
Título
A Fazedora de Reis – A vida de sedução, Intriga e Poder de Pamela Churcill Harriman
Autora
SONIA PURNELL (Tradução: Francisco Agarez)
Editora
Dom Quixote (Julho de 2026)
Cotação
19/20
Recensão
Sonia Purnell é uma biógrafa e jornalista britânica, autora de quatro biografias, entre as quais Clementine: The Life of Mrs. Winston Churchill, dedicada à mulher de Winston Churchill, e A Woman of No Importance, sobre a espiã norte-americana Virginia Hall, obra que lhe valeu o Plutarch Award de Melhor Biografia, em 2020. Trabalhou em órgãos de comunicação como The Economist, The Telegraph e The Sunday Times e é reconhecida pela investigação rigorosa e por uma escrita de forte pendor narrativo. A Fazedora de Reis, publicada originalmente em 2024, é a sua mais recente biografia e retoma, de certa forma, o universo dos Churchill que Purnell já havia explorado na biografia de Clementine Churchill.
Até receber este livro de quase quinhentas páginas (sem contar com as notas!) nunca ouvira falar de Pamela Churchill Harriman. À data da sua morte, em fevereiro de 1997, via pouca televisão (como agora, aliás) e, como tal, não me dei conta do aparato que rodeou o seu funeral. Bill Clinton, então presidente dos EUA e seu amigo, prestou-lhe uma sentida homenagem no seu discurso, em que destacou o seu trabalho como embaixadora e o serviço que prestou aos Estados Unidos. O corpo de Pamela foi levado de volta para os EUA e o funeral realizou-se na Catedral Nacional de Washington.
Seguindo, de algum modo, as pisadas da sua tia-bisavó Jane Digby (1807–1881), Pamela, ambiciosa e pouco dada a escrúpulos ou pudores, usou os recursos de que dispunha, entre eles, a beleza, o charme, a inteligência social e a capacidade de sedução, para se aproximar dos círculos onde o poder se concentrava. Purnell recupera, assim, uma mulher que durante décadas foi sobretudo conhecida pela sua vida amorosa e pela reputação de cortesã. Com esta obra procura demonstrar que, por detrás dessa imagem, existia uma mulher politicamente astuta, com uma notável capacidade para construir relações e influenciar homens poderosos.
A protagonista desta biografia é Pamela Digby, que casou, em 1939, com Randolph Churchill, filho de Winston Churchill. Durante a Segunda Guerra Mundial, a sua proximidade com Churchill e com figuras políticas e diplomáticas norte-americanas permitiu-lhe desempenhar um papel informal de intermediária entre britânicos e americanos. Purnell defende mesmo que Pamela contribuiu para aproximar os dois países e para a obtenção de apoio americano à causa britânica. É uma das dimensões mais controversas da biografia, na medida em que o papel que Purnell lhe atribui na política de guerra parece, para alguns críticos, maior do que aquilo que as evidências permitem concluir.
O livro é, sem dúvida, resultado de um trabalho hercúleo de pesquisa. Uma biografia construída a partir de inúmeras e distintas fontes, muitas delas inéditas ou pouco exploradas, que são documentadas nas extensas notas finais. Mas o mérito de Purnell vai muito além da quantidade de informação recolhida. A autora consegue articular documentos, testemunhos e memórias de modo a construir uma narrativa que, apesar da sua extensão, se lê como um romance. Um romance repleto de personagens, intrigas, relações, mudanças de cenário, reviravoltas e, sobretudo, uma protagonista cujo destino queremos conhecer, mesmo sabendo, desde o início, que morrerá no fim da história.
A capacidade de transformar uma investigação biográfica numa narrativa envolvente é um dos maiores méritos da obra. Purnell cria uma personagem e acompanha a sua metamorfose ao longo de mais de sete décadas. Pamela passa de jovem aristocrata de uma família com estatuto, mas poucos recursos, a nora de Winston Churchill, socialite internacional, esposa de homens poderosos, cidadã norte-americana, angariadora de fundos do Partido Democrata e, finalmente, embaixadora dos Estados Unidos em França, cargo para o qual foi nomeada por Bill Clinton em 1993, aos 73 anos.
De facto, o modo como a biógrafa consegue juntar e articular todos os testemunhos obtidos nesta biografia tem de ser relevado. Créditos também à sua editora, a quem Purnell agradece a colaboração na construção de uma narrativa tão extensa e, simultaneamente, tão fluida.
Mas há uma questão que perpassa toda a obra e que não pode ser ignorada: até que ponto Purnell procura recuperar a reputação de Pamela ou, em alguns momentos, acaba por construir uma imagem demasiado favorável da sua protagonista? A intenção de contrariar a visão tradicional de Pamela enquanto simples cortesã e oportunista é evidente. Vários críticos reconheceram esse esforço de reavaliação, considerando Kingmaker uma espécie de recuperação de uma mulher cuja influência política e diplomática terá sido obscurecida pela sua vida sexual e social. Outros, porém, consideraram que Purnell vai longe demais na defesa da importância histórica da sua biografada.
Não obstante, Pamela não precisa de ser transformada numa heroína para ser reconhecida como uma mulher extraordinariamente hábil na construção e no aproveitamento das redes de poder. A sua influência na política norte-americana parece menos discutível nas décadas finais da sua vida. Em Washington, tornou-se uma importante angariadora de fundos do Partido Democrata, criou o comité de ação política PamPAC e percebeu, antes de muitos outros, o potencial político de Bill Clinton, contribuindo para a sua ascensão. A nomeação para embaixadora em França, em 1993, constituiu o culminar dessa trajetória.
A biografia ganha, por isso, uma dimensão que ultrapassa a história de uma mulher sedutora que colecionou amantes e casamentos. É também uma reflexão sobre a forma como as mulheres que procuram poder são julgadas de maneira diferente dos homens. A própria Purnell questiona a redução de Pamela à sua sexualidade ao mostrar como os seus relacionamentos com homens poderosos foram simultaneamente instrumento de ascensão, fonte de influência e motivo para que a sua actuação política fosse desvalorizada. O problema é que, ao tentar corrigir esse desequilíbrio, a autora corre por vezes o risco de fazer o movimento inverso e de empolar a importância da protagonista.
Ainda que muitos críticos aludam, portanto, à tentativa da historiadora de construir uma imagem mais nobre de Pamela do que aquela que prevaleceu durante décadas, não há dúvida de que estamos perante uma obra de grande valor. Não só pelo trabalho de investigação, mas também pelas fontes a que Purnell conseguiu aceder e pela capacidade de lhes dar forma narrativa. Até a autora reconhece que Pamela permaneceu, em certa medida, um enigma. Quanto mais se investigava a sua vida, mais difícil parecia separar a mulher que ela foi da personagem que construiu para si própria.
As referências ao atual presidente dos EUA também deixam os republicanos incomodados. É natural, tão-só esse homem é capaz de deixar qualquer pessoa de cabelos em pé. Mas este livro não é sobre ele, é sobre Pamela Churchill Harriman e sobre a forma como ela aprendeu a aproximar-se do poder, a reconhecer quem o detinha e, principalmente, a perceber quem poderia vir a detê-lo.
O valor desta biografia reside ainda na forma como somos instruídos acerca das dinâmicas das relações políticas e diplomáticas entre o Reino Unido, os EUA e, mais tarde, a França. Pamela esteve próxima de alguns dos acontecimentos e das figuras mais relevantes da história política do século XX, de Winston Churchill a Averell Harriman e de Bill Clinton a Gorbachev. A sua trajectória permite acompanhar, a partir de uma perspetiva muito particular, transformações profundas na política internacional.
Vale realmente a pena ler esta lição de História. Mesmo que a personagem de Pamela seja, por vezes, construída de forma empolada – como poderão confirmar os leitores mais céticos e/ou rigorosos –, a pesquisa e a narrativa biográfica são, com efeito, de louvar.
Resta-me agradecer a Sonia Purnell a história de uma das mulheres mais controversas e influentes do século XX e os capítulos de História recente que, por intermédio de Pamela, nos dá a conhecer.
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