Durante os últimos quinze dias, a Biblioteca do PÁGINA UM recebeu um novo conjunto de obras que reúne romance histórico, biografia, literatura japonesa contemporânea, ficção de inspiração musical, crónica e um clássico da literatura brasileira. Entre os títulos agora incorporados encontram-se livros de Sonia Purnell, Saki Kawashiro, Evie Woods, Yoko Mure, Machado de Assis, Luísa Sobral e Paulo M. Dias.
As novas entradas percorrem universos tão distintos como a Idade Média portuguesa, os bastidores da política internacional, a gastronomia como espaço de reconciliação, a memória inscrita na música, a observação do quotidiano e a ficção literária. Esta secção regista a chegada destas obras ao acervo do PÁGINA UM, apresentando os respectivos autores, temas e editoras.
Foto: Prateek Katyal
Um Nobre, um Frade e um Camponês Entram numa Taberna, de Paulo M. Dias, reúne episódios da história medieval portuguesa e dos inícios da Modernidade através de pequenas narrativas centradas em figuras anónimas e acontecimentos do quotidiano. Entre a micro-história e a história social, o livro percorre temas como a justiça, a guerra, a doença, as relações de poder e os modos de vida, revelando um passado frequentemente mais próximo do presente do que à primeira vista poderá parecer.
Paulo M. Dias é historiador e investigador do Instituto de Estudos Medievais da NOVA FCSH, onde desenvolve o seu doutoramento em História Medieval. Tem dedicado parte significativa do seu trabalho à divulgação histórica, sendo cofundador do podcastFalando de História e autor de várias obras destinadas ao grande público, procurando aproximar a investigação académica dos leitores.
Publicado pela Ideias de Ler, Um Nobre, um Frade e um Camponês Entram numa Taberna chega à biblioteca do Página Um como uma obra de divulgação histórica que combina rigor científico e narrativa acessível para explorar diferentes dimensões da sociedade portuguesa medieval.
A Fazedora de Reis, de Sonia Purnell, acompanha a vida de Pamela Churchill Harriman, figura que atravessou algumas das principais esferas de poder do século XX. A narrativa recupera o percurso de uma mulher cuja influência política e diplomática permaneceu durante décadas obscurecida pela atenção dedicada à sua vida social, propondo uma leitura da História através das relações entre poder, ambição e estratégia.
Sonia Purnell é jornalista e biógrafa britânica, autora de várias obras dedicadas a figuras marcantes da história contemporânea. A sua investigação combina documentação histórica, trabalho de arquivo e escrita narrativa, privilegiando personagens que exerceram influência política ou social para além da imagem pública que delas ficou.
Publicado pela D. Quixote, A Fazedora de Reis chega à biblioteca do Página Um como uma biografia centrada numa das mulheres mais influentes do século XX, propondo uma nova leitura do seu papel na política internacional.
A Comissão Fúnebre da Receita Favorita do Ex-Namorado, de Saki Kawashiro, decorre em Tóquio e acompanha um grupo improvável de pessoas que transformam receitas associadas a antigas relações amorosas num exercício de despedida e reconstrução emocional. Entre encontros à mesa e memórias culinárias, o romance explora o luto amoroso, a amizade e a possibilidade de recomeçar.
Saki Kawashiro é uma escritora japonesa cuja obra se inscreve na corrente da ficção reconfortante contemporânea. Os seus livros cruzam frequentemente relações humanas, gastronomia e quotidiano, construindo narrativas onde pequenos gestos assumem um papel central na transformação das personagens.
Publicado pela Casa das Letras, A Comissão Fúnebre da Receita Favorita do Ex-Namorado chega à biblioteca do Página Um como um romance que combina culinária, afectos e literatura japonesa contemporânea.
O Segredo do Fabricante de Violinos, de Evie Woods, acompanha três personagens ligadas por um violino raro encontrado nos Perdidos e Achados do aeroporto de Heathrow. A descoberta conduz a uma investigação que atravessa diferentes países, cruzando história, música, tráfico de antiguidades e memória.
Evie Woods é o pseudónimo da escritora irlandesa Evie Gaughan, autora de romances que conciliam realismo e elementos de mistério, explorando a forma como objectos, lugares e pequenas coincidências alteram a vida das personagens. Entre as suas obras encontram-se também A Livraria Perdida e A Misteriosa Padaria na Rue de Paris.
Publicado pela Singular, O Segredo do Fabricante de Violinos chega à biblioteca do Página Um como um romance onde o património musical, o suspense e a aventura se cruzam.
O Restaurante dos Dias Felizes, de Yoko Mure, acompanha Akiko, uma mulher que regressa ao restaurante herdado da mãe e procura reconstruir a própria vida através da cozinha. Entre receitas, clientes e memórias familiares, o romance desenvolve uma reflexão sobre perda, reconciliação e novos começos.
Yoko Mure é uma escritora japonesa conhecida pelas suas histórias centradas no quotidiano, na culinária e nas relações humanas. A sua obra integra a tradição da chamada healing fiction, género literário que privilegia narrativas de intimidade, cuidado e transformação pessoal.
Publicado pela Singular, O Restaurante dos Dias Felizes chega à biblioteca do Página Um como um romance japonês contemporâneo dedicado às ligações entre comida, memória e identidade.
Singular Ocorrência e Outras Histórias de Mulheres, de Machado de Assis, reúne quinze contos em que figuras femininas ocupam o centro da narrativa ou determinam o destino das personagens que as rodeiam. Através da ironia, da observação psicológica e de um olhar atento sobre os comportamentos humanos, o escritor brasileiro constrói histórias onde o acaso, o desejo e as convenções sociais revelam toda a complexidade das relações.
Machado de Assis (1839-1908) é um dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa. Romancista, contista, cronista e fundador da Academia Brasileira de Letras, deixou uma obra que continua a distinguir-se pela profundidade psicológica, pelo humor subtil e pela modernidade da sua escrita.
Publicado pela Singular, Singular Ocorrência e Outras Histórias de Mulheres chega à biblioteca do Página Um como uma nova antologia dedicada à mestria narrativa de Machado de Assis, reunindo alguns dos seus contos mais marcantes sobre o universo feminino.
Da Minha Janela, de Luísa Sobral, reúne crónicas construídas a partir de episódios do quotidiano, onde pequenas situações familiares, encontros inesperados e observações da vida urbana servem de ponto de partida para uma reflexão sobre a experiência contemporânea.
Luísa Sobral é cantora, compositora e escritora portuguesa. Paralelamente ao percurso na música, tem desenvolvido trabalho na literatura, publicando livros infantis e, mais recentemente, obras destinadas ao público adulto, mantendo uma escrita marcada pela atenção ao quotidiano e às relações humanas.
Publicado pela Dom Quixote, Da Minha Janela chega à biblioteca do Página Um como uma colectânea de crónicas que cruza memória, humor e observação do dia a dia.
Atenção, heróis da gramática e entusiastas do vernáculo! Se andam por aí a dizer que aquele vosso amigo cozinheiro é um profissional “de primeiro plano”, lamentamos informar, mas estão a dar um pontapé na língua tão grande que nem a maquilhagem mais pesada consegue esconder o erro. Excepto se o vosso amigo estiver literalmente deitado numa superfície nivelada.
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Na nova rubrica do PÁGINA UM ‘Língua na Cama’, Manuel (Matos) Monteiro – escritor e um dos melhores cultores da Língua Portuguesa, além de formador da Escola da Língua – escalpeliza, de forma caseira e descontraída, erros frequentes do nosso idioma, curiosidades linguísticas, maravilhas idiomáticas. Aprenda e divirta-se.
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Conheça um dos erros costumeiros que o jornalismo nos atira aos olhos e ouvidos com regularidade.
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As despesas judiciais não entram na locução prepositiva. Saiba porquê.
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Se as pessoas se automutilam, porque não se auto-suicidam? Conheça as expressões fixas do nosso idioma e, de caminho, evite redundar em redundâncias.
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Havia dois pessegueiros na ilha… ou haviam dois? Trata-se de erros frequentes…. ou tratam-se de erros frequentes? Sabendo a regra, deixará de errar e poderá explicá-la ao Outro.
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Uma canção raramente derruba um governo, acaba com uma guerra ou elimina a pobreza. Mas pode contribuir para a mudança. A música consegue gerar emoções colectivas. E as emoções são frequentemente o primeiro passo para a mudança.
A história traz-nos muitos exemplos. As canções de protesto dos anos 60 do século passado acompanharam os movimentos pelos direitos civis nos Estados Unidos. Músicos como Bob Dylan, Joan Baez ou John Lennon deram voz a uma geração que questionava a guerra, a discriminação e as desigualdades.
Foto: D.R.
Em Portugal, músicas associadas à Revolução de Abril e à resistência democrática ajudaram a criar uma linguagem comum de esperança e mudança. Quando pensamos em Abril, pensamos de imediato nas músicas da Revolução.
Mas a música não muda o mundo sozinha. O que ela faz é mudar pessoas. E pessoas inspiradas podem, sim, mudar o mundo.
Uma canção pode despertar consciência, criar empatia, fazer alguém olhar para um problema de outra forma. Pode aproximar pessoas diferentes. Pode transformar uma indignação individual numa experiência colectiva. Quando milhares de pessoas cantam a mesma letra num concerto, não estão apenas a ouvir música; estão a partilhar valores, emoções — e pertença. Quando dançam em transe a sua música favorita, ascendem a outra dimensão — juntas.
Foto: Jefferson Santos
Claro que pouca música é revolucionária. E nos grandes festivais de pop e rock encontra-se, sobretudo, os produtos de uma indústria de entretenimento, consumo e distracção. Não tem nada de mal. Muitas vezes, a música ajuda simplesmente a esquecer os problemas durante algumas horas. E isso também tem valor.
Nem toda a canção tem de falar de política, educação ou acção social. Mas pode, ainda assim, inspirar à mudança.
No contexto da grande indústria em que tornaram os festivais, a pergunta sobre o efeito da música nas emoções colectivas para a mudança ganha um significado especial. Milhares assistem todos os anos a esses eventos que se tornaram já num ritual; um circuito de peregrinação feito por muitos. Como quem faz o Caminho de Santiago ou vai a pé a Fátima todos os anos. Mas, neste caso, o ‘peregrino’ compra passes de três dias por centenas de euros para ouvir música ao vivo e dançar ao som da sua estrela mundial favorita.
Foto: D.R.
Sendo locais de “peregrinação” anual, será que os grandes festivais actuais conseguem ser espaços de transformação cultural, social ou até espiritual ou são sobretudo produtos de consumo e entretenimento? Talvez sejam um pouco de tudo isto. Um “peregrino” destes festivais pode sair de um NOS Alive apenas com vídeos para o Tik-Tok ou fotos para o Instagram. Mas também pode sair com novas ideias, novas amizades, novos artistas e uma visão diferente do mundo.
A música não muda o mundo da mesma forma que uma lei ou uma revolução. Mas entra nas memórias, nas emoções e na imaginação. E muitas das grandes mudanças da História começaram precisamente aí: na capacidade de imaginar que o mundo podia ser diferente.
Pode pensar-se que é uma ideia romântica ou utópica, esta de que, algum dia, um espectador do Rock in Rio sairá de lá com vontade de acabar com a fome no Mundo ou com uma ideia revolucionária para resolver a grave crise da habitação. Mas pode acontecer.
Foto: Aranxa Esteve
Também se pode criticar e classificar como heresia a comparação entre um peregrino que vai a Fátima e um festivaleiro de cerveja na mão.
Mas também não se pode afastar a força espiritual de se dançar ao som da música favorita; de se pular, fazendo vibrar o chão feito de pó, relva, areia ou alcatrão. É uma experiência acessível, pelo menos aos que têm dinheiro para pagar a entrada nestes recintos, num Portugal de baixos salários.
Agora, será que estes festivais têm impacto cultural ou social? Contribuem para o progresso civilizacional, para unir pontes perante diferentes ideologias, para fomentar diálogos e encontrar soluções para os problemas sociais mais graves? Ou são apenas entretenimento? São apenas mais uma das muitas faces da sociedade ultraconsumista em que vivemos no Portugal do presente?
Foto: Daniela Becerra.
Sairá da zona VIP do NOS Alive o festivaleiro que terá a ideia revolucionária que diminuirá a desigualdade económica no país? Sairá de um lounge chique do Rock in Rio o político inspirado que — tal Santo em contacto directo com Deus — trará palavras da união e paz transformadoras? Serão um dia — como em Woodstock — derrubadas as “cercas” do Vodafone Paredes de Coura para um mar de gente entrar e cantar a paz sentando no chão de pó? Talvez não.
E, no entanto, a magia efémera de, por algumas horas, se viver a música (e para a música), rodeado de outros festivaleiros, a dançar debaixo do céu estrelado, tem algo de mágico. E um pouco de magia, mal não traz ao mundo.
Mas a vida é dura. Para nós, a vida é dura. Setecentos cães. Posso dizer-vos, sem exagero, que somos setecentos cães a um osso. Os recursos são escassos e como nós, já o sabeis, somos muitos, por vezes não chegam para todos. Apesar dos meus melhores esforços não consigo distribuí-los nem como queria nem como devia. Então, é cada um por si e nós, irmãos, tornamo-nos inimigos, lutando contra a fome e pela sobrevivência. Não admira, pois, que perante a escassez e à míngua nos tornemos um tanto ávaros, assim como, nas raras ocasiões da bonança haja, nessa alegria, que é sempre inesperada e demasiado breve, aquela generosidade que só é uso entre aqueles que sofrem de verdadeiras privações. Então, há a festa, a celebração da vida, a esbórnia de poder ter e de poder dar. De poder partilhar o que sobeja. Ah, que contraste. Quando é o tempo em que nada há levanta-se um vento de desconfiança que varre a tribo, malsã circunstância, onde brotam os boatos onde antes deveria haver pão. É um tempo perigoso, disso não haja dúvida. Será que o nosso vizinho e irmão, que tanto nos deu e que tanto recebeu na época da abundância guardou, precavido, o melhor naco para si e que agora o esconde, cioso, enquanto vê como todos passam fome? E, como essa suspeita morde mais do que a própria fome, o rancor, entretanto, cresce. Por isso e por muito menos. E quanto mais escassez houver mais cresce a suspicácia. É uma pústula que, aqui e ali, entre nós, rebenta num pus de rancores antigos e recentes, acicatados pela urgência de se não saber quando será a próxima refeição. Setecentos cães a um osso é muito cão para tão pouco osso.
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Não penseis, porém, que somos selvagens. Ou incultos. Uns bárbaros que por aí andam, em pilhagens e malfeitorias. Prezamos muito a Cultura e, acima de tudo, a palavra. Se, por vezes, somos indisciplinados e até incómodos é porque temos de sobreviver, mas coleccionamos quantos livros, panfletos e jornais nos venham parar às mãos e constantemente escrevemos o relato das nossas aventuras e viagens, que nem sempre parecem coincidentes. Arriscar-me-ia a dizer que há centos de nós a verter para a página esta mesma história que ora vos conto e como cada uma é ligeiramente diferente e ademais feita na exacta perspectiva de quem a narra, não há duas versões iguais e assim é como um jogo de espelhos, distorcida cacofonia de vozes que mais não reflectem que as impressões de cada um. E olhem que somos muitos. Aliás, deixem que vos diga, que esta nossa mania da erudição é, talvez, mais um factor de incompreensão e até de ódio a que somos votados pelo Mundo exterior, que não consegue compreender como este bando de saltimbancos esfarrapados logra discorrer em grego e em latim, e em muitas línguas vernáculas, envergonhando as autoridades dos mais variados assuntos. Não o fazemos por vã exibição, mas por interesse sincero, pela terrível e impróspera curiosidade de aprender um pouco mais. Os resultados dessa ânsia é que são desastrosos porquanto, por inveja ou incredulidade, só granjeámos o ódio e a repulsa entre as elites assim como o nosso comportamento rebelde colheu a antipatia do povo. Bem vedes, não nos coube uma terra neste vasto e estranho orbe, tão rico e abundante e para nós tão exíguo, andamos a esmo e só procurámos paz, coisa que nunca soubemos o que fosse. Houve um tempo em que ainda tentámos ser sedutores, mostrar-nos úteis e por um breve período tal estratégia resultou, mas isso ainda fez acicatar o ódio quando estalou o verniz e a raiva ao que é diferente — e nós somos os perenes estrangeiros em todo o lugar — decretou a nossa fuga. Por isso, agora, limitamo-nos a ser quem somos. Sem pedir desculpa nem curvar a cerviz. Nesse misto de orgulho e prudência, de medo e coragem, de afirmação e recato que tem por todos estes anos garantido a nossa sobrevivência.
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Pois bem, como vêem, um detalhe peculiar é esta nossa obsessão com as letras. Em cada um de nós, talvez de modo natural e atávico, houve sempre essa tendência para a leitura e para a escrita, para a acumulação de livros e, aliás, para todo o material impresso a que conseguimos lançar mão e que, como vos digo, carregamos penosamente em todas as nossas infindas deambulações. É certo que o Mundo desconhece, em larga medida, as obras que ao longo dos anos fomos produzindo, pois é sempre sob pseudónimo que alguns tomos têm sido lançados, uns poucos, com modesto sucesso, outros caindo na obscuridade, apenas interessando a alguns eruditos. O que não é de admirar pois, não só os assuntos são diversos como também os géneros — indo desde o romance picaresco até à poesia, aos estudos filosóficos, e até místico-esotéricos, para quem goste — como sempre, sempre foram lançados sub rosa.
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Vida é escrita — todos os setecentos têm este potencial, sempre que o tempo o permite pois, primeiro, há que apaziguar o estômago. Entre algumas das nossas excelentes leituras, combustível da inspiração, devorámos os clássicos de várias épocas, mas também aquela literatura de cordel que ninguém quer considerar relevante, grimórios abscônditos perdidos sob camadas de pó e esquecimento em ermidas remotas, espalhadas por essas serras e montes e enciclopédias encadernadas a pele e ouro, tão desactualizadas que delas se poderia exumar um tempo e um orbe que já não existem. Neste momento, depois de tanto estudo, será realmente pedir muito, por quase impossível, que haja um feito universal, uma obra-forte e de grande estética, e aquilo que a História recorde da restante literatura que o nosso saber colectivo não tenha pelo menos uma ideia, ainda que confusa e até perigosa pelos ventos de ódio que possa anunciar, embora, se assim for, já duvide que mérito tenha, pois acreditamos na paz e na concórdia entre todos e se por vezes somos rebeldes e do tumulto tal não passa de uma espuma, uma pele, o comportamento assaz superficial, imposto pelo nosso tédio ou por um mecanismo de defesa de uma timidez congénita e colectiva.
33.
O manuscrito da minha, prazerosa, famosa e desgarrada narrativa filosófica (feita numa altura em que rumávamos pelos arredores de Paris), intitulada «O Velho e o Novo São Semelhantes Para Esta Idade da Vida» ficou perdido por lá quando se deu uma grande enxurrada que motivou o nosso retorno à Meseta. Ou seja, perdi os papéis, mas não a ideia e isso é o que importa e se tempo tivesse faria novamente essa novela, do alto de uma nova perspectiva que os anos e o desencanto trazem, manchada a consciência alegre da juventude com a consciência do malogro e catástrofe ou talvez seja esta mesma crónica que estais lendo, parte desse desmesurado projecto, até agora sempre adiado na sua completude e que nem sequer terei oportunidade de concluir na sua perfeição, excepto, porventura, nesta forma fragmentária, truncada, amargurada e derradeira.
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De qualquer modo, há essa crença no intelecto e no Belo — e ela é profunda — e talvez seja essa a nossa característica redentora. Aquela que nos define, que nos vindica, que possa ser o nosso vero contributo para a sociedade em geral, que sempre nos rejeitou e perseguiu, até que nos fechámos num delírio tribal dizendo «somos felizes assim» quando na verdade quiséramos ser parte do Mundo, da sua vastidão, da sua variedade. Sim, isso explicará o fascínio pelos livros? Ou, serão os próprios objectos, a sua solidez de labirinto — basta abri-los e contêm um Mundo feito da combinação de vinte e tal caracteres diferentes? Ou, porque são o caminho mais simples para a busca de uma divindade que desconhecemos, mas que intuímos? Ou, porque, simplesmente, são o derradeiro conforto de uma comunidade perdida?
Para alguns, estas perguntas são ridículas. O que é ler e escrever como modo de vida, perguntam-se de passagem? O que é um homem que lê e escreve quando pode, em qualquer momento ser livre na acção, pergunte-se de passagem? E se não tiver momentos livres? E se o próprio momento livre não seja também livre de problemas? Perguntem-se de passagem se esta paixão é algo de bom ou, apenas, outra servidão ou ingénua utopia intelectiva. Nada é possível responder por essa parte. É tão útil quanto todas as outras actividades que não tenham um propósito imediato, isto é a verdade, e a sua única utilidade consiste em fazer esquecer, ainda que um pouco, o quotidiano, as dificuldades constantes, o medo incessante do futuro.
35.
Nem semitas nem Roma, porém. Não vos enganeis nem vos deixai enganar. É certo que podem haver aspectos comuns, como há sempre em gente errante. Sem direcção ou território, povo que só tem o movimento nem sabendo para onde, por vezes, sem porquê, sonhando com a aceitação de uma casa, acabando, eramá e amiúde pela veniaga dos outros, por nunca ter pertença excepto ao que se é. Mas não, repito, nem por David nem zíngaros, outrossim, somos aquilo que somos: pequena multidão única e própria, com uma génese tão comum e íntima que, no sentido mais literal do termo, somos irmãos.
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Há que manter a cabeça fresca, os nervos sob controlo, mormente, quando nos arrastamos pela Meseta e se não vê vivalma durante dias e se tem de contar com o que levamos connosco, a coragem se nos perdemos, as vitualhas se os caminhos forem áridos, até a água se não encontramos um poço. Ainda assim, há momentos de esperança e bem-estar, a alegria suave de um percurso suave, um povoado próspero que nos alimentará com fartura, a linguagem dos pássaros que nos acompanham e nos distraem quando se cruzam connosco rumo aos seus próprios santuários aquando das suas cíclicas e eternas migrações. E esse é também o sonho — um santuário — que nos acolha, que, finalmente, nos acolha e nos leve a ficar e deixar a estrada, tão plena de perigos, infortúnios, privações e transes, em prol de uma Arcádia só nossa, uma terra, país fixo sob um Sol dourado, ameno e conciliador.
Pudera, pois, a magia ser virtude e mediante um sortilégio resolver os problemas, gerar concórdia e obter aquela paz geral e comum só d’alegrias, a volta a um tempo cíclico e aberto ao Mundo, a tudo o que nos é exterior, abdicando da desconfiança dos estranhos, pois eles nos não quereriam mal, fluindo com a história da humanidade, pois já ela nos recebeu como iguais.
37.
Quisera, portanto, uma vivência só de luz para toda a minha gente e assim não foi e carrego a culpa de todos os meus fracassos, pequenos e grandes, quer tenha sido por incúria, ingenuidade ou precipitação, nunca por maldade ou má-querença, por aí sempre me absolvo no tribunal da minha consciência, se a ele comparecesse, nu e sozinho como sempre acontece na intimidade dos nossos próprios recessos mentais. Mas isso não impediu tanto malogro, aqueles que perdemos para o frio e para a fome, para a doença e devido à malevolência dos homens. Caíram os mais desordeiros de entre os nossos, às mãos dos mais justiceiros daqueles de fora que, no rápido transe, puxaram da faca e desferiram estocada mortal. Foi o que se passou com o pobre Zé Trezentos que era assim chamado não só porque era esse o seu número de ordem no nascimento, mas porque levantava esse peso no lombo. O nosso colosso não resistiu à lâmina do adversário, mais rápido e experiente na luta, mais gingão, que se sentiu lesado por uns amores ilícitos e passageiros. Esvaiu-se em sangue depois de um estertor que durou mais de uma semana, afinal convertendo a sua paixão fugaz em destino pela perpetuidade da morte.
Todos sentiram a falta do seu riso aberto, dos seus incríveis feitos de força, da sua jovialidade inesgotável.
Eu, mais do que todos, senti-me culpado com o seu prematuro decesso pois era evidente que ele desafiava a sorte, indómito. Eu andava, por essa altura, porventura demasiado ocupado ou absorvido pela minha desdita que era a de todos para suster e refrear toda aquela temeridade dele e talvez só eu o tivesse podido fazer. Talvez só a mim ouvisse, talvez ainda hoje estivesse vivo e pudéssemos ainda contar com esse gigante doméstico, capaz de derrubar uma rês com o punho e impor respeito a uma turba. Deste modo, perdemos o seu riso e a sua protecção.
E bem dela viemos a necessitar, como haverei de vos contar, pobres de nós acossados de mil perigos, tristes e indisciplinados que nem para bem-viver e em geral melhorar a nossa vida nos logramos organizar nem que esteja em causa a sobrevivência, de todos e de cada um, valor, afinal, o mais alto e frágil e, como adivinhais, o mais passageiro.
38.
Nessa altura a vida continuava como de costume, com a diferença que o nosso número tinha, finalmente, estabilizado: nasciam e morriam, morriam e nasciam, de modo a que se mantinha fixo esse número de setecentos, mais o Pai e a Mãe, agora, anciãos, ainda geradores numa idade impossível, mesmo se alquebrados pelo Tempo e por isso — quero acreditar — se estabilizou aquela cifra, que muitos de nós achavam mágica, o que, diga-se em abono da verdade, até impressionava os de fora e que durante um tempo, de paz apesar de tudo, conferiu-nos uma aura de imunidade contra a perfídia dos estranhos que, supersticiosos e rapaces, achavam por bem não perturbar esta seita natural dos setecentos filhos dessas potências genésicas que, sem termo, o erado casal fazia nascer e que eram os nossos pais comuns.
Acho, entretanto, que foi o estancar desse crescimento constante o princípio da nossa queda porque, afinal, setecentas almas são ainda poucas ante o vasto Mundo, mesmo que desunido. Aqueles que porfiavam na nossa desdita acabaram por entender que as nossas hostes não eram inesgotáveis e esse limite era uma fraqueza. Acabariam por encontrar modo de nos liquidarem, muito antes que a lei divina de não lograrmos gerar uma nova geração para além do patriarca e da matriarca, nos esgotasse por envelhecimento e morte, inevitáveis processos que exigiriam uma renovação própria da estirpe, assim, truncada.
Os perigos eram diversos e sempre presentes, por isso, quando o tempo passou a ser medido em anos e décadas e ao fim de todo essas eras que transcorreram da data inicial da nossa expansão da qual fui inaugural, ainda assim, o nosso número era motivo de júbilo, afinal o facto fundador da nossa identidade.
39.
Esta é uma adenda ao texto original, mas as coisas precipitaram-se, do modo mais funesto, aconteceram. A catástrofe. A uma velocidade tal que, na confusão do transe e da desdita, só com muito esforço consigo reconstruir a série causal de eventos que desaguou na mais completa aniquilação da nossa estirpe. Só eu me salvei. Por pura casualidade fui poupado, já com o cutelo no pescoço, já tendo como certo que não passaria daquela hora daquele dia.
40.
Sim, escrevo esta história, agora, no fim. Já não existem os setecentos, mortos, capturados ou, ainda com alguma esperança, espalhados pelo largo orbe, feridos de corpo e espírito, saudosos da sua casa que era a família, perdidos, quebrados. Morrendo, porém.
No incomensurável do medo não se deve nem pode viver. E é verdade que fomos acossados toda a vida, aliás, num crescendo de gravidade da veniaga que o espaço do exterior, sinto-o e sempre senti, era capaz do inominável e de tudo, apto a transformar a suspeita em certeza persecutória, a desconfiança em rejeição, o mal-estar em ódio e este em perseguição, violência e morte. Acções concretas e frias com um fito de aniquilação, um desejo irreprimível de erradicar o que é diferente e que só cederá ante o extermínio.
Tenra é, aliás, a carne para a chacina, feliz a ferocidade do caçador, leda a purificação dos réprobos, pelo fogo ou por outro meio qualquer, e neste caso os réprobos seríamos nós, os multitudinários bárbaros que exercíamos ameaça só pelo facto de existirmos.
41.
Na verdade, este término sinistro que se abateu sobre nós estava a ser preparado desde a primeira hora. Foi o culminar de décadas de ressentimento que a sociedade, em geral, acumulou contra nós, fruto do nosso isolamento, por um lado, dos preconceitos, por outro, mas, sobretudo, da convivência difícil que sempre mantivemos com o que existia lá fora. O certo é que, enquanto perambulávamos por esta Meseta imensa, nas sombras, preparavam a nossa desdita, a inevitável queda, na forma de uma imensa coligação das gentes mais diversas que se associaram num desmesurado e sanguinário exército, organizado com o fim único de nos exterminarem. E foi desse modo que no último Inverno dos setecentos, nos vimos rodeados dessa multidão sublevada que nos ia cortando o caminho e que nos foi empurrando em direcção ao Mar. Depois, exaustos pelo longo percurso, pela falta de mantimentos, pela invernia implacável, sem ter para onde fugir, com as costas para a imensidão aquática, já em Finisterra, deitaram-nos o último e derradeiro cerco, aproximando-se, ainda cautelosos, antes da investida. Quando, finalmente, atacaram, libertaram todo o ódio, todo o veneno e raiva, com uma violência a espumar da boca, uma orgia de sangue e vísceras e fogo e morte e destruição e quando o dia clareou o nosso acampamento era um monturo de cinzas e labareda e corpos mutilados, irreconhecíveis, onde ninguém fora poupado excepto eu, por razões que nunca serei a entender, deixando-me não só incólume como o filho único destes setecentos irmãos.
42.
A tragédia foi consumada, eis o fim nosso. Agora, tantos anos passados depois do massacre, só eu resto, talvez podendo cumprir o sonho de me dedicar aos meus assuntos, mas demasiado velho e cansado para valer a pena tal labor, demasiado amargurado pelo luto e pela vastidão da perda. Eu, o sobrevivente, o primeiro irmão e, agora, também o último, derradeiro espécime, sem prole nem herança. Com a morte natural a rondar, deixarei este testemunho como última prova de que existíamos setecentos (ou, no todo, mais de setecentos, com os que morriam e os outros que nasciam para que a soma permanecesse) e que calcorreávamos esses caminhos e que éramos um povo do Mundo, embora o Mundo nos não nos tivesse aceitado nunca. E se me mataram todos os irmãos, por ódio e rancor à nossa espécie, também a malevolência foi tal que tiveram o cuidado de apagar todas as marcas que quisemos deixar da nossa fugaz existência, nós, antecipadamente, condenados pela maldição de uma natureza infecunda, e por isso queimaram todos os livros que escrevemos e que puderam encontram numa grande pira que, julgo, ainda arde enquanto escrevo estas linhas. Sou o último e sou o único e dentro em pouco nem eu restarei e tudo o que de nós ficará da nossa passagem sobre a Terra serão estas poucas linhas que agora acabais de ler.
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João Pereira de Matos é escritor e investigador no CHAM – Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa.
Em teoria o António Pocinho já morreu. Já nos deixou como alguns dizem, ou já foi, como outros também dizem quando não dizem “já nos deixou”.
Outros mais estranhos dizem que está a fazer tijolo. Outros dirão que já partiu. Mas partiu para onde?
Tudo eufemismos da tanga. A verdade é que o Pocinho está bem vivo e talvez mais vivo que nunca. Vivo em mim. Vives em ti? Não era em Santa Marinha? Pergunto eu a mim mesmo fazendo de Pocinho.
Mas para não ferir susceptibilidades vou referir-me a ele no passado.
Não quero ofender o presente nem mesmo a morte por muito fictícia que seja. Hoje é fácil ter a morte a fazer queixinhas por tratá-la como vida, assim como as casas a ofenderem-se por serem chamadas de vivendas.
Ai não se pode dizer nada! Não sei quê, não sei que mais e não sei quê. Ai, ai que se ofende e blá, blá, blá. Um amigo meu diz buá, buá, buá porque não diz os “Ls”. quando quer dizer blá, blá, blá. Eu cá prefiro buá. E ninguém se ofende. É bué coiso. Não blé.
Não ofendam por favor. Um “l” no sítio errado pode dar cabo de não sei quê, disse um dia o Pocinho não sei onde para não sei quem, não sei que mais.
Aprendi muito com o Pocinho, embora ele achasse com frequência que só era bom em duas coisas — em guiar (guiava mal à brava, nunca lhe disse) e em fazer com que os outros desaprendessem (desaprendia bem à brava, nunca lhe disse).
Para ele, aprender e desaprender queriam dizer o mesmo. Até aí tudo bem. O problema seria na condução de um veículo quando ele achava que virar à direita queria dizer à esquerda. O perigo estava sempre lá. Era adrenalina até ao pequeno-almoço. Adrenalina com torradas e iogurte.
Para ser realista.
O Pocinho quando olhava para o céu via a terra.
Qual drone?
Ou quando olhava para o mar via nitidamente mais marés que marinheiros. Chegava a dizer “olha ali estão 4 marés e apenas 2 marinheiros, estão a ver? Pelas minhas contas a famosa preposição verifica-se”.
E acabava pondo a rimar barco com barcaça. Chegava mesmo a remar na linguagem se fosse preciso. Remava bem melhor que guiava veículos, mas só mesmo para rimar com cigarros e para chatear.
O Pocinho era.
Odiava que o amor rimasse com o que fosse porque para ele o amor era choninhas. Para ele o amor podia ser fodido mas o sexo não, escreveu no seu Elucidário Sexual que Deus e as livrarias têm.
Frequentemente construía-nos com palavras rimando com a vida. Mesmo quando as vogais só apareciam consoante a paisagem. A sua paisagem que por vezes precisava de uma mãozinha dos bombeiros. Dos bombeiros involuntários de Lisboa. Por isso nunca apareciam a horas.
Para ele muitas vezes uma palavra valia por mil imagens deixando isso explicito no livro Ilustre Máquina de Ramirez.
O cérebro é a câmara mais escura que existe, dizia ele. Também dizia frequentemente outras coisas sobre taparueres, que agora não me lembro.
Por isso adorava o mar. Digo eu. O mar é infotografável mas legendável se se tratar da caneta do Pocinho.
Várias vezes fomos até à Ericeira comer amêijoas e livros de reclamações. Íamos também muitas vezes à Adraga onde – qual mago – me fazia ver alemãs nuas por entre o nevoeiro enquanto vomitava amêijoas e aforismos da sua engenharia interna. As vezes que avistei as louras nórdicas, pareceram sereias.
Não eram alucinações. Não eram encenações à Andy Kaufman. Para ele uma mentira era apenas uma verdade ao contrário. A realidade era o seu hotel de 5 estrelas.
Um dia disse-me através de uma tecnologia muito própria, nunca percebendo se se estava a referir a um telemóvel ou a um telefone fixo ao chão:
“Se eu ou o teu irmão ligarmos gostava de ver se atendes.
Posso não ligar como posso ligar, inclusive posso ligar só para ver se atendes.
O mesmo poderá acontecer com o teu irmão.
Mesmo que não ligue… atende o telefone. Se ligarmos por engano, aí podes não atender e continuares a falar com quem estiveres a falar.
Se eu ou o Luis ligarmos para com quem estiveres a falar, atende tu. Fica o aviso.
Concluindo: Só podes não atender se for por engano.
Por outro lado, se apenas tocar três vezes, não atendas, pode ser outra pessoa com tédio.
Se eu ligar e tu atenderes (o que parece ser uma probabilidade muito forte devido ao medo que tens em geral e em particular), não te queixes automaticamente do calor e dos 50 graus que podem estar a derreter Madrid”.
E por ali ficou.
Fiz o que me disse e por isso também não voltei mais a Madrid.
Um dia, ao irmos a Santa Apolónia por Alfama à hora de jantar, ele fez-me ver que, se eu não quisesse perder pitada da novela da noite, ali nas ruelas de Alfama isso era possível. Podia muito bem ouvir a novela em contínuo, tal era a proximidade das casas com a rua e com a vizinhança. Frequentemente, depois dessa preciosa informação, íamos dar uma volta por Alfama sempre que fosse possível depois de jantar para ouvir a novela da RTP, por entre umas baforadas de cigarros. Ver as novelas era penoso.
O Nicolau Breyer parecia sempre o Nicolau Breyer a fazer de Nicolau Breyer. Mas ouvir era outra coisa. Parecia rádio mas sem as penosas vozes de rádio armadas em vozes de rádio.
Por isso nem eram gregos nem tiranos. Depois voltávamos de autocarro para cima, calados e pensativos, também entre baforadas de cigarros.
O Pocinho nunca morrerá. E caso morra um dia, será sempre no de São Nunca… Mas de manhã.
Mas não acreditamos!..
Acreditem.
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Livros publicados de António Pocinho
“Rosto Pintado de Anjo no Cinema” (Fenda; 1981),
“Metamorfoses do vídeo” (Alberto Pimenta, Filipe Liz, António Pocinho)
“A Ilustre Máquina de Ramires (1ª edição)”, (Fenda ; 1988),
“Elucidário Sexual” (Fenda; 1997),
“A Ilustre Máquina de Ramires” (2ª edição; revista e aumentada) (Fenda; 1999),