
Título
Cai, bomba!
Autor
GERRIT KOUWENAAR (tradução: Maria Leonor Raven)
Editora
Dom Quixote (Abrill de 2026)
Cotação
17/20
Recensão
Gerrit Kouwenaar (1923–2014) é uma das figuras maiores da literatura neerlandesa do pós-guerra. Poeta, jornalista e tradutor, teve actividade clandestina durante a ocupação nazi dos Países Baixos e esteve ligado à esquerda holandesa e a movimentos literários de vanguarda, tornando-se numa das vozes centrais do experimentalismo neerlandês. Cai, bomba!, publicado originalmente em 1950, quando o autor tinha 26 anos, foi a sua primeira obra em prosa e chega agora a Portugal, editada pela Dom Quixote.
O romance tem pontos de contacto com a vida do próprio autor, razão pela qual é também classificado de autobiográfico. No posfácio, o poeta e ensaísta Wiel Kusters, especialista da obra de Kouwenaar, cita o próprio autor a propósito do protagonista, Karel Ruis: também ele, “nesse final de tarde de 9 de maio de 1940, olhava aborrecido pela janela da sala da casa paterna e também para mim começou no dia seguinte a invasão do caos e da destruição” (p. 116). Wiel Kuster prossegue sobre como a guerra, ainda que previsível, terá significado uma rutura total com a vida do então jovem escritor. Depois de 1940 transformou-se noutra pessoa e, segundo Kuster, terá sido “a consciência e experiência dessa fratura” que terá formado o autor como “poeta e prosador”, tornando-se, posteriormente, “numa das figuras principais” da designada “explosão experimentalista nos Países Baixos” (p. 116).
Karel Ruis tem dezassete anos e está farto. Farto da conversa sobre a guerra, farto da família, farto da rua, está farto de tudo. Karel chega mesmo a desejar que as bombas caiam e que a cidade arda. O experimentalismo de Gerrit Kouwenaar transporta-nos de forma poética e divertida para lugares facilmente reconhecíveis. O fim da adolescência e início da juventude, lugares marcados pela arrogância e a impaciência, fazem parte da morada de Karel. Mas também o “bairro extremamente excitante que oferecia muitas coisas com que sonhar na cama”, como as “mulheres pintadas nas montras vermelhas” (p. 47).
A pedido do seu tio Robert, Karel vai entregar uma carta à amante daquele, uma mulher judia, com uma filha, Ria. É aí que a história muda de tom. Karel apaixona-se sem ter tido tempo de perceber o que isso significa, e perde o objeto dessa afeição quase de imediato, quando mãe e filha fogem perante o avanço nazi. Pouco depois, o tio morre no bombardeamento. A guerra chegou à cidade sem que ele tenha dado conta do impacto até ao momento em que deitado de costas, “o frio de terra entranhava-se entre as suas espáduas” (p. 111), com toda a gente morta, eventualmente por causa do seu desejo leviano e presunçoso de guerra, para acabar com o seu tédio.
O que distingue este livro de tantos outros sobre a Segunda Guerra Mundial é a forma. A linguagem é simples, e cada palavra parece escolhida com precisão cirúrgica, mas sem sentimentalismo nem solenidade ornamental. Lê-se como prosa poética. A personagem Karel é construída sem heroísmo ou vitimização, como adolescente que é, apresenta-se ingénuo e arrogante, sem que Kouwenaar o condene, tão-pouco o absolva. Deixa-o ser o que é, com toda a crueza e toda a ternura que isso implica.
É curioso e, simultaneamente, inquietante observar o número de romances dessa época que se têm reeditado e quantos outros se têm escrito sobre a Segunda Guerra Mundial. Cai, bomba! junta-se a Matadouro 5, de Kurt Vonnegut, nessa linha de obras que tratam um período negro da história da humanidade com um humor e com o desapego que reflete a distância necessária. São lembretes de que há tanto a aprender com esse passado demasiado recente e ostensivamente presente. E todavia…
Cai, bomba! é uma novela curta e incisiva que permanece.
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