Categoria: Editorial

  • Revista Visão: quem quer parecer ovelha não dorme com o lobo

    Revista Visão: quem quer parecer ovelha não dorme com o lobo


    Nos últimos meses, tem sido amplamente celebrada — e em parte com razão — a abnegação de uma dúzia de jornalistas que, sem recursos, em teletrabalho, sem salários regulares, continuaram a produzir a revista Visão a partir de casa, mantendo o título vivo enquanto se aguarda um veredicto sobre o seu futuro.

    Esse esforço foi elevado quase a um hino cívico: jornalistas despojados, mas dignos, fiéis à missão e resistentes num deserto empresarial. A isso somou-se um crowdfunding liderado pelos próprios jornalistas, sob a direcção de Rui Tavares Guedes, com sucesso assinalável — até hoje foram angariados 263.311 euros provenientes de cerca de 6.100 doadores — e com o apoio entusiástico de múltiplas figuras públicas, para tentar salvar a marca que deverá ir a leilão no próximo mês, no contexto da insolvência da massa falida da Trust in News, permitindo, ao menos em teoria, compensar parcialmente os credores.

    Campanha de crowdfunding dos jornalistas da Visão apela para que não se fechem os olhos.

    Convém, porém, suspender por um instante o aplauso e perguntar: o que é que está realmente a acontecer aqui?

    Os credores não são uma abstração. Entre eles estão a Segurança Social, a Autoridade Tributária, jornalistas, fornecedores e outros lesados. E no centro do descalabro está a Trust News, empresa que em 2018 adquiriu cerca de uma dezena e meia de títulos à Impresa, controlada pela família Balsemão, que então já apresentava dificuldades financeiras em manter essas publicações.

    A Trust in News ‘caiu do céu’ para salvar o imbróglio da família Balsemão, e foi criada pelo antigo jornalista Luís Delgado com um capital social de apenas 10 mil euros. Pouco tempo depois, começaram os incumprimentos em cadeia, as dívidas ao Estado, os salários em atraso, até que o passivo conhecido atingiu valores na ordem dos 31 milhões de euros — e isto sem que as contas de 2024 tenham sequer sido apresentadas, o que por si só já diz muito. Há sinais fortes de fraude, engenharia financeira, há opacidade estrutural, há um rasto de destruição que não pode ser explicado apenas com a palavra mágica “crise”.

    Luís Delgado com Francisco Pedro Balsemão em 2018 aquando da compra das revistas da Impresa, incluindo a Visão.

    Este desastre não aconteceu por acaso. Foi protagonizado por Luís Delgado e foi permitido pelo Estado e pelo Governo — sobretudo pelo Governo socialista — que assistiram durante anos, com uma passividade cúmplice, a um dos maiores colapsos da imprensa portuguesa recente. Mais grave ainda: Luís Delgado e outros gerentes têm já condenações judiciais e execuções fiscais em curso, tornando todo o enredo ainda mais pesado do ponto de vista ético e institucional.

    E é aqui que o caso deixa de ser apenas trágico para se tornar verdadeiramente obsceno.

    Porque, apesar de todo este quadro, apesar de os jornalistas da Visão, e o seu director Rui Tavares Guedes, afirmarem ser vítimas de uma má gestão; apesar de a empresa estar falida; apesar de não se saber sequer, hoje, quem responde juridicamente pela Visão nem como é paga a produção da revista – eis a surpresa obscena: Luís Delgado continua a ser cronista regular da Visão, e não me parece que seja ao arrepio da vontade do seu director editorial, Rui Tavares Guedes. Este ano já escreveu nove artigos publicados na edição online, o mais recente na segunda-feira passada.

    Isto não é um detalhe. É o nó central da história.

    Não se pode, ao mesmo tempo, apresentar-se como vítima e manter como voz legitimada e publicada, o principal responsável pelo desastre. Não se pode pedir solidariedade pública, donativos, compreensão moral, apelos a perdões do Estado, enquanto se oferece espaço editorial a quem conduziu o navio ao fundo e deixou uma montanha de dívidas ao Estado, aos trabalhadores e ao sector. Não se pode invocar a ética do jornalismo e normalizar esta promiscuidade como se fosse um pormenor secundário.

    Algo está muito mal contado na história da revista Visão. Muito mesmo.

    Neste momento, a revista parece existir num limbo jurídico e financeiro: sem empresa claramente responsável, sem transparência sobre os fluxos que permitem a sua produção, sem respostas claras a perguntas elementares. E, perante isto, a indulgência acrítica não ajuda o jornalismo – só o descredibiliza.

    Rui Tavares Guedes, director da Visão que, após o descalabro da Trust in News, com calotes de mais de 30 milhões de euros, ainda acha boa ideia ter Luís Delgado como colunista da revista.

    A tolerância cega, mesmo quando movida por boas intenções, transforma-se em cumplicidade. E o jornalismo, se quer sobreviver com dignidade, não pode aceitar dormir com o lobo enquanto se apresenta ao público como uma ovelha que luta para não ser sacrificada.

    É duro dizê-lo. Mas é ainda mais duro fingir que não se vê. Os jornalistas da Visão que permanecem a bordo — e, sobretudo, o seu director, Rui Tavares Guedes — perderam a noção do limite. Se é verdade que quem não quer ser lobo não lhe veste a pele, neste caso impõe-se uma máxima ainda mais justa: quem quer parecer ovelha, para colher condescendência pública, não pode então dormir com o lobo.

  • E eis que temos um procurador do Ministério Público a querer condenar quem denuncia um político que apoiou a discriminação biológica…

    E eis que temos um procurador do Ministério Público a querer condenar quem denuncia um político que apoiou a discriminação biológica…


    No dia 3 de Agosto de 2021, escrevi publicamente que o então bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães — que foi entretanto ‘premiado’ com um cargo de deputado da Nação pelo PSD — assumia uma postura de discriminador-mor. Escrevi-o de forma clara, assumida e consciente. Não foi um insulto. Foi um juízo ético.

    A razão era simples e factual: Miguel Guimarães defendeu no Verão de 2021, enquanto bastonário, a separação em restaurantes entre vacinados contra a covid-19 e não-vacinados, independentemente do estado real de imunidade das pessoas. Essa distinção ignorava, além de tudo o resto, e de forma deliberada, um facto científico elementar: a existência de imunidade natural adquirida por infecção prévia, reconhecida pela literatura científica e por entidades internacionais. Eu próprio estava nessa situação.

    Em 2021, em plena democracia e de consolidação de direitos fundamentais, um baastonário da ordem dos Médicos defendeu a discriminação com base biológica: criticá-lo aludindo à memória histórica

    A proposta de Guimarães não distinguia comportamentos, riscos efectivos ou evidência clínica. Distinguia corpos. Distinguia estatutos biológicos. E é aqui que começa o problema civilizacional.

    Chamei-lhe, por isso, discriminador-mor aludindo a períodos negros da História da Humanidade. E escrevi, cito literalmente o que escrevi então: “Certamente teria um lugar adequado em certo país europeu da década de 30 do século XX. Ou talvez na ‘Espanha’ do século XV para coadjuvar o Torquemada.

    Esta frase — uma única frase, que a repito aqui — é hoje, em 2026, o único excerto, entre dezenas de textos, investigações e análises que produzi, que um procurador do Ministério Público entendeu, na sétima audiência do meu julgamento, mais concretamente nas alegações finais, ocorrida esta sexta-feira no Campus de Justiça, configurar difamação, no processo que me foi intentado pela Ordem dos Médicos, por Miguel Guimarães, por Filipe Froes, por Luís Varandas e por Henrique Gouveia e Melo.

    Convém sublinhar: não fiz a Miguel Guimarães uma acusação infundada, não lhe fiz uma imputação de factos falsos; não fiz um ataque pessoal gratuito.

    Foi uma análise ética do exercício do poder por um titular de um cargo público de enorme influência social: a Ordem dos Médicos é considerada uma entidade pública.

    E isso muda tudo.

    A História ensina-nos uma coisa com brutal clareza: sempre que o Estado ou uma autoridade moral começa a classificar pessoas com base em critérios biológicos, o desastre não vem a seguir — já começou.

    Não é uma hipérbole. É um padrão histórico.

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    A Inquisição ibérica criou os estatutos de limpieza de sangre, onde a fé já não bastava: o sangue herdado tornava-se critério de exclusão.
    O nazismo classificou cidadãos pelo número de avós com certas características genéticas, não pelas suas ideias ou actos.
    O apartheid transformou características físicas em documentos legais.
    As leis Jim Crow fixaram, nos Estados Unidos, a cidadania com base na cor da pele.
    A eugenia científica, no século XX, esterilizou pessoas por alegadas taras genéticas.
    No Ruanda, o nascimento foi sentença de morte…

    Em todos estes casos, e muitos mais, o mecanismo foi o mesmo: o indivíduo é julgado sem ser pelos seus actos mas sim pelas características biológicas.

    Ora, quando em 2021 um bastonário da Ordem dos Médicos defende a segregação de cidadãos com base no seu estatuto biológico simplificado — vacinado / não vacinado — ignorando imunidade natural, contexto clínico, proporcionalidade e direitos fundamentais consagrados na Constituição de um país democrático, estamos perante um desvio ético grave. E dizê-lo não é difamar. É cumprir um dever cívico.

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    Disse José Ortega y Gasset — e ontem citei-o em tribunal, depois de o procurador do Ministério Público pedir a minha condenação por considerar que difamei Miguel Guimarães: “Eu sou eu e a minha circunstância; e se não a salvo a ela, não me salvo a mim.

    Esta frase é central para compreender aquilo que está aqui em causa — e explico-a aqui melhor do que consegui no tribunal. Em democracia, as acções de quem exerce poder moldam a circunstância moral da sociedade. Quem discrimina, como fez Miguel Guimarães, a partir de um cargo institucional cria precedentes. Quem perseguiu colegas, como fez Miguel Guimarães, cria medo. Quem pretende normalizar, como fez Miguel Guimarães, a exclusão biológica, degrada o espaço público.

    E quem assiste e cala — ou, pior, quem deseja a condenação de quem denuncia, como pretende este procurador do Ministério Público — legitima uma acção infame. E torna-se cúmplice dessa degradação.

    Por isso, comparar as atitudes de Miguel Guimarães a períodos sombrios da História não é dizer que vivemos nesses regimes. Não é dizer que ele é nazi ou fanático religioso — é dizer que os mecanismos éticos são reconhecíveis. A História não se repete mecanicamente, mas repete padrões. E é precisamente para evitar o retorno desses padrões que a memória existe.

    Dizer que alguém, pelo seu comportamento público, ecoa lógicas inquisitoriais ou segregacionistas não é um ataque pessoal — constitui uma avaliação ética da função exercida.

    Ora, se esta crítica for criminalizada — como parece ser o desejo deste procurador do Ministério Público —, então não é apenas um jornalista que pode ser condenado: é o próprio direito de escrutinar o poder e a liberdade de expressão enquanto pilar democrático.

    Editorial

    Particularmente chocante é que este desejo do procurador do Ministério Público de me ver condenado por difamação se enquadre num julgamento em que ele foi testemunha presencial de mentiras em tribunal, de conluios documentais, de omissões graves, de ilegalidades evidentes praticadas por entidades com poder — incluindo responsáveis máximos de organismos reguladores, como a Inspecção-Geral das Actividades em Saúde e o Infarmed, bem como a Ordem dos Médicos e o Estado-Maior-General das Forças Armadas, de onde provinha Gouveia e Melo — e, ainda assim, escolha concentrar-se numa frase de crítica ética a um defensor de discriminação biológica.

    Em 2026, ver este comportamento de um magistrado do Ministério Público choca-me como cidadão do século XXI — e ainda mais sendo eu um arguido a quem ele, nas seis audiências anteriores, não conseguiu encontrar qualquer mentira em tudo o que escrevi, e por isso pediu absolvição em tudo o resto.

    Mais do que choque, indigna-me. E não apenas por mim. Indigna-me pela democracia.

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    Se eu for condenado por isto, na sentença a ser lida pela juíza do processo no próximo dia 10 de Março — e, sinceramente, custa-me a acreditar nessa possibilidade —, não serei apenas eu a ser condenado.

    Será condenada a ideia de que recordar a História é perigoso.
    Será condenada a ideia de que criticar o poder é um crime.
    Será condenada a própria noção de cidadania activa.

    E isso, sim, seria um recuo para tempos que jurámos nunca mais aceitar.

  • Cheias no Baixo Mondego: não nos atirem Girabolhos para os olhos

    Cheias no Baixo Mondego: não nos atirem Girabolhos para os olhos


    Desenterrou-se agora o projecto da barragem de Girabolhos e atirou-se ao espaço público como solução milagrosa, tardia mas redentora, para um problema complexo: as cheias do Baixo Mondego. Esta, diga-se já, é uma solução intelectualmente desonesta, tecnicamente errada, financeiramente pesada e politicamente estúpida.

    Por piada — mas apenas por piada — poderia dizer que, se a garantia de controlo das cheias é feita por um Governo cujo líder, Luís Montenegro, parece acreditar que os caudais do Mondego se regularizam com telefonemas para Madrid, quando toda a bacia hidrográfica se encontra no nosso país, talvez fosse mais eficaz fazer promessas e ir a Fátima.

    Mas este não é um assunto para sarcasmos fáceis. Custa dinheiro público, cria expectativas infundadas e, no fim, entrega apenas soundbites de acção governativa. A ciência, porém, não se governa por conferência de imprensa.

    Convém começar pelo princípio. O Baixo Mondego é, historicamente, uma zona susceptível a inundações. Sempre foi. Durante séculos, as cheias sazonais faziam parte do regime natural da região e, mesmo sendo uma calamidade, contribuíam para a fertilidade agrícola dos campos. Foi para domesticar esse comportamento que, a partir das décadas de 1970 e sobretudo de 1980, se avançou com grandes obras de regularização hidráulica: diques longitudinais (para aumentar a capacidade de encaixe de caudais sem inundação adjacente), canais, rectificações e barragens.

    Entre estas, destacam-se as barragens da Aguieira e do Raiva, que entraram em exploração nos anos 80 e reduziram de forma clara a frequência e a severidade das inundações a jusante. Isto é um facto histórico e técnico, não uma opinião.

    Luís Montenegro a visitar o Baixo Mondego. Foto: CMMV.

    Não foi aí que “algo falhou”. Pelo contrário: durante décadas, o sistema funcionou de acordo com os objectivos para que foi concebido. Também não é sério atribuir as cheias actuais a uma alegada pluviosidade excepcional. Conforme destaca Paulo Fernandes, professor da Universidade de Trás-os-Montes, os dados são claros: Janeiro de 2026 foi apenas o 11.º mês de Janeiro mais chuvoso desde 1940 na série de Coimbra. Não estamos, assim, perante um episódio extremo em termos históricos.

    Quando há cheias significativas sem precipitação recorde, o problema raramente está no céu; está quase sempre na bacia.
    E é aqui que o debate se torna incómodo e nos remete para o Verão passado — e por isso mesmo politicamente evitado: os incêndios rurais.

    Nos últimos anos, e de forma particularmente intensa em 2025, vastas áreas da bacia hidrográfica do Mondego, sobretudo no alto curso e em sub-bacias críticas, foram devastadas por incêndios florestais de grande dimensão. Na bacia do Mondego, na Serra da Estrela e zonas de cabeceira e vertentes declivosas arderam como há muito não se via. Em Agosto houve um incêndio iniciado em Arganil que devastou mais de 65 mil hectares de áreas florestais e de matos; na região de Trancoso, outro que dizimou quase 47 mil hectares. Do ponto de vista hidrológico, isto não é um detalhe: é uma alteração estrutural do comportamento da bacia.

    Solos queimados perdem cobertura vegetal, reduzem, de forma drástica, a infiltração, tornam-se mais susceptíveis à erosão e aceleram o escoamento superficial. O tempo de concentração da água encurta; os picos de cheia tornam-se mais rápidos e mais altos; o transporte de sedimentos aumenta, assoreando linhas de água e reduzindo a capacidade hidráulica dos canais. Tudo isto está documentado há décadas na literatura científica. E tudo isto ocorre quer se construa ou não mais uma barragem a montante.

    Barragem da Aguieira. Foto: D.R.

    Chegados aqui, importa desmontar o mito central: o que mudaria, na realidade, a barragem de Girabolhos? Do ponto de vista técnico, a resposta é muito menos impressionante do que o discurso político sugere. Girabolhos regularizaria apenas uma fracção limitada da bacia do Mondego — abarcará uma área de drenagem de apenas 980 km², cerca de 15% quer da área total contributiva quer do escoamento total anual.

    Não estamos a falar, portanto, de uma albufeira com capacidade para controlar todo o sistema; estamos a falar de uma infra-estrutura que interceptaria uma pequena parte do escoamento a montante, deixando intactos contributos significativos de sub-bacias a jusante e de afluentes críticos.

    Além disso, mesmo a regularização inter-anual proporcionada por Girabolhos não elimina cheias em cenários de precipitação concentrada ou de resposta rápida da bacia — precisamente aqueles que os incêndios tornam mais prováveis. As barragens não “absorvem” cheias por decreto: têm limites operacionais, volumes já ocupados antes das chuvas invernais (ainda mais se o uso predominante for hidroeléctrico), regras de exploração e constrangimentos de segurança. Em certos contextos, podem até agravar picos a jusante se forem obrigadas a descarregar.

    Dizer, portanto, que Girabolhos “resolveria” as cheias do Baixo Mondego é vender uma solução simples para um problema que deixou de ser simples há muito. É ignorar a degradação do território, a política florestal errática, a ausência de gestão integrada da bacia e a incapacidade crónica de lidar com as consequências hidrológicas dos incêndios. E, em suma, é preferir betão a planeamento, obra visível a intervenção estrutural, fotografia de capacete a políticas de gestão do solo.

    Nada disto significa que o debate sobre Girabolhos seja ilegítimo. Pode discutir-se a sua utilidade para armazenamento, para regularização de caudais em certos cenários, para produção energética ou para abastecimento. Aquilo que não se deve fazer é instrumentalizar a barragem como resposta automática a cheias que têm causas múltiplas e bem identificadas. E a imprensa engolir.

  • Sondagens: o jornalismo está a transformar a Estatística em charlatanismo

    Sondagens: o jornalismo está a transformar a Estatística em charlatanismo


    Durante semanas — para não dizer meses — o espaço público português foi inundado por sondagens, tracking polls, “barómetros” diários e projecções que se pretendiam científicas, mas que acabaram por revelar outra coisa: um sistema inteiro a falhar em bloco. Não falhar por um ou dois pontos, não falhar pontualmente, mas falhar de forma sistemática, previsível e sempre no mesmo sentido. A eleição presidencial confirmou aquilo que já era evidente para quem não confunde números com oráculos: as sondagens deixaram de medir a realidade para passar a condicioná-la.

    Os resultados definitivos são claros: 66,8% para António José Seguro, 33,2% para André Ventura. Uma vitória confortável, inequívoca e politicamente relevante. Mas muito distante da narrativa construída até à exaustão pelas sondagens e, sobretudo, pelas projecções à boca das urnas, que apontavam para resultados entre os 68% e os 73%, com insinuações reiteradas de um “resultado histórico” capaz de ultrapassar Mário Soares. Nada disso aconteceu. E não aconteceu porque nunca esteve verdadeiramente nos dados — esteve apenas na expectativa que se quis criar.

    António José Seguro, eleito Presidente da República. Foto: D.R.

    A gravidade deste falhanço não pode ser relativizada com o argumento, recorrente mas estatisticamente iletrado, de que “se errou por pouco”. Sempre que uma projecção à boca das urnas — que não é uma sondagem típica mas já uma medição comportamental que deveria reduzir a incerteza e aproximar a estimativa do resultados real — é apresentada sob a forma de intervalo, existe necessariamente uma estimativa central. Esye ‘ponto médio’ corresponde ao valor mais provável do modelo; é o intervalo é apenas a sua margem de incerteza, por vezes generosa.

    Ora, recorde-se, então, o que foi dito no início da noite eleitoral após o fecho integral das urnas: das três projecções distintas, de entidades diferentes, apresentadas como independentes, todas sobrestimaram Seguro e subestimaram Ventura.

    Mesmo assim, a Intercampus — responsável pela projecção para a CMTV, Now e Jornal de Negócios — pode considerar-se que acertou no intervalo de incerteza estimado, que se situava entre 66,8% e 71,8% para Seguro, mesmo se o ponto médio era de 69,3%, traduzindo um erro de cerca de +2,5 pontos percentuais face ao resultado real. [leia a nota de direcção no final do texto]

    Muito pior esteve o consórcio ICS/ISCTE-GfK-Pitágórica — que trabalhou para a SIC, SIC Notícias, TVI e CNN — indicava 67% a 71,4%, com um ponto médio de 69,2% e um erro de +2,8 pontos; e a Universidade Católica Portuguesa — que realizou a projecção para a RTP — avançava com um intervalo entre 68% e 73%, cujo ponto médio, 70,5%, falhou por +4,1 pontos.

    Nem a melhor projecção à boca das urnas, feita pelo consórcio ICS/ISCTE-GfK-Pitágórica, conseguiu acertar no intervalo e ficou a 2,8 pontos percentuais do ponto média da estimativa.

    O resultado real, de 66,8% para Seguro e 33,2% para Ventura, ficou fora de dois dos três intervalos estimados, sendo que um acerta marginalmente (para um intervalo implícito de erro de ±2,5%).

    Convém salientar que, para projecções à boca das urnas, um intervalo implícito de ±2,5% fica claramente acima dos benchmarks internacionais, onde é comum trabalhar-se entre ±1% e ±2%, descendo ainda mais à medida que a noite avança e entram calibrações com resultados reais.

    Do ponto de vista técnico, este erro de ±2,5% significa que se usou uma uma amostra efectiva de apenas cerca de 1.500 inquiridos (assumindo p≈0,5 e IC≈95%), um número modesto para um exit poll nacional, sobretudo quando segmentado por regiões, idade e sexo — o que reduz drasticamente a amostra útil por estrato.

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    Um intervalo desta dimensão não traduz prudência estatística, mas, na verdade, uma grande fragilidade metodológica. E esta pode resultar de uma amostra curta ou mal estratificada, de níveis elevados de não-resposta corrigidos à pressa com ponderações agressivas, ou de um viés sistemático que o próprio intervalo tenta acomodar. Ou seja, em qualquer cenário, alargar a margem de incerteza não resolve o problema: apenas o disfarça — e mal.

    No limite do absurdo, se um órgão de comunicação social quisesse garantir que nunca falha uma projecção num confronto entre dois candidatos, bastar-lhe-ia ouvir quatro pessoas num universo de 10,9 milhões de eleitores: assumindo os pressupostos estatísticos habituais (intervalo de confiança de 95%, proporção no pior caso p = 0,5 e amostragem aleatória simples), seria então possível apresentar uma projecção “seguríssima”, atribuindo 50% a cada candidato, com uma margem de erro próxima dos 49% — formalmente defensável, mas de uma absoluta inutilidade informativa.

    Mas o problema não começou nesta noite eleitoral nem nestas eleições presidenciais. Começou muito antes, com as chamadas tracking polls, esse produto patético que passou a ser apresentado como acompanhamento científico do “sentimento do país”, quando não passa de uma sucessão de micro-amostras instáveis, metodologicamente frágeis e altamente sensíveis a enviesamentos sociais. Sondagens diárias, semanais, quase horárias, usadas não para informar, mas para criar climas de inevitabilidade, de vitória esmagadora, de consenso moral.

    A projecção da Intercampus acertou no intervalo por uma ‘unha negra’ mas graças a um intervalo ‘generoso’.

    A isso somou-se um fenómeno ainda mais corrosivo: o condicionamento social explícito. Quem não votava em Seguro era tratado, em muitos espaços mediáticos, como um problema a corrigir.

    Houve censura, crítica moral, desqualificação pública e uma pressão simbólica constante para alinhar com o “lado certo da História”. Isto não é neutro. Isto afecta respostas em sondagens. Isto produz o chamado efeito de desejabilidade social, em que o inquirido responde aquilo que sente ser socialmente aceitável — não aquilo que efectivamente vota.

    O resultado foi um eleitorado de Ventura sistematicamente sub-medido. Não porque não existisse, mas porque foi empurrado para a invisibilidade estatística. Quando esse mesmo viés atravessa todo o ecossistema — das sondagens pré-eleitorais às projecções à boca das urnas — o problema deixa de ser técnico e passa a ser estrutural.

    André ventura. Foto: D.R.

    Do ponto de vista da ciência estatística, aquilo a que assistimos é grave. Porque a estatística vive de uma coisa simples: confiança pública.

    Quando os números falham repetidamente, quando os intervalos de confiança são usados como ferramentas narrativas e não como limites prudentes, quando o topo do intervalo é apresentado como destino provável e não como hipótese extrema, o resultado é inevitável: a estatística passa a ser percebida como adivinhação. Ou pior, como manipulação.

    Isto é profundamente lamentável. Não porque as sondagens tenham de acertar sempre — não têm. Mas porque não podem errar sempre do mesmo lado sem consequências. Cada erro deste tipo fragiliza a credibilidade das medições futuras, alimenta o cinismo dos eleitores e contribui para a degradação do debate democrático. Uma democracia saudável precisa de informação rigorosa, não de climas fabricados. Precisa de números que iluminem a realidade, não que a distorçam.

    António José Seguro venceu com clareza. Não precisava de sondagens inflacionadas para o legitimar. Quem precisava delas era o próprio sistema mediático, preso à lógica do espectáculo, da inevitabilidade e da pedagogia moral disfarçada de ciência.

    Se a estatística continuar a ser usada de forma alegre, irresponsável e acrítica, o dano será duradouro. Não para um candidato ou outro, mas para a própria ideia de que os números servem para compreender o país — e não para o conduzir pela mão. E isso, sim, é um mau serviço à democracia.

    N.D. 10/2/2026 – Originalmente, o editorial referia que “a Intercampus — responsável pela projecção para a CMTV, Now e Jornal de Negóciosapontava para 69,3% a 71,8% para Seguro, o que implica um ponto médio de 70,6%, traduzindo um erro de +4,2 pontos percentuais face ao resultado real”. Ora, esta referência tinha sido retirada de uma notícia do Público [ver aqui], mas que se revelou falsa. Na verdade, o intervalo da projecção da Intercampus para António José Seguro estava compreendida entre 66,8% e 71,8%, conforme se pode observar aqui, o que considerando o resultado provisório de 66,82% deve concluir-se que acertou, mesmo se por uma ‘unha negra’ do limite inferior do intervalo. Embora por um erro involuntário, e decorrente da informação do Público, um pedido de desculpas à Intercampus e aos órgãos de comunicação social da Medialivre.

    Projecção da Intercampus para a CMTV, Now e Jornal de Negócios

  • Pedro Sales Dias, não invoques a desinformação em vão

    Pedro Sales Dias, não invoques a desinformação em vão


    A fronteira entre combater uma ideia política e deslegitimar democraticamente quem a professa tem vindo a esbater-se de forma perigosa no espaço mediático português. É nesse ponto exacto — e não por qualquer complacência com as teses de André Ventura, que rejeito de forma clara, consistente e reiterada — que reside a minha inquietação crescente.

    Votei em António José Seguro. Não por convicção profunda, mas por exclusão. E conto repetir esse voto na segunda volta. Faço-o com lucidez, sem entusiasmo e sem qualquer ilusão redentora. Mas uma coisa é escolher, com maior ou menor convicção pessoal e colectiva; outra, bem diferente, é aceitar que se normalize, no discurso jornalístico e mediático, a ideia de que certas posições são “antidemocráticas” apenas por não se alinharem com uma solução partidária específica, ou que determinados votos carecem de legitimação moral para serem considerados aceitáveis.

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    Quando leio ou oiço que só um determinado voto é “legítimo e democrático”, não vejo ali uma defesa da democracia. Vejo o seu empobrecimento conceptual.

    A democracia não é um sacramento administrado por redacções nem um selo de qualidade atribuído por colunistas. É um método imperfeito, rude e muitas vezes desconfortável de convivência política entre cidadãos livres. Todos os votos legalmente expressos são democráticos, mesmo quando nos repugnam, mesmo quando nos assustam, mesmo quando anunciam perigos reais. A tentativa de hierarquizar votos em função da sua utilidade moral é um vício antigo, recorrente e historicamente perigoso.

    Por isso, a leitura de certos textos recentes não me causam apenas discordância política – causa-me alarme. E isto porque constato a facilidade com que parte da opinião pública jornalística passou a considerar aceitável defender posições iliberais em nome de um suposto bem maior: “limpar” o espaço público de vozes consideradas perigosas. Para justificar esse impulso, tornou-se prática corrente colar Ventura a António de Oliveira Salazar, como se a analogia histórica bastasse para suspender princípios elementares do pluralismo democrático.

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    Esse expediente não é apenas intelectualmente preguiçoso – é politicamente irresponsável, sobretudo se executado por jornalistas, porque acabam por legitimar exactamente as acusações que dizem combater: a de que existe um perigo de, assumindo o Chega ou André Ventura o poder, se criar um ambiente de estigmatização, de ostracismo, de perseguição e de silenciamento de vozes dissonantes.

    Essa deriva torna-se ainda mais inquietante quando parte de quem ocupa posições de autoridade simbólica no próprio ecossistema da verificação dos factos. O trecho que aqui motiva esta reflexão não foi escrito por um comentador marginal nem por um militante exaltado nas redes sociais. Foi escrito por Pedro Sales Dias, jornalista do Público e responsável por uma secção que se apresenta como instrumento de combate à desinformação — a Prova dos Factos.

    Aquilo que ali se lê no seu artigo de opinião, onde expõe depois os trabalhos de identificação de erros e desinformações, é o seguinte, sem paráfrases, sem caricaturas e sem edições convenientes:

    Defender, como Paulo Núncio (CDS), que ‘o único voto legítimo e democrático’ não é apenas no ‘candidato apoiado pelo PS’ é indigno de um deputado de um partido que também foi fundamental na construção da democracia portuguesa. E novamente permite a desinformação de eleitores, o risco de muitos ponderarem votar no candidato radical imaginando-lhe alguma bondade política.

    Este parágrafo, escrito por quem dirige uma secção dedicada ao alegado combate à desinformação, concentra todos os vícios que deveriam ser combatidos por essa mesma função. Desde logo, aceita implicitamente que existem votos mais democráticos do que outros, abrindo a porta a uma hierarquização moral do acto eleitoral. Em segundo lugar, estabelece — sem prova, sem dados, sem demonstração empírica —, num só salto, um nexo causal entre uma declaração política (legítima mesmo se criticável no plano do debate político) e a alegada “desinformação” de eleitores que poderiam, por reacção, votar num “candidato radical” imaginando-lhe “bondade política”.

    Isto não é verificação factual —é um perigoso juízo político conjectural, apresentado com a autoridade retórica de quem ocupa uma tribuna que se arroga o estatuto de árbitro da verdade. E é precisamente isso que torna o episódio alarmante.

    Quando o responsável por uma secção intitulada Prova dos Factos escreve desta forma, a palavra “desinformação” deixa de funcionar como conceito analítico e passa a funcionar como instrumento de intimidação moral. Não se demonstra, invoca-se. Não se prova, sugere-se. Não se explica, adverte-se. O leitor não é esclarecido — é apenas tutelado.

    A palavra desinformação tem vindo a tornar-se o grande passe-partout do nosso tempo: invoca-se para tudo. contra qualquer um, sem rigor, sem parcimónia, sem critério. Talvez por isso devesse ser tratada como um mandamento mosaico: não invocarás a desinformação em vão, pois por cada uso abusivo, se empobrece o conceito e o aproxima perigosamente da censura bem-intencionada.

    A História oferece-nos exemplos abundantes desse caminho. A Inquisição é o caso mais óbvio, mas está longe de ser único. Houve tribunais revolucionários que guilhotinaram em nome da virtude. Houve comités de salvação pública que eliminaram em nome do povo. Houve regimes que começaram por “combater a mentira” e acabaram a proibir perguntas. Em todos esses casos, a convicção era a mesma: mostrava-se ‘fundamental’ calar para salvar.

    O jornalismo não existe para salvar a democracia por decreto — existe para a testar todos os dias, com incómodo, com fricção e com pluralismo real. Quando abdica disso, quando aceita hierarquizar votos, purificar opiniões e santificar candidatos, diabolizando outros, deixa de ser contrapoder para se tornar parte do problema que diz denunciar.

    person standing near table

    Combater André Ventura exige mais democracia, não menos. Exige mais exigência argumentativa, não excomunhões morais. Necessita mais inteligência crítica, não catecismos. Tudo o resto pode aliviar consciências nas redacções, mas empurra eleitores para o ressentimento — e o ressentimento, esse sim, é terreno fértil para os piores radicalismos.

    Enfim, lamento ter de dizer o óbvio: a democracia não se defende amputando-a — defende-se resistindo à tentação de a tornar confortável apenas para quem escreve ou está no poder.

  • A inteligência de Montenegro é insuficiente para entender sátira ou estamos num teste de autoritarismo?

    A inteligência de Montenegro é insuficiente para entender sátira ou estamos num teste de autoritarismo?


    A reacção institucional de Luís Montenegro, primeiro-ministro de Portugal, à circulação de uma peça satírica nas redes sociais – em que se simula uma apócrifa mensagem do primeiro-ministro português, em inglês, supostamente revelada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – deveria dar vontade para rir, pelo ridículo, mas mostra-se muito grave pela imaturidade política, com claros tiques autoritários, incompatível com um sistema democrático saudável.

    O texto em causa, divulgado por volksvargas – um utilizador anónimo que faz textos satíricos geralmente contra políticos de direita –, não exige descodificação sofisticada nem leitura contextual profunda: denuncia-se a si próprio, desde a primeira linha, pela linguagem que adopta, pelo exagero deliberado e pelo uso consciente de fórmulas que pertencem, sem margem para dúvida razoável, ao campo da sátira política.

    Vejamos o texto que Montenegro considera “desinformação” grave susceptível de ser crime. Logo na abertura, o texto atribuído a Luís Montenegro dirige-se ao presidente norte-americano como “Your excellency, supreme leader and great architect of our modern times” (“Vossa Excelência, líder supremo e grande arquitecto dos nossos tempos”).

    Luís Montenegro a jogar com a democracia.

    Esta expressão não é um deslize estilístico nem um excesso ocasional: “supreme leader” (“líder supremo”) pertence ao léxico da paródia autoritária, associado a cultos de personalidade e regimes totalitários. Alguém com o mínimo de inteligência compreende que o seu uso num contexto supostamente diplomático é intencionalmente grotesco. A sátira não está escondida; está exposta.

    A hipérbole prossegue quando o narrador afirma escrever “still energized by the sheer magnitude of your recent achievements” (“ainda energizado pela pura magnitude dos vossos recentes feitos”). A expressão “sheer magnitude” (“pura magnitude”) não acrescenta informação; acrescenta caricatura. Trata-se de uma inflação retórica deliberada, típica da bajulação vazia, que imita e distorce um certo estilo político reconhecível. A sátira opera aqui por excesso semântico.

    Mais adiante, o texto introduz um deslocamento conceptual que elimina qualquer leitura literal possível: as tarifas norte-americanas – usadas agora por Trump como “mísseis” políticos – são descritas como “a demand for excellence and loyalty” (“uma exigência de excelência e lealdade”). A transformação de políticas comerciais em testes de lealdade pessoal é absurda por definição. Não se trata de um erro factual; trata-se de ironia. A sátira denuncia, por exagero, a personalização extrema do poder e a confusão entre Estado, líder e ego.

    Publicação satírica considerada desinformação por Luís Montenegro e susceptível de apresentação de “queixa nas instâncias adequadas”.

    O ponto de ruptura definitivo surge quando o texto afirma: “we are willing to discuss a vision that would secure American sovereign access to our Azores islands” (“estamos dispostos a discutir uma visão que assegure acesso soberano americano às nossas ilhas dos Açores”). Aqui, a sátira assenta na impossibilidade constitucional absoluta. Não é uma proposta implausível — é uma proposta impossível. A violação explícita da soberania territorial funciona como mecanismo clássico de caricatura: levar uma lógica até ao seu extremo inaceitável para expor o seu absurdo.

    O encerramento — “let Portugal be the exception” (“que Portugal seja a excepção”) — cristaliza o gesto satírico: a fantasia da submissão voluntária apresentada como virtude estratégica. É uma ironia directa sobre a tentação de alinhamento servil, não uma mensagem política disfarçada.

    Perante este quadro linguístico, vermos Luís Montenegro classificar o texto como “desinformação” não é um equívoco inocente – é uma distorção conceptual. A desinformação visa enganar, induzir erro, produzir efeitos reais a partir de falsidades apresentadas como verdade. A sátira visa expor, ridicularizar e criticar através do exagero manifesto. Confundir ambas não protege o espaço público; empobrece-o. E empobrece o conceito que se tem sobre a inteligência de Luís Montenegro. E mais: envergonha pensar que o primeiro-ministro nos acha capazes de pensar que este texto satírico pretendia fazer passar-se por uma carta verdadeira.

    Comunicado do Gabinete do Primeiro-Ministro.

    E é neste ponto que a reacção de Luís Montenegro se torna politicamente reveladora. Um riso ou, vá lá, um desmentido claro e seco teria sido suficiente. Ora, mas não foi isso que sucedeu. A opção por um comunicado solene e pela possível apresentação de uma queixa-crime introduz um elemento novo e inquietante: a judicialização do humor político sob o rótulo elástico da desinformação.

    Mesmo que a queixa não tenha seguimento judicial, o efeito simbólico está produzido. A mensagem implícita é simples: a sátira dirigida ao poder pode ter custos. Trata-se de um efeito de intimidação difusa, agravado pela assimetria de poder entre um cidadão — ou utilizador anónimo — e o aparelho do Estado. Não é necessário condenar para condicionar; basta sinalizar.

    Mais grave ainda é o precedente que Luís Montenegro ensaia – e ensina. Hoje é uma paródia óbvia, fácil de defender. Amanhã poderá ser uma investigação incómoda, uma leitura crítica ou uma ironia menos explícita, igualmente rotulada como “desinformação” por contrariar a narrativa oficial. O mecanismo é o mesmo; apenas muda o grau de desconforto que provoca ao poder.

    Two happy men in a loving, joyful moment, sharing laughter on a sunny day.

    Existe, em todo o caso, uma ironia política incontornável. Um poder confiante distingue caricatura de mentira e segue em frente. Um poder inseguro amplifica o ridículo, legitima-o e transforma uma anedota digital num caso institucional. Ao reagir como reagiu, o primeiro-ministro não protegeu a sua autoridade; expôs a sua fragilidade.

    Combater a desinformação é uma necessidade real numa democracia saturada de ruído e manipulação – mas esse combate exige critério, proporcionalidade e inteligência política. Quando o Estado começa a reagir a expressões como “supreme leader” como se fossem informação factual, o problema já não está na sátira. Está na incapacidade do poder para lidar com o humor e a sátira sem recorrer ao excesso. Ou à normalidade usada geralmente por ditaduras com poderes totalitários. Será esse passo que Montenegro quer tomar?

  • ContraProva ou o rigor como contrapoder

    ContraProva ou o rigor como contrapoder


    ContraProva nasce hoje por uma razão simples e, ao mesmo tempo, exigente: o jornalismo que observa o quotidiano tem obrigação de analisar criticamente os media sem posições corporativistas, assumindo um espaço próprio, autónmo, rigoroso e sistemático.

    Por isso, o ContraProva não é um apêndice, não é um suplemento ocasional, mas um projecto editorial com método, critérios públicos e responsabilidade assumida. O ContraProva foi concebido como um jornal que analisa a imprensa – e não a espuma das redes sociais –, que verifica antes de comentar e que desmonta narrativas quando estas se afastam dos factos, dos números ou da honestidade intelectual. O ContraProva assume que a (re)credibilização do jornalismo como coluna fundamental das democracias passa por exigir mais do jornalismo.

    Vivemos num ecossistema mediático saturado de opinião instantânea, leituras apressadas e consensos fabricados – e também em encontrar nas ‘desvairadas’ redes sociais e na desinformação todos os males do mundo, talvez esquecendo que são externalidades das democracias, e que a simples ‘solução’ de aplicar censura nos aproxima mais das ditaduras do que de democracias maduras. As opiniões ‘desvairadas’ das redes sociais e a desinformação medram porque a imprensa tem falhado em muitas perspectivas.

    Assim, o ContraProva surge precisamente para introduzir fricção onde ela faz falta: na forma como a informação é construída, apresentada e consumida. Aqui não se avaliam intenções nem se disputam alinhamentos ideológicos; analisam-se práticas jornalísticas concretas, escolhas editoriais objectivas e o impacto que estas têm na percepção pública da realidade. O ContraProva não disputa audiências, disputa rigor.

    O funcionamento do ContraProva assentará, nesta fase, numa arquitectura editorial clara, organizada em secções com identidade própria e critérios públicos. O Crivo da Verdade constitui o núcleo central do projecto, dedicado à verificação rigorosa de notícias, dados e afirmações mediáticas, com base em grelhas objectivas e metodologia explícita. O Microscópio analisa linguagem, enquadramentos, títulos, escolhas visuais e subtis mecanismos de condicionamento da percepção do leitor.

    Apanhado na Rede observa as abordagens no espaço mediático. A Acta Diurna regista factos relevantes do dia mediático, criando memória e contexto. O Arquivo Vivo preserva e relaciona episódios passados, revelando padrões, reincidências e contradições ao longo do tempo.

    Aliança das Carteiras escrutina relações económicas, interesses financeiros e dependências estruturais no ecossistema dos media. As Alterações Mediáticas acompanham mudanças editoriais, estratégicas ou societárias no sector. Os Economistas do Diabo dissecam os erros persistentes do jornalismo sempre que se trata de conceitos e dados económicos e financeiros.

    Por fim, o Laus Proba distingue trabalhos que demonstram rigor informativo, clareza factual e honestidade intelectual, sem implicar adesão editorial às conclusões apresentadas. Todas as secções partilham um princípio comum: método explícito, critérios públicos e responsabilidade perante o leitor.

    Uma nota relevante: o ContraProva é um projecto jornalístico irmão do PÁGINA UM – não há forma, nem se quer esconder. Mas não é mais um PÁGINA UM – não será jamais o Página Dois. São projectos jornalísticos complementares e deliberadamente distintos. O PÁGINA UM continuará a ser um jornal de investigação, sustentado exclusivamente pelo apoio individual dos seus leitores — e mais frágil por isso —, focado na produção de informação original com documentos e dados próprios.

    ContraProva actuará num plano diferente: observa, analisa e escrutina o ecossistema mediático. Também por isso, tanto o PÁGINA UM como o ContraProva, possuem uma estrutura societária distinta, embora por mim controlados, adequada à sua função específica. A base empresarial dos dois projectos visa não a distribuição de lucros, mas a transparência de procedimentos legais, designadamente a divulgação de contas e cumprimentos de outras regras.

    A direcção editorial do ContraProva será assegurada por Frederico Duarte Carvalho, jornalista com mais de 30 anos de experiência, percurso sólido e independência reconhecida. Compete-lhe garantir coerência editorial, rigor metodológico e distância crítica. A minha função será sobretudo a de publisher: supervisão estratégica, garantia dos princípios fundadores e salvaguarda da independência editorial.

    Só depois de definidos estes princípios importa esclarecer o modelo de financiamento — não por ser central ao projecto, mas precisamente para que não paire qualquer ambiguidade. Desde a origem, o ContraProva foi pensado com uma separação clara entre financiamento, direcção editorial e método jornalístico. O apoio concedido por Miguel Milhão, a título estritamente individual, é integralmente público, transparente nos montantes, garantindo um pequeno orçamento mensal durante 24 meses.

    Tudo foi formalizado num acordo parassocial disponibilizado de forma voluntária em nome da transparência — e isso é único no espaço mediático nacional —, que consagra de forma explícita a blindagem editorial do ContraProva. Não há participações cruzadas, não há interferência na linha editorial, não há temas proibidos nem conclusões pré-determinadas. O financiamento é declarado; a independência, contratual e editorialmente, está assegurada.

    Este modelo é também, deliberadamente, um modelo de cidadania. Num tempo de radicalização do discurso público e de trincheiras ideológicas, a existência de uma ‘ponte cívica’ entre pessoas com posições diferentes — por vezes profundamente opostas — não deve ser vista como suspeita, mas como um sinal de maturidade democrática.

    A cooperação entre Miguel Milhão e eu demonstra ser possível comungar objectivos — uma melhoria na imprensa — sem exigir alinhamentos e sem diluir divergências, desde que seja para salvaguardar princípios fundamentais como a liberdade de expressão, o primado dos factos e a honestidade intelectual. Num espaço público cada vez mais fragmentado, este projecto afirma assim algo muito simples: o diálogo é possível quando existem regras claras e limites bem definidos.

    ContraProva nasce, portanto, com uma convicção clara: o jornalismo não se defende com slogans nem com fidelidades automáticasDefende-se com método, transparência e responsabilidade. E só fará sentido enquanto cumprir esse desígnio.

    Pedro Almeida Vieira

  • O revisionismo no jornalismo lusitano: o caso da Visão, ou como o Estado agradecerá os donativos

    O revisionismo no jornalismo lusitano: o caso da Visão, ou como o Estado agradecerá os donativos


    No jornalismo não basta invocar palavras nobres — “independência”, “qualidade”, “liberdade” — para que estas recuperem automaticamente o sentido que perderam. Há marcas que se gastam. Há títulos que se tornam resíduos simbólicos. E há redacções que, por acção ou por omissão, atravessam processos históricos decisivos sem jamais prestarem contas do papel que desempenharam. A revista Visão é hoje um desses casos.

    A campanha de angariação de fundos lançada por um grupo de jornalistas da Visão, apresentada como um gesto de resistência cívica e defesa do jornalismo independente, assenta numa premissa falsa e num exercício de amnésia selectiva: a ideia de que a Visão é, ou foi recentemente, um bastião de jornalismo livre, crítico do poder e imune a agendas. Não foi. E não é.

    Na verdade, aquilo que está em curso não é apenas uma recolha de fundos para adquirir um título em leilão da massa insolvente da Trust in News: é um processo de reescrita da história recente. Pretende-se separar artificialmente a marca Visão do jornalismo que efectivamente produziu nos últimos anos, como se a responsabilidade editorial pudesse ser depositada num vácuo metafísico chamado “gestão” ou “contexto”. Não pode.

    A Visão foi o epicentro de uma operação financeira em 2018, nunca devidamente explicada, de alienação do portefólio de revistas da Impresa — que implicou a assumpção de perdas por imparidade de 23,2 milhões de euros por parte do grupo da família Balsemão — para uma empresa com 10 mil euros de capital social, dirigida por Luís Delgado.

    A venda foi anunciada por 10,2 milhões de euros, mas nunca foi cumprido qualquer plano de pagamentos. Tudo evidencia que se tratou de um negócio de fachada para transferir um ‘buraco financeiro’ da Impresa e lesar, mais tarde ou mais cedo, os contribuintes. Só num país de compadrio e sem regulação séria se pode admitir uma transacção desta natureza, ainda mais envolvendo tantos periódicos.

    Visão: um jornalismo que viveu ladeado pelo poder e que agora quer sobreviver através de um revisionismo. Foto: DR.

    Desde cedo, a Trust in News, com a Visão à cabeça, acumulou incumprimentos fiscais e contributivos, opacidade contabilística e um passivo crescente. Um passivo que hoje recai, sobretudo, sobre o Estado — Segurança Social e Autoridade Tributária —, o principal credor da Trust in News, com estatuto prioritário. Tudo isto enquanto a Visão via as vendas descambarem: no terceiro trimestre de 2017 ainda estava acima dos 60 mil exemplares por edição; no final de 2023, último ano com dados auditados, não chegava aos 24 mil. Nos últimos tempos, consta que vende menos de 10 mil.

    É aqui que o discurso moral da campanha dos “12 resistentes” jornalistas da Visão, agregados num grupo auto-denominado “Movimento Imprensa Livre” (MIL), colapsa por completo. O dinheiro que está a ser angariado junto dos leitores para “salvar a Visão” não servirá, na prática, para fazer jornalismo. Servirá, isso sim, para compensar muito parcialmente o Estado pelo buraco deixado por Luís Delgado. E, ainda assim, será uma gota de água num passivo milionário (mais de 30 milhões de euros), é certo, mas suficiente para permitir que a marca continue a circular como se nada tivesse acontecido.

    Portanto, a angariação de fundos que já mobilizou quase cinco mil doadores não visa qualquer investimento editorial; trata-se de uma operação de saneamento simbólico de uma insolvência privada à custa da boa-fé dos leitores. Basicamente, o Estado agradece esse “donativo”.

    Mais: se os jornalistas promotores desta campanha quisessem, de facto, usar os mais de 200 mil euros já angariados para fazer jornalismo “limpo”, independente e sem heranças tóxicas, não precisariam de tentar comprar uma marca já registada e penhorada. Bastava-lhes registar uma nova marca no INPI — um procedimento que custa cerca de 160 euros —, criar uma nova newsmagazine e investir os mais de 200 mil euros de dinheiro já angariado nas primeiras fases da estrutura da redacção.

    Aliás, nomes disponíveis de jornais mortos ao longo de décadas e décadas não faltam. O próprio PÁGINA UM (re)nasceu assim em 2021, registando-se uma marca que já fora utilizada pelo menos duas vezes: primeiro como programa da Rádio Renascença (que chegou a ser suspenso em 1972 pelo Estado Novo) e depois como jornal de extrema-esquerda, criado em 1976 por Carlos Antunes e Isabel do Carmo. Usar um título “penhorado” com o dinheiro de donativos seria, para mim, uma insanidade. Ainda mais se tivesse de pagar 200 mil euros, que representam o orçamento dos primeiros três anos do PÁGINA UM.

    Os jornalistas “resistentes da Visão”, através do MIL, optam assim por tentar gastar 200 mil euros numa marca — Visão —, através de uma operação que nem sequer tem garantias de ser bem-sucedida, por estar em causa um leilão. Preferem comprar uma marca, entregando dinheiro que vai para o Estado, a começar um projecto renovado.

    Luís Delgado e Francisco Pedro Balsemão, presidente-executivo da Impresa, na assinatura do acordo de venda do portefolio tóxico de publicações da Impresa Publishing, que foi celebrado em Janeiro de 2018, aliviando a crise financeira em que se encontrava o grupo dono do Expresso e da SIC. O Novo Banco financiou a operação e também comprou no mesmo ano o edifício-sede à Impresa. / Foto: D.R.

    E é aqui que entro em conflito, porque mais grave do que a degradação financeira da Trust in News foi a degradação editorial da Visão. Aparentemente, os jornalistas do MIL insistem em colocar a Visão como o último dos moicanos do jornalismo pátrio — e isto é já profundamente ofensivo. Durante anos, esta revista tornou-se um exemplo acabado de jornalismo situacionista, particularmente durante o Governo socialista e a pandemia, adoptando uma postura de alinhamento quase militante com o poder político, com as autoridades sanitárias e com a narrativa oficial dominante. Quem questionava, quem investigava, quem pedia documentos, quem exigia contraditório verdadeiro, era tratado como herege, conspiracionista ou irresponsável.

    Sob a direcção de Mafalda Anjos, a Visão não apenas falhou no escrutínio do poder: perseguiu activamente quem ousou fazê-lo fora da cartilha autorizada. E esta jornalista, que saiu do barco quando este estava a naufragar — e tinha especiais responsabilidades porque, como publisher das revistas e directora da Visão durante anos, tinha o direito e a obrigação de conhecer as contas —, chegou mesmo a reputar como “fantasiosas” as investigações do PÁGINA UM que revelaram, em Julho de 2023, o descalabro financeiro da Trust in News. Desqualificou jornalismo sério, enquanto protegia uma estrutura empresarial insustentável, beneficiária de complacência institucional, silêncio regulatório e indulgência política.

    E afinal, os jornalistas da Visão, incluindo muitos do MIL, nem sequer se aperceberam que a marca já estava penhorada pelo Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social desde o ano 2020. Convenhamos que jornalistas que nem sequer sabem bem o que se passa na sua loja não podem dar uma boa visão do que se passa na sua rua quanto mais no mundo.

    Foto: PÁGINA UM

    É esta mesma Visão que agora se apresenta como símbolo de “jornalismo independente”? É esta marca que se quer salvar, como se fosse um património moral da democracia portuguesa?

    Não. Aquilo que está em causa não é salvar jornalismo. É salvar uma marca tóxica, profundamente associada a um período de mau jornalismo, de promiscuidade com o poder, de falência ética e de colapso financeiro que já custou mais de 15 milhões de euros aos contribuintes portugueses. E fazê-lo sem uma única palavra de mea culpa, sem um único balanço crítico, sem uma linha de autocrítica.

    Os jornalistas que hoje angariam mais de 200 mil euros — com uma eficácia notável, diga-se, por via da solidariedade mediática da imprensa tradicional, que de forma corporativista não parou de lançar loas ao MIL — até demonstram que existe capital humano, capacidade de mobilização e apoio público. O PÁGINA UM, de uma forma mais modesta, tem mostrado essa evidência: é um jornal em acesso livre, sem publicidade nem parcerias comerciais, mas que consegue sobreviver e crescer apenas com donativos dos leitores.

    Rui Tavares Guedes, director da Visão, em campanha de angariação de fundos do MIL. O jornalista foi director adjunto da Visão entre Janeiro de 2007 e Setembro de 2016, depois director executivo entre Outubro de 2016 e Dezembro de 2023, e director desde Janeiro de 2024. Atravessou todo o período de descalabro financeiro da Visão, desde os tempos da Impresa, e sobretudo na gerência da Trust in News, sem ver nada,,, talvez porque fechou os olhos.

    Mas é precisamente por isso que a opção tomada pelo MIL é ainda mais grave. Com esse apoio, com essa legitimidade, poderiam criar de raiz uma nova newsmagazine, liberta do peso simbólico da Visão, sem heranças tóxicas, sem pactos implícitos, sem necessidade de limpar o passado.

    Não o fizeram. Preferem gastar dinheiro de donativos (mais de 200 mil euros) e comprar a marca. Apropriar-se da memória selectiva. Fingir que a história começa agora, aproveitando, em todo o caso, um valor de marca. Nesse aspecto, demonstram sobretudo preguiça e falta de coragem.

    Em suma, este editorial não questiona o direito de nenhum jornalista a lutar pelo seu trabalho. Questiona, isso sim, a honestidade intelectual de um discurso que pretende fazer crer que a Visão “não existe sem os seus jornalistas”, quando foram precisamente decisões editoriais tomadas por jornalistas — não por administradores invisíveis — que contribuíram para a perda de credibilidade do título.

    A bustling urban street filled with people walking in the sunlight.

    Acredito que há marcas que não merecem ser salvas. Há nomes que precisam de morrer para que algo melhor possa nascer. Enterrar a Visão enquanto marca seria um acto de higiene democrática, não um atentado ao jornalismo. O jornalismo não vive de títulos históricos nem de nostalgia de bancas. O jornalismo não é fetichismo de logótipos nem nostalgia de bancas — é feito de prática, de ética, de método, de coragem e de ruptura.

    Por isso, se surgisse um mecenas que, em leilão, batesse a proposta do MIL e adquirisse a marca Visão apenas para impedir o seu uso futuro, estaria a prestar um serviço à higiene do espaço mediático português. Talvez então os jornalistas do MIL ganhassem, finalmente, visão. E talvez o dinheiro agora angariado pudesse ser usado para aquilo que realmente importa: em vez de entregar dinheiro ao Estado para tapar um ‘buraco privado’, criar uma newsmagazine nova, exigente, sem culpas herdadas, sem revisionismos, sem necessidade de fingir que nada aconteceu.

  • 8 Unidades de Conta: Os casos (também) julgam os tribunais

    8 Unidades de Conta: Os casos (também) julgam os tribunais


    Disse-me um antigo juiz desembargador, não há muito tempo, uma frase que ficou a ecoar: um tribunal julga um caso, mas um caso também julga um tribunal. Não a disse com cinismo, mas com a gravidade de quem sabe que a Justiça, além de decidir, se expõe; além de aplicar a lei, se dá a ver; além de condenar ou absolver, se revela.

    Essa frase aplica-se, inteiramente, ao julgamento que decorre no Tribunal da Comarca do Porto (também conhecido por Tribunal do Bolhão), onde estou a ser julgado por 31 crimes de difamação – ou seja, por alegado abuso da liberdade de expressão num país democrático (não numa ditadura) – contra Gustavo Carona, um médico que, durante a pandemia, encontrou nos media uma ribalta permanente, sustentada na retórica do medo e da urgência, no alarme contínuo que dividiu cidadãos entre bons e maus, entre responsáveis e irresponsáveis.

    ‘Banco dos réus’ onde me tenho sentado no julgamento no Tribunal do Bolhão.

    Entre as imputações que me são feitas contam-se algumas que dispensariam comentário ou então comentários jocosos – não fosse o facto de serem hoje objecto de acusação criminal: no contexto da pandemia da covid-19, eu critiquei-lhe um mau poema; recorri a alcunhas — Full HD e Braveheart de Leixões — ambas por antonomásia irónica, no registo satírico que a liberdade de expressão protege há séculos; afirmei que o visado não possuía especialidade de Medicina Intensiva —algo que, a 5 de Dezembro de 2025, se mantinha factual, tanto assim que o próprio bastonário o confirmou por oficio — e, por fim, apontei-lhe contradições, omissões e mentiras reiteradas ao longo da pandemia, no exercício de cidadania crítica (de que uso desde os anos 1990) e que, mais tarde, mostrou a genética do PÁGINA UM.

    No início, confesso, surpreendeu-me sobretudo que em 2025 o Ministério Público português ainda subscrevesse uma acusação desta natureza, mais típica de sistemas anti-democráticos do que de uma democracia plena — sobretudo quando o arguido é um jornalista e os factos imputados se inserem no debate público, na crítica e na sátira.

    Hoje, porém, aquilo que mais me surpreende não é já a acusação em si, mas a condução das audiências e, sobretudo, a leitura que delas fez o Tribunal da Relação do Porto, quando, após uma sessão atribulada onde pareceu que valeu tudo para me ser feita um ‘julgamento de carácter’ — e não sobre a matéria factual — me decidi a apresentar um incidente de recusa da juíza deste processo para o Tribunal da Relação do Porto. O acórdão sai ontem, indeferindo o pedido e aplicando-me custas de oito Unidades de Conta (UC), que representarão uma penalidade de 816 euros (102 euros por cada UC).

    Um dos 31 crimes, subscritos pelo Ministério Público, é este: gozar com um mau poema de Gustavo Carona que voluntariamente publicou nas redes sociais.

    Não podendo por lei divulgar ainda esse acórdão por estar apenso ao julgamento em curso — mas será um dia, daí que o título deste editorial —, pode-se dizer, segundo a minha interpretação como jornalista (em causa própria, é certo), que os desembargadores passaram ao lado do essencial, refugiando em fórmulas e desvalorizando aquilo que, felizmente, ficou integralmente gravado e que um dia será conhecido para lá da retórica habitual. Sim, porque uma das grandes vantagens dos julgamentos é a sua gravação para memória futura.

    De facto, quando um tribunal superior considera normal que se peça, antes mesmo de ser iniciada qualquer audiência, uma avaliação prévia das condições de vida de um arguido de ‘folha limpa’— questionando se eu, como jornalista, até se tenho água corrente em casa, como passo os meus tempos livres ou se tenho conflitos com vizinhos —, querendo ignorar que tal diligência apenas está prevista quando há indícios de condenação; quando sanciona com oito UC o simples acto de me insurgir contra desvios processuais; quando normaliza uma condução de audiência que, a meu ver, revela uma quebra grave da aparência de imparcialidade (e quando se puderem revelar as gravações ouvir-se-á isso mesmo); então já não estamos apenas a julgar um caso. Estamos a observar um tribunal a julgar-se a si próprio.

    Depois deste acórdão do Tribunal da Relação do Porto, que em nada se debruça sobre matérias de facto (a questão a dirimir era apenas a imparcialidade da juíza), não escondo já que a minha expectativa quanto a uma absolvição em Portugal é hoje limitada. O episódio do incidente de recusa, que no nosso país é quase sempre indeferido pela Relação (temerosos de se abrirem caixas de Pandora), serviu também como ‘statement’. Digo-o sem dramatismo, mas também sem fingimento. Não se trata de antecipar sentenças nem de clamar perseguições; trata-se somente de reconhecer padrões, atitudes e leituras que, acumuladas, não permitem grande optimismo.

    Gustavo Carona

    Apesar disso, e apesar de ainda restarem audiências nas quais apresentarei testemunhas de defesa, não alimento ilusões convenientes. Poderia optar pela água morna, repetir os lugares-comuns sobre a confiança abstracta na Justiça, vestir a prudência retórica que tantos aconselham. Nunca o farei. Mantenho tudo o que disse sobre Gustavo Carona como verídico e como enquadrado na liberdade de expressão. E continuarei a dizer. E não o faço por bravata, mas por lucidez.

    Os últimos quatro anos — marcados pelo confronto do PÁGINA UM com alguns poderes instituídos e instalados, incluindo até o Conselho Superior da Magistratura (onde se consegui obrigar o seu presidente, simultaneamente presidente do Supremo Tribunal de Justiça, a dar acesso a documentos sob pena de multa — condicionam inevitavelmente a forma como encaro este julgamento.

    A minha esperança — e essa sim muito realista — desloca-se para os recursos a este julgamento no Tribunal do Bolhão e, sobretudo, para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Não por fetichismo internacionalista, mas por experiência empírica: Portugal tem sido, de forma reiterada, condenado e envergonhado pela sua postura relativamente à liberdade de expressão e à liberdade dos jornalistas.

    Um dos casos recentes, envolvendo o antigo embaixador Seixas da Costa, foi curiosamente como epicentro inicial o mesmo Tribunal do Bolhão. Mas só no ano passado, salvo erro, houve quatro ‘reversões’ de sentenças envolvendo liberdade de expressão. Olhar para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos como o sítio mais relevante não se trata de hostilizar a Justiça portuguesa: trata-se apenas de reconhecer que há sistemas que, por hábito, por medo do precedente ou por fechamento corporativo, esvaziam conceitos que deveriam ser estruturantes, como o da liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e a aparência de imparcialidade.

    Este editorial não é, por isso, um apelo à impunidade, nem um ajuste de contas pessoal — é um registo para memória futura. Um lembrete de que a Justiça não se esgota na sentença, nem se protege com multas pedagógicas. Protege-se com transparência, com coragem institucional e com respeito efectivo pelos direitos fundamentais — mesmo quando o arguido incomoda, mesmo quando escreve com ironia, mesmo quando satiriza. Porque é precisamente nesses casos que a democracia se mede.

    Este caso julgará um tribunal. E é o tempo que ditará o veredicto.

  • Efeitos adversos em Portugal: os párias de um deus menor

    Efeitos adversos em Portugal: os párias de um deus menor


    Na retórica da “saúde pública” atinge-se, demasiadas vezes, um ponto em que esta se transforma em álibi moral para a desresponsabilização do Estado. Esse ponto é atingido, por exemplo, quando o poder político, em nome de um bem colectivo abstracto, aceita silenciosamente que os danos concretos sofridos por cidadãos reais sejam tratados como meros infortúnios privados.

    A postura do Governo — não apenas do actual, mas, de forma particularmente eloquente, da ministra da Saúde, Ana Paula Martins — perante as reacções adversas a medicamentos e vacinas revela uma opção política clara: a de proteger o sistema, proteger a indústria e proteger a narrativa, mesmo que isso implique abandonar quem, por azar biológico, predisposição genética ou simples contingência estatística, foi prejudicado por um fármaco que lhe foi administrado sob recomendação, pressão ou enquadramento do próprio Estado.

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    Convém começar pelo óbvio, para evitar caricaturas: o sector farmacêutico foi e é decisivo para o progresso da Medicina, para o aumento da esperança média de vida e para o controlo de inúmeras doenças. Mas a maturidade de uma política pública mede-se precisamente na capacidade de lidar com o que corre mal, e não apenas com o que corre bem. No meio do trigo, há sempre joio. E, por vezes, há mesmo azares trágicos. Não existem medicamentos 100% seguros. Nunca existiram. Nunca existirão.

    Por isso, os Estados modernos — e sublinhe-se: modernos há décadas — criaram sistemas de indemnização “no-fault”, assentes num princípio simples de justiça distributiva: quando o risco residual decorre de uma política pública legítima, esse risco não pode ser suportado apenas pelo indivíduo lesado. A colectividade beneficia; a colectividade responde.

    Contudo, Portugal recusa esse princípio.

    E o problema não é apenas jurídico, administrativo ou financeiro — é, antes de mais, humano. As pessoas que sofrem reacções adversas — algumas raras, outras graves, outras ainda incapacitantes ou permanentes — enfrentam frequentemente uma segunda violência, mais silenciosa e mais corrosiva: a negação institucional da sua própria condição. Não apenas não são indemnizadas; muitas vezes nem sequer são reconhecidas.

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    São cidadãos que, ao procurarem ajuda no SNS, se deparam com médicos que recusam aceitar, sequer como hipótese académica, a possibilidade de nexo causal entre o medicamento administrado e os sintomas apresentados. Em muitos casos, porque médicos ‘lobbistas’ da indústria farmacêutica inculcam na opinião pública que a simples referência à existência de efeitos colaterais significa negar os benefícios. Assim, encontram serviços que evitam aprofundar investigações clínicas, processos de farmacovigilância estática que se esgotam em recolher sem nexo dados agregadas e uma cultura institucional que parece temer que reconhecer esses casos “crie pânico”.

    Mas o pânico nunca nasce do rigor científico nem da transparência institucional. O pânico nasce quando os cidadãos percebem que, se algo correr mal, o Estado os abandonará. Que poderão ser tratados como incómodos estatísticos, como ruído indesejado numa narrativa de sucesso, como danos colaterais aceitáveis. O pânico nasce quando se instala a convicção de que há vítimas de primeira e vítimas de segunda, cidadãos protegidos e cidadãos descartáveis.

    E esse pânico é racional.

    Não estamos a falar de abstrações nem de fantasias colectivas. Estamos a falar de pessoas reais, com nomes, histórias clínicas documentadas, vidas profundamente alteradas ou mesmo ceifadas. Algumas terão sido vítimas de infortúnio estatístico; outras, de negligência médica; outras ainda de decisões empresariais marcadas por excesso de pressa, insuficiente prudência ou ambição sem escrúpulos. Usar o silêncio, a negação ou o desdém institucional como resposta política não protege a saúde pública — mina-a.

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    Na passada segunda-feira, como o PÁGINA UM noticiou, uma petição subscrita por 3.019 cidadãos deu entrada na Assembleia da República, exigindo a criação de um Programa Nacional de Indemnizações para vítimas de reacções adversas às vacinas contra a covid-19. A iniciativa não cria um problema novo: limita-se a tornar visível um problema estrutural que Portugal arrasta há décadas. O país continua a integrar um núcleo residual de Estados europeus que não dispõe de qualquer mecanismo administrativo de compensação por danos farmacológicos — nem para vacinas da covid-19, nem para o Programa Nacional de Vacinação, nem para medicamentos em geral.

    Este atraso não se explica por dificuldades técnicas, nem por impossibilidades jurídicas. Explica-se por opção política consciente — uma opção que aceita o princípio da compensação quando tal é promovido em fóruns internacionais, mas o rejeita quando estão em causa responsabilidades internas do Estado.

    Essa opção torna-se ainda mais grave quando se observa o papel do Infarmed. O sistema nacional de farmacovigilância reconhece estatisticamente a existência de reacções adversas, mas não fornece aos cidadãos qualquer instrumento eficaz para estabelecer nexo de causalidade individual com efeitos indemnizatórios. O Estado reconhece que os efeitos adversos existem; recusa assumir as suas consequências. Trata-se de uma arquitectura institucional perfeita para a desresponsabilização.

    Ana Paula Martins, ministra da Saúde.

    A ironia aproxima-se do grotesco quando se constata que Rui Santos Ivo, presidente do Infarmed com passado profissional na indústria farmacêutica, ascendeu no ano passado à presidência da Agência Europeia do Medicamento (EMA). Ao contrário da esmagadora maioria dos países abrangidos pela EMA, Portugal continua a remeter as vítimas para uma via judicial kafkiana, lenta, onerosa e, na prática, quase inacessível e de impossível vitória. Ao invés, um cidadão vacinado num país africano de baixo rendimento, ao abrigo da COVAX, dispõe hoje de um mecanismo administrativo de compensação que um cidadão português não tem.

    Confrontado pelo PÁGINA UM com questões directas, técnicas e factualmente sustentadas — que perguntam, sem rodeios, se o Governo considera aceitável transferir integralmente para os cidadãos o risco residual de políticas públicas de saúde —, o Ministério da Saúde optou pelo silêncio absoluto. Nem uma linha de resposta. Nem um argumento. Nem um esboço de justificação. Três assessoras de imprensa não chegaram para produzir uma resposta nem que fosse a dizer que a ministra está a borrifar-se para o assunto — ou, vá lá, para o PÁGINA UM. Neste contexto, o silêncio não é neutral: é uma declaração política.

    Os partidos com assento parlamentar têm agora uma oportunidade clara. Se forem capazes de abandonar a postura dogmática que transformou as vacinas contra a covid-19 em objectos quase teológicos — salvificadas, imunes a problemas de segurança e blindadas contra qualquer escrutínio adulto — poderão colocar Portugal na linha dos países que levam a sério a responsabilidade do Estado. Nem sequer é uma questão de modernidade: existem hoje 137 países com programas de indemnização “no-fault”.

    Rui Santos Ivo; presidente do Infarmed.

    Quanto à ministra da Saúde, a expectativa é mais sombria. O seu percurso, com ligações profundas à indústria farmacêutica, não sugere grande sensibilidade para este tipo de responsabilidade social. A sua actuação recente confirma-o. Entre proteger a arquitectura do sistema e proteger os cidadãos lesados, a escolha tem sido clara. E profundamente errada.

    Em todo o caso, sejam poucas ou muitas as pessoas afectadas, não podemos aceitar que um Estado democrático trate cidadãos lesados por políticas públicas como filhos de um deus menor. Como párias a serem escondidos. Um Estado que promove políticas de saúde não pode comportar-se como seguradora ausente quando algo corre mal. Se o fizer, perde legitimidade moral para exigir confiança pública.

    E sem confiança, nenhuma política de saúde pública sobrevive. O resto será sempre propaganda.