Categoria: Suplemento

  • Às seis da tarde, naquela rua, o medo

    Às seis da tarde, naquela rua, o medo

    Fosse o que fosse – fosse o verão e estivéssemos, caras vermelhas e topetes suados, sobre o verdadeiro fogão que era aquela calçada de cimento; fosse o inverno e estivéssemos pálidos e rígidos dentro de nossas japonas de lã; fosse o outono e estivéssemos observando melancólicos a dança das folhas secas, fosse a primavera e estivéssemos aspirando o aroma das margaridas – ele estava sempre ali, às seis da tarde.

    Sentado naquele mocho bambo, encurvado dentro da concha de seus demorados silêncios de inveterado mateador, ele conseguia segurar por alguns bons minutos a permanente inquietude da nossa infância. Era meu avô.

    Estava sempre ali, às seis da tarde, às seis em ponto da tarde, quando desciam aquela rua, apressados pela vergasta da noite, os homens e as mulheres que passavam os dias encerrados como feras nos galpões sombrios dos curtumes, da fábrica de sabão e do imenso lanifício.

    Estava sempre ali, naquela calçada, às seis da tarde, quando, vinda da penumbra sonolenta da cozinha, surgia minha avó trazendo a velha chaleira tisnada com a água quente e a cuia, com o mate já montado. Ele permanecia em silêncio por mais um pouco, mas sempre vagando o cinzento dos seus olhos pelos nossos rostos ou pelo brilho opaco das estrelas recém-nascidas ou pelo vermelho do sol que morria por trás do terreno baldio. Sempre na calçada, sentado num banquinho de pernas bambas.

    Estava sempre ali, naquela rua, ao cair da tarde. Gostava muito de falar sobre os céus e os ventos, os solaços e as frialdades, mas disso não queríamos saber pois o que nos interessava mesmo era a história que viria a seguir.

    Esperávamos brincando já que, para nós, o tempo era apenas uma sucessão ininterrupta de esconde-esconde, pega-pega, pula carniça, mocinho-e-bandido e chicotinho-queimado.

    Impacientes, esperávamos que ele começasse a contar uma daquelas histórias, sempre as mesmas duas, com as variações que as noites de insônia e os dias vagabundos de aposentado iam introduzindo a cada nova narração.

    Inquietos, esperávamos o medo, enquanto ele cuidadosamente punha a água quente na cuia e em seguida sugava o ouro do bico da bomba, num preparativo indispensável para que o medo fosse se aninhando em nossas magrezas e crescendo ali, vicejando em nossos peitos, alastrando-se por nossas pernas e braços.

    Naquela rua, à seis da tarde, naquela calçada, tínhamos medo.

    Medo do açougueiro, baixo e retaco, medo dos seus grossos braços peludos e da sua cara azulada de barba, medo dos seus olhos mansos de homem honesto. Medo do mísero eletricista alemão, alto e magro, que morava num casebre no fim da rua, medo dos seus olhos verdes de gato, medo do seu jeito esquivo e silencioso.

    Foi ali naquela rua, às seis da tarde, onde permanecemos por tantos anos, calados e atemorizados, expectantes e respeitosos, que vimos o medo multiplicar-se… Multiplicar-se como os incontáveis coelhos que saíram da cartola do mágico daquele circo mambembe a que fomos num domingo.

    Suas frases curtas eram alinhavadas por longos silêncios.

    Houve uma vez, num tempo muito antigo, um castelo.

    O medo começava a pulsar dentro de nós quando ele, ao mesmo tempo que levava a bomba aos lábios, erguia os olhos para o céu.

    Naquele castelo vivia uma princesa muito bonita.

    O medo era como um gato enroscando-se em nossas canelas glabras.

    Pois numa noite de lua cheia a princesa escancarou a janela para dormir melhor. Era o verão.

    Mais do que imaginávamos, nós víamos de verdade a bela jovem abrindo a janela como se convidando as estrelas a partilhar com ela o leito.

    Descuidada, adormeceu. No meio da noite, acordou sobressaltada por um barulho que não era nem de gente nem de bicho.

    Éramos o medo, todos nós, dos pés à cabeça, inteiriços, arrepiados.

    A princesa acordou e viu um vulto ao lado da sua cama. O vulto voou sobre ela.

    Sabíamos o que viria a seguir, mas não tínhamos como controlar o medo, frio e pegajoso, que já era então como uma serpente que se enrolava em nossos pescoços para nos estrangular.

    A princesa gritou. O vulto fugiu pela janela. No pátio, o guarda do castelo fez fogo.

    Mesmo que não fosse inverno, sem perceber, nós sempre acabávamos nos aconchegando, para enfrentar o gelo do terror.

    Ouviu-se um urro de fera. A fera desapareceu, mas deixou no chão um rastro de sangue.

    Chegávamos ao horror, ao fundo do poço do horror, nas noites em que, naquele exato ponto da história, passava por nós o pobre eletricista arrastando ao lado da bicicleta sua sombra triste de homem solitário.

    No dia seguinte, o médico foi ao castelo para atender a um homem que estava morrendo. Era o cavalariço. Enquanto fazia o curativo num ferimento causado por tiro, ele viu entre os dentes do homem fiapos do tecido delicado de que era feito o mosquiteiro da princesa.

    E ali, naquela rua, ficávamos nós, trêmulos e ofegantes como se tivéssemos corrido muito e sem destino e observando, cabisbaixos, as manchas de escuridão que se multiplicavam ao nosso redor e temendo ver nascer delas o lobisomem.

    E dali só nos movíamos quando, das portas de nossas casas, gritavam as mães: Janta na mesa! Já para dentro! Hora do banho!

    Era outro dia, outro céu e outra história, mas sempre às seis da tarde, e lá estávamos novamente, mudos e quietos, ao redor do banco, observando respeitosos o ritual eterno do chimarrão – impermeáveis à voz do rubro vento do outono, às névoas cinzentas do inverno, ao perfume branco da primavera ou ao inferno alaranjado do sol que morria.

    Havia aí para esses lados, faz muito tempo, um matadouro.

    Acompanhávamos o movimento do braço que, depois de soltar a chaleira sobre o descanso calcinado de madeira, se erguia e fazia uma curva no ar pesado de umidade e apontava para a nossa rua, sinuosa, e descia por ela, acompanhando-a, como se na verdade continuasse com ela depois da pinguela de madeira sobre o arroio e avançasse por entre as árvores altas até se encontrar com as ruínas da sombria construção que muitas vezes visitávamos, amedrontados, na sonolência incendiada das tardes de verão.

    Foi no tempo dos escravos. No matadouro havia um capataz malvado. Tão malvado que, quando não tinha homem ou animal para maltratar, chicoteava-se a si mesmo.

    À seis da tarde, estávamos sempre naquela rua, cujo nome pomposo, de marechal ou general, jamais decoramos, como ninguém antes de nós havia decorado, naquela rua que já era conhecida e sempre será como Corredor da Tropas porque por ali transitavam melancólicas manadas, conduzidas por peões sorumbáticos, cem anos antes, em direção ao matadouro que fora erguido sobre a pestilência do pântano.

    Um dia esse capataz malvado roubou a mula de um pobre padeiro português que morava perto da igrejinha.

    Mais uma vez a chaleira era depositada e o braço erguia-se na frialdade de julho e traçava uma rota meio incerta pela ladeira que subia e só se detinha quando alcançava à torre da igreja de Nossa Senhora da Luz.

    Arrastou a pobre mulinha por esta rua e se foi na direção do matadouro.

    A mão fazia então o movimento correspondente: descia da igreja, caminhava sobre as pedras irregulares da nossa rua e ganhava depois a estrada que avançava, sombria, entre plátanos, figueiras bravas e salsos chorões.

    A mula empacava, mas o capataz batia nela com uma acha de lenha. O pobre animalzinho zurrava de dor. Umas pessoas viam aquela maldade, mas não falavam nada porque tinham medo daquele bandido.

    O medo. Como tínhamos muito medo às seis da tarde, naquela rua, apertava-se o círculo – corpos franzinos, uns colados nos outros, ao redor do banco do velho contador de causos – enquanto chegavam até nós, abafados, o som da ave-maria rezada nas emissoras de rádio e os cânticos das velhas carolas na igrejinha.

    Lá longe, no meio do banhado, de raiva, ele degolou o pobre animal. Depois voltou trazendo nas mãos a cabeça da mula. E deixou a cabeça na porta da casa do padeiro. O pobre português estava sesteando.

    A morte. Nós já tínhamos visto a morte cruzar muitas vezes a nossa rua dentro dos modestos caixões que traziam corpos de gente que havia morado e morrido nas vilas erguidas sobre o pântano domado.

    O padeiro morreu de tristeza ao ver a cabeça da sua companheira de trabalho. Morreu de tristeza diante de tanta maldade. Então, dali para a frente, de vez em quando, a mula passava por esta nossa rua. Vinha zurrando, empacando, zurrando de novo, empacando. Mas ela só passava ou na hora da sesta quando todos estavam dormindo ou à meia-noite. Vinha sem a cabeça a coitadinha… Dizem que ainda passa por aqui, às vezes.

    Apavorados, nem prestávamos atenção ao canto inexplicável das cigarras ou a algazarra dos pardais que se acomodavam nas laranjeiras dos nossos pátios para atravessar a noite ou os pios soturnos das corujas que se ajeitavam nas árvores enfezadas do terreno baldio para sua longa vigília.

    Um dia o malvado capataz não aguentou mais as visitas da mula sem cabeça. Com a mão esquerda segurou seus próprios cabelos, melena preta e feroz, e com a direita empunhou o facão afiado com que tinha matado a mula. E degolou-se. De um só golpe.

    Entrávamos em pânico quando naquele trecho da história, apurando os ouvidos, conseguíamos ouvir, vindo do açougue, o ruído de uma faca sendo amolada na beira do ensanguentado balcão de mármore.

    Dizem que o capataz, já degolado, ainda deu uns passos. Com as duas mãos erguidas. Na direita segurava o facão. Na esquerda segurava sua própria cabeça de homem perverso.

    Hoje somos todos homens e estamos espalhados por este mundo de Deus. Mas às seis da tarde, em qualquer lugar, estejamos onde estivermos – em meio a balbúrdia de nossos filhos em casa, no frio cinzento dos escritórios ou na escura solidão das grandes avenidas -, sempre voltamos àquela ruazinha estreita, àquela calçada, e temos medo, muito medo.

    Lourenço Cazarré é escritor.

    Publicado originalmente no livro Histórias Suburbanas, 1986, Editora Atual (São Paulo)

  • Os fantasmas que nos resgatam

    Os fantasmas que nos resgatam

    Se fores ao Variedades, vai com tempo. Não para te lamentares do que já não existe, mas para respirares, devagarinho, o espaço novo que guarda as memórias do nosso passado.

    O café pode beber-se na esplanada, enquanto olhas o espaço vazio, danadinho para se revigorar. Entre os goles de café, irrequietam-se os teus olhos pelo que houve e pelo que vai ser. Já não é o espaço cheio de “habitués”, mas nota-se uma vizinhança do Parque Mayer, que gosta de se sentar por ali. Uma coisa muito tímida, … mas vai!

    Foto: Estelle Valente

    Lá fora havia uma grande imagem do Raúl Solnado, mais novo do que me lembro de ver. É estranho vê-lo ali nesta lógica actual em que só vemos expostas caras de artistas que podemos ver ao vivo. Mas ver a imagem de Raúl Solnado sem ser possível vê-lo de facto é como se ele estancasse à minha frente, com a sua força impressionante. Há pessoas que não precisam de aparecer para estar – estão sempre. O espaço pertence-lhes antes de nos pertencer.

    Depois vais para dentro com uma súbita vontade de que o espectáculo comece. Antes disso, ainda tens tempo para escolheres um dos sofás diante da televisão, com falas de actores que contam a sua história e a do Variedades. Tens auscultadores que usas e, de repente, ficas com a impressão de teres abandonado a espera para entrares num museu.

    Foto: Estelle Valente

    Depois levantas-te e vagueias por ali. Não resistes a um cantinho que te espreita. Dobras uma esquina intimista e lá está Amália, sentada diante do toucador do seu camarim.

    Entras na sala e divides-te. As linhas são excessivamente modernas ou são a opção menos cínica da arquitectura? Talvez seja isso.

    Sento-me e penso que vou passar muito bem, sem dores no corpo. As cadeiras são confortáveis.

    Dou passagem a um senhor que se senta ao meu lado. Ajudo-o a puxar o assento para a posição correcta.

    Foto: Estelle Valente

    – Quem viu esta sala e quem a vê! Era a sala mais bonita de Lisboa.

    Não soube o que lhe dizer, mas pensei que nunca nos livramos das saudades.  Há também uma gente do nosso povo que ainda gosta de encontrar no espaço artístico a pompa que veste o público de solenidade. Senti ali uma dor pela perda. Tive pena, não tanto da sala que foi demolida, mas de um certo amor em ruínas, mesmo ali, abandonado ao meu lado.  

    Os músicos passaram ligeiros, vestidos de preto e, por magia, deixámos de os ver assim que ocuparam as suas posições.

    A luz foi sumindo até que a sala anoitecesse e o espectáculo começou.

    Foto: Estelle Valente

    Fomos imediatamente avisados de que nos tínhamos sentado entre fantasmas, mas que estes, em vez de circularem pelos espaços internos do teatro, estavam por cima. Entendi então que as escadas nas paredes exteriores e no topo da fachada devem servir os fantasmas que por ali circulam.

    A peça Variedades, que é um festejo dos 100 anos do Teatro Variedades, empresta o palco a 10 personagens que tão bem conhecem o Parque Mayer. Falam da vida do espaço, animado por estas figuras que partilham vidas, alegrias, dores, medos e desejos. São pessoas que viveram ali e que deixaram de estar entre nós. É um deixar de estar duplo: foram-se as pessoas e as suas profissões.  No entanto, já ninguém lhes rouba a eternidade. Simultaneamente, guardam em si o passado e respiram o nosso presente. Dizem-nos no seu desfilar que a saudade não existe, porque os tempos se encontram, fazendo o diálogo da nossa história.

    Foto: Estelle Valente

    O espectáculo mostra-nos como pessoas tão diferentes partilhavam o mesmo espaço, revelando uma cidade que acolheu tanta diversidade (exactamente como hoje).

    Subitamente, a voz de Raúl Solnado entrou em cena. Era a sua voz, sem tirar nem pôr. Os seus silêncios. A sua forma abrupta de terminar as frases. Via-lhe até o rosto sério no desenho do silêncio, a teimar com o riso de quem o olhava. Era ele, num actor, como se se tivesse servido dele para aparecer em público. Talvez tenha voltado para trás quando viu que a porta da guerra estava fechada. Voltou para trás e encontrou-nos ali. Foi um momento que me arrebatou. Veio-me à cabeça, de novo, o peso da imagem de Raúl Solnado, lá fora. Talvez não fosse por acaso.

    Nada é por acaso.

    Foto: Estelle Valente

    O segundo momento alto do espectáculo foi quando se projectou no palco o arco muito antigo que dizia Parque Mayer, aquele arco que se encontrava à entrada do espaço. Era o espectáculo a permitir que o meu vizinho do lado fizesse as pazes com o seu passado. De repente, ele nem se lembrou que não é permitida a captação de imagens. Sacou do telemóvel, encheu-se de nervos, olhou para um lado e para o outro, como se fosse atravessar a estrada fora da passadeira e… zuca! Uma foto! E mais uma, só mais outra… o que custa é começar…

    À medida que a peça avançava, o público permanecia sentado nas cadeiras, mas estava de mãos dadas com os artistas. Todos cantavam no palco e o público batia palmas, embalado pelo passado e pelo presente. Éramos um. O meu vizinho do lado levantou-se no fim e foi bater-lhes palmas na coxia, entre sorrisos e fotografias.

    Foto: Estelle Valente

    Naquela noite, os fantasmas desceram do telhado até ao palco para abraçar o público.

    Se as paredes já são outras, é uma pena, mas também é puro cenário.

    Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐☆☆ (8/10) 

    FICHA TÉCNICA

    Variedades (… como uma ópera bufa erótica e satírica)

    Autoria: Fernando Heitor, Flávio Gil e João Paulo Soares

    Direção Musical: João Paulo Soares

    Elenco e Interpretação:

    Bernardo Soutoé o tocador de gaita de beiços que veio do Minho;

    Bruno Madeiraé o homem bravo que veio da Lezíria;

    Carlos Malvarezé o marujinho do Ginjal;

    Cátia Garciaé a ovarina da Madragoa;

    Flávio Gilé o rapaz que foi amamentado por uma gata;

    Maria João Luísé a transmontana que trocou as saias pelas calças;

    Miguel Raposoé o homem triste que veio de África;

    Sandra Rosadoé a mulher que trocou Copacabana pelo Parque Mayer;

    Teresa Zenaidaé a menina dos tiros nascida em Viseu;

    Wanda Stuarté a costureirinha de Caneças.

    Músicos em Palco:

     João Paulo Soares

     Nuno Allan

    Miguel Majer

    Maria João Cunha

    Henrique Fialho

    Eurico Cardoso

    Equipas Artísticas e Técnicas:

    Figurinos: Rafaela Mapril

    Coreografia: Guilherme Leal

    Desenho de Luz: Paulo Graça

    Desenho de Som: Sérgio Milhano & teatrovariedades-capitolio.pt

    O Espectáculo, que celebra os 100 anos do Teatro Variedades, esteve em cena no Parque Mayer, no Teatro Variedades, entre 8 de Julho e 16 de Agosto.

  • Um grito encadernado

    Um grito encadernado

    Título

    A Educação Física

    Autora

    Rosario Villajos (Tradução: Rui Elias)

    Editora

    Dom Quixote (Janeiro de 2026)

    Cotação

    18/20

    Recensão

    A Educação Física, de Rosario Villajos, é um grito encadernado sobre desconforto, falta de espaço, ausência de lugar e procura de identidade.

    Se considerarmos a dimensão dos temas abordados no livro, o título parece insuficiente, porque esta não é uma obra sobre educação física, mas antes sobre a educação do corpo feminino no sentido da culpa, do medo, da vigilância e da sensação constante de inadequação. O corpo como terra de desconforto desde a infância, num mundo em que os homens ocupam o centro do universo e as mulheres parecem ter nascido para reduzir a sua existência a funções que excluem a sua felicidade.

    O romance decorre entre as 18h16 e as 21h46, desde o fim de uma tarde até ao princípio da noite. Um curto espaço temporal que Rosario Villajos transforma num verdadeiro percurso de angústia interior. Tudo começa com um episódio inesperado e violento em casa de uma amiga, que leva a protagonista adolescente a fugir da situação que a constrange,  tentando regressar a casa à hora imposta pelos pais. Na berma da estrada, pede boleia. Mas aquilo que começa por ser uma tentativa de fuga rapidamente se transforma numa exposição a novos perigos: entrar no carro de um desconhecido sem saber o que poderá acontecer a seguir.

    Enquanto os carros passam sem parar, o medo e a ansiedade crescem. E é nesse intervalo suspenso que o livro ganha corpo: nos pensamentos da protagonista, nas dúvidas, nos nojos, nas descobertas, nas ignorâncias e nos sentimentos contraditórios de uma adolescência feminina marcada pela culpa e pela estranheza em relação ao próprio corpo.

    Há momentos particularmente comoventes, como a descoberta das bibliotecas enquanto espaços de abrigo, de leitura e de possibilidade. A biblioteca surge quase como um lugar de salvação silenciosa, um raro espaço amigo que empresta livros sem pedir nada em troca (num mundo em que tudo parece ter uma contrapartida).

    A escrita de Rosario Villajos é feita de uma tinta forte, como sangue que jorra de ferida. A autora, a certa altura, escreve que “não há melhor maneira de estar ou de não estar no mundo do que a escrever. Para ela isso equivale a sentir algo, além de medo ou culpa; escrever serve para transformar as suas disforias, a sua vontade de matar, o seu desejo de não existir ou de existir sem um corpo, escrever faz com que essa aflição corporal, com a qual ela convive há muito tempo, se transforme num luto passageiro, algo a ser exorcizado.”

    Nesta passagem compreende-se aquilo que sustenta verdadeiramente o romance: a escrita enquanto tentativa de sobrevivência. Não como exercício estético, mas como necessidade vital, como forma de expulsar para o papel aquilo que o corpo sozinho já não consegue aguentar.

    No final do livro percebemos que a obra, distinguida com o Prémio Biblioteca Breve, possui uma forte dimensão autobiográfica. Nos agradecimentos, Rosario Villajos escreve: “E obrigada ao júri (…) por premiar um manuscrito que eu não deixara ninguém da minha intimidade ler. Não o sabem, mas também premiaram a minha auto-confiança, a minha promessa de voar sozinha, como uma borboleta.”

    É neste voar que a escrita faz cumprir a missão de quem escreve.

    O agradecimento da autora ilumina retrospectivamente toda a leitura. Não porque a ficção seja menos verdadeira, mas porque pode existir uma outra batida cardíaca quando a escrita se aproxima da experiência íntima de quem escreve.

    Pela brutalidade emocional que transporta, pela forma crua como expõe medo, vergonha, desejo, solidão e raiva, A Educação Física é um livro profundamente humano. Rosario Villajos escreve sem procurar embelezar a dor; interessa-lhe mais a honestidade do sentimento do que o acabamento estético da frase. E é precisamente nessa recusa do artifício que o romance encontra a sua maior força.

    No fim, permanece a ideia da escrita como possibilidade de resistência: um meio de compreender o mundo, de enfrentar o medo e de sobreviver dentro de um corpo e de uma vida que tantas vezes parecem difíceis de habitar.

  • O meu luto

    O meu luto

    De preto vestido

    assisto ao meu funeral

    ao longe, a fumar.

    Pensava que vinham mais pessoas.

    Pensava que tinha sido melhor pessoa.

    Talvez não soubessem

    Talvez não pudessem

    Talvez, secretamente

    assim o quisessem.

    Evito a missa,

    detesto o Pai Nosso

    em uníssono.

    A igreja, ainda assim, está cheia

    Sinto um ardor nos olhos

    Pelas lágrimas de todos os outros nos meus

    Tão desprotegidos e fechados

    Mas que fotografam as lágrimas da alma

    Puxo mais um cigarro

    e peço uma cerveja, no bar da esquina

    junto à capela.

    Uma florista oferece-me uma flor

    Não pude recusá-la, a ela, tão ciente do meu nome

    provida de uma beleza peculiar, nos seus vinte e pouco aninhos.

    Oxalá tivesse todos os dentes

    e falaríamos de vida e não de morte.

    Mas isto foi apenas uma distração.

    Finalmente, armado dessa flor

    decido enfrentar o meu destino

    e munido dessa força desconhecida

    que apenas uma cerveja bem bebida pode espoletar

    com uma rosa branca, na mão esquerda

    e um cigarro na direita

    dirijo-me ao cemitério dos Prazeres,

    um bom nome, para ficar

    não fosse eu, um esteta

    uma espécie de detective de todas as coisas boas.

    Assisto à procissão

    Assisto ao pousar do caixão

    Assisto, ao meu Adeus.

    Já não tenho vontade de chorar

    Apetece-me mais um cigarro.

    Peço um à única pessoa presente que não conheço

    E, para grande azar meu,

    para além da morte em si,

    diz-me ela, que não fuma..

    Acrescenta ainda, diz ela, que fumar faz mal à saúde,

    e que devia deixar.

    Apetece-me dizer-lhe que nesta altura,

    já não é possível.

    Saio do cemitério ligeiramente triste.

    Não há cerveja, não há cigarros

    tenho os bolsos vazios.

    (porque nos esvaziam os bolsos quando morremos?

    – é algo que nunca perceberei..)

    Sempre detestei as noites que acabam assim

    mas infelizmente, nem é noite.

    Pergunto a mim mesmo onde irei?

    Nunca soube bem o que se faz de dia,

    nem me apetece dançar.

    Apanho um táxi e vou para casa

    Dou como pagamento o meu relógio,

    já não me faz falta

    Posso perder finalmente o tempo para sempre

    (é um dos pequenos luxos da morte)

    Na minha casa tenho sempre tabaco.

    E cerveja também.

    São daquelas regras de ouro.

    Mas já não faço nada,

    nem sequer tenho Viagra.

    Adormeço em paz, 

    com a promessa premente

    que amanhã morrerei de novo

    E depois, também.

    ***

    Luís Serra Santos é poeta lisboeta e pugilista nos tempos livres.

  • Trancão e o monólito da minha imprevidência

    Trancão e o monólito da minha imprevidência

    Tenho o raro dom de transformar uma ida a um concerto — actividade que, para o cidadão comum, consiste em sair de casa, entrar num recinto e ouvir música — numa pequena epopeia logística. A culpa, antes que o Destino apresente queixa por difamação, é quase sempre minha: do relógio, da leitura oblíqua dos mapas e da confiança muito portuguesa de que ainda se chega perfeitamente a qualquer lado quando já não se chega perfeitamente a lado nenhum.

    Já assomei à Aula Magna com os Divine Comedy lançados no concerto, depois de autocarros dominicais, um Uber tardio e um Benfica–Porto excessivamente demorado. Já fui barrado à porta dos noruegueses Leprous, apesar da acreditação, com a polícia chamada a assistir à versão cultural do cerco de Lisboa.

    Já houve uma oficial de justiça a correr à ERC, numa sexta-feira ao fim do dia, para entregar uma providência cautelar destinada a impedir a minha entrada no Campo Pequeno, porque Marilyn Manson alegadamente não queria jornalistas na plateia.

    E, no concerto de Hans Zimmer, uma mochila com um computador tornou-se mais ameaçadora do que toda a secção de percussão: seguranças e agentes da PSP estiveram envolvidos, atrasando a minha entrada até às 22h05, quando já passara mais de uma hora de música. Apanhei os últimos acordes de Lisa Gerrard, vocalista dos Dead Can Dance. Menos mal.

    Também existem concertos em que tudo corre bem, mas esses deixam menos literatura. Ao fim de mais de duas dezenas de espectáculos e três festivais, em cerca de ano e meio, começo a suspeitar de mim próprio. Talvez escolha inconscientemente o caminho mais longo e a porta mais difícil para compor uma crónica que distraia o leitor dos meus parcos conhecimentos musicais.

    Outros críticos distinguem uma modulação em mi bemol; eu distingo um promotor que não entende que o papel do jornalista é, sendo independente, ser jornalista. E que não fui eu que criei o Estatuto do Jornalista — foram os deputados da Assembleia da República, em 1999, a pensar numa coisa simples, mas cada vez mais complexa, chamada liberdade de imprensa, que, dizem-me, tem mesmo de existir se um país quer ser tratado como democracia.

    Com David Guetta, os sinais começaram antes do primeiro baixo. Uma resposta ao pedido de acreditação originou um mal-entendido que temi que anunciasse borrasca, mas acabou tudo bem esclarecido com a ainda novel — com v — promotora SODADE. E fui muito bem recebido. Registo-o com gosto e interesse preventivo: em Novembro, a mesma promotora traz os Duran Duran à MEO Arena, e um homem a quem os amigos tentam convencer a não entrar em tantas «guerras» deve cuidar das relações diplomáticas quando tem The Reflex no horizonte.

    Resolvida a burocracia, faltou-me, nesse domingo, vencer a geografia. Sabia que o Parque Papa Francisco era grande. Não sabia que «grande», naquele caso, era uma categoria filosófica. Como não lera com a devida atenção as instruções da produção nem o mapa, dirigi-me para onde imaginava estar a entrada, nas imediações do recinto do Rock in Rio. A realidade informou-me de que o concerto ficava muito mais para o lado de Loures, quase na Bobadela.

    Com cara de bobo e o destino Bobadela na cabeça, transmitido pela responsável de relações-públicas da SODADE, lá iniciei uma pequena Anábase pedonal pelos passadiços do Trancão. Foram talvez poucos quilómetros; nas pernas, tiveram a extensão da retirada dos Dez Mil. Atravessei para a outra margem e contemplei um rio que conheci, nos anos 90, como arma química de alcance regional. Sou do tempo em que o Trancão não desaguava no Tejo: atentava contra ele.

    Agora, ladeado por passadiços e entregue a famílias e ciclistas, ofereceu-me uma travessia quase bela. O Parque Papa Francisco já fizera o primeiro milagre: transformar o velho Trancão malcheiroso numa paisagem e um crítico musical num caminheiro de Santiago sem vieira — embora com o apelido — nem preparação física.

    Cheguei in extremis. Ainda consegui entrar no fosso e fotografar David Guetta antes de os minutos concedidos à imprensa se evaporarem. Depois veio a música — ou, com maior rigor, uma máquina audiovisual concebida para impedir que alguém permanecesse indiferente.

    Este francês, dois anos mais velho do que eu, ajudou a transformar a música electrónica de dança num idioma universal das rádios, dos festivais e das grandes arenas. No seu cadastro de êxitos encontram-se When Love Takes Over, com Kelly Rowland, Titanium, com Sia, Memories, com Kid Cudi, Sexy Bitch, com Akon, e I’m Good (Blue), com Bebe Rexha; produziu ainda I Gotta Feeling, um dos maiores sucessos dos Black Eyed Peas.

    Ao longo da carreira, trabalhou também com Rihanna, Nicki Minaj, Usher, Justin Bieber, Shakira, Ariana Grande, Ne-Yo, Flo Rida, Snoop Dogg, J Balvin, Anne-Marie e Chris Brown, numa lista que parece um anuário da pop mundial das últimas duas décadas. Vencedor de dois Grammys, David Guetta foi eleito, em 2025, pela quinta vez, o melhor DJ do mundo pela revista DJ Mag.

    The Monolith, o espectáculo de som, luz e pirotecnia — com labaredas bem quentinhas, que as senti no fosso —, leva essa condição de superestrela à sua conclusão lógica. O monólito é nome, cenário e método: uma gigantesca estrutura de vídeo e luz envolve Guetta e converte o DJ, pequeno no centro, numa espécie de sumo sacerdote de uma religião que não promete vida eterna, apenas mais um drop.

    Musicalmente, o concerto também possui qualquer coisa de monolítico, no melhor e no menos bom sentido. Não se procura subtileza, silêncio ou hesitação. Cada descida prepara a subida seguinte; cada pausa é o corredor para outra explosão.

    Guetta trabalha menos com melodias isoladas do que com a fisiologia colectiva: acelera o pulso, suspende milhares de braços e ordena, através da batida, que a multidão salte como um único animal muito grande e surpreendentemente obediente. Acho que isto já sou eu a resvalar para a veia literária, porque andei pelo perímetro menos denso a ver as barracas de comes e bebes e a tirar fotografias ao som da música.

    Na verdade, tudo aquilo aparenta ser mais uma superdiscoteca a céu aberto, mas com mais luzes, mais lasers, mais ecrãs, mais fumo, mais imagens sincronizadas e, sobretudo, fogo, que, nos recintos fechados, tem de ser mais controlado. Por vezes, a música parece servir a luz; noutras, a luz parece tornar visível a música. Pedir intimidade a David Guetta seria como censurar um fogo-de-artifício por não possuir profundidade psicológica.

    O mérito do francês está nessa eficácia sem pudor. Guetta conhece a gramática da euforia popular e domina-a com a segurança de quem a ajudou a escrever. Mistura memórias de pistas de dança, refrões reconhecíveis ao primeiro compasso e a promessa de que a explosão seguinte será maior. A multidão canta, filma e dança, confirmando que uma comunidade pode formar-se não em torno de uma ideia, mas de um grave suficientemente forte.

    Acabado o concerto, surgiu a revelação que a minha prudência poderia ter descoberto antes: havia comboio directo entre Santa Apolónia e a Bobadela. Toda a marcha poderia ter sido substituída por alguns minutos sentado numa carruagem. A Providência, porém, reservava uma nova surpresa. Um incêndio de mato em Vila Franca de Xira perturbara a circulação e atrasara os comboios.

    Cheguei a Santa Apolónia por volta da uma e meia da manhã. Dali até à Graça foi um pulinho — expressão que, depois da travessia do Trancão, recuperou um sentido literal e consolador.

    Não acredito, evidentemente, que o incêndio tenha deflagrado para salvar esta crónica da pobreza musicológica. Seria levar demasiado longe a vaidade autoral e demasiado baixo a protecção civil. Mas desconfio de que quase tudo o resto me acontece para que eu tenha alguma coisa para contar quando “produção”, “batida” e “energia” começam a esgotar-se. A musa da crítica musical, conhecendo as minhas limitações, oferece-me polícias, mochilas, acreditações, mapas mal lidos, comboios atrasados e rios outrora pestilentos.

    David Guetta forneceu a banda sonora, o Trancão a epopeia, a CP o suspense e eu dei as pernas. No fim, continuo sem saber se fui assistir a The Monolith ou se The Monolith foi apenas o grandioso acompanhamento visual de mais um concerto meu contra o meu fado. Em todo o caso, parece que houve quem sofresse mais à saída…

    Nota: 4 (em 5)

    Fotografias: PAV

  • Ensaio sobre ancas e outras formas de cultura

    Ensaio sobre ancas e outras formas de cultura

    Já confessei isto várias vezes, mas convém repetir para os mais incautos: comecei a escrever crónicas de concertos sem ser crítico musical. Não possuo formação em musicologia, só sei tocar campainhas de portas, não reconheço assim uma mudança de tonalidade à primeira escuta e, perante uma bateria particularmente complexa, sou capaz de concluir apenas que o baterista trabalhou bastante.

    Sou apenas um simples melómano no sentido elementar de gostar de música — tal como um apreciador de futebol —, não naquele outro, mais exigente, de conhecer todas as discografias, identificar uma edição japonesa pelo ruído da agulha e explicar por que motivo o terceiro álbum de uma banda foi comercialmente mais acessível do que o segundo.

    Foi por isso que achei interessante começar a escrever estas crónicas: não estou aqui para ensinar ninguém. Um especialista escuta um concerto e compara-o com cinquenta outros; eu assisto-lhe, olho em redor, fotografo, observo o público e tento perceber o que se passa. O crítico musical analisa a execução. Eu, Pedro Almeida Vieira, vejo se alguém chamou a polícia à porta, se me enganei na entrada, se perdi o último comboio ou se descobri, aos 57 anos, uma forma de música cuja existência conhecia apenas por referências dispersas.

    Decidi, por isso, alargar ainda mais os meus horizontes. Contudo, o problema dos horizontes é que, uma vez alargados, deixam de obedecer. Comecei com o Dardust, em Março do ano passado — e que repeti em Maio, no CCB —, depois com a norueguesa Aurora, passei pelos Imagine Dragons, depois já estava nos Iron Maiden, a seguir no NOS Alive, mais adiante no Shawn Mendes, e ainda há pouco andei pelos Divine Comedy, por mais dois festivais (Rock in Rio e NOS Alive, de novo), e um dia, sem se saber exactamente como, dei por mim no Passeio Marítimo de Algés, rodeado por milhares de brasileiros, à espera de Anitta.

    A decisão ocorreu depois do NOS Alive. Já que andava por aqueles terrenos e me entregara a uma espécie de campanha intensiva de educação musical, pareceu-me razoável avançar também para os Ensaios da Anitta — Cosmos, que, a 18 de Julho, fizeram em Oeiras a sua estreia europeia.

    O formato, importado do pré-Carnaval brasileiro, mistura concerto, bloco, coreografia e festa popular num palco circular, percorrendo o funk, o pop, o axé e outros ritmos. Foi aquilo que soube, porque ouvira falar muito dela, mas pouco ouvira dela, o que constitui uma combinação excelente para a curiosidade e péssima para a crítica especializada.

    Antes do espectáculo, se me pedissem, não saberia cantar uma música inteira, muito menos meia — e estou, neste momento, na mesma situação —, embora conhecesse a dimensão do fenómeno, a projecção internacional, as coreografias, as polémicas, os vídeos e toda a parafernália que acompanha uma artista que já não é apenas cantora: é também marca, espectáculo, empresa de comunicação e provavelmente uma pequena potência diplomática.

    Fui, portanto, com uma disposição quase sociológica. Malinowski partiu para as ilhas Trobriand, na Papua-Nova Guiné; eu apanhei transporte para Algés. Cada antropólogo escolhe o exotismo compatível com a sua agenda.

    Esperava encontrar um concerto de funk. Descobri uma confederação de ritmos, corpos, adereços e decibéis. Anitta não apresenta, na essência, uma sequência de canções: organiza uma festa contínua, com dançarinos, coreografias, convidados, mudanças de andamento e uma relação física com o público. A música não está ali para contemplações; ordena movimento. Não pergunta ao espectador se deseja dançar. Parte do princípio, talvez correctamente, de que qualquer ser humano com articulações deve utilizá-las.

    As letras, admito, não correspondem aos meus padrões literários. Quem passou anos entre romances históricos, arquivos, Machado de Assis e cadáveres administrativos encontra alguma dificuldade em efectuar, sem aquecimento, a transição para versos dedicados ao desejo, ao corpo, à sedução e a certas operações coreográficas cuja descrição anatómica excederia o prudente num jornal de informação geral. «Savage Fun» está aí para os ouvidos menos sensíveis.

    Mas também seria absurdo entrar num Carnaval à procura de sonetos de Camões. As palavras, ali, não pretendem ficar gravadas em mármore: servem apenas de combustível à dança. Valem pelo ritmo, pela provocação, pelo refrão repetido — se é que se pode chamar refrão — em coro e pela liberdade momentânea que concedem a quem as canta. A literatura pede silêncio; o funk exige ancas. Cada género possui os seus instrumentos.

    O espectáculo não me encheu as medidas, mas o público interessou-me imenso. Havia muitos brasileiros, naturalmente, muita gente jovem e uma diversidade que ali não precisava de seminários, manifestos nem departamentos universitários. Estava simplesmente presente. Corpos diferentes, roupas diferentes, orientações diferentes, maneiras distintas de dançar, de se mostrar e de ocupar o espaço — tudo convivendo sem que alguém parecesse necessitar de pedir autorização ao vizinho.

    Enquanto percorria o recinto com a máquina fotográfica, percebi que o verdadeiro espectáculo não estava apenas no palco. Estava naquela multidão entregue à alegria sem pedir desculpa. Nos grupos de amigos, nas bandeiras, nos brilhos, nas roupas improváveis, nos abraços e naquela disponibilidade brasileira para transformar uma tarde num acontecimento colectivo.

    Não se tratava do Brasil de Chico Buarque, que disfarça a política dentro da poesia; nem do de Caetano Veloso, que consegue fazer de uma frase uma teoria estética; nem do de Gal Costa ou Ney Matogrosso, onde a voz, o corpo e a transgressão alcançam outra solenidade artística. Também não era o Brasil do samba clássico, do rock, da bossa nova ou sequer do sertanejo.

    Ali era outro Brasil, de entre os muitos Brasis que existem. Um Brasil urbano, popular, sensual, electrónico, contraditório, comercial e carnavalesco. Menos inclinado a explicar-se e mais decidido a dançar. E talvez seja essa multiplicidade que tantas vezes esquecemos quando, deste lado do Atlântico, reduzimos um país continental a meia dúzia de nomes canonizados pela nossa própria cultura.

    Na verdade, um português entra numa festa com a secreta preocupação de que alguém esteja a divertir-se em excesso. O brasileiro parece partir do princípio inverso: se a alegria ainda não transbordou, falta aumentar o volume. Nós desconfiamos da felicidade sem licença administrativa; eles montam-lhe um palco circular.

    Anitta não me converteu musicalmente. Não saí de Algés disposto a substituir a minha biblioteca por uma coluna de graves, nem a estudar coreografias em frente ao espelho — gesto que, além de indigno, poderia exigir assistência médica. Saí, porém, com uma impressão mais interessante do que uma conversão: a de ter compreendido um pouco melhor uma alegria que não é superficial apenas por ser ruidosa.

    Aquela música liberta porque suspende por algumas horas as reservas, as hierarquias e os pequenos constrangimentos do quotidiano. Aproxima desconhecidos, dissolve o embaraço e cria uma confraternização algo louca, mas genuína. Talvez não saibamos reproduzi-la em Portugal porque nos educaram para conter tudo: a voz, o corpo, o entusiasmo e, em casos graves, até o sorriso.

    Depois de fotografar aquele Carnaval fora de época, concluí que os brasileiros não têm alegria em excesso — está, afinal, no ponto certo.

    Prometo, entretanto, que continuarei a alargar os horizontes, embora comece a recear onde isto poderá levar-me. Um homem abre uma pequena excepção para Anitta e, quando dá por si, está acreditado para um festival de K-pop, a explicar a diferença entre sete rapazes coreanos rigorosamente penteados.

    Nota: 3,5 (em 5)

    Fotografias: PAV

  • Os últimos dias de Fernando Pessoa

    Os últimos dias de Fernando Pessoa

    Lisboa, 28 a 30 de Novembro de 1935- Hospital São Luís dos Franceses

    Dia 1 – Quinta-feira, 28 de Novembro

    O quarto era de uma brancura pálida, como se tivesse sido lavado com cal diluída na ausência de nada.

    A janela mantinha-se fechada desde a véspera mas, ainda assim, a luz conseguia insinuar-se pelas dobras da cortina como uma visita discreta, sem pressa e muito menos a pressa dos hospitais. 

    Fernando Pessoa estava deitado de lado, encostado à parede, com o lençol subido até ao peito e os óculos pousados a centímetros da mão, sobre a mesa de cabeceira.

    Estava acordado, mas sem vontade de se declarar acordado.       

    Esperava por uma não-solução, melhor que o nada. Mas esperava e isso, apesar de tudo, era acção.  A dor era perniciosa, prolongada, instalada como uma inquilina sem grande urgência de sair do corpo, por isso ia dando tréguas, contando com os analgésicos, que são sempre bem-vindos nessas assepsias em que o corpo é tratado como objecto de inventário. 

    Não havia um ponto exacto de origem – antes uma espécie de pressão difusa, que começava algures entre o fígado e a memória e se espalhava por dentro. 

    Respirava devagar, como aparentemente tinha vivido.

    O corpo não reclamava com violência, mas também não perdoava. A dor tentava separar-lhe o corpo da alma, mas sem a violência que seria de esperar. Como se a própria dor respeitasse o escritor.  A enfermeira entrou pela manhã, sem avisar. Tinha um avental demasiado apertado no peito e o cabelo apanhado de forma apressada. Mediu-lhe a febre, colheu-lhe o pulso com dedos gélidos e saiu em silêncio, deixando no ar um cheiro a álcool e vinagre. Pessoa acompanhou-a à porta com os olhos, mas não disse uma palavra. Era demasiado cedo para estabelecer vínculos.

    Ela ainda disse:

    — Veja se descansa. 

    E ele gostou de ouvir a palavra descanso. 

    O almoço chegou numa bandeja metálica às doze e meia. Sopa morna, arroz branco com um bocado de pargo cozido e um naco de pão duro. 

    Pessoa comeu com lentidão metódica, executando um ritual em que já não acreditava, mas que repetia por fidelidade ao costume. Guardou o pão intacto, dobrado num guardanapo de pano, e colocou-o discretamente na gaveta da mesa de cabeceira para tempos outros. Do pargo não sobraram só as espinhas. 

    À tarde, pediu uma folha de papel. Deram-lhe uma com o timbre do hospital, já usada no verso. Pegou no lápis com a mão trémula, desenhou duas linhas, hesitou. Depois escreveu apenas duas frases, sem data e sem assinatura:

    “A realidade é uma febre baixa que ninguém tem coragem de medir.” E depois: “A realidade é uma febre baixa onde não há termómetro que a contenha”. Hesitou em riscar uma e deixou ficar o par, no seu desassossego aparente. 

    Pensou na cura e nessa ideia sublime do alívio e só de o pensar, sentiu-o mesmo. Dobrou a folha com cuidado e escondeu-a debaixo do travesseiro.  A sua nova arca. 

    Dia 2 — Sexta-feira, 29 de Novembro

    Chovia.

    Fernando Pessoa soube-o não pela visão através da janela, mas pela forma como o som da água escorria ao longo da calha. Uma espécie de murmúrio oblíquo, contínuo, que parecia escavar o tempo em vez da pedra. Não parecia haver muito a fazer naquele dia, a não ser entender o próprio corpo a desistir de ser eficiente.

    A chover-se.

    Acordou com a sensação de ter sonhado. Imagens dispersas: a casa da infância, um corredor interminável, a sua mãe a abrir uma janela onde não havia parede. A Boca do Inferno sem Inferno. A inglesa sublime e nefasta a descodificar as suas mensagens. Mas também podia não ser um sonho. Podia ser o conteúdo de uma outra palavra que ainda não tivesse sido inventada.

    Estava bem consciente. E reflectiu.

    Para ele, Freud foi sempre uma espécie de fraude. Chegou a mencioná-lo – com respeito crítico, mas sem devoção.

    O austríaco do inconsciente: engenheiro das profundezas, teórico da alma. Mas agora, com o corpo em alarme e o mundo a desfazer-se em sintomas, ainda pensou se não estaria a olhar para o inconsciente pelo ângulo deslocado.

    Talvez Freud tivesse apenas feito o trabalho sujo. Alguém teria de o fazer.

    Jung parecia-lhe agora mais próximo. Menos clínico. Mais ar puro. 

    E nesse instante, experimentou a amargura de não se saber.

    Mas também percebeu que essa era a beleza abstracta do infortúnio irracional: a fuga que nos leva ao sacrifício.

    O medo que se infiltra antes da escolha.

    Percebeu que nenhum desses dois vultos da neurose lhe servia naquela antecâmara. Depois – não sabia. Haveria depois?

    Acalmou.

    Lembrou-se de súbito de que estava num hospital. Respirou fundo, para confirmar que ainda lhe pertencia o acto de respirar, e era uma respiração calma, quase estranhamente zen.

    Naquele momento,tudo parecia tender para o equilíbrio da fatalidade, ou mesmo para o seu contrário, o que seria outra espécie de fatalidade – pensou e sorriu com os sortilégios do domínio da linguagem. Da vida… da morte, que sabia? Que por vezes queriam dizer o mesmo.

    Por volta das três da tarde, entrou no quarto Armando Cortes-Rodrigues, amigo antigo, tímido e contido, como se tivesse recebido instruções para não incomodar. Sentou-se à beira da cama, com um jornal enrolado na mão. Olhou muito fixamente para Pessoa, sobretudo quando fechava ligeiramente os olhos. Falaram pouco. Política, talvez. Um comentário sobre a rádio. Pessoa quis saber a hora exacta, mas não perguntou. Cortes-Rodrigues trouxe-lhe um pequeno livro de Kant, com as margens por cortar, e uma garrafinha de água de rosas.

    — Para refrescar o rosto — disse.

    Pessoa agradeceu com um aceno breve, sem exageros. Depois o amigo foi-se embora com uma lágrima ao canto do olho.

    Pessoa percebeu, e na sua timidez interna, esteve para pedir-lhe a lágrima.

    Mais tarde, já a noite doía, o Dr. Gentil dos Santos voltou a passar pelo quarto. Disse, num tom que fingia leveza, que talvez fosse necessário operar. Pessoa olhou-o sem surpresa. A palavra “talvez” soava-lhe mais ameaçadora do que “operar”. O corpo já tinha decidido sozinho o que faria. Tinha obstrução intestinal por neoplasia, diziam os médicos, mas a ciência, como o poeta tão bem o sabia, também era exactamente fingidora. Não seria a disciplina sagrada que o iria salvar, se salvação houvesse. Pediu os óculos. Colocou-os no rosto, mas logo os tirou. Não era dia para ver. Não havia nada para ver fora de si. 

    O jantar chegou frio. Pessoa comeu metade. A outra metade ficou ali, imóvel no prato, como um animal resignado ao abandono. Ainda pensou escrever em inglês: I know not what tomorrow will bring, mas não o fez. Achou a frase má e mentirosa — para fingimentos, já lhe bastava a dor.

    Depois adormeceu e sonhou.

    Sonhou largamente com o tempo.

    Dia 3 — Sábado, 30 de Novembro

    A manhã começou cedo. Havia passos apressados no corredor, um sino que tilintava ao longe, a voz abafada de um homem a discutir com um assistente. O quarto parecia mais escuro do que devia, mesmo com a luz acesa. Pessoa tinha os olhos abertos há mais de uma hora, mas não se mexia. Tremeu um pouco, mas não fez disso um episódio. 

    O enfermeiro entrou, desta vez sem formalidades. Entregou-lhe um copo de água morna e um termómetro. Pessoa obedeceu com a calma de quem já não discute protocolos. Estava mais “desmusculado” do que o habitual. 

    Ao longo da manhã, pediu novamente papel. Escreveu, desta vez, um horóscopo incompleto de si, interrompido por uma dor breve, mas nova no estômago. Deixou o lápis a meio de uma frase, encostado ao envelope onde rabiscara, em caligrafia torta, a seguinte nota: “A única verdade é o hábito.”

    Dobrou o envelope com lentidão cerimonial. Voltou a colocá-lo no interior da fronha. Durante a tarde, não pediu nada. Nem água, nem jornal. O silêncio do quarto era mais espesso do que noutros dias. Pessoa mantinha os olhos entreabertos, voltado para a parede. A luz da tarde filtrava-se com parcimónia pelo vidro baço. O som da cidade parecia ter-se afastado uns metros.

    Antes do jantar, fez um gesto breve. O enfermeiro aproximou-se. Pessoa sussurrou:

    — Vão dizer no futuro que eu agora devo pedir os meus óculos. Mas eu não quero. Para onde vou não será necessário. Estou calmo. 

    O enfermeiro estendeu os óculos ainda assim, mas o escritor lisboeta não os colocou.

    Ficou, imóvel, durante mais de uma hora com os olhos abertos, mas sem direcção. Estava à espera das vinte horas em ponto. E mesmo antes dessa hora que haveria de chegar, Pessoa estava em paz, sabia que a sua passagem por aqui não tinha sido em vão, mas também não tinha sido. 

    Foi o encenador, o actor e o espectador privilegiado da sua própria vida e agora, com um doce sorriso nos lábios, era o único espectador com vista para a sua grande partida. Ficou, imóvel, à espera das vinte horas em ponto. 

    E quando o ponteiro se mexeu pela última vez, finalmente deu-se a vertigem. 

    Texto de Ruy Otero (artista media).

    Ilustrações: The Swimming Pool Project

  • O Diretor do Departamento

    O Diretor do Departamento

    Chegara à função pública numa época em que poucos o faziam com um diploma na mão. Rapidamente progrediu e foi nomeado Diretor do Departamento.

    Decidido a deixar a sua marca, assumiu como missão “pôr ordem na casa”. Via-se como um reformador e, durante anos, não deu tréguas aos seus inimigos de estimação: os cafezinhos que se prolongavam em conversas de corredor, as chamadas particulares em horário de serviço, o “isso não é da minha competência” e os bolos de aniversário partidos nos gabinetes, entre palmas e cantorias.

    Repetia, para quem o quisesse ouvir, que os funcionários públicos faziam o que queriam, sem receio de serem despedidos. Era quase impossível pô-los a trabalhar.

    Para os “endireitar”, descobriu uma arma infalível: um pequeno arquivo instalado num edifício bafiento, ao fundo da avenida. Um compartimento meio enterrado, sem janelas, onde a luz artificial substituía o sol durante oito horas por dia. Para lá iam os que ousavam contrariá-lo ou tinham tido o azar de o encontrar mal-humorado. Passavam os dias a alinhar e realinhar pastas destinadas ao esquecimento. Documentos que ninguém voltaria a abrir. “Necessidades do serviço”, decretava. E contra as necessidades do serviço não havia recurso nem misericórdia.

    Ninguém gostava. Mas ninguém se atrevia a recusar. E assim, senhor absoluto do pequeno feudo, o Diretor garantia a ordem e um silêncio quase sepulcral. Nada perturbava a rotina do departamento. Nem sequer o próprio trabalho.

    Um dia, porém, deu-se uma mudança de ministro. Um jovem fervoroso que chegou decidido a moralizar a Administração Pública. Prometeu acabar com a pouca-vergonha dos funcionários que só faziam o que queriam, torná-los eficientes, racionalizar procedimentos, otimizar serviços. E começou pelo princípio: extinguiu o cargo de Diretor do Departamento.

    O Diretor ficou em choque. Como era possível? Ele, que passara a carreira a combater a impunidade, via-se agora remetido, por e-mail, para “outras funções a designar”. A mensagem tresandava a arquivo, a subterrâneo, ao pequeno compartimento ao fundo da avenida. Indignou-se. Aquilo, concluiu, não se fazia a ninguém.

    Um colega, incapaz de se conter, comentou:

    — Não te estão a fazer mais do que tu fizeste aos outros.

    O ainda Diretor lançou-lhe um olhar ríspido e corrigiu:

    — Meu caro amigo, há uma diferença fundamental. O que eu fazia era exercer a autoridade. Isto é abuso de poder.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

  • Dark Rainbow

    Dark Rainbow

    Paulo Vero é homem dos sete ofícios

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  • Conquistadora

    Conquistadora

    Bruno Rama é ilustrador editorial (©Direitos reservados)