Sempre se mostrou um desafio fascinante pegar numa obra concebida dentro de uma determinada linguagem artística e obrigá-la a sobreviver noutra. A literatura conhece bem estes saltos mortais.
Um romance pode acabar esmagado pelo cinema que o adapta, mas também pode ganhar uma segunda vida, como sucedeu com O Nome da Rosa, quando Jean-Jacques Annaud conseguiu transformar a complexa construção literária de Umberto Eco num filme que não procurava imitar o livro nem o resumir à pressa. Conservava-lhe o espírito enquanto aceitava que cinema e literatura falam línguas diferentes.
Na música, o risco não será menor. O rock tem uma longa história de namoro, umas vezes feliz, outras embaraçoso, com a música sinfónica. Os Deep Purple foram dos primeiros a levá-lo a sério, quando Jon Lord escreveu, em 1969, o Concerto for Group and Orchestra, estreado no Royal Albert Hall. Décadas depois, os Metallica construíram com Michael Kamen e a San Francisco Symphony o monumental S&M.
Em 2011, Peter Gabriel decidiu retirar guitarra, baixo e bateria das suas próprias canções em New Blood. Também Pete Townshend entregou Quadrophenia a uma orquestra, coro e vozes líricas, deixando Alfie Boe ocupar o centro vocal de uma obra que pertencera aos The Who. Entre estes exemplos cabem muitos outros e cabem, sobretudo, duas filosofias: acrescentar uma orquestra ao rock ou desmontar o rock para descobrir se a composição consegue sobreviver sem ele.
Billy Corgan escolheu a segunda, que é também a mais perigosa. Trinta anos depois de Mellon Collie and the Infinite Sadness, disco duplo de 1995 que condensou como poucos aquela mistura de melancolia adolescente, grandiosidade, fúria e paredes de guitarras que fizeram dos Smashing Pumpkins uma das bandas essenciais da década, Corgan decidiu retirar quase tudo aquilo que o tornou reconhecível.

Em A Night of Mellon Collie and Infinite Sadness, apresentado na passada terça-feira num Coliseu dos Recreios esgotado com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa, as canções deixam de pertencer a uma banda de rock e são entregues a uma orquestra, a um coro e a quatro cantores de formação lírica.
O duplo álbum de 1995 dos Smashing Pumpkins nunca se apresentou, portanto, como um título modesto, nem o disco procurou esconder a ambição de transformar as inquietações da juventude numa espécie de universo emocional completo. Nesse sentido, entregá-lo três décadas depois a uma orquestra, a um coro e a vozes líricas não constitui uma traição: a grandiosidade já lá estava. A questão essencial seria perceber se ampliá-la ainda mais aprofunda a melancolia ou apenas aumenta a pompa.
O espectáculo nasceu em Chicago, com novos arranjos de Corgan e do maestro James Lowe, e não pretendeu limitar-se a colocar uma orquestra atrás dos Smashing Pumpkins, mas antes experimentar o que restaria da sua música depois de lhe retirar os próprios Smashing Pumpkins.

A resposta a esta questão, durante quase duas horas, com intervalo pelo meio, tanto pode fascinar como desconcertar. “Tonight, Tonight”, desde logo, parece ter esperado trinta anos por esta oportunidade. A composição original já continha uma vocação sinfónica evidente e cresce sem esforço quando ganha a dimensão de uma orquestra e de um coro.
Noutros momentos, sobretudo quando a melodia e a melancolia constituem a matéria-prima das canções, a transformação descobre pequenas riquezas que a massa eléctrica do disco escondia. “Thru the Eyes of Ruby” beneficia dessa ampliação, “By Starlight” encontra novas cores e “1979”, talvez por ser uma das canções que menos depende da violência instrumental dos Pumpkins, atravessa a fronteira quase sem pagar alfândega.
O problema começa quando a experiência tenta provar que toda a matéria-prima de Mellon Collie possui a mesma elasticidade. Não possui. “Zero”, “X.Y.U.” ou “Bullet With Butterfly Wings” nasceram também do atrito, do peso físico da guitarra, da bateria de Jimmy Chamberlin, daquela sensação de que a canção podia a qualquer instante desabar sobre quem a escutava.

Uma orquestra consegue produzir volume, tensão e violência, mas produz uma violência de outra natureza. Quando a fricção eléctrica é substituída por expansão harmónica e pela dimensão colectiva das cordas, metais e coro, algumas canções ganham espaço e complexidade, mas perdem compressão e nervo.
A grandiosidade não resolve tudo. Em certos momentos, a música parece crescer para fora quando aquilo de que precisava era continuar a avançar para dentro, conservar a urgência, a aspereza e aquela sensação de perigo que fazia parte da identidade dos Pumpkins.
A opção pelas quatro vozes líricas intensifica essa estranheza. Não se organizam em redor de Billy Corgan nem funcionam como mero prolongamento da sua voz: ocupam um plano próprio e, durante largos períodos, transportam sozinhas as canções. Soprano, mezzo-soprano, tenor e barítono alteram-lhes a gravidade, a dicção e até o sexo da voz que a memória lhes associou.
Em certos temas, essa deslocação revela a força da escrita; noutros, cria uma distância excessiva entre a canção e a emoção que lhe conhecíamos. O tenor pode cantar com impecável técnica uma frase que Corgan lançava como se tivesse acabado de sair de um quarto depois de partir metade da mobília, mas o mesmo conjunto de palavras muda de temperatura quando passa por um aparelho vocal construído para outro tipo de expressão.

A composição continua reconhecível; aquilo que a tornava emocionalmente incómoda nem sempre atravessa a transformação com a mesma força.
Mais desconcertante ainda acaba por ser a presença — ou antes, a ausência — do homem cujo nome aparece no cartaz. O título do concerto, convém reconhecer, é escrupuloso: A Night of Mellon Collie and Infinite Sadness Featuring Billy Corgan. “Featuring”, portanto. Não “Billy Corgan interpreta”. Não “Billy Corgan com orquestra”. E Corgan surge de facto apenas num punhado de temas, atravessando o espectáculo como uma presença intermitente, chamada de tempos a tempos para devolver àquelas canções a voz que durante trinta anos lhes serviu de assinatura.
Quando entra, o Coliseu reconhece-o num instante; quando canta, reconhece-se também aquela nasalidade que durante décadas tornou impossível confundi-lo com qualquer outra pessoa. Mas já a chegar aos 60 anos, a sua voz perdeu parte da agilidade e da juventude que lhe davam aquele carácter simultaneamente frágil e insolente, e nem sempre parece confortável dentro das próprias orquestrações.
Daqui nasce o paradoxo mais interessante da noite: quanto melhor funciona o conceito, menos necessário Billy Corgan se torna. A intenção talvez fosse essa. Corgan quis demonstrar que as suas canções não dependem da guitarra de Corgan, da voz de Corgan ou sequer dos Smashing Pumpkins. Quer reclamar para Mellon Collie o estatuto de obra, não apenas de disco de rock, permitindo-lhe aquilo que se permite a uma composição clássica: mudar de intérpretes, de instrumentação e de época sem perder a identidade.

O gesto contém, por isso, uma saudável dose de ambição e talvez outra de vaidade — afinal, poucos compositores resistiriam à tentação de ouvir dezenas de músicos e cantores provar que aquilo que escreveram aos vinte e poucos ou trinta anos já merece tratamento de repertório.
Porém, nem sempre a demonstração convence. O espectáculo possui beleza, inteligência e momentos de grande poder, mas também passagens em que a sofisticação alarga tanto a moldura que acaba por enfraquecer aquilo que estava no centro.
Não chega a constituir um acto falhado, porque várias das experiências justificam por inteiro a tentativa e porque seria absurdo avaliar uma reinvenção pela sua fidelidade ao original. Mas também não alcança a unidade que permitiria esquecer o álbum de 1995 e aceitar esta nova criatura como uma obra com existência própria.

No final, talvez o maior mérito de A Night of Mellon Collie and Infinite Sadness resida nesse incómodo. Corgan pegou num dos grandes discos do rock dos anos 90, desmontou-o, retirou-lhe a banda, grande parte das guitarras e da pulsação rock e, por largos períodos, retirou-se a si próprio. Algumas canções saíram da operação rejuvenescidas, mas outras parecem ter ganho uma dimensão que não compensou inteiramente aquilo que perderam em tensão e carácter.
Com tudo isto, Billy Corgan conseguiu, assim, uma proeza artística tão ambiciosa quanto estranha: construir em torno da sua própria obra um espectáculo em que a presença do autor deixa, durante boa parte da noite, de ser uma necessidade para passar a ser apenas uma possibilidade.









































