Categoria: Suplemento

  • A arte da dignidade

    A arte da dignidade


    Era cedo; uma manhã como as outras. O sol em Marvila ainda só espreitava e espreguiçava, como se a repensar se punha os pés fora da cama. No horizonte, nuvens cinzentas patrulhavam os céus a anunciar a chegada da chuva. Na paragem de autocarro, uma dezena de pessoas aguardava já um dos primeiros autocarros do dia.

    Eu seguia no meu carro para o trabalho. Além de mim, na estrada, só circulava uma carrinha verde-alface, de caixa aberta, da higiene urbana da Câmara Municipal, com dois funcionários. Seguia bem à minha frente. Parada no semáforo, uma rajada de vento atrevida tentou roubar, das traseiras da carrinha, um longo lençol de plástico, que rapidamente aproveitou a oportunidade para escapar. É então que um homem abre a porta da carrinha e salta da viatura, numa tentativa de apanhar rapidamente o plástico esvoaçante.

    Foto: D.R.

    O semáforo estava prestes a “abrir”. O condutor olha para trás e chama pelo colega, para se apressar. O homem é bem sucedido, e consegue prender o plástico cuja fuga foi frustrada. O semáforo abriu e o motorista arranca, com o companheiro pendurado a saltar para dentro da carrinha. Ambos riam à gargalhada.

    Emocionei-me. O tempo abrandou. Parou. Tudo era belo. O verde. O fundo cinza. A alegria contagiante e pura de dois colegas que, de repente, pareciam mais dois miúdos a rir, porque a bola foi parar ao telhado do vizinho. Foi como presenciar uma centelha de luz que iluminou aquele local, aquele momento.

    Aquela imagem foi das mais belas que já presenciei. É impossível de conter neste texto. Foi das coisas mais lindas que já vi.

    a traffic light with a green light on it
    Foto: D.R.

    A carrinha verde, a contrastar com as nuvens cinzentas ao fundo. O plástico a esvoaçar em rodopio. O funcionário atrapalhado a tentar apanhar o plástico. Os dois a seguirem a rir já com o semáforo aberto há um tempo. Parecia que assistia à cena de um filme em câmara lenta. Só que estava ali. Instantâneo. Sem enredo ensaiado. E só com uma espectadora.

    Emocionei-me com tamanha beleza. Senti um profundo sentimento, um nó na garganta de tanta emoção. Segui para o trabalho e para a rotina, mas nunca esqueci aquele momento.

    Imagino se os dois funcionários contaram aos colegas o que se passou. Questiono se sabem que fui testemunha atenta. Indago se alguma vez souberam o que aquele instante representou para mim.

    A dramatic cloudy sky with sun peeking through at sunrise, showcasing nature's beauty.
    Foto: D.R.

    Há muitos momentos assim em cada dia. Como se Deus quisesse descer à Terra e brincar um pouco connosco.

    Aquele momento ficou comigo para sempre. E sempre que vejo uma dessas carrinhas da Câmara recordo-me dele. Revejo os dois homens a rir que nem dois miúdos.

    Mas partilhá-lo é importante para o ponto que pretendo fazer neste texto: o do papel da arte no combate ao estigma. Seja de certas profissões, seja de pessoas em situação de doença ou em situação social vulnerável ou simplesmente diferente.

    litter signage
    Foto: D.R.

    Um destes dias, uma médica contou-me um diálogo em que um miúdo queria muito sentar-se num camião do lixo e conhecer o “senhor do lixo”. E o “senhor do lixo” disse à mãe do miúdo: “mas eu cheiro tão mal…”. Como outras profissões essenciais à sociedade, há operadores de recolha de resíduos e cantoneiros de limpeza com vergonha da sua profissão. O mesmo sucede com alguns coveiros, trolhas (ou serventes de obra) e empregados de limpeza. (Há quem diga, como quem anuncie o “papão”: “olha que ainda acabas a lavar escadas!”.) E o amolador, esse ícone da cidade, que percorre as pedras da calçada com a sua gaita e a melodia que todos os reconhecem.

    Em cada profissão há um propósito, uma necessidade. E pode haver alegria. Beleza. Poesia. Cuidado. Amor e dedicação. Como aqueles funcionários da Câmara que, ao invés de ignorarem e seguirem caminho, cuidaram de não deixar escapar o enorme lençol plástico.

    Também há estigma em pessoas em situação de vulnerabilidade social ou “diferentes” dos demais. Os que vivem abaixo do limiar da pobreza. Os sem-abrigo. Os desempregados. Os imigrantes de determinadas regiões ou certas etnias.

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    Foto: D.R.

    Recordo-me que em tempos havia também o estigma do divórcio, da mulher ser divorciada e dos filhos terem os pais divorciados. E o estigma da mulher solteira grávida. Hoje já é comum, porque o divórcio se “normalizou” e o conceito de família expandiu para incluir diferentes casos. Também a homossexualidade era um tema de “vergonha” que levou ao internamento de tantos em instituições para doentes mentais. E, mais tarde, veio a SIDA, …

    Já no caso de pessoas com algum tipo de “diferença” — física, social ou outra —, algum estigma subsiste. Hoje, por exemplo, pessoas afectadas por cegueira ou surdez sofrem hoje menos estigma do que há algumas décadas. Mas ainda existe um caminho a fazer para a “igualdade” no trato. O mesmo se aplica às crianças e adultos neurodivergentes.

    Veja-se o caso da humorista Joana Marques que fez “humor” com a situação de autismo de uma actriz. É lamentável? É. Mas faz parte do circo a que aquela humorista já habituou os seus seguidores. No caso desta humorista, agredir os outros dá lucros. É a sua especialidade, alimentada por um séquito de ouvintes e de media que a aplaudem e lhe estendem a passadeira vermelha e prémios.

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    Foto: D.R.

    Esta situação não surpreende. Pelo contrário. O “humor” de Joana Marques está perfeitamente em sintonia com uma sociedade em decadência, que normalizou o hiperconsumo, o culto da futilidade, das tribos, das tendências – incluindo ideológicas – e das aparências. Do superficial.

    Uma sociedade que, quando a pessoa adulta atinge uma certa idade, passa a ser vista como “idosa”, “inútil” e “um fardo”. A memória, a História, são varridos para debaixo dos swipes rápidos e passageiros.

    Quando artistas contribuem para a estigmatização seja de quem for, reforçam também os alicerces da vergonha e da dor dos visados e seus semelhantes. Quando promovem os estereótipos e os preconceitos.

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    Foto: D.R.

    E, ainda assim, a menina dos fósforos dorme quentinha, debaixo de um tecto, nos nossos sonhos.

    Admiramos em museus algumas obras de arte de artistas que eram neurodivergentes.

    Temos na nossa playlist a nona sinfonia que o seu compositor só podia escutar com os ouvidos da mente — e da alma. E também aquela música do cantor famoso que foi sem-abrigo.

    Emocionamo-nos com os edifícios de cortar a respiração esboçados por um arquitecto que, na juventude, para ganhar a vida, fazia entregas de encomendas numa carrinha.

    brown and black violin
    Foto: D.R.

    Quantos artistas não estão (ou estiveram) eles próprios em situações de vulnerabilidade social? Quantos não sofreram (não sofrem) estigma por este ou aquele motivo? Pode a arte contribuir para eliminar o estigma e trazer dignidade a grupos, profissões e pessoas vulneráveis? Sim. Pode fazer o oposto? Também.

    Porque alguns dos fios que compõem o tecido da sociedade pertencem a ela como todos os outros. E aqueles que vi na rua, naquela manhã nublada, na paragem de autocarro e na carrinha “do lixo”, são “fios” que dão o seu contributo quando muitos estão ainda na cama. O trabalho, por vezes, “invisível” e indispensável. Tal como o sol que damos por garantido em cada manhã.

  • Contos mirabólicos: parte segunda

    Contos mirabólicos: parte segunda

    51.

    O Alívio

    Disseram-me: «Tu não existes».

    Fiquei tão aliviado que desapareci de imediato.

    52.

    A Discussão

    Três homens discutiam sobre a existência de um quarto homem.

    Este, presente na sala, tentou intervir.

    Foi ignorado com sucesso.

    53.

    O Sonho

    Kovalev sonhou que era um peixe.

    Acordou numa frigideira.

    “Ao menos — disse — o óleo está quente”.

    54.

    O Salto

    Pavel entrou num quarto e desapareceu.

    Depois reapareceu, mas com bigode.

    Todos o aplaudiram, embora continuasse careca.

    55.

    O Balde

    Um homem andava com um balde vazio na cabeça.

    Chamavam-lhe O Profeta.

    Ele dizia: “Eu só quero sombra”.

    56.

    O Pássaro

    Num belo dia, um pássaro começou a falar com muito discernimento.

    Foi, imediatamente, detido por subversão.

    57.

    À Hora do Chá

    Durante o chá das cinco um homem explodiu.

    A senhora Avdotia limpou os cacos com um guardanapo.

    «Felizmente não era chá preto e não me manchou o tapete», disse ela depois.

    58.

    O Silêncio

    Petr Petrovich decidiu calar-se para sempre.

    No terceiro dia, os vizinhos notaram.

    No quinto, foram agradecer-lhe o seu silêncio.

    Mas, no sexto, começou a cantar ópera.

    59.

    A Gaveta

    Diziam que havia um segredo no fundo da gaveta.

    Abri.

    Porém, havia outro segredo, mais pequeno, dentro do primeiro.

    Agora tenho a gaveta cheia de segredos e nenhum par de meias.

    60.

    A Filosofia

    Um filósofo tropeçou na própria hipótese e caiu de caras num paradoxo.

    Teve de ser socorrido por um empirista.

    Desde então, só anda em círculos hermenêuticos — por precaução.

    61.

    A Realidade

    Ninguém viu quando a realidade caiu da prateleira.

    Agora vivemos noutra.

    Realidade.

    Um pouco torta.

    Mas serve.

    62.

    O Telhado

    Mishin subiu ao telhado para pensar.

    Esqueceu-se do assunto em que ia pensar.

    Saltou lá do alto, apenas para se lembrar da questão em pleno ar.

    Tarde demais, como sempre.

    63.

    O Salto

    Fechei os olhos para dormir e acordei noutro século.

    O pão era igual, mas mais caro.

    Voltei a dormir.

    Agora vivo em 1913.

    Ninguém me incomoda.

    Ainda.

    64.

    A Chuva

    Choveram tartarugas durante 23 segundos.

    O Governo declarou o estado de normalidade.

    A população agradeceu com disciplina.

    65.

    A Senhora Gromova

    A Senhora Gromova gritava todas as manhãs.

    Disseram que era por solidão.

    Mas um dia abriu a boca e saiu um corvo.

    Depois disso, só cantava valsas.

    66.

    A Discussão

    Dois homens discutiam sobre a inexistência um do outro.

    Finalmente, um deles desapareceu de raiva.

    O outro ficou muito só.

    E então desapareceu também, por educação e tristeza.

    67.

    O Cão

    O cão do vizinho aprendeu a ler.

    Passou a ignorar os donos.

    68.

    Um Monumento

    Nikolai pensava sempre antes de agir.

    Um dia pensou tanto que nunca mais fez nada.

    Está num banco de jardim, imóvel desde 1964.

    Chamam-no, agora, um “monumento à precaução”.

    69.

    Da Atenção

    O velho Zakhar sentou-se para morrer.

    Mas, como ninguém reparou, levantou-se e foi fazer chá.

    70.

    Os Pianos

    Caiu um piano em plena rua.

    Seguiu-se um silêncio.

    Depois caiu outro piano.

    Agora há um dueto de cacos.

    71.

    A Senhora Varvara

    A Senhora Varvara caiu da escada sete vezes na mesma manhã.

    À oitava, resolveu morar no rés-do-chão.

    72.

    O Pombo

    Um homem quis dizer algo importante.

    Abriu a boca.

    Saiu um pombo.

    Todos aplaudiram.

    73.

    Talvez

    Um homem morreu porque sim.

    Depois, levantou-se, por que não?

    Agora vive, talvez.

    74.

    Katerina

    Katerina decidiu desaparecer discretamente.

    Saiu pela porta, depois pela janela, depois para dentro dos prédios e das paredes.

    Não deixou rasto — apenas uma colher no bolso de alguém.

    75.

    O Sol

    Hoje, o Sol nasceu torto.

    Ninguém o quis corrigir.

    Brilhou, mesmo assim.

    Toda a cidade parecia oblíqua.

    76.

    O Grito

    Aleksandr Ivanovich começou a gritar sem motivo.

    Chamaram a polícia.

    A polícia começou a gritar também.

    Agora já é uma tradição local.

    77.

    O Poema

    Stepan tentou lembrar-se de um poema.

    Veio-lhe apenas a receita de uma sopa.

    Recitou-a.

    Foi aplaudido e alimentado.

    78.

    A Mosca

    Uma mosca entrou na Biblioteca Central.

    Leu três volumes de Dostoiévski.

    Saiu, profundamente, insatisfeita.

    79.

    A Média

    A Senhora B. começou a encolher às Quartas-Feiras.

    Nos outros dias, inchava.

    Às Terças, desaparecia completamente.

    O marido dizia que, tendo tudo em consideração, era uma mulher muito equilibrada.

    80.

    A Fila

    Fizeram uma fila para coisa nenhuma.

    Ao fim de quatro horas, foi-lhes distribuído comida e pancada.

    Todos ficaram muito satisfeitos — em silêncio.

    81.

    O Gato

    Um gato começou a rezar.

    Foi, imediatamente, considerado santo.

    Os habitantes da cidade viraram-se para Leste e miaram por três dias.

    82.

    A Guerra

    A guerra acabou por engano.

    Depois, começaram outra, para corrigir.

    84.

    O Gato

    Vassíli decidiu entender o Universo. Leu todos os livros. Aprendeu física, metafísica, teologia, matemática e jardinagem. Um dia tropeçou num gato e esqueceu-se de tudo. Agora, apenas, mia.

    85.

    O Jornal

    Petrov estava sentado numa cadeira e a ler o jornal.

    A cadeira quebrou-se.

    Petrov continuou a ler o jornal.

    Então, o chão desabou, com grande estrondo.

    Agora ele lê as notícias, directamente, a partir da cave.

    86.

    O Susto

    Maria Ivânovna tossiu com tanta força que a janela explodiu.

    O vizinho, assustado, engoliu um botão.

    Agora, o vizinho só fala quando costura.

    E só costura quando alguém tosse.

    87.

    O Voo

    O senhor Shapkin resolveu aprender a voar.

    Saltou da mesa.

    Saltou do armário.

    Saltou da varanda.

    Concluiu que a queda era uma forma invertida de voo e fundou uma escola.

    88.

    A Discussão

    Três homens discutiam sobre a existência do tempo.

    O primeiro desapareceu antes de terminar a sua frase.

    O segundo ficou preso entre duas palavras.

    O terceiro olhou para o relógio e tornou-seu num ponteiro. Parado.

    89.

    A Chuva

    Ninguém sabe porquê, mas na Terça-Feira choveram peixes.

    Quatro pessoas escorregaram.

    Duas abriram mercearias.

    E uma jurou que uma sardinha a havia insultado.

    90.

    A Estante

    Kozlov subiu numa cadeira para alcançar a estante.

    A estante caiu.

    Kozlov ficou no ar durante três minutos inteiros enquanto pensava sobre o preço das ameixas.

    Depois, finalmente, caiu.

    91.

    A um Canto

    Natália Petrovna decidiu que seria invisível.

    Passou três dias parada no canto da sala, segurando um pepino.

    No quarto dia, o marido chegou com outro pepino e não a viu.

    Agora vivem todos assim: invisíveis e armados com vegetais.

    92.

    O Gato

    O gato da Rua Filosófica 12 sabe miar em cinco idiomas.

    Mas já não sabe ser gato.

    Por isso, escreve poemas e vende-os a quem passa.

    Ninguém ousa recusá-lo.

    É um gato bastante convincente.

    93.

    A Cabeça

    O velho Karpov perdeu a cabeça. Literalmente.

    Foi procurá-la no sótão.

    Achou três, mas nenhuma era a sua.

    Escolheu uma, ao acaso.

    Desde então, fala em francês e dorme de pé.

    94.

    A Queda

    Uma senhora caiu da janela do terceiro andar. Caiu na rua e espatifou-se. As pessoas acorreram, cercaram-na, olharam para ela, disseram coisas. Um homem de bigode ainda murmurou: «Tinha cara de quem ia cair».

    Depois foram-se embora.

    A senhora continuou lá.

    Começou a chover.

    A senhora ainda estava lá.

    Então veio um camião e passou-lhe por cima.

    Agora, da senhora, só sobrou uma mancha no asfalto.

    95.

    O Chapéu

    Havia um homem sem cabeça que usava um chapéu.

    As pessoas perguntavam:

    — Mas onde encaixa esse chapéu?

    — Em lugar nenhum — dizia ele.

    — Então por que o usa?

    — Por educação — e cuspiu, mesmo sem boca.

    Depois, entrou num eléctrico e desapareceu na multidão.

    96.

    O Silêncio

    Um menino gritou tão alto que o pai ficou surdo.

    O pai, então, bateu com a cabeça na parede até recuperar a audição.

    Mas, agora, o menino já não quer falar e muito menos gritar.

    Chamaram um médico.

    O médico entrou, tropeçou numa cadeira, caiu e morreu.

    A chaleira assobiou.

    A mãe serviu o chá.

    97.

    O Professor de Botânica

    O Professor de Botânica escorregou numa casca de banana e caiu sobre uma orquídea.

    A orquídea morreu.

    O professor também.

    A aula foi cancelada.

    Os alunos aplaudiram.

    Ninguém voltou a estudar botânica naquela cidade.

    98.

    Três Homens e um Cão

    Três homens estavam sentados num banco de jardim.

    Um caiu para a esquerda, o outro caiu para a direita, o terceiro desapareceu.

    No banco ficou um chapéu.

    Um cão passou, olhou para o chapéu, urinou e foi-se embora.

    Fim.

    99.

    O Homem Que Esperava

    Um homem esperava alguém numa esquina.

    Esperou tanto que começaram a construir uma casa à sua volta.

    Quando deu por isso, já estava dentro do armário da cozinha.

    Mais tarde, alguém abriu a porta do armário e disse:

    — Oh, um homem.

    Depois fechou a porta.

    E foi fazer a sopa.

    100.

    Mulher Adormecida

    Havia uma mulher que dormia continuamente.

    De manhã, dormia.

    À tarde, dormia.

    À noite, dormia.

    Um dia disseram-lhe:

    — Você morreu.

    — Ah, não, ainda estou viva — respondeu e voltou a dormir.

    João Pereira de Matos é escritor e investigador no CHAM – Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa.

  • O pintor e as ruínas

    O pintor e as ruínas

    Título

    Rosshalde

    Autor

    HERMANN HESSE (tradução:Paulo Rêgo)

    Editora

    Dom Quixote (Junho de 2026)

    Cotação

    18/20

    Recensão

    Hermann Hesse (Calw, 1877 – Montagnola, 1962) é um dos grandes nomes da literatura alemã do século XX. Romancista, poeta e ensaísta, laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1946, escreveu obras que atravessam gerações pela forma como tratam a busca de identidade, a tensão entre o indivíduo e a sociedade, e a procura de um sentido que exceda as imposições do mundo exterior. Já aqui se escreveu sobre uma das suas obras mais marcadamente autobiográficas, Hans: sob o peso das rodas, na qual o jovem protagonista sucumbe ao peso de um sistema de ensino desumanizador. Rosshalde, publicado originalmente em 1914, é a face adulta desse mesmo problema, ou seja, o adolescente que não resiste à pressão foi substituído pelo homem que lhe sobreviveu e que não sabe o que fazer com essa sobrevivência.

    O posfácio desta edição é da autoria do ensaísta e biógrafo alemão, Volker Michels, responsável pela compilação das obras completas de Hermann Hesse (HH) na editora Suhrkamp e figura central na preservação e divulgação do seu legado literário. Michels situa Rosshalde com precisão, ao descrever que HH terá iniciado o romance em julho de 1912, na Alemanha, e o terá concluído em janeiro de 1913, na Suíça, numa casa da zona de Schoßhalde, topónimo que não é alheio ao título da obra. Mais uma vez, o contexto biográfico é inseparável do texto; com efeito, à data da escrita, o casamento de HH com Maria Bernoulli atravessava uma crise profunda, e a viagem à Indonésia que empreendera em 1911 havia sido uma espécie de fuga que o protagonista do romance ainda não conseguira concretizar. Rosshalde parece ser, assim, um livro escrito para resolver o que a vida ainda não resolvera.

    Johann Veraguth, quarenta anos, é um pintor de renome internacional que detém uma reputação consolidada, mas um casamento desfeito que insiste em manter-se de pé. Vive no atelier que ocupa parte dos terrenos de Rosshalde, uma propriedade extensa e bela; a mulher, Adele, habita a casa principal com o filho mais novo, Pierre, de sete anos. O filho mais velho, Albert, está num colégio interno e, quando regressa nas férias, fica claro que o ódio que sente pelo pai é a consequência natural de anos de ausência afetiva. O único elo que ainda une Veraguth e Adele é Pierre, criança luminosa e curiosa, que os dois amam com uma intensidade que não conseguem dirigir um ao outro. Quando esse elo se rompe, cria condições para a libertação.

    A chegada de Otto Burkhardt, amigo de infância e agricultor de borracha na Malásia, surge como o catalisador da narrativa e da eventual libertação, uma vez que é Otto quem nomeia o que Veraguth não consegue. Por meio da amizade franca que os une, Veraguth escuta Otto dizer-lhe que está a viver entre ruínas e mais tarde ou mais cedo o belo e o fértil que ainda habitam em si apodrecerão. O convite para o acompanhar à Ásia é, ao mesmo tempo, uma porta e um espelho. Veraguth hesita por causa da sua razão para permanecer, o filho de sete anos a correr pelo jardim. A tensão entre a urgência de partir e a impossibilidade de abandonar Pierre sustenta o miolo do livro com uma força que não recorre ao melodrama.

    Mas Pierre adoece. A meningite instala-se com a crueza dos factos inevitáveis. HH descreve a agonia do menino e o desamparo do pai com uma sobriedade que torna as páginas quase insuportáveis. Há uma cena que HH descreve como uma observação limpa, quando Veraguth, de joelhos ao lado da cama do filho, percebe que já não há caminho até àquela alma: “toda a suplicante tentativa de o reconfortar e todo o terno sussurro não faziam já sentido, eram incapazes de romper a solidão terrível do moribundo” (p. 211). No posfácio, Volker Michels relembra que a doença de Pierre tem correspondência biográfica, também Martin, o filho mais novo de Hesse, apresentou os primeiros sintomas da mesma doença, ainda que detetada a tempo.

    Pierre é, juntamente com Veraguth, a personagem mais construída do livro. As suas conversas com o pai têm uma qualidade de luz particular, na medida em que a criança fala com a simplicidade dos que ainda não aprenderam a esconder o que pensam. Quando diz que não quer ser crescido porque os adultos costumam ser tão desagradáveis, ou quando confessa que quer perceber o que dizem os piscos-de-peito-ruivo uns aos outros, dá-nos a saber o que os adultos à sua volta perderam (p. 63).

    A escrita de HH em Rosshalde é, como observou o crítico Ernst Weiß contemporâneo do livro (citado por Volker Michels, p. 227), a de quem consegue fazer sentir “o frio, o calor e o cansaço no coração”. HH é capaz de descrever um fim de tarde de verão ou o esforço físico de nadar, enquanto transporta para o nosso íntimo a textura desse momento. Numa prosa precisa e sem ornamento excessivo, os diálogos carregam o peso da história sem que nada seja explicitado em demasia. Ainda que Rosshalde não apresente a profundidade mística de Siddhartha ou a vertigem de O Lobo das Estepes, contribui para a coesão do conjunto da sua obra. É, como notou Michels, o ponto de chegada de um HH que ainda acreditava que podia resolver pela objectividade o que a vida lhe impunha; o ponto de partida de um outro HH que perceberia, com a guerra e com a terapia, que a objectividade não chega.

    Publicado em 1914, às vésperas de uma guerra que viria interromper o romance seguinte, Rosshalde chegou tarde a Portugal, mas como se costuma dizer, mais vale tarde do que nunca. Fica também, em quem leu, a pergunta a que o livro não responde, a de saber se a liberdade que se conquista à custa de tudo aquilo é, de facto, liberdade.

     

  • E se houvesse uma barata como tu?

    E se houvesse uma barata como tu?

    Título

    A Barata Gigi na Rua do Benformoso

    Autor

    Tiago Salazar (texto) Fátima Mateus (ilustrações)

    Editora

    Oficina do Livro (Julho de 2026)

    Cotação

    19/20

    Recensão

    A barata diz que tem sapatinho de fivela. É verdade da barata, que o sapato é mesmo dela!

    Gigi foi descoberta por Tiago Salazar na Rua do Benformoso. Está cansada de ser perseguida. Ainda assim, procura pessoas que a queiram conhecer. A Gigi parece disposta a alargar o seu círculo de amigos.

    A Barata Gigi na Rua do Benformoso é o novo livro de Tiago Salazar. Aparentemente, trata-se de uma história para crianças.

    Gigi é uma barata “fala-barata”, que fala naturalmente pelos cotovelos. Fala como se estivesse realmente a falar com uma criança. Num discurso entre o afecto, o humor e a pedagogia, Gigi nunca pede piedade. Limita-se a contar quem é. E é precisamente nessa recusa do papel de vítima que reside grande parte da força da personagem. Sabendo que a diferença é um alvo a abater pelos que se encaixam na normalidade socialmente pré-estabelecida, o autor, através da barata Gigi, chama a atenção para a diferença, que não deve ser objecto de discriminação.

    Num mundo em que os influencers lançam tendências e ditam regras aos que não querem ser ultrapassados por modas, a barata Gigi atreve-se a olhar a beleza insuspeita das coisas e as pessoas que são boas, independentemente das cores das suas bandeiras.

    Talvez as palavras, tão importantes, falem mais alto do que as imagens.

    Nas ilustrações deste livro, sabiamente desenhadas por Fátima Mateus, é possível uma barata voar, encavalitando-se nas costas de uma vespa, que assim lhe permite ver o mundo de outra perspectiva.  E há algures no mundo uma vaca sagrada, respeitada por todos, que nos ensinará que todos temos a nossa importância.

    O autor conduz a narrativa com um discurso caloroso e divertido. Ensina sem dar lições. Diz coisas que parecem surgir de passagem, mas que acabam por despertar a curiosidade, o afecto e a atenção – precisamente aquilo de que as crianças mais gostam.

    A barata Gigi acredita que todos aprendemos com todos e que todos carregamos connosco o peso mágico da nossa origem, da nossa cultura, da nossa família.

    Enquanto procurava saber mais sobre esta barata, descobri que Tiago Salazar já tinha escrito, no Página Um, um texto sobre a xenofobia que continha muitas das ideias – e até muitas das frases – que agora encontramos em A Barata Gigi na Rua do Benformoso. Não as simplificou. Não lhes retirou densidade. Condensou-as numa história. É talvez esse um dos maiores méritos do livro: provar que uma criança é capaz de acolher um pensamento complexo sem que seja necessário empobrecer a linguagem.

    Não importa se a xenofobia nasce num quadrante político, numa seita religiosa ou dentro de uma casa de família. Importa educar as nossas crianças bem, preparando-as para a relação com qualquer tipo de diferença. A empatia, a simpatia ou antipatia por uma pessoa, não pode nascer da raça, do credo ou da aparência, mas da essência. Se queremos futuros adultos equilibrados, sensíveis e justos, temos de começar o nosso trabalho nos primeiros anos de vida de uma criança.

    Uma história assim pode ter um senão, apenas: é que depois de ler este livro, uma criança, quando for grande, pode querer ser barata, por questões nucleares.

    Este livro de Tiago Salazar é uma convocação social de humanismo.

    Um dia estava na redacção do Página Um e um estrangeiro bateu-me à porta, porque pensou que tínhamos uma Biblioteca Pública e queria muito ver o livro da Barata Gigi, que não encontrava em livraria nenhuma.

    – Sabe, eu moro muito perto da Rua do Benformoso e queria muito conhecer esse livro.

    Temos publicado actualmente uma rúbrica na nossa secção de cultura, dedicada aos livros que chegam à nossa Biblioteca.

    Uma coisa interessante que pode acontecer na cabeça de um estrangeiro é a palavra Biblioteca ser sempre um lugar público, partilhável. Naquele dia, foi. E um homem de 40 anos devorou A Barata Gigi na Rua do Benformoso. Pelo brilho dos seus olhos, pode ter feito uma viagem no tempo.

  • Maria do Céu Guerra e Teresa Coutinho entardecem em público

    Maria do Céu Guerra e Teresa Coutinho entardecem em público

    Tão bom como o teatro, pode ser o bastidor da personagem, essa peça importantíssima que se chama actor.

    Nos últimos meses, até final de Junho, fui algumas vezes ao São Luiz, ao entardecer, para ouvir gente do teatro que se encontrava com André e. Teodósio e aceitava discutir ideias frente a um público diversificado.

    Das sessões a que assisti, mexeu especialmente comigo o último encontro, que se deu a 29 de Junho, entre Teresa Coutinho e Maria do Céu Guerra.

    Eu não conhecia Teresa Coutinho, mas estava especialmente interessada em ver Maria do Céu Guerra, de quem eu tinha uma imagem como actriz e não como pessoa. Mas imaginava-a distante, como nos é fácil imaginar todas as pessoas que não conhecemos, como defesa contra possíveis faltas de empatia.

    Teresa Coutinho já estava na sala quando eu cheguei, mas Maria do Céu Guerra estava atrasada, presa no trânsito, pelo que a conversa começou antes da sua chegada.

    Foto: Zuraida Guedes

    Teresa Coutinho começou a falar e eu descobri uma mulher determinada, que desde cedo olhou para o teatro como uma forma de se isolar do mundo. O teatro como um lugar seguro, onde podia ser ela própria, rodeada de amigos que também se sentiam diferentes do comum.

    Maria do Céu Guerra chegou, entretanto, e depressa se desculpou, dizendo que é impossível atravessar Lisboa de carro. Tinha gasto mais de uma hora de viagem para percorrer uma distância absurdamente curta.

    O entrevistador tentou fazer-lhe perguntas, mas Maria do Céu Guerra disse que precisava ainda de ouvir Teresa Coutinho por uns momentos, por necessitar de se acalmar antes de falar.

    Não há nada mais humano do que isto.

    Porque é uma cavalheira, a actriz mais velha fez questão de dizer que tinha estado a ler sobre Teresa Coutinho e tinha percebido que ela pertence a uma família de gente que lê e que ouve os outros, e que essa pertença representará para Teresa Coutinho uma vantagem sobre tantas outras pessoas.

    O eventual quebra-gelo estava feito. A empatia entre as duas actizes também, por artes de Maria do Céu Guerra, que fez questão de dizer que se tinha interessado previamente por saber quem era a sua interlocutora.

    Foto: Zuraida Guedes

    Teresa Coutinho contou-nos que desde cedo frequentava as salas de espectáculo pela mão da mãe, que a acostumava a esses ambientes, mesmo quando os espectáculos eram uma seca para a jovem Teresa.

    Teresa Coutinho cresceu no mundo do teatro, representando com um grupo de amigos, por desejo e vocação.

    Maria do Céu Guerra, quando recuperou da irritação da viagem longa, contou-nos que os espectáculos eram uma espécie de tortura a que era submetida, porque tinha que estar muito tempo a ouvir pessoas a falar e, ainda por cima, durante esse tempo, tinha que estar quieta e calada. Se mais tarde enveredou pelo teatro, foi por influência de uma amiga que, como ela diz “fazia de mim o que queria e lá me convenceu que eu ia me sentir muito bem com aquelas pessoas, a fazer teatro”.

    O ritmo da conversa foi sendo muito intenso e caótico, e não nos devemos espantar com isso quando temos diante de nós uma actriz que, mais do que responder a perguntas, tem coisas que lhe apetece contar. Acho que há uma certa indisciplina que se ganha com a idade, não por falta de respeito ou por insubordinação, mas porque, genuinamente, existem muitas coisas muito mais interessantes de se dizer, do que as respostas às perguntas que se fazem.

    Foto: D.R.

    Maria do Céu estava ali para nos dispor bem, exactamente como sempre  esteve nos palcos. Disse-nos que o teatro é amor e que sempre teve uma preocupação com o público, que ele não saísse aborrecido dos espectáculos. Isso preocupava-a muito. Da mesma forma que nos disse:

    –  Sabem que eu estou a dizer estas coisas de uma forma muito leve, mas a minha vida não foi fácil. Mas eu tenho respeito por vocês e não quero pesar-vos com a minha história.

    Não é a leveza da superficialidade. É a leveza de quem sabe que a sua vida é apenas sua e que os outros devem estar protegidos dela, sobretudo do que não for agradável de se saber.

    Nesta lógica de boa disposição, começou a contar-nos as histórias da PIDE. E eu senti-me realmente pequenina, porque ainda mal tinha nascido, quando os adultos da minha infância eram quase proibidos de respirar pela polícia que servia Salazar.

    Era assim, como nos contou:

    As peças eram fiscalizadas antes da sua exibição, porque havia ideias proibidas, que não deviam ser pensadas, quanto mais expostas. O espectáculo saia, depois de devidamente censurado a lápis azul. Os PIDES assistiam aos espectáculos sempre nas primeiras filas, acompanhados de umas namoradas loiras de cabelos muito arranjados. Às vezes iam mais do que uma vez, mas variavam sempre nas namoradas, que nunca eram as mesmas.

    Foto: Zuraida Guedes

    Os artistas vingavam-se como podiam, muitas vezes dizendo muito à pressa as partes do texto que tinham sido cortadas pela censura. Era uma coisa que dava gozo fazer, era uma vingança pequenina.

    Para as pessoas, os artistas pertenciam a outra classe, sobretudo as mulheres, que se deviam dar a poucas vergonhas. Não era nada disso, assegura Maria do Céu Guerra. Lembra-se dos tempos das obras no espaço físico da Barraca, de andar sempre carregada de coisas, de não haver descanso.

    Tanto Teresa Coutinho como Maria do Céu Guerra são também encenadoras. Teresa  Coutinho mostrou um grande entusiasmo pela possibilidade de fazer tudo, quando tem que montar um espectáculo. Gosta de chamar todas as responsabilidades a si. Maria do Céu estava a ouvi-la com toda a atenção, mas de repente adoptou-a. Por momentos, o diálogo transformou-se numa conversa entre duas familiares muito próximas, mas de gerações muito distantes:

    — Mas olha que não podes fazer isso. Tens que perceber o que fazes melhor e concentrares-te no que fazes melhor, para não te desgastares, a andar sem poder de um lado para o outro.

    Este foi um momento muito bonito. É assim que nascem as relações, com estas preocupações, com estes cuidados, com a verbalização da preocupação. Teresa Coutinho pareceu-me ouvi-la e aceitar, embora me pareça tão decidida que raramente aceite que lhe digam como deve ou não agir.

    Foto: Zuraida Guedes

    A propósito de A Barraca ter perdido o seu espaço do Rato, a busca por um novo espaço foi longa e desgastante, mas com um episódio muito cómico, revelado por Maria do Céu Guerra. Depois de algumas tentativas de aquisição de uma espaço para A Barraca, o grupo tinha um desenho de projecto lindíssimo, que preservava a existência de uma árvore, integrando-a no espaço físico da Barraca. Era uma proposta que se acreditava ser aprovada e aceite. Mas o grupo teve que ir falar com um arquitecto que se chamava Quadrado que, fazendo justiça ao nome, não aprovou o projecto.

    Maria do Céu Guerra falou-nos da ligação com o pai, que a chamava muito para ser sua cúmplice nas suas crenças, que muitas vezes envolviam questões políticas. A propósito da morte de Almeida Santos no Guincho (não o político) o pai pediu-lhe que o acompanhasse para tentar perceber como tinha sido aquela morte. Esse episódio acabou por ser fonte de inspiração do livro Balada da Praia dos Cães. A jovem Maria do Céu acedeu ao pedido do pai e foi, acompanhada de uma amiga. Depois comeram no Muchacho e dias mais tarde o pai foi preso. A família visitou-o no Aljube. Por essas questões, a actriz desabafa: “Eu não tinha como ser de direita. Tinha uma família muito diferente disso. “

    Há muito tempo que me parece realmente que as pessoas devem ser simpatizantes do lado esquerdo ou do lado direito das ideias, consoante o que lhes acontece e a forma como se posicionam, face ao que lhes acontece. Nem todas as pessoas são assim, preferindo muitas vezes seguir modas ou exemplos que não são os da sua experiência de vida.

    Foto: Zuraida Guedes

    A actriz mais velha disse-nos ainda que “o teatro teve um momento muito mau já depois do 25 de Abril, em que se tentava encontrar soluções para uma coisa que não se estava a ver onde é que estava a solução. E a solução era deixar o tempo (fazer o seu percurso) … e trabalhar respeitando os outros, amando os outros, funcionando, aprendendo, estudando, quer dizer, ter um comportamento cívil, ético e pró-ético. Eu acho que é essa a maneira de fazer teatro. Só se pode fazer teatro bem, assim. Não é com intrigas, com mesquinhices, com coisas rasteiras, … ir primeiro ao escritório do senhor secretário de estado, … amanhã vai lá outro, e assim já fica com a minha opinião,… Isso é horrível, e passou-se em Portugal a partir dos anos 80. Dez anos depois do 25 de Abril, já estava tudo assim.  E depois foi muitos anos assim. Isso não era bom e deu origem às perseguições à Barraca. Quando ficámos sem casa e os brasileiros mandaram protestos para Portugal nessa altura, nós sofremos horrores… calem-se! Caaaalem-se! “

    — Foram retaliados? – questionou o entrevistador.

    — Digamos isso. E fomos um bocadinho maltratados.

    — E agora com este crescimento de movimentos de direita, não tem receio que isso possa afectar o seu trabalho? – perguntou alguém da assistência.

    Maria do Céu Guerra respondeu com outra pergunta:

    — Quando é que o 25 de Abril se deu? Foi na manhã de 25 de Abril de 1974? À tarde já estávamos a virar à direita. Foi sempre assim. É sempre assim.

    E como é que o teatro está hoje?

    Maria do Céu Guerra acha que “o teatro está mais profissional, tem óptimos actores. Eu às vezes vou ao teatro e fico parva. Não sei se em termos de reportório não era bom haver mais criatividade, mais risco,… mas pode ser que não…”

    —  O teatro deve ter mais risco? – perguntou André e. Teodósio a Teresa Coutinho.

    Foto: Zuraida Guedes

    — Eu estava a ouvir a Maria do Céu e a pensar que é mesmo uma honra poder falar aqui ao pé da Maria do Céu. Por um lado, está tudo muito melhor. A Maria do Céu tem esta experiência, que partilha hoje connosco, ter vivido a censura, ter vivido todos estes anos. Eu acho que estará muito melhor mas, na minha experiência que é curta, mas também já não é assim tão curta, eu acho que já esteve melhor, por acaso, e queria só dizer que uma coisa que para mim foi muito importante foi durante a pandemia ter estado envolvida em alguns movimentos de luta pelos direitos profissionais da cultura, e perceber o tamanho que o país tem. O país vai a Lisboa, vai ao Porto, vai a Coimbra, e noutros lugares as pessoas estão completamente esquecidas, e estou a falar de profissionais, que trabalham em circusntàncias muito duras e se esfalfam para se candidatarem a apoios. Quando eu digo que acho que (o teatro) já esteve melhor, quero dizer que houve uma sensação há uns anos, talvez antes da pandemia, … pareceu-me a mim que nós íamos numa curva ascendente, e acho que agora há muito temor, há medo sobre como é que os apoios vão continuar a funcionar, se o espaço que foi aberto para que os corpos estejam presentes nos palcos, estou a falar de pessoas LGBT, se esse espaço vai continuar a estar disponível. Eu acho que começa a haver algum cansaço. Ainda existe muita gente a arriscar com tão poucos recursos.”

    Foto: Zuraida Guedes

    Maria do Céu Guerra acrescentou:

    — Devíamos exigir que a comunicação social falasse todos os dias de nós por alguma coisa brutal que a gente fizesse. Tudo o que acontecesse de grave, e que está a acontecer com certeza, nós devíamos sinalizar. Nós calamo-nos. Estamo-nos a calar. Isso é perigoso. Devia ser tudo mais fácil e mais bem tratado. Devo questionar:: o que é que eu posso fazer que mude isto? O que é que eu posso fazer para que as pessoas possam sentir que nos espectáculos há uma luzinha? Não devemos dizer que agora o público não quer nada de política e por isso vamos fazer comédia. Ter cuidado com isso, ter cuidado com o seguir pela facilidade. Temos que impedir que isto avance. Impedir não é ser militante e andarmos aqui de punho no ar. Não é isso. É impedir nas nossas práticas, naquilo que fazemos no nosso teatro.

    André e. Teodósio dispôs-se a chegar ao fim deste encontro tão belo e intenso. Tinha uma série de temas e de perguntas que ficaram sem resposta. Enumerou o que não conseguiu questionar. Até compreendi a sua sensação de entrevista fracassada, mas acredito que posteriormente tenha compreendido a dimensão do momento a que todos assistimos. Além disso, tentar conduzir duas mulheres tão intensas e indomáveis poderia ter sido perigoso e, sobretudo, muito pouco interessante.

    Agradeceu ao público, reconhecendo-lhe a capacidade de escutar estas conversas, sempre longas, sem música nem bailarinos por trás.

    Com um humor impagável, Maria do Céu Guerra acrescentou:

    — Mas a próxima vai ter!

  • O caleidoscópio e a Ursa Maior

    O caleidoscópio e a Ursa Maior

    Ca-lei-dos-có-pio. Substantivo (masc.). Tubo ocular contendo dois espelhos planos que, postos em relação a um objecto ou conjunto de pequenos objectos, em determinadas posições, exibem variadas formas coloridas. Os pequenos objectos dentro do tubo podem ser pedacinhos de vidro colorido, missangas, recortes e bordados. Escreve Sir David Brewster (1781-1868), cientista escocês, no seu Treatise on Optics [Tratado de Óptica, sem tradução para português], publicado em 1831, sobre o caleidoscópio: “(…) quando dois espelhos planos são combinados de uma forma particular, e colocados numa posição particular em relação a um objeto, ou uma série de objetos, e ao olho, constituem o caleidoscópio, ou um instrumento para criar e exibir belas formas.”

    Inventado pelo cientista em 1816, venderam-se inúmeros exemplares deste objecto nos anos imediatamente seguintes. Fora muitíssimo popular nos lares vitorianos de alta classe. Aliás, nos anos de 1820 e 1830, o olho humano fora alvo de escrutínio e investigação científica de altíssimo nível, a ponto de consolidar a disciplina da filosofia do olhar (ou da vista). Sir David Brewster foi um dos cientistas, entre outros, que mais reflectiu e escreveu sobre isso, tendo publicado o já mencionado Treatise on Optics. Contudo, desafortunadamente, o cientista não conseguiu patentear o caleidoscópio.

    Caleidoscópio para uso doméstico.

    Tornando à palavra: caleidoscópio é uma junção de kalos– (belo, em grego antigo) + –eidos– (imagem, em grego antigo) e –skopein (ver). Kalos, por sua vez, remete a Calisto, belíssima ninfa que formava parte do séquito da deusa Artémis (na mitologia grega) ou Diana (na mitologia romana). Há mais do que uma versão desta história mitológica, mas as duas mais conhecidas são de Hesíodo (Astronomia, Fragmento Terceiro) e Ovídio (Metamorfoses, Livro Segundo). Conta-nos Hesíodo que Calisto acompanhava Artémis nas suas caçadas pelas montanhas quando fora seduzida por Zeus (claro está). Engravidou, mas continuou sem ser detectada pela deusa durante algum tempo, até esta a ver banhando-se. Irada, Artémis transforma Calisto numa ursa. Depois de ter o bebé, Arcas, e de o ter entregado a Lícaon, Calisto pensara que seria adequado entrar no domínio proibido de Zeus. Por causa disso, é caçada pelo próprio filho e pelos Arcadianos. É quando Arcas está prestes a lançar a flecha que a irá ferir e matar, que Zeus a eleva até às estrelas, formando, assim, a constelação. Ovídio é mais breve, e indica-nos que é Juno, esposa de Júpiter, quem a castiga, transformando-a numa ursa. Quando Arcas quase a perfura com uma flecha, Júpiter eleva-os a ambos, formando a Ursa Maior (Calisto) e a Ursa Menor (Arcas). Inúmeras variações desta história persistiram, sendo que Higino, na sua Astronomia, discorre sobre algumas; entre elas, a de que Júpiter se transformara em Diana, aproximando-se e seduzindo Calisto até ambas se envolverem. Pensando Calisto ter engravidado de Diana, acusando-a de tal, Diana, enfurecida, transforma-a num urso. O final é semelhante a todos os outros.

    Ilustração retirada de “A Treatise on the Kaleidoscopes”, de David Brewster. 1819. Domínio Público.

    Calisto, já transformada na Ursa Maior, pontilhando os céus nocturnos do Hemisfério Norte (podendo ser vista, em alguns pontos, no Hemisfério Sul), continua a ser bela, mesmo após os seus infortúnios e transformações. Primeiro, ninfa; depois, ursa; no fim, conjunto de estrelas. As belas formas e padrões que vemos, espreitando por um caleidoscópio, também nos levam a observar ninfas, animais, estrelas, aglutinando pedacinhos de cor pela força da imaginação (e não uso esta palavra por acaso). Pretende este cantinho ser um convite às viagens da imaginação por aquilo que (des)conhecemos e podemos ler e descobrir, ousando entrar no reino das comparações, sobreposições e intertextualidades, repletos de recortes, bordados e mosaicos de ideias, símbolos, nomes, objectos, histórias, entre outras referências. Não esqueçamos que o caleidoscópio resulta por ser um jogo entre dois espelhos planos que reflectem variadíssimas formas – também aqui há beleza. Dois espelhos: o reflexo que se repete. Calisto ursa e Calisto estrela. Desta tautologia cria-se multiplicidade, fascínio, magia. Dos reflexos nos espelhos desenhamos outras formas, procurando dar mais cor e significado àquilo que nos rodeia. Deve ser essa a lição do caleidoscópio: pasmai com a beleza das coisas simples.

    Eduarda Gil Barata é poetisa e doutorada em Estudos Literários Comparados pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

  • Um amigo que canta as canções que nos salvaram

    Um amigo que canta as canções que nos salvaram

    Tenho um problema com certos grupos ou cantores: por mais que ouça as suas canções e as aprecie, acabo por não me esforçar a querer memorizar quem as canta. São então raros os artistas que me conseguem convencer a ir a um concerto ao vivo, mesmo tendo carteira de jornalista a abrir portas de borla e com direito a sala VIP.

    Agora, quando aparecem aqueles artistas que falam comigo, aí já reconsidero. Uns, até são amigos que conheço pessoalmente, outros são os desconhecidos que me ofereceram momentos em que fiz amigos para a vida. E o Morrissey é um deles.

    Morrissey, Porto, 1 de Agosto

    Morrissey é um desses amigos que, embora não o conheça pessoalmente, ainda assim esteve presente em vários episódios da minha vida. Com e sem os The Smiths. Quando me disseram que ia estar no Porto para o único concerto em Portugal na tour de 2026, antes de seguir para Las Vegas, não me importei de pagar o que pediam e lá o fui ver – sim, podia ter ido de borla, usando a carteira de jornalista, mas também foi mais barato do que uma viagem a Israel.

    Antes do concerto, deu para ir ver a exposição da Vivian Maier na Cadeia da Relação, perto do Pavilhão Rosa Mota – ainda lhe chamo assim, pois não consigo associar ao nome da cerveja –, localizado no antigo Palácio de Cristal, onde se pode ver um dos melhores pôr-do-sol do mundo.

    A fila para entrar no ‘front stage’ não demorou muito. Entre boa comida, visitas culturais, gente civilizada, educada e apreciadora, o Porto só tem vantagens.

    The Bullfighter Dies

    Dois minutos antes das 21h00, altura em que estava marcado o início do concerto, começaram a passar vídeos musicais no grande ecrã. Eram canções de grupos tão diversos como os Sigue Sigue Sputnik, New York Dools, Kraftwerk e ainda uma cena do The Benny Hill Show. Entre demonstrações de respeito pelo que era exibido, a ausência de qualquer sinal do cantor e da sua banda colocava à prova a paciência dos presentes. Apupava-se para que o concerto, finalmente, começasse.

    Foram 39 minutos de atraso em relação à hora marcada, mas o mais significativo é que, mal Morrissey entrou e se fez a ouvir a voz do artista, mesmo com 67 anos, o tempo tornou-se naquilo que ele realmente é: relativo.

    Tudo ficou para trás quando o bardo começou a cantar Billy Budd, seguido de The Youngest Was the Most Loved. Depois veio o First of the Gang to Die, com a história de Hector, o primeiro do gang a ter uma arma, a cumprir pena e a morrer.

    The First of the Gang to Die

    O concerto continuou com Shoplifters of the World Unite , a canção “revoltante, mas verdadeira”, seguido de How Soon Is Now?, ilustrada no grande ecrã com imagens de Bruce Lee. O artista suava e o pavilhão suava. Mas Morrissey valia bem a liturgia. Ele disse que tem 41 anos, mas sente-se como se tivesse 42. A voz, essa, mantém o condão de nos fazer arrepiar.

    Passando por temas mais clássicos – o alinhamento completo está registado no fim do artigo – não destoou com o recente Make-Up is a Lie, que, vê-se logo, não é música moderna: é arte. E o mesmo poderia dizer do Kerching Kerching. E estou autorizado a sustentar isto pelo próprio, que afirmou no palco portuense: “Música moderna é arte para quem não sabe nada sobre o que é arte”. Portanto, ainda bem para nós que Morrissey não entende mesmo nada de música moderna.

    Vale a pena dizer que paguei para estar no mesmo Planeta, no mesmo Porto e na mesma sala, ao mesmo tempo em que este amigo, nascido em Lancashire, mas de sangue irlandês, cantava para outros amigos algumas das canções que salvaram a vida a todos. Vale a pena dizer que paguei para ver, pois ele merece todo o valor que cobra. Tal como os músicos caros que o acompanham – foi o próprio cantor que disse que eram muito caros.

    Make-up is a Lie

    Morrissey chegou ao Porto ainda com a memória recente da polémica dos concertos em Espanha, onde foi notícia a carta que escreveu ao primeiro-ministro, Pedro Sánchez, a pedir o fim das touradas no país vizinho.

    Na Invicta, cidade sem grande tradição de touradas, cantou The Bullfighter Dies, passando imagens de fundo, sempre com arte, de cenas de touradas de morte em Espanha. E com forcados dos nossos.

    Não queríamos que o concerto acabasse, sobretudo quando ainda se estava a ouvir I Know its Over, com a prece à mãe e a sentir terra a cair sobre a cabeça. Morrissey dizia para pensarmos nele nas nossas preces e também no nosso testamento, pois amava-nos, logo ele, que não é propriamente conhecido por ser um doce de pessoa, mas que temos gostar por cantar: It’s so easy to hate / It takes strength to be gentle and kind. Não é preciso traduzir, pois não?

    Everyday is Like Sunday

    Com Everyday is Like Sunday, a montanha-russa das emoções atingia o auge, a preparar caminho, sem ter de pedir desculpas, para o Suedehead, outro dos ‘hinos’ do cantor. Seguiu-se Irish Blood, English Heart , cantado com imagens de Oscar Wilde, algo perfeitamente natural para alguém que também mencionou Fernando Pessoa e o Livro do Desassossego durante o concerto, terminando, com alguma lógica, no Jack the Ripper .

    E depois acabou o concerto. Sabia-se que, nessa altura, vinha o momento do Porto de encontro final, onde se ia ainda ouvir a única música que não poderia faltar. Aquela que, se faltasse, deixaríamos de ser amigos. Sei que sabem do que estou a falar. E posso dizer que estive lá, no Porto, no único concerto de Morrissey, em Portugal, no ano 2026, antes dele cruzar o Atlântico e continuar a digressão nos Estados Unidos.

    Ouvi, sim, com a devida emoção, pois sou um ser humano que sangra se o cortarem, aquela que é, na minha opinião de leigo, a canção mais bonita alguma vez feita:There Is a Light That Never Goes Out.

    There’s a Light That Never Goes Out

    E à saída, não havia nenhum autocarro de dois andares, mas teria sido um desperdício, pois nem toda a gente esteve lá e merecia ser também esmagada por um camião de dez toneladas, pois há uma luz que nunca se apaga.

    Obrigado, Morrissey.

    Morrissey, Porto, 1 de Agosto

    Billy Budd / The Youngest Was the Most Loved / First of the Gang to Die / Shoplifters of the World Unite / How Soon Is Now? / Now My Heart Is Full / Kerching Kerching / A Rush and a Push and the Land Is Ours / Make-Up Is a Lie / Zoom Zoom the Little Boy / Life Is a Pigsty / Sure Enough, the Telephone Rings / The Bullfighter Dies / I Know It’s Over / Everyday Is Like Sunday / The Monsters of Pig Alley / Suedehead / Irish Blood, English Heart / Jack the Ripper

    Encore: There Is a Light That Never Goes Out

  • Finalmente

    Finalmente

    Cruzo-me com eles à saída do shopping.

    Ela ajeita-lhe os óculos de sol no rosto. Sorri-lhe com doçura e caminha na minha direção.

    Noto-a diferente. Caminha, aos 70 anos, com uma leveza que nunca lhe conheci na juventude. O rosto, tantas vezes crispado pela inquietação, parece enfim tranquilo.

    Conheço-os há uma vida. Lembro-me do namoro, do amor intenso e da forma como, muito cedo, a relação foi minada pelos ciúmes. Para ela, qualquer mulher era uma ameaça: uma colega de trabalho, uma amiga, uma vizinha, uma prima. Aos poucos, até a mãe e a irmã se tornaram elementos a afastar. Queria ser a única mulher da vida dele. Não sei se conscientemente ou não. Se o fazia com algum tipo de maldade ou por doença. O que é certo é que a obsessão a foi consumindo, ao ponto de já nem a dignidade lhe importar. Sucediam-se as discussões, os escândalos, as acusações e os pedidos de perdão, que surgiam quase em simultâneo.

    Vieram depois os anos mais difíceis. O sonho de um filho, que nunca chegou e que ela acreditava poder salvar o casamento. Seguiram-se as tentativas de suicídio. Muitas. Assustadoras, ainda que rapidamente se tenha percebido tratar-se de gritos de desespero e não de vontade de morrer. A dor era autêntica, ainda que sem justificação. Nada do que ele pudesse dizer ou fazer parecia aliviar aquele sofrimento.

    Familiares e amigos vaticinavam o fim do casamento. Era inevitável que ele acabasse por fugir. Nunca o fez.

    Agora, tantos anos depois, encontro-os assim.

    Ela vê-me, abre um sorriso, aproxima-se e dá-me dois beijinhos. Nunca antes o fizera. Pergunta-me pela família, diz-me que vieram ao cinema, despedimo-nos e seguem caminho.

    Devagar, empurra a cadeira de rodas na qual ele segue, imóvel, o olhar perdido atrás dos óculos de sol que lhe ajeitara momentos antes.

    Não me reconheceu. Não sei se viu o filme. Se percebeu ter estado no seu lugar preferido. Se sabe quem o levou.

    Nela a serenidade de tê-lo só para si.

    É, finalmente, a única mulher da vida dele.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

  • Ainda há escorpiões debaixo das pedras

    Ainda há escorpiões debaixo das pedras

    Sempre que vou assistir ao concerto de uma banda da minha juventude, há uma espécie de confronto silencioso entre a nostalgia e o presente. Não porque queira regressar ao passado — nunca percebi essa obsessão de querer voltar a ter vinte anos, até porque me recordo suficientemente bem dos meus vinte anos para saber que nem tudo era recomendável —, mas porque certas músicas têm a estranha capacidade de funcionar como marcadores do tempo. Ouvem-se os primeiros acordes e, durante alguns segundos, desaparecem décadas.

    Na verdade, hoje já não ouço, com a frequência de outros tempos, os estilos musicais que marcaram a minha juventude. Isso não significa que ouça menos música. Pelo contrário: ouço muito mais e, sobretudo, muito mais diversificada. Em parte, porque a idade e alguma capacidade financeira permitem outros acessos, mas sobretudo porque a música se democratizou de uma forma que, quando eu tinha vinte anos, seria difícil imaginar.

    Plataformas como o Spotify colocaram à distância de alguns movimentos dos dedos aquilo que antes exigia dinheiro, procura, discos, cassetes ou a sorte de uma rádio passar determinada canção. Hoje podemos atravessar géneros, países e décadas numa tarde. Descobrir um músico africano ou nórdico, regressar a uma banda alemã dos anos 70, ouvir jazz, música clássica ou uma cantora que lançou ontem o primeiro disco. A oferta tornou-se quase infinita e, com ela, a nossa relação com a música mudou.

    Talvez por isso as músicas da nossa juventude tivessem uma presença diferente. Havia menos de tudo. Menos canais, menos oferta, menos possibilidades de saltar de uma canção para outra, nenhum algoritmo empenhado em descobrir aquilo de que gostaremos nos próximos três minutos.

    Um disco era ouvido durante semanas, às vezes durante meses. Uma cassete podia acompanhar-nos até a fita começar a dar sinais de exaustão. Certas músicas ocupavam os nossos ouvidos quase todos os dias e, por essa insistência, acabavam por ocupar também uma parte da nossa vida.

    E a música, na verdade, nunca se consome. Integra-se em nós. Fica algures, alojada numa zona da memória que desconhecemos até ao instante em que uma guitarra, uma voz ou uma melodia abre uma porta que julgávamos fechada.

    Por isso, assistir hoje ao concerto de uma banda que atravessou esse tempo é sempre um exercício curioso. Vemo-nos envelhecer através dos outros. Olhamos para o palco, fazemos mentalmente algumas contas e concluímos que aqueles rapazes que pareciam eternamente jovens já são septuagenários. E percebemos que o tempo também passou por nós, embora talvez com menos luzes, menos amplificadores e menos aplausos.

    Mas há outra coisa, bastante mais interessante do que essa contabilidade das rugas: percebemos ali, na arena, que algumas músicas sobreviveram aos seus próprios ouvintes originais.

    Foi talvez essa a constatação que mais me surpreendeu no concerto dos Scorpions, na MEO Arena. Como tive, desta vez, oportunidade de ir ao ‘fosso’ tirar fotografias, pude observar antes do início do concerto que, nas primeiras filas, entre os mais entusiastas, não estavam homens e mulheres que poderiam ter comprado Blackout quando saiu, em 1982, ou namorado ao som de Still Loving You. Havia muitos jovens na casa dos 30 anos, outros mais novos e até adolescentes. Havia ali uma diversidade geracional, com avós, pais e filhos a poderem afinal em uníssono Wind of Change, Rock You Like a Hurricane e Still Loving You.

    Existe qualquer coisa de extraordinário nisto. Sobretudo numa época em que quase tudo parece condenado à obsolescência.

    Os Scorpions, confesso, sempre tiveram um lugar especial no meu imaginário, e não apenas por razões musicais. Sou Escorpião, nascido em Novembro – e daí ter sido dono do meu saudoso cão Scorpio, nos idos de 90 [sim, houve um cão antes do gato Serafim]. E, por uma dessas coincidências biográficas que não significam nada, mas às quais gostamos de atribuir algum significado, nasci em 1969, precisamente o ano em que Klaus Meine entrou na órbita da banda que viria a transformar-se nos Scorpions que o mundo conhece.

    Na realidade, a história dos Scorpions é mais antiga. Rudolf Schenker fundou o grupo em Hanôver, em 1965, tendo a primeira formação actuado sob o nome The Nameless antes de adoptar a designação definitiva. Klaus Meine juntar-se-ia depois ao projecto, vindo dos Copernicus, juntamente com Michael Schenker. Rudolf é hoje o único elemento que permanece desde a formação inicial – e ainda está para as curvas. Klaus Meine, por seu lado, é a voz dos Scorpions há mais de meio século.

    E eis-nos, portanto, em 2026, perante uma banda cujo fundador, Rudolf Schenker, tem 77 anos, e cujo vocalista, Klaus Meine, tem 78. Matthias Jabs, que entrou no final dos anos 70, tem 70. O benjamim da formação é, imagine-se, o baterista Mikkey Dee, com 62 anos, antigo baterista dos Motörhead e membro dos Scorpions desde 2016.

    Nada disto faria particular diferença se estivéssemos perante uma visita guiada a um museu do rock. Mas não estávamos. Claro que o tempo cobra sempre a sua parte. Klaus Meine já não se movimenta em palco como há 30 ou 40 anos, e há limitações físicas que se tornam evidentes. Seria absurdo esperar outra coisa de um homem de se aproxima de ser octogenário. Mas talvez por isso surpreenda verificar que a voz continua segura, reconhecível, capaz de transportar aquelas canções sem transformar o concerto numa cerimónia de despedida.

    E depois há a energia. Essa talvez seja a palavra que melhor define este concerto. Não a parafernália tecnológica, embora o espectáculo visual seja competente, com bons jogos de luz e um cenário pensado para acompanhar a música sem a engolir. Não foi uma produção destinada a esconder músicos atrás de ecrãs gigantescos, efeitos especiais e toneladas de pirotecnia. Aquilo que mais impressiona é ver cinco homens — quatro deles numa idade em que a sociedade começa a recomendar repouso e prudência — comportarem-se como se o palco continuasse a ser o lugar mais natural do mundo.

    Rudolf Schenker continua a atravessá-lo de guitarra em punho com uma energia quase insolente. Matthias Jabs mantém a precisão dos solos. E Mikkey Dee protagonizou um dos grandes momentos da noite com um solo de bateria que demonstrou que ter 62 anos pode ser uma informação meramente administrativa.

    Vi grande parte do concerto já bastante afastado do palco. Por vezes, bastava fechar os olhos. E então desapareciam os cabelos brancos, as rugas e as limitações do corpo. Ficavam as guitarras. Ficava aquela voz. Ficavam os acordes que atravessaram os anos 80 e 90 e que, para quem viveu essa época, são quase impossíveis de separar das memórias pessoais. Still Loving You. Rock You Like a Hurricane. Wind of Change. Canções que, goste-se mais ou menos do hard rock que os Scorpions representam, adquiriram uma existência própria.

    Os nossos gostos mudam – é certo. Há estilos musicais que nos entusiasmaram aos 20 anos e que hoje dificilmente escolheríamos para ouvir durante uma tarde inteira. Não há nisso qualquer traição à juventude. Crescer é também adquirir novos ouvidos. Mas existem bandas e cantores cuja música consegue uma coisa mais rara: desprender-se da geração que a criou. Migra.

    Migra quase por osmose. Passa dos pais para os filhos, dos irmãos mais velhos para os mais novos, de uma cassete esquecida para uma playlist digital, de um disco de vinil para uma plataforma de streaming. E, subitamente, encontramos um adolescente a cantar uma música composta quando os seus pais talvez ainda fossem crianças. Foi isso que se viu na MEO Arena.

    E talvez seja essa a verdadeira medida da longevidade de uma banda: não o número de discos vendidos, nem as digressões, nem sequer os 60 anos de carreira. Uma banda torna-se duradoura quando deixa de pertencer à geração que a ouviu nascer. Os Scorpions conseguiram isso.

    Saí do concerto com a sensação curiosa de ter assistido a uma coisa muito antiga e, ao mesmo tempo, viva. Não sei durante quantos anos mais Klaus Meine poderá cantar Still Loving You, nem quantas vezes Rudolf Schenker poderá continuar a percorrer um palco empunhando uma guitarra. Também não sei quantos concertos dos Scorpions ainda haverá.

    Mas sei que, por esta noite, olhando para as primeiras filas, percebi que isso talvez já nem seja o mais importante. Quando aqueles cinco homens deixarem os palcos, haverá provavelmente um rapaz de 20 anos, algures, a ouvir Rock You Like a Hurricane. Outro descobrirá Still Loving You. E alguém continuará a assobiar Wind of Change sem sequer ter memória do Muro de Berlim. Talvez seja isso que a música faz melhor do que nós: envelhece sem ficar velha.

    Nota: 4,5 (em 5)

    Fotografias: PAV

  • A insustentável leveza de marcar tudo na mesma semana

    A insustentável leveza de marcar tudo na mesma semana

    Uma agenda electrónica tem uma vantagem extraordinária sobre o corpo humano: nunca se cansa. Aceita tudo o que lhe colocamos dentro, distribui compromissos por quadrículas, envia alertas com quinze minutos de antecedência e mantém uma serenidade quase irritante perante a evidência de que o seu proprietário acaba de organizar uma semana incompatível com as mais elementares leis da fisiologia.

    Para o calendário, um concerto termina quando chega a hora prevista para o fim; uma viagem ao Porto ocupa apenas o intervalo entre a partida e o regresso; um festival de três dias corresponde a três rectângulos coloridos. O calendário desconhece pernas, sono, automóveis, estações de serviço, leitão à Bairrada, atrasos, máquinas fotográficas, tribunais e a necessidade ocasional de um ser humano se sentar.

    Foi talvez por confiar em demasia nesta ficção geométrica que me meti, por estes dias, numa pequena alhada logística que, vista à distância, poderia ter sido evitada com uma qualidade que nunca cultivei com particular entusiasmo: bom senso.

    A semana já não começava propriamente do zero. Poucas semanas antes passara pelo Rock in Rio e por outros concertos, e o organismo já me começa a enviar alguns daqueles sinais que um homem sensato interpreta como pedidos de repouso, mas que um jornalista como eu interpreta como ruído de fundo.

    Pelo meio, aproximava-se a fase decisiva de preparação do CORPUS, uma plataforma de dados de Saúde do PÁGINA UM construída a partir de 38 milhões de registos hospitalares, projecto suficientemente absorvente para ocupar os dias de uma pessoa normal e as noites de uma pessoa menos normal.

    Foi neste contexto que achei perfeitamente razoável ir ver os Scorpions numa quarta-feira à noite na MEO Arena.

    No dia seguinte, de manhã, tinha de estar no Porto. Num tribunal. Num julgamento.

    A sequência possui alguma elegância quando escrita desta forma: Scorpions, Porto, tribunal. Parece o alinhamento de um festival experimental. Na prática, significava sair de um concerto, dormir pouco, viajar para norte, trocar as guitarras eléctricas pela solenidade de uma sala de audiências e regressar depois a Lisboa, porque nesse mesmo dia começava o NOS Alive e eu, naturalmente, tinha bilhete.

    Qualquer pessoa com uma relação minimamente saudável com o tempo teria escolhido uma coisa.

    Eu escolhi todas.

    O problema dos festivais começa, aliás, muito antes da entrada no recinto. Nasce no momento em que se compra um passe de três dias e se assume uma espécie de compromisso moral. Um bilhete para um concerto admite a desistência: estamos cansados, não vamos. Um passe introduz uma dimensão contabilística no entretenimento. Cada noite passada em casa começa a parecer um desperdício de investimento, como se a música pudesse ser amortizada e fosse necessário comparecer para assegurar a rentabilidade do activo.

    No meu caso, porém, essa contabilidade não se aplicava. Tenho uma regra: quando peço uma acreditação de jornalista para cobrir um evento, faço questão de cumprir. Nem sempre é cómodo, sobretudo quando a agenda já se encontra saturada, e menos cómodo ainda quando, depois do concerto, permanece a obrigação de escrever — não apenas para justificar a acreditação, mas porque pedir acesso em nome do jornal implica assumir o trabalho correspondente. Nem que seja para dizer mal.

    Cheguei, portanto, ao Passeio Marítimo de Algés na primeira noite já com algumas horas de utilização acima do recomendado.

    Ainda assim, Nick Cave.

    Só Nick Cave bastaria para justificar boa parte da expedição.

    Já escrevi sobre este concerto e não pretendo repeti-lo aqui, mas existe uma diferença entre assistir a um músico e assistir a alguém que toma conta de um palco, de uma plateia e, durante algum tempo, do próprio ambiente. Nick Cave não dá a sensação de estar a cumprir um alinhamento. Conduz uma cerimónia. Por vezes, uma cerimónia religiosa sem religião definida; noutras, uma sessão colectiva de exorcismo.

    A sua relação com o público não se limita àquela coreografia banal em que o cantor estende o microfone para que milhares de pessoas façam o trabalho por ele. Existe contacto, tensão, risco, uma proximidade que transforma um recinto com dezenas de milhares de pessoas num espaço que, por momentos, parece pequeno.

    Nesse primeiro dia, maravilhei-me com Nick Cave. E vi pouco mais.

    Não porque o programa fosse escasso. Pelo contrário. O NOS Alive oferecia tanta coisa que eu, entre o cansaço, a máquina fotográfica e a completa ausência de preparação, consegui realizar a proeza de passar várias horas num dos maiores festivais portugueses sem assistir de princípio a fim a quase nada além daquilo que tinha decidido, à última hora, que não podia perder.

    Nem sequer fiquei para os Twenty One Pilots. Estava exausto.

    Circulei pelo recinto, fotografei, observei pessoas, espreitei palcos, atravessei multidões e pratiquei aquela modalidade cada vez mais comum nos festivais que consiste em estar em todo o lado sem estar verdadeiramente em nenhum.

    Também não vi Dogstar, a banda de Keanu Reeves, que descobri tarde demais que dificilmente conseguiria encaixar no meu inexistente plano que incluiu, na passada quinta-feira, o ‘cercado’ do tribunal do Bolhão, a 325 quilómetros do Passeio Marítimo de Algés.

    Confesso, com tamanha azáfama nas últimas semanas, nem sequer estudei o cartaz com atenção suficiente. Fui descobrindo algumas actuações quase por acidente, como alguém que chega a uma cidade estrangeira sem guia e só depois de regressar a casa percebe que dormiu a cinquenta metros do Louvre sem o visitar.

    Esta talvez constitua uma das grandes ironias dos festivais contemporâneos. Nunca se ofereceu tanta música num espaço tão concentrado e nunca foi tão fácil sair de um festival com a sensação de não ter ouvido quase nada. A abundância, quando ultrapassa determinado ponto, começa a produzir escassez.

    O espectador dispõe de quatro, cinco ou seis possibilidades em simultâneo, consulta horários, calcula distâncias, abandona um concerto a meio para chegar ao início de outro, descobre que o segundo está cheio, regressa ao primeiro quando já terminou e, no final da noite, consegue contabilizar sete artistas vistos e talvez nenhum concerto verdadeiramente vivido. A música transforma-se numa colecção de amostras.

    Também contribui para isso a própria metamorfose dos festivais. O festival de música tornou-se uma cidade temporária de entretenimento onde a música continua a ocupar o centro, mas já não reina sozinha. Em redor dos palcos cresceu uma economia inteira da atenção: marcas, jogos, brindes, experiências, fotografias, instalações, comida, bebida e uma sucessão de estímulos destinados a impedir que alguém atravesse cinquenta metros sem encontrar qualquer coisa que reclame alguns segundos da sua existência.

    As marcas, sobretudo, descobriram nos festivais uma espécie de parque natural onde podem observar consumidores no seu habitat e aproximar-se deles sem provocar fuga.

    Já ninguém monta apenas um stand: cria-se uma “experiência”.

    Uma pessoa entra num festival para ouvir Nick Cave e, se perder a concentração, pode acabar a rodar uma roleta, a saltar diante de uma câmara, a receber um boné e a permitir que uma empresa de telecomunicações fique com uma fotografia sua a sorrir.

    Tudo isto funciona. As pessoas divertem-se. As filas demonstram que existe procura. E não encontro sequer motivo para assumir a pose do purista ofendido, até porque um festival desta dimensão precisa de financiamento e ninguém parece obrigado a participar naquelas pequenas feiras dentro da feira. Mas a acumulação contribui para uma sensação de overdose que começa a tornar-se indissociável dos grandes festivais.

    Tudo acontece ao mesmo tempo. E tudo parece imperdível. O resultado é que perdemos quase tudo.

    Na sexta-feira regressei.

    O corpo apresentava já uma opinião bastante definida sobre o assunto, mas a mente continuava a acreditar que ainda existia margem negocial.

    Sabia que nessa noite tocavam os Foo Fighters. Nunca fui um grande fã, embora reconheça a Dave Grohl uma capacidade rara para comandar multidões e uma energia que, nas minhas circunstâncias, comecei a considerar uma provocação pessoal. Enquanto ele atravessava o palco como se a idade fosse uma questão administrativa (é uns meses mais velho do que eu), comecei a avaliar cada deslocação dentro do recinto segundo critérios de custo-benefício.

    Gostaria de ter visto Skunk Anansie. Não vi.

    O segundo dia resumiu-se, no essencial, aos Foo Fighters e a uma longa deambulação pelo recinto, já com a máquina fotográfica a pesar mais do que as leis conhecidas da Física permitiriam prever.

    Pelo meio, continuava o trabalho.

    A plataforma CORPUS do PÁGINA UM não suspendeU o desenvolvimento por respeito pelo NOS Alive. Os 38 milhões de registos hospitalares não demonstravam qualquer sensibilidade especial pelo meu cansaço. Os problemas que surgiam tinham de ser resolvidos, as decisões tomadas e os detalhes afinados.

    A certa altura ocorreu-me que talvez fosse a única pessoa no Passeio Marítimo de Algés capaz de passar mentalmente de Dave Grohl para códigos de diagnóstico hospitalar no espaço de trinta segundos. Não recomendo a experiência.

    No terceiro dia acordei convencido de que alguma misteriosa capacidade regenerativa do organismo teria entretanto resolvido o problema. Não tinha resolvido.

    Ainda precisei de tratar de assuntos fora de casa, em Porto Brandão, do outro lado do Tejo, e, quando chegou a hora de regressar a Algés, começou uma negociação interior bastante séria. Florence + The Machine estava no programa. Lorde também. E venceu a vontade de esticar as reservas de energia. Ainda me deram boleia até Alcântara e lá fui de comboio.

    Ainda vi parte de Lorde. Nada de especial. Um pop bem executado, competente, mas sem a capacidade de me fazer esquecer que haveria outros palcos muito mais interessantes no recinto. Mais surpreendente, por desconhecer por completo, foi a prestação de Razy, a irradiar talento, simpatia e fotogenia, no Palco Coreto. Num festival dominado pelos grandes nomes, foi assim num dos palcos secundários que encontrei um dos concertos mais genuínos.

    Depois, veio então Florence + The Machine. Nunca tinha visto Florence Welch ao vivo e talvez o cansaço tenha aumentado o contraste entre nós. Ela parecia não tocar no chão; eu começava a desenvolver uma relação afectiva com qualquer superfície onde fosse possível apoiar o corpo.

    Gostei bastante. E para não tornar esta longa crónica ainda mais longa, sintetize-se assim. Florence possui uma presença de palco que não depende apenas da voz ou das canções. Existe uma dimensão física na actuação, uma espécie de movimento contínuo que amplia a música e cria uma relação quase coreográfica com o público. Depois de três dias a assistir à circulação incessante de milhares de pessoas entre palcos, encontrei finalmente alguém que parecia ter mais energia do que todas elas juntas.

    Ainda dei uma espreitadela, hélas, no concerto do Noiserv, de quem já falei em momento oportuno. E foi talvez através da máquina que acabei por observar melhor aquilo que, durante três dias, quase não tivera tempo para observar: o próprio festival.

    O NOS Alive pareceu-me, nesse aspecto, bastante diferente do Rock in Rio, por onde também passei há uma poucas semanas. Não tanto pela dimensão, nem sequer pelo cartaz, mas pela forma como o espaço condiciona aquilo que fazemos dentro dele.

    O Passeio Marítimo de Algés permite respirar. Pode parecer um elogio menor, mas não é. Num festival que concentra dezenas de milhares de pessoas, permitir que uma multidão não se sinta permanentemente uma multidão constitui uma qualidade rara. A amplitude do recinto dilui as concentrações, oferece zonas de circulação e permite que cada pessoa encontre, dentro de certos limites, a distância que deseja manter em relação ao espectáculo.

    Essa distância também diz muito sobre aquilo em que os festivais se transformaram. Durante décadas, a lógica de um concerto apontava para o palco. Quanto mais perto, melhor. A primeira fila representava uma conquista. O espectador avançava até onde conseguia e a proximidade física correspondia, de algum modo, a uma intensidade maior da experiência.

    Nos grandes festivais actuais, essa lógica deixou de funcionar de forma tão linear.

    Uma parte do público continua a procurar as primeiras filas, mas outra parece satisfeita a centenas de metros do palco, sentada no chão, a conversar, a comer ou a olhar ocasionalmente para os enormes ecrãs que transformam um concerto ao vivo numa espécie de transmissão televisiva a que assistimos no mesmo local onde está a acontecer.

    Não digo isto como crítica.

    Noiserv

    Pelo contrário, talvez seja uma das características mais interessantes destes espaços: cada pessoa constrói o seu próprio festival.

    O meu, por exemplo, foi feito sobretudo daquilo que não vi.

    Outro espectador, e entrando às mesmas horas, poderia ter vivido três dias por completo diferentes. Poderia não ter visto Nick Cave e considerar imperdoável que eu tivesse perdido Skunk Anansie. Poderia ter passado horas num palco secundário onde eu nunca coloquei os pés. Poderia ter ido exclusivamente pelas bandas e regressado sem saber que existiam conversas sobre livros. Ou poderia ter passado boa parte do tempo nas zonas das marcas e considerar os concertos apenas a banda sonora de uma experiência social.

    Os grandes festivais já não propõem um programa: propõem milhares de combinações possíveis de um programa.

    E esta multiplicação da escolha reproduz, de certa forma, um dos paradoxos do nosso tempo. Nunca tivemos tanto à disposição e nunca sentimos tanto que estamos a perder alguma coisa.

    A tecnologia deu-nos acesso a praticamente toda a música alguma vez gravada, mas ouvimos canções durante menos tempo. As plataformas oferecem milhares de filmes e passamos vinte minutos a escolher um. As redes sociais mostram-nos permanentemente aquilo que outras pessoas estão a fazer e deixam-nos com a suspeita de que deveríamos estar noutro lugar.

    Os festivais condensam essa ansiedade em três dias. Enquanto vemos um concerto, sabemos que estamos a perder outro.

    Enquanto esperamos pelo início de uma banda, alguém publica uma fotografia de um espectáculo extraordinário que decorre naquele preciso momento a quinhentos metros de distância. A abundância deixou de nos dar apenas liberdade. Começou também a exigir decisões permanentes.

    Talvez por isso eu tenha acabado por apreciar o facto de ter chegado ao NOS Alive sem qualquer preparação séria. E ter de lá saído vivo. A minha desorganização, que começou por ser um problema, libertou-me ao menos da obrigação de cumprir um plano. Não tinha uma lista de quinze concertos para riscar. Não precisava de correr entre palcos. Quando o cansaço apertava, andava. Quando encontrava alguma coisa interessante, parava. Quando via uma fotografia, tentava fazê-la.

    E observei pessoas.

    Muitas.

    O público pareceu-me mais jovem do que noutros festivais, certamente por influência do cartaz, mas também mais distribuído pelo espaço e menos compartimentado. Não encontrei aquela sensação de territórios fechados, nem a mesma segregação física que uma enorme zona VIP introduz no Rock in Rio.

    Confesso alguma antipatia por esta transformação dos festivais em pequenas reproduções da sociedade de classes, onde até para ouvir a mesma música se tornou necessário recordar a cada instante quem pagou mais, quem conhece alguém, quem recebeu uma pulseira e quem deve permanecer do outro lado de uma vedação.

    No NOS Alive senti menos isso.

    Não significa que todos tenham as mesmas condições, nem que o dinheiro tenha deixado de comprar conforto — seria uma descoberta sociológica de tal dimensão que mereceria outro artigo. Mas o espaço não parece organizado em função da necessidade permanente de exibir a diferença entre os que estão dentro e os que estão ainda mais dentro. Prefiro assim.

    Também a distância entre palcos reduz, em geral, a sobreposição sonora, embora tenham existido queixas, nomeadamente durante Nick Cave. Compreendo-as. Um concerto que vive tanto da intensidade como dos silêncios sofre quando outra música entra sem convite. Mas, olhando para a dimensão do recinto e para a quantidade de espectáculos simultâneos, o Passeio Marítimo de Algés parece-me um dos poucos espaços capazes de receber um evento desta escala sem transformar tudo numa gigantesca massa sonora.

    Depois, claro, existiu também comédia (não assistir a nada) e até Literatura. Ou aquilo que os festivais passaram a chamar cultura para além da música.

    A ideia até me agrada. Um festival pode e deve ser mais do que uma sucessão de bandas. Aliás, se dezenas de milhares de pessoas passam três dias no mesmo espaço, não vejo motivo para que a única actividade intelectual disponível consista em decidir entre uma cerveja e um hambúrguer.

    Mas depois convidam… Pedro Chagas Freitas para falar de literatura e o meu entusiasmo sofreu um pequeno abalo. É como convidar Quim Barreiros para o NOS Alive. Pensando melhor, a comparação é profundamente injusta para Quim Barreiros.

    Ao menos ele sabe exactamente o género que pratica. E talvez esta seja, no fundo, a questão que me ficou daqueles três dias.

    Não sei se os festivais estão melhores ou piores do que antes. Estão maiores. Não necessariamente em área ou em público, mas naquilo que pretendem abarcar.

    Querem dar música, gastronomia, cultura, convívio, experiências, marcas, tecnologia e espectáculo. Querem ocupar o dia inteiro e, se possível, uma parte substancial da noite. Querem que ninguém tenha motivo para sair e que todos encontrem alguma coisa que justifique o preço do bilhete.

    Compreendo a lógica, mas desconfio sempre de tudo aquilo que pretende dar-nos tudo. O excesso, na verdade, possui uma capacidade curiosa para destruir precisamente aquilo que prometia ampliar: a atenção.

    Talvez por isso, quando penso nos três dias do NOS Alive, não me recordo do festival como um todo. Recordo-me da minha agenda entre os dias 5 e 11 de Julho: além das ‘tarefas’ jornalísticas habituais, tive um concerto da tunisina Emel Mathlouthi (que quase me reconciliou com a EMEL), um show dos Scorpions, uma viagem ao Porto, um julgamento, três dias de NOS Alive, fotografias, trabalho em redor de uma plataforma digital de 38 milhões de registos hospitalares. E com isto retirei pelo menos uma simples conclusão que pretendo respeitar no futuro: não voltarei a organizar uma semana destas.

    Porém, lamentavelmente, conheço-me o suficiente para saber que esta promessa não vale, em rigor, nada. A agenda electrónica, essa, contudo, já está pronta. Aí cabe tudo.