Milhares

Hoje fui ao banco fazer os depósitos da empresa. Não tenho um tostão, mas carrego os milhares dos outros. Não gosto de carregar os milhares dos outros. Tanto podem ser milhares de euros, como milhares de micróbios, ou até mesmo milhares de bit-culpas.

Quem é que sabe? Pois.

É que sempre que levo aquele envelope no bolso começo a agir como suspeita.

Suspeita, sim. Meto a mão no bolso, olho por cima dos ombros, e ponho-me a andar de forma apressada como quem foge ao fisco. Não gosto. Não gosto mesmo nada de carregar os milhares dos outros. Sinto que a qualquer momento um mendigo me pode fazer uma placagem. Sabem, como no futebol americano. Se calhar, não sabem, isso não há cá. Não há cá, mas é o futebol americano, que mendigos há muitos. Aos milhares. Há uns que até saem das Amoreiras, tiram a gravata e depois se sentam à chinês a pedir uma moedinha. Mas não me quero dispersar. Eu nem gosto de porcos-mealheiros.

Estava eu a dizer, hoje fui ao banco fazer os depósitos da empresa. Estava nervosa.

Sempre que vou lá tenho de esperar pela minha vez, e eu não gosto de esperar pela minha vez. Os civilizados esperam sentados, mas eu não me enquadro nessa pintura.

Então, comecei a andar de um lado para o outro. Para trás e para a frente. Da esquerda para a direita. Às voltas. Sempre com a mão no bolso, a proteger o envelope. A proteger os milhares dos outros. E depois decidi pôr-me a contar as câmaras de vigilância. Contei 12. Naquele claustrofóbico espaço, contei 12. Eram redondas, pretas e brancas. Um jogo de damas pregado no teto. Que jogo estúpido. Voltei a contá-las algumas vezes.

Quando estou nervosa perco-me na contagem. Um segurança começou a dirigir-se a mim e eis que surge a conversa:

(o eu começa a interpretar-se a si e ao outro)

S: Porque é que está a contar as câmaras de vigilância?

Eu: Porquê, não posso?

S: O que é que tem aí?

Eu: O que você não tem aí.

S: O que é que está aqui a fazer?

Eu: Pergunto-lhe o mesmo.

S: Quem faz as perguntas sou eu.

Eu: Quem faz as perguntas sou eu.

S: Bom.

Eu: Bom.

(o eu recomeça a contar as câmaras para se acalmar)

Eu: Você faz parte dos outros?

S: Como?

Eu: Coma.

(S começa a perder a paciência)

Eu: Eu carrego os milhares dos outros. Você é os outros? Estas câmaras são suas?

S: Esse envelope não é seu?

Eu: Não.

S: Roubou-o?

Eu: Não. Acho que não. Estarei a roubá-lo?

S: Você tem aspecto disso.

Eu: Você também.

S: Como?

Eu: Coma. Você tem mais aspeto de roubar do que eu. Estas câmaras estão aqui para me proteger de si. Tanto quanto sei você pode ser um mendigo fardado.

(o eu cai ao chão, s faz-me uma placagem)

Perdi-me. Estou a fazer de quem? De mim ou do segurança? Tenho mais aspeto de quê, de mim própria ou dele? Ai merda. Então mas, eu sou eu ou sou ele? Ou ele é ele, ou ele sou eu? Sou os dois? Ou não sou nenhum? Eu acho que hoje nem fui ao banco. Ia ao banco fazer o quê? Eu não tenho um tostão, já disse. Mas havia um envelope… um envelope com os milhares dos outros. Eu só carrego os milhares dos outros.

Já sei. Vou pedir acesso às câmaras de vigilância. Elas vão-me provar se estive.lá.

Diana Canha é artista media.

Ilustrações: Ruy Otero

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