Fosse o que fosse – fosse o verão e estivéssemos, caras vermelhas e topetes suados, sobre o verdadeiro fogão que era aquela calçada de cimento; fosse o inverno e estivéssemos pálidos e rígidos dentro de nossas japonas de lã; fosse o outono e estivéssemos observando melancólicos a dança das folhas secas, fosse a primavera e estivéssemos aspirando o aroma das margaridas – ele estava sempre ali, às seis da tarde.
Sentado naquele mocho bambo, encurvado dentro da concha de seus demorados silêncios de inveterado mateador, ele conseguia segurar por alguns bons minutos a permanente inquietude da nossa infância. Era meu avô.
Estava sempre ali, às seis da tarde, às seis em ponto da tarde, quando desciam aquela rua, apressados pela vergasta da noite, os homens e as mulheres que passavam os dias encerrados como feras nos galpões sombrios dos curtumes, da fábrica de sabão e do imenso lanifício.

Estava sempre ali, naquela calçada, às seis da tarde, quando, vinda da penumbra sonolenta da cozinha, surgia minha avó trazendo a velha chaleira tisnada com a água quente e a cuia, com o mate já montado. Ele permanecia em silêncio por mais um pouco, mas sempre vagando o cinzento dos seus olhos pelos nossos rostos ou pelo brilho opaco das estrelas recém-nascidas ou pelo vermelho do sol que morria por trás do terreno baldio. Sempre na calçada, sentado num banquinho de pernas bambas.
Estava sempre ali, naquela rua, ao cair da tarde. Gostava muito de falar sobre os céus e os ventos, os solaços e as frialdades, mas disso não queríamos saber pois o que nos interessava mesmo era a história que viria a seguir.
Esperávamos brincando já que, para nós, o tempo era apenas uma sucessão ininterrupta de esconde-esconde, pega-pega, pula carniça, mocinho-e-bandido e chicotinho-queimado.

Impacientes, esperávamos que ele começasse a contar uma daquelas histórias, sempre as mesmas duas, com as variações que as noites de insônia e os dias vagabundos de aposentado iam introduzindo a cada nova narração.
Inquietos, esperávamos o medo, enquanto ele cuidadosamente punha a água quente na cuia e em seguida sugava o ouro do bico da bomba, num preparativo indispensável para que o medo fosse se aninhando em nossas magrezas e crescendo ali, vicejando em nossos peitos, alastrando-se por nossas pernas e braços.
Naquela rua, à seis da tarde, naquela calçada, tínhamos medo.
Medo do açougueiro, baixo e retaco, medo dos seus grossos braços peludos e da sua cara azulada de barba, medo dos seus olhos mansos de homem honesto. Medo do mísero eletricista alemão, alto e magro, que morava num casebre no fim da rua, medo dos seus olhos verdes de gato, medo do seu jeito esquivo e silencioso.

Foi ali naquela rua, às seis da tarde, onde permanecemos por tantos anos, calados e atemorizados, expectantes e respeitosos, que vimos o medo multiplicar-se… Multiplicar-se como os incontáveis coelhos que saíram da cartola do mágico daquele circo mambembe a que fomos num domingo.
Suas frases curtas eram alinhavadas por longos silêncios.
Houve uma vez, num tempo muito antigo, um castelo.
O medo começava a pulsar dentro de nós quando ele, ao mesmo tempo que levava a bomba aos lábios, erguia os olhos para o céu.
Naquele castelo vivia uma princesa muito bonita.
O medo era como um gato enroscando-se em nossas canelas glabras.

Pois numa noite de lua cheia a princesa escancarou a janela para dormir melhor. Era o verão.
Mais do que imaginávamos, nós víamos de verdade a bela jovem abrindo a janela como se convidando as estrelas a partilhar com ela o leito.
Descuidada, adormeceu. No meio da noite, acordou sobressaltada por um barulho que não era nem de gente nem de bicho.
Éramos o medo, todos nós, dos pés à cabeça, inteiriços, arrepiados.
A princesa acordou e viu um vulto ao lado da sua cama. O vulto voou sobre ela.

Sabíamos o que viria a seguir, mas não tínhamos como controlar o medo, frio e pegajoso, que já era então como uma serpente que se enrolava em nossos pescoços para nos estrangular.
A princesa gritou. O vulto fugiu pela janela. No pátio, o guarda do castelo fez fogo.
Mesmo que não fosse inverno, sem perceber, nós sempre acabávamos nos aconchegando, para enfrentar o gelo do terror.
Ouviu-se um urro de fera. A fera desapareceu, mas deixou no chão um rastro de sangue.
Chegávamos ao horror, ao fundo do poço do horror, nas noites em que, naquele exato ponto da história, passava por nós o pobre eletricista arrastando ao lado da bicicleta sua sombra triste de homem solitário.

No dia seguinte, o médico foi ao castelo para atender a um homem que estava morrendo. Era o cavalariço. Enquanto fazia o curativo num ferimento causado por tiro, ele viu entre os dentes do homem fiapos do tecido delicado de que era feito o mosquiteiro da princesa.
E ali, naquela rua, ficávamos nós, trêmulos e ofegantes como se tivéssemos corrido muito e sem destino e observando, cabisbaixos, as manchas de escuridão que se multiplicavam ao nosso redor e temendo ver nascer delas o lobisomem.
E dali só nos movíamos quando, das portas de nossas casas, gritavam as mães: Janta na mesa! Já para dentro! Hora do banho!
Era outro dia, outro céu e outra história, mas sempre às seis da tarde, e lá estávamos novamente, mudos e quietos, ao redor do banco, observando respeitosos o ritual eterno do chimarrão – impermeáveis à voz do rubro vento do outono, às névoas cinzentas do inverno, ao perfume branco da primavera ou ao inferno alaranjado do sol que morria.
Havia aí para esses lados, faz muito tempo, um matadouro.

Acompanhávamos o movimento do braço que, depois de soltar a chaleira sobre o descanso calcinado de madeira, se erguia e fazia uma curva no ar pesado de umidade e apontava para a nossa rua, sinuosa, e descia por ela, acompanhando-a, como se na verdade continuasse com ela depois da pinguela de madeira sobre o arroio e avançasse por entre as árvores altas até se encontrar com as ruínas da sombria construção que muitas vezes visitávamos, amedrontados, na sonolência incendiada das tardes de verão.
Foi no tempo dos escravos. No matadouro havia um capataz malvado. Tão malvado que, quando não tinha homem ou animal para maltratar, chicoteava-se a si mesmo.
À seis da tarde, estávamos sempre naquela rua, cujo nome pomposo, de marechal ou general, jamais decoramos, como ninguém antes de nós havia decorado, naquela rua que já era conhecida e sempre será como Corredor da Tropas porque por ali transitavam melancólicas manadas, conduzidas por peões sorumbáticos, cem anos antes, em direção ao matadouro que fora erguido sobre a pestilência do pântano.

Um dia esse capataz malvado roubou a mula de um pobre padeiro português que morava perto da igrejinha.
Mais uma vez a chaleira era depositada e o braço erguia-se na frialdade de julho e traçava uma rota meio incerta pela ladeira que subia e só se detinha quando alcançava à torre da igreja de Nossa Senhora da Luz.
Arrastou a pobre mulinha por esta rua e se foi na direção do matadouro.
A mão fazia então o movimento correspondente: descia da igreja, caminhava sobre as pedras irregulares da nossa rua e ganhava depois a estrada que avançava, sombria, entre plátanos, figueiras bravas e salsos chorões.
A mula empacava, mas o capataz batia nela com uma acha de lenha. O pobre animalzinho zurrava de dor. Umas pessoas viam aquela maldade, mas não falavam nada porque tinham medo daquele bandido.

O medo. Como tínhamos muito medo às seis da tarde, naquela rua, apertava-se o círculo – corpos franzinos, uns colados nos outros, ao redor do banco do velho contador de causos – enquanto chegavam até nós, abafados, o som da ave-maria rezada nas emissoras de rádio e os cânticos das velhas carolas na igrejinha.
Lá longe, no meio do banhado, de raiva, ele degolou o pobre animal. Depois voltou trazendo nas mãos a cabeça da mula. E deixou a cabeça na porta da casa do padeiro. O pobre português estava sesteando.
A morte. Nós já tínhamos visto a morte cruzar muitas vezes a nossa rua dentro dos modestos caixões que traziam corpos de gente que havia morado e morrido nas vilas erguidas sobre o pântano domado.
O padeiro morreu de tristeza ao ver a cabeça da sua companheira de trabalho. Morreu de tristeza diante de tanta maldade. Então, dali para a frente, de vez em quando, a mula passava por esta nossa rua. Vinha zurrando, empacando, zurrando de novo, empacando. Mas ela só passava ou na hora da sesta quando todos estavam dormindo ou à meia-noite. Vinha sem a cabeça a coitadinha… Dizem que ainda passa por aqui, às vezes.

Apavorados, nem prestávamos atenção ao canto inexplicável das cigarras ou a algazarra dos pardais que se acomodavam nas laranjeiras dos nossos pátios para atravessar a noite ou os pios soturnos das corujas que se ajeitavam nas árvores enfezadas do terreno baldio para sua longa vigília.
Um dia o malvado capataz não aguentou mais as visitas da mula sem cabeça. Com a mão esquerda segurou seus próprios cabelos, melena preta e feroz, e com a direita empunhou o facão afiado com que tinha matado a mula. E degolou-se. De um só golpe.
Entrávamos em pânico quando naquele trecho da história, apurando os ouvidos, conseguíamos ouvir, vindo do açougue, o ruído de uma faca sendo amolada na beira do ensanguentado balcão de mármore.
Dizem que o capataz, já degolado, ainda deu uns passos. Com as duas mãos erguidas. Na direita segurava o facão. Na esquerda segurava sua própria cabeça de homem perverso.

Hoje somos todos homens e estamos espalhados por este mundo de Deus. Mas às seis da tarde, em qualquer lugar, estejamos onde estivermos – em meio a balbúrdia de nossos filhos em casa, no frio cinzento dos escritórios ou na escura solidão das grandes avenidas -, sempre voltamos àquela ruazinha estreita, àquela calçada, e temos medo, muito medo.
Lourenço Cazarré é escritor.
Publicado originalmente no livro Histórias Suburbanas, 1986, Editora Atual (São Paulo)









































































