Categoria: Suplemento

  • Vai ver que não custa nada

    Vai ver que não custa nada

    As despesas judiciais não entram na locução prepositiva. Saiba porquê.

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    Na rubrica do PÁGINA UM ‘Língua na Cama’, Manuel (Matos) Monteiro – escritor e um dos melhores cultores da Língua Portuguesa, além de formador da Escola da Língua – escalpeliza, de forma caseira e descontraída, erros frequentes do nosso idioma, curiosidades linguísticas, maravilhas idiomáticas. Aprenda e divirta-se.

    ‘Língua na Cama’ é serviço público de qualidade para os leitores do PÁGINA UM.

  • O artista depois da máquina

    O artista depois da máquina

    Cada época gosta de anunciar o fim de qualquer coisa: o fim da pintura quando surgiu a fotografia; o fim do teatro quando nasceu o cinema; o fim da rádio com a televisão; o fim do livro com a internet; e o fim do jornal com as redes sociais. Na cultura também há a tendência neurótica para decretar funerais prematuros, talvez porque a arte, vivendo da sensibilidade, também vive da ansiedade. Ainda assim, convém reconhecer quando uma ameaça não é apenas mais uma mudança de ferramenta, mas uma alteração de escala civilizacional. A inteligência artificial poderá ser isso.

    Vários quadrantes temem que a inteligência artificial destruirá a arte. Essa proclamação sempre me pareceu ingénua quanto a euforia oposta dos tecnófilos. Na verdade, vejo-a como um estimulante desafio inédito para artistas, escritores, argumentistas, músicos e actores: pela primeira vez, uma ferramenta não se limita a ampliar a capacidade técnica do criador; entra no próprio território da criação, imita-o, replica-o, acelera-o e, em certos domínios, produz resultados que, aos olhos menos atentos, se confundem com obra humana.

    Atenção: essa diferença importa. A inteligência artificial não é inteligência humana, tal como outras tecnologias e instrumentos jamais substituíram o artifício humano – ajudaram-no a evoluir.

    Senão vejamos. A máquina de escrever não escrevia. O pincel não pintava. A câmara não escolhia enquadramentos por consciência estética. O sintetizador não compunha por intenção dramática. Mesmo as tecnologias que revolucionaram a criação continuaram dependentes de uma centelha humana que lhes desse forma, propósito e direcção. A inteligência artificial rompe, de forma parcial, essa lógica, porque oferece algo que as anteriores não ofereciam: uma simulação plausível da criatividade.

    O ponto interessante, porém, talvez não esteja no medo, mas na exigência a partir de agora.

    Os escritores do século XVIII trabalhavam com meios infinitamente mais pobres do que os de hoje. Sem processadores de texto, sem bases de dados instantâneas, sem bibliotecas digitais, sem motores de pesquisa, sem revisores ortográficos, sem acesso imediato à história acumulada da Humanidade num rectângulo luminoso pousado sobre a secretária. Ainda assim, produziram obras fundamentais.

    Um romancista contemporâneo herda tudo isso e muito mais. Herda Cervantes, Sterne, Balzac, Eça, Dostoievski, Borges, Nabokov e tantos outros. Herda tradição, técnica, crítica literária, modelos narrativos, recursos estilísticos e instrumentos tecnológicos. O seu ponto de partida é incomparavelmente mais vantajoso. Mas essa herança não lhe simplificou a tarefa; agravou-a. Se o pioneiro inventa, cabe ao herdeiro ter de justificar a herança. Não sei o que será mais desafiante.

    Alexander Graham Bell não teve de competir com dois séculos de telecomunicações. Edison não precisou de demonstrar que a lâmpada eléctrica fazia algo conceptualmente superior à engenharia posterior. O primeiro construtor abre caminho. O seguinte enfrenta um padrão crescente de complexidade. O engenheiro contemporâneo não impressiona por conseguir reproduzir um telefone rudimentar, porque sabe que se espera dele um salto colossal seguinte.

    Com a arte se passará o mesmo. Se uma inteligência artificial consegue produzir, em segundos, um conto competente, uma imagem tecnicamente sólida, uma melodia funcional ou um guião aceitável, então o artista humano perde o conforto da mera competência técnica. O banal será automatizado, o previsível será produzido em massa e o correcto deixará de bastar.

    Então, e o que sobra?

    Sobra aquilo que sempre distinguiu a verdadeira criação da mera manufactura: risco, ruptura, voz, estranheza, falibilidade e experiência humana. Ninguém deseja realmente uma Hollywood povoada por fantasmas digitais de Humphrey Bogart ou James Dean a repetir eternas versões recicladas de si mesmos. O fascínio inicial existirá, claro. A curiosidade mórbida faz parte da condição humana. Mas ninguém quererá viver num mausoléu interactivo.

    O mesmo vale para actores contemporâneos. Não é a capacidade técnica de replicar Tom Hanks aos 30 anos ou Meryl Streep em múltiplas décadas que fará nascer grande arte. O público continuará a procurar aquilo que não pode ser artificializado: a presença de alguém que interpreta o mundo a partir de uma consciência irrepetível.

    Por isso é que a arte sempre foi mais do que execução – foi sobretudo interpretação. Nesse sentido, a questão central não deve ser colocada em termos simplistas de proteccionismo corporativo, como se estivéssemos apenas perante sindicatos preocupados com salários ou estúdios aflitos com direitos de imagem.

    Esse problema existe e merece resposta séria. Um actor não deve ser digitalmente expropriado, um escritor não deve servir de matéria-prima involuntária para sistemas treinados sobre trabalho protegido e um compositor não deve descobrir que a sua linguagem foi absorvida por uma máquina que agora a reproduz sem autoria nem compensação. O direito tem de acompanhar esta transformação.

    Porém, a questão cultural é ainda maior.

    Talvez estejamos a entrar numa era em que o valor da arte humana aumentará porque a produção artificial se tornará abundante. Quando tudo pode ser gerado, o raro deixa de ser a forma e passa a ser a autenticidade. Uma carta manuscrita tornou-se mais preciosa depois do correio electrónico. Um disco em vinil ganhou aura num mundo de streaming infinito. Um actor de palco continuará a comover porque está ali, vulnerável, sujeito ao erro, à respiração e ao acaso. O excesso tecnológico produz, por reacção, fome de Humanidade.

    O grande artista do século XXI talvez não seja aquele que competir com a máquina na eficiência, mas aquele que consiga produzir aquilo que a máquina apenas imita. Ora, isto implica mudança estética. Talvez romances com menos fórmulas, cinema menos dependente de perfeição sintética, interpretações mais cruas, linguagem mais pessoal e, hélas, imperfeições mais valiosas.

    Nessa linha, se a inteligência artificial tem capacidade para dominar pela repetição sofisticada, a arte humana vencerá não com nostalgia, mas pela exigência.

    Note-se que cada revolução tecnológica empurrou os criadores para outro patamar. E a inteligência artificial apenas se prepara para nos empurrar para o núcleo essencial da criação: aquilo que não nasce do cálculo probabilístico, mas da consciência, da memória, da contradição e da experiência vivida.

    Na verdade, a inteligência artificial não decretará a morte da arte. Ironicamente, apenas a obrigará a tornar-se melhor e mais única.

  • Se eu pudesse, tu podias!

    Se eu pudesse, tu podias!

    Toda a gente sabe que por trás de um homem de boa linhagem está sempre um humilde criado. Alguém tem dúvidas sobre isto?

    Um Homem e o seu Criado é um apelo à reflexão sobre relações de poder e de subjugação. A peça é um cruzamento improvável, mas feliz, entre circo e teatro, fazendo-se acompanhar por sons de voz e de instrumentos, que se manifestam à luz e ao vivo.

    Foto: D.R.

    Noto que todos os anos, por volta do 25 de Abril, as pessoas estão mais sensíveis às injustiças sociais que caracterizam as relações de poder. Nos restantes dias do ano, à medida que nos vamos afastando da data da revolução, a sensibilidade comunitária diminui. O 25 de Abril é uma espécie de Natal, propiciando o milagre do desabrochar de sensibilidades, essas que nos permitem purgar a alma, valorizando a igualdade entre os homens. Natal e Abril alinham-se assim entre bolas cintilantes e cravos, e bolas para os cravos, … uma repetição cíclica e estéril de todos os sonhos de justiça, e de tudo o que poderíamos ser de uma vez por todas, … mas herdamos as memórias dos outros, projectadas em nós, e tanto teimam que se colam às paredes da nossa existência.

    Foto: D.R.

    O espectáculo de Cláudia Nóvoa trouxe elegância de pé ante pé, lindo na sua estética cheia de equilíbrios físicos e de desequilíbrios relacionais. Um palco demasiado aconchegante, que coloca intérpretes e público tão próximos que nos apercebemos, de facto, de como é delicado  o exercício do equilíbrio, criando um clima de suspense na plateia.

    A maior surpresa do espectáculo é vermos artistas com formação em artes  circenses que conseguem representar durante as acrobacias, dando algumas vezes a sensação de que também podem ser actores que sabem ser acrobatas. Como nós. Exactamente como nós, que vamos representando e contornando caminhos, sempre que a vida nos exige habilidades.

    Foto: D.R.

    Cláudia Nóvoa disse que este é um espectáculo inspirado no Rei Sol, personagem narcisista e excêntrica. Diria que é uma obra que se alimenta da história da humanidade. Um Homem e o seu Criado é a expressão de uma relação de poder: de um lado a ambição desmedida, do outro, a obediência ao serviço de um sonho alheio.

    Duas personagens avançam por um caminho solidamente traçado pelo criado: no chão, estende peças ordenadas que orientam os passos do seu amo. Como peças de dominó. Gosta-se especialmente da mobilidade do espaço cénico, que permite ir fazendo e refazendo imagens, sem que haja qualquer diálogo entre as personagens, a não ser a conversa dos gestos e dos corpos.

    Foto: D.R.

    O senhor, incapaz de se conter, manifesta em voz alta o seu sonho de poder: cavalos, criados, um castelo, … poder, muito poder. As vozes espelham-se na atmosfera criada pelas personagens e ecoam fortes, desordenadas e desamparadas, materializadas pelos sons do músico que acompanha os actores, ao vivo, chegando a interferir no espaço cénico, ainda que invisível aos olhos das personagens.

    Uma sinfonia de ambição e de poder. Não havendo cavalos nem outros criados, o senhor trata o seu criado como um cavalo, chicoteia-o, espevita-o e atormenta-o, dando-lhe uma vida que não lhe pertence.

    Foto: D.R.

    Esta parte do espectáculo é especialmente forte, não pela magia das artes do circo, mas por uma certa acrobacia do poder, que domestica sem pedir licença, com uma autoridade que fere, roubando humanidade.  

    Nenhuma vida devia poder ser desumanizada. E vamos achando que a humanidade é indissolúvel, ainda que todos os dias haja um punhado de gente que vive sumida e sobrevivente, sustentando o brilho dos raios de um qualquer Rei Sol.

    A pior excentricidade é a que se alimenta da anulação de alguém.

    Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐

    FICHA TÉCNICA

    Um Homem e o seu Criado
    Ideia Original / Direcção Artística: Cláudia Nóvoa
    Interpretação: Ariana Sebastião e Pedro Matias

    Música Original e Interpretação: Sílvio Rosado

    Cenografia: Joana da Matta e Pedro Matias 

    Figurinos: Rita Olivença

    Execução de Figurinos: Isabel Telinhos

    Desenho de Luz: Cláudia Rodrigues

    Fotografia e Vídeo:  Susana Chicó 

    Imagem Gráfica: Sebastião Rebolo

    Apoio Técnico: Nuno Almeida 

    Produção: Hipótese Contínua 

    Datas: 25 e 26 de Abril
    Local: Teatro São Luiz (Lisboa) / Sala Mário Viegas

  • O eleito

    O eleito

    Começou por chover. Choveu muito naquele dia. Bem mais do que habitual. Ainda assim, ninguém se mostrava preocupado. Acontece.

    Mas a borrasca não parou. Os dias foram-se sucedendo, os campos saturaram, as ribeiras transbordaram e, de repente, a enxurrada invadiu ruas e casas.

    Celestino nunca esqueceu a sucessão de telefonemas, a corrida apressada para tentar salvar o que fosse possível, a torrente castanha a arrastar carros, os móveis a boiar, as máquinas inutilizadas, os álbuns de família ensopados. Anos de vida e de trabalho desfeitos em instantes.

    Quando as águas recuaram, deixaram pouco mais do que lama e prejuízos. Quase todos tinham sido atingidos. Não ele, felizmente. A sua casa ficara inexplicavelmente incólume. A água chegara até à entrada, mas parara por ali.

    Durante dias, enquanto ajudava os vizinhos a limpar o que restara, perguntava-se por que motivo fora salvo. A casa, o carro e a família escaparam por um fio. Não compreendia a razão, embora aceitasse que a natureza, caprichosa e magnânima ao mesmo tempo, guardasse os seus próprios desígnios e, entre tantas pessoas, tivesse decidido poupá-lo.

    Anos depois, surgiu nova provação. Uma doença grave, tratamentos difíceis, noites mal dormidas… Celestino sentiu medo. Mas recuperou. Salvo pelo santinho da sua devoção, explicava:
    — Rezei muito, acendi muitas velas, fiz promessas. Nunca baixei os braços.

    Convencera-se de que o santinho reconhecera nele a fibra de um lutador, a coragem de um guerreiro e decidira, por isso, conceder-lhe uma ajuda extra. Médicos competentes, tratamentos eficazes e o acaso de um diagnóstico atempado eram meros pormenores. O essencial residia na luta travada. E o Céu, como se sabe, aprecia gente assim. Quanto aos outros, aos menos afortunados, concluía apenas, com pena, que talvez lhes faltasse a mesma fibra.

    Como não há duas sem três, passado algum tempo, viu-se de novo em apuros. Desta feita, durante umas merecidas férias tropicais. Um passeio de barco, música, calor, fotografias, bebidas geladas, tudo interrompido por uma manobra mal calculada que atirou os passageiros à água.

    Por entre gritos de desespero, Celestino, que nunca aprendera a nadar, debateu-se como pôde. Então, num instante quase milagroso, surgiu à sua frente uma boia e uma mão providencial puxou-o para outra embarcação. Iemanjá olhara por ele. Não por todos, lamentavelmente, mas por ele. Não podia ser coincidência. Tantas vezes poupado, tantas escapadelas à justa. Havia qualquer coisa no céu, no mar ou nas contas do destino decidida a mantê-lo por cá.

    Viu esta proteção confirmada no dia em que ganhou uma pequena fortuna na lotaria. Um bilhete comprado à última hora, números escolhidos ao acaso e, de repente, a vida que sempre desejara. Comprou casa nova, trocou de carro, deixou o emprego. Na verdade, sempre suspeitara de que estava tudo traçado desde o princípio e alimentava a convicção de que as dificuldades ultrapassadas mais não eram do que provações que o preparavam para algo maior e merecido.

    Até que, quando tudo parecia finalmente tranquilo, a mulher anunciou estar apaixonada por outra pessoa. Sem dramas. Sem acusações.

    — Não és tu, sou eu.

    Decisão tomada e metade da vida arrumada em duas malas. Partiu.

    Celestino ficou sentado à mesa da cozinha, o olhar e a casa vazios, aguardando uma explicação inexistente.

    Não vieram em seu socorro o santinho, nem Iemanjá, nem sequer a mãe natureza, que bem podia providenciar uma tempestade naquele instante.

    Limitou-se a suspirar:

    — Que pouca sorte!

    Foi a primeira vez que a palavra lhe ocorreu.

    Por um instante, o universo distraíra-se e Celestino via-se, agora, expulso do círculo dos eleitos. Sujeito à sorte, como um qualquer mortal.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

  • O banimento do filósofo

    O banimento do filósofo

    Solta o copo e te levanta! Tu não vais tomar mais uma gota desse suco. Faz o que estou mandando! Isso.

    Agora, anda para o quarto.

    Nosso quarto? Desde quando tu tens alguma coisa neste apartamento?

    Não, não responde. Não quero ouvir mais uma só palavra dessa tua boca suja.

    Vamos, não para nem fica me olhando com ar de pateta. Tu deves saber o que aconteceu. Alguém do edifício me contou o que tu fazes quando estou fora. O que fazias, porque agora nunca mais vais fazer nada.

    Não te vira! Não me olha! Não quero teus olhos em cima de mim.

    Não tenta falar comigo!

    Eu jurei para mim mesma que não gritaria. Seria apenas mais uma humilhação. Os vizinhos não precisam saber de nada. Não, não haverá barraco no apartamento da doutora. Tu simplesmente vais apanhar as tuas coisas e sair. Discretamente.

    Vamos, entra no quarto!

    Não tenho tempo a perder. Esqueceu quanto eu ganho por consulta? Esqueceu que eu faturo num dia o que tu ganhavas num mês antes que eu passasse a te sustentar? Quero perder três consultas no máximo para me desfazer de ti. Mesmo assim é muito dinheiro para um chinelão como tu.

    Depressa! Sei que tu és lento de raciocínio. Percebi já nos primeiros dias, mas sentia peninha de ti, o pobre professor que precisava dar aulas numa escola de periferia.

    O quê? A gente se gostava? Eu deixei que tu viesses morar aqui para economizar. Como amante fixo tu me saías mais barato.

    Vamos começar pelas tuas cuecas imundas, mas pega só duas! Todas essas foram compradas por mim. Então, leva duas e deixa as outras que eu vou queimar. Lembra da cueca que usavas na primeira noite? Desbotada, elástico frouxo. Aquilo me comoveu. Como pude ser tão idiota?

    A verdade é que eu nunca havia transado com um sujeitinho da tua classe. Nunca havia sentido pena de homem nenhum. Mas tu eras um professor de Filosofia! Trabalhavas numa escola dos cafundós porque querias ensinar os jovens marginais a pensar sobre as grandes questões da vida humana. Comovente.

    Lembra do susto que tu levaste quando chegou a conta do restaurante naquela primeira noite? Não? Pois eu lembro muito bem, com raiva. Eu estava bêbada, sim. E necessitada de homem.

    Não, não, essa mochila fica no armário. Vais levar tuas coisas numa sacolinha de plástico.

    Eu não podia imaginar que tu, um homem de quarenta anos, não bebia. Por isso, acabei tomando quase toda a garrafa sozinha. Era uma noite de lua cheia e eu fiquei pateta. A falta prolongada de macho faz muito mal a uma mulher sadia de trinta anos.

    Agora, as camisas. Pega só as antigas, as tuas, porque as que eu comprei com o meu dinheiro vão para o porteiro.

    Não canso de me perguntar: como foi que entraste nessa, Beatriz? Como foste te juntar a um pé-rapado?

    Conversar? Olha, eu te disse para não abrir a boca. Cala e escuta. Tu não tens ambição. Tu és um merda, como diz meu pai. Tu não tens onde cair morto. Mas filosofas, vives te fazendo grandes indagações. Depois da morte, vamos para onde? Respondo: tu vais ser enterrado na vala dos indigentes.

    O amor que havia entre a gente? Nunca houve amor entre nós. Havia sexo. Sexo mais ou menos. Para transar legal é preciso imaginação. Mas tu és um vegetal. Agora, reconheço, tens uma vantagem: demoras para terminar o trabalho. Nós, mulheres, gostamos disso, do ato demorado. Faz com que a gente se sinta importante. Afinal, os homens nunca nos dedicam nenhuma atenção. Conheço meia dúzia de mulheres que gostariam de trepar contigo, o moreno dos cabelos encaracolados. Até pagariam, como eu. Mas eu quero que vás te prostituir longe de mim.

    Não! A calça Levis nem pensar! Ainda não está paga. Falta uma prestação. Antes, compravas roupa nas feiras, lembra? Batas indianas, calças de saco de farinha, sandálias de couro. Eu fiquei com peninha. Um pobre professor meio comuna dedicado a tirar a gurizada das garras do tráfico.

    Êpa, o cinto, não! Deixa também! É couro legítimo. Tu só levarias se fosse para te enforcar com ele.

    Agora, admito que fiz mal para ti. Tu eras puro e eu te corrompi. Aprendeste a usar roupas decentes, foste pela primeira vez ao teatro e viste bons filmes. Viajaste de avião e conheceste Santa Catarina. Infelizmente, agora, tu vais ter que voltar para a rua esburacada onde mora tua mãe. Um homem de quarenta anos!

    O que aconteceu? Não me faz essa pergunta que eu fico louca! Sou capaz de quebrar um vidro de perfume na tua cara de pau! Não sabes, não sabes mesmo? Pois eu vou te dizer.

    Aqui neste edifício moram algumas senhoras idosas. Pois bem, uma delas me escreveu uma carta. Mas não colocou no meu escaninho porque imaginava que tu poderias pegar antes de mim. Essa senhora foi até o centro e entregou a carta na portaria da clínica.

    Tu queres saber o que está escrito nela? Nem imaginas! Pois bem, ela me escreveu que tu passas as manhãs num banco da praça, perto dos brinquedos das crianças, fingindo que lê. Isso mesmo, fingindo! Mas o que tu fazes mesmo é espichar os olhos para o rabo das babás.

    Não, não é só isso. Ela te viu beijando aquela indiazinha que trabalha no quarto andar.

    Não aconteceu nada entre vocês? Não sei nem quero saber. Pode ser que sim e pode ser que não. Mas tem também o caso da coroa do sexto andar, a miss botox. Aquela que tem uma cara que é um mostruário de cirurgias plásticas. A minha informante te viu saindo do apartamento dela com as bochechas vermelhas. Que consertar a pia? Tu foi desentupir outra coisa.

    A jaqueta tu podes levar. Para não passar frio no casebre da tua mãe. Olha a etiqueta! Conhece o jacaré? É Lacoste. Tu levarias cinco anos para pagar uma dessas.

    Pronto, vamos ao banheiro.

    Assim que saíres, vou desinfetar a casa toda.

    Pega só a escova. De pasta tu não precisas. Podes escovar os dentes com sabão, seu mentiroso.

    Pronto, agora, saindo. Vamos para a sala. Porta da rua, serventia da casa. Isso dizia minha mãe: porta da rua, serventia da casa.

    O quê? Dinheiro para o ônibus? Estás debochando da minha cara?

    Vai caminhando. Tu não és contra a poluição? Os ônibus poluem muito. Daqui até o muquifo da tua mãe são só uns quinze quilômetros. Podes ir filosofando. Tu não vives querendo saber qual é a finalidade da existência? Quando chegares lá, já terás descoberto que, para cretinos como tu, o fim último da existência é viver na merda.

    Lourenço Cazarré é escritor

    (*) Do livro Exercícios espirituais para insônia e incerteza, Editora Insular, 2023.

  • Honestidade organizada

    Honestidade organizada

    No meu país, todos são honestos
    Todos são rectos
    Até à ínfima partícula do seu ser
    Desonestos, maus e preguiçosos são, proclamam todos, 
    os outros
    Todos conhecem a verdade
    Todos têm uma verdade para impor
    Todos sabem o caminho
    Nenhum tem dúvidas
    Todos pagam o seu dízimo
    No meu país, todos trabalham
    E todos dão o seu melhor
    E o seu melhor é o melhor de todos
    Nenhum sequer mereceu uma multa
    Todos praticam a virtude
    Se todos fossem como eles
    Não haveria fome
    Nem prisões
    Nem tribunais
    Nem mendigos
    Nem gente sem lar
    E ai de quem desconfiar
    Ai de quem abrir a boca
    Bandido será
    E tudo o que disser será perjúrio
    Uma falácia de tal vulto
    Que a todos chocará
    Mas a todos, também vos digo
    Que num país em que todos roubam
    E ninguém assume,
    O mais honesto é o ladrão confesso

    ***

    Luís Serra Santos é poeta lisboeta e pugilista nos tempos livres.

  • A Literatura tem cor?

    A Literatura tem cor?

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    Certas modas intelectuais apresentam-se com a solenidade da reparação histórica e acabam, com notável rapidez, por reproduzir a lógica que dizem combater. A mais recente manifestação desse impulso surgiu no universo editorial português, onde uma nova chancela literária se propõe publicar, em exclusivo, autores negros, partindo da premissa de que os “catálogos de livros sempre foram esmagadoramente brancos” e de que a “branquitude” continua a funcionar como medida universal da cultura.

    Este entusiasmo ideológico comete, desde logo, um erro crasso: uma coisa é reconhecer que existiram — e persistem, em certos contextos — mecanismos de visibilidade desigual, filtros editoriais discutíveis e hábitos culturais que favoreceram determinados circuitos de legitimação; outra, muito diferente, é concluir que a resposta adequada consiste em transformar a identidade racial num critério formal de organização da vida literária.

    piled books on brown wooden shelf

    A Literatura — se ainda aceitarmos tratá-la como arte, e não como prolongamento burocrático de taxonomias identitárias — pertence ao domínio da consciência humana, da memória, da imaginação e da linguagem. Não escreve a pigmentação da pele, nem constrói frases a ancestralidade genética, nem escolhe metáforas segundo o código cromossómico. Quem escreve é a inteligência sensível, a experiência convertida em forma, a inquietação tornada voz. E o esforço, claro.

    Quando lemos Dostoievski, não o fazemos como consumidores de “literatura branca eslava”. Quando mergulhamos em Toni Morrison, não estamos perante uma peça confinada a um inventário racial. Quando lemos Machado de Assis — esse mulato genial que perscrutou a alma humana com uma subtileza que humilha legiões de romancistas — não o fazemos como quem consome “literatura racializada”, mas como quem entra num dos mais sofisticados laboratórios da condição humana. Em qualquer destes casos, o valor não reside na tonalidade epidérmica, mas na inteligência literária, na ironia devastadora e na profundidade psicológica da obra. Reduzir escritores à categoria fenotípica constitui um gesto não apenas intelectualmente redutor, mas culturalmente pobre.

    A editora que concebeu esta ideia assegurará, por certo, que esse não é o propósito; que a intenção é apenas criar espaço para vozes sub-representadas. O argumento parece sensato à primeira vista, mas os instrumentos escolhidos para fazer justiça revelam-se enviesados, porque existe uma distinção fundamental entre ampliar horizontes editoriais e institucionalizar critérios identitários de exclusão.

    photo of library shelves

    Aliás, bastaria inverter os sinais para perceber a fragilidade do princípio. Uma chancela que anunciasse publicar, em exclusivo, autores brancos europeus seria — e justamente — recebida com indignação generalizada. O critério seria imediatamente denunciado como segregacionista. A questão, portanto, é filosófica: um princípio errado torna-se aceitável apenas porque é mobilizado em nome de uma reparação histórica?

    Na verdade, este tipo de argumento correctivo costuma invocar o peso da História: se existiu exclusão implícita durante décadas, um benefício explícito e temporário seria legítimo. Mas esta lógica contém um veneno conceptual perigoso: converte a igualdade num mecanismo pendular de compensação identitária, em vez de a afirmar como princípio universal. A cultura transforma-se, assim, num sistema de contabilidade moral entre grupos, e não num espaço de liberdade criativa.

    Ora, a Literatura, mesmo com as suas injustiças históricas, sempre floresceu precisamente no movimento inverso: na transcendência da circunstância. Ler Dostoievski, um russo do século XIX, continua a permitir compreender com brutal intimidade as angústias morais de um lisboeta do século XXI. Toni Morrison ilumina consciências que jamais partilharam a sua experiência histórica. Machado de Assis mantém, com ironia cirúrgica, a crítica às vaidades humanas de qualquer século. A Literatura é essa máquina prodigiosa de universalização da experiência humana.

    fountain pen on black lined paper

    Isto não significa apagar biografias, contextos ou experiências históricas concretas. O erro começa quando se transforma a identidade em porteiro da própria Literatura. Até porque, ao proclamar-se a libertação de vozes marginalizadas, reafirma-se a raça como categoria central da vida cultural. Em vez de dissolver fronteiras, redesenham-se fronteiras novas, apenas com léxico mais elegante.

    A verdadeira pergunta cultural não é se autores negros devem ter espaço editorial — evidentemente que sim. Como devem tê-lo autores asiáticos, árabes, indígenas, europeus ou marcianos, desde que escrevam algo digno de ser lido. A pergunta séria é outra: queremos uma Cultura guiada pela qualidade, pela pluralidade e pela curiosidade intelectual, ou uma Cultura que substitua a crítica literária por uma antropologia da epiderme?

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  • Expressões idiomáticas

    Expressões idiomáticas

    Se as pessoas se automutilam, porque não se auto-suicidam? Conheça as expressões fixas do nosso idioma e, de caminho, evite redundar em redundâncias.

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  • Pai, tu tá virando peixe

    Pai, tu tá virando peixe

    Agora que vivo aqui, cercado de morros, tranquilo, eu me limito a assistir ao desfile do tempo. Não ambiciono mais nada. Estou em paz comigo e com o mundo. Foi um longo trajeto o que me trouxe até aqui.

    Tudo começou há quinze anos.

    De repente comecei a sentir uma dor nas costas. Não era muito forte, mas era permanente. Toda manhã, ao despertar, eu já a encontrava deitada do meu lado. Ao longo de todo o dia, ela me acutilava por qualquer movimento brusco. Recorri ao primeiro médico e o tratamento que ele me indicou – remédios mais exercícios – não deu resultado. De vingança, a dor se tornou mais insinuante. Apresentava-se em todos os meus movimentos, mesmo os mais suaves. Fui a outro médico. A dor respondeu atacando-me durante o sono. Fui a um terceiro especialista.

    No pior dos amanheceres pensei que jamais deixaria a cama. Arrastei-me até o guarda-roupa, vesti-me e implorei uma consulta de urgência a um acupunturista, indicado por um amigo. Sim, eu decaíra ao ponto de recorrer à feitiçaria.

    – Corpo bom, mas tenso – disse o doutor Woo. – Foi magro muito tempo faz.

    Sim, eu fora magro e ágil até os trinta anos. Alcancei o auge da minha forma física aos 18 anos, com 75 quilos, no Exército, quando assumi a muito honrosa posição de goleiro da equipe de futebol de salão do regimento. Aos trinta anos, depois de abandonar o cigarro, ganhei oito quilos num semestre. Dali em diante eu me contentei em engordar um quilo por ano.

    Vestindo apenas cueca, deitado de barriga para baixo numa cama estreita e dura, eu pude ver, pelo espelho embaçado da cômoda, quando o doutor Woo me espetou no dorso e pernas uma dúzia de agulhas. Depois ele prendeu a cada uma delas a fios que saíam de algo que me pareceu, de início, uma caixeta de goiabada recoberta com papel negro.

    – Não vai dói – encorajou-me.

    Começou a girar lentamente um botão que havia na lateral da caixa. De imediato senti uma sensação de formigamento, que logo se transformou num choque elétrico mínimo, mas cuja intensidade crescia conforme se movimentava o pulso do chinês. Gemi quando aquilo me pareceu insuportável.

    – Isso bom. Quando dói, senhor glita: pala!

    – Para, para, para!

    O acupunturista sumiu por trás da cortina florida que vedava o interior do apartamento e só reapareceu bem depois, quando eu mais nada sentia. Voltou a girar o maquinismo.

    – Para, para!

    – Pouco tempo gente costuma dor – esclareceu. – Mais dor até fim botão. Ninguém morre.

    Preciso confessar que quando ele se aproximou da caixa preta pela terceira vez eu fechei os olhos, meio enlevado, já antecipando o prazer de uma descarga mais forte.

    Uma hora depois, ao me vestir, eu não percebia nem sinal da dor que me atazanara a vida ao longo de tantos meses. Lembrei então de uma passagem bíblica – Levanta-te e anda! – ouvida nas missas da infância e quase chorei de alegria.

    Depois de preencher o cheque, eu quis saber o que havia dentro da misteriosa caixeta. Levantando a parte de cima, o doutor Woo mostrou-me uma maçaroca de fios. Aquilo, explicou, produzia uma corrente elétrica de baixa voltagem. Perguntei então quando deveria voltar.

    – Senhor precisa é nada piscina. Se nada, não volta casa chinês.

    Entre a descrença e a displicência, comecei as aulas de natação.

    A dificuldade inicial foi perder os maus hábitos que adquirira quando moleque. Eu havia aprendido a nadar em rio, tendo como mestres guris mais velhos que haviam inventado diferentes métodos de se manter à tona esmurrando a água.

    – O senhor tem um estilo maravilhoso! – brincou o professor, no primeiro dia. – É o que eu chamo de nado parado no mesmo lugar.

    Aos poucos, lentamente, fui assimilando os movimentos corretos. Entusiasmei-me quando alcancei os primeiros bons resultados em competições de amadores adultos.

    Tempos depois, tendo perdido cinco quilos e constatado que conseguira me livrar para sempre da praga do sedentarismo, decidi mudar também minha alimentação. Abandonei as idas diárias a restaurantes, onde comia rapidamente tudo que me punham na frente, sem me preocupar em mastigar, e passei a fazer em casa demoradas refeições.

    A perda de peso ganhou velocidade.

    Passei a nadar todos os dias da semana, uma hora exata, a melhor hora do meu dia, das seis às sete da manhã. Inverno ou verão, lá estava eu de sunga, óculos e touca preta, deslizando de uma borda à outra da piscina aquecida.

    Concentrado em ajustar cada movimento dos meus braços ou pernas às ordens gritadas pelo treinador, eu me esquecia deste mundo. Sim, meu maior prazer durante a permanência na piscina era o total afastamento deste vale lacrimoso. Só sei disso agora. Naquela época, eu me interessava apenas pelo ato de nadar: esforçava-me para deslizar com menor esforço e maior velocidade. Contava e recontava as braçadas e pernadas que me levavam de um lado a outro. E depois, descansando agarrado à borda, avaliava a pulsação, que sempre me parecia excessiva. Apesar do esforço, eu queria que o meu coração batesse como o de um homem que caminha por uma rua plana no início de uma manhã. Imerso no silêncio borbulhante da água azul, com meu corpo e meu cérebro unidos como nunca haviam estado antes, eu não pensava nem no meu trabalho nem na minha família. No tiro final de cinquenta metros, que encerrava a aula, eu dava tudo o que podia. Depois me deliciava com a sensação de total esgotamento físico.

    Apesar dos avanços notáveis, tendo alcançado um tempo excelente para minha idade, eu saía contrariado da piscina, lamentando que dentro da água o tempo passasse tão depressa. Eu queria nadar ainda mais rápido. Para obter mais essa vitória, só havia uma solução: permanecer dentro da água mais de uma hora por dia.

    Desencadeei uma manobra ardilosa para convencer minha mulher de que viveríamos bem melhor se trocássemos nosso apartamento no centro da cidade por uma casa num dos novos condomínios que começavam a se multiplicar em bairros afastados. Aleguei que, além de tranquilidade para estudar, nossos filhos teriam um lugar mais seguro para reunir os amigos nos finais de semana. E, se quisessem, poderiam praticar esportes. Natação, por exemplo.

    Meses depois trocamos o apartamento por uma casa espaçosa, arejada, com ótima posição em relação ao sol, construída com tijolos à vista e muita madeira. Minha mulher, que gostava de “ambientes rústicos”, apaixonou-se e quis fechar o negócio imediatamente.

    A uns vinte metros da traseira da casa, num patamar mais elevado, entre árvores copadas, a piscina era simplesmente maravilhosa. Suas paredes e fundo eram de pedras lisas de várias tonalidades. Um poderoso sistema de iluminação permitia que fosse usada à noite. Era larga e de bom comprimento. O antigo proprietário não havia economizado ao construí-la.

    Mudamos no verão. Eu me levantava antes do nascer do sol e, depois de um iogurte com granola, caía na água. Nadava pesado durante duas horas. Sem que minha mulher soubesse, continuei matriculado na academia de natação, para aproveitar eventuais folgas no meio da tarde. No início da noite, antes do jantar, dava uns mergulhos demorados, boiava e fazia exercícios de hidroginástica. Comprei uma cama de ar e às vezes, nas noites de lua cheia, bebia um copo de suco de laranja deitado nela.

    Certo dia minha filha me disse:

    – Pai, tu tá virando um peixe.

    Considero esse o maior elogio que recebi de alguém até hoje.

    Quando o tempo começou a esfriar mandei instalar um sofisticado sistema de aquecimento, que operava tanto com energia elétrica quanto solar. Passei momentos muito ruins quando minha mulher descobriu que eu havia torrado uma pequena fortuna naquele equipamento.

    – Isto tá virando uma obsessão.

    – Uma obsessão saudável – retruquei.

    – Não existe obsessão saudável.

    – Tu tá com ciúme de uma piscina, mulher?

    – Mulheres têm ciúme de tudo – respondeu. – Até de água.

    Nos finais de semana, abandonei a demorada leitura dos jornais para ter mais tempo de intimidade com a minha piscina. Depois, exausto, estirado na rede montada na varanda, desatento ao que falavam ao meu redor, eu observava os raios do meio-dia tentando penetrar na superfície dançarina da água. E ficava furioso com o sol.

    Mulheres são difíceis, especialmente se professam a crença nessa magia moderna que convencionamos chamar psicologia. Minha mulher era psicóloga, ganhava seu pão alugando os ouvidos a neuróticas abandonadas pelos maridos. Um dia ela descobriu que devia tratar-se a si mesma. Reconheço que nos últimos tempos eu andara empolgado demais com a minha performance aquática para perceber a erosão do nosso relacionamento.

    Como costumava usar tampões de ouvido ao nadar, não escutei quando ela quebrou no piso do alpendre, um a um, os bibelôs que havíamos comprado em nossas muitas viagens ao exterior.

    Naquele dia mesmo ela mudou-se para um apart-hotel caríssimo e contratou como advogado seu próprio irmão, o mais implacável profissional do ramo do direito que mais favorece às mulheres, o dos divórcios.

    Quando saiu a decisão judicial, transferi meu escritório para a casa, o único bem que me restara. Entreguei à megera meu conjunto de três salas num dos edifícios comerciais mais valorizados da cidade, minhas aplicações financeiras e dois terrenos de praia.

    O fundamental para mim era manter a piscina.

    Demiti meus funcionários, com exceção da secretária, que passou a trabalhar na minha casa, e instalei um telefone fixo na beira da piscina. Quase sempre me bastava estender a mão para conversar com os clientes. Nem precisava sair da água. Para assuntos mais complicados, eu recorria a um roupão e a uma cadeira de praia colocada ao sol.

    No dia em que fiz cinquenta anos subi na balança do banheiro e verifiquei que estava pesando os mesmos 75 quilos que tinha ao defender a goleira do meu regimento.

    Os anos continuaram a correr, iguais. Meus filhos, que passaram a morar num apartamento luxuoso comprado pela bruxa que os gerara, de vez em quando vinham me visitar na casa. Mas, como não gostavam de entrar na água, suas visitas foram ficando cada vez mais espaçadas. O rapaz ingressou na universidade aos 17 anos. Dois anos depois, com a mesma idade, sua irmã o seguiu.

    Eu só ia à cidade para resolver casos em que minha presença era indispensável. Para todo o resto, havia a minha secretária, mulher competentíssima. Quase sem perceber, aos poucos, rompi todos os meus vínculos com o mundo. Deixei de ir a aniversários, batizados, casamentos, formaturas e velórios. Recusei-me até mesmo a visitar amigos safenados.

    Meu filho formou-se em Odontologia, foi contratado pelo Exército e hoje está destacado numa cidade do Amazonas onde só existem três automóveis. Minha filha graduou-se em antropologia, foi morar na Espanha e ganha sua vida servindo bêbados num restaurante de comida marroquina. Minha ex-mulher começou a namorar um jovem geriatra. Parece que intercambiam clientes.

    Num dia chuvoso minha secretária e eu fomos à cidade e ingressamos com nossos pedidos de aposentadoria.

    O processo não foi demorado, mas o valor que me estabeleceram como benefício foi decepcionante. Minha renda caiu de maneira acentuada, mas em compensação meus gastos também despencaram. E eu pude ter à minha disposição 24 horas por dia a piscina das águas azuis.

    Vivi dois anos em estado de graça naquela casa, mas as despesas – especialmente quando se tem uma piscina iluminada e aquecida – sempre crescem mais rapidamente do que os reajustes do benefício de um aposentado.

    Assim, me vi obrigado a vender a casa. Com metade do dinheiro que recebi, comprei este sítio e paguei à vista o chalé pré-fabricado de madeira.

    É por isso que agora estamos aqui, muitos metros acima do nível do mar, respirando este ar puríssimo.

    O chalé? Foi montado em três meses. Tem só um quarto e poucos trastes. Um sujeito como eu, que passa o dia na volta da piscina, quase não precisa de móveis.

    Venha comigo. Venha ver a minha obra-prima. Está ali, depois das árvores…

    Não, não foi difícil construir esta piscina. Bastou represar este córrego, que era pouco mais do que um fio de água. Veja o fundo: foi feito só com pedras da região. Ao contrário do que ocorria no condomínio, não gasto com iluminação, aquecimento e cloro. A água é corrente, se renova a todo instante. Sim, eu já me acostumei com a água fria.

    À noite? Acendo umas tochas de cana. Mas você precisa ver as noites de lua cheia aqui! Não resisto. Venho para cá e nado até quase cair no sono.

    Por falar em dormir, ontem sonhei que não possuía braços, mas nadadeiras, e que, no lugar das pernas, eu tinha uma poderosa cauda cintilante que me impulsionava e que determinava minha direção.

    Pois é, todos que vêm aqui me dizem o mesmo. Acham que, entre um mergulho e outro, eu deveria me deliciar com a visão desses morros todos, desse verdor maravilhoso. Mas a verdade é que só tenho olhos para a água. Cumpriu-se a profecia da minha filha. Agora eu sou um peixe.

    Lourenço Cazarré é escritor

    Publicado originalmente no livro Exercícios espirituais para insônia e incerteza, Editora Insular, 2022.

  • Viagem fantástica

    Viagem fantástica

    Se abrires um livro, arriscarás que cada página te desfaça o mundo e te empurre, em silêncio alado, para um lugar sem tempo nem memória.

    Bruno Rama é ilustrador editorial (©Direitos reservados)

    Texto de Pedro Almeida Vieira (©Direitos reservados)