Categoria: Suplemento

  • Antes que chegue o inverno

    Antes que chegue o inverno

    Há uma quietude melancólica na forma como o mar chega à costa em setembro. Em como as ondas languidamente se começam a dissolver ao longe. Longas, muito longas, tão baixas que mal se notam.

    Depois, desfazem-se moles sobre a areia e, por fim, retiram-se devagar. Percebem, certamente, que já lá não está quase ninguém e que têm tempo. Têm todo o tempo do mundo, até ao próximo verão.

    A luz da tarde derrama sobre a água uma doçura cansada de lantejoulas douradas. O calor da areia já não queima os pés, mas lembra que o outono ainda não chegou.

    Na areia, os vestígios dos dias que passaram. As marcas dos guarda-sóis arrancados, as construções semidesfeitas, as pegadas humanas a que se sobrepõem as das gaivotas.

    Aos poucos, distingue, junto à rebentação, um homem sentado de costas. Tão quieto que quase se confunde com a paisagem. Observa o contorno dos ombros, a inclinação da cabeça, a maneira de estender as mãos à água e reconhece-se naquele corpo. Sabe que a água que avança e recua sem pressa vem buscar os risos, as conversas, o rumor das brincadeiras das crianças, os mergulhos, o brilho dos corpos bronzeados. Sabe que, em setembro, a maré dobra cuidadosamente os dias de verão antes de os levar. Ficarão impecavelmente preservados e prontos para serem devolvidos no ano seguinte.

    A um passo, indiferente à sua presença, uma chilreta em busca de alimento fá-lo sorrir. Depois levanta voo em direção ao infinito. Onde quer que fique o infinito da minúscula ave.

    Pergunta-se como sobreviverá a criatura ao inverno.

    O horizonte encara-o novamente e mostra-lhe os seus verões. Todos os seus verões.

    Os primeiros. As mãos assustadas da mãe, que não sabia nadar, e o segurava com demasiada força mal a água passava do tornozelo. O cheiro a óleo de coco. A mãe cheirava a óleo de coco. A merenda trazida pela avó: pão com manteiga e uvas. A promessa da bola de Berlim, se não se afastasse muito. As sombras que protegiam os adultos e puniam os miúdos. A toalha do Sandokan. Os baldes, os moinhos, as pás e os moldes que se renovavam a cada ano.

    Os verões da adolescência: os amigos, as noites na areia, as canções, os amores eternos que chegaram tão depressa quanto partiram. Os dias que julgou sem fim, porque na juventude o fim é uma miragem.

    Vê os filhos a chapinhar com a água pela cintura. As mãos abertas, o medo e a excitação. O instante em que deixara de os segurar. A felicidade única das primeiras braçadas. As palmas, as filmagens, as fotografias ainda no móvel da entrada.

    Uma onda gelada desperta-o. Arrepia-se, mas não se move. Tranquiliza-o a certeza de que o mar guardou todos os seus verões num recanto onde continuam a existir e os poderá procurar.

    A onda recua, levando a marca da sua presença. A areia fica lisa.

    Fora ali que vira pela primeira vez a mulher. Exatamente ali. Susurrara-lhe ao ouvido que se o Tom Jobim a tivesse visto caminhar na praia, a música teria sido outra. Ela riu-se, mas ele nunca duvidou.

    Levanta-se. Olha uma última vez para o lugar onde estivera sentado, despede-se e afasta-se com a serenidade de quem sabe que antes que chegue o inverno regressará para habitar eternamente esses verões felizes.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

  • Biblioteca do PÁGINA UM:  Livros para lá das aparências

    Biblioteca do PÁGINA UM: Livros para lá das aparências

    A Biblioteca do PÁGINA UM recebeu, na última quinzena, seis novos livros que percorrem épocas, geografias e experiências muito distintas. Da França do século XVII à China dividida entre tradição e modernidade, das vivências juvenis trans e não binárias à violência que atravessa gerações, estas novas entradas passam ainda pelo testemunho autobiográfico e pela análise dos mecanismos da manipulação psicológica.

    Arturo Pérez-Reverte, Pearl S. Buck, João Teixeira Lopes, Susana Amaro Velho, Marisa Revez Mendes e Emma Kavanagh chegam às nossas estantes através da ficção histórica, do romance, da sociologia, do testemunho e da psicologia. Se os caminhos são diferentes, há entre estes livros uma pergunta que reaparece sob muitas formas: o que acontece quando aquilo que julgávamos seguro — uma época, uma tradição, uma família, uma relação ou até a percepção que temos de nós próprios — deixa de o ser?

    Missão em Paris

    Missão em Paris, de Arturo Pérez-Reverte, reencontra Íñigo Balboa e o capitão Alatriste quase um ano depois da missão que os levou a Veneza. Desta vez, o cenário é a França do século XVII, onde os huguenotes de La Rochelle, apoiados pelos Ingleses, resistem ao cerco das forças comandadas pelo cardeal Richelieu. Envolvidos numa missão secreta concebida pelo conde-duque de Olivares, Alatriste e os seus companheiros entram num jogo político e militar cujo desfecho poderá interferir no próprio curso da História.

    Arturo Pérez-Reverte nasceu em Cartagena, Espanha, em 1951, e trabalhou durante 21 anos como repórter, acompanhando numerosos conflitos armados. Autor de uma vasta obra traduzida internacionalmente, viu vários dos seus romances adaptados ao cinema e à televisão. Foi distinguido, em 2017, com o Prix Littéraire Jacques Audiberti e é membro da Real Academia Espanhola.

    Publicado pela ASA, Missão em Paris chega à biblioteca do PÁGINA UM como uma nova aventura do capitão Alatriste, onde personagens ficcionais e figuras históricas se cruzam num cenário de conspiração, guerra e disputa pelo poder na Europa do século XVII.

    Vento do Oriente, Vento do Ocidente

    Publicado originalmente em 1930, Vento do Oriente, Vento do Ocidente foi o romance de estreia de Pearl S. Buck. Kwei-lan, uma jovem chinesa educada segundo os valores tradicionais, prepara-se para um casamento combinado antes do seu nascimento, mas encontra no marido, formado no estrangeiro, ideias e comportamentos que desafiam tudo aquilo que aprendeu. O confronto entre os costumes do Oriente e as influências do Ocidente obriga-a a reconsiderar certezas sobre a família, o casamento, a identidade e o lugar da mulher num mundo em transformação.

    Pearl S. Buck nasceu em 1892, nos Estados Unidos, mas cresceu na China, filha de missionários presbiterianos, aprendendo desde a infância chinês e inglês. Mestre em Literatura pela Universidade de Cornell, ensinou Literatura Inglesa em universidades chinesas antes de se estabelecer definitivamente nos Estados Unidos. Autora de Terra Abençoada, distinguido com o Prémio Pulitzer em 1932, tornou-se, em 1938, a primeira mulher norte-americana a receber o Prémio Nobel da Literatura. Desenvolveu também uma extensa actividade ligada a causas humanitárias.

    Publicado pela Dom Quixote, Vento do Oriente, Vento do Ocidente chega à biblioteca do PÁGINA UM como o romance que inaugurou a obra de Pearl S. Buck e como um retrato do encontro, nem sempre pacífico, entre tradição e mudança na China do início do século XX.

    Elus – Percursos Juvenis Trans e Não Binários

    Em Elus — Percursos Juvenis Trans e Não Binários, João Teixeira Lopes analisa experiências de jovens trans e não binários a partir de uma perspectiva sociológica, relacionando os percursos de género com as condições materiais de vida, as desigualdades sociais e as relações de poder. Através de histórias de vida e de análise sociológica, o livro acompanha experiências que atravessam a infância, a socialização, a família, a escola, as amizades, os activismos e as instituições, recusando reduzir estes percursos exclusivamente ao momento da transição.

    João Teixeira Lopes é sociólogo e professor catedrático no Departamento de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde coordena o Instituto de Sociologia. Autor ou coautor de cerca de três dezenas de livros e de mais de uma centena de capítulos e artigos, tem desenvolvido investigação em áreas como a cultura, a educação, a emigração e as desigualdades sociais.

    Publicado pela Tinta-da-China, Elus — Percursos Juvenis Trans e Não Binários chega à biblioteca do PÁGINA UM como um estudo sobre a diversidade dos percursos juvenis de género, observado a partir das condições sociais, materiais e relacionais em que cada experiência se constrói.

    Sou uma Multidão Minúscula

    Sou uma Multidão Minúscula, de Susana Amaro Velho, cruza dois tempos da vida de Margarida. Em 1971, ainda criança, cresce num casarão onde a aparente harmonia familiar convive com uma violência que se repete e permanece silenciada. Décadas depois, já viúva e mãe de dois filhos, uma nova situação de violência obriga-a a regressar àquilo de que procurara afastar-se. Através da mesma protagonista, o romance acompanha o modo como o abuso, o silêncio e a memória podem atravessar diferentes gerações.

    Susana Amaro Velho nasceu em Mafra, em 1986. Estudou Jornalismo e Solicitadoria e trabalha na área da comunicação. Publicou o primeiro romance em 2017 e, em 2022, tornou-se a primeira autora portuguesa a integrar a chancela Aurora, onde publicou Inquieta e viria a reeditar Bairro das Cruzes. Participou no projecto colectivo O Sono Delas e publicou Descansos em 2024. As Últimas Linhas Destas Mãos, o seu romance de estreia, foi reeditado em 2025. Sou uma Multidão Minúscula é o seu quinto romance.

    Publicado pela Casa das Letras, Sou uma Multidão Minúscula chega à biblioteca do PÁGINA UM como um romance sobre violência, memória e herança familiar, acompanhando aquilo que pode permanecer de uma geração para outra mesmo quando se procura romper com o passado.

    A Grande Travessia

    Em A Grande Travessia, Marisa Revez Mendes relata a experiência de abuso sexual sofrido na infância por parte de um familiar e as consequências que esse trauma teve nas décadas seguintes da sua vida. O silêncio, a vulnerabilidade emocional, as relações abusivas e a violência doméstica integram um percurso que a autora revisita a partir da decisão de quebrar esse ciclo. O livro assume-se simultaneamente como testemunho pessoal e reflexão sobre os vínculos que podem levar alguém a permanecer em relações destrutivas.

    Marisa Revez Mendes nasceu em Lisboa e trabalha na área do desenvolvimento pessoal, acompanhando individualmente e em grupo questões relacionadas com padrões relacionais, dinâmicas abusivas e processos de reorganização pessoal. Fundou há mais de uma década o projecto Be Brave, no âmbito do qual tem trabalhado também com adultos que viveram situações de abuso e violência em contextos familiares, relacionais e profissionais. A Grande Travessia é o seu primeiro livro.

    Publicado pela Oficina do Livro, A Grande Travessia chega à biblioteca do PÁGINA UM como um testemunho autobiográfico sobre abuso, trauma e violência, mas também sobre a tentativa de compreender o passado e interromper os ciclos que dele nasceram.

    O Rasto do Psicopata

    Em O Rasto do Psicopata, Emma Kavanagh afasta-se da imagem do psicopata associada à ficção criminal para se concentrar na forma como determinados traços de personalidade se manifestam nas relações quotidianas. A partir da sua experiência na área da psicologia, aborda mecanismos de manipulação, os seus efeitos sobre a percepção e a autoconfiança e alguns dos sinais que podem permitir reconhecer relações potencialmente prejudiciais.

    Emma Kavanagh nasceu em 1978, no País de Gales, e é doutorada em Psicologia pela Universidade de Cardiff. Especializou-se no estudo do comportamento humano e do desempenho em situações de stress extremo e ameaça psicológica. Na não-ficção, publicou How to Be Broken, seguindo-se O Rasto do Psicopata. É também autora de vários thrillers psicológicos, entre os quais Falling, Hidden, The Missing Hours e To Catch a Killer.

    Publicado pela Casa das Letras, O Rasto do Psicopata chega à biblioteca do PÁGINA UM como uma obra de divulgação sobre manipulação psicológica e os efeitos que determinadas relações podem produzir na forma como pensamos, avaliamos a realidade e nos relacionamos connosco próprios.

  • A mensagem da Mensagem

    A mensagem da Mensagem

    “No termo de um período de decadência sobrevém o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida ressurge. Há movimento, mas este não é gerado pela força. O movimento é natural, surge espontaneamente. Por essa razão, a transformação do antigo torna-se fácil. O velho é descartado e o novo é introduzido. Ambas as medidas se harmonizam com o tempo, não resultando daí, portanto, nenhum dano”

    — I Ching

    A mensagem da Mensagem de Fernando Pessoa: a mente a mover o mundo e a transmutação quinto-imperial de Portugal e da consciência

    Esta obra é fruto da leitura e do convívio assíduo, desde há cerca de 45 anos, com a Mensagem, o único livro publicado por Fernando Pessoa em vida em língua portuguesa ². Oferecemos aqui uma interpretação e um comentário, poema a poema, da composição pessoana, integrando-os ao mesmo tempo numa interpretação e comentário globais, com o objectivo de decifrar a mensagem da Mensagem, tecida na trama das suas personagens, figuras e temas, explicitar os múltiplos níveis de sentido – espiritual, mítico, simbólico e histórico – do que a obra tem a dizer a todos os seus potenciais leitores e a intencionalidade com que o faz, que se nos afigura fortemente operativa. O espírito da Mensagem visa que cada um de nós, à medida que a lê e compreende, saia da letargia em que provavelmente se encontra e se sinta movido a uma transformação essencial e profunda, de si mesmo, de Portugal e do mundo.

    Mensagem é uma palavra que vem do francês “message”, procedente da antiga expressão francesa “mes” (enviado, mensageiro), do baixo latim missaticum, proveniente de missus (enviado), particípio passado substantivado do verbo latino mittere, de onde saíram “missão” e “missa”. Mittere significa “lançar, largar, atirar; deixar de lado; enviar, mandar; mandar dizer, mandar por carta, escrever; dedicar; emitir, lançar, deixar ir, deixar partir, soltar, largar, atirar” ³. Por outro lado, sabe-se que a palavra cifra uma passagem da Eneida de Virgílio: Mens ag(itat) (mol)em ⁴ – o pensamento / a inteligência / a mente impele / move / dirige a massa (matéria) / multidão. O próprio título, que é uma síntese fundamental da obra, sugere-a assim como um importante legado que o poeta, no previsto final da vida ⁵, intencionalmente deixa como uma missiva que envia a todos os potenciais destinatários, qual derradeira mensagem contida numa garrafa e lançada ao mar do mundo para que chegue a todos os possíveis navegantes, costas e praias, com orientações cruciais para as suas vidas e consciências. Se a Mensagem, com efeito, é como uma mensagem deitada numa garrafa ao oceano da vida, o seu destino não é flutuar aleatoriamente ao sabor das ondas e marés dos acontecimentos e das consciências, mas antes dar-lhes uma direcção, movendo e orientando num dado sentido a massa passiva e inconsciente das coisas e/ou da massa humana, o que supõe nesta a potencialidade de deixar de o ser, despertando do sono que a equipara à matéria e encaminhando-se para um estado superior de consciência, mais desperto e fraterno. A Mensagem é uma mensagem enviada com um espírito de missão.

    Se bem que a Mensagem se dirija a todos os potenciais leitores, é, todavia, óbvio que os seus destinatários mais imediatos são os portugueses e aqueles para quem Portugal é uma questão, pois o seu objecto mais evidente é Portugal e o seu sentido, mediante uma leitura retrospectiva e prospectiva das principais figuras, mitos e símbolos da nossa história e cultura, onde Pessoa vislumbra uma vocação e missão por cumprir ⁶. Sabemos, aliás, que o poeta quis dar à obra o título Portugal ⁷ e que fez uma alteração de última hora, conforme se pode constatar na correcção do original entregue para impressão ⁸. Se a Mensagem é primeiro que tudo um poema destinado aos portugueses acerca do sentido, destino, vocação, missão ou potencialidades de Portugal, inserindo-se no messianismo lusocêntrico que Pessoa herda e recria – cujos antecedentes maiores são Luís de Camões e Padre António Vieira, incorporando-se por sua vez Fernando Pessoa (a par de Raul Leal) nesta linhagem continuada e reinterpretada por Agostinho da Silva, entre outros – , temos desenvolvido uma interpretação que, a partir do texto, das intertextualidades implícitas e da sua relação com outros textos do autor, a integra numa visão mais ampla, onde o Portugal pessoano surge menos como ponto de partida e de chegada e mais como mediação e/ou símbolo da mediação do ser humano, da consciência e da vida para um estado de pleno despertar e realização das suas melhores possibilidades, bem como para o surgimento de uma nova comunidade ético-espiritual segundo um inédito paradigma espiritual, cultural e civilizacional cuja universalidade transcende Portugal e qualquer nação, língua, cultura, religião ou tradição particulares.

    Estamos convictos que a mais profunda mensagem pessoana acerca do sentido, vocação e potencialidades de Portugal e dos portugueses é precisamente a de os convocar a essa autotranscensão, o que mostra a Mensagem, em toda a sua exaltação do sentido de Portugal, irredutível a constituir um poema nacionalista ou meramente patriótico no sentido comum ou mais estreito do termo. Notamos que, desde 1912, nos ensaios sobre a “nova poesia portuguesa” que antecipam programaticamente a Mensagem e anunciam o “supra-Camões” e a superação da épica camoniana – Pessoa parece ter como motivo relegar o grande vate nacional para um plano secundário – , o jovem Pessoa proclama como “missão” actual dos portugueses “criar o supra-Portugal de amanhã” ⁹, considerando que “a Pátria Portuguesa, como qualquer pátria, é apenas um meio de criar uma civilização” ¹⁰ e que essa civilização, da qual anuncia Portugal como mediador, assenta num novo paradigma, transcendente e inclusivo de todas as antinomias e cosmovisões anteriores, que vê já presente na poesia portuguesa que vem de Antero de Quental até Teixeira de Pascoaes e aos seus continuadores. Designado em 1912 como “transcendentalismo panteísta” ¹¹ e metamorfoseado em 1923 no “sermos tudo” ou no “Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma cousa!”, como resposta a uma pergunta sobre “o futuro da raça portuguesa”, Pessoa torna claro que esse paradigma é o da totalidade e que a sua visão do sentido de Portugal é o de convergir para a superação e transmutação da Portugalidade numa visão-experiência do mundo que transcenda toda a parcialidade e limitação identitária pessoal, nacional e religiosa – “Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé?” ¹² – num estado pleno, integral e universal de consciência, holístico, que por natureza só pode ser a vocação suprema de todos os humanos e a todos igualmente acessível.

    Pese a ambígua e problemática tendência de algum Pessoa para nacionalizar este impulso para o total e o universal, como se apenas os portugueses ou os portugueses mais do que outros povos fossem movidos por ele ¹³, a verdade é que, nesta perspectiva, o que é nacional e propriamente português é o ímpeto para a autosuperação, o ímpeto para transcender a nacionalidade integrando-a numa esfera superior de consciência, pertença e participação. Sustentando que “A Nação é a escola presente para a super-Nação futura” ¹⁴, Pessoa assume aliás claramente a qualidade cosmopolita, não-nacional e não-portuguesa do “verdadeiro português”, proclamando que “o nacionalismo é antiportuguês” ¹⁵. Daí defendermos que o patriotismo pessoano, afim ao que encontramos no seu maior continuador a este respeito, Agostinho da Silva ¹⁶, melhor se designará como aquilo a que chamamos patriotismo trans-patriótico e universalista ¹⁷.

    Consideremos então, a esta luz, a Mensagem como o roteiro/guião que Pessoa deixou a todos nós, seres humanos, portugueses e não-portugueses, mulheres e homens de todo o planeta, como derradeiro legado em vida. Haverá nele um fio de Ariana que nos possa conduzir a salvo pelo labirinto do mundo, da existência e da consciência, neste momento de (poli)crise da civilização ocidental globalizada? Estamos francamente convictos que sim e que a obra, a par e para além do seu valor poético-literário e filosófico, é uma exortação, um manifesto e um guia indicador dos rumos de uma profunda mudança da consciência individual e colectiva, dos portugueses, dos europeus e dos cidadãos do planeta Terra, que nos permita viver de modo mais fraterno e desperto o ponto de mutação civilizacional em que nos encontramos ¹⁸. Na verdade, a Mensagem é a do espírito (mens) profundo que a tudo move e agita, gentes e coisas – ag(itat) (mol)em – , cada ser humano, Portugal, demais povos, culturas, nações e o mundo, para que morram e ressuscitem, ou seja, se transmutem e metamorfoseiem, num patamar superior de ser e consciência. No que respeita a Portugal, trata-se de operar a morte-metamorfose-transmutação de “Portugal” – como instituição sócio-política e fenómeno histórico-cultural chegado ao fim de um ciclo, conforme já proclamado por Miguel Real ¹⁹ (o que não implica necessariamente que esse Portugal cesse absolutamente de existir no seu nível próprio, mas apenas que o foco da consciência colectiva mais desperta se/o dirija para algo mais profundo e maior) – no advento desse “supra-Portugal de amanhã” ²⁰ designado como Quinto Império, nos limites da linguagem da tradição profético-messiânica judaico-cristã, europeia e portuguesa a que Pessoa ainda recorre.

    Esta tradição enraíza-se no sonho do rei Nabucodonosor no livro do profeta bíblico Daniel, em que uma pedra derruba uma estátua composta por quatro metais e se converte numa montanha que enche a terra inteira (Daniel, 2: 27-45), mas, como veremos, na interpretação pessoana esta montanha nada tem a ver com um outro poder imperial político-religioso ou civilizacional, o que o manteria ao nível dos quatro impérios que derruba e transcende, figurando antes a alteridade de uma nova idade e atmosfera da consciência e do mundo, sob o signo de um novo paradigma espiritual, cultural e civilizacional holístico e não-dual, que reúna, preserve e sintetize a um nível superior o melhor e mais característico de todas e cada uma das culturas e civilizações planetárias. Por isso lhe chamamos Quinto (não-)Império ou Quinta Instância, contemplando a sua dupla vertente de nova síntese da (quinta-)essência das tradições e culturas planetárias e de irrupção disruptiva de algo radicalmente novo e transcendente ²¹. Assumindo que a Mensagem visa “marcar o destino [quinto-] imperial de Portugal”, Pessoa esclarece, numa curta entrevista, que esse destino transcende Portugal, veículo apenas de algo maior que através de si perpassa e que relaciona com a “tradição cristã” centrada na “busca do Santo Graal” e na “esperança do Encoberto”, bem como com o espírito de demanda e autotranscensão inerente aos “romances de cavalaria” ²². Trata-se de um cristianismo não-romano, que insiste ser afim à “tradição dos romances de cavalaria”, na qual diz passar, “próxima ou remota, a Tradição Secreta do Cristianismo, a Sucessão Super-Apostólica, a Demanda do Santo Graal” ²³. Tentaremos esclarecer o sentido destas palavras.

    Ler e reler hoje a Mensagem é lê-la e relê-la num momento de sentimento agudo e generalizado da dramática falência do paradigma europeu-ocidental moderno e pós-moderno, o da civilização tecnocientífica, bélica, extractivista, produtivista-consumista, financeira, mediática e de entretenimento, globalizada numa escalada inédita da predação do planeta e dos recursos naturais, da população humana e animal, da biodiversidade e da diversidade cultural, que nos mergulha num profundo desconcerto interior, particularmente evidente na saúde mental, e nos deixa no limiar de um colapso ecológico-social. Neste momento, em que mais do que nunca se aplica a Portugal, à Europa e ao mundo o diagnóstico certeiro do poema “Nevoeiro” ²⁴ acerca da desorientação geral e ausência de liderança em que nos encontramos, momento crepuscular em que se torna evidente que não podemos continuar como até agora, mas no qual a maioria ainda não vislumbra claramente um novo rumo, cremos que uma leitura atenta da Mensagem pode conduzir a esse salutar e fraterno despertar da consciência individual e colectiva a que nos convocam as suas derradeiras palavras: “Valete, Fratres” (“Saúde, Irmãos”). É esse fraterno despertar da consciência que, emergindo deste “Nevoeiro” que agora somos, pode ser a aurora do des(en)cobrimento do Sol invicto de um Novo Dia.

    Na verdade, esse Sol invicto, sem nascente nem poente, sem Ocidente nem Oriente, que vemos como símbolo da consciência espiritualmente desperta, pode estar apenas, na mitologia lusitana relida e recriada por Fernando Pessoa, desde sempre Encoberto na Ilha de Bruma da auto-ignorância de cada um de nós, que ao reconhecer quem realmente somos podemos des(en)cobrir-nos como o “Rei” que “mora esperando” nessas “Ilhas Afortunadas” de que fala o poeta ²⁵, qual um Messias interior, simultaneamente colectivo e íntimo a cada um de nós. E pode ser esta a mais oportuna Hora de o/nos des(en)cobrirmos e reconhecermos na comunidade fraterna de todos os que, em todos os povos, nações, culturas, tradições, religiões e irreligiões, crenças e descrenças, desde sempre convergem sem se conhecerem neste mesmo sentido de um despertar fraterno da consciência e da vida em busca de uma alternativa ao colapso do modelo globalizado da civilização europeia-ocidental ²⁶, que Pessoa viu como herança e resumo dos quatro impérios mundanos (Grécia, Roma, Cristandade, Europa) a serem transcendidos pelo Quinto Império, ou seja, pela nova idade do espírito e do mundo, que vem simultaneamente integrar, preservar e transcender numa síntese superior o essencial de todas as culturas e civilizações planetárias, não só ocidentais ²⁷.

    Como se constata no primeiro poema da Mensagem, Pessoa assumiu Portugal como o “rosto”-essência da própria Europa no seu impulso e descentramento para o “Occidente” atlântico ²⁸, ou seja – pois “Ocidente” vem do latino occidere que significa “matar” e “declinar” – , para a sua morte e transfiguração, extensiva à do velho paradigma que ainda a domina, na transcendência ignota e universal que o Oceano simboliza e o Quinto Império designa. Portugal incarna em Pessoa a vanguarda da polaridade oculta, subterrânea e mais subtil da atracção do espírito europeu, não para o imperialismo etnocêntrico que caracteriza a sua história mais visível – movida pela “patologia do universal” enquanto ignorância da relatividade histórico-cultural dos modelos ideais supostamente superiores que pretende exportar para todo o planeta ²⁹ – , mas para o arrebatamento numa divina e fecundante alteridade, como sugere o mito do rapto de Europa por Zeus. Um dos múltiplos níveis de sentido da Mensagem pessoana reside assim no compromisso de Portugal, também como símbolo da essencial vocação espiritual do ser humano, com a mutação do paradigma civilizacional vigente e com o cumprimento de uma outra Europa, a que aspira a emancipar-se do etnocentrismo obsessivo e a abrir-se à alteridade e multiplicidade dos modelos culturais planetários ³⁰, coligando o Oriente e o Ocidente, o Norte e o Sul, na emergência de uma nova constelação espiritual, cultural e civilizacional, afim ao que se indica como Quinto Império e nós designamos como visão armilar do mundo ³¹. Cremos residir aí a única possibilidade de regeneração, por autotranscensão, do projecto europeu e cremos também que Portugal, o Brasil e o mundo lusófono, cumprindo também a vocação a uma autosuperação regeneradora, podem assumir um papel fundamental na mediação desse processo, devido à sua relação e miscigenação histórico-cultural com as culturas africanas, orientais e ameríndias, invertendo e consumando o movimento iniciado por Portugal nas Descobertas: após havermos levado a Europa a todo o mundo, com todas as consequências ambivalentes disso, trata-se agora de trazermos (todos os lusófonos) todo o mundo à Europa e à civilização europeia-ocidental, como defendeu Agostinho da Silva, para que deste encontro surja, a par da própria humanização e revitalização da Europa ³², uma nova cultura e uma nova civilização, planetária, mas sem sacrifício das particularidades etnoculturais e sem ser refém de nenhum modelo etnocêntrico e parcelar.

    O simples facto de nos conduzir ao levantamento destas questões mostra a extrema actualidade da mensagem da Mensagem e o seu interesse maior para portugueses, brasileiros, lusófonos, europeus e cidadãos planetários. Com o profundo e grato sentimento de que todos nós, leitoras e leitores, estamos implicados neste processo extremamente desafiante e inspirador, inerente a novas, mais amplas e profundas Descobertas, já não geográficas, mas espirituais e culturais, de que as primeiras foram apenas “o obscuro e carnal antearremedo” ³³, concluímos esta introdução com as derradeiras palavras da Mensagem:

    É a Hora!

    Valete, Fratres

    Notas

    [1] Publicamos aqui a Introdução ao livro em preparação É a Hora! Transmutação de Portugal e Despertar da Consciência: a Mensagem de Fernando Pessoa, a ser publicado este ano.

    [2] Cf. Fernando Cabral Martins, “Mensagem”, e José Blanco, “Mensagem – História da Edição”, in Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, coordenação de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Caminho, 2008, pp. 456-458 e 458-460; Richard Zenith, Pessoa. Uma biografia, tradução de Salvato Teles de Menezes e Vasco Teles de Menezes, Lisboa, Quetzal, 2022, pp.958-969; Bartholomew Ryan, Fernando Pessoa, London, Reaktion Books, 2024, pp.108-109.

    [3] Cf. António Gomes Ferreira, Dicionário de Latim-Português, Porto, Porto Editora, 1983, p.732.

    [4] Cf. o documento anagramático existente no espólio de Pessoa, reproduzido em Fernando Pessoa — O último ano, Lisboa, Biblioteca Nacional de Lisboa, 1985 [E3, 17-51, peça n.º 18 «Anagrama [de] Mensagem»], p. 34. Tem a seguinte descriptagem a fonte do título Mensagem: «MENS AG|ITAT MOL|EM, primeiro segmento do v. 727 do Canto VI da Eneida de Virgílio: “mens agitat molem et magno se corpora miscet”»]. Cf. José Augusto Seabra e Maria Aliete Galhoz, “Nota Filológica Preliminar”, em Fernando Pessoa, Mensagem/Poemas Esotéricos, edição crítica coordenada por José Augusto Seabra, Madrid, Archivos/Fundação Eng. A. Almeida, 1997, pp. XLI-XLIII.

    [5] Vários manuscritos encontrados no espólio pessoano mostram que Fernando Pessoa praticou a astrologia, também com a intenção de prever a data da própria morte, o que parece ter conseguido com uma aproximação considerável – Cf. Paulo Cardoso, “Astrologia”, in Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, pp.60-61. Cf. também Luís Resina, Astrobiografia de Fernando Pessoa. Portugal – A Mensagem da “Mensagem”, s. l., Edições Mahatma, 2011.

    [6] A nosso ver não há contradição entre isto e o reconhecimento, em carta a Adolfo Casais Monteiro, de não ter sido feliz a estreia que de si mesmo fez com a publicação da Mensagem, pois, assumindo ser, “de facto, um nacionalista místico, um sebastianista racional”, declara ser, “à parte isso, e até em contradição com isso, muitas outras coisas”. Nesta carta, talvez condescendendo com o seu destinatário, Pessoa diz que manifestou “essa faceta – em certo modo secundária -” da sua “personalidade”, por ela não ter sido suficientemente manifestada antes nas suas colaborações em revistas, regozijando-se, contudo, por, sem o planear, a publicação da Mensagem ter coincidido “com um dos momentos críticos (no sentido original da palavra) da remodelação do subconsciente nacional”, afirmando que o que fez “por acaso e se completou por conversa, fora exactamente talhado, com Esquadria e Compasso, pelo Grande Arquitecto” – Fernando Pessoa, Carta a Adolfo Casais Monteiro, 13 de Janeiro de 1935, Correspondência 1923-1935, edição de Manuela Parreira da Silva, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999, pp.338-339. Isto confirma, a nosso ver, a consciência que Pessoa tem de a sua obra se inserir num plano divino e ter uma eficácia operativa enquanto factor de transformação profunda da dimensão subconsciente do psiquismo nacional.

    [7] “O meu livro “Mensagem” chamava-se primitivamente “Portugal”. Alterei o título porque o meu velho amigo Da Cunha Dias me fez notar – a observação era por igual patriótica e publicitária – que o nome da nossa Pátria estava hoje prostituído a sapatos, como a hotéis a sua maior Dinastia. “Quer V. pôr o título do seu livro em analogia com ‘portugalize os seus pés?’” – Fernando Pessoa, Sobre Portugal. Introdução ao Problema Nacional, recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão, introdução e organização de Joel Serrão, Lisboa, Ática, 1979, p.179. Cf. também Richard Zenith, Pessoa. Uma biografia, p.960. Sabe-se que Pessoa tinha desde o início dos anos 10 o projecto de um poema em seis cantos intitulado Portugal – cf. Fernando Cabral Martins, “Mensagem”, in Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, pp.456-458.

    [8] Conforme se pode ver em Fernando Pessoa, Mensagem, edição clonada do original da Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa, Guimarães Editores, 2009. Será esta edição que usaremos como referência geral, sendo dela que transcrevemos os poemas da Mensagem.

    [9] Cf. Fernando Pessoa, Obras, II, organização, introduções e notas de António Quadros, Porto, Lello & Irmão, 1986, p.1154.

    [10] Cf. Id., Sobre Portugal. Introdução ao Problema Nacional, recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão, introdução e organização de Joel Serrão, Lisboa, Ática, 1979, p.179. Cf. também: “[…] é o primeiro dever de uma nação constituída – tanto em relação a si-própria, como em relação aos seus deveres para com a civilização a que pertence, e a humanidade em geral [,] determinar a que função civilizacional melhor se adapta a feição natural do seu psiquismo colectivo, ou, em outros termos, fazer as suas classes políticas perguntar às suas classes filosóficas: «Para que existo eu como nação? Que fim existo para servir na história da civilização e do mundo (humanidade e civilização)?»” – Ibid., p.230.

    [11] Sobre o “transcendentalismo panteísta” vejam-se as múltiplas referências nos ensaios de 1912 do jovem Pessoa sobre a “nova Poesia Portuguesa” como germe de uma nova religião e de uma nova civilização – cf. Id., Obras, II, pp.1145-1203. Cf. Paulo Borges, Uma Visão Armilar do Mundo. A vocação universal de Portugal em Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, Lisboa, Verbo, 2010, pp.89-97.

    [12] Fernando Pessoa, entrevista dada a António Alves Martins, Revista Portuguesa, nºs 23-24 (Lisboa, 13.10.1923), in Obras, III, introduções, biobibliografia e notas de António Quadros, Porto, Lello & Irmão – Editores, 1986, pp.703-704. Rui Lopo nota que a origem destas considerações sobre a vocação holística de Portugal está num texto onde Fernando Pessoa interpreta o, nas suas palavras, “assombroso sistema filosófico de Raul Leal” – Rui Lopo, “Introdução”, in Raul Leal: Leitor de Fernando Pessoa, Leitor de Si Mesmo ou A Criação do Futuro, organização, introdução e seleção de Rui Lopo, Maria Celeste Natário e Renato Epifânio, Porto, U. Porto Press, 2023, p.43.

    [13] Leia-se toda a resposta anteriormente citada:

    “- O que calcula que seja o futuro da raça portuguesa?

    • O Quinto Império. O futuro de Portugal – que não calculo, mas sei – está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo. Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguêsmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeísmo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade” – Fernando Pessoa, entrevista dada a António Alves Martins, Revista Portuguesa, nºs 23-24 (Lisboa, 13.10.1923), in Obras, III, pp.703-704. Cf. também, na mesma entrevista: “Arte portuguesa será aquela em que a Europa – entendendo por Europa principalmente a Grécia antiga e o universo inteiro – se mire e se reconheça sem se lembrar do espelho. Só duas nações – a Grécia passada e Portugal futuro – receberam dos deuses a concessão de serem não só elas mas também todas as outras” – Ibid., p.702.

    [14] Id., Obras, II, p.1342.

    [15] Na mesma entrevista declara: “O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo”; “Estamos tão desnacionalizados que devemos estar renascendo. Para os outros povos, na sua totalidade eles-próprios, o desnacionalizar-se é o perder-se. Para nós, que não somos nacionais, o desnacionalizar-se é o encontrar-se”; “E como o nacionalismo é antiportuguês […]” – Id., entrevista dada a António Alves Martins, Revista Portuguesa, nºs 23-24 (Lisboa, 13.10.1923), in Obras, III, pp.700-702.

    [16] Como exemplo disto, defendido em muitos outros lugares, Agostinho da Silva termina um curto texto, também significativamente intitulado “Mensagem” e publicado no primeiro número da revista Nova Renascença, com a afirmação “só então Portugal, por já não ser, será”, referindo-se ao cumprimento da nação na sua própria autosuperação num estado global, não-dual e universal de consciência – Agostinho da Silva, “Mensagem”, Dispersos, introdução de Fernando Cristóvão, apresentação e organização de Paulo Borges, Lisboa, ICALP, 1989, p.697.

    [17] Cf. Paulo Borges, “Da ideia de pátria ao sentido de Portugal e da Comunidade Lusófona” e “Por um patriotismo trans-patriótico e universalista”, in Uma Visão Armilar do Mundo. A vocação universal de Portugal em Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, pp.219-234.

    [18] Cf. Fritjof Capra, The Turning Point: Science, Society, and the Rising Culture, Bantam, 1982.

    [19] Cf. Miguel Real, A Morte de Portugal, Porto, Campo das Letras, 2007, e ainda a “Apresentação” de Id., Nova Teoria do Mal, Alfragide, Publicações Dom Quixote, 2011, pp.11-24.

    [20] Cf. Fernando Pessoa, Obras, II, p.1154.

    [21] Cf. os vários textos que temos produzido nesse sentido: Paulo Borges, “Portugal, Lusofonia e bem universal: uma reflexão sobre a vocação e o destino de Portugal à luz do pensamento português”, in AAVV, Fokus Portugal. Eine Standortbestimmung / Refletir Portugal. Ontem, Hoje e Amanhã, edição de Yvonne Hendrich e Alexandre Pereira Martins, Hamburgo, Verlag Dr. Kovac, 2018, pp.277-295; “Só uma pedra nos pode salvar (de nós mesmos). A estátua do Antropoceno, a pedrada redentora e a montanha messiânica (uma releitura da profecia do Quinto Império)”, in AAVV, Como Viver Juntos? Sobre ética animal e ambiental, organização de Ana Leonor Morais Santos e André Barata, Covilhã, Universidade da Beira Interior, 2022, pp.131-160; “A vocação de Portugal e da Lusofonia para o Bem universal: uma reinterpretação crítica do lusocentrismo e do Quinto Império a partir de Luís de Camões, António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva”, in AAVV, Elites e Utopias nos 100 anos da Seara Nova, coordenação de Maria Celeste Natário e Renato Epifânio, Porto/Linda-a-Velha, Instituto de Filosofia da Universidade do Porto/DG Edições, 2024, pp.77-108; “Repensar o Quinto Império a partir de Eduardo Lourenço e Fernando Pessoa”, Revista Portuguesa de Humanidades, 28, 1-2 (Braga, 2024), pp.23-44.

    [22] “- A sua “Mensagem”…

    • Projectar no momento presente uma coisa que vem através de Portugal, desde os romances de cavalaria. Quis marcar o destino imperial de Portugal, esse império que perpassou através de D. Sebastião, e que continua, “há-de ser”” – Fernando Pessoa, Obras, II, p.1339.

    [23] Cf. Id., Sobre Portugal. Introdução ao Problema Nacional, pp.177-178.

    [24] “Nem rei nem lei, nem paz nem guerra / […] / Ninguem sabe que coisa quer. / Ninguem conhece que alma tem, / Nem o que é mal nem o que é bem. // (Que ancia distante perto chora?) // Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Ó Portugal, hoje és nevoeiro… // É a Hora!” – Id., “Nevoeiro”, Mensagem, p.96.

    [25] Cf. Id., “As Ilhas Afortunadas”, Ibid., p.79.

    [26] Cf. o espírito do volume da autoria do Fetzer Institute, Retelling Sacred Stories. Our Journeys to a Shared Sacred Story, New York, Orbis Books, 2025, em particular pp.3-45.

    [27] Como diz Agostinho da Silva:

    “[…] o que eu quero, e quero porque o penso possível, é uma terra povoada de indivíduos livres que livremente se agrupam, jamais procurando no grupo o auxílio de que precisam, mas a oportunidade de chegarem com seu contributo criador, e possam ser tudo para os outros sem que nada percam de si próprios.

    Para que nos entendamos, é a isto que eu chamo o Quinto Império, depois dos outros que apontou Pessoa, o da Grécia, que deu a Ideia, o de Roma, que deu a Ordem, o da Cristandade, que deu o Amor, o da Europa, que deu o Poder”

    – Agostinho da Silva, “Barca d’Alva. Educação do Quinto Império”, Dispersos, p.483.

    [28] Cf. Fernando Pessoa, “O dos Castellos”, Mensagem, p.5.

    [29] Cf. Roger-Pol Droit, O que é o Ocidente?, tradução de Inês Dias, Lisboa, Gradiva, 2009, pp. 27-29, 50, 54 e 67-69.

    [30] “Durante muito tempo um ato de fé, a crença num progresso material e moral destinado a nunca ser interrompido, sofreu assim a sua crise mais grave. A civilização de tipo ocidental perdeu o modelo que se apresentara a si mesma e já não ousa oferecer esse modelo às outras. Não convirá assim olhar noutra direção, alargar os quadros tradicionais, onde se fechavam as nossas reflexões sobre a condição humana? Não deveríamos integrar aí experiências sociais mais variadas e mais distintas das nossas, do que aquelas em cujos estreitos horizontes nos confinámos durante tanto tempo? A partir do momento em que a civilização de tipo ocidental já não encontra na sua própria base com o que se regenerar e encetar um novo objetivo, poderá aprender alguma coisa sobre o homem em geral, e sobre ela própria em particular, nestas sociedades humildes e longamente desprezadas que, até uma época relativamente recente, tinham escapado à sua influência?” – Claude Lévi-Strauss, A antropologia face aos problemas do mundo moderno, prólogo de Maurice Olender, s. l., Temas e Debates / Círculo de Leitores, 2012, pp.19-20.

    [31] Cf. Paulo Borges, Uma Visão Armilar do Mundo. A vocação universal de Portugal em Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva; “A cultura entre ilusão e des-ilusão – para um nomadismo inter e trans-cultural”, Cultura ENTRE Culturas, nº1 (Lisboa, 2010), pp.9-16.

    [32] “Os portugueses levaram a Europa ao mundo, mas agora todos aqueles que falam a língua portuguesa têm o dever de trazer o Mundo à Europa.

    E espero que tragam esse Mundo tão diferente da Europa, que não deseja aniquilar a Europa, como muita gente supõe, mas, isso sim, humanizar essa mesma Europa, restituir-lhe aquela força interior e aquela capacidade de imaginação por ela perdida, por só imaginar num determinado sentido, por se restringir a um certo campo” – Agostinho da Silva, “Com Agostinho da Silva à procura de Portugal”, entrevista com Victor Mendanha, Correio da Manhã, 31 de Maio e 1 de Junho de 1986, in Dispersos, pp.129-130.

    [33] Cf. Fernando Pessoa, Obras, II, p.1195.

    _______

    Paulo Borges é filósofo, professor universitário, ensaísta e escritor.

  • Uma barata a maravilhar um fim de tarde entre humanos

    Uma barata a maravilhar um fim de tarde entre humanos

    A Gigi passou o fim de tarde da passada sexta-feira na Livraria Buchholz, em Lisboa, rodeada de humanos. Não é coisa que uma barata faça todos os dias, sobretudo quando os humanos se juntam para falar dela, da sua vida, das suas ambições e até das relações complicadas entre as duas espécies.

    A ocasião justificava o risco. Tiago Salazar apresentava A Barata Gigi na Rua do Benformoso, o seu novo livro, e Maria do Rosário Pedreira, que o edita há muitos anos, estava ali para fazer as apresentações. Este é, aliás, o primeiro livro infantil do autor que publica, embora depressa se percebesse que chamar-lhe apenas livro infantil talvez seja uma forma demasiado arrumada de colocar Gigi numa prateleira.

    Tiago Salazar e João Ferreira. Foto de Zuraida Guedes

    Maria do Rosário Pedreira falou da coragem de Tiago Salazar pelos temas que levou para o livro e da importância de A Barata Gigi na Rua do Benformoso como ponto de partida para pensar coisas que, à primeira vista, talvez não pareçam próprias de uma barata. Discriminação, pertença, origem, diferença. Temas grandes para um bicho pequeno.

    A Gigi ouviu tudo.

    João Ferreira, amigo do autor, começou pelas palavras. A Gigi nunca saiu de Portugal, mas conhece bastante do mundo. Basta-lhe andar pela Rua do Benformoso e ouvir. Ali, cada porta pode dar para um país, cada conversa pode trazer uma língua diferente e cada pessoa transporta consigo um pedaço de outra geografia.

    E então apareceu uma questão que uma barata talvez compreenda melhor do que muitos humanos: afinal, de onde somos?

    Maria do Rosário Pedreira. Foto de Zuraida Guedes

    Podemos vir de lugares onde nunca estivemos. Podemos carregar origens que só conhecemos pelas histórias da família. E podemos, ao mesmo tempo, pertencer ao sítio onde vivemos, onde crescemos, onde andamos, onde falamos com os outros. No caso da Gigi, não parece existir grande dúvida: ela é da Rua do Benformoso. Mesmo que, por razões compreensíveis, ninguém lhe tenha passado ainda um atestado de residência.

    João Ferreira falou também de baratas a sério. Das muitas espécies que existem e das poucas que conhecemos. A maioria vive a sua vida pacificamente, sem qualquer interesse em entrar numa cozinha, provocar um grito ou obrigar alguém a procurar um chinelo.

    Falou-se até daquela velha história segundo a qual as baratas sobreviveriam a uma guerra nuclear. Parece que não é assim tão garantido. É uma pena, porque as baratas tinham pelo menos essa vantagem reputacional sobre a Humanidade.

    Fátima Mateus. Foto de Zuraida Guedes

    A conversa passou depois para a discriminação. A Gigi quer visitar a Índia e conhecer uma vaca sagrada. Faz sentido. Nunca soube o que é ser especial. As baratas conhecem melhor o extremo oposto: portas fechadas, insecticidas, sapatos, vassouras e seres humanos que mudam subitamente de expressão quando uma delas atravessa a cozinha.

    A Gigi quer, por isso, saber como é estar do outro lado. Como é ser um animal que não provoca nojo, mas respeito. Talvez até reverência. Nem que seja por procuração.

    João Ferreira disse que nunca teve repugnância por baratas. A Gigi, que estava na sala, deve ter registado mentalmente a informação. Entre humanos, convém saber quem são os aliados.

    Depois falou Tiago Salazar.

    Foto de Zuraida Guedes

    Contou que o livro foi, em parte, inspirado na filha, uma “fala-barata”. E fez uma confissão que, perante a protagonista, podia ter provocado algum desconforto: durante anos matou baratas. Não propriamente por vocação, mas porque as mulheres da família sentiam nojo e lhe entregavam a tarefa.

    A literatura, porém, fez aquilo que tantos apelos à biodiversidade talvez não conseguissem. Desde que escreveu o livro, Tiago Salazar deixou de matar baratas. Agora apanha-as com uma pá, leva-as até à rua e fica com a impressão de que elas lhe agradecem.

    Não sabemos se agradecem. Mas também não sabemos se não agradecem.

    A Gigi ouviu esta parte com particular atenção. Não disse nada. Ficou caladinha como um rato, o que é uma comparação pouco elegante para uma barata que acaba de conquistar estatuto literário, mas serve.

    Fátima Mateus, que ilustrou o livro, terá enfrentado outro problema: desenhar uma personagem de uma espécie de que não gosta. É de Estremoz e garante que nunca viu por lá uma barata. Só conheceu estes animais quando chegou a Lisboa.

    Talvez seja mais uma prova de que a capital oferece experiências que o interior nem sempre consegue proporcionar.

    Apesar de tudo, lidou bem com o encontro. E acabou por dar forma à Gigi, tarefa que não deve ser simples. Uma barata literária precisa de continuar a parecer barata sem assustar as crianças nem obrigar os pais a fechar o livro.

    Foto de Zuraida Guedes

    No fim, ficou a impressão de que Gigi se saiu bastante bem entre os humanos. Foi tratada com respeito, discutiram-se as suas ideias, analisaram-se os seus sonhos e até se falou da sua eventual resistência a uma explosão nuclear.

    Para uma barata, não foi um mau fim de tarde. E houve ainda um momento em que a própria Gigi resolveu manifestar-se entre os humanos. Mas essa história fica para depois.

  • É para lavar, secar com rolos e matar sem dó

    É para lavar, secar com rolos e matar sem dó

    Pura Loucura parece nome de espectáculo, mas é um cabeleireiro unisexo onde, por milagre, até podemos sair do salão com o cabelo arranjado ou uma barba bem feita.

    Entramos na sala e chama-nos a atenção vermos os cabeleireiros em palco, antes de a peça começar, lavando cabeças (e o corpo do cliente) com água verdadeira, penteando com espuma verdadeira, saindo do foco com uma facilidade intrínseca.

    A peça começa, porque há um momento em que as coisas têm de ser feitas a sério, mas a seriedade não arranca e, à medida que o salão se vai enchendo de clientes, o caos parece aumentar sem parança.

    Foto: D.R.

    De quem é a culpa? Não sabemos bem, mas a vizinha de cima, que nunca se deixa ver, pode estar na causa do desassossego — uma pianista conceituada que toca piano até à exaustão, não respondendo aos apelos dos vizinhos, desesperados por um pouco de silêncio.

    Confrontos inevitáveis entre operários que, embora usem como principais instrumentos de trabalho as próprias mãos, não podiam usá-las de forma mais diferente: uma é pianista e sabe ser graciosa e intensa, balançando os dedos entre fortes acordes e elegantes gestos de pausa; os outros parecem escavacar cabeças por vocação, usando os dedos como extensões de mãos mal-intencionadas, furiosas e descuidadas, sem moderatos, nem pausas, nem dó.

    A peça vai avançando fluida e animada, com algumas piadas sobre a nossa actualidade, mas sem excessos.

    Foto: D.R.

    O cenário e os adereços são deliciosos, não só pelas cores ao estilo Barbie, mas também pelo realismo que transmitem.

    É uma comédia policial e a desgraça acontece, havendo muitos indícios e motivos para que o assassino possa ser qualquer um.

    A parte final da peça dedica-se à investigação policial, sendo o público chamado a participar. É natural que existam pessoas na assistência incumbidas de relatar o que aconteceu até ao momento do assassinato. Quando damos por nós, muitas pessoas querem testemunhar e chega a haver um elemento da assistência que é convidado a subir ao palco. Vai, faz uma chamada e conversa com a pessoa que atende.

    Foto: D.R.

    Este momento é particularmente divertido e dinâmico, porque as personagens, quando confrontadas com a verdade anunciada, maltratam o público. Algumas prometem vingança.

    Esta última parte da peça, que exige do “policial” uma grande capacidade de improviso e de encaminhamento para a resolução da peça, mostra bem a capacidade de representação do elenco.

    Uma peça com um final sempre igual, mas com um percurso inevitavelmente sempre diferente.

    Foto: D.R.

    O contacto com o público é mantido para além do esperado, prolongsndo-se  para além do fim da peça, através de uma voz-off que faz um comunicado, quando toda a gente já se encaminha para a porta de saída. É o prolongar do riso e da b ao disposição, até que o público se perca de vista,dissolvendo-se, lá fora, na noite da cidade.

    Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐☆☆☆ (7/10)

    FICHA TÉCNICA

    Autor Paul Portner

    Encenação: Michel Simeão

    Tradução: Ana Sampaio

    Cenário: Catarina Amaro

    Figurinos Andy Dyo

    Desenho de Luz: Catarina Côdea

    Interpretação:

    Diana Nicolau

    Flávio Gil

    Frederico Amaral

    Jorge Mourato

    Ruben Madureira

    Susana Blazer

    O espectáculo estreou a 9 de Setembro no Teatro Maria Matos e estará em cena até ao próximo dia 25 de Outubro.

  • Contos mirabólicos: parte quarta

    Contos mirabólicos: parte quarta

    151.

    Um Cidadão Comum

    O cidadão comum acordou, lavou os dentes, vestiu-se e saiu para protestar contra si mesmo.

    Na rua, encontrou uma multidão.

    Todos protestavam contra si mesmos.

    Primeiro ficaram contentes, depois voltaram para casa frustrados.

    152.

    Sobre Ivan, Pavel e um Tapete

    Ivan caiu no tapete.

    Pavel caiu sobre Ivan.

    O tapete subiu ao tecto por vontade própria.

    Agora Ivan e Pavel conversam sobre a gravidade.

    Sem o tapete que, entretanto, desapareceu em direcção ao espaço, porém com grande entusiasmo.

    153.

    O Silêncio de Sidorov

    Sidorov disse que ia dizer algo importante.

    Abriu a boca.

    Nada saiu.

    Todos esperaram.

    Anos passaram.

    Entretanto, mais ninguém falou.

    Por respeito.

    154.

    O Silêncio

    Um homem gritava todos os dias no meio da praça:

    — Silêncio! Silêncio!

    Um dia calou-se.

    A cidade explodiu de alegria.

    Depois, implodiu de tédio.

    155.

    História Sem Sentido

    O cavalo entrou no comboio.

    Bebeu chá.

    Adormeceu.

    Mas ninguém percebeu porque era Domingo.

    156.

    Sete Gatos

    Havia sete gatos num sótão.

    Um começou a filosofar.

    Os outros seis comeram-no por desacordo existencial.

    Depois esqueceram o motivo.

    E miaram durante três horas seguidas.

    157.

    O Homem que Caia

    Um homem caiu da janela do segundo andar. Levantou-se, sacudiu o pó e foi-se embora. No dia seguinte, caiu de novo. No terceiro dia, taparam a janela. No quarto, ele caiu do telhado.

    — Gostas de cair? — perguntou a esposa.

    — Gosto de sair. Apanhar ar.

    158.

    A Velha e o Pão

    Uma velha foi comprar pão. No caminho, esqueceu-se por que saíra. Sentou-se numa pedra.

    Depois de três horas, lembrou-se:

    — Ia morrer hoje.

    E foi-se. Sem pão.

    159.

    Um Homem Importante

    Um homem muito importante estava a atravessar a rua. Um carro parou. Outro carro parou. Um terceiro não parou.

    Agora é menos importante. Já não existe.

    160.

    A Reunião

    Reuniram-se para discutir a existência de Deus. Houve gritos, cadeiras a voar, um padre perdeu a batina.

    No fim, Deus não veio. Estava ocupado numa reunião sobre a existência dos homens.

    161.

    O homem que Caia

    Um homem caiu da janela do quarto andar, mas não se feriu.

    Então, subiu até o terceiro e caiu de novo.

    Depois, tentou do segundo, mas já não sentia emoção alguma.

    Por fim, desceu pela escada, tropeçou no último degrau e morreu.

    162.

    A Senhora e a Galinha

    Uma senhora levou uma galinha ao teatro.

    A galinha não entendeu a peça.

    A senhora também não.

    Mas, mesmo assim, bateram palmas.

    163.

    A Porta

    Um filósofo ficou preso entre duas portas.

    Atrás de si, o passado; diante dele, o futuro.

    Nenhuma das portas estava trancada.

    Mas ele esperava alguém explicar-lhe o que significava sair.

    164.

    O Cão

    Um cão latiu tão alto que acordou um general.

    O general deu um tiro no tecto.

    O tecto caiu em cima da esposa.

    A esposa gritou com o cão.

    O cão, finalmente, calou-se.

    165.

    O Velho Tchik

    O velho Tchik resolveu tornar-se invisível.

    Primeiro, tirou o chapéu.

    Depois, os sapatos.

    Depois, ainda, ficou parado, à espera.

    Passaram três horas e duas tartarugas.

    Nada aconteceu.

    Ninguém discute com o velho Tchik.

    166.

    Três Senhores

    Três senhores discutiam sobre como atravessar uma poça.

    O primeiro entrou na poça e afundou-se.

    O segundo saltou e desapareceu em pleno ar.

    O terceiro ficou a observar os dois.

    E, no entanto, morreu ali, de causas naturais.

    Às vezes é assim.

    167.

    A Carta

    Recebi uma carta.

    Abri.

    Estava escrita com tinta invisível.

    Li tudo.

    Chorei. Depois, lembrei-me que, afinal, sou analfabeto.     

    168.                                                               

    A Cadeira

    Havia uma cadeira vazia no centro da sala.

    Todos olhavam para ela como se fosse um objecto importante, misterioso e até letal.

    Na verdade, um homem tentou sentar-se nela e desapareceu.

    Desde então, todos a tratam com respeito.

    Menos o gato. O gato sabe das coisas.

    169.

    O Homem que Sabia

    Um homem sabia, exactamente, o que dizer.

    Mas ninguém lhe perguntava nada.

    No fim, por falta de uso, esqueceu-se de tudo.

    170.

    A Velha

    Uma velha caiu da janela.

    Depois, caiu outra.

    Depois, uma terceira.

    Quando caiu a quarta, já ninguém prestava atenção ao fenómeno.

    171.

    O Ruído

    Alguém ouviu um ruído.

    Chamaram um doutor.

    O doutor diagnosticou ruído crónico.

    Prescreveu silêncio.

    O problema do ruído não melhorou, mas todos fingiram que sim.

    172.

    O Pássaro e a Sopa

    Um pássaro entrou, a voar, na sopa de Gromov.

    Gromov disse “Aha!”

    O pássaro respondeu “Nhé”.

    E afundou-se com dignidade.

    Gromov, não podendo comer a sopa, ficou com fome.

    173.

    O Silêncio

    Ninguém dizia nada.

    Então, alguém perguntou : “É isto o silêncio?”

    Uns concordaram, outros discordaram.

    E o barulho começou.

    174.

    O Ovo

    Um homem encontrou um ovo no bolso.

    Não se lembrava de ter galinha.

    Nem bolso.

    Encolheu os ombros e atirou o ovo pela janela.

    175.

    A Fila

    Formou-se uma fila para nada.

    O primeiro da fila esperava desde 1903.

    O segundo só queria perguntar as horas.

    O terceiro ficou por ali porque não tinha nada para fazer.

    O resto da multidão seguiu-os por pura educação.

    176.

    O Desaparecimento

    Hoje desapareci por engano.

    Ninguém notou.

    Quando voltei à realidade, tinham ocupado o meu lugar com um piano.

    Tentei protestar, mas a música era ensurdecedora.

    Em dó menor.

    177.

    A Cadeira do Diabo

    Disseram que era a cadeira do diabo.

    Ninguém se queria nela sentar.

    Até que se sentou o carteiro.

    Depois, o gerente dos correios.

    Ambos desapareceram numa nuvem de enxofre.

    Agora a cadeira está vazia porque todos têm medo dela.

    178.

    O Grito

    Alguém gritou “Socorro!”

    Os outros responderam “Aqui não!”

    E voltaram a tomar chá. O grito prolongou-se por mais três dias, depois apenas ficou um eco de si mesmo

    179.

    A Tempestade

    Choveu tanto que caiu um peixe do céu.

    Depois outro.

    Depois um piano.

    Depois um homem nu.

    Então, a chuva parou.

    E ninguém jamais falou disso.

    180.

    O Senhor Fiodor

    O Senhor Fiodor saiu para comprar fósforos.

    Caiu um piano em cima dele.

    Os fósforos sobreviveram incólumes.

    Sempre serviram para acenderem as velas no velório de Fiodor.

    181.

    A Senhora K.

    A senhora K. saiu para passear com um pássaro amarrado à cabeça.

    Quando voltou, só havia a corda.

    E um bilhete dizendo: “Afinal, voei”.

    182.

    O Caderno

    Escrevi um caderno inteiro só com a palavra “não”.

    No fim, publiquei-o como poesia.

    Ganhei um prémio.

    Recusei-o.

    183.

    O Ensaio

    Três homens ensaiavam uma peça sem saber qual. Repetiam palavras soltas e batiam palmas. No final, o público aplaudiu. Mas não havia público. Nem palco. Nem homens. Apenas um eco.

    184.

    A Discussão

    Ivan Ivanovitch disse: “Hoje é Terça-Feira”.

    Petrov respondeu: “Não”.

    Ivan Ivanovitch evaporou-se.

    Petrov olhou para o tecto e sussurrou: “afinal, é Terça-Feira”.

    185.

    O Gato

    Um gato escreveu um romance, mas ninguém o leu. Na verdade, publicou-o sob pseudónimo: “Dostogato”. Ganhou, eventualmente, o Prémio Literário Nacional. Quando revelaram a sua identidade, foi preso por crime de falsa identidade de espécie. Agora escreve na prisão. Poesia.

    186.

    A Mulher que Não Piscava os Olhos

    Uma mulher passou a vida inteira sem piscar os olhos. Diziam que era por orgulho. Quando morreu, ninguém fechou os seus olhos. Por respeito.

    187.

    O Homem Sem Nome

    Um homem esqueceu-se do seu nome. Chamaram-no de várias coisas: Vassili, Pavel, Tigre.

    Ele gostou mais de “Tigre”.

    Começou a rugir nas reuniões.

    188.

    O Tapete

    Debaixo do tapete morava um homem.

    Um dia alguém varreu a casa.

    Agora o tapete é só um tapete.

    E o homem? Uma lembrança — ou talvez pó.

    189.

    O Gato do General

    O general tinha um gato que só falava búlgaro.

    O general não falava búlgaro.

    Passaram, assim, vinte anos em silêncio tenso.

    Até que o gato desertou.

    190.

    A Mulher Invisível

    A mulher decidiu tornar-se invisível.

    Primeiro parou de falar.

    Depois parou de sair.

    Depois, já ninguém sabia se ela existiu.

    Mas ainda enviam as contas em nome dela.

    191.

    O Cego

    Um cego procurava a luz.

    Acendeu uma vela.

    Nada.

    Acendeu outra.

    Incendiou a casa.

    — Agora, sim, vejo — disse ele, sufocando no meio das chamas.

    192.

    A Velha e o Número 7

    Uma velha escreveu o número 7 na parede.

    Depois, olhou para o número durante três horas.

    Depois, foi dormir e sonhou com o número 8.

    Morreu durante o sono.

    Morreu confusa.

    193.

    O Elevador

    Entrei no elevador para subir.

    O elevador decidiu descer.

    Chegámos ao andar -7, onde morava uma galinha.

    A galinha pediu a senha para entrar.

    Não a sabia.

    Voltei pelas escadas, filosofando.

    194.

    A Conferência

    Na conferência sobre o silêncio, ninguém disse nada.

    Um homem perguntou, “por quê?”

    Foi expulso sob vaias entusiásticas.

    195.

    O Anão

    Havia um anão invisível na gaveta da cozinha de Arkady.

    Todas as manhãs ele trocava os talheres de lugar.

    Arkady suspeitava da esposa.

    A esposa suspeitava do gato.

    O gato sabia de tudo, mas era anarquista e não disse nada a ninguém.

    196.

    A Batata Metafísica

    Disseram a Yelena que aquela batata era sagrada.

    Ela fritou-a mesmo assim.

    Ao primeiro mordisco, viu Deus.

    Ao segundo, viu a conta do gás.

    Ao terceiro, não viu mais nada porque estava morta.

    197.

    Sem Chapéu

    Um homem saiu de casa sem chapéu.

    No caminho, perdeu a cabeça.

    198.

    As Velhas

    Uma velha caiu da janela.

    Depois outra.

    Depois outra.

    Depois outra.

    Depois outra.

    Depois outra.

    Depois o administrador fechou a janela.

    As velhas que restavam ficaram decepcionadas.

    199.

    Silêncio

    Fez-se um silêncio tão grande que engoliu dois gatos.

    Ninguém ouviu nada.

    Afinal, era um grande silêncio que aumentou com a ausência dos gatos.

    200.

    O Peixe Inteligente

    Um peixe foi convidado para um congresso.

    Falou sobre a inutilidade do discurso.

    Todos anotaram as suas sábias palavras.

    Depois, serviram-no com batatas.

    João Pereira de Matos, Lisboa, é escritor e investigador no CHAM – Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa.

  • Os espelhos são revelações

    Os espelhos são revelações

    Aqui há dias estava eu a descer uma dessas ruas lisboetas – dessas como quem diz, que elas até são todas diferentes – quando me deparei com um homem especado a encarar-se numa montra. O homem devia estar nos seus trinta e muitos, quarenta anos. Não é que isso seja para aqui chamado, mas não pude deixar de reparar. Há sempre coisas em que as pessoas não podem deixar de reparar nas outras: a falácia do tempo no corpo, a perspicácia da língua e para que lado se pende a cabeça.

    Posso assegurar ter aprendido que uma cabeça não tem necessariamente de tombar para a esquerda ou para a direita. Notemos que pairar centrada acima dos ombros já é uma tarefa árdua por si só. Realmente, é preciso mesmo ter cuidado com isso de se virar a cabeça para o lado. Há risco de lesão permanente: uma espécie de torcicolo que afecta a imparcialidade e o pensamento crítico. Mas o que é que eu sei? Muitas das vezes até ando é com a cabeça na lua. 

    Esse tal homem tinha a perna esquerda engessada e suportavam-no duas muletas. A montra revelava carteiras de pele de todos os formatos e tamanhos. Primeiro desconfiei que ele não tivesse qualquer interesse em comprar uma carteira. Afinal de contas, não tinha nas suas roupas qualquer bolso onde a pudesse guardar. Depois, confirmei a suspeita quando o vi a olhar-se nos olhos, a reconhecer velozmente o seu reflexo. Talvez ele se reconhecesse na própria cabeça, mas não no corpo. Há corpos que não pertencem às cabeças, ao espírito ou à vontade. Há corpos que não passam de empecilhos. Pois ele instigava isso no seu esqueleto. O olhar escorregava-lhe pela perna engessada, para a sua condição aleijada. No meio do ruído urbano, o tempo suspendeu-se para que eu pudesse ouvir o seu pensamento: Foda-se, e agora?

    E agora? Perguntei-me também. Depois é que pensei, foda-se. Aqui a ordem inverteu-se, é claro, mas não seria a angústia a mesma? Ele estava ali sem saber o que fazer e eu estava ali a interromper a minha acção para perceber como é que ele sairia dali. Quando se olha em frente tem-se por obrigação o acto de reconhecimento do outro. Errado. Não se pode afirmar que seja uma obrigação, mas vá lá, até parecia muito bem que fosse. O grande equívoco dos nossos tempos, dos vivos e dos mortos, é que existe uma universalização do objecto. O espelho transcendeu-se para além da sua composição física e podemos encontrá-lo até numa pele opaca. Distanciamo-nos do ser que se insurge à frente do nosso nariz para ver nele justamente as nossas próprias narinas que abrimos para farejar um narcisismo nauseabundo. Se isto não convida ao vómito então não sei. As pessoas já devem é sofrer de uma intoxicação crónica e assintomática. Essas coisas das condições assintomáticas não são de fiar. Vai-se a ver e o caixão já está aberto.

    Mas lá estava o homem, fora do caixão, a começar a reagir. Começou por fazer força nas mãos até conseguir posicionar a coluna e dar um forte anseio. Preparava-se para sair dali, para seguir em frente, logicamente. Errado. Quando dei por ele, estava a caminhar para trás. Assim, dando passos largos ao contrário, com foco nas pedras da calçada. Desceu toda a rua de costas como quem quer voltar atrás no tempo. Terá feito aquilo por ingenuidade ou por estupidez? Sejamos francos, ninguém anda por aí a andar para trás. Talvez ele fosse detentor de um poderoso truque de magia. Talvez ele conseguisse mesmo enganar o tempo e chegar ao fim da rua e tudo aquilo ter desaparecido. As muletas, o gesso, o ar melancólico.

    E ali estava eu a testemunhar a possibilidade de um mundo do avesso. Não me parecia que andar para trás pudesse ter algo de bonito, mas o homem da perna partida desenganou-me com aquela sua decisão transgressora. Seja lá porque motivo for, é preciso ter coragem para se transgredir a regra. Pressupõe-se um acto rebelde como revolucionário, como ponto de partida para um acto de fé. Dizer que não traz muito mais responsabilidade do que dizer que sim. Andar para trás é muito mais poético do que andar para a frente. Acredito que a beleza resida mesmo aí. Num corpo que se permite ir ladeira abaixo, no sentido contrário ao cardume. Na tentativa de uma redefinição de realidade. E tão pouco lhe interessou se existia qualquer lunático que fosse com os olhos postos nele.

    Foi aí que me dirigi apressadamente até ele. Depois disto não podia deixar de querer confirmar a limpidez do meu próprio espelho, então perguntei-lhe: “Está a andar para trás, para impedir que isso lhe tenha acontecido?”. Ao que ele me respondeu prontamente: “Não. Que estupidez. A fisioterapeuta é que me mandou andar assim”.

    Texto e iilustrações de Diana Canha (artista media).

  • O eclipse da Lojinha dos Horrores

    O eclipse da Lojinha dos Horrores

    Há dias vi o filme A Lojinha dos Horrores (Little Shop of Horrors, Frank Oz, 1986) e fiquei com as canções a bailar na cabeça. Nunca tinha visto. Aliás, grande parte do cinema popular desse período passou-me ao lado. Estou agora a conhecê-lo, e tenho vindo a notar que, nos filmes de então, era comum assistir a bons enredos. Enredos bem construídos, com personagens ou personagens-tipo convincentes, e acção quanto baste para nos divertir e comover. Não sou grande conhecedora da Sétima Arte, pelo menos não como gostaria de ser, mas não precisamos de recorrer aos mais prestigiados cineastas como Kurosawa, Tarkovsky, Renoir, entre muitos outros, para reconhecer a beleza da cinematografia ou a qualidade da narrativa. Ao contrário do cinema de entretenimento hodierno, baseado sobretudo em readaptações de filmes animados ou histórias de super-heróis, há bons filmes com boas histórias nos anos de 1980 e 1990. Um belíssimo exemplo disso é Little Shop of Horrors, uma readaptação do filme de 1960 (real. Roger Corman, com argumento de Roger Corman e Charles B. Griffith) que, por sua vez, é uma adaptação de um musical da Broadway. O curioso é que as adaptações ou readaptações destes períodos retêm mais sumo narrativo do que muitas outras que, nos últimos anos, têm acumulado gastos de produção exorbitantes para poderem configurar (ou melhor, desfigurar) personagens de bandas desenhadas ao estilo da tendência política do momento.

    Tornando à nossa loja dos horrores. A qualidade argumentativa reveste-se de uma aparente simplicidade, porém recorre a elementos cénicos e artifícios que revelam profundidade e complexidade simbólica. Farei uma digressão por alguns dos elementos em que reparei, procurando não revelar grande parte do enredo, mas assinalar minúcias que dão relevo à história que o filme conta. É bem possível que este filme nos ensine mais sobre a narratividade do cinema do que julgamos (além disso, o facto de se basear num musical da Broadway também explica, e justifica, isso).

    bokeh photography of condenser microphone
    Assim, o primeiro espaço que o trio descreve, cantando, é o bairro insalubre em que a loja – uma loja de plantas e flores – se encontra.Assim, o primeiro espaço que o trio descreve, cantando, é o bairro insalubre em que a loja – uma loja de plantas e flores – se encontra. Fotografia Israel Palácio. Domínio Público.

    Há um pormenor curioso no início que vai assinalando cada parte do filme: um trio de cantoras prenuncia e descreve o espaço e cenário em que a trama se desenrola. Surgem trajadas a rigor e são elas que abrem e fecham as cenas mais importantes. Ou seja, quando entramos no filme já existe esse elemento de cenografia, de artificialidade, já sabemos que a história será alegórica ou fabulosa. A música, por outro lado, tem também uma componente narrativa, dando volume ao espaço e textura às motivações das personagens.

    Assim, o primeiro espaço que o trio descreve, cantando, é o bairro insalubre em que a loja – uma loja de plantas e flores – se encontra. Outro pormenor a salientar é a maioria das cenas decorrer à noite, o que, simbolicamente, é peculiar, já que a noite é o tempo dos sonhos e mistérios, da magia, do milagre, do insondável. Talvez a pobreza e sujidade do bairro, associada à noite, releve a fantasia? Paira a pergunta.

    Nessa loja trabalham três pessoas: Seymour, Audrey e o dono da loja. A loja não regista grandes lucros. Seymour dedica-se com empenho a todas as plantas e sugere que se dê protagonismo a uma curiosa planta que ele encontrou numa outra loja depois de um relâmpago durante um eclipse o ter assustado. Põem então a tal planta na montra. Nesse minuto, entra logo um cliente que compra 50 rosas! E logo outra cliente pede ramalhetes de flores para um banquete! E tantos outros! Resumindo: a planta chamava clientes. Seymour fica com a planta a seu cargo. Todos ficam felizes, e a loja vai multiplicando as vendas.

    four red roses flowers
    Nesse minuto, entra logo um cliente que compra 50 rosas!” Fotografia de Gian D. Domínio Público.

    A dado momento, ao cuidar das plantas, Seymour fere-se num dedo. A estranha planta, a que ele chamara Audrey II em homenagem à sua colega de trabalho por quem estava apaixonado, reage de imediato ao perceber que uma gota de sangue brotara do dedo de Seymour. A associação entre a Audrey humana e a Audrey planta adensa-se para lá da homonímia. Seymour dedica-se inteiramente à planta, dando-lhe do seu sangue para a manter viva e saudável. Entretanto, Audrey tenta sobreviver a um companheiro que a maltrata (um vil dentista que se regozija com o sofrimento dos seus pacientes – também aqui haveria muito a dizer, mas não me alongarei). A Audrey humana torna-se a contraparte simbólica da Audrey vegetal: enquanto uma é vilipendiada e malquerida pelo companheiro, a outra recebe todas as dádivas de quem dela cuida. Sem querer revelar tudo, há, aliás, um momento em que a anulação de uma Audrey parece fortalecer o papel da outra Audrey no filme. É quase vampiresco. Tal relaciona-se, por via simbólica, com o eclipse que deu origem à aparição da planta: o eclipse, além de popularmente considerado um sinal de mau agouro, representa o devoramento da luz pela obscuridade, ou do astro pelo monstro. O astro, sol na vida de Seymour, é Audrey. O monstro é a planta, Audrey II. Seymour é o agente de mediação entre ambas: não obstante a sua ternura e cuidado, é a partir das suas acções que a semente do mal cresce e se fortalece. A partir daqui o desfecho é bastante óbvio, mas nem por isso menos impressionante, já que, em última análise, a repercussão do gesto de amor e devoção de Seymour torna-se a base para uma invasão alienígena.

    O eclipse, além de popularmente considerado um
    > sinal de mau agouro, representa o devoramento da luz pela obscuridade.
    > Fotografia de R. Perucho. Domínio Público.

    A Lojinha dos Horrores não tenta provar nem ensinar nada: é um filme divertido, baseado num musical, com elementos do cinema de horror vistos num matiz de fantasia. Talvez devamos revisitar mais vezes os filmes deste período para nos lembrarmos daquilo que o cinema – cinema sem tretas nem politiquices – significa. Talvez os canais de televisão e plataformas de streaming possam transmitir e divulgar mais vezes os filmes dos anos de 1960, 1970, 1980, para nos lembrarmos daquilo que o cinema pode proporcionar como experiência cultural de (enorme) valor. Claro que há bons filmes circulando por aí (abençoados festivais de cinema!), mas confesso que se torna cada vez mais difícil sermos surpreendidos, pela positiva, numa sala de cinema.

    Eduarda Gil Barata é poetisa e doutorada em Estudos Literários Comparados pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

  • A austeridade de não ser

    A austeridade de não ser

    O autocarro tardou a arrancar

    Todo o peso da tristeza

    Todo o peso das almas que carregava

    Era grande, demasiado grande

    O comboio, logo depois

    Não chegou a partir

    Por excesso de carga emocional.

    Ainda pensei em ir de avião

    Para descobrir apenas

    Que estava cheio

    Devido ao peso da indiferença 

    Soube nesse momento de um barco

    Que se afundara

    Tal o peso da ansiedade

    Da angustia acumulada

    Da tristeza consumada.

    E voltei para casa

    E pensei e pensei

    E voltei a pensar

    Na minha vida

    E na de todos

    E chorei

    Chorei por mim, chorei por todos.

    E soube nesse momento

    Que Portugal não era meu.

    Portugal pertencia a outros

    Os que nos esmolam

    Dando tudo ao mesmo tempo

    Tirando mais do que dão

    Fazendo de nós mendigos

    Meros pedintes, meio coxos, meio cegos

    E fui para o Cais do Sodré

    Sem saber ao certo para onde ir

    Sem saber nada, estarrecido

    Apenas querer um barco, apanhar

    Na esperança de se afundar.

    ***

    Luís Serra Santos é poeta lisboeta e pugilista nos tempos livres

  • Invasão

    Invasão

    Não é sobre quem tem razão. É sobre o que se sente.

    Todas as pessoas que invadem um espaço buscam um lugar onde possam continuar a vida que lhes foi dada.

    Todos os homens que usam capacetes militares habitam a mesma nação: a dos que foram instruídos para impedir os desejos dos outros, ainda que não entendam os motivos.

    Com o tempo, o olhar tatua-se de um vermelho intenso e perpétuo. 

    Bruno Rama é ilustrador editorial (©Direitos reservados)

    Texto de Zuraida Guedes.