme-comboio a várias velocidades.
Não há que ter medo do escuro!, penso novamente, e pergunto-me se não nos estamos a dirigir, a alta velocidade, para o abismo.
Don Alonzo, o barman, como se tivesse ouvido a minha voz interior, responde-me que não, que o abismo não existe; o que existe é a escuridão, e isso não é o abismo.
Don Alonzo, que eu já conhecia de outras viagens, gostava de filmes de terror e, nalgumas viagens, tinha um grande prazer em contar-me alguns momentos dos filmes de que gostava. Nunca dormia, dizia ele, mas eu não acreditava.
Senti que estava naquele momento de The Shining em que Jack, o Nicholson de outrora, fala com o empregado de bar do Hotel Overlook, com a diferença de esse ser um fantasma e este não. Pelo menos, Don Alonzo, a sê-lo, seria um fantasma a sério.
Falo do velho empregado de mesa e de balcão com admiração. Usando ainda um antiquado pano branco sobre o ombro, dá ao mundo uma lição de gentileza e de elegância. Através de mim ou para mim, disserta alegremente sobre o silêncio, enquanto árvores negras passam por nós a toda a velocidade.
— Está a ver? É a escuridão que nos avassala — diz-me ele, olhando para o vidro, que só consegue projectar a sua imagem escurecida e fosca, mas de uma beleza desconcertante.
O pano e a farda branca compunham, ainda no reflexo, uma bela forma na janela do bar-carruagem que, àquela hora, já devia estar fechado, segundo as regras. Mas Don Alonzo não gostava de regras e, como era exímio e esplêndido no seu trabalho, a gerência fechava os olhos à sua anarquia. Era, segundo ele, uma anarquia de confiança.
Tudo é vida, e alguns sabem capturá-la na sua dimensão tosca e total, fúnebre e festiva, disléxica e matemática, onde naturalmente se inclui Don Alonzo, grande orador do fragmento e da dispersão, do concreto e do abstrato — enfim, da Vida sem medo da Vida.
Passámos a noite a conversar por entre vodkas, martinis e filmes de zombies.
Pouco antes de vermos os imensos arredores de Madrid, todos feitos em tijoleira, o misterioso e coordenado barman do comboio no qual me deslocava a cem à hora — o velho Lusitânia, que agora era também o Sud-Express — ainda me disse:
— Continua a ir aos treinos, que estamos a construir silenciosamente o arco do futuro!
E depois começou a dar os últimos toques no bar para ficar impecável, de forma a que o empregado do próximo turno não tivesse trabalho indevido.
Despedimo-nos calorosamente. A sua pose era estudada e cinematográfica. Depois de várias disserações nocturnas despojadas de ego, só a luz e a presença do bar nos iluminava. Ainda antes de um último gole no seu cafécon leche, acrescentou:
— Vai e dá-lhes trabalho!
Uma frase que roubara a João César Monteiro em Recordações da Casa Amarela, dita pelo louco, interpretado por Luís Miguel Cintra — para ele um filme de terror, já que o realizador lisboeta era igualzinho ao Nosferatu, o fantasma da noite.
Acordo na velha e bela Atocha e sei que, quando sair, vou regressar à movida madrileña e aos seus excessos poéticos e criminosos de outrora.
Não fiz uma viagem de comboio… fiz uma viagem no tempo, percebo agora, enquanto me sento na sala de espera do Hospital de Santa Maria. Não estou aqui nem como paciente nem como profissional de medicina. Espero pela Rute, uma enfermeira encantadora que fala bem espanhol e gosta de histórias.
É simples, como disse. À noite, o praticante deita-se, acende o abajur, apanha um livro e lê um conto entre os indicados por nós.
Nosso critério básico: amplitude mundial.
Por exemplo, digamos que alguém, um de nossos crentes, leia religiosamente durante vinte anos (sete mil e trezentas noites). Obviamente, ao cabo desse tempo, ele terá adquirido uma sólida base de leitura, mais do que suficiente para que se transforme, caso queira enveredar por essa penosa senda, em escritor.
É impossível que alguém, num prazo tão dilatado como o do exemplo acima, não consiga descobrir o secreto mecanismo que move as histórias enxutas.
Dizem os jocosos taoístas – que não devemos confundir com os enfadonhos budistas – que, com a experiência prolongada, o artesão se transforma em ferramenta.
Não somos preconceituosos. Aceitaremos até mesmo contistas norte-americanos. Nesse caso, daremos preferência a Herman Melville, claro. Dele recomendaremos especialmente a leitura de “Bartleby, o escriturário”. Não só porque a fruição dessa tragicômica novela curta (ou conto demorado) esteja hoje na moda, mas, sim, porque se trata de um causo especialmente comovente para brasileiros e portugueses porque tem como personagem um escrivão, figura destacada na ficção destas nossas nações advocatícias e cartorárias.
Ernesto Hemingway entrará também, com aquele conto estendido (ou novela curta) sobre o peixe que fisga o velho cubano do pescoço gretado pelo sol e que o leva a passear pelo golfo incendiado de luz dourada.
Que uma coisa fique clara! Hemingway foi aceito no nosso rol não pelo seu contestado talento literário, mas porque nasceu em 1899, o mesmo ano que nos presenteou com Nabokov e Borges.
Outro convocado para a nossa lista será o senhor Bret Harte, autor de “Os exilados de Poker Flat”, aquela comovente história sobre a lufada de azar que matou mister John Oakhurst, jogador de profissão, e que levou junto, de cambulhada, seus companheiros de infortúnio: Mamãe Shipton, Duquesa, Tio Billy, Inocente e Piney Woods.
Para quem não sabe, esclareço que o filosófico mister Oakhurst foi o sujeito que cravou em um pinheiro, com uma faca de mato, uma carta de baralho (dois de paus), na qual estava escrita, com letras firmes, a seguinte sentença:
Ao pé desta árvore jaz o corpo de John Oakhurst que encontrou uma aragem de má sorte em 23 de novembro de 1850 e sucumbiu aos seus golpes no dia 7 de dezembro de 1850.
Aceitaremos mais uns poucos americanos. Entre eles, a querida senhorita Carson McCullers.
Na verdade, admito, criamos severas restrições para a entrada em nosso cânone de ficcionistas de uma nação que ama esportes violentos, entre os quais se sobressai a caça às mulheres alheias. Mas só a invenção do beisebol já bastaria para expulsá-los do convívio humano.
A excelência literária é o nosso único critério.
Mas advirto: não seremos tão democráticos a ponto de aceitar muitos franceses. Ficaremos restritos a Mérimée e Maupassant. Quatro contos para cada um. E, vá lá, três para Flaubert! Não, não insistam, não aceitaremos nenhum outro comedor de lesmas.
Sem dúvida, escolheremos as melhores narrativas curtas. Estilo, conteúdo e originalidade serão critérios inarredáveis.
O melhor conto do mundo, como já afirmamos, trata-se de “A sereia”, de autoria do Senhor Príncipe Lampedusa, um homem avesso a badalações, alto e bem-vestido, um tanto frouxo de carnes, de olhar impenetrável.
Não quero descer a detalhes sobre a produção local, mas um dos contos do ministro Machado de Assis será “Noite de almirante”, uma historieta na qual nos defrontamos, novamente, com mais uma mulher vulgar, promíscua e lúbrica, exatamente como Capitu, a protagonista do romance Dom Casmurro.
Outra presença luminosa do senhor Joaquim de Assis Machado será o conto “Uns braços”, que retrata um caso clássico de pedofilia, no qual uma insidiosa e viciosa mulher madura avança sobre o imaginário de um jovem abobado de quinze anos.
Ninguém soube retratar tão bem como o Bruxo do Cosme Velho a desfaçatez e a iniquidade femininas.
A relação de contos que indicamos a nossos seguidores já se encontra, sob cláusula de sigilo, com o Concílio para a Propagação da Fé entre os Gentios Devoradores de Letras Impressas.
Nós, luminares desta nascente religião, não prometeremos recompensas terrestres ou mesmo celestiais a nossos fiéis.
Mas uma coisa é certa: o cidadão que está preso na malha de um conto perfeito certamente não esfaqueará, durante a leitura, sua esposa adúltera. Ele postergará essa sua inclinação criminosa. Por fim, vencida a leitura ritual, mais calmo e tranquilo, ele se contentará em tão somente surrar a vadia.
Por meia hora, uma hora, o praticante ficará embevecido com a leitura de uma história curta.
Se, porém, um dos nossos fiéis ceder à tentação de agarrar-se a um livro de autoajuda, mesmo que metamorfoseado em obra de ficção, nós lhe imporemos, a título de penitência, a travessia da Galícia espanhola na pernada lendo livros de bruxaria rabiscados por escrevedores do Hemisfério Sul.
A leitura de “Carmen” se estenderá por duas horas.
O passeio com “Emma Zunz” durará dez minutos.
Em uma hora e meia lê-se “O alienista”.
Função, natureza e fim último da literatura: entreter homens e mulheres, estas últimas em menor grau.
Um ensaio a ser escrito por um de nós, o Mestre ou um dos Iniciados, esclarecerá tudo que foi dito acima para a turbamulta de analfabetos e ignorantes crassos que povoa esta Nação Futebolística.
Reconheçam que nunca nenhum entre vocês imaginou que poderia ouvir em vida uma palavra tão insólita e inquietante quanto essa: turbamulta.
Os ignorantes são rancorosos. Quando nos veem com um livro nas mãos, logo pensam em arranjar-nos um trabalho braçal.
Pode existir trabalho decente – que não o de escrever ou ler – para aqueles que, como nós, só obtêm prazer e gozo com continhos ou de noveletas?
Não!
Mulheres, quando aceitas na seita, terão carga menor de leitura. Meio conto por dia. Para que não sofram lesões mais graves no aparelho cerebral, quando dotadas de um.
A cabeça de uma mulher só é equilibrada pelo uso dos brincos.
Amorosas? Vossa Excelência afirmou que mulheres são mais amorosas. De onde tirou essa conclusão? Sim, sim, aceito vosso argumento. Sim, é verdade que alguém precisa trocar as fraldas embarradas dos bebês. Sim, também é verdade que essa tarefa imprescindível só pode ser desempenhada por alguém que alcançou a suprema benção/maldição do amor genuíno. Não falta razão a Vossa Excelência: as mulheres são mais amorosas. Reconheço.
Mulheres preferem filhos às obras impressas.
Mulheres só se apaixonam por homens que as tratam como se fossem cortesãs.
Para que não sejamos acusados por falsários de incentivar e exaltar a misoginia, aceitaremos na nossa seita ledora pessoas pertencentes ao segundo sexo, mesmo que sabidamente tenham dificuldade de concentração.
Adúlteras ou não serão acolhidas em nosso seio.
Em nosso mamilo, quero dizer.
“Jesus mamilo” é um conto muito bom de Nick Hornby, que nasceu na Inglaterra. Ah, britânicos não são americanos! Autores britânicos terão preferência na cota que destinaremos aos cínicos e debochados.
Mulheres odeiam a solidão.
Enquanto lê o ser humano tem apenas a si mesmo.
Estar absolutamente só é inaceitável para uma mulher.
À solidão elas preferem a companhia de qualquer um. Mesmo que esse qualquer um seja uma pessoa constrangedoramente inculta.
Mulheres preferem amantes grosseiros, mesmo que sejam surfistas ou que se expressem em inglês de lutador de jiu-jitsu.
Quem lê basta-se a si mesmo.
A mulher, porém, enquanto avança na leitura de uma obra impressa, lança, de segundo em segundo, olhares angustiados em torno de si à procura de concavidades auriculares nas quais possa descarregar o furacão de palavras fúteis que lhe ocupa a mente o tempo todo.
Mas nós as receberemos de braços abertos porque tudo isso é sabido há milênios. Vide Bíblia.
O que direi a seguir já foi dito aqui, mas é imperioso repisar certos conceitos éticos e estéticos para que fiquem gravados na nossa mente.
Leitores não têm fome ou sede.
Leitores apaixonados não se movem até o banheiro ou à geladeira.
O corpo e a mente daquele que lê estão unidos, entrançados, visando um único objetivo, que é a perdição no encadeamento encantatório das palavras impressas.
A função última da literatura é o entretenimento.
Oratore, oraculu.
Confesso-vos que ficaria desvanecido caso um de vocês, meus queridos apóstolos, venha a elaborar no futuro (no passado seria ainda mais criativo) um breve ensaio, com ares de conto, sobre essa minha revelação a respeito da finalidade exclusiva – o entretenimento! – da obra literária.
Por fim, peço-vos humildemente que divulguem essa nova em todo o desmedido universo, vasta terra devastada, desde que, é claro, antes, vocês tenham comprado os devidos selos e estampilhas. Imprima-se em mimeógrafo. E dê-se o crédito ao autor.
Lourenço Cazarréé escritor
Publicado originalmente no livro Kzar Alexander, o louco de Pelotas, 2018, Biblioteca Pública do Paraná
Casaram-se com outras pessoas, mas continuaram pontuais.
2.
O Homem que Caiu
Um homem caiu da cadeira, levantou-se, caiu da janela, levantou-se, caiu num poço.
No fundo do poço, disse:
— Já entendi.
Mas ninguém lhe tinha perguntado nada.
3.
O Carteiro
O carteiro entregava cartas imaginárias desde 1913.
Em 1937, foi preso pelo crime de conspiração literária.
Na cela, escreveu 812 cartas que ninguém recebeu — e, mesmo assim, todos lhe responderam.
4.
A Reunião
Convocaram todos para uma reunião.
Ninguém apareceu.
Foi considerada um sucesso.
5.
Sobre um Chapéu
O chapéu de Piotr Aleksandrovitch começou a andar sozinho.
Piotr correu atrás dele durante três dias.
6.
A Cadeira
Uma cadeira começou a tossir.
Chamaram o médico.
O médico sentou-se na cadeira.
Agora, é ele quem tem tosse.
7.
O Senhor Sem Nome
Ele apareceu na fila do pão, sem nome, sem chapéu, sem nenhum motivo.
Comprou um pão e evaporou-se.
O padeiro, depois, disse que nunca houve fila.
8.
A Cidade das Portas Fechadas
Naquela cidade, certa manhã, todas as portas amanheceram trancadas por dentro, as chaves não serviam, os cadeados negavam o próprio mecanismo, como se o Mundo, de repente, tivesse decidido ficar para si mesmo e os homens, dentro das casas, olhavam uns para os outros sem saber se estavam presos ou guardados contra eles próprios e foi então que alguém disse, muito baixinho, «Talvez sejam as ruas que querem descansar de nós» e ninguém teve coragem de o contradizer.
9.
Um Cão
O cão esperou sete anos pelo dono, não porque fosse fiel, mas porque não sabia ser outra coisa, e todos os dias ia à estação, cheirava os carris, rosnava para os pombos e deitava-se ao lado da bilheteira, até que um dia chegou um comboio sem ninguém, vazio como uma promessa quebrada, e o cão entrou, deitou-se na terceira carruagem, e ali morreu de saudade, que é como os cães morrem quando ninguém está a ver.
10.
A Árvore
O velho plantou uma árvore sabendo que não lhe veria os frutos, porque já não via sequer os próprios pés e o seu tempo estava a acabar-se, mas queria que alguém, um dia, dissesse, «Olha, que sombra boa, que frescura», ainda que sem saber que sombra e frescura vinham de mãos gastas, unhas sujas de terra e um coração que ainda teimava em bater, mesmo depois de tanto cansaço e desilusão e foi assim que morreu de pé, de enxada na mão, sorrindo para as raízes como quem diz, «Fiz o que pude».
11.
A Cidade
Numa cidade onde ninguém nunca mentia, nasceu um rapaz que não dizia a verdade, não por maldade, mas porque via o Mundo como queria que fosse e não como era e então dizia que os rios corriam para dentro da terra e que as árvores falavam com os mortos e que o amor não acabava nunca e os outros, que viviam na Verdade como quem vive num cárcere, ouviram-no e começaram a sonhar e foi assim que a cidade se desfez em poesia.
12.
A Casa
Acordou com o som de passos no corredor, embora morasse sozinho e, ao sair do quarto, deu-se conta de que todas as portas do apartamento haviam desaparecido, não trancadas, não obstruídas, apenas ausentes, como se nunca tivessem existido, e quando tentou gritar, percebeu que falava numa língua que não conhecia e que ninguém, nem mesmo ele, poderia compreender.
13.
No Ministério
Chamaram-no ao Ministério para lhe explicar um erro que cometera, embora não soubesse de erro algum, e durante horas repetiram-lhe que não bastava negar, era necessário confessar, mas como se confessa o que não se entende? Perguntou então isso aos Senhores Inspectores, ao que lhe responderam, em uníssono e com ternura: justamente por isso é que deve confessar, para que possamos explicar-lhe o que fez.
14.
Na Repartição
Na repartição onde trabalhava há vinte anos, trocaram-lhe a secretária, o nome na porta e o número do crachá e, ao protestar, disseram-lhe que se enganava, que nunca fora aquele funcionário, que provavelmente nem trabalhava ali e quando tentou sair do edifício, percebeu que todas as saídas levavam de volta à sua nova secretária, onde havia papéis esperando por ele, já com prazos vencidos.
15.
Mais Um Processo
Recebeu uma carta selada com um brasão desconhecido, contendo apenas a frase «O teu julgamento será amanhã», mas não havia endereço, nem remetente, nem a morada de um tribunal e passou o dia seguinte à procura do lugar onde seria julgado, perguntando a estranhos que o olhavam com pena e recuo, até que anoiteceu e ele, exausto, sentou-se num banco de pedra, onde alguém lhe disse, sem rosto na penumbra: o julgamento já começou e está terminado, não viste que foste condenado?
16.
Esperar o Nada
O homem sentou-se na cadeira para esperar.
— O que espera? — perguntou o carteiro sem cartas.
— O nada.
— O nada não nos entrega nada.
— Mesmo assim, espero-o.
Vieram o leiteiro, a chuva e um cavalo de três pernas. Todos perguntaram, todos se foram embora.
Anos depois, o nada chegou.
— Vim pelo chamado.
— Demorou.
— Estava ocupado com tudo.
17.
A Conversa Entre Cactos
— Bom-dia — disse o cacto.
— Não se pode dizer bom-dia sem língua — respondeu o outro.
— Mas eu falei, tu ouviste.
— Isso é uma invenção tua.
— E tu, então, que sonhas com chuvas inexistentes?
— Sonho com secas molhadas.
Riram os dois. A areia ao redor contraiu-se de vergonha.
Naquela noite, a Lua fez brotar flores nos seus espinhos.
No dia seguinte, esqueceram-se de tudo.
18.
O Relógio Sem Ponteiros
Na sala, havia um relógio sem ponteiros.
— Que horas são? — perguntou o visitante.
— As mesmas de sempre: talvez.
— Mas eu tenho um comboio para perder.
— Então chegue cedo para não sair da gare.
O visitante rodou a maçaneta que não girava.
— Esta casa está de cabeça para baixo.
— Não, você é que está demasiado de pé.
O visitante deitou-se no tecto e dormiu acordado.
19.
A Reunião dos Invisíveis
Chegaram, pontualmente, às dez: o Senhor Nada, a Senhora Ausência e o Filho do Silêncio.
— A acta do dia é que não há acta — anunciou a presidente, que, aliás, não estava presente.
— Alguém trouxe as cadeiras?
— Claro que não — disseram em coro.
Discutiram por horas sobre o que não havia acontecido. Votaram por unanimidade que a existência estava suspensa.
Depois, levantaram-se, mas não se foram embora.
20.
Diálogo com uma Porta
Bati.
— Quem é? — perguntou a porta.
— Eu.
— Não conheço esse nome.
— Quero entrar.
— Não há dentro. Só dobradiças.
Insisti:
— E se eu for a chave?
— As chaves mentem — disse a porta com um suspiro de madeira velha.
— E se eu for o vento?
— Então passe.
Passei. Mas do outro lado só havia o mesmo lado.
21.
A Máquina de Pensar
Instalaram-na no centro da cidade.
— Ela pensa por todos — disseram.
— O que ela pensa? — perguntou um velho.
— Que todos devem perguntar menos.
— Mas isso não é pensar!
— Exactamente — respondeu a máquina. Dias depois, já ninguém tinha dúvidas.
A máquina riu, ou pelo menos fez um barulho semelhante ao de uma gargalhada esquecida, ausente.
22.
A Cabeça
Acordou e descobriu que já não tinha cabeça. Procurou por toda a casa, mas só encontrou um pão seco e uma pena de corvo.
Mesmo assim, foi trabalhar. Ninguém notou.
23.
A Porta
Ivan Ivanovitch tentou sair de casa, mas a porta não o deixava.
Discutiram durante horas.
Ao fim, a porta disse: «Agora, sou a tua esposa».
Ivan Ivanovitch voltou para a cama.
24.
A Gravidade
Nina Pavlovna caiu da janela do terceiro andar, mas não se magoou.
Afinal, era Terça-Feira, e às Terças, como todos sabem, a gravidade dorme até ao meio-dia.
25.
O Silêncio
Um homem muito sério entrou numa loja e pediu um quilo de silêncio.
O balconista, sem dizer nada, embalou, cuidadosamente, um relógio parado.
26.
O Poema
Klim Petrovitch escreveu um poema tão pequeno que ninguém conseguia encontrá-lo.
Suspeita-se que esteja escondido dentro de uma letra «o».
27.
O Pombo
Tikhon Tikhonovitch resolveu não se mexer.
Ficou parado durante sete anos.
Quando, finalmente, piscou um olho, um pombo explodiu.
28.
O Chá
Uma senhora caiu na escada e continuou caindo pela rua, atravessou o mercado, desceu a avenida e só parou no Mar Negro.
Quando lá chegou, pediu um chá.
29.
A Chávena de Porcelana
Ele tomava chá, sempre, às quatro, sozinho, na sala onde a luz da tarde parecia hesitar. A chávena, a mesma que ela usava, repousava entre os seus dedos como se contivesse algo mais do que chá: continha o hábito, a ausência, o último gesto antes do adeus. Nunca chorou por ela. Apenas prosseguia, repetindo a cerimónia, como quem tenta reter a eternidade numa colher de prata.
30.
O Livro Não Lido
Durante trinta anos, evitou a estante mais alta do gabinete. Sabia que ali repousava o livro que ela lhe emprestara e que ele, por orgulho ou covardia, nunca abrira. Quando, finalmente, o fez, encontrou na primeira página uma dedicatória: «Para que saibas que eu sabia — e ainda assim esperei». Sentou-se. Pela primeira vez em décadas, sentiu frio nos ossos até ao mais fundo da alma.
31.
A Visita
Ela apareceu sem avisar, décadas depois, como se o tempo tivesse sido apenas um erro do calendário. Conversaram sobre trivialidades, sobre os filhos, sobre as mortes mútuas. Quando se despediu, ele percebeu que o perfume dela era o mesmo — mas havia perdido o poder de ferí-lo. E isso, mais do que a saudade, foi o que o deixou em silêncio até ao anoitecer.
32.
Jantar de Família
A mãe serviu sopa de beterraba. O pai colocou um chip de última geração na testa. A filha tirou os olhos e mergulhou-os no caldo — para temperar. O avô sussurrou orações ao Presidente Eterno enquanto mastigava o jornal do dia anterior.
«Está um pouco salgado», disse o robô doméstico, antes de explodir em chamas azuis.
Ninguém reagiu. Era Terça-Feira.
33.
A Quota
Cada cidadão tinha direito a 12 gramas de afecto por mês. O protagonista gastou tudo no primeiro dia, ao sorrir para uma mulher na fila do pão sintético. Foi multado, espancado por drones éticos, e enviado para a Zona Sem Emoções.
Lá, ensinavam a amar apenas o Partido.
Ele aprendeu. Depois, pediu mais 2 gramas — para odiar com verdadeira intensidade.
34.
Instruções Para Uso Diário
1. Acorde às 6h.
2. Injecte o Pensamento Aprovado do Dia (disponível no Dispensador Estatal).
3. Masturbe-se com a imagem do Líder.
4. Trabalhe doze horas, produzindo silêncio.
5. Sonhe apenas com paredes brancas.
6. Se sonhar com cor, denuncie-se ao espelho. O espelho irá julgá-lo com justiça.
35.
O Ovo
Às 09:00 horas em ponto, todos os cidadãos receberam um ovo pela escotilha da parede.
Era azul.
Estava quente.
A instrução era clara: «Incube com devoção».
A maioria chorou ao tocá-lo. Um homem riu. O seu corpo foi dissolvido por um feixe laser de reeducação imediata.
Ao meio-dia, os ovos racharam. De dentro, saíram pequenas cópias nuas do Líder.
Elas sorriam.
Todos aplaudiram.
C.
Zona C
Na Zona C, só se falava em C.
— C, C! — gritou um homem.
— C… — respondeu outro, com reverência.
Uma mulher nua dançava em C menor enquanto inseria cápsulas de censura em cada orifício.
Ao meio-dia, chegaram os Supervisores, com os seus cães adestrados em farejar pensamentos livres.
Um cão latiu três vezes.
O homem foi fatiado em tiras e usado para encadernar o novo dicionário do silêncio.
Letra C: Camarada, Carne, Castigo, Consentimento.
36.
O Amor em 2084
Ela disse que o amava.
Ele respondeu com o código QR do seu coração.
Fizeram sexo usando avatares clonados da Mãe e Pai Nacionais.
Ela gozou um hino. Ele ejaculou estatísticas económicas.
Na manhã seguinte, receberam uma notificação conjunta:
«Sentimento não autorizado. Preparem-se para reeducação sensorial».
37.
Ivan e a Chaleira
Ivan colocou a chaleira ao lume e sentou-se à espera que a água fervesse.
Duas horas depois, descobriu que ele era uma tartaruga.
Mesmo assim, bebeu o chá.
38.
As Moscas
Havia uma mosca na sopa de Andrei.
Ele chamou a empregada.
Ela olhou a sopa e mergulhou nela.
Andrei disse: «Agora há duas».
A empregada, a nadar na sopa, ainda respondeu: «Não conte números, conte-me histórias».
E desapareceu, no mais elegante mergulho, entre os legumes.
39.
O Poeta
O poeta escreveu: «O Sol desce como um velho bêbado».
O Sol ouviu, zangou-se e parou de descer no horizonte.
A noite não veio.
O poeta foi preso por ter cometido um crime de sabotagem celeste.
40.
Liberdade!
Em desespero, o homem gritou «liberdade!»
O eco respondeu com algemas.
41.
A Carta
A última carta dela dizia apenas:
«Voltarei para ti quando fores tu».
42.
A Casa
De vez em quando pensava, «Construí uma casa de memórias, mas esqueci-me onde ficava a porta».
43.
A Mulher Eterna
Maria Petrovna decidiu que ia viver para sempre.
Às 14:03 horas tropeçou num gato imaginário e partiu o pescoço.
44.
O Peixe
Três homens discutiam sobre um peixe invisível. No entanto, o primeiro era surdo, o segundo não falava, e o terceiro tinha morrido na Terça-Feira.
Mesmo assim, chegaram a um consenso.
45.
Da Nitidez
Kuznetsov escreveu um poema tão curto que desapareceu antes de ser lido.
Agora, dizem que ele é um génio.
Ou um carteirista.
A linha é ténue.
46.
O Gato
Um velho gritava do quarto ao lado:
— Tragam-me os meus sapatos ou um motivo para continuar!
Trouxeram-lhe um gato e uma colher.
Ele foi à ópera e nunca mais voltou.
47.
A Cadeira
A professora pediu que cada criança desenhasse o seu pai.
Vassili desenhou uma cadeira vazia.
Todos acharam comovente, talvez o pai de Vassili já tivesse morrido e a cadeira fosse uma metáfora da ausência do pai.
Mas era apenas a única coisa que ele sabia desenhar.
48.
Aconteceu
Um homem sentou-se numa esquina à espera de um acontecimento.
Passaram-se 42 anos.
Um dia, um pombo sentou-se no seu chapéu.
O homem disse: «Finalmente».
E evaporou-se.
49.
O Voo
Nikolai gritava que sabia voar.
Lançou-se da janela de um rés-do-chão alto.
Partiu o nariz.
Voar, soube-o depois, era uma metáfora.
50.
Panorama
A avó de Pavlov levitava sempre que mentia.
Mentia todos os dias, só para ver melhor o quintal.
João Pereira de Matos é escritor e investigador no CHAM – Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa.
Fernando Aramburu(tradução: J. Teixeira de Aguilar)
15/20
Recensão
Depois do extraordinário impacto de Pátria, Fernando Aramburu passou a escrever sob o peso inevitável da comparação com a obra que o consagrou. A partir dela, cada novo livro do autor parece confrontar-se com uma expectativa quase impossível de satisfazer. Maite confirma essa dificuldade. Embora revele a mesma escrita cuidada e a atenção aos pequenos gestos da vida quotidiana que caracterizam Aramburu, está longe da profundidade psicológica, da complexidade narrativa e da intensidade emocional que fizeram de Pátria um romance memorável.
Aramburu continua a escrever com elegância. A sua prosa é depurada, os diálogos são naturais e mantém um olhar atento sobre os pequenos gestos da vida quotidiana. No entanto, uma escrita competente não basta para sustentar um romance quando as personagens carecem de densidade e o conflito dramático nunca ganha verdadeira força.
A maior fragilidade do livro reside na construção da protagonista. Maite é apresentada como uma mulher adulta, mas a sua forma de olhar o mundo aproxima-se frequentemente da de uma criança. A ingenuidade com que interpreta os acontecimentos, a dificuldade em compreender as motivações dos outros e a maneira como reage aos conflitos tornam-na pouco convincente. Não se trata apenas de vulnerabilidade ou sensibilidade; trata-se de uma imaturidade emocional persistente que reduz a credibilidade da personagem e dificulta a identificação do leitor. Em vez de uma personalidade rica em contradições, encontramos uma figura excessivamente linear, cuja visão infantil da realidade acaba por limitar o alcance do romance.
A personagem da irmã, vítima de violência doméstica, acaba igualmente por ficar aquém do que prometia. O tema possui enorme relevância humana e social, mas é tratado sem a profundidade necessária. A violência funciona sobretudo como elemento dramático, sem que o romance explore verdadeiramente os mecanismos de dependência, medo e manipulação que caracterizam este tipo de relações.
Um dos fios condutores do romance é o passado recente do País Basco e a herança deixada pela ETA. Embora este universo seja menos central do que em Pátria, continua a marcar as personagens e a condicionar as suas escolhas. Contudo, o tratamento deste tema parece aqui menos incisivo. Em vez da complexidade moral e política que distinguia Pátria, Aramburu limita-se a recuperar um pano de fundo já conhecido, sem lhe acrescentar novas perspectivas ou um verdadeiro aprofundamento. A presença da ETA acaba por funcionar mais como memória difusa do que como elemento estruturante da narrativa.
Ao contrário de Pátria, onde cada personagem possuía voz própria e uma notável espessura psicológica, Maite apresenta figuras que raramente ultrapassam os limites da função narrativa que lhes foi atribuída. O enredo avança sem grandes sobressaltos e o resultado é um livro que se lê com facilidade, mas que dificilmente permanecerá na memória do leitor.
A edição portuguesa também não ajuda. A tradução revela opções pouco felizes e um português por vezes pouco natural. Torna-se particularmente repetitiva a expressão “fazer castelos”, utilizada inúmeras vezes para descrever os diálogos imaginários ou as conversas que Maite estabelece consigo própria. Independentemente da fidelidade ao original, a insistência nesta fórmula soa artificial em português e acaba por distrair o leitor, quando uma tradução literária deveria precisamente ser invisível.
Maite não é um mau romance. Beneficia da experiência e da qualidade literária do seu autor, mas confirma a impressão de que os livros publicados depois de Pátria perderam alguma da ambição e da capacidade de surpreender. Quem descobrir Fernando Aramburu através deste livro dificilmente compreenderá o entusiasmo que Pátria despertou entre leitores e críticos. Quem já conhece a sua melhor obra encontrará inevitavelmente motivos para a comparação, e essa comparação não favorece Maite. Trata-se de um romance discreto, excessivamente contido e emocionalmente pouco intenso, cuja protagonista nunca adquire a consistência necessária para sustentar todo o edifício narrativo.
No conjunto da obra de Aramburu, Maite ocupa um lugar secundário. Não compromete o prestígio do escritor, mas também não acrescenta nada de decisivo ao seu percurso literário. É um livro que se lê sem dificuldade, mas que dificilmente permanecerá na memória do leitor muito tempo depois de fechada a última página.
Agatha Christie (1890–1976) dispensaria apresentações, ainda assim vale a pena dizer que é a escritora de ficção mais vendida de todos os tempos, com mais de dois mil milhões de exemplares vendidos em mais de cem línguas, um número que só Shakespeare e a Bíblia superam. A Rainha do Crime, como ficou conhecida, escreveu 66 romances policiais, 14 colectâneas de contos e a peça de teatro com mais tempo em cena no mundo — A Ratoeira, em representação contínua em Londres desde 1952. Em 1971, foi condecorada pela Rainha Isabel II com o título de Dama-Comendadora da Ordem do Império Britânico.
Mas há uma Agatha Christie que a maioria dos seus leitores nunca conheceu.
Entre 1930 e 1956, a autora publicou seis romances sob o pseudónimo Mary Westmacott, um nome construído a partir do seu segundo nome próprio e de apelido de familiares distantes. São romances sem crimes para Poirot e Miss Marple investigarem. São obras sobre o amor, a perda, a obsessão e a natureza humana, com alguns elementos da sua própria biografia, e que a sua filha Rosalind Hicks terá descrito como “histórias agridoces sobre o amor” – pode ler-se no sítio oficial da autora. Christie manteve a identidade de Mary Westmacott em segredo durante quase vinte anos. Quando foi finalmente descoberta, continuou a publicar sob o pseudónimo. A Rosa e o Teixo, publicado em 1948, é o quarto destes romances e é descrito na capa como o romance favorito da autora. É fácil compreender porquê.
O título vem de T. S. Eliot, com os versos que abrem este texto e que reaparecem no final do romance, na boca de uma personagem, quase como uma sentença. A rosa e o teixo são metáforas que estruturam a história, em que a rosa é Isabella Charteris, aristocrata, de uma beleza tão simples que se torna assustadora, uma pessoa que não reconhece nada para além do essencial. O teixo é John Gabriel, um herói da guerra, uma pessoa rústica e cheia de ambição. Inveja e anseia o que nunca poderá ser, a graciosidade inata de quem tem ‘sangue azul’. Entre eles, temos Hugh Norreys, o nosso narrador, que está inválido, e que é um observador exímio, até pela incapacidade de se mover sozinho. Assiste à história dos dois sem poder intervir, descobrindo, ao longo da narração autodiegética, os limites do que é capaz de conhecer sobre os outros… e sobre si próprio.
A acção decorre na Inglaterra do pós-Segunda Guerra, em tempo de eleições. Gabriel candidata-se à Câmara dos Comuns pelo Partido Conservador, numa circunscrição de difícil conquista, e a campanha serve de palco para uma reflexão afiada sobre o que é a política na sua versão mais prosaica. Mais do que ideias e ideais, importam as promessas. Mais do que convicções, a arte de dizer às pessoas o que querem ouvir.
O que é a política, afinal, senão barracas adjacentes na feira do mundo, cada uma oferecendo a sua banha da cobra específica para curar todos os males? – pergunta Hugh (p. 211). Gabriel sabe-o bem e não se coíbe de o dizer. É ao mesmo tempo cínico e fascinante, e ‘Mary Westmacott’ constrói-o com uma inteligência sem o condenar, tão-pouco o absolver.
Isabella é o contraponto. Quase ausente durante grande parte do romance, está sempre presente pela forma como as outras personagens a percepcionam, pelo que desperta nelas. Hugh não a compreende; Gabriel, que a deveria compreender, só no fim alcança um vislumbre.
A cena em que Teresa, cunhada de Hugh, lhe explica que Isabella foi “uma coisa perfeita em si mesma”, que a vida dela, por mais breve que tenha sido, não foi abreviada nem quebrada, foi completa, é um dos momentos mais perturbadores e mais belos do livro. “O momento da rosa e o momento do teixo são de igual duração” (p. 296), Eliot dito baixinho, como uma verdade que se não impõe e facilmente reconhece.
Agatha Christie sabia ler a natureza humana. Não admira que tenha criado Poirot e Miss Marple, e não admira que, quando quis escrever de outra forma, tenha precisado de outro nome. Mary Westmacott é a escritora que observa sem resolver, que não oferece um culpado nem um final arrumado. As grandes dimensões da vida estão aqui: o amor, o sofrimento, a política, a vaidade, o egoísmo, a violência doméstica, o cuidado pelos que ficam para trás. Tudo entretecido com a mestria de quem levou décadas a construir histórias, mas desta vez sem a armadura do género policial a servir de distância.
Faz-se necessária uma ressalva, a de que o livro é datado no que respeita a papéis de género e a certas representações sociais, o que é, de resto, inevitável num romance de 1948. Isso não diminui a sua força; é, sim, uma forma de a contextualizar. O que não envelhece é a observação da essência humana, a vaidade de quem quer ser mais do que o vizinho, o amor que não se explica, a política que se faz de cinismo e de esperança em partes iguais.
Na capa lê-se que é o romance favorito de Agatha Christie. Tem um senão: lê-se num ápice.
Vou ao teatro para condimentar a minha noite e, quando dou por isso, os ingredientes são outros e o q.b. perdeu-se pelo caminho.
O espectáculo The Swimming Pool Party começou com um actor a cantar, cortinas fechadas, foco de luz. Achei que, a qualquer momento, apareceria Fred Astaire e Ginger Rogers, sapateando-se à minha frente. Abrem-se as cortinas e, felizmente ou infelizmente (não sei bem!) não aconteceu nenhuma dança que me dissesse que eu vinha ao engano. Uma espécie de floresta sinfónica, umas gaiolas compridas e douradas, mais umas personagens extravagantes aos meus olhos e também entre si, porque não conseguia vislumbrar um todo homogénio que se anunciasse.
Efectivamente, eu fui ao engano.
Foto: Estelle Valente
Foi um início que anunciava um enorme tédio, porque detesto musicais. Ainda me sinto traumatizada, por causa de um musical que vi há uns anos. Tendo encontrado num suposto glamour a decrepitude das imagens,… musicais, “jamé”!
Mas fui ficando, porque realmente comecei a achar que estava perante outra coisa. De repente, fui encontrando o escárnio numa certa estética. Apontamentos deliciosos começaram a desfilar à minha frente, tanto nos adereços, como nos textos e, sobretudo, no desempenho das personagens. Não era um musical. Era a caricatura de um musical. Não era a representação de uma sociedade superior, mas a ridicularização da superioridade. Não era a elegância, mas a arrogância que se escondia numa sociedade que se vestia de padrões de rigor, sacudindo um pó “démodé”, tão visível como lantejoulas. Uma sociedade pobre na sua riqueza, decadente na sua superioridade.
É um espectáculo em que a vontade de deixar a sala nos abandona à medida que começamos a sentir a arte que se consegue investir numa crítica social.
Foto: Estelle Valente
As personagens mais consensuais tresandam, não tanto ao vinho que baila nos seus copos, mas nas atitudes, nos preconceitos, na falta de respeito e de atenção pelos outros. Anfitriões que recebem convidados, muito mais como forma de exibir o seu estatuto do que como um meio de proporcionar bem-estar ou diversão.
Uma festa de ricos à beira de uma piscina. Uma swimming pool party que não cumpre os requisitos sugeridos pelo nome. Empregadas fardadas, treinadas para servir… profundamente apagadas, como devem ser. Transformadas em bobos de entretenimento, são chamadas a contar histórias que divirtam a assistência. Não desperdiçando a oportunidade de mostrar quem são, revelam-se as personagens mais humanas de uma dança oca.
Gostei especialmente destas empregadas e da forma inteligente como o espectáculo demonstra que o valor das pessoas nada tem que ver com o estatuto que ocupam.
Dos adereços, tenho a dizer que não resisti ao carrinho das bebidas, que chiava imenso quando era empurrado (num sinal grotesco de deselegância).
Imperdível é também o luxo de termos músicos tão bons a tocar ao vivo, capazes de reproduzir na perfeição o som de um dos animais mais temíveis da floresta.
Uma peça que recomendo, sobretudo aos que, como eu, fogem de musicais. Porque não devemos resistir, não ao encantamento, mas à surpresa de nos descobrirmos encantados.
Desta vez valeu a pena ir ao teatro para rever certezas e não ter dúvidas de que nem tudo o que aparenta é.
Avaliação:⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐☆ (9/10)
FICHA TÉCNICA
Texto e encenação: Ricardo Neves-Neves
Actores: Ana Brito e Cunha, Ana Cloe, Ana Maria Contente, Filipe Vargas, José Leite, Marta Andrino, Ruben Madureira, Sandra Feleiro e Santiago Galvão
Direcção Musical: Artur Guimarães e Antõnio Andrade Santos
Músicos:
Piano conductor: António Andrade Santos e Manuel Morais
Violoncelo: Ana Carolina e Mariana Taipa
Violino: Helena Silva e Carolina Duarte
Viola: Inês Nunes e Precília Diamantino
Trompete: Ricardo Vitorino e Davide Lopes
Saxofone: Rita Nunes e Nádia Santos
Contrabaixo e Baixo eléctrico: Sérgio Fiuza e Carlos Garrote
Bateria: Teresa Braga
Trombone: Vitor Faria e João Fernandes
Cenografia: Catarina Amaro Figurinos: Rafaela Mapril Desenho de Luz: Cristina Piedade Desenho de Som: Gonçalo Carlos Sonoplastia: Sérgio Delgado Assistência de Figurinos: Margarida Silva Confecção de Figurinos: Ana Baltar, Ana Santos, Maria Afonso Construção Adereços de Figurinos: Marisa Fernandes Coreografia e movimento: Marco Mercier Caracterização e cabelos: Carlos Feio Fotografias e vídeo promocional: Pedro Macedo / Framed Films Fotografias de cena: Estelle Valente Ilustrações Promocionais: Tiago Albuquerque Design Gráfico: José Cruz Assistência de Encenação: José Leite Segundos Assistentes de Encenação: Santiago Galvão e Maria Inês Antunes Direcção de Produção e Cena TdE: Sílvia Moura Produção Culturproject :Nuno Pratas Coprodução: Teatro Variedades, Cineteatro Louletano, Teatro do Eléctrico
Data: 9 de Julho de 2026
Em exibição em Lisboa, no Teatro Maria Matos, entre 9 de Julho e 9 de Agosto (Domingos · 18:00; Quintas, Sextas e Sábados: 21:00)
O nosso excelso primeiro-ministro tem um desempenho linguístico similar ao da nossa selecção.
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Na nova rubrica do PÁGINA UM ‘Língua na Cama’, Manuel (Matos) Monteiro – escritor e um dos melhores cultores da Língua Portuguesa, além de formador da Escola da Língua – escalpeliza, de forma caseira e descontraída, erros frequentes do nosso idioma, curiosidades linguísticas, maravilhas idiomáticas. Aprenda e divirta-se.
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