Cruzo-me com eles à saída do shopping.
Ela ajeita-lhe os óculos de sol no rosto. Sorri-lhe com doçura e caminha na minha direção.
Noto-a diferente. Caminha, aos 70 anos, com uma leveza que nunca lhe conheci na juventude. O rosto, tantas vezes crispado pela inquietação, parece enfim tranquilo.
Conheço-os há uma vida. Lembro-me do namoro, do amor intenso e da forma como, muito cedo, a relação foi minada pelos ciúmes. Para ela, qualquer mulher era uma ameaça: uma colega de trabalho, uma amiga, uma vizinha, uma prima. Aos poucos, até a mãe e a irmã se tornaram elementos a afastar. Queria ser a única mulher da vida dele. Não sei se conscientemente ou não. Se o fazia com algum tipo de maldade ou por doença. O que é certo é que a obsessão a foi consumindo, ao ponto de já nem a dignidade lhe importar. Sucediam-se as discussões, os escândalos, as acusações e os pedidos de perdão, que surgiam quase em simultâneo.

Vieram depois os anos mais difíceis. O sonho de um filho, que nunca chegou e que ela acreditava poder salvar o casamento. Seguiram-se as tentativas de suicídio. Muitas. Assustadoras, ainda que rapidamente se tenha percebido tratar-se de gritos de desespero e não de vontade de morrer. A dor era autêntica, ainda que sem justificação. Nada do que ele pudesse dizer ou fazer parecia aliviar aquele sofrimento.
Familiares e amigos vaticinavam o fim do casamento. Era inevitável que ele acabasse por fugir. Nunca o fez.
Agora, tantos anos depois, encontro-os assim.
Ela vê-me, abre um sorriso, aproxima-se e dá-me dois beijinhos. Nunca antes o fizera. Pergunta-me pela família, diz-me que vieram ao cinema, despedimo-nos e seguem caminho.

Devagar, empurra a cadeira de rodas na qual ele segue, imóvel, o olhar perdido atrás dos óculos de sol que lhe ajeitara momentos antes.
Não me reconheceu. Não sei se viu o filme. Se percebeu ter estado no seu lugar preferido. Se sabe quem o levou.
Nela a serenidade de tê-lo só para si.
É, finalmente, a única mulher da vida dele.
Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

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