Categoria: Suplemento

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    Alentejo

    Paulo Vero é homem dos sete ofícios.

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  • Contos mirabólicos: parte terceira

    Contos mirabólicos: parte terceira

    101.

    O Vento

    O vento levou o chapéu de Ivan.

    Ivan correu atrás do chapéu e caiu num buraco.

    Dentro do buraco havia outro chapéu.

    Ivan pegou nele e subiu.

    Agora tinha outro chapéu, mas depois da queda nenhuma cabeça.

    102.

    O Fato

    Um homem comprou um fato tão caro que teve de começar a vender o corpo.

    103.

    O Cidadão Vasiliev

    O cidadão Vasiliev subiu à cadeira para apanhar um livro da estante.

    A estante caiu, a cadeira partiu-se, o livro, afinal, era de receitas.

    Vasiliev, desapontado, comeu o papel, mas de outro livro.

    104.

    Relatório Sobre a Queda de Um Pássaro

    Um pássaro caiu.

    Ninguém percebeu.

    Excepto um poeta, que escreveu:

    «O céu perdeu um parêntesis».

    Depois o poeta também caiu e morreu.

    Agora o chão está cheio de penas e de gramática morta. Era um péssimo poeta.

    105.

    Um Homem Calado

    Durante quarenta e três anos, o homem nada disse.

    No fim, abriu a boca.

    Saiu uma mosca.

    Morreu de imediato, aliviado.

    106.

    O Homem que Desapareceu aos Poucos

    Primeiro foram os dedos, depois as mãos, os braços, o rosto.

    Aos poucos, foi-se apagando.

    Quando já só restava uma orelha, alguém perguntou:

    — Isso dói?

    A orelha respondeu:

    — Depende da memória do que se foi.

    107.

    Três Cadeiras

    Três cadeiras discutiam sobre metafísica.

    A primeira dizia que tudo era vazio.

    A segunda dizia que o universo era cheio de cadeiras.

    A terceira partiu uma perna e começou a chorar.

    Nunca mais ninguém se sentou nelas.

    Passaram a ser consideradas esculturas modernas.

    108.

    O Homem Que Esperava a Primavera

    Ficou parado desde Setembro, com uma flor de plástico na mão.

    Veio o Outono, o Inverno, uma guerra curta e um concerto de flauta.

    Na Primavera, já ninguém se lembrava dele.

    Excepto pela flor de plástico, que continuava na sua mão.

    109.

    O Rato

    Um rato tocou à campainha

    O senhor Abramov abriu a porta e viu o rato.

    — Que é que quer? — perguntou.

    — Só confirmar que existo — disse o rato.

    E desapareceu em pleno ar.

    110.

    Andar em Linha Recta

    Saiu de casa e começou a andar em linha recta.

    Passou por muitos edifícios, por um rio, por um casamento, por um incêndio, por um funeral.

    Nunca olhou para trás.

    Ao chegar ao fim do Mundo, bateu com a testa no muro que separa o fim do Mundo de coisa nenhuma e caiu.

    Ficou ali, prostrado, sem saber se era chegada ou regresso.

    111.

    A Sopa

    O senhor Pável enfiou a cabeça na sopa.

    Não por raiva. Nem tristeza. Apenas curiosidade.

    Ao tirar a cabeça, trazia uma expressão nova.

    — Está boa? — perguntou a esposa.

    Ele respondeu em linguagem vegetal.

    112.

    O Bebé Que Sabia Demais

    Nasceu, olhou à sua volta e disse:

    — Isto não vai correr bem.

    Recusou-se a chorar.

    Recusou-se a crescer.

    Foi doado a um orfanato.

    Lá, todas as crianças eram sábias e dormiam em silêncio absoluto.

    113.

    O Desaparecimento

    Primeiro, desapareceu a mulher de chapéu verde.

    Depois, o homem com o bigode torto.

    Depois, ainda, o carteiro, o gato, o padre.

    No fim, só restava a estátua no meio da praça.

    Ninguém sabia o que viria depois porque já não restava ninguém.

    114.

    A Discussão

    — Tu és um peixe! — gritou ela.

    — Não, sou um piano! — gritou ele.

    Deram as mãos e foram ao teatro.

    Lá, ninguém percebeu que tiveram aquela discussão, o que foi um alívio para o casal.

    115.

    O Gato Que Se Achava Um Cacto

    Ficava parado. Muito parado.

    Ninguém tentou regá-lo. Ele mordeu.

    Ninguém tentou podá-lo. Ele arranhou.

    Alguém tentou acariciá-lo. Ele morreu.

    Era um gato muito sério nas suas convicções.

    116.

    Um Homem Chamado Nada

    Nada acordou, tomou café, saiu à rua.

    Cumprimentaram-no com indiferença.

    Trabalhou em coisa nenhuma.

    Foi despedido por excesso de ausência.

    Voltou para casa e escreveu: «Hoje fui tudo».

    E depois apagou-se lentamente da realidade.

    117.

    A Mulher Que Morreu Três Vezes

    Morreu, pela primeira vez, na Segunda-Feira.

    Na Terça, esqueceu-se da morte e foi às compras.

    Na Quarta, morreu de novo, não se sabe de quê.

    Na Sexta, caiu da cadeira e decidiu que bastava.

    Quis, então, definitiva morte.

    118.

    O Cão Que Citava Nietzsche

    O cão disse: «Deus está morto».

    O dono perguntou-lhe: «Quem te ensinou a falar?»

    O cão respondeu: «O sofrimento».

    Depois, mordeu o dono e fugiu para um mosteiro.

    119.

    O Futuro

    A criança disse: «Vais cair».

    O pai caiu.

    Disse: «Vais perder o comboio».

    A mãe perdeu o comboio.

    Depois disse: «Vou desaparecer».

    120.

    A Vaca que Sabia Ler

    Uma vaca leu Dostoiévski e começou a mugir com entonações dramáticas.

    O fazendeiro, sensibilizado, começou a escrever peças.

    A vaca não gostou do primeiro acto e chutou o cenário.

    Desde então, pasta em silêncio.

    121.

    A Mulher que Caiu Três Vezes

    Uma mulher escorregou e caiu.

    Levantou-se, caiu de novo.

    Na terceira vez, decidiu ficar no chão e abrir um salão de chá.

    Foi um sucesso entre os que tropeçavam.

    122.

    Os Óculos de Ivanov

    Ivanov perdeu os óculos.

    Comprou uns novos.

    Agora via tudo a dobrar.

    Então, vazou um dos olhos, para equilibrar.

    123.

    O Senhor do Chapéu Azul

    O senhor do chapéu azul subiu numa cadeira para tirar um livro da estante.

    A estante caiu.

    A estante caiu porque a cadeira partiu-se.

    O livro era sobre como evitar acidentes domésticos.

    O chapéu azul ficou intacto.

    Ele, o homem, é que morreu com a queda.

    124.

    A Mulher que Gostava de Gritar

    Todas as manhãs, às sete e quinze, a mulher da porta sete gritava: “Abacaxi!”

    O porteiro perguntou-lhe, “Por quê?”

    Ela disse: “Porque sim”.

    Na manhã seguinte, ela gritou: “Porque sim!”

    E nunca mais gritou “Abacaxi!”

    125.

    O Menino que Só Dizia Não

    Deram-lhe pão — ele disse “não”.

    Deram-lhe sopa — ele disse “não”.

    Deram-lhe uma vaca — ele disse “não”.

    Deram-lhe o Mundo inteiro.

    Engasgou-se.

    126.

    Sobre Ivan Ivánovitch

    Ivan Ivánovitch saiu de casa para comprar pregos, mas esqueceu-se da razão a meio do caminho.

    Ficou parado na calçada durante três dias, à chuva, ao frio e ao Sol.

    No quarto dia, um carteiro entregou-lhe um envelope vazio.

    Ivan sorriu, comeu o envelope e voltou para casa satisfeito.

    Nunca mais falou em pregos.

    127.

    A Mulher Que Se Dobrou em Quatro

    Ninguém sabe por que ela se dobrou em quatro.

    Ela apenas disse: “É mais prático”.

    Andava, assim, pela rua, com os pés ao lado da cabeça.

    Um homem ofereceu ajuda.

    Ela recusou.

    O homem, então, dobrou-se em cinco e desmaiou de exaustão.

    128.

    Um Homem com Um Nariz Muito Longo

    O nariz de Piotr Piotróvitch era tão longo que a ponta morava dois minutos no futuro.

    Ele espirrava antes de sentir vontade de espirrar.

    Ninguém conseguia conversar com o seu nariz, porque o nariz já sabia o fim da frase.

    Um dia, o nariz foi-se embora.

    Agora, Piotr, profundamente entediado, vive apenas no presente.

    129.

    A Janela

    A primeira pessoa caiu por acidente.

    A segunda caiu a tentar salvar a primeira.

    A terceira caiu porque achou que era obrigatório.

    A janela permaneceu aberta.

    A quarta pessoa fechou a janela e foi tomar chá.

    O chá, entretanto, tinha arrefecido.

    130.

    A Mosca e o Bispo

    Uma mosca pousou no ombro do bispo durante o sermão.

    O bispo pregava sobre a paciência.

    A mosca passeou-se pelo pescoço, depois entrou-lhe na orelha.

    O bispo arrancou a batina e fugiu a correr, gritando sobre o fim dos tempos.

    A mosca permaneceu calma, observando tudo.

    131.

    A Sopa de Semion Semiónovitch

    Semion Semiónovitch preparou a sopa.

    Ao prová-la, disse:

    — Hum. Sabe a Terça-Feira.

    Era Domingo.

    Atirou tudo pela janela.

    A sopa caiu sobre uma criança.

    A criança cresceu e tornou-se filósofo.

    132.

    O Homem que Sabia Voar

    Disse:

    — Sei voar.

    Subiu numa cadeira.

    Saltou.

    Não voou. Caiu no chão com estrépito.

    Mas, o gesto foi tão convincente que todos o aplaudiram.

    Assim, apesar de ter morrido com a queda, morreu ovacionado.

    133.

    Petrov

    Petrov levantou-se, vestiu um casaco, saiu de casa, escorregou no gelo, caiu, partiu a perna, ficou deitado no chão durante três horas, foi levado ao hospital, recebeu alta no mesmo dia e, ao chegar a casa, percebeu que havia esquecido o pão. Chorou durante três dias, depois esqueceu por que estava chorando. Agora colecciona garfos.

    134.

    O Cisne

    Maria Ivanovna decidiu bordar um cisne. No processo, ela própria transformou-se num cisne. Ninguém achou estranho. O carteiro até disse: «É comum, em Março».

    135.

    O Bigode

    Um homem com um bigode falso entrou no comboio e gritou «Devolvam-me o gato!» e saltou pela janela.

    Ninguém se mexeu.

    O comboio estava parado havia cinco dias.

    Não havia sequer carris.

    136.

    Conversas

    Três senhoras sentaram-se num banco para falar mal de uma quarta.

    A quarta estava atrás do banco, a ouvir tudo.

    Riu tanto dos boatos que se transformou em fumo.

    As outras três disseram: «Sempre foi volátil».

    137.

    A Cadeira

    Um homem caiu da cadeira e nunca mais se quis levantar.

    Chamaram o médico.

    O médico caiu na escada e também ficou no chão.

    Chegou o carteiro. Olhou os dois e deitou-se ao lado.

    No dia seguinte, os três foram levados pelo vento.

    A cadeira permaneceu no mesmo lugar.

    138.

    O Relógio

    Às 9h12, Fiódor morreu.

    Às 9h13, o seu relógio parou.

    Às 9h14, o relógio explodiu.

    Às 9h15, Fiódor pediu um café.

    Mas o café já veio frio.

    139.

    O Homem Invisível

    O Homem Invisível entrou no teatro, comprou um bilhete e sentou-se na cadeira 6.

    No meio do espetáculo, tossiu.

    Foi expulso por má conduta e por não poder ser visto.

    Voltou no dia seguinte com um bigode.

    Foi premiado pela originalidade com uma grande festa em sua homenagem que durou até de madrugada.

    140.

    Ao Jantar

    Nikolai trouxe a sopa, mas esqueceu-se dos talheres.

    Então bebeu a sopa com as mãos.

    No fim, descobriu que a sopa era tinta azul.

    Desde então, escreve apenas com os dedos.

    141.

    Em Silêncio

    Um senhor ficou em silêncio durante 82 anos.

    No seu aniversário, disse:

    — Não era isso.

    Morreu imediatamente.

    Os convidados aplaudiram com moderação.

    142.

    As Pernas

    O homem com três pernas caminhava normalmente.

    O problema era a quarta.

    Era discreta, quase ninguém a via, mas ele tropeçava nela.

    Chamaram um médico.

    O médico disse:

    143.

    O Grito

    Alguém gritou na rua.

    Todos olharam pela janela.

    Não havia ninguém.

    Então, todos começaram a gritar também.

    Por precaução.

    144.

    O Professor de Geometria

    O Professor de Geometria decidiu desaparecer.

    Escolheu um ponto euclidiano e desapareceu nele.

    No lugar dele, ficou apenas um ângulo.

    Agudo. E desconfortável.

    145.

    O Homem no Telhado

    Um homem subiu ao telhado para procurar o sentido da vida.

    Encontrou uma meia.

    Desceu.

    Passou a usar a meia na cabeça.

    Não se falou mais nisso.

    146.

    O Martelo

    Um martelo caiu do céu.

    Ninguém percebeu porquê.

    Uma velha apontou para cima e disse:

    — Está a começar.

    Mas não explicou o quê.

    Depois caiu um segundo martelo.

    O segundo martelo era ainda maior que o primeiro.

    147.

    O Buraco

    O cozinheiro abriu um buraco no chão da cozinha.

    Não por necessidade, mas por tédio.

    Dentro havia outra cozinha.

    Com outro cozinheiro.

    Os dois olharam-se.

    Riram.

    Depois, nunca mais se falaram.

    148.

    A Vaca de Papel

    Uma vaca de papel apareceu na sala.

    Ninguém sabia quem a tinha desenhado.

    Ela mugia, mas sem som.

    Com o tempo, a família aceitou-a.

    Deram-lhe um nome: Tatiana.

    No Inverno, ela incendiou-se espontaneamente.

    Todos disseram:

    — Já era hora.

    149.

    A Mulher Transparente

    Ela era quase completamente invisível.

    Mas fazia questão de usar chapéu.

    — É uma questão de dignidade — dizia.

    Foi atropelada por um pianista distraído.

    Ninguém reparou.

    150.

    O Gato

    Havia um gato que sabia latim, mas só o usava para insultar.

    Chamou o padre de asinus sanctus e foi excomungado.

    Desde então, mia com sotaque clássico.

    João Pereira de Matos é escritor e investigador no CHAM – Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa.

  • O pequeno escroque

    O pequeno escroque

    Se quiseres ser mau, sê mau a sério

    Como os mauzões das notícias

    Com a morte ainda latejante, a escorrer pelos beiços

    As mãos pintadas de sangue

    De uma revolta que finalmente gritou

    nuns olhos vidrados de ódio.

    Isso é ser mau. Muito mau. Se não és assim, porquê sê-lo?

    Porquê fingi-lo?

    Quando há um caminho que não é o teu?

    Talvez haja o caminho do pequeno furto

    da primeira tortura, do primeiro sangue

    do doce prazer, na leveza estranha, de uma violação sonhada

    Mas tu não és assim.

    Tu não passas de um pequeno patife

    Armado de um poder singular, diminuto

    Ampliado por mil, na fraqueza do outro

    Na chantagem mais fácil da autoridade outorgada

    No vício do sorriso da ordem cumprida gasta

    Um actor, num monólogo de um teatro mudo.

    Tu não passas de um pequeno bandido

    Um ator, num monólogo de um teatro mudo

    Um bandidozeco, que se pudesse

    às escondidas, me roubaria os trocos do bolso

    Mais valia seres mau a sério

    Roubares-me o meu Amor

    Roubares-me a vida toda

    Mais valia deixares uma pegada na história, ainda que terrível

    Um legado! Por sanguinário que fosse!

    Para impressionares numa alcova uma mulher, ou uma ⟦adolescente

    Ao invés, serás esquecido e,

    na improbabilidade de alguém se lembrar de ti,

    mais desprezado, do que o mau a sério.

    Mas ainda bem que não és o mau a sério

    E não passas de um pequeno patife, um pequeno escroque

    Com um sorriso nos lábios, sempre que faz uma malandrice

    E esse, será de facto, provavelmente, o teu maior feito.

    ***

    Luís Serra Santos é poeta lisboeta e pugilista nos tempos livres.

  • Biblioteca do PÁGINA UM: mar, sol e livros

    Biblioteca do PÁGINA UM: mar, sol e livros

    Durante o último mês, a Biblioteca do PÁGINA UM recebeu um novo conjunto de obras que atravessa o jornalismo, a ficção policial, o teatro, a memória histórica e a literatura. Entre as novas entradas encontram-se títulos de Jaime Lourenço, Fernando Pessoa, Manuel Geraldo, Orlando da Costa, Richard Demarcy, Teresa Mota, Somerset Maugham, Claire Lynch, E. M. Forster e Claire Messud.

    As obras agora incorporadas levam-nos do Parlamento português à Nova Iorque do início do século XXI, passando pela Guerra Colonial e pela Revolução de Abril, pela relação de Fernando Pessoa com a ficção policial e por histórias onde se cruzam amor, família, amizade, desejo, identidade e ambição. Entre ensaio, dramaturgia e romance, são oito livros que percorrem a memória colectiva e a experiência individual, interrogando aquilo que fomos, aquilo que desejamos ser e as escolhas que fazemos pelo caminho.

    Sobre a Ficção Policial, de Fernando Pessoa, reúne textos que revelam uma dimensão menos conhecida do escritor: o seu prolongado interesse pela literatura policial, não apenas enquanto autor de contos e novelas do género, mas também enquanto leitor e pensador das suas regras e possibilidades. O volume recupera, entre outros materiais, o projecto de um ambicioso ensaio sobre literatura policial que Pessoa começou a desenvolver ainda jovem e deixou inacabado.

    Os textos permitem acompanhar também o Pessoa leitor, sobretudo nos últimos anos de vida, quando os romances policiais se tornaram presença assídua nas suas leituras. Essa relação com o género ajuda ainda a iluminar episódios da sua biografia, entre os quais o primeiro e único encontro com José Régio, em Junho de 1930.

    Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, em 1888. Depois de passar parte da infância e juventude na África do Sul, regressou definitivamente a Portugal em 1905. Poeta, ensaísta e crítico, foi uma das figuras centrais do Modernismo português, participou na criação da revista Orpheu e deu existência literária, entre outros, aos heterónimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis e ao semi-heterónimo Bernardo Soares. Morreu em Lisboa, em 1935, deixando milhares de textos inéditos.

    Com edição e tradução de Gianluca Miraglia, prefácio de Alberto Manguel e publicado pela Tinta da China, Sobre a Ficção Policial chega à biblioteca do PÁGINA UM como uma oportunidade para descobrir Fernando Pessoa num território menos conhecido da sua obra e acompanhar a persistente relação do escritor com o mistério, a investigação e a literatura policial.

    Jornalismo Parlamentar — 50 anos de uma especialidade jornalística, com coordenação de Jaime Lourenço, percorre cinco décadas da relação entre o jornalismo e o Parlamento português, articulando a história desta especialidade com uma reflexão sobre os desafios presentes e futuros da imprensa. Ao longo de diferentes contributos, o livro revisita o trabalho dos jornalistas que acompanharam a vida parlamentar e o papel desempenhado pela comunicação social na transparência da democracia portuguesa.

    A obra reúne textos de Jaime Lourenço, Álvaro Costa Matos, André Catita, Carla Martins, Filipe Resende, Gustavo Cardoso, Hélder Prior, Hugo Ferrinho Lopes, Joana Reis, João Ferreira Oliveira, João Morais do Carmo, José Santana Pereira, Leonor Pires, Paula Espírito Santo, Paula Lopes, Pedro Marques Gomes, Raquel Laurentino, Sandra Antunes, Sofia Ferro-Santos, Susana Rogeiro Nina, Susana Barros, Tiago Durães, Vasco Ribeiro e Vinicius Albernaz. O prefácio é de José Pedro Aguiar-Branco.

    Jaime Lourenço é doutorado em Ciências da Comunicação pelo Iscte — Instituto Universitário de Lisboa, mestre em Jornalismo e licenciado em Relações Públicas e Comunicação Empresarial pela Escola Superior de Comunicação Social. Professor auxiliar na Universidade Autónoma de Lisboa, onde coordena a Licenciatura em Ciências da Comunicação, desenvolve investigação centrada nas especialidades e práticas jornalísticas. É também director da revista Autónoma e colaborador do jornal Reconquista, tendo passado profissionalmente pela RTP, TVI e Warner Bros. Television Production, entre outros meios.

    Publicado pela Tinta da China, Jornalismo Parlamentar — 50 anos de uma especialidade jornalística chega à biblioteca do PÁGINA UM como uma obra dedicada à história de quem acompanha, observa e relata a actividade parlamentar, recuperando cinco décadas de jornalismo estreitamente ligadas aos cinquenta anos da democracia portuguesa.

    Em Bizango de Bizangongo | A Como Estão os Cravos Hoje?, de Manuel Geraldo e Orlando da Costa, reúne duas peças marcadas pela Guerra Colonial e pelas transformações políticas e sociais desencadeadas pela Revolução de Abril.

    Em Bizango de Bizangongo, o descontentamento das tropas deslocadas para os conflitos do Ultramar, o cansaço da guerra e o desejo de regressar a casa surgem através de diálogos construídos como um grande coro. A peça interroga também as mudanças promovidas pela Revolução, a demora em fazê-las chegar à população e as condições que haviam levado tantos jovens à guerra. A Como Estão os Cravos Hoje?, construída a partir da experiência do autor e de relatos de soldados, assume-se como peça e manifesto antibelicista, questionando as condições vividas no campo de combate e a erosão dos valores conquistados com a Revolução.

    Manuel Geraldo (1943-2006) iniciou o seu percurso como jornalista no Diário de Lisboa, onde trabalhou durante 17 anos. Depois de ter cumprido o serviço militar em Angola, desenvolveu uma obra em que a Guerra Colonial e o universo jurídico-policial constituem linhas recorrentes, distribuídas pela ficção, pelo relato e pelo teatro.

    Orlando da Costa (1929-2006), escritor de origem goesa, desenvolveu uma obra entre a poesia, a ficção e o teatro. Opositor ao Estado Novo, foi detido por três vezes e algumas das suas peças foram atingidas pela censura. Autor de O Signo da Ira e Podem Chamar-me Eurídice, foi distinguido, em 2005, como Comendador da Ordem da Liberdade.

    Publicado pela Tinta da China, na colecção Liberdade! Liberdade!, coordenada por Tiago Bartolomeu Costa, Em Bizango de Bizangongo | A Como Estão os Cravos Hoje? chega à biblioteca do PÁGINA UM recuperando duas obras dramatúrgicas sobre a guerra, o fim da ditadura e as expectativas e interrogações abertas pelo 25 de Abril.

    Fábulas Teatrais sobre a Revolução Portuguesa, de Richard Demarcy e Teresa Mota, reúne quatro textos — A Noite do 28 de Setembro, A História de Quatro Soldados, As Vacas de Cujancas e Barracas, Ocupação — que transformam acontecimentos da história portuguesa em matéria de teatro de intervenção social e política.

    Construídas como peças corais, as obras colocam em cena figuras representativas de diferentes grupos e forças sociais — o camponês, o burguês, o poder ou o clero — e fazem da dramaturgia um espaço de preservação da memória das lutas e das formas de resistência. Pensadas para lugares de grande reunião, aproximam o teatro da intervenção popular e da reflexão colectiva sobre o Portugal revolucionário.

    Richard Demarcy (1942-2018) foi dramaturgo, encenador e sociólogo francês. Fundou com Teresa Mota o Naïf Théâtre, em 1972, e manteve uma estreita ligação ao Portugal revolucionário, nomeadamente através da proximidade aos colectivos A Comuna e CENDREV. A dimensão política e narrativa marcou igualmente o seu trabalho como autor e encenador.

    Teresa Mota (1940-2022) foi actriz, encenadora, directora de companhia e professora. Integrou a Companhia Rey Colaço–Robles Monteiro e tornou-se um rosto reconhecido do teatro, da televisão e do cinema portugueses. Depois do encontro com Richard Demarcy, mudou-se para Paris, onde prosseguiu a actividade teatral e se tornou professora de Língua e Teatro na Sorbonne.

    Publicado pela Tinta da China, na colecção Liberdade! Liberdade!, coordenada por Tiago Bartolomeu Costa, Fábulas Teatrais sobre a Revolução Portuguesa chega à biblioteca do PÁGINA UM recuperando um teatro que fez dos acontecimentos revolucionários matéria de criação artística, intervenção política e memória colectiva.

    Servidão Humana, de William Somerset Maugham, acompanha Philip Carey desde uma infância marcada pela orfandade e por uma limitação física até à procura de um lugar no mundo. Criado pelos tios na rigidez de uma casa paroquial inglesa, Philip atravessa o colégio interno, as academias de arte de Paris e os hospitais de Londres enquanto procura romper o isolamento que o acompanha desde criança.

    No centro desse percurso encontra-se Mildred, uma mulher que Philip não consegue deixar de amar apesar de reconhecer que essa relação o destrói. Através desta ligação e das sucessivas tentativas da personagem para definir a própria existência, o romance explora a distância entre aquilo que desejamos ser e aquilo que somos, entre aquilo que sabemos e as escolhas que, ainda assim, fazemos.

    William Somerset Maugham nasceu em Paris, em 1874, filho de pais ingleses, e tornou-se um dos mais célebres dramaturgos e romancistas do seu tempo. Órfão antes dos dez anos, foi enviado para Inglaterra e mais tarde estudou na Alemanha. Escritor prolífico, publicou romances, contos e peças de teatro e viajou pela Índia e pelo Sudeste Asiático. Entre as suas obras mais conhecidas encontram-se Servidão Humana, O Fio da Navalha e A Carta. Morreu no Sul de França, em 1965.

    Publicado pela Escolha Editora, Servidão Humana chega à biblioteca do PÁGINA UM como um dos romances mais emblemáticos de Somerset Maugham, uma obra sobre as formas nem sempre visíveis de dependência e sobre a difícil conquista da liberdade individual.

    Assunto de Família, de Claire Lynch, desenvolve-se entre dois tempos separados por quarenta anos. Em 2022, Heron recebe um diagnóstico médico que o obriga a confrontar-se com a necessidade de contar à filha, Maggie, não apenas aquilo que acaba de saber, mas também segredos que guardou durante décadas.

    Em 1982, Dawn é uma jovem mãe ainda a adaptar-se ao casamento e à maternidade quando Hazel entra na sua vida. A ligação entre as duas é imediata e transforma uma existência até então delimitada pelas responsabilidades e convenções. Mas Dawn tem uma filha, Maggie, e escolhas cujas consequências atravessarão os anos. Ao aproximar as duas linhas temporais, o romance constrói uma história em torno do amor, da família, dos segredos e das marcas deixadas pelas decisões do passado.

    Claire Lynch é doutorada pela Universidade de Oxford e professora de Inglês e Escrita Criativa. Autora de vários livros académicos e artigos científicos, publicou também textos de não-ficção em meios como LitHub e The Washington Post e na BBC Radio. Assunto de Família é o seu primeiro romance. Vive em Windsor com a mulher e as três filhas.

    Publicado pela Escolha Editora, Assunto de Família chega à biblioteca do PÁGINA UM como um romance sobre aquilo que uma família guarda, aquilo que escolhe revelar e a forma como os segredos e as decisões de uma geração se prolongam na vida das seguintes.

    Maurice, de E. M. Forster, acompanha Maurice Hall desde a adolescência e os anos de universidade, em Cambridge, até à vida profissional, num percurso exteriormente conforme ao que se espera de um homem inglês da sua condição social. Por baixo dessa aparência de normalidade, porém, Maurice procura uma forma de viver de acordo com a sua identidade e de se libertar das regras impostas pela sociedade.

    Em Cambridge, conhece Clive Durham, que o aproxima dos autores gregos e da possibilidade de pensar o amor entre homens. Para Clive, a relação entre ambos deve permanecer idealizada e platónica. Quando este casa com uma mulher, Maurice confronta-se com a impossibilidade de seguir o mesmo caminho e chega a procurar um hipnotista que o possa «curar» da homossexualidade. O romance acompanha esse confronto entre convenção, vergonha, solidão e procura da felicidade.

    E. M. Forster (1879-1970) é sobretudo reconhecido por obras como Um Quarto com Vista, Howards End e Passagem para a Índia. Estudou no King’s College e esteve ligado ao Grupo de Bloomsbury. Pacifista e objector de consciência durante a Primeira Guerra Mundial, fez serviço cívico na Cruz Vermelha e destacou-se também pelas suas intervenções públicas em defesa das reformas sociais e da liberdade de expressão. Maurice, romance centrado no amor entre homens, seria publicado apenas postumamente, em 1971.

    Publicado pela Escolha Editora, Maurice chega à biblioteca do PÁGINA UM recuperando um romance escrito contra as convenções do seu tempo, no qual a procura da identidade, do amor e da liberdade individual confronta directamente as regras da sociedade britânica do início do século XX.

    Os Filhos do Imperador, de Claire Messud, acompanha Marina, Danielle e Julius, três amigos unidos desde os tempos da universidade que, no início de 2001, vivem em Nova Iorque e se aproximam dos trinta anos. Tinham acreditado que deixariam a sua marca no mundo, mas a entrada definitiva na idade adulta confronta-os com a distância entre as ambições da juventude e as vidas que efectivamente construíram.

    Danielle trabalha como produtora de televisão e sente o talento desperdiçado em reportagens banais; Julius, crítico freelance, sobrevive graças ao charme, à inteligência e a sucessivos expedientes; e Marina, filha do conhecido jornalista e ensaísta Murray Thwaite, continua a viver em casa dos pais enquanto tenta terminar o livro que deveria afirmar o seu talento. A chegada do editor australiano Ludovic Seeley e do jovem autodidacta Bootie vem perturbar o equilíbrio entre as personagens e alterar o rumo das suas vidas.

    Com Nova Iorque como cenário e os acontecimentos de 2001 a aproximarem-se, o romance observa uma geração obrigada a confrontar as suas expectativas com a realidade, cruzando amizade, ambição, privilégio, desilusão e as concessões que acompanham a passagem para a idade adulta.

    Claire Messud é autora de ficção e não-ficção e membro da Academia Americana de Artes e Letras e da Academia Americana de Artes e Ciências. Foi distinguida com bolsas Guggenheim e Radcliffe e com o Strauss Living Award. O seu romance mais recente, Esta Estranha e Acidentada História, foi nomeado para o Giller Prize e para o Booker Prize. Vive em Cambridge, Massachusetts, com a família.

    Publicado pela Escolha Editora, Os Filhos do Imperador chega à biblioteca do PÁGINA UM como um romance sobre uma geração que acreditou ter o futuro diante de si e começa a descobrir a distância que pode existir entre aquilo que imaginamos para a nossa vida e aquilo em que ela acaba por se transformar.

  • Teorias do céu I

    Teorias do céu I

    Pensai na Noite Estrelada de Vincent Van Gogh (pintada em 1889, presente no Museu de Arte Moderna em Nova Iorque) e dizei-me: o que vedes? O céu domina a tela com os seus azuis em torvelinho – imitará o vento, a brisa? Porém, as árvores não se movem, o cipreste mantém-se altivo e quieto – ou, pelo menos, os seus verdes mantêm-se serenos. Serão aqueles azuis o reflexo de algo mais profundo, que só o imo do artista conseguiria decifrar?

    Vincent van Gogh, Noite Estrelada, 1889, Museum of Modern Art, Nova Iorque, Estados Unidos da América.

    Desde tempos ignotos que os seres humanos observam e contemplam o céu e os seus astros, pressupondo significados ocultos nas manifestações atmosféricas e nos mapas das constelações, e admirando a cor dos crepúsculos. Platão serve-se do céu para exemplificar o mundo superior das ideias, ao passo que Aristóteles se distancia do céu e privilegia a perspectiva humana e individual das representações miméticas. Lembre-se que o idealismo platónico foi central na cultura e no pensamento científico até ao século XVII. Immanuel Kant, nos séculos XVIII e XIX, o filósofo da crítica da razão pura e da razão prática, conclui que a reflexão, nos seres humanos, é dirigida não só à compreensão do céu e do universo, como à própria substância moral que anima o espírito. Depois, no Romantismo, o céu torna-se mistério e infinitude. Porém, o céu adoptara outra função, revestida de uma camada arquetípica comum em contextos culturais distintos: é a morada do divino, do sagrado, do místico e do mítico.

    Que é o céu? Sabemos, mediante uma rápida pesquisa na Internet e nos livros, que o céu é esse imenso e ilimitado espaço “muito além do nosso mundo”, diz-nos o Dicionário Aulete. Portanto, o céu é algo que não nos pertence, está além: nós, seres humanos, habitamos na terra, o chão é o nosso domínio, embora passemos o tempo olhando acima das nossas cabeças. Olhar o céu em contemplação, oração ou interrogação, olhar o céu como espaço infinito onde os nossos pensamentos se perdem ou reencontram, olhar o céu para adivinhar que tempo fará – desde sempre os seres humanos observam o céu e se guiam por ele. Em inglês, alemão, neerlandês, como noutros idiomas, existem palavras distintas para designar o céu, esse ilimitado espaço, e o céu, morada do divino. Essa distinção não existe em português ou espanhol a não ser mediante a sinalização de maiúscula inicial. O Céu é diferente do céu. No Dicionário de Símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, apontam-se várias vias de análise do céu, sendo que a primeira logo se associa à crença num ser divino superior, criador do universo, fonte de fecundidade da terra.

    John Constable, Tempestade sobre o Mar, c. 1824–1828, Royal Academy of Arts, Londres, Reino Unido.

    Lemos no terceiro capítulo d’ O Quarto de Jacob, de Virginia Woolf “Dizem que o céu é o mesmo em toda a parte.” Logo a seguir, contrapõe, perguntando se o céu que se abate sobre Cambridge não brilhará de forma distinta daquele outro céu sobre os exilados, náufragos e moribundos que procuram consolo para tanta inquietação sobre a efemeridade da vida. Também em Guerra e Paz de Lev Tolstói, há um momento de contemplação do céu de Andrei Bolkonski na Batalha de Austerlitz. Caído e ferido, porém, de olhos bem abertos para o céu sobre ele, questiona-se sobre a trivialidade das ambições dos homens e da sua pequenez enquanto observa o céu, na sua calma infinitude, pacífica, em nada correspondente ao conflito. Tudo lhe parecia pequeno sob aquele imenso céu, e as vontades dos homens insignificantes.

    Na pintura, o céu diz-nos tudo o que há para dizer. Apraz-me pensar que é no céu que se encontra a chave para decifrar emocionalmente uma obra pictórica. Na pintura do Romantismo – lembremos J. M. W. Turner e Caspar David Friedrich, os mais conhecidos, um do Romantismo inglês, o segundo do alemão –, o céu é o espaço onde se plasma a tempestuosidade ou a tranquilidade da alma, se idealiza sobre a infinitude do espaço e a imaterialidade do tempo, ou se contempla o imo e o mundo. O azul, uma das muitas cores com que se pinta o céu, era, para J. W. Goethe, pura energia. Em directa oposição ao amarelo, pura luz, o azul era sombrio, reflexo do nada absoluto. Quando pinta de azul a jaqueta de Werther (na obra Os Sofrimentos do Jovem Werther, de 1774, lançando uma moda febril entre os jovens cavalheiros na segunda metade do século XVIII), lança o azul romântico, o mesmo azul da pequena flor azul do poeta Novalis, cor da melancolia, da paixão e do sonho. Michel Pastoreau, no seu livrinho sobre o azul, conta-nos, entre outras maravilhas, como a mercantilização desta cor explica, em certa medida, a evolução da pintura. Dispendiosa e nem sempre acessível, é no século XIX que se torna mais popular graças à criação de pigmentos sintécticos, o que nos conduz aos azuis imersivos do Impressionismo, Pós-Impressionismo e do Expressionismo.

    Caspar David Friedrich, Monge à Beira-Mar, 1808-1810, Alte Nationalgalerie, Berlim, Alemanha.

    Decénios mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, Wassily Kandinsky pinta o supremo Bleu de ciel, em 1940 (exibido no Centre Pompidou em Paris), povoado de criaturas fantásticas num bestiário imaginário sobre um fundo azul-celeste. Azul era a cor preferida de Kandinsky (e de Yves Klein, tendo baptizado um novo tom de azul), tanto que, na sua obra Do Espiritual na Arte, relaciona o azul com a espiritualidade e o divino, o celestial.

    Penso em todas estas coisas enquanto escrevo, olhando, por vezes, pela janela, para o céu. Também as casas com janelas foram, durante muito tempo, um privilégio, conta-nos Bill Bryson na sua obra Em Casa. Em Inglaterra, França e também em Portugal, chegou a existir um imposto sobre janelas, abolido no século XIX. Olhar o céu, enfim – respirar os inúmeros tons de azul, rosa, púrpura, laranja, amarelo, ou de quantas cores se faz o céu – eis um hábito a que devíamos recorrer mais vezes. Para pensar melhor, sonhar melhor, viver melhor.

    Muito haveria a dizer sobre o céu (e sobre o azul), mas não me alongarei mais. Revisitarei este tema em breve, trazendo outros ângulos e recortes deste caleidoscópio.

    Eduarda Gil Barata é poetisa e doutorada em Estudos Literários Comparados pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

  • Milhares

    Milhares

    Hoje fui ao banco fazer os depósitos da empresa. Não tenho um tostão, mas carrego os milhares dos outros. Não gosto de carregar os milhares dos outros. Tanto podem ser milhares de euros, como milhares de micróbios, ou até mesmo milhares de bit-culpas.

    Quem é que sabe? Pois.

    É que sempre que levo aquele envelope no bolso começo a agir como suspeita.

    Suspeita, sim. Meto a mão no bolso, olho por cima dos ombros, e ponho-me a andar de forma apressada como quem foge ao fisco. Não gosto. Não gosto mesmo nada de carregar os milhares dos outros. Sinto que a qualquer momento um mendigo me pode fazer uma placagem. Sabem, como no futebol americano. Se calhar, não sabem, isso não há cá. Não há cá, mas é o futebol americano, que mendigos há muitos. Aos milhares. Há uns que até saem das Amoreiras, tiram a gravata e depois se sentam à chinês a pedir uma moedinha. Mas não me quero dispersar. Eu nem gosto de porcos-mealheiros.

    Estava eu a dizer, hoje fui ao banco fazer os depósitos da empresa. Estava nervosa.

    Sempre que vou lá tenho de esperar pela minha vez, e eu não gosto de esperar pela minha vez. Os civilizados esperam sentados, mas eu não me enquadro nessa pintura.

    Então, comecei a andar de um lado para o outro. Para trás e para a frente. Da esquerda para a direita. Às voltas. Sempre com a mão no bolso, a proteger o envelope. A proteger os milhares dos outros. E depois decidi pôr-me a contar as câmaras de vigilância. Contei 12. Naquele claustrofóbico espaço, contei 12. Eram redondas, pretas e brancas. Um jogo de damas pregado no teto. Que jogo estúpido. Voltei a contá-las algumas vezes.

    Quando estou nervosa perco-me na contagem. Um segurança começou a dirigir-se a mim e eis que surge a conversa:

    (o eu começa a interpretar-se a si e ao outro)

    S: Porque é que está a contar as câmaras de vigilância?

    Eu: Porquê, não posso?

    S: O que é que tem aí?

    Eu: O que você não tem aí.

    S: O que é que está aqui a fazer?

    Eu: Pergunto-lhe o mesmo.

    S: Quem faz as perguntas sou eu.

    Eu: Quem faz as perguntas sou eu.

    S: Bom.

    Eu: Bom.

    (o eu recomeça a contar as câmaras para se acalmar)

    Eu: Você faz parte dos outros?

    S: Como?

    Eu: Coma.

    (S começa a perder a paciência)

    Eu: Eu carrego os milhares dos outros. Você é os outros? Estas câmaras são suas?

    S: Esse envelope não é seu?

    Eu: Não.

    S: Roubou-o?

    Eu: Não. Acho que não. Estarei a roubá-lo?

    S: Você tem aspecto disso.

    Eu: Você também.

    S: Como?

    Eu: Coma. Você tem mais aspeto de roubar do que eu. Estas câmaras estão aqui para me proteger de si. Tanto quanto sei você pode ser um mendigo fardado.

    (o eu cai ao chão, s faz-me uma placagem)

    Perdi-me. Estou a fazer de quem? De mim ou do segurança? Tenho mais aspeto de quê, de mim própria ou dele? Ai merda. Então mas, eu sou eu ou sou ele? Ou ele é ele, ou ele sou eu? Sou os dois? Ou não sou nenhum? Eu acho que hoje nem fui ao banco. Ia ao banco fazer o quê? Eu não tenho um tostão, já disse. Mas havia um envelope… um envelope com os milhares dos outros. Eu só carrego os milhares dos outros.

    Já sei. Vou pedir acesso às câmaras de vigilância. Elas vão-me provar se estive.lá.

    Diana Canha é artista media.

    Ilustrações: Ruy Otero

  • Crash

    Crash

    “Não são os carros que se esmagam — somos nós.”

    (frase ouvida num sonho, à saída de uma sessão de Cronenberg)

    Lançado em 1996, Crash marca um ponto de inflexão na carreira de David Cronenberg: depois de mais de uma década a explorar a fusão entre corpo e tecnologia no registo do terror visceral (Scanners, Videodrome, The Fly), o realizador canadiano aprofunda aqui a sua deriva filosófica, estética e quase clínica sobre a mutação da carne na era da mediação total.

    Adaptado do romance homónimo de J.G. Ballard — autor com quem se liga através de   uma obsessão estrutural pela frieza do desejo e pelo erotismo da catástrofe — Crash é uma obra deliberadamente incómoda, que estreou em Cannes envolta em polémica, tendo ganho o Prémio Especial do Júri presidido por Coppola, mas tendo sido também violentamente atacada por sectores mais moralistas, incluindo a crítica britânica, que exigiu a sua censura. Como se o filme fosse um elogio à violência e não uma crítica deliberada à profusão do sexo e do descontrole numa sociedade sanguínea hiper-irrealista.

    A produção foi anglo-canadiana, com orçamento relativamente contido, e o elenco – liderado por James Spader, Holly Hunter, Elias Koteas e Deborah Kara Unger – entrega-se com uma contenção febril, encarnando personagens que não têm passado nem futuro, apenas um presente sensorial, como se existissem já numa cronologia fracturada.

    A relação com Videodrome é evidente: ambos são filmes sobre interfaces — de ecrã ou de metal — que alteram ontologicamente o corpo, que o reescrevem como hardware sensível, como superfície mutável onde o prazer, a dor, a identidade e a morte se tornam equivalentes.

    Mas se Videodrome ainda propunha um delírio tecnológico sobre o controlo mediático, Crash entrega-se ao literal: não há conspiração nem metafísica. Há impacto. Há sangue e sexo a vaguear por todos os fotógramas.

    Até o sentimos na pele como se fosse realidade virtual.  

    Crash, o filme de David Cronenberg é de um autor obcecado por feridas e fluídos — e é, na verdade, um tratado estético-filosófico sobre a mutação do corpo na era da aceleração terminal, uma meditação visual sobre o colapso da diferença entre desejo e destruição, em que o prazer se torna inseparável da violência, e a identidade se dissolve na fusão entre matéria orgânica e superfície industrial como condição concreta da sensibilidade contemporânea.

    É talvez um filme sobre um corpo que possivelmente já não deseje viver, mas deseje sentir — e sentir depressa, sentir muito, ou apenas sentir algo, mesmo que para isso seja necessário rasgar a pele com aço e misturar o orgasmo com o odor do plástico queimado.

    Qualquer semelhança com a actualidade é verdadeira demais para ser real.

    Quer a dor como estado meta – não como consequência da violência, mas como atmosfera afectiva constante.

    Cronenberg, seguindo e transformando a lógica visionária e patológica de J.G. Ballard, parece filmar mais sintomas do que personagens.

    Não propõe uma narrativa linear, ainda que pareça, mas sim uma anatomia disfuncional da pulsão humana depois do colapso das estruturas iconográficas e comportamentais tradicionais – amor, moral, futuro, redenção, hipocrisia, e o resto do património emocional . Fá-lo com a precisão de um cirurgião cine-emocional que sabe da inexistência de corpo por curar. Existem apenas superfícies por reorganizar, interfaces por reprogramar ou gestos que se repetem até à exaustão (do espectador e das personagens-espectadoras).

    Tudo isto numa dança ritualística em que o acidente automóvel funciona como o único acto ainda capaz de produzir verdade – porque ainda produz carne visível, dor quantificável, afectação sem linguagem. Um embate que nos obriga, ainda que brevemente, a recordar que somos matéria: carne, osso, tensão, medo – e não apenas espectros que deslizam por interfaces invisíveis.

    Num tempo em que a pornografia foi colonizada pela pedagogia emocional, em que o corpo é objecto de estudo e estatística permanente, e em que o prazer precisa de ser justificado, codificado, consentido por múltiplas camadas de enunciação ética, Crash aparece como um gesto herético – não celebrando a violência, mas recusando a sua mediação. A violência torna-se, não um acto gratuito, mas uma manifestação profundamente estética.

    À Cronenberg. Isso é evidente.

    Trata-se de um realizador que se sente ao longe.

    Eu adoro.

    O cineasta consegue ainda mostrar e compor cinematograficamente o corpo na sua crueza: sem ícones, sem transcendência, sem redenção – apenas contacto, fricção, ruído, uma espécie de mística do impacto na qual a carne se torna liturgia e o carro, um altar profano em que a fusão entre sujeito e máquina é consumada como o único erotismo possível num mundo saturado de representação.

    O que incomoda em Crash não é o sexo. Aliás, nunca o sexo foi tão pouco excitante, tão mecânico, tão ausente de catarse.. O que incomoda é a ausência de sentido, a recusa da narrativa psicológica, a total desarticulação entre gesto e justificação, como se Cronenberg nos dissesse, sem dizer, que já não é possível representar o desejo senão como repetição do dano, como reinscrição da ferida, como simulação de uma fusão impossível entre corpos que já não querem tocar-se, mas apenas colidir.

    O toque tornou-se trivial, terapêutico, normativo – e apenas o embate brutal, frio e insensato é ainda capaz de interromper o circuito fechado do corpo domesticado.

    O filme, assim, não se inscreve na tradição do erotismo cinematográfico, nem sequer no território da pornografia soft (ainda assim) no sentido tradicional, mas antes numa terceira via perversa, clínica, topográfica, em que cada plano funciona como um mapa de cicatrizes, no qual o corpo deixa de ser superfície de prazer para se tornar arquivo de acidentes, banco de dados sensoriais que só adquirem valor quando danificados — como se a integridade fosse, paradoxalmente, uma forma de invisibilidade.

    Por curiosidade e até por uma afinidade cinematográfica óbvia, gostaria de ver Paul Verhoven a tratar este tema.

    Aconselho a verem os primeiros filmes holandeses do realizador em parceria com Rutger Hauer. Ambos os realizadores não fazem juízos morais às personagens, tornando a ironia e o body-horror ainda mais visceral.

    O olhar de Cronenberg em Crash disseca ao invés de erotizar, e aí está o aspecto fundamental da obra-prima do cinema de metal.

    A sua câmara, em vez de procurar o prazer do espectador, instala-se num registo quase clínico, cirúrgico, como se cada plano fosse uma lâmina que abre o corpo para o privar dele, entrando como um guarda-lamas afiado pelo espectador adentro.

    É neste gesto que o filme se torna uma anti-pornografia: porque recusa o pacto visual da excitação, nega a gramática da antecipação, dissolvendo a promessa de catarse e tornando-se orgânico, matéria viva e sanguínea.

    O sexo, quando ocorre, é mecânico, desprovido de prelúdio ou consequência, desprovido até de tensão narrativa. É acto sem aura, sem fundo e sem justificação.

    O que vemos não é a celebração do corpo, mas a sua deterioração meticulosa, a sua exposição a um desejo que já não quer consumar-se, mas apenas repetir-se.

    A anti-pornografia de Crash não se opõe moralmente à pornografia; ela é a sua decomposição simbólica, o seu cadáver estudado em plano médio, iluminado a néon, em que a carne serve apenas para registar o impacto. E isso é absolutamente cinematográfico. A música ajuda a entrar lá para dentro. Tanto da tela como do corpo. O filme dói.

    Crash é um filme radicalmente contemporâneo – ou melhor, um filme profético sobre a contemporaneidade – porque antecipa o modo como o desejo se tornaria uma função da repetição, como o trauma se tornaria a nova linguagem afectiva, e como o corpo passaria a ser monetizado pelo que sofreu, ou como o dano se tornaria a única forma de verdade. E como o cinema, na sua essência, deixaria de contar histórias para apenas reproduzir lesões.

    É um filme-lesão.

    Ao ver Crash hoje, no tempo do streaming higiénico, da pornografia pós-ética, do corpo “veganizado” e da emoção curada, sentimos que o filme não envelheceu: pelo contrário, envelheceu melhor do que o próprio mundo e já lá vão quase trinta anos.  Como aliás uma boa parte da obra de Cronenberg.

    Recordo Videodrome, Existenz, The Fly, ou mesmo Dead Ringers.

    Ao recusar participar na estética do conforto emocional, ao rejeitar a moral terapêutica que tudo justifica, expondo o corpo como terreno de colapso, Cronenberg capturou — com a frieza de quem já sabia — o exacto momento em que deixámos de existir para começar a simular.

    Não é o cinema que morreu — somos nós, a fingir que ainda vemos.

    O que vale é que na vida real (ou realizada), a excepção parece ser plausível e a vida pode ser estar sempre para além do cinema.

    Sei que sim.

    Texto e imagens de Ruy Otero, artista media.

  • A corte e a raposa: sedução e poder

    A corte e a raposa: sedução e poder

     

    Título

    A Fazedora de Reis – A vida de sedução, Intriga e Poder de Pamela Churcill Harriman

    Autora

    SONIA PURNELL (Tradução: Francisco Agarez)

    Editora

    Dom Quixote (Julho de 2026)

    Cotação

    19/20

    Recensão

    Sonia Purnell é uma biógrafa e jornalista britânica, autora de quatro biografias, entre as quais Clementine: The Life of Mrs. Winston Churchill, dedicada à mulher de Winston Churchill, e A Woman of No Importance, sobre a espiã norte-americana Virginia Hall, obra que lhe valeu o Plutarch Award de Melhor Biografia, em 2020. Trabalhou em órgãos de comunicação como The Economist, The Telegraph e The Sunday Times e é reconhecida pela investigação rigorosa e por uma escrita de forte pendor narrativo. A Fazedora de Reis, publicada originalmente em 2024, é a sua mais recente biografia e retoma, de certa forma, o universo dos Churchill que Purnell já havia explorado na biografia de Clementine Churchill.

    Até receber este livro de quase quinhentas páginas (sem contar com as notas!) nunca ouvira falar de Pamela Churchill Harriman. À data da sua morte, em fevereiro de 1997, via pouca televisão (como agora, aliás) e, como tal, não me dei conta do aparato que rodeou o seu funeral. Bill Clinton, então presidente dos EUA e seu amigo, prestou-lhe uma sentida homenagem no seu discurso, em que destacou o seu trabalho como embaixadora e o serviço que prestou aos Estados Unidos. O corpo de Pamela foi levado de volta para os EUA e o funeral realizou-se na Catedral Nacional de Washington.

    Seguindo, de algum modo, as pisadas da sua tia-bisavó Jane Digby (1807–1881), Pamela, ambiciosa e pouco dada a escrúpulos ou pudores, usou os recursos de que dispunha, entre eles, a beleza, o charme, a inteligência social e a capacidade de sedução, para se aproximar dos círculos onde o poder se concentrava. Purnell recupera, assim, uma mulher que durante décadas foi sobretudo conhecida pela sua vida amorosa e pela reputação de cortesã. Com esta obra procura demonstrar que, por detrás dessa imagem, existia uma mulher politicamente astuta, com uma notável capacidade para construir relações e influenciar homens poderosos.

    A protagonista desta biografia é Pamela Digby, que casou, em 1939, com Randolph Churchill, filho de Winston Churchill. Durante a Segunda Guerra Mundial, a sua proximidade com Churchill e com figuras políticas e diplomáticas norte-americanas permitiu-lhe desempenhar um papel informal de intermediária entre britânicos e americanos. Purnell defende mesmo que Pamela contribuiu para aproximar os dois países e para a obtenção de apoio americano à causa britânica. É uma das dimensões mais controversas da biografia, na medida em que o papel que Purnell lhe atribui na política de guerra parece, para alguns críticos, maior do que aquilo que as evidências permitem concluir.

    O livro é, sem dúvida, resultado de um trabalho hercúleo de pesquisa. Uma biografia construída a partir de inúmeras e distintas fontes, muitas delas inéditas ou pouco exploradas, que são documentadas nas extensas notas finais. Mas o mérito de Purnell vai muito além da quantidade de informação recolhida. A autora consegue articular documentos, testemunhos e memórias de modo a construir uma narrativa que, apesar da sua extensão, se lê como um romance. Um romance repleto de personagens, intrigas, relações, mudanças de cenário, reviravoltas e, sobretudo, uma protagonista cujo destino queremos conhecer, mesmo sabendo, desde o início, que morrerá no fim da história.

    A capacidade de transformar uma investigação biográfica numa narrativa envolvente é um dos maiores méritos da obra. Purnell cria uma personagem e acompanha a sua metamorfose ao longo de mais de sete décadas. Pamela passa de jovem aristocrata de uma família com estatuto, mas poucos recursos, a nora de Winston Churchill, socialite internacional, esposa de homens poderosos, cidadã norte-americana, angariadora de fundos do Partido Democrata e, finalmente, embaixadora dos Estados Unidos em França, cargo para o qual foi nomeada por Bill Clinton em 1993, aos 73 anos.

    De facto, o modo como a biógrafa consegue juntar e articular todos os testemunhos obtidos nesta biografia tem de ser relevado. Créditos também à sua editora, a quem Purnell agradece a colaboração na construção de uma narrativa tão extensa e, simultaneamente, tão fluida.

    Mas há uma questão que perpassa toda a obra e que não pode ser ignorada: até que ponto Purnell procura recuperar a reputação de Pamela ou, em alguns momentos, acaba por construir uma imagem demasiado favorável da sua protagonista? A intenção de contrariar a visão tradicional de Pamela enquanto simples cortesã e oportunista é evidente. Vários críticos reconheceram esse esforço de reavaliação, considerando Kingmaker uma espécie de recuperação de uma mulher cuja influência política e diplomática terá sido obscurecida pela sua vida sexual e social. Outros, porém, consideraram que Purnell vai longe demais na defesa da importância histórica da sua biografada.

    Não obstante, Pamela não precisa de ser transformada numa heroína para ser reconhecida como uma mulher extraordinariamente hábil na construção e no aproveitamento das redes de poder. A sua influência na política norte-americana parece menos discutível nas décadas finais da sua vida. Em Washington, tornou-se uma importante angariadora de fundos do Partido Democrata, criou o comité de ação política PamPAC e percebeu, antes de muitos outros, o potencial político de Bill Clinton, contribuindo para a sua ascensão. A nomeação para embaixadora em França, em 1993, constituiu o culminar dessa trajetória.

    A biografia ganha, por isso, uma dimensão que ultrapassa a história de uma mulher sedutora que colecionou amantes e casamentos. É também uma reflexão sobre a forma como as mulheres que procuram poder são julgadas de maneira diferente dos homens. A própria Purnell questiona a redução de Pamela à sua sexualidade ao mostrar como os seus relacionamentos com homens poderosos foram simultaneamente instrumento de ascensão, fonte de influência e motivo para que a sua actuação política fosse desvalorizada. O problema é que, ao tentar corrigir esse desequilíbrio, a autora corre por vezes o risco de fazer o movimento inverso e de empolar a importância da protagonista.

    Ainda que muitos críticos aludam, portanto, à tentativa da historiadora de construir uma imagem mais nobre de Pamela do que aquela que prevaleceu durante décadas, não há dúvida de que estamos perante uma obra de grande valor. Não só pelo trabalho de investigação, mas também pelas fontes a que Purnell conseguiu aceder e pela capacidade de lhes dar forma narrativa. Até a autora reconhece que Pamela permaneceu, em certa medida, um enigma. Quanto mais se investigava a sua vida, mais difícil parecia separar a mulher que ela foi da personagem que construiu para si própria.

    As referências ao atual presidente dos EUA também deixam os republicanos incomodados. É natural, tão-só esse homem é capaz de deixar qualquer pessoa de cabelos em pé. Mas este livro não é sobre ele, é sobre Pamela Churchill Harriman e sobre a forma como ela aprendeu a aproximar-se do poder, a reconhecer quem o detinha e, principalmente, a perceber quem poderia vir a detê-lo.

    O valor desta biografia reside ainda na forma como somos instruídos acerca das dinâmicas das relações políticas e diplomáticas entre o Reino Unido, os EUA e, mais tarde, a França. Pamela esteve próxima de alguns dos acontecimentos e das figuras mais relevantes da história política do século XX, de Winston Churchill a Averell Harriman e de Bill Clinton a Gorbachev. A sua trajectória permite acompanhar, a partir de uma perspetiva muito particular, transformações profundas na política internacional.

    Vale realmente a pena ler esta lição de História. Mesmo que a personagem de Pamela seja, por vezes, construída de forma empolada – como poderão confirmar os leitores mais céticos e/ou rigorosos –, a pesquisa e a narrativa biográfica são, com efeito, de louvar.

    Resta-me agradecer a Sonia Purnell a história de uma das mulheres mais controversas e influentes do século XX e os capítulos de História recente que, por intermédio de Pamela, nos dá a conhecer.

  • Até ao fim dos tempos

    Até ao fim dos tempos

    Eis uma música, cheia de vigor lírico e sonoro, que poderia e deveria acompanhar uma história romântica (não leve), um reencontro romântico, um sentimento intenso (não necessariamente mútuo, não necessariamente feliz). Os temas essenciais estão aqui: tempo, morte e amor. O ritmo e a voz dão-lhes o corpo certo.

    A música à distância de um click:

    Música de Bruno Rama(©Direitos reservados). 

    Texto de Manuel Monteiro.

  • Às seis da tarde, naquela rua, o medo

    Às seis da tarde, naquela rua, o medo

    Fosse o que fosse – fosse o verão e estivéssemos, caras vermelhas e topetes suados, sobre o verdadeiro fogão que era aquela calçada de cimento; fosse o inverno e estivéssemos pálidos e rígidos dentro de nossas japonas de lã; fosse o outono e estivéssemos observando melancólicos a dança das folhas secas, fosse a primavera e estivéssemos aspirando o aroma das margaridas – ele estava sempre ali, às seis da tarde.

    Sentado naquele mocho bambo, encurvado dentro da concha de seus demorados silêncios de inveterado mateador, ele conseguia segurar por alguns bons minutos a permanente inquietude da nossa infância. Era meu avô.

    Estava sempre ali, às seis da tarde, às seis em ponto da tarde, quando desciam aquela rua, apressados pela vergasta da noite, os homens e as mulheres que passavam os dias encerrados como feras nos galpões sombrios dos curtumes, da fábrica de sabão e do imenso lanifício.

    Estava sempre ali, naquela calçada, às seis da tarde, quando, vinda da penumbra sonolenta da cozinha, surgia minha avó trazendo a velha chaleira tisnada com a água quente e a cuia, com o mate já montado. Ele permanecia em silêncio por mais um pouco, mas sempre vagando o cinzento dos seus olhos pelos nossos rostos ou pelo brilho opaco das estrelas recém-nascidas ou pelo vermelho do sol que morria por trás do terreno baldio. Sempre na calçada, sentado num banquinho de pernas bambas.

    Estava sempre ali, naquela rua, ao cair da tarde. Gostava muito de falar sobre os céus e os ventos, os solaços e as frialdades, mas disso não queríamos saber pois o que nos interessava mesmo era a história que viria a seguir.

    Esperávamos brincando já que, para nós, o tempo era apenas uma sucessão ininterrupta de esconde-esconde, pega-pega, pula carniça, mocinho-e-bandido e chicotinho-queimado.

    Impacientes, esperávamos que ele começasse a contar uma daquelas histórias, sempre as mesmas duas, com as variações que as noites de insônia e os dias vagabundos de aposentado iam introduzindo a cada nova narração.

    Inquietos, esperávamos o medo, enquanto ele cuidadosamente punha a água quente na cuia e em seguida sugava o ouro do bico da bomba, num preparativo indispensável para que o medo fosse se aninhando em nossas magrezas e crescendo ali, vicejando em nossos peitos, alastrando-se por nossas pernas e braços.

    Naquela rua, à seis da tarde, naquela calçada, tínhamos medo.

    Medo do açougueiro, baixo e retaco, medo dos seus grossos braços peludos e da sua cara azulada de barba, medo dos seus olhos mansos de homem honesto. Medo do mísero eletricista alemão, alto e magro, que morava num casebre no fim da rua, medo dos seus olhos verdes de gato, medo do seu jeito esquivo e silencioso.

    Foi ali naquela rua, às seis da tarde, onde permanecemos por tantos anos, calados e atemorizados, expectantes e respeitosos, que vimos o medo multiplicar-se… Multiplicar-se como os incontáveis coelhos que saíram da cartola do mágico daquele circo mambembe a que fomos num domingo.

    Suas frases curtas eram alinhavadas por longos silêncios.

    Houve uma vez, num tempo muito antigo, um castelo.

    O medo começava a pulsar dentro de nós quando ele, ao mesmo tempo que levava a bomba aos lábios, erguia os olhos para o céu.

    Naquele castelo vivia uma princesa muito bonita.

    O medo era como um gato enroscando-se em nossas canelas glabras.

    Pois numa noite de lua cheia a princesa escancarou a janela para dormir melhor. Era o verão.

    Mais do que imaginávamos, nós víamos de verdade a bela jovem abrindo a janela como se convidando as estrelas a partilhar com ela o leito.

    Descuidada, adormeceu. No meio da noite, acordou sobressaltada por um barulho que não era nem de gente nem de bicho.

    Éramos o medo, todos nós, dos pés à cabeça, inteiriços, arrepiados.

    A princesa acordou e viu um vulto ao lado da sua cama. O vulto voou sobre ela.

    Sabíamos o que viria a seguir, mas não tínhamos como controlar o medo, frio e pegajoso, que já era então como uma serpente que se enrolava em nossos pescoços para nos estrangular.

    A princesa gritou. O vulto fugiu pela janela. No pátio, o guarda do castelo fez fogo.

    Mesmo que não fosse inverno, sem perceber, nós sempre acabávamos nos aconchegando, para enfrentar o gelo do terror.

    Ouviu-se um urro de fera. A fera desapareceu, mas deixou no chão um rastro de sangue.

    Chegávamos ao horror, ao fundo do poço do horror, nas noites em que, naquele exato ponto da história, passava por nós o pobre eletricista arrastando ao lado da bicicleta sua sombra triste de homem solitário.

    No dia seguinte, o médico foi ao castelo para atender a um homem que estava morrendo. Era o cavalariço. Enquanto fazia o curativo num ferimento causado por tiro, ele viu entre os dentes do homem fiapos do tecido delicado de que era feito o mosquiteiro da princesa.

    E ali, naquela rua, ficávamos nós, trêmulos e ofegantes como se tivéssemos corrido muito e sem destino e observando, cabisbaixos, as manchas de escuridão que se multiplicavam ao nosso redor e temendo ver nascer delas o lobisomem.

    E dali só nos movíamos quando, das portas de nossas casas, gritavam as mães: Janta na mesa! Já para dentro! Hora do banho!

    Era outro dia, outro céu e outra história, mas sempre às seis da tarde, e lá estávamos novamente, mudos e quietos, ao redor do banco, observando respeitosos o ritual eterno do chimarrão – impermeáveis à voz do rubro vento do outono, às névoas cinzentas do inverno, ao perfume branco da primavera ou ao inferno alaranjado do sol que morria.

    Havia aí para esses lados, faz muito tempo, um matadouro.

    Acompanhávamos o movimento do braço que, depois de soltar a chaleira sobre o descanso calcinado de madeira, se erguia e fazia uma curva no ar pesado de umidade e apontava para a nossa rua, sinuosa, e descia por ela, acompanhando-a, como se na verdade continuasse com ela depois da pinguela de madeira sobre o arroio e avançasse por entre as árvores altas até se encontrar com as ruínas da sombria construção que muitas vezes visitávamos, amedrontados, na sonolência incendiada das tardes de verão.

    Foi no tempo dos escravos. No matadouro havia um capataz malvado. Tão malvado que, quando não tinha homem ou animal para maltratar, chicoteava-se a si mesmo.

    À seis da tarde, estávamos sempre naquela rua, cujo nome pomposo, de marechal ou general, jamais decoramos, como ninguém antes de nós havia decorado, naquela rua que já era conhecida e sempre será como Corredor da Tropas porque por ali transitavam melancólicas manadas, conduzidas por peões sorumbáticos, cem anos antes, em direção ao matadouro que fora erguido sobre a pestilência do pântano.

    Um dia esse capataz malvado roubou a mula de um pobre padeiro português que morava perto da igrejinha.

    Mais uma vez a chaleira era depositada e o braço erguia-se na frialdade de julho e traçava uma rota meio incerta pela ladeira que subia e só se detinha quando alcançava à torre da igreja de Nossa Senhora da Luz.

    Arrastou a pobre mulinha por esta rua e se foi na direção do matadouro.

    A mão fazia então o movimento correspondente: descia da igreja, caminhava sobre as pedras irregulares da nossa rua e ganhava depois a estrada que avançava, sombria, entre plátanos, figueiras bravas e salsos chorões.

    A mula empacava, mas o capataz batia nela com uma acha de lenha. O pobre animalzinho zurrava de dor. Umas pessoas viam aquela maldade, mas não falavam nada porque tinham medo daquele bandido.

    O medo. Como tínhamos muito medo às seis da tarde, naquela rua, apertava-se o círculo – corpos franzinos, uns colados nos outros, ao redor do banco do velho contador de causos – enquanto chegavam até nós, abafados, o som da ave-maria rezada nas emissoras de rádio e os cânticos das velhas carolas na igrejinha.

    Lá longe, no meio do banhado, de raiva, ele degolou o pobre animal. Depois voltou trazendo nas mãos a cabeça da mula. E deixou a cabeça na porta da casa do padeiro. O pobre português estava sesteando.

    A morte. Nós já tínhamos visto a morte cruzar muitas vezes a nossa rua dentro dos modestos caixões que traziam corpos de gente que havia morado e morrido nas vilas erguidas sobre o pântano domado.

    O padeiro morreu de tristeza ao ver a cabeça da sua companheira de trabalho. Morreu de tristeza diante de tanta maldade. Então, dali para a frente, de vez em quando, a mula passava por esta nossa rua. Vinha zurrando, empacando, zurrando de novo, empacando. Mas ela só passava ou na hora da sesta quando todos estavam dormindo ou à meia-noite. Vinha sem a cabeça a coitadinha… Dizem que ainda passa por aqui, às vezes.

    Apavorados, nem prestávamos atenção ao canto inexplicável das cigarras ou a algazarra dos pardais que se acomodavam nas laranjeiras dos nossos pátios para atravessar a noite ou os pios soturnos das corujas que se ajeitavam nas árvores enfezadas do terreno baldio para sua longa vigília.

    Um dia o malvado capataz não aguentou mais as visitas da mula sem cabeça. Com a mão esquerda segurou seus próprios cabelos, melena preta e feroz, e com a direita empunhou o facão afiado com que tinha matado a mula. E degolou-se. De um só golpe.

    Entrávamos em pânico quando naquele trecho da história, apurando os ouvidos, conseguíamos ouvir, vindo do açougue, o ruído de uma faca sendo amolada na beira do ensanguentado balcão de mármore.

    Dizem que o capataz, já degolado, ainda deu uns passos. Com as duas mãos erguidas. Na direita segurava o facão. Na esquerda segurava sua própria cabeça de homem perverso.

    Hoje somos todos homens e estamos espalhados por este mundo de Deus. Mas às seis da tarde, em qualquer lugar, estejamos onde estivermos – em meio a balbúrdia de nossos filhos em casa, no frio cinzento dos escritórios ou na escura solidão das grandes avenidas -, sempre voltamos àquela ruazinha estreita, àquela calçada, e temos medo, muito medo.

    Lourenço Cazarré é escritor.

    Publicado originalmente no livro Histórias Suburbanas, 1986, Editora Atual (São Paulo)