Categoria: Editorial

  • O mau vinho do David Marçal, os maus fígados do Público e a má vontade contra o PÁGINA UM

    O mau vinho do David Marçal, os maus fígados do Público e a má vontade contra o PÁGINA UM


    Há quem confunda ciência com religião, e divulgação científica com catequese. David Marçal, com crónica residente do Público, é um desses casos paradigmáticos — um personagem que, nos últimos anos, foi entronizado por certa comunicação social como uma espécie de sumo-sacerdote da “boa ciência”. Não se sabe bem por que méritos — talvez por ubiquidade mediática, talvez por conveniência ideológica —, mas o estatuto de “voz da razão” que lhe atribuíram sempre me pareceu suspeito. E digo “suspeito” porque a ciência, quando é ciência, é essencialmente dinâmica, provisória e contestável. Aquilo que é dogmático não é ciência: é fé travestida de método.

    Assisti de perto a essa ascensão mediática de David Marçal, sobretudo durante a pandemia. O seu discurso moralizador sobre a desinformação — que confundia divergência com heresia — encontrou paralelo apenas no seu próprio dogmatismo e na sua ânsia persecutória contra qualquer visão que não seguisse o catecismo sanitário dominante.

    woman in black spaghetti strap top holding green glass bottle

    Foi ele um dos zeladores do pensamento único, caricaturando posições racionais e prudentes sobre o impacto social e económico da pandemia, como se só houvesse uma forma legítima de pensar em tempos de crise de saúde pública. Esqueceu-se de que uma crise de saúde pública — ao contrário de uma emergência sanitária — exige complexidade, ponderação e, acima de tudo, debate que não se restringe à ciência do momento.

    Não foi por acaso que, ao longo deste ano, voltei a cruzar-me com o “paradigma Marçal”. Em Março, escrevi O pedantismo cientifista de David Marçal, sacerdote da Verdade Absoluta, onde mostrei como a sua análise sobre o sarampo nos Estados Unidos era um exercício de viés ideológico: apontava o dedo ao “negacionismo” americano, ignorando olimpicamente que surtos mais graves ocorriam na Europa — em países como a Roménia, a França, a Itália ou a Holanda. Era a velha arte de escolher os factos que servem a tese e de omitir os que a desmentem.

    Meses depois, em Julho, publiquei O dogmatismo ‘científico’ e a desinformação: o paradigma David Marçal, porque, numa nova crónica no Público, ele voltou a exibir a mesma rigidez moral: denunciava as falhas do cidadão comum, mas calava os erros das instituições científicas, dos especialistas mediáticos e dos organismos internacionais — como se estes fossem infalíveis. Essa omissão não é inocente: é uma forma subtil de manipulação. A meia-verdade, como se sabe, é sempre mais perigosa do que a mentira.

    David Marçal

    Mas o clímax desta história chegou há duas semanas. Depois de publicar, no Público, uma crónica intitulada Beber vinho é dar cancro a muitos portugueses — um texto que é um monumento de sensacionalismo sob a capa de cientificidade —, decidi analisá-lo linha por linha, desmontando os exageros, as simplificações e a retórica alarmista. O resultado foi o meu artigo Não andar a beber vinho (provavelmente) transformou o David Marçal num mau divulgador de ciência, publicado no PÁGINA UM no passado dia 19. A minha crítica, sustentada com referências científicas, teve mais de 50 mil leituras, segundo o Google Analytics. Para que o confronto de ideias fosse leal – ou seja, os leitores do PÁGINA UM conhecessem o texto visado –, não apenas coloquei a ligação para o site do Público como, por ser artigo pago, disponibilizei o texto integral em pdf.

    Além de leal, o meu procedimento foi perfeitamente legítimo e encontra amparo directo no artigo 75.º, n.º 2, alínea c) e h) do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, lei portuguesa que regula a protecção das obras intelectuais, a qual admite expressamente a seleção regular de artigos de imprensa periódica, que não tenha por objectivo a obtenção de vantagem económica ou comercial, directa ou indirecta, ou ainda de trechos para serem usados “com fins de crítica, discussão ou ensino, e na medida justificada pelo objectivo a atingir”.

    A transcrição integral pareceu-me, portanto, justificada e necessária – e mesmo adequada para protecção das posições de David Marçal. Se transcrevesse apenas trechos, colocar-se-ia em dúvida se eu não teria apagado alguns por conveniência. Seria impossível discutir com rigor o conteúdo sem o reproduzir na íntegra. A crítica, para ser honesta, precisa de todo o contexto — e o contexto, neste caso, era o texto completo. Os visados deveriam ser os primeiros a reconhecer tal propósito.

    Além disso, não houve qualquer exploração comercial — directa ou indirecta. O PÁGINA UM é, como se sabe, de acesso livre, não tem publicidade, nem paywall, nem assinaturas. Incluir o texto do David Marçal não gerou qualquer vantagem económica e aquilo que sempre esteve em causa foi o exercício da liberdade de imprensa e de crítica, garantido pelos artigos 37.º e 38.º da Constituição da República Portuguesa.

    Presumo que isto tenha incomodado — e muito — o Público e o Dr. Marçal.

    Aquilo que para mim era um confronto legítimo de ideias, um exercício de crítica jornalística com base em factos, passou, para o Público (e presumo para o próprio Marçal), a ser tratado como uma “usurpação de direitos de autor”. E nem sequer se deram ao trabalho de pedir esclarecimento, mandaram logo uma ‘bazuca’: recorreram à Visapress — uma cooperativa de defesa de direitos autorais cujo conselho de administração inclui, curiosamente, uma administradora do próprio Público.

    Alegaram que a reprodução integral do texto de Marçal violava direitos de autor – e pacientemente expliquei o meu entendimento e, depois da troca de diversas longas mensagens, pedi que me fornecessem os documentos que transmitiam os direitos de autor de David Marçal ao Público no pressuposto que este os tivesse transmitido. E colocava à consideração dirimir esta questão nas instâncias legais.

    Não respondeu a Visapress, mas agiu extrajucialmente por uma via soez. A Visapress não tem sequer uma qualquer validação da sua interpretação por parte da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, nem da Sociedade Portuguesa de Autores, nem da Inspecção-Geral das Actividades Culturais, que é quem detém competência de fiscalização nesta matéria.

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    Não tem, mas o Público, através da Visapress, tem outros mecanismos mais capciosos, e assim identificou e contactou a empresa (estrangeira) que aloja o site do PÁGINA UM, que, de forma cega e burocrática, ameaça agora suspender o PÁGINA UM se não for retirado o texto — como se estivéssemos num regime de censura preventiva.

    Independentemente da resposta jurídica que já fizemos chegar à empresa que aloja o PÁGINA UM, aquilo que mais se lamenta neste episódio é o sinal de intolerância. O Público, e provavelmente o próprio David Marçal, parecem incapazes de lidar com o escrutínio. Confundem crítica com ofensa, confronto de ideias com afronta pessoal. E usa uma questão de lana caprina – que deve ser esclarecida no local próprio, sem ameaças de suspensão de serviços do site do PÁGINA UM – para silenciar um jornal incómodo.

    ‘Ameaça’ da empresa de web hosting de suspender os serviços do PÁGINA UM após a queixa da Visapress.

    A ironia maior é que o Público — esse mesmo que diz defender o “debate público informado” — reaja como uma instituição clerical ferida no dogma. A mesma direcção editorial que, poucos dias antes, sentiu necessidade de apor uma nota final à crónica de Marçal — provavelmente para acalmar os patrocinadores da sua secção de vinhos, Terroir —, não hesita usar uma cooperativa a que preside e a recorrer a meios extrajudiciais e moralmente questionáveis para tentar silenciar um contraditório legítimo.

    Por mim, continuarei a escrever — com liberdade, com documentos e com argumentos. Porque o jornalismo independente – mesmo quando exercido com a aparência de um ‘one man show’ (como depreciativamente escreveu há dias Bárbara Reis, ex-directora do Público Bárbara Reis, sobre o PÁGINA UM) – não existe para confortar os dogmas, mas para os testar até ao limite. E para denunciar deslealdades.

    N.D. Independentemente da resposta da empresa de alojamento do PÁGINA UM, ponderamos mudar o servidor para outra empresa, mesmo com custos mais elevados, porque inaceitável que uma empresa desta natureza, sem sequer auscultar previamente um jornal, e aparentemente sem conhecer a legislação nacional, ameace suspender um serviço que afectaria toda a divulgação do jornal. Este exemplo mostra também como se podem exercer pressões extra-judiciais sobre um órgão de comunicação social independente.

  • Uma democracia que até na música desafina

    Uma democracia que até na música desafina


    Como os velhos rezingões ou as senhoras de missa diária que confundem rotina com virtude, aos 51 anos a democracia portuguesa julga-se amadurecida, mas está apenas apodrecida. Vive de pose e de liturgia, convencida da sua própria perfeição, enquanto o cheiro do bolor se entranha nos alicerces do Estado.

    Temos orientações, leis, regulamentos, decretos e portarias – e, vejam lá, até uma Constituição –, tudo redigido com a solenidade de quem acredita no mito da exemplaridade democrática. Fala-se de princípios de grande democraticidade, de transparência, de escrutínio e de direitos fundamentais. Mas, na prática, tudo se empata, tudo se obstaculiza, tudo se arrasta até ao esquecimento — ou até aos tribunais, que são, por cá, apenas uma forma de esquecimento judicializado.

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    A lentidão da Justiça é apenas uma parte do problema. A outra, mais grave, é a indiferença com que o próprio Estado — ou melhor, aqueles que vivem da máquina do Estado — desrespeitam as decisões dos tribunais. A cultura de impunidade está tão enraizada que as instituições públicas já não se sentem obrigadas a cumprir sentenças. É o “Estado de direito” a gozar consigo mesmo.

    No campo da comunicação social, o retrato não é mais animador. Relatórios internacionais repetem, ano após ano, que Portugal é um dos bastiões da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa. Tirando o facto de não se fazerem prender jornalistas, tudo o resto é balelas. Não há lápis azul porque seria demasiado vistoso. Hoje, são poucos os jornalistas que se podem dizer verdadeiramente livres. A autocensura tornou-se hábito, o silêncio é moeda corrente e a ginástica argumentativa para contornar temas incómodos já é parte do treino diário das redacções.

    Porém, aquilo que mais me impressiona é o desrespeito institucional pela figura do jornalista. Multiplicam-se os casos em que ministérios, autarquias e entidades públicas recusam prestar esclarecimentos, negar documentos ou simplesmente ignorar perguntas. Como se a função política, uma vez conquistada, se transformasse em propriedade privada, imune a qualquer forma de escrutínio.

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    E quando, como faz o PÁGINA UM, os casos chegam aos tribunais administrativos, o cenário não melhora. As instituições mentem, distorcem factos, recorrem a manobras dilatórias e, não raras vezes, incumprirem sentenças com total impunidade. Que o digam a Administração Central do Sistema de Saúde e o Infarmed, exemplos paradigmáticos de como o poder público se protege, contornando a lei e desprezando o dever democrático de transparência. E depois há também os juízes que, a pretexto do excesso de trabalho, empatam processos e aguardam que o tempo passe — e podem ser 34 meses — até serem transferidos, deixando a sua incompetência a salvo do escrutínio.

    Contudo, nos últimos meses deparei-me com outro campo, aparentemente inócuo, onde se expõe a mesma lógica de arbitrariedade: o mundo da música.

    Quando decidi introduzir no PÁGINA UM uma secção de crónicas musicais — note-se, crónicas e não crítica musical, porque os meus dotes não vão além de tocar campainhas —, encontrei um universo de convivências promíscuas e amiguismos que parecem ser regra na esfera cultural portuguesa: os produtores de espectáculos são amigos dos jornalistas, e vice-versa, esforçando-se por agradar mutuamente. Um espelho daquilo que sucede em outros sectores da sociedade, mas aqui feito sem sequer disfarçar. E, portanto, alguns produtores sentem-se livres, perante os órgãos de comunicação social, para concederem ofertas e obterem dividendos.

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    Clarifique-se um aspecto essencial sobre a relação entre os jornalistas e qualquer entidade pública e privada no acesso a eventos com público. O Estatuto do Jornalista, diploma aprovado pela Assembleia da República, confere direitos especiais — acima dos do cidadão comum — em matéria de acesso àquilo que se classifica como eventos públicos. Por princípio, tudo o que for público, no sentido de ser disponibilizado às pessoas, é acessível a um jornalista em funções, sem que sejam colocados obstáculos, incluindo os de natureza financeira. Ou seja, um jornalista não deve pagar para noticiar um evento, nem deve contribuir activamente para que um terceiro beneficie directamente daquilo que escreve.

    Nessa linha, as produtoras e promotoras de espectáculos musicais são obrigadas a conceder acreditação a jornalistas com fins informativos, salvo critérios objectivos de limitação de acesso, devidamente fundamentados. Essa obrigação decorre do mesmo princípio que impõe regras de segurança ou licenciamento — o de garantir o exercício livre da actividade jornalística.

    Iron Maiden: só após uma deliberação da ERC, sob a ameaça de dois crimes (contra a liberdade de imprensa e de desobediência) a produtora Prime Artist permitiu o acesso ao concerto em Julho passado, no Meo Arena.

    Pois bem: em cerca de uma dezena de pedidos de acreditação apresentados pelo PÁGINA UM, duas produtoras recusaram de forma ostensiva o acesso, invocando — directa ou subtilmente — o facto de o jornal não ter publicado notícias prévias sobre os respectivos espectáculos. Ou seja, o PÁGINA UM não servia de plataforma de promoção, logo não merecia entrar.

    Esta visão utilitária da imprensa é, em si mesma, um sintoma grave de degradação democrática. Os promotores culturais tratam os jornais como parceiros de marketing e os jornalistas como influenciadores ao serviço do negócio. E o mais preocupante é o silêncio cúmplice dos órgãos de comunicação social, que aceitam o jogo, beneficiam dele e o reproduzem.

    Por mim, recuso-me a compactuar. E, mais do que denunciar, jdecidi agir. Assim, pela segunda vez em cinco meses, depois de já o ter feito em Junho contra a Prime Artist, apresentei queixa contra a Free Musica na Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), a quem cabe fiscalizar o cumprimento desta obrigação legal. Em ambos os casos, as deliberações (aqui, em Junho, e ontem, aqui) confirmaram o óbvio: as produtoras violaram o direito de acesso dos jornalistas e incorrem, se mantiverem a recusa, na prática de dois crimes — um contra a liberdade de imprensa e outro de desobediência.

    Haverá quem diga que tudo isto é uma tempestade num copo de água, que não se justifica tanto zelo por causa de um simples espectáculo musical, que bastaria comprar um bilhete e resolver o assunto. Mas enganam-se. Aquilo que está em causa não é o acesso gratuito a um concerto; é o respeito pelos direitos fundamentais que estruturam uma democracia. Uma sociedade que se habitua a aceitar pequenas arbitrariedades acaba, inevitavelmente, por normalizar as grandes.

    Leprous, uma banda norueguesa de metal progressivo, com concerto marcada para dia 2 em Lisboa e no dia seguinte no Porto: a promotora Free Music acha que pode recusar arbitrariamente o acesso a jornalistas.

    Além disso, o jornalismo nunca pode ser visto como entretenimento. Exerce uma função pública essencial à vitalidade democrática. E quando se começa a condicionar o trabalho de um jornalista — seja num ministério, numa câmara ou numa sala de concertos —, o que se está a corroer é a base do próprio Estado de direito.

    Portugal vive hoje uma democracia de fachada, cheia de normas e relatórios, mas incapaz de garantir o cumprimento das leis mais simples. Uma democracia desafinada, onde os solistas do poder tocam para si mesmos e quem ousa pedir partitura é expulso da orquestra.

  • De ‘This is not America’ até ‘Isto não é o Bangladesh’: deixem o Ventura ser grunho

    De ‘This is not America’ até ‘Isto não é o Bangladesh’: deixem o Ventura ser grunho


    Nos anos 80, enquanto a América de Reagan voltava a vestir-se de luzes patrióticas e a projectar sobre o mundo o esplendor da sua força moral, o camaleónico David Bowie compunha, em parceria com Pat Metheny, uma canção que soava como murmúrio de desencanto.

    This Is Not America — parte da banda sonora do filme The Falcon and the Snowman (1985) — não era um protesto ruidoso nem um manifesto político. Era antes um espelho embaciado onde se reflectia a dúvida: a América que o mundo venerava ainda correspondia ao seu ideal fundador? Bowie, britânico e distante, oferecia uma elegia discreta à inocência perdida, um cântico melancólico sobre um país que se olhava ao espelho e já não se reconhecia.

    Foto: DR

    O filme que inspirou a canção, baseado em factos verídicos, narrava a história de dois jovens norte-americanos — um deles, o “falcão”, outro, o “homem de neve” — que vendiam segredos à União Soviética.

    Era, portanto, um retrato do colapso moral dentro do próprio sistema, uma traição nascida não do ódio, mas da desilusão. Bowie captou esse clima de queda interior. “A little piece of you / the little peace in me / will die”, cantava ele, jogando com a homofonia entre piece e peace: uma parte de nós — e a nossa paz — morre quando o ideal se corrompe.

    A frase que dá título à canção, This is not America, repetida como um mantra, não é uma negação geográfica, mas simbólica. É o lamento de quem observa um país perder a pureza das suas promessas e o brilho da sua crença em si mesmo. “Blossom fails to bloom this season”, escreveu Bowie — a flor não floresce nesta estação — como se dissesse que o sonho americano secou antes de dar fruto. Não há raiva nem panfleto: há desalento, uma espécie de tristeza civilizacional diante do abismo que separa o que se proclama do que se pratica.

    Não se esperaria que o também camaleónico — mas num sentido puramente táctico — André Ventura tivesse a subtileza de Bowie para falar da decadência, neste caso, não da América, mas de Portugal.

    O líder do Chega parece confundir provocação com pensamento, barulho com ideia, cartaz com ideologia. Os seus outdoors — sobretudo “Isto não é o Bangladesh” e também “Os ciganos têm de cumprir a lei” — são o reverso moral de This Is Not America: onde Bowie dizia “isto não é” para lamentar uma perda de valores, Ventura usa o mesmo gesto linguístico para excluir, dividir e afirmar uma identidade pela negação, usando ainda por cima um país terceiro.

    O líder do Chega usa o patriotismo tosco de quem acredita que a pátria se constrói à custa de um inimigo simbólico, de um bode expiatório. E, todavia, numa democracia, a resposta a uma criatura assim não deve ser a tentação punitiva, mas o exercício sereno da liberdade — porque, se os tribunais se apressam em casos destes (quando tudo o resto é lento), apenas trocam a justiça pelo palco, e Ventura não podia pedir melhor iluminação.

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    A deliberação recente da Comissão Nacional de Eleições, que remeteu para o Ministério Público as queixas sobre os cartazes de Ventura, evidencia precisamente esse risco. A CNE admitiu que as mensagens fazem referência a grupos étnicos, mas declarou-se sem competência fora do período eleitoral. A Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) seguiu o mesmo caminho, enviando o caso para o Ministério Público. Ventura, como era previsível, reagiu recusando retirar os cartazes, invocando a liberdade de expressão e negando qualquer teor racista. Ou seja: conseguiu o que queria. A controvérsia não apaga a sua mensagem; amplifica-a.

    A estratégia do Chega é tão velha quanto eficaz: chocar, provocar indignação e, logo a seguir, vestir a pele de vítima da censura. Quanto mais se fala dele, mais ele cresce — não pelas ideias (porque não as tem), mas pela reacção que provoca. A comunicação social cai no truque como um gato atrás do reflexo de um laser: noticia o cartaz, depois a queixa, depois a resposta de Ventura, depois as reações à resposta, depois os comentários sobre as reacções. Um ciclo infinito de propaganda gratuita. Ventura não precisa de comprar espaço publicitário: basta-lhe ser escandaloso. E o escândalo é, hoje, a moeda mais estável da política.

    Por isso, a resposta certa a Ventura não é judicial — é política e, sobretudo, cultural e eleitoral. Não se combate o ruído com mais ruído, mas com indiferença activa: a que o deixa falar até que o eco se canse. A democracia não se defende punindo o disparate, mas mostrando que o disparate é livre, e que a liberdade é mais forte do que o insulto.

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    Por vezes, há quem critique o PÁGINA UM por não abordar tantas vezes (como talvez se esperaria) as diatribes do Chega e de André Ventura. Mas isso deve-se, sobretudo, ao facto de eles já ocuparem um tempo de antena desmesurado noutros órgãos de comunicação — ávidos por mostrar tudo o que fazem, por transmitir as reacções, e as reacções das reacções, num ciclo autoalimentado de promoção involuntária.

    Por mim, os cartazes de André Ventura sobre o Bangladesh e os ciganos deviam manter-se — mesmo que ele agora o quisesse retirar. Se ele quer ser grunho e mostrar que é grunho, então ninguém tem o direito, nem ele, de o fazer esquecer nas próximas eleições presidenciais. Porque, ao contrário de Bowie, Ventura não canta a decadência — é a decadência que se auto-proclama. E, às vezes, o melhor serviço à memória colectiva é deixar o retrato exposto, para que ninguém diga um dia, em tom de espanto: isto não era Portugal. Era — mas não vingou.

  • O PÁGINA UM está a recrutar

    O PÁGINA UM está a recrutar


    O PÁGINA UM — e os seus projectos jornalísticos complementares a lançar ainda este ano — está a reforçar a redacção em Lisboa e procura profissionais motivados, independentes e rigorosos, com paixão pelo jornalismo e sentido de missão pública.

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    As vagas abertas são:

    2 Estágios curriculares ou profissionais (para efeitos de inscrição na CCPJ) — bolsa de estágio e formação incluída;

    1 Jornalista Júnior, com contrato inicial a termo certo, em regime de tempo inteiro e presencial;

    1 Jornalista Sénior, com experiência comprovada e espírito crítico, igualmente em regime de tempo inteiro e presencial;

    1 Administrativo, com domínio das rotinas editoriais, tratamento documental e apoio à gestão.

    Todos os candidatos devem enviar:

    Curriculum vitae detalhado;

    Três trabalhos distintos (publicados na imprensa escrita ou, no caso dos estagiários, trabalhos académicos relevantes);

    Intervalo remuneratório pretendido.

    As candidaturas devem ser enviadas até 7 de Novembro de 2025 para o e-mail:
    📩 pavieira@paginaum.pt

    O PÁGINA UM privilegia a independência editorial, a investigação documental e a escrita rigorosa. Procuramos quem queira fazer jornalismo de verdade — sem concessões nem filtros.

  • Habitação e urbanismo: um mundo de ideologias e certezas fáceis

    Habitação e urbanismo: um mundo de ideologias e certezas fáceis


    Há um novo tipo de alquimia académica que prospera à sombra dos números e dos microfones: transformar correlações frouxas em verdades absolutas. A imprensa, ávida de narrativas morais e de culpados prontos a usar, trata-as como dogmas científicos. O caso mais recente vem do Público, que proclamou ontem, com ar de epifania sociológica, que “as regiões com maior aumento da construção são onde os preços das casas mais sobem”. A frase soa bem, dá manchete, indigna o leitor e conforta o preconceito. Mas é estatisticamente falsa, logicamente invertida e intelectualmente preguiçosa.

    Os investigadores citados — quase todos de um certo círculo universitário urbano-progressista, entre Lisboa e Porto, em áreas onde a Estatística é pouco assídua — erguem-se como sacerdotes do anti-mercado. Falam em “subsídios à especulação”, em “unidades imobiliárias como instrumentos económicos”, como se fosse uma descoberta de laboratório que o imobiliário é… um activo.

    several cranes above the buildings

    Estranha surpresa: o capital investe onde há rendimento. Não há conspiração global; há procura. Mas, para esta geração de cientistas sociais, tudo o que não cabe na cartilha da redistribuição coerciva é, por definição, perverso. E o Estado, que deveria ser o regulador do mercado, intervindo no planeamento e na construção de forma activa — porque tem capacidade de influenciar preços —, é “convidado” a interferir coercivamente na propriedade privada e em actividades económicas legítimas.

    O problema básico é que, sob o verniz da denúncia, não há método. Nenhum. O artigo que lhes dá palco confunde, de forma absurda, associação com causalidade, ignora variáveis elementares — juros, rendimentos, migração, turismo, custo dos materiais, crédito — e cita séries temporais sem qualquer controlo de contexto.

    Provavelmente isto assustará os leitores comuns, mas tem de ser, para desmontar falácias: pegando nos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) — que não foram, como deveriam ter sido, cruzados com outras variáveis e séries mais longas —, observa-se que a correlação entre aumento de construção e valorização de preços é moderada (r≈0,55). Ou seja, há correlação positiva, mas não causalidade. Quando se aplicam modelos simples de regressão linear aos dados (Y = β₀ + β₁X), o coeficiente β₁ estimado situa-se apenas em torno de 0,25 — isto é, um aumento de 100% na construção associa-se, em média, a apenas 25 pontos percentuais de subida de preços. E o r²≈0,30 mostra que apenas 30% da variação dos preços pode ser explicada pela variação da construção.

    Notícia do Público.

    Mas, talvez induzido pela “narrativa” dos investigadores, em vez de o reconhecer, o Público prefere reinventar a Economia: diz que, quanto mais casas se constroem, mais as casas sobem. É como afirmar que os hospitais provocam epidemias porque as camas ficam cheias quando há doentes.

    A análise regional, aliás, desmente por completo a tese propagada. De acordo com os próprios dados do INE, a Área Metropolitana do Porto registou o maior aumento de construção no período 2019-2024 (+273,7%) e uma subida expressiva dos preços (+79,2%). Contudo, a Região Autónoma da Madeira, com crescimento de construção inferior (+213,9%), apresentou o maior aumento de preço (+97,3%). Em contraste, a Península de Setúbal teve apenas um acréscimo de 69% em novos fogos, mas foi a segunda maior valorização do país (+85%). Já o Algarve, com crescimento de construção moderado (+93,4%), viu os preços subir 62,3%, próximo da média nacional.

    E, no extremo oposto, a Beira Baixa, com crescimento quase nulo da construção (+0,5%), registou também a menor variação de preços (+1,75%). Ou seja, aparentemente, vai tudo no mesmo sentido, mas esse “mesmo sentido” é apenas uma aparência superficial.

    Na realidade, a construção e os preços movem-se em simultâneo porque respondem à mesma força: o crescimento da procura e das expectativas de valorização. Quando há mais compradores, crédito e investimento, constroem-se naturalmente mais casas — não o inverso. Assim, o que o Público apresenta como causalidade é, na verdade, um reflexo do ciclo económico e demográfico, e não uma lei do mercado imobiliário.

    Dados do INE usados pelo Público para concluir que as “regiões com maior aumento da construção são onde os preços das casas mais sobem”.

    Porém, há um erro ainda mais profundo: a variação da construção não é uma variável independente, porque depende directamente da procura habitacional e de fenómenos demográficos e económicos locais. Constrói-se mais onde há crescimento populacional, investimento, crédito e emprego; e constrói-se menos onde há despovoamento e ausência de dinamismo económico. A construção é, portanto, endógena — responde ao mercado, não o determina. Ignorar esta endogeneidade é o mesmo que culpar o termómetro pela febre.

    Por isso, o restante — os 70% que escapam à regressão — resulta de factores estruturais: turismo, rendimento disponível, atracção de investimento, políticas fiscais, fluxos migratórios e confiança económica. A estatística revela aquilo que o discurso ignora: a valorização imobiliária não decorre da oferta, mas da procura. As regiões com maior dinamismo económico e demográfico são aquelas que simultaneamente constroem mais e valorizam mais, não porque o cimento inflacione o preço, mas porque o mercado responde à procura. É um reflexo clássico: quando a expectativa de valorização é positiva, constrói-se mais; quando é negativa, a construção retrai-se.

    Tomemos outro exemplo. O Oeste, com forte crescimento populacional e turismo interno, aumentou a construção em 113% e os preços em 70%. Já o Baixo Alentejo, onde a procura é débil, teve apenas 10% de novos fogos e valorização de 28%. Esta simples comparação destrói a tese do “quanto mais se constrói, mais sobe”. A realidade é a oposta: constrói-se mais onde os preços já estão a subir — e os preços sobem onde há procura e rendimento, não betoneiras.

    white painted concrete building

    A notícia do Público e a narrativa dos especialistas contactados tratam-se, portanto, de uma infeliz inversão causal clássica — o erro que qualquer estudante de Estatística aprende a evitar. Mas, na academia mediática portuguesa, a lógica é facultativa: não importa demonstrar — basta narrar. Assim, quando a evidência concreta desmente a ideologia, torce-se a evidência. Os investigadores convocados pelo Público têm em comum uma obsessão moral: o capitalismo como mal absoluto, a habitação como campo de luta, o investidor como inimigo de classe. Falta-lhes o desconforto da dúvida e o exercício da refutação. Sobram-lhes certezas e epítetos.

    A imprensa, por sua vez, mostra-se uma cúmplice voluntária: já não se questionam os pressupostos, apenas se amplificam os ecos. Esta cumplicidade académica-jornalística constitui uma das formas mais perniciosas de agenda setting: transformar a opinião militante em “facto verificado” e a hipótese especulativa em “evidência empírica”. O jornalismo abdica da crítica para se tornar extensão do discurso universitário dominante — aquele que confunde urbanismo com engenharia social. Quando os media reproduzem sem escrutínio a tese de que “aumentar a oferta não resolve o problema da habitação”, estão a fazer política, não ciência.

    Há, porém, um dado inescapável: onde há mais crescimento populacional e económico, há simultaneamente mais construção e mais valorização. A correlação observada é o reflexo da procura, não da oferta. As regiões que atraem investimento e emprego — Porto, Lisboa, Madeira — são também as que têm preços mais altos. O fenómeno é o mesmo que leva o preço do trigo a subir quando há boas colheitas: se a procura cresce mais depressa do que a produção, o preço sobe. E não há decreto ideológico que o contrarie.

    houses near sea

    É nesta recusa da complexidade que o urbanismo académico se transforma em militância. Em vez de compreender as dinâmicas sociais e económicas, reduz tudo a moral política: há “especuladores”, “fundos”, “nómadas digitais”, “casas vazias”, “alojamento turístico”. Bodes expiatórios convenientes, que desviam a atenção do essencial: rendimentos estagnados, políticas fiscais erráticas e ausência de mobilidade laboral. O problema da habitação não está nas gruas; está na Economia e num país cada vez mais litoralizado, que não pode continuar a crescer apenas em torno da Grande Lisboa e do Grande Porto. Mas é mais fácil culpar o investidor do que discutir o Estado.

    Nota-se cada vez mais uma estética do simplismo que domina a ciência social portuguesa: gráficos sem análise, conceitos inflacionados e uma fé quase teológica no Estado redentor. E há uma imprensa que, incapaz de escrutinar, cede ao conforto da unanimidade. O resultado é a colonização ideológica do espaço público — uma paródia de empirismo que legitima medidas contraproducentes, como a proibição de alojamentos turísticos ou a demonização da propriedade privada.

    A ciência serve para descrever o mundo, não para o moralizar. A Economia serve para compreender o comportamento humano, não para o disciplinar. Quando investigadores abandonam o método para agradar à tribo, deixam de ser cientistas e tornam-se propagandistas. E quando jornalistas abdicam da dúvida para vender indignação, deixam de informar e passam a catequizar.

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    A verdade é que o preço das casas sobe porque Portugal cresceu em procura, investimento e exposição internacional. Subiu porque a impressão desmesurada de massa monetária pelo Banco Central Europeu causou inflação e canalizou dinheiro para o tijolo, porque a confiança no euro e no crédito aumentou, e porque o Estado é lento a disponibilizar solo e a simplificar licenciamentos.

    Seria sensato devolver o rigor à análise e o cepticismo ao jornalismo. O problema da habitação não se resolverá com indignações impressas nem com teses que confundem ideologia com evidência. E talvez fosse hora de os urbanistas descerem dos seminários e aprenderem a ler um gráfico antes de o usarem como bandeira. Até porque o debate público precisa de ciência, não de sermões — e de jornalistas que saibam distinguir entre um dado e uma doutrina.

  • É verdade que o Polígrafo sabe fazer verificação científica? Falso

    É verdade que o Polígrafo sabe fazer verificação científica? Falso


    Há muito que o Polígrafo deixou de ser um órgão de “verificação de factos” para se tornar um curioso laboratório de legitimação de financiadores. O projecto, que nasceu sob o pretexto da “verificação da verdade”, é hoje uma caricatura daquilo que pretendia denunciar: consolida-se como um veículo de desinformação institucionalizada, moldado aos patrocínios que lhe asseguram os lucros.

    Se o maná da pandemia lhe trouxe os milhões — sim, já ultrapassou um milhão — do Facebook e, também, agora do TikTok, o Polígrafo virou-se para uma estratégia sui generis e despudorada: em poucos meses abriu três linhas de facturação explícitas — futebol (financiada pela Betclic), finanças (financiada pela Ordem dos Contabilistas Certificados) e cancro (financiada pela Fundação Champalimaud, desde Agosto). Não se conhecem montantes envolvidos nem condições.

    O Polígrafo dá a mão a quem lhe dá dinheiro para fazer fact checking.

    Se calhar houve mais parcerias que me passaram despercebidas — ou que o seu fundador, Fernando Esteves, se esqueceu de nos revelar. Não se conhecem valores, contratos nem condições editoriais. Conhece-se apenas o resultado: uma deriva editorial que substitui o espírito crítico pelo conformismo rentável.

    Nada disto surpreende. O Polígrafo é um projecto torto, nascido do conceito de que a desinformação vem de fora — sobretudo das redes sociais —, quando, na verdade, radica na perda de credibilidade da imprensa e na sua incapacidade de convencer os leitores a usar informação fidedigna e produzir análises rigorosas sem enviesamentos. E fazer secções editoriais a pedido — ou seja, criar secções se houver patrocinador, como sucede num programa televisivo de domingo com o João Baião — é cavar ainda mais a sepultura da moribunda credibilidade jornalística.

    E isto com a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) a fingir que nada vê. A ERC, aliás, tem sido cúmplice silenciosa desta perversão: permite, sem pestanejar, que se pratique um “jornalismo a pedido” — não de cidadãos, mas de quem paga. A verificação de factos tornou-se, assim, um serviço de consultoria disfarçado de jornalismo.

    Qual a razão para o Polígrafo se dedicar ao futebol agora com afinco? Porque uma empresa de apostas de Malta, a Betclic, lhe começou a pagar para escrever especificamente sobre futebol – e não sobre outros temas quaisquer.

    O caso mais revelador desta promiscuidade é a secção Vital — o portal do cancro, financiada pela Fundação Champalimaud —, que tanto surge em site autónomo, com textos não assinados, como no próprio Polígrafo, assinados por jornalistas. Só isso já choca, porque, obviamente, o Polígrafo analisa questões relacionadas com o cancro porque há uma entidade que trabalha nessa área que lhe paga. Se um dia houver uma congregação que lhe mande fazer fact-checking sobre enchidos, aparecerão textos, tal como sucede no futebol e nas finanças.

    Enfim, sempre se poderá defender que o tema das doenças oncológicas — onde subsistem muitos mitos e desinformação — é bastante relevante e que, enfim, até justifica que a imprensa possa contribuir para melhorar a informação.

    Porém, o Polígrafo, mais uma vez — e com a chancela da Fundação Champalimaud e a pena de jornalistas inexperientes —, aventura-se por terrenos científicos com a ligeireza de quem nunca abriu um artigo numa revista científica, pretendendo combater a desinformação em saúde com um amontoado de simplificações, erros conceptuais e juízos dogmáticos que ofendem a inteligência de quem conhece minimamente o método científico.

    Escrever sobre cancros: o espaço alargou-se no Polígrafo por uma só razão: a Fundação Champallimaud paga.

    Tomemos o exemplo recente de um artigo sobre a vitamina D, que o Polígrafo classificou como “FALSO”. Segundo a peça, um “alegado médico e escritor de livros de auto-ajuda” teria dito, numa entrevista, que a vitamina D funcionava como uma “vacina para o cancro”. O Polígrafo decidiu pegar na frase — isolada, sem citar o nome do autor nem o contexto — e analisá-la literalmente. Ora, esse é o primeiro erro científico: confundir linguagem metafórica com proposição factual. Quando alguém diz que a vitamina D é “como uma vacina”, a comparação não é imunológica, é simbólica — remete para o potencial preventivo ou terapêutico, não para um mecanismo biológico idêntico ao das vacinas contra bactérias ou vírus.

    O segundo erro é mais grave: o Polígrafo ignora a complexidade epistemológica da ciência biomédica e submete o raciocínio ao mesmo esquema binário com que decide se um político mentiu sobre o preço do gasóleo. Em ciência, a dicotomia “verdadeiro/falso” é um disparate. A investigação opera sobre probabilidades, evidências parciais, correlações, hipóteses e margens de erro. Nenhum investigador sério, nem na Fundação Champalimaud, nem em Harvard, classificaria, por regra, um enunciado científico com um carimbo de “FALSO” — porque o conhecimento científico é, por definição, provisório e refutável.

    Curiosamente, no caso em apreço, o próprio Polígrafo, ao tentar justificar o seu veredicto, cita estudos que desmontam a sua própria sentença. Refere o ensaio clínico VITAL, publicado no New England Journal of Medicine em 2019, que concluiu que a suplementação de vitamina D não reduziu significativamente a incidência de cancro, mas revelou uma tendência favorável para menor mortalidade em quem já estava diagnosticado. Em português corrente: a vitamina D não previne o aparecimento da doença, mas pode ajudar quem já a tem. Acrescenta ainda uma meta-análise que confirmou o mesmo padrão: ausência de efeito preventivo, mas sinal positivo na sobrevivência.

    Analise-se a qualidade da análise do Polígrafo em fact checking de ciência feita por uma jornalista ‘junior’ formada em Comunicação Social.

    Ou seja, a própria evidência que o Polígrafo cita demonstra que o enunciado não é “falso” — é, na melhor das hipóteses, não comprovado em termos preventivos e parcialmente corroborado em termos de prognóstico. O jornalismo científico, se o fosse, deveria dizer isto. Mas o Polígrafo prefere a sentença categórica. É mais vistosa. E, sobretudo, mais conveniente para um patrocinador que, ironicamente, é uma fundação ligada à investigação oncológica e que dificilmente apreciaria um artigo a sugerir que a vitamina D possa ter efeitos benéficos que a sua própria instituição ainda não estudou.

    Esta ironia é amarga: um projecto financiado pela Fundação Champalimaud escreve artigos de fact-checking que impõem certezas onde a ciência admite dúvidas. Por isso, é o contrário da investigação científica: é a dogmatização do provável.

    Em ciência, não se trabalha com selos de “verdadeiro” ou “falso”. Trabalha-se com níveis de evidência: plausível, não comprovado, consistente, em revisão, refutado. Quando um estudo sugere associação, outro contesta e um terceiro encontra efeito apenas num subgrupo, o papel do comunicador científico é explicar essa incerteza, não abafar a discussão. A missão do jornalista na área da ciência não é decretar sentenças, é iluminar zonas de dúvida.

    O Polígrafo, porém, transforma o conhecimento em moral, a nuance em pecado e o método científico em catecismo. Usa a retórica da ciência para impor uma autoridade dogmática — e fá-lo em nome da luta contra a “desinformação”. Eis um paradoxo digno de figurar num manual de epistemologia: o verificador que desinforma ao simplificar.

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    Secções do Polígrafo crescem em função do patrocínio. Os temas editoriais em função de critérios financeiros: a antítese do jornalismo.

    A culpa, contudo, não é apenas do Polígrafo: é de um ecossistema mediático e regulatório que permite esta farsa. A ERC, que devia garantir a independência editorial, assiste calada enquanto órgãos de comunicação social se financiam por rubricas temáticas pagas por entidades com interesse directo na narrativa. Até porque secções patrocinadas estão a invadir as redacções e a infeccionar o jornalismo. Já não surpreende se houver laboratórios farmacêuticos a pagar aos jornais para decidir o que é “falso” ou “verdadeiro” em farmacologia. A independência morre, o jornalismo prostitui-se e a verdade torna-se um produto com recibo verde.

    Este caso da vitamina D é apenas um exemplo. Amanhã será outro. O Polígrafo, e outros, já abriram a porta. No fundo, aquilo que este episódio revela é um fenómeno mais vasto: a transformação da verificação de factos num mercado de opiniões sancionadas. A verdade já não é investigada; é subcontratada. O Polígrafo é o sintoma perfeito de uma era em que o jornalismo prefere agradar a quem paga — e está intimamente ligado aos temas tratados — do que enfrentar a complexidade do real. Até porque nunca se assumem quais os valores envolvidos.

    O verdadeiro jornalista, como o verdadeiro cientista, sabe que a dúvida é a forma mais elevada de honestidade. O Polígrafo, infelizmente, parece ter optado pela certeza remunerada.

  • O jornalismo independente sentado no ‘banco dos réus’ do Tribunal do Bolhão

    O jornalismo independente sentado no ‘banco dos réus’ do Tribunal do Bolhão


    Está na moda falar em “defesa da democracia” e na importância de existir uma “imprensa livre”. Ainda bem. Afinal, ninguém no mundo Ocidental quer mergulhar numa era de condicionamento da imprensa nem em regimes autoritários. Portugal já viveu em ditadura e sabe o preço que acarretou para as liberdades fundamentais e para os jornalistas.

    O problema é que, até pode estar na moda “defender a democracia” e a “imprensa livre”, mas soa cada vez mais a falso. Parecem palavras ocas num mundo em que a comunicação social se confunde com uma indústria de conteúdos para alimentar as massas de smartphone na mão. E para servir os clientes e parceiros de negócios, que pagam para terem promoção e publicidade, seja através de eventos, seja através de conteúdos pagos mais ou menos disfarçados de informação.

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    Foto: D.R.

    Afinal, o que é isto de “imprensa livre”? Será um mantra para acalmar os receios, perante os sinais de que o passado de autoritarismo no continente europeu ainda deixou sementes que progridem a olhos vistos?

    Esta quinta-feira, a partir das 9h00, o director deste jornal vai, de novo, estar sentado no banco dos réus para a segunda sessão de um julgamento que nem deveria estar a decorrer, não fosse pela acção do Ministério Público que se esqueceu que Portugal é um país em que (ainda) existe liberdade de expressão e liberdade de imprensa.

    Pedro Almeida Vieira está a ser acusado de mais de três dezenas de crimes de difamação, entre os quais de ter criticado um péssimo poema de Gustavo Carona.

    Mas este não é o único julgamento que o director do PÁGINA UM vai ter ainda este ano. Há já datas para as sessões de mais um julgamento. Mais uma tentativa de intimidação e silenciamento.

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    O facto de se aceitarem sequer estas acções de perseguição judicial para silenciar e intimidar jornalistas (conhecidas como SLAPP) alimenta o “sonho” de outros que almejam esmagar o jornalismo livre, o verdadeiro.

    É o caso de Dino d’Santiago que deixou uma ameaça a Pedro Almeida Vieira por ter investigado e publicado notícias sobre o financiamento público que o empresário e artista arrecadou nos últimos anos.

    Outro caso, é o de Pedro Guerra Alves, advogado da consultora BDO, que não se coibiu de ameaçar Pedro Almeida Vieira com processos judiciais, como forma de o intimidar. Tudo para que não publicasse uma notícia sobre a auditoria da BDO à campanha “Todos por quem cuida”, dinamizada por Miguel Guimarães, Ana Paula Martins e Eurico Castro Alves.

    Voltando à questão sobre o que é “imprensa livre”, a resposta é simples. Se alguém tiver dúvidas sobre o que é, basta seguir o rasto dos processos judiciais, as migalhas das ameaças, os e-mails de intimidação.

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    O jornalismo verdadeiramente livre não teme estas tentativas de silenciamento. Pelo contrário, esses esforços para calar reforçam ainda mais a vontade de se investigar e escrutinar.

    O jornalismo verdadeiramente livre é aquele que é respeitado e também temido por aqueles que têm algo a esconder.

    Hoje, o jornalismo não é temido. Está, em geral, domesticado. Parece livre, mas não é. Não verdadeiramente.

    A imprensa verdadeiramente livre questiona, investiga, escrutina. Exige acesso a informação que deve ser pública. Exige transparência de quem tem de prestar contas à população. Avança com processos na justiça, se necessário, para que a transparência e a lei se cumpram, libertando informação que nunca deveria estar fechada num cofre por ser pública.

    É isso que o PÁGINA UM tem procurado fazer. E, por isso, o seu director se senta no banco dos réus. Não porque “difama” ou emite informação falsa. Mas porque faz o que muitos não estão habituados a ter: escrutínio.

    A defesa da democracia só é verdadeira se também se defender a verdadeira imprensa livre, a que não serve “clientes” nem “parceiros comerciais”.

    Até porque uma imprensa verdadeiramente livre é, em simultâneo, o termómetro da democracia e a bússola que aponta o caminho. Para que não se caia na tentação de seguir por atalhos e desvios que levam ao passado, ao tempo em que a imprensa existia mas tinha um ‘polícia’ a dizer o que se podia investigar e escrever.

  • Vá lá, Dino d’Santiago, tu és capaz: processa lá um jornalista por fazer jornalismo

    Vá lá, Dino d’Santiago, tu és capaz: processa lá um jornalista por fazer jornalismo


    O primeiro dever de um jornalista é o da verdade, e o segundo é o da coragem. Entre ambos não pode existir hesitação. O jornalismo não serve para confortar consciências nem para proteger reputações, mas para escrutinar o poder e a influência — sejam de ordem política, económica, social ou cultural.

    Dito isto, toda a actividade nobre deve ser reconhecida, mas nenhuma, por mais virtuosa que se proclame, pode ser transformada em reduto imune ao olhar público. A missão do jornalista é, de facto, desconfortável: quando cumpre o seu dever, inevitavelmente fere susceptibilidades. Porém, se o medo das consequências orientar a sua investigação, então já não se pratica jornalismo — pratica-se reverência.

    Não coloco em causa o mérito de causas sociais cívicas – fui dirigente nacional da Quercus nos anos 90 – nem o valor de quem as promove; o que coloco em causa é a ideia de que a nobreza de um propósito justifica o silêncio sobre a origem e a aplicação dos dinheiros públicos. O Estado não deve ter beneficiários especiais. Quando a visibilidade mediática se torna porta de acesso privilegiado a fundos públicos, o dever de escrutínio torna-se ainda mais imperativo. As boas intenções não substituem a prestação de contas.

    O PÁGINA UM publicou, em dois artigos ao longo desta semana (aqui e aqui), uma investigação documentada sobre os financiamentos públicos recebidos pelo músico Dino d’Santiago — quer através da sua empresa unipessoal, a Batuku Roots, quer através da associação que fundou e preside, a Mundu Nôbu. É uma história que não se resume a música ou a filantropia, mas que envolve quase 1,6 milhões de euros de dinheiros públicos.

    A associação, criada há menos de dois anos, garantiu já perto de 800 mil euros em apoios e contratos, incluindo concertos a preço hiperinflacionado. E, apesar de se apresentar como entidade de intervenção social, não divulga os seus órgãos sociais, não revela o número de associados, não promove adesões e não apresenta relatórios e contas aprovados. Aparenta ser um clube de Dino d’Santiago e Liliana Valpaços sob a capa de associação para se livrar do estatuto de empresa, menos escrutinável.

    Sublinhe-se: em democracia, ninguém, por muito admirado que seja, está acima do escrutínio. Não é o talento musical, a cor da pele, a fé política ou o empenho comunitário que conferem imunidade à fiscalização pública. Quando um cidadão, como Dino d’Santiago, gere dinheiros do Estado, a opacidade é um insulto a todos os contribuintes. É precisamente em nome da igualdade e da justiça que o jornalismo não pode distinguir entre “bons” e “maus” destinatários de fundos.

    Reconheço — e é preciso dizê-lo sem hipocrisia — que investigações como esta podem gerar reacções indesejáveis, e pessoalmente não aprecio absolutamente nada (e até abomino) algumas reacções que li nas redes sociais sobre os artigos do PÁGINA UM. Há quem procure distorcer a crítica legítima em ataque pessoal, ou até em insinuação racial.

    Mas o jornalista que se retrai, por receio das interpretações do seu trabalho, trai o próprio sentido da profissão. Um jornalista não é juiz de intenções nem profeta de reacções; é apenas alguém que procura e expõe a verdade factual. Se dessa verdade emergem desconfortos, e reacções inflamadas, que se trate então de os resolver com transparência — não com vitimizações ou ameaças ao mensageiro.

    Aquilo que é verdadeiramente se mostra intolerável é transformar o mérito artístico ou o activismo social em arma contra a liberdade de imprensa. Quando um protagonista público, como fez Dino d’Santiago, responde a perguntas legítimas de um jornal com ameaças de processos judiciais e acusações de difamação, demonstra precisamente o contrário do que proclama: falta de abertura e ausência de confiança na força dos seus próprios argumentos. A transparência não teme perguntas; teme-as quem tem algo a esconder.

    Não ignoro que existam associações de base voluntária, frágeis na sua gestão e sustentadas por orçamentos diminutos. Essas merecem compreensão e até auxílio técnico. Mas não é esse o caso da Mundu Nôbu: em menos de dois anos, obteve somas avultadas de várias entidades públicas e estabeleceu mais de uma dezena de parcerias privadas. Uma estrutura com tal envergadura deve cumprir escrupulosamente as obrigações legais e morais de prestação de contas – até para dar o exemplo aos jovens que auxilia. Se o não faz, a legítima suspeita instala-se.

    Dino d’Santiago, cidadão português nascido em democracia, com plenos direitos e também (presumo) deveres, deve compreender que viver de apoios públicos implica responsabilidade pública. Nenhuma biografia, por mais inspiradora, suspende as regras da República. As causas sociais não são licença para o sigilo, e a popularidade não é escudo contra o dever de transparência. É esse o princípio elementar de uma sociedade decente — e é esse o princípio que o PÁGINA UM defenderá até ao fim.

    Deixo, pois, um repto claro: se Dino d’Santiago se julga injustiçado e difamado, que concretize a ameaça e me processe. Terá então oportunidade de nos explicar, em tribunal, como foram geridos os fundos públicos que recebeu. Do meu lado, não espere simpatias. Aliás, porque também sou cidadão, e não aprecio ameaças desta natureza (que andam a aumentar) pedirei à Inspecção-Geral das Finanças e ao Tribunal de Contas uma averiguação rigorosa sobre o destino das verbas públicas entradas na associação de Dino d’Santiago.

    A transparência, devia ele saber, não é ofensa; é um dever. E o jornalismo não é instrumento de perseguição; é um serviço público. Quem verdadeiramente acredita na sua integridade não teme a luz da verdade. Que se acendam, pois, todos os holofotes: não apenas para a música de Dino d’Santiago, mas para a sua postura.

  • Salvar a revista Visão? Não, obrigado! – e muito menos obrigado

    Salvar a revista Visão? Não, obrigado! – e muito menos obrigado


    Há um limite para tudo — até para a mistificação. O apelo na rede social X de Pedro Coelho — um reconhecido jornalista da SIC e com especiais responsabilidades na formação de futuros jornalistas (é professor da Universidade Nova de Lisboa – a que o Estado e os credores públicos “criem condições” para salvar a revista Visão, é um desses momentos em que o absurdo ultrapassa a fronteira do aceitável.

    Lamenta ele que “não alertámos a tempo para a crise da Visão e da TIN [Trust in News]” – abusando da primeira pessoa do plural –, mas anuncia que para “salvar” um título jornalístico há por aí “um grupo de jornalistas corajosos” que “precisam de nós” — mas o que realmente propõe é que se varra para debaixo do tapete uma gestão ruinosa que custou, no mínimo, 15 milhões de euros ao erário público. Em suma, propõe um perdão moral e financeiro a quem conduziu a TIN ao colapso, e uma indemnização indireta à irresponsabilidade. É o mais torpe apelo que um jornalista pode fazer.

    Quando um profissional da comunicação, pertencente a um grupo mediático (Impresa) que se libertou em 2018, através de esquemas com o Novo Banco, de um ‘cancro financeiro’ – transmitindo-o a Luís Delgado que investiu 10 mil euros para sacar cerca de 350 mil euros em salários para si logo nos dois primeiros anos –, pede que o Estado e os contribuintes reparem os desmandos privados, abdica do seu papel mais elementar: o de fiscal do poder e guardião da ética.

    A Visão (e as outras revistas) não caem por um acaso, um azar, ou pela conjectura, ou pela desinformação. Caíram porque a TIN foi gerida com leviandade, sem escrutínio interno, e com uma conivência quase eclesiástica entre jornalistas que se julgavam imunes às leis da economia e da decência. Enquanto os jornalistas da Visão recebiam salários, somavam-se dívidas ao Estado e à Segurança Social, acumulavam-se calotes a fornecedores e mascarava-se tudo mentindo e omitindo à ERC e fazendo contabilidade criativa.

    E a qualidade jornalística decaía, reflectindo-se na perda de leitores: em 2017, a revista Visão ainda chegou a vender quase 61 mil exemplares por semana e tinha seis mil assinaturas digitais. No último trimestre de 2023 — última vez que houve auditoria da APCT —, a Visão já só vendia 20.047 exemplares em banca por semana e tinha apenas 3.169 assinaturas digitais. Hoje, não havendo sequer números oficiais, apontam-se para menos de 10 mil exemplares.

    Post de Pedro Coelho a apelar para que os “credores públicos” criem condições para salvar uma empresa que ainda nem sequer apresentou contas no ano passado e terá uma dívida ao Estado de mais de 15 milhões de euros e um passivo superior a 30 milhões de euros, tudo sob a gestão de uma empresa criada com um capital social de 10 mil euros.

    Perante isto, dizer agora que há um grupo de “jornalistas corajosos” prontos a “assumirem o barco” é de uma ironia cruel. Onde estavam esses heróis quando o casco começou a meter água, ainda no tempo da Impresa? Onde estavam quando a TIN acumulava dívidas e escondia balanços? O PÁGINA UM alertou, documentou e publicou uma extensa investigação, a partir de Julho de 2023 (p. ex., aqui, aqui e aqui), aquilo que todos os outros não queriam sequer ver. E fomos ignorados ou mesmo insultados – aliás, a postura corporativista da imprensa é um dos piores males do nosso jornalismo.

    Chamaram até “fantasiosas” às notícias do PÁGINA UM que, linha por linha, antecipavam a derrocada inevitável. A própria então directora e publisher da Visão durante anos, Mafalda Anjos, escreveu em carta formal ao PÃGINA UM que não se pronunciava sobre “artigos fantasiosos que versam as contas da TIN”. Mas a sua maior preocupação nesse e-mail estava no facto de usaremos fotografias dela que constavam das suas redes sociais. Hoje, a mesma Mafalda Anjos, desmentida pelos factos, tenta reescrever a história nas redes sociais, como se o descalabro da TIN fosse um relâmpago vindo do nada.

    Não é, pois, de coragem que se trata quando se quer “salvar” a Visão – e o mesmo sucede com o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias –, mas de oportunismo. Há uma diferença abissal entre quem luta para criar um projecto sustentável e quem pede indulgência pública para manter um título. Se os jornalistas da Visão acreditam que existe mercado para o seu trabalho, façam o que qualquer profissional decente faz: criem uma nova revista, registada na ERC, com outro título, outro modelo e contas limpas. Tão simples como isto.

    O PÁGINA UM publicou a primeira notícia sobre a situação financeira da Trust in News em 24 de Julho de 2023, há mais de 26 meses. Mafalda Anjos, sorridente ao lado de António Costa, apelidaria então de “fantasiosas” as notícias sobre esta matéria.

    Aliás, a TIN tinha um capital social de apenas 10 mil euros, não é muito: é o mesmo valor do PÁGINA UM. Não precisam de milagres nem de perdões fiscais — precisam de ética, investimento privado e responsabilidade. Uma Empresa na Hora basta – e podem começar a nova revista na próxima semana com essa estrutura e o conhecimento desse “grupo de jornalistas corajosos”. O resto é vitimização.

    Bem sei que esta súbita onda de solidariedade não é inocente. É uma tentativa de limpeza simbólica, de apagar os rastos de uma gestão calamitosa que muitos preferiram ignorar enquanto o dinheiro público e privado era esbanjado. Luís Delgado não cavou o buraco sozinho: contou com o silêncio cúmplice de quem, dentro das redacções, fingia que a crise não existia. Contou com a inércia da ERC, que tudo permitiu, e com a cegueira de uma classe jornalística que só reage quando sente o frio do abismo.

    A insolvência da TIN – e por arrasto o fim de muitos títulos – é um acto de justiça económica e moral. Não significa o fim do jornalismo, nem a morte da revista Visão enquanto conceito — apenas o encerramento de um ciclo de impunidade. O jornalismo que merece ser salvo é aquele que se sustenta na verdade, não o que se alimenta de subsídios e de nostalgia. Se o Estado se põe agora a “salvar” empresas privadas falidas só porque são do sector da imprensa, estará, além de minar a independência necessária em democracia, a consagrar o princípio de que a irresponsabilidade é um direito adquirido. E isso seria o golpe final na credibilidade do sector.

    Mafalda Anjos escreveu em 26 de Julho de 2023 ao PÁGINA UM, de forma voluntária, dizendo que não se pronunciava sobre “artigos fantasiosos que versam contas da TIN”. Apontava depois o erro de não se publisher desde finais de 2022 e de não ter responsabilidades de gestão financeira na Visão. Convém referir que a Lei da Imprensa concede o direito de um director ser informado da situação financeira em detalhe do órgão de comunicação social que dirige.

    Não querendo ser moralista, tenho mesmo de defender que está na hora de moralizar o campo mediático. Não desejo o desemprego de ninguém, mas também não aceito que se confunda solidariedade com complacência. A regeneração do jornalismo português passa por enterrar os ‘cadáveres corporativos’ que há demasiado tempo poluem a profissão. É preciso criar novos projectos, independentes e transparentes, que não se escondam atrás de marcas antigas. O cemitério da imprensa está cheio de títulos ilustres — e nenhum ressuscitou pela vontade piedosa do Estado. A Visão é apenas um nome. O que deve importar é a lucidez, a honestidade e a coragem de enfrentar a realidade.

    A morte da Visão — enquanto símbolo de um modelo falido — é um acto de higiene estrutural. Que sirva de exemplo. O bom jornalismo não se faz de esmolas do Estado, nem de piedade dos contribuintes. Faz-se de verdade e de carácter. Faz-se até os leitores decidirem – e tem sido essa a máxima do PÁGINA UM: somos aquilo que os leitores querem que sejamos. E se hoje ainda fazemos um jornalismo de nicho, porque ainda escasseia um número suficiente de apoiantes, a solução mais cordata não parece ser endividarmo-nos até ao tutano, aguardando pela salvação do Estado.

    P.S. Num comentário na rede social X, Mafalda Anjos continua a viver na sua bolha e acusa-me de “teorias da conspiração” e que escrevo aquilo que escrevo porque “tenho de fazer pela vida”. Mafalda Anjos pensa que ainda vive nos seus gloriosos tempos da pandemia, onde tiradas e rótulo serviam como argumento. Ao contrário de Mafalda Anjos, eu não fui director da Visão e não fugi do ‘barco’ quando estava a afundar e ainda tentei sacar 54 mil euros de indemnização (que acabou por não ser pago, porque o karma é tramado e Luís Delgado deu-lhe também um calote).

    Mafalda Anjos; quando uma jornalista tenta reescrever a História (neste caso, o contexto do termo fantasiosos; e da situação grave da TIN em 2023 que “já estavam documentadas”, usando ainda argumentos primários dos tempos da pandemia (teorias das conspiração e ‘tens de fazer pela vida’, que ela bem sou usar), só tem futuro no Jornalismo por empenhos e conhecimentos pessoais. Mas a sua manutenção na classe agrava a seriedade e credibilidade do jornalismo.

    E mais: ao contrário da Mafalda Anjos, eu não tenho uma agenda recheada de contactos públicos e privados para, depois do descalabro na Visão, encontrar uma boia de salvação profissional na CNN Portugal (cuja informação é maioritariamente opinião de bitates) e na sempre generosa RTP/RDP. No dia em que a qualidade e a seriedade fossem critérios no jornalismo lusitano, Mafalda Anjos teria de encontrar refúgio apenas numa empresa de marketing e comunicação empresarial a vender marcas e narrativas – nisso, admito, ela tem um imenso jeito e uma esbelta cara de pau.

  • O Nobel da Paz, a família política de María Corina e o anti-trumpismo primário

    O Nobel da Paz, a família política de María Corina e o anti-trumpismo primário


    Há fenómenos mediáticos que revelam menos sobre o assunto em si e mais sobre quem os comenta. A atribuição do Prémio Nobel da Paz a María Corina Machado foi, em Portugal, um desses casos: em vez de se analisar o que significa distinguir uma opositora que, independentemente do contexto político, desafia um regime autoritário e clientelar, preferiu-se brincar aos espelhos ideológicos. Como se viu no Expresso, com David Dinis a traçar um enviesamento narrativo de contornos propagandísticos, o reflexo de Trump na Sala Oval parece ter sido mais importante do que o espelho partido da Venezuela.

    As manchetes e colunas que por cá se escreveram, entre a satisfação e a ironia, pareciam celebrar menos o reconhecimento de uma mulher corajosa e mais a “derrota simbólica” do presidente norte-americano — esse homem de ego oceânico, que até já anunciou sonhar com o Nobel da Paz tanto como uma miss qualquer ambiciona a faixa de Miss Universo.

    María Corina Machado

    Ainda mais porque, ou me engano muito, ele acabará por recebê-lo num dos próximos anos, excepto se houver um qualquer percalço ou fatalidade. Não por mérito moral, mas por inevitabilidade histórica: Trump é o sintoma de uma América que ainda se crê o centro do mundo – e é-o do ponto de vista militar e estratégico –, e é provável que, um dia, para saciar essa mesma crença, o Comité de Oslo ceda e lhe estenda a medalha — talvez não pela guerra, mas por algum acordo improvável, seja no Médio Oriente, seja num tratado de desanuviamento algures entre Jerusalém e o Cáucaso, ainda que ele confunda a Arménia com a Albânia, como sucedeu recentemente.

    O mundo não acabará por isso. Já o Nobel sobreviveu a Kissinger — arquitecto da duplicidade vietnamita — e a Obama — laureado antes mesmo de decidir quais as guerras que iria iniciar. Por que não Trump? Se a paz já serviu para premiar generais e estrategas, não há escândalo que um vendedor de ilusões o conquiste por conveniência e vaidade. Antes isso do que guerras…

    Mas o que, nesse momento, mais me espanta não é o destino provável de Trump; é a leitura enviesada que a imprensa portuguesa faz do presente. O prémio a María Corina Machado foi descrito como a personificação da “esperança de um futuro diferente, onde os direitos fundamentais dos cidadãos são protegidos e as suas vozes são ouvidas”, em contraponto ao que, por exemplo, David Dinis tem a ousadia de comparar: as supostas autocracias de Maduro e Trump — o que, convenhamos, se mostra ridículo mesmo para um opositor arreigado do trumpismo.

    Donald Trump

    No meio disto é curioso notar o malabarismo (ou cegueira) dos comentadores sobre a postura de María Corina Machado, até do ponto de vista ideológico. Com efeito, ao invés de ser uma adversária de Trump, a nova laureada da Paz é uma indefectível apoiante do presidente norte-americano. Chamou-o de “visionário” e “corajoso” pela sua política face a Maduro — e não haja dúvidas de que vê numa Administração republicana um aliado mais natural do que teria numa Administração democrata.

    A ignorância e o enviesamento na leitura da premiação acabam por ser caricatos, porque idolatraram quem simboliza o pragmatismo trumpista: uma mulher que defende privatizações “massivas” — incluindo a da PDVSA, a petrolífera estatal venezuelana — e que chegou a admitir a presença de forças militares estrangeiras para derrubar o regime. Na verdade, na Venezuela, María Corina é vista como uma liberal radical — e em certa medida, mostra essa postura. Na esquerda latino-americana é tida como de “extrema-direita”; no Brasil, uma “amiga da extrema-direita bolsonarista”.

    Em concreto — e aí não há como negar —, a nova Prémio Nobel da Paz tem uma família ideológica: é uma das subscritoras da Carta de Madrid, manifesto lançado em 2020 pela fundação Disenso, ligada ao partido espanhol VOX, e que congregou uma constelação de figuras da direita liberal e conservadora mundial — e que muita imprensa cataloga de extrema-direita: de Giorgia Meloni a Eduardo Bolsonaro, de Santiago Abascal a José Antonio Kast, de Javier Milei e a dezenas de dirigentes de direita da oposição venezuelana. O documento, redigido em tom de cruzada, denuncia o “avanço do comunismo” e o “sequestro da região por regimes totalitários” patrocinados por Cuba, pelo Foro de São Paulo e pelo Grupo de Puebla, defendendo a propriedade privada, o Estado de direito e a liberdade de expressão como baluartes civilizacionais.

    person driving car during daytime

    Contextualmente, a adesão de Machado a essa plataforma — que não foi isolada, pois conta com mais de trinta opositores venezuelanos — insere-se num movimento transnacional de resistência conservadora ao populismo de esquerda latino-americano, mas também serve, ironicamente, de espelho ao próprio discurso do Nobel, que, sob o pretexto da defesa da democracia, reedita uma batalha ideológica simétrica, em que cada campo acusa o outro de autoritarismo enquanto instrumentaliza a linguagem da liberdade. Não surpreende, assim, que, em Portugal, o Chega tenha saudado María Corina Machado, sublinhando tratar-se de “um triunfo da liberdade contra o socialismo”.

    De qualquer modo, a cartografia de rótulos — incluindo o anti-trumpismo primário, que consegue fazer esquecer tudo o resto — revela um problema maior: o debate político global transformou-se numa disputa de caricaturas. Já não se discutem ideias, apenas se escolhem lados. A imprensa — e a portuguesa em particular — tornou-se um eco de trincheira: o que interessa é saber se o vencedor do Nobel “ajuda” ou “derrota” Trump, não se a Venezuela poderá um dia voltar a respirar democracia.

    Pessoalmente, não tenho idolatrias nem certezas morais sobre María Corina Machado. Não a vejo como uma Madre Teresa de Calcutá — até porque a política, ao contrário da santidade, exige manobras e compromissos —, mas reconheço nela uma mulher que, com todos os defeitos e excessos, enfrenta um regime corrupto e violento que destruiu o seu país. A sua ideologia é discutível; a sua coragem actual, inegável — e, por agora, pragmaticamente, isso é o mais relevante.

    María Corina Machado foi uma das signatárias da Carta de Madrid, promovida pelo Vox (Espanha).

    Em todo o caso, mostra-se perturbante ver como se cola ou descola rótulos em função das circunstâncias ou conveniências, endeusando ou diabolizando não em função de acções, mas de utilidades momentâneas. Num mundo polarizado, a lucidez é cada vez mais rara. E hoje há um fascínio mórbido por reduzir pessoas a emblemas e causas a slogans. O verdadeiro debate político — o que deveria discutir a liberdade, a justiça e o equilíbrio entre soberania e direitos — foi substituído por um jogo de espelhos morais: o inimigo do meu inimigo é meu herói, até segunda ordem.

    Para mim, María Corina Machado é uma mulher de direita sem disfarces – e isso pode não me agradar –, mas também é o rosto da resistência a um regime que persegue, censura e mata. E se há um mérito no Nobel que recebeu, é o de lembrar que a coragem política ainda existe — mesmo quando vem embrulhada em ideias que não partilhamos. Qualquer outra extrapolação, nesta fase, é mero exibicionismo ideológico. Por isso, o Prémio Nobel da Paz parece-me mais relevante pelo que pode representar para o futuro da Venezuela, mas nada tem de punição contra Trump – pelo contrário.