Dez da manhã de um domingo lento. O primeiro café, acompanhado de uma queijada ainda morna, na pastelaria ao lado de casa.
Aparentemente, a tranquilidade do costume, até que, na mesa atrás, uma voz teima em fazer-se ouvir. Uma mulher, num discurso inflamado, vai subindo o tom à medida que acrescenta sofisticados argumentos à sua tese.

Tudo começou com o relato de um episódio que presenciara recentemente: uma discussão no trânsito que ganhara contornos violentos. Uma pequena multidão a assistir e nenhum homem tivera coragem de intervir. E foi aqui que se instalou a indignação. Não houvera, segundo ela, um único homem capaz de fazer o seu papel naquela situação. De tal modo que chegou a sentir-se na obrigação de avançar. E tê-lo-ia feito, não fora a consciência de que seria um erro. Outra condutora não teve o mesmo entendimento. Saiu do carro e foi tentar parar a contenda. Mal, muito mal, segundo esta pregadora sem púlpito.
Aumentou o volume. Era preciso que lhe dessem ouvidos. A bem ou a mal. Sim, porque isto de uma mulher se intrometer em disputas de machos era sinal do fim dos tempos. E a culpa era das mães, que incutem nas meninas a ideia de igualdade. Ora, da igualdade à usurpação do lugar dos homens é um saltinho. E agora os homens já não sabem o que são e andam perdidos. Não há ordem, não há hierarquia. É o fim da família.

Um senhor idoso, com quem partilhava a mesa, ainda lembrou, a medo, que o passado também não era exemplo. Mas mal conseguiu terminar a frase:
– Havia família – dizia ela – e havia respeito. Os homens eram homens e agora coitaddinhos. São uns desgraçados nas mãos delas.
O monólogo prosseguia. O café a provocar acidez no estômago. A queijada entalada na garganta.
Desligar e ignorar, impossível.
Afonso recordou então uma conversa tida dias antes, a propósito dos benefícios e dos efeitos colaterais das políticas de quotas, da imposição de paridade e demais formas de procurar compensar desequilíbrios históricos.

Houvera, então, quem argumentasse ser injusto não se ser escolhido por uma questão de género ou de cor de pele. Tal como houve também quem defendesse o contrário. A troca de ideias dera-se sem que se tivesse chegado a um veredito simples. Ficaram muitas dúvidas, outras tantas respostas e a tentativa de perceber como equilibrar justiça e realidade.
Percebeu então que, mesmo hesitando por momentos, mesmo admitindo algum incómodo quando as escolhas ignoram o mérito individual em nome de um bem maior, não tinha dúvidas.
Entre a paridade e a parvidade, escolherá sempre a primeira.
Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

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