Sud-Express

Viajo num comboio para Madrid que partiu de Lisboa. Sou um lisboeta e um madrileño que nasceu em Alfama.

Sou do Benfica e do Real Madrid.

Eu e um indivíduo de aspecto duvidoso, que parece castelhano pelo excesso de gel no cabelo e pelos Yumas que tem calçados – uma marca que só os espanhóis admiram  porque eram as Puma espanholas dos anos 70 – reparo que somos os mais despertos, já que os restantes passageiros parecem meio adormecidos ou meio acordados.

O espanhol pisca-me o olho como se tivéssemos uma cumplicidade nocturna – se calhar temos. Ele tem a máscara no queixo e, pouco antes, tinha-a na testa, em jeito de provocação. Mas, como todos dormiam… por mim, tudo bem.

Devido à minha profissão de médico, já estava vacinado com a Pfizer, algo de que me arrependo, e já tinha sido também um dos famosos assintomáticos covidianos, acredite-se ou não.

Em espanhol, a este tipo de personagens chama-se gamberros, os excessivos, os mal-educados, os chungas. Por ser de Alfama e do bairro madrileno de Vallecas, já estava vacinado contra os chungas, embora fosse amigo de muitos. Tive uma infância ibérica difícil, em que fui inoculado contra muita coisa.

Olho pelo vidro e só vejo o meu reflexo na escuridão.

Entretanto, o comboio pára em Mangualde e ainda consigo dar três passas num Luckys, sozinho na estação e por entre o nevoeiro que ofusca por completo o fumo do meu cigarro.

Penso em como a vida tem, de uma forma ou de outra, muito para oferecer e, se quisermos, os nossos cinco sentidos estarão sempre em apuros.

Volto para a carruagem e deparo-me com uma imagem soberba: estavam todos a dormir, sem excepção, embora não fôssemos muitos a habitar aquele comboio-fantasma.

Estavam todos de máscara na cara, incluindo o gamberro. Dormiam de máscara.

Uma vez, num avião, aconteceu-me algo parecido: os passageiros dormiam todos com aquelas vendas anti-luz nos olhos. Qual delas a mais estranha. Numa não queriam luz; nesta não queriam vírus. Pensavam eles, enganados. Ajustava-se ao momento, ou mesmo à era de trevas que parecíamos estar a viver.

Imaginava que estavam todos mortos e eu era o único morto-vivo do comboio em andamento.

Volto à janela e, desta vez, para além do meu reflexo, vejo também o dos meus amigos mais próximos, como se fossem estetas da escuridão e fantasmas da minha alma — uma miragem verdadeira e pouco soturna.

A nossa luz até pode ser escura, mas deve incendiar os mais incautos. Pensei nos meus amigos mais uma vez e nas suas expressões sorridentes. Vejo-os como uns heróis deste novo western, em que as pistolas foram substituídas pela boca e as balas são o oxigénio.

Vou até ao bar analógico e invento um futuro em que o digital existe, mas só cabe num frame. Não estou num comboio; estou num filme-comboio a várias velocidades.

Não há que ter medo do escuro!, penso novamente, e pergunto-me se não nos estamos a dirigir, a alta velocidade, para o abismo.

Don Alonzo, o barman, como se tivesse ouvido a minha voz interior, responde-me que não, que o abismo não existe; o que existe é a escuridão, e isso não é o abismo.

Don Alonzo, que eu já conhecia de outras viagens, gostava de filmes de terror e, nalgumas viagens, tinha um grande prazer em contar-me alguns momentos dos filmes de que gostava. Nunca dormia, dizia ele, mas eu não acreditava.

Senti que estava naquele momento de The Shining em que Jack, o Nicholson de outrora, fala com o empregado de bar do Hotel Overlook, com a diferença de esse ser um fantasma e este não. Pelo menos, Don Alonzo, a sê-lo, seria um fantasma a sério.

Falo do velho empregado de mesa e de balcão com admiração. Usando ainda um antiquado pano branco sobre o ombro, dá ao mundo uma lição de gentileza e de elegância. Através de mim ou para mim, disserta alegremente sobre o silêncio, enquanto árvores negras passam por nós a toda a velocidade.

— Está a ver? É a escuridão que nos avassala — diz-me ele, olhando para o vidro, que só consegue projectar a sua imagem escurecida e fosca, mas de uma beleza desconcertante.

O pano e a farda branca compunham, ainda no reflexo, uma bela forma na janela do bar-carruagem que, àquela hora, já devia estar fechado, segundo as regras. Mas Don Alonzo não gostava de regras e, como era exímio e esplêndido no seu trabalho, a gerência fechava os olhos à sua anarquia. Era, segundo ele, uma anarquia de confiança.

Tudo é vida, e alguns sabem capturá-la na sua dimensão tosca e total, fúnebre e festiva, disléxica e matemática, onde naturalmente se inclui Don Alonzo, grande orador do fragmento e da dispersão, do concreto e do abstrato — enfim, da Vida sem medo da Vida.

Passámos a noite a conversar por entre vodkas, martinis e filmes de zombies.

Pouco antes de vermos os imensos arredores de Madrid, todos feitos em tijoleira, o misterioso e coordenado barman do comboio no qual me deslocava a cem à hora — o velho Lusitânia, que agora era também o Sud-Express — ainda me disse:

— Continua a ir aos treinos, que estamos a construir silenciosamente o arco do futuro!

E depois começou a dar os últimos toques no bar para ficar impecável, de forma a que o empregado do próximo turno não tivesse trabalho indevido.

Despedimo-nos calorosamente.  A sua pose era estudada e cinematográfica. Depois de várias disserações nocturnas despojadas de ego, só a luz e a presença do bar nos iluminava. Ainda antes de um último gole no seu café con leche, acrescentou:

— Vai e dá-lhes trabalho!

Uma frase que roubara a João César Monteiro em Recordações da Casa Amarela, dita pelo louco, interpretado por Luís Miguel Cintra — para ele um filme de terror, já que o realizador lisboeta era igualzinho ao Nosferatu, o fantasma da noite.

Acordo na velha e bela Atocha e sei que, quando sair, vou regressar à movida madrileña e aos seus excessos poéticos e criminosos de outrora.

Não fiz uma viagem de comboio… fiz uma viagem no tempo, percebo agora, enquanto me sento na sala de espera do Hospital de Santa Maria. Não estou aqui nem como paciente nem como profissional de medicina. Espero pela Rute, uma enfermeira encantadora que fala bem espanhol e gosta de histórias.

Texto e ilustrações de Ruy Otero (artista media).

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