Categoria: Suplemento

  • Ao primeiro assalto

    Ao primeiro assalto


    Paulo Vero é homem dos sete ofícios

    Todos os direitos reservados, tanto do texto como da imagem.

  • VVV…

    VVV…

    Título

    Cai, bomba!

    Autor

    GERRIT KOUWENAAR (tradução: Maria Leonor Raven)

    Editora

    Dom Quixote (Abrill de 2026)

    Cotação

    17/20

    Recensão

    Gerrit Kouwenaar (1923–2014) é uma das figuras maiores da literatura neerlandesa do pós-guerra. Poeta, jornalista e tradutor, teve actividade clandestina durante a ocupação nazi dos Países Baixos e esteve ligado à esquerda holandesa e a movimentos literários de vanguarda, tornando-se numa das vozes centrais do experimentalismo neerlandês. Cai, bomba!, publicado originalmente em 1950, quando o autor tinha 26 anos, foi a sua primeira obra em prosa e chega agora a Portugal, editada pela Dom Quixote.

    O romance tem pontos de contacto com a vida do próprio autor, razão pela qual é também classificado de autobiográfico. No posfácio, o poeta e ensaísta Wiel Kusters, especialista da obra de Kouwenaar, cita o próprio autor a propósito do protagonista, Karel Ruis: também ele, “nesse final de tarde de 9 de maio de 1940, olhava aborrecido pela janela da sala da casa paterna e também para mim começou no dia seguinte a invasão do caos e da destruição” (p. 116). Wiel Kuster prossegue sobre como a guerra, ainda que previsível, terá significado uma rutura total com a vida do então jovem escritor. Depois de 1940 transformou-se noutra pessoa e, segundo Kuster, terá sido “a consciência e experiência dessa fratura” que terá formado o autor como “poeta e prosador”, tornando-se, posteriormente, “numa das figuras principais” da designada “explosão experimentalista nos Países Baixos” (p. 116).

    Karel Ruis tem dezassete anos e está farto. Farto da conversa sobre a guerra, farto da família, farto da rua, está farto de tudo. Karel chega mesmo a desejar que as bombas caiam e que a cidade arda. O experimentalismo de Gerrit Kouwenaar transporta-nos de forma poética e divertida para lugares facilmente reconhecíveis. O fim da adolescência e início da juventude, lugares marcados pela arrogância e a impaciência, fazem parte da morada de Karel. Mas também o “bairro extremamente excitante que oferecia muitas coisas com que sonhar na cama”, como as “mulheres pintadas nas montras vermelhas” (p. 47).

    A pedido do seu tio Robert, Karel vai entregar uma carta à amante daquele, uma mulher judia, com uma filha, Ria. É aí que a história muda de tom. Karel apaixona-se sem ter tido tempo de perceber o que isso significa, e perde o objeto dessa afeição quase de imediato, quando mãe e filha fogem perante o avanço nazi. Pouco depois, o tio morre no bombardeamento. A guerra chegou à cidade sem que ele tenha dado conta do impacto até ao momento em que deitado de costas, “o frio de terra entranhava-se entre as suas espáduas” (p. 111), com toda a gente morta, eventualmente por causa do seu desejo leviano e presunçoso de guerra, para acabar com o seu tédio.

    O que distingue este livro de tantos outros sobre a Segunda Guerra Mundial é a forma. A linguagem é simples, e cada palavra parece escolhida com precisão cirúrgica, mas sem sentimentalismo nem solenidade ornamental. Lê-se como prosa poética. A personagem Karel é construída sem heroísmo ou vitimização, como adolescente que é, apresenta-se ingénuo e arrogante, sem que Kouwenaar o condene, tão-pouco o absolva. Deixa-o ser o que é, com toda a crueza e toda a ternura que isso implica.

    É curioso e, simultaneamente, inquietante observar o número de romances dessa época que se têm reeditado e quantos outros se têm escrito sobre a Segunda Guerra Mundial. Cai, bomba! junta-se a Matadouro 5, de Kurt Vonnegut, nessa linha de obras que tratam um período negro da história da humanidade com um humor e com o desapego que reflete a distância necessária. São lembretes de que há tanto a aprender com esse passado demasiado recente e ostensivamente presente. E todavia…

    Cai, bomba! é uma novela curta e incisiva que permanece.

     

  • Silenciadas pela ciência

    Silenciadas pela ciência

    Título

    A mulher e a medicina

    Autora

    ELINOR CLEGHORN (tradução: Carla Ribeiro)

    Editora

    Alma dos Livros (Setembro de 2025)

    Cotação

    18/20

    Recensão

    No livro “A mulher e a medicina” a escritora e historiadora Elinor Cleghorn oferece muito mais do que uma história da medicina. O livro é uma investigação rigorosa sobre a forma como o corpo feminino foi interpretado, controlado e frequentemente mal compreendido ao longo de mais de dois mil anos pelo pensamento médico ocidental. Combinando investigação académica, narrativa histórica e uma evidente preocupação ética, Cleghorn revela como preconceitos de género se infiltraram na ciência e influenciaram diagnósticos, tratamentos e teorias que ainda hoje estão presentes em muitas histórias de muitas pacientes mulheres.

    Um dos aspectos mais impressionantes da obra é a capacidade de mostrar a persistência de certas ideias. Desde a Antiguidade clássica médicos, influenciados por Hipócrates e Galeno, defendiam que o corpo feminino era inerentemente mais frágil, instável e propenso à doença do que o masculino.  A célebre teoria do “útero errante”, segundo a qual o útero se deslocaria pelo corpo provocando sintomas físicos e emocionais, parece hoje absurda, mas serviu durante séculos para justificar o descrédito das queixas femininas.

    A autora mostra como essas concepções evoluíram sem desaparecer verdadeiramente. No século XIX, por exemplo, o diagnóstico de histeria tornou-se uma espécie de categoria universal para explicar comportamentos considerados inconvenientes ou incompreensíveis, nas mulheres. A autora recupera o caso de Charlotte Perkins Gilman, submetida à chamada “cura pelo repouso”, prescrita pelo neurologista Silas Weir Mitchell. Impedida de escrever, ler ou desenvolver qualquer atividade intelectual, Gilman viu a sua saúde mental deteriorar-se. A experiência inspiraria mais tarde o célebre conto The Yellow Wallpaper, uma das denúncias literárias mais contundentes da medicina paternalista.

    Outro episódio particularmente marcante é o de Elizabeth Garrett Anderson. Numa época em que as escolas de medicina estavam fechadas às mulheres, Anderson teve de contornar obstáculos burocráticos e preconceitos sociais para conseguir tirar o curso de medicina. A sua história simboliza a exclusão sistemática das mulheres não apenas enquanto pacientes, mas também enquanto produtoras de conhecimento científico.

    O livro dedica ainda atenção às doenças autoimunes, à endometriose, à dor crónica e a outras condições que afetam desproporcionalmente mulheres. Cleghorn entrelaça a sua própria experiência de doença com exemplos históricos, mostrando como muitas pacientes foram acusadas de exagero, ansiedade ou instabilidade emocional quando os seus sintomas tinham causas fisiológicas reais. Um dos méritos da autora é demonstrar que a ignorância médica nem sempre resultou da falta de conhecimento científico; frequentemente derivou da recusa em ouvir as mulheres. Simplesmente ouvi-las.

    A narrativa torna-se particularmente poderosa quando aborda os avanços da medicina moderna. Apesar dos progressos extraordinários dos séculos XX e XXI, muitos ensaios clínicos continuaram durante décadas a utilizar predominantemente participantes masculinos, assumindo o homem como modelo universal do corpo humano. O resultado foi uma compreensão incompleta de doenças, medicamentos e sintomas específicos das mulheres.

    Escrito numa linguagem clara, A Mulher e a Medicina evita tanto o estilo panfletário como a mera crónica de injustiças. O seu maior mérito reside em demonstrar que a história da medicina é também uma história de poder: quem observa, quem diagnostica, quem é ouvido e quem permanece silenciado. Ao recuperar vidas esquecidas, desde pacientes desacreditadas até médicas pioneiras, Elinor Cleghorn constrói uma obra simultaneamente erudita e profundamente humana. O livro deixa-nos uma convicção difícil de ignorar: compreender os preconceitos do passado é condição necessária para construir uma medicina mais justa, no futuro.

  • Um amor com vírgulas

    Um amor com vírgulas

    De quantos álibis vestirei os meus sentimentos para continuar a gostar de um monstro? E de dois?

    Fomos ao teatro para sermos confrontados com questões que estremecem cadeiras, enquanto recordamos que o ser humano pode ser surpreendente. Brutalmente surpreendente.

    A peça Órfãos, de Dennis Kelly, leva-nos até à intimidade da mesa romântica de um jovem casal, que entre talheres e velas celebra a vida. Ou um deles celebra a vinda de um novo filho, enquanto o outro se emaranha na dúvida. São os desníveis da existência, revelando que podemos partilhar facilmente os alimentos, parecendo que o fazemos animados por sentimentos de comunhão. Já os sonhos… podem não ser partilhados, pelo que as celebrações, por vezes, tornam-se quadros do absurdo.

    Foto: Paulo Nuno Silva

    Gostei sinceramente desta peça, pela seriedade do tema que aborda. O teatro é bom quando entretém, mas é excelente quando dá que pensar, deixando-nos curvados de dúvidas e de incertezas.

    Há muitas questões que nos atormentam: posso eu amar incondicionalmente? O amor é a aceitação da diferença? Amo o outro como o espelho de uma certa moralidade que me foi transmitida e é inabalável, ou sou capaz de amar para além disso, abdicando de mim, do meu universo, dos meus princípios? Conservo-me intacta com tantas concessões ou torno-me irreconhecível perante mim? Vale a pena a elasticidade dos valores? Durmo bem com isso? Importa o meu sono, se prometi amar-te sempre? Até vamos ter um filho… Quero um filho de uma pessoa assim? Consegues livrar-te desse filho, dessa possibilidade de filho? Conseguimos esquecer isto e avançar, cada um na sua direcção? Temos o direito de o fazer? E podemos romper direitos, esburacando universos que não nos pertencem?

    Uma peça muito poderosa, representada como mandam as regras do teatro clássico. Com marcações clássicas. Com um cenário também clássico. Chama a atenção o graffiti, apontamento de rua, contrastando com a sobriedade da mobília da sala. A dicotomia entre o espaço exterior, sinuoso, incerto e inesperado e o conforto de casa, onde tudo está (aparentemente) arrumado, alinhado e certo.

    Foto: Paulo Nuno Silva

    Apreciei muito a fluidez dos diálogos, num texto longo e difícil de memorizar. Senti que talvez a preocupação com o rigor do texto possa ter prejudicado o trabalho de construção das personagens. Nem todas as personagens atingem o mesmo grau de autenticidade, e isso condiciona a própria entrega do público ao espectáculo. No entanto, no teatro, sucede que os espectáculos ganham com a repetição, permitindo que os actores aprofundem as suas personagens

    Uma peça que merece ser vista, sobretudo pela seriedade dos temas.

    Questionar até onde somos capazes de gostar de alguém é, afinal, questionar os limites dos nossos próprios valores.

    Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐⭐☆☆☆☆ (6/10)

    FICHA TÉCNICA

    Órfãos

    Grupo de teatro: Teatro da Rainha

    Autor: Dennis Kelly

    Tradução e Encenação: Henrique Fialho

    Cenografia: José Carlos Faria 

    Desenho de Luz: Hâmbar de Sousa

    Som: Raquel Capitão

    Interpretação: Fábio Costa (Liam), Inês Barros (Helen) e Tiago Moreira (Danny)

    Guarda-roupa:  acervo do Teatro da Rainha

    Graffiti: Ricardo Henriques

    Direcção técnica:  Hâmbar de Sousa

    Produção executiva:  Rebecca Vendrell

    Montagem e construção do cenário:  Joel Pereira, com o apoio de Gil Pereira

    Operação de luz: Hâmbar de Sousa

    Operação de som: Raquel Capitão

    Fotografias do programa: Margarida Araújo e Patrícia João Carvalho

    Spot TV e rádio: Raquel Capitão

    Comunicação e públicos: Henrique Fialho e Nuno Machado

    Programa: Henrique Fialho

    Secretariado: Teresa Almeida

    Data e Local: 27 de Junho – Cineteatro D. João V, Damaia – Amadora

  • A felicidade dá entrada nas urgências

    A felicidade dá entrada nas urgências

    E se o teatro for uma urgência?

    Tenho reparado que os espectáculos com actores trans esgotam rapidamente, em parte porque existe uma comunidade muito presente em torno destes projectos. É o caso de Es Tr3s Irms, mas acredito que este é um espectáculo que deve ser visto por todos os que gostam de teatro, independentemente da opinião sobre as questões trans. Ah! Soa-me estranho dizer isto, como se “trans” fosse uma espécie distinta de gente. Não é! Então, dizia eu que este é um espectáculo para ser visto por todos, sobretudo pelos que procuram o teatro para se divertirem, e depois abandonam a sala com uma tensão boa espelhada no rosto, interrogando-se seriamente sobre a sociedade que temos.

    Nunca conseguimos criticar uma peça de teatro abdicando de quem somos. Nem existem motivos válidos para abdicarmos de nós. Sempre gostei muito da diferença, não por uma questão de folclore, mas por pensar que, se um grupo é diferente, é porque se move realmente pelos seus próprios motivos, e  não pelos argumentos confortáveis e comuns, onde não se reveem.

    Foto: D.R.

    Es Tr3s Irms é um espectáculo em que Tita Maravilha dá voz à diferença, não tanto por as personagens serem trans ou não-binárias, mas por lhes permitir falar livremente sobre sentimentos esmagadores, como a não pertença, a solidão, a frustração causada pelo desemprego, o desenraizamento, a ausência de poesia pela dureza do dia-a-dia. Camões, por exemplo, é colocado em causa, não por uma questão de desvalorização da sua poesia, mas porque, num mundo em que as dores se sentem realmente, anulando sentidos figurativos, “fogo que arde sem se ver” pode até ser uma afronta aos que sofrem.

    É um espectáculo muito bonito, não pelo primor dos cenários, mas pela sua crueza. Não há um pano de fundo, vermelho e aveludado, mas existe um cortinado em PVC azul, com nuvens que ilustram a incerteza dos tempos. Não há um porquinho mealheiro mas uma espécie de leitão, bastante maior que o porquinho convencional, talvez porque nos vemos obrigados a poupar muito mais do que consumimos. Há muitas luzes fortes, vermelhas, que sinalizam os alertas dos nossos tempos.

    Foto: Zuraida Guedes

    Este é um espectáculo que apela muito ao lado emocional do espectador. Há um espaço grande para nos lembrarmos de quem somos.

    É especialmente forte o final da peça, quando as personagens falam do mundo que querem para si. E nós escutamos as suas palavras com um misto de esperança e de dor, porque o mundo pode estar realmente muito longe de ser justo.

    Não vou referir o que as personagens sentem, porque essa é certamente a revelação que querem fazer em primeira mão.

    Abandonei a sala a falar de mim para mim: afinal, e tu, que mundo queres tu?

    Quero realmente um mundo em que todas as pessoas tenham acesso ao básico como ponto de partida de uma sociedade que não abdique da dignidade. Quero que as questões de género não sejam tema de conversas acesas como se houvesse géneros melhores do que outros. Quero um mundo em que a paz venha sincera, de dentro.

    Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐☆☆ (8/10) 

    FICHA TÉCNICA

    Es Tr3s Irms

    Criação: Tita Maravilha

    Co-criação / Interpretação: Ivvi Romão, June João, Luan Okun

    Direcção de Movimento / Assistência de Direcção: Era Jaja Rolim

    Dramaturgia: Keli Freitas e Tita Maravilha

    Desenho e Operação de Luz: Lui L’abbate

    Cenografia / Figurinos: Marine Sigaut e Alex Simões AKA Xana Modas

    Confecção de Figurinos: Alex Simões

    Criação Sonora: Tita Maravilha

    Apoio à Criação Sonora: Bertrand, com músicas de Aurora, Puta da Silva e Odete

    Voz off Vídeo: Telma Moreira Farinha

    Design / Direcção de Fotografia / Vídeo: Gadutra

    Produção: Trypas-Corassão Associação Cultural

    Produção Executiva: Maria Tsukamoto

    Assistência de Produção: Mandi Kaibô

    ____

    Termino com um agradecimento à Tita Maravilha que, ao abrir o ensaio geral aos participantes da Oficina de Fotografia de Cena, promovida pelo Teatro São Luiz e orientada pela fotógrafa Estelle Valente, ajudou a concretizar um sonho partilhado por muitos de nós: fotografar teatro a partir de dentro.

  • Lugar na pista de dança

    Lugar na pista de dança

    Se não encontrares o teu lugar na pista de dança,

    Dificilmente o encontrarás no mundo

    É numa pista atulhada de gente que te conheces

    Ou tens um espaço para dançar, ou não tens

    Essa é a metáfora da verdade simples da vida

    E se ocuparem o teu lugar e te expulsarem da pista,

    Só tens a ti mesmo para culpar

    Não dançaste o suficiente para ficar

    e manter o teu lugar e ganhar o deles

    Podes ser CEO, podes ser general, podes ser um pato-bravo

    Podes ser o Brad Pitt, o George Clooney, o Al Pacino

    Podes ser a Marilyn Monroe reencarnada

    Podes ser o timoneiro de uma nação

    E mandar em centenas, milhares, milhões de homens

    Mas se não souberes dançar

    Se não souberes conquistar o teu território na pista de dança

    E o souberes preservar,

    Pouco importará tudo aquilo que és

    Porque na pista somos todos iguais

    É o único sítio onde a tua cor, a tua tribo, a tua raça, a tua religião,

    o teu credo, a tua profissão, o teu cargo, o teu sexo

    não interessa nada, a não ser que saibas dançar

    Por isso, fixa bem, aponta a sangue na tua mente

    Que antes de aprenderes a babar-te por caras bonitas

    Quase antes de aprenderes a falar e a teres conversas de noite

    Tens obrigatoriamente de aprender primeiro a dançar

  • A Malta da Graça ou o Diário de Lisbolha

    A Malta da Graça ou o Diário de Lisbolha

    1.

    Na Cidade asfixiada pela obsessão do silêncio que dizem impor para defender o descanso, porém sabendo-se sem esforço que é pelo vero intuito de um mercantilismo mendaz, ainda há gente totémica e viva, personagens de um drama nosso, de Lisbolha, gente que provém de todas as partes. Assim, passou, breve por aqui, um Jaguar secreto que, o mais furtivo, evitava a luz, mas que iluminou o Bairro com o seu Deslumbre Exacto. Mantém-se, todavia, afamada Pantera, de celestial esplendor, que derrama perigoso mel ou ainda um Demónio da Tasmânia, todavia carioca e de insuspeita ternura. Também há um casal de quem se pode dizer que se associa ao reino dos láparos… isto sem falar, em reforço, de um Vampire-Cat-Bunny que por um ou dois dias nos visitou, antes do seu magiar retorno… nem por aí há que parar este melancólico rol: foi devorado esse Vampire por uma Leoa de Curitiba e se entreviu, numa Noite fugaz, uma Chita e noutra, de poesia, uma Esquimó também Carioca e há, além disso, quem Puma ou Leopardo, afinal, seja, em especial se vista ao ocaso e de perfil … Sim, percebei que, ainda que seja cifrada esta crónica, tudo é real. Entenda quem puder…

    2.

    Já e ainda, ao invés, os lugares são em nome próprio: no Sr. Carlos, no António e no Sr. António que recebe o título da distinção de «Senhor» por mais velho e sábio, ou a D. Tina, spot ainda do alvorecer que sustém com as tradicionais vitualhas e cigarros e pinga e um café o cansaço nocturno. E além da Graça, os Anjos, Alfama e Mouraria, e o Castelo onde, outrora, se ia ao Banco. Outros locais, a mesma malta ou quase a mesma. E claro, a D. Natália e seus botecos, que, disseram numa antiquíssima página do Diário de Lisbolha, muito apreciava o paizinho deste vosso escriba… Quem sai aos seus… Acredite quem quiser… ficaram vozes… já esses cá não estão e nem sequer as testemunhas… dessa erada edição do Diário de Lisbolha fica aqui a notícia…

    3.

    É verdade, queridos, isto é linguagem cifrada e em código meu. Mas, assim, haverá Lisbolha Secreta no que tem de ser, no que é já Lisbolha Discreta, ou diria, na catástrofe que albergo, Lisbolha-Quase-Ex-Tinta… Peço-vos mais: paciência para tanto barroco, mas ele, o barroco, anda pelas ruas d’amargura e alguém tem de lhe dar a mão fazendo-lhe Prova de Vida. Ademais, na Crónica Inaugural bem avisei e está no título, são Crónicas Mirabólicas, mirabolantes, acolhem o delírio e querem dizer tudo… E a Menina Bukakke e a Menina Góji? Não são daqui, mas por aqui andaram, malta do Mundo, do anglófono e que vieram parar a esta Viagem à Volta do Bairro, só para parafrasear De Maistre, que se estende e derrama: na Bota dos Anjos, com o Poético Anjos, e a Menina do Sapatinho… e a Gente do Fado, o Filho de Bocage, o chefe, o António, o Jovem Tomás e o Ricardo, talvez um pouco inseguro, até começar a tocar o Fado… sons prodigiosos que, a partir de Alfama alimentam a Graça de turbulenta vivacidade…uma trupe coesa que tendo porventura as suas intestinas zangas e arrufos… é coisa dele, do Fado… É este, aliás, relato de Damas e cavalheiros insignes: não sendo todos autóctones todos são de Lisbolha que isto é sítio e sempre foi de muito lado, como quando o que se mercava eram especiarias e pedras raras… e hoje, hoje, parece ainda que sim, mas como em toda a parte, é quase só o moderno pó de pouca alvura… Entenda quem puder… vá lá esta não foi difícil…

    4.

    E também um Rei Batata, que se perde no seu Limbo e que sempre pergunta pelo Mário Mata Baratas e um Barão, com que já não convivo há tanto… ainda porém está vivo, mas já sai pouco. Chegou a ser um dos Donos da Graça, como aquela Senhora Demenciada que detém tanto da Lisbolha e dizem viver num palácio… na Avenida de Roma!

    5.

    O que é raro é um momento de sossego, e quem quer sossego quando, logo ao sair da Caverna, na esquina, há por vezes um sonoro Ganso que se lamenta de uma qualquer Desordem na França? E aqui há tudo: até Moedas, como o chefezinho da Câmara que tudo vende e tudo quer vender, mas este nosso é Urso de Coração d’Ouro… e já lhe disse da gratidão…

    6.

    Até um heterónimo alto por aqui anda… um Mestre de nomenclatura ricardiana… mas este é só pantominas e pinotes, para agradar a todas… Vamos todos dançar, vamos todos dançar… mas ele, no seu modo vácuo, brilha, e quando se encontram, ele e a Pantera, evoluem na exígua pista, na toada de fantasia da Música Martelo! Salta Mestre, salta! Olha que a vida é curta e «linda e louca», como diz um outro Coração de Ouro, sempre alegre e bom, que nos abraça quando chegamos e avisa, com gentileza, que a Noite se aproxima do fim… O colega parece o contrário, de uma dura intensidade, mas internamente sensível… Lembrei-me agora, há por lá, sob a égide de Sr. António uma grande Inimiga do Fim, mas que só vê ao contrário os seus filmes, e uma Menina-Prima, Menina Prima porque ainda é da parentela do queijo ou por lá ganha a vida… haverá de ilustrar quiçá um estudo sobre essa Aldeia, microcosmo, uma bolha em Lisbolha… decifre quem souber… ou pergunte…

    7.

    Ah, porém, nem tudo são rosas, também existem inimigos e fantasmas, do General sem Medo, que, aliás, parece ter perdoado, do escriba, a indiscrição, caso de umas frituras que caíram mal…pior são as zangas demenciadas daquele passarouco infeliz, não importa tem a mente como caracol em ketamina, tanta pena desse pobre ser, espécie mutante, entre o rouxinol que cantou quando não devia, o abutre esfaimado, o galaró perdido de si que se põe com ameaças de rixa a acordar a angelical vizinhança… não na alvorada… mas ao serão… são casos… shut up Bowie… é melhor, nisso, estar calado… e uma Salamandra de fogo & fel, questão de fúria Vermelha, depois da morada do Caos, onde até um Caetano andava nervoso, razão fugaz de punição incinerária de quem bem me queria, nunca mais por aqui a vi… Dizem, no Diário de Lisbolha, já ter voltado para Terras de Vera Cruz… Entenda quem souber… Perdoe, ela, se Deus quiser… E parecia ter-se também uma Rainha, não trouxe nem pão nem rosas, mas um sonho de ternura que, entretanto, num episódio absurdo, feneceu… até que se reverteu o fado, na fornalha da Cidade. Aparentemente, voltou do gelo que alberga. Que, ainda assim, trate bem este amigo vosso, que deseja e quer… apiede-se quem entender…

    8.

    E aqueles dois amigos: um sempre zangado, mas que se não esqueceu de umas nêsperas que nem eram do Porto, e o outro, doce e melancólico e romântico e triste, suspirando por amores distantes, num país tão frio, onde até, quando poisam, congelam os pombos? Um abraço, é boa gente… E uma Cassandra, Cassandra que derrama doçura… como a original, não será ouvida, mas tão boa que, para que se amenize a profecia, se aposta que andará incorrecta na esperança e certeza, contudo, de a aposta vir a perder…

    9.

    E o saudoso Xico, da Ladra, diziam, mas afinal meu xará, que nos deixou e que tanta falta nos faz… ainda bem que lhe dedicaram músicas e homenagens… ele merecia… e, quem o conheceu e estimava e lhe sente a ausência, saberá, como eu, que é forte ideal Querer Ser Como o Xico…

    Por aí andava, animando a Noite, em Laboratórios e Estrelas se bem que Decandentes e no Banco, onde se demonstrava, ali ao pé da Sé, que em Lisbolha, até o capitalismo, nestas tresloucadas noites, até o capitalismo pode ser intenso e divertido, embora essa mesma ideologia tenha apagado o Estrela, desfeito o Laboratório e até levado o Banco à falência… Entenda quem puder estas coisas de Lisbolha dos gentios…

    10.

    E não pensem que Pessoa não anda por aí, quase se diria respirante e vivo: o melhor dos amigos, como Irmão, é rapaz da mais vasta sabedoria desse Autor: estuda o espólio com meticulosa exactidão e divulga isso, em Lisbolha, Portugal e pelo Mundo, num frenesim de trabalho, dedicação e génio… Também se zangou com aquela já mencionada confusão das frituras… mas muito humano, amigo e bondoso lá foi perdoando… não há como falar a direito… insistir quando é preciso… ou recuar, como falando em Linha Recta dizia o mesmo múltiplo Bardo, recuar perante a possibilidade do soco…

    11.

    Mas, apesar de alguns dissabores, não se iludam: isto é Crónica d’Amor, à Graça (e arredores, Alfama e Mouraria) e à sua Malta, que não pense o Primo que lhe belisco a obsessão pelo que é positivo. E não se enganem: há por aqui prodigiosa concentração de Talento, e não, não é exagero! Acredite quem quiser! Ou venham cá ver e comprovar e aproveitem, de passagem, a delícia de um prego do Carlos…

    12.

    Ah, estes são quase todos colegas nictonautas, quero dizer, companheiros da Noite! Não sei se todos vão gostar ou entender o que aqui lhes digo, reitero, contudo, que esta é Carta de Amor, não sei se se vão rir, apreciar, ou se isto mata e isto mói, o mais certo é ser incompreensível para a comum gente, mas sei que tudo acaba pois tanta vida e intensidade e ternura, por força, têm de acabar. Acreditem, acreditem, neste Bairro, há de tudo, políticos irreais, polícias e nem tanto, mas que são também Sábios e de sabor epicurista e que, já agora, ensinam como fazer um panadinho, enquanto contam a sua história com o mais cúmplice, malandro dos sorrisos … E se para aqui vim com um incrível Mustelideo Feroz e até assim, depois de décadas, se foi embora, como não acreditar na imensa precariedade das coisas, regra da vida, norma paradoxalmente única e imutável… concorde quem assim o já pensar… E tanta história, tanta história que seria este um texto infinito, auto pulsado como quis pela infinda máquina da memória, houvera tempo e paciência vossa para tais episódios, e muitas tantas outras personagens desta Novela, episódios que até têm título: a Beleza da Bobadela, a Noite da Chita, a Barraca da Barraca, para sempre, para sempre, a Noite dos Espelhos, inesquecível saturnália de felicidade perfeita: conheces, só tu, o que foi este capítulo e ainda assim discordas, fluis, és mutação Venenita: mas sim é preciosa a memória, e se o nunc stans é apanágio de Deus teremos nós o pequeno cofre da recordação para, desse imperfeito modo, manter presente o quantum de sublime que nos foi dado viver. Quem esquece, morre, ainda que renasça em metamorfose, e esta Lisbolha e esta Graça — a Graça é Linda! — que tanto tem e dá, e que vive sob ameaça, e toda esta dança que um dia terminará pelas circunstâncias do tempo e da vida, porque se acaba o escriba ou se perderá, às tantas, a alma feérica do Bairro terá, nesta desatinada e mirabólica Crónica, um pequeno vislumbre que se mantenha até que mesmo o cronista, estes personagens e o Mundo e tudo e tudo sejam devorados pelo olvido.

    (…) E um abraço à Paulinha, à qual prometi um livro nela inspirado… serei relapso?… fica-lhe aqui dedicada esta crónica.

    …

    João Pereira de Matos é escritor e investigador no CHAM – Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa.

  • A hora do fim

    A hora do fim

    Bruno Rama é ilustrador editorial (©Direitos reservados) 

    Texto de Pedro Almeida Vieira (©Direitos reservados)

  • Par(v)idade

    Par(v)idade

    Dez da manhã de um domingo lento. O primeiro café, acompanhado de uma queijada ainda morna, na pastelaria ao lado de casa.

    Aparentemente, a tranquilidade do costume, até que, na mesa atrás, uma voz teima em fazer-se ouvir. Uma mulher, num discurso inflamado, vai subindo o tom à medida que acrescenta sofisticados argumentos à sua tese.

    Tudo começou com o relato de um episódio que presenciara recentemente: uma discussão no trânsito que ganhara contornos violentos. Uma pequena multidão a assistir e nenhum homem tivera coragem de intervir. E foi aqui que se instalou a indignação. Não houvera, segundo ela, um único homem capaz de fazer o seu papel naquela situação. De tal modo que chegou a sentir-se na obrigação de avançar. E tê-lo-ia feito, não fora a consciência de que seria um erro. Outra condutora não teve o mesmo entendimento. Saiu do carro e foi tentar parar a contenda. Mal, muito mal, segundo esta pregadora sem púlpito.

    Aumentou o volume. Era preciso que lhe dessem ouvidos. A bem ou a mal. Sim, porque isto de uma mulher se intrometer em disputas de machos era sinal do fim dos tempos. E a culpa era das mães, que incutem nas meninas a ideia de igualdade. Ora, da igualdade à usurpação do lugar dos homens é um saltinho. E agora os homens já não sabem o que são e andam perdidos. Não há ordem, não há hierarquia. É o fim da família.

    Um senhor idoso, com quem partilhava a mesa, ainda lembrou, a medo, que o passado também não era exemplo. Mas mal conseguiu terminar a frase:

    – Havia família –  dizia ela –  e havia respeito. Os homens eram homens e agora coitaddinhos. São uns desgraçados nas mãos delas.

    O monólogo prosseguia. O café a provocar acidez no estômago. A queijada entalada na garganta.

    Desligar e ignorar, impossível.

    Afonso recordou então uma conversa tida dias antes, a propósito dos benefícios e dos efeitos colaterais das políticas de quotas, da imposição de paridade e demais formas de procurar compensar desequilíbrios históricos.

    Houvera, então, quem argumentasse ser injusto não se ser escolhido por uma questão de género ou de cor de pele. Tal como houve também quem defendesse o contrário. A troca de ideias dera-se sem que se tivesse chegado a um veredito simples. Ficaram muitas dúvidas, outras tantas respostas e a tentativa de perceber como equilibrar justiça e realidade.

    Percebeu então que, mesmo hesitando por momentos, mesmo admitindo algum incómodo quando as escolhas ignoram o mérito individual em nome de um bem maior, não tinha dúvidas.

    Entre a paridade e a parvidade, escolherá sempre a primeira.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

  • Os miseráveis vivem à beira dos  rios

    Os miseráveis vivem à beira dos rios

    – Pega o teu refresco e te senta aqui, filhote – disse ele.

    Voltei-me e encontrei o rosto balofo e debochado que via todas as manhãs. Diante dele, uma garrafa de cerveja pela metade um copo de fundo grosso com cachaça. A cara e o pescoço avermelhados assumiam tons violáceos sob a luz amarela do bar.

    Tentei sorrir, mas só consegui fazer uma careta. Era muito ruim vê-lo diariamente na rádio, pior era encontrá-lo fora de lá, mas eu era educado demais para me livrar dele. Sentei-me.

    – O mundo está se afogando lá fora e eu me afogo aqui dentro. São as chuvas que Deus nos manda. Pela volta da cidade, a ralé já deve estar com água pelo pescoço. E isso é bom para nós, porque nos garante os noticiários.

    A voz pastosa e o bafo azedo indicavam bebedeira forte.

    Naquela época, ele trabalhava na emissora de rádio em que eu cumpria meu estágio obrigatório da Faculdade de Jornalismo. Com mais de vinte anos de profissão, perambulara pelo interior do Estado trambicando em jornalecos que saíam de vez em quando, quando saíam, ou biscateando em troca de comida nas emissoras que só tocavam música campeira.

    Preguiçoso e relapso, servia-se de mim para não fazer absolutamente nada na rádio. No começo da manhã, antes de entregar-se ao sono, com os braços cruzados sobre a máquina de escrever, queixo enterrado no peito, ele me pedia que eu só o acordasse se o gerente se aproximasse da redação. Protege o meu flanco, dizia ele. Ando cansado de receber pontapés no rabo só porque sou um tantinho sonolento.

    – É sempre a mesma história. Nada muda nessas cidadezinhas. Todas têm um rio e todo rio transborda. Já notaste que os miseráveis vivem sempre à beira dos rios?

    Eu redigia os noticiários matinais. Por volta das dez, ele interrompia a soneca e deixava o prédio. Ia tomar um “cafezinho” que lhe consumia o resto da manhã. Voltava pouco antes do meio-dia, fedendo a pinga, sempre com uma frase ferina para criticar alguma das notas que eu escrevera para o jornal das onze.

    – De formas, meu caro, que o jornalismo é isso: repetição. Se não é chuva, é vendaval.

    Enquanto ele falava, eu o observava. Aos quarenta anos, era já um rebotalho de gente em decrepitude acelerada. Impressionavam-me sobretudo seus olhos de um azul aguado, riscados por estrias vermelhas, que jamais fitavam o interlocutor.

    – E o vento, então? Verão ou inverno, tanto faz, a ventania destelha os ranchos deles. Não dá outra. Um ventinho mais forte e lá se vão pelo ar as chapas de madeira, o papelão, telhas quando há. E o que é que se vê, então? A miséria explícita, obscena, promíscua. Cama grande onde se misturam pai, mãe e filharada. E aí, como os seres humanos têm um fogo inapagável na forquilha das pernas, às vezes acontece de o pai se atracar com a filha mais crescidinha. A guria com medo e vergonha, hirta e estuporada, e o velho se refestelando, ligeiro como quem rouba, bebum.

    A verdade é que eu o desprezava por ser indolente e velhaco. Nojento mesmo. Mas, como meu estágio logo acabaria, eu o tolerava mais ou menos como as pessoas aguentam chuva, frio e vento.

    Bebeu um gole de cachaça, pigarreou e (segurando um microfone imaginário) falou com voz empostada de locutor:

    – Ventos de até cem quilômetros percorreram ontem os campos da nossa região causando grandes prejuízos às classes produtoras.

    Os cachaceiros das mesas próximas voltaram-se para nós, curiosos, e eu me senti envergonhado, com as orelhas em fogo. Estava na ponta dos pés, na beira da bunda, prestes a me catapultar da cadeira, mas os olhos escorregadios do radialista canalha me seguravam ali.

    Bebeu com um só gole o que restava de cerveja no copo e depois, segurando o pescoço da garrafa vazia, acrescentou:

    – Isto aqui só serve para me refrigerar o motor porque o meu combustível mesmo é a canha.

    Agarrou então o copo e bebeu o que nele havia de cachaça.

    – Este, sim, é o verdadeiro néctar do paraíso. Aquece, amansa, traz sono e esquecimento. Ou atiça, agita, traz fúria e morte.

    De longe em longe, por cima do vozerio do bar, explodia lá fora o ribombo dos trovões. Maldita chuva! Por causa dela eu havia me refugiado naquele boteco.

    Quando terminei de beber o refrigerante, deixando o sanduíche pela metade no prato, tentei me levantar, mas ele se espichou sobre a mesinha e pôs a mão no meu ombro.

    – Te acalma! Te senta de novo aí que eu vou te contar uma história. Um causo que se passou comigo. Foi num dia como o de hoje, chuvoso. Eu era novinho, assim como tu, magro desse jeito. É coisa de uns vinte anos, talvez. Naquele tempo não tinha essa bobagem de Faculdade de Jornalismo, a gente se formava no dia a dia. Eu arranhava minhas primeiras reportagens de jornal, tinha sido puxado da revisão. Era garotão metido a besta: lia os poetas, adorava toda bosta que rimasse e rabiscava poemas pensando nas putas que rondavam o Mercado. Em suma, eu tinha um coração cheio de mel, açucarado. E, como ainda hoje, trabalhava por um salário de merda.

    A chuva lá fora não dava sinais de cansaço. E de vez em quando a porta do bar se abria para dar entrada a mais um refugiado.

    – Pois bem, certo dia, de manhã bem cedo, um táxi parou na porta da minha casa. Eu ainda morava com os meus pais, que me acordaram. O carro fora enviado pelo jornal. Qual era o enrosco? Bem, tinha chovido a noite inteira, um temporal brabo como o de hoje, e precisavam de mim para fazer uma reportagem. Na redação deserta, o chefe passou o braço pelo meu ombro, me falou rapidamente da enchente nas margens do rio e me disse: “Agora, vai lá e vê como os pés-rapados estão se virando”. E eu me fui empolgado com caderno e caneta na mão. Saltei do carro e, decidido como escoteiro que vai praticar sua boa ação do dia, comecei a descer a ladeira. Cruzei pelo povaréu que, no alto da rua, observava as ruas alagadas lá embaixo. Imóveis, como vacas na chuva, esperavam que a água se fosse para voltar aos seus casebres. Continuei avançando firme mesmo quando a água me chegou aos joelhos. Caminhei um quarteirão pela rua mais larga e depois enveredei pela viela que findava junto ao rio. Ali, a água já me batia no umbigo. De vez em quando eu parava e tomava notas…

    Levou aos lábios o copinho de cachaça e, percebendo que estava vazio, bateu com ele sobre a mesa.

    – Mais uma pinguinha! – gritou para o garçom. – E traz também uma loira para me hidratar!

    E de imediato continuou:

    – O cadáver inchado de um leitãozinho passou por mim. A princípio, pensei que fosse um corpo de criança, rosado e liso. Tudo quanto era porcaria vagava por entre as ruas submersas: mesas, cadeiras, panelas e garrafas. Bah! De repente, do interior de uma das casinhas me veio o canto de um passarinho. Foi então que eu senti o quanto era ruim o silêncio daquelas águas barrentas.

    Percebi que, aos poucos, a voz dele se desnudava. Perdia a falsa entonação dos locutores. Talvez aquela voz rouca, sem brilho, fosse a sua verdadeira voz. Quero dizer, ele trabalhava há tanto tempo em emissoras de rádio que a falsa impostação já fazia parte dele, mas bêbado, ou comovido, como parecia estar naquela noite, recuperava a voz de sua juventude.

    – Voltei ao jornal e escrevi de um só jato um texto que me pareceu genial. O chefe pegou o calhamaço e começou a ler, mas, antes de acabar a segunda lauda, berrou: “Aqui só tem discurso!” Rasgou as seis ou sete folhas, jogou-as na minha cara e berrou ainda mais alto: “Eu quero uma história de gente de carne e osso, caralho! Eu quero emoção!”

    Quando ele interrompeu a narrativa para bebericar a cachaça que o garçom colocara à sua frente, me veio a impressão de que ele não mais estava falando para mim. Monologava, conversava consigo mesmo.

    – Bem, eu tinha uma história e foi com ela que salvei a minha carreira. Pensando bem, uma carreira que nem deveria ter sido salva. Se não tivesse escrito a danada daquela história, talvez eu fosse hoje um professor de ginásio ou um funcionário da prefeitura, um anônimo qualquer, bêbado também, mas certamente mais bem remunerado…

    Uma pergunta saltou-me da boca:

    – Que história era essa?

    Olhos fixos no copo, distante de mim, distante do mundo, perdido nos anos de sua juventude, retomou o conto com sua voz verdadeira:

    – A história da velha que ficou pendurada a noite toda… Eu já estava dando por encerrada a minha missão, depois de ter percorrido aquelas ruas tomadas pelas águas, quando me pareceu ouvir uma voz. Uma voz muito fraca. Só escutei essa voz porque há meia hora vagava entre os casebres e já estava acostumado ao rumorejo das águas que se batiam contra as paredes de madeira. Um fiapo de voz. Eu estava no fim da vila, quase debaixo da ponte. Entrei então no barraco mais próximo. Era de uma peça só. Se tivera divisórias, não tinha mais. No centro, bem no centro daquela peça, uma cama pairava sobre as águas. Quase não acreditei no que vi: um metro acima das águas, uma cama. Que mistério era aquele? Não demorei para compreender que a tal cama certamente fora erguida e amarrada aos paus podres do telhado antes da tormenta. Mas por quem? Aproximei-me. Deitada sobre o leito, uma velha horrenda, magra e pálida, me olhava assustada…

    . – Aconteceu o seguinte, meu garoto. O entulho acumulado debaixo da ponte nos meses de verão tinha obstruído a passagem das águas. Como a chuva se veio furiosa, as águas subiram com a velocidade do fogo que devora um campo seco. E mal deu para o povinho fugir às pressas levando os relógios de parede e as fotos dos antepassados. E a tal velha essa, que era meio paralítica, pedia socorro, desesperada, mas ninguém se apresentava. Dentro do casebre, a luz do lampião mostrava a escalada da água que subia ligeira pelas pernas cambaias da cama. Ia morrer, a pobre mulher, da pior das mortes, afogada. Tinha quase perdido a esperança, mas ainda rezava para Santa Teresinha, quando lhe apareceu o preto. “É gente da pior extração”, me disse ela. “Eu também sou muito pobre, mas tenho a pensão deixada pelo falecido e a casinha. Sempre é alguma coisa. Mas o preto esse é um infeliz completo. Meio tocado da cabeça, cata papelão, vidro e ferro numa carroça que ele mesmo puxa, igualzinho um burro. E depois revende no ferro-velho”. Ao ver que o homem trazia uma corda enrolada no ombro, a velha teve certeza de que sua vida acabaria ali mesmo. Seria enforcada. Fechou os olhos e começou e rezar.

    Pareceu-lhe depois, pelo rumorejo da água, que o preto circulava ao redor dela. Sentiu então uns puxões nos pés da cama. O condenado estava movendo a cama dela, mas para quê? Ela abriu os olhos e viu que, depois de entrelaçar a corda nas pernas da cama, ele estava tentando fazê-la passar por cima da viga que sustentava o telhado. Quando o conseguiu, aproximou-se da cabeceira. A velha fechou os olhos e ficou aguardando, tensa, pelo momento em que sentiria a frialdade da corda úmida ao redor do pescoço. Por estar certa de que seria morta, entregou-se nas mãos de Santa Teresinha. Mas o carroceiro nunca da vida que lhe passava a corda. Por fim, de repente, ela sentiu que a cama começava a subir.

    Lembrou-se de Jesus saindo do Santo Sepulcro e subindo aos céus. Lentamente, mas aos trancos, sua cama se elevava. Achou que estava morta e subindo para o encontro com Deus Pai Todo Poderoso. Mas o curioso é que ela não estava sendo alçada do modo como imaginava que os cristãos sobem ao céu: deslizando rápida e suavemente. Não! Estava subindo aos trancos e arrancos. E o que mais estranhava é que a morte não trazia de imediato o silêncio, porque ainda continuava a escutar as águas…

    O radialista bebeu mais um copo de cerveja e, a seguir, bateu forte com a mão espalmada na mesa.

    – Foi assim, meu guri, foi exatamente assim que o pobre catador de lixo salvou a velha. Ele simplesmente ergueu a cama o mais que pode e a amarrou depois a uns caibros. Deixou a bruxa velha com o nariz quase enterrado no madeiramento que sustentava as telhas rachadas. É claro que o barraco dela não tinha forro, nem piso, como todos os outros da beira do rio, era só uma ossada de paus podres à flor da terra. O certo é que o preto meio maluco levantou a tal cama e, quando percebeu que já estava com o estrado dela na altura dos ombros, amarrou a ponta da corda no pau que lhe pareceu o mais resistente. E deixou a velha dependurada por lá, como se fosse uma coruja descarnada num poleiro, e se foi embora para salvar o próprio lombo.

    Quando me levantei para me despedir, ele segurou a mão que não estendi a ele e apertou-a com firmeza. E, de novo sorrindo cinicamente, mais uma vez com sua voz empostada, voltou a falar:

    – Foi essa a história que garantiu a minha estreia no movimentado e fascinante mundo do jornalismo. De lá para cá, nunca mais achei assunto tão interessante, embora os miseráveis continuem morrendo em todas as cheias e ventanias. Pobre morre à toa. Mas, enquanto eles batem as botas, o mundo continua parindo rapazes magros e corcundas, como fui, como és, que escrevem versos febris para mulheres insensíveis e que de vez em quando dão de cara com a miséria. Não a miséria ligeira dos famintos, mas a miséria mais funda e amarga que é o acordar, todo dia, um dia depois do outro, para ver o tempo destruir todas as nossas poucas certezas.

    Lourenço Cazarré é escritor

    Publicado originalmente no livro IA arte excêntrica dos goleiros, 2004, LGE Editora, Brasília