Categoria: Editorial

  • O combate à corrupção começará, sem mais adiamentos, no dia de São Nunca, à tardinha

    O combate à corrupção começará, sem mais adiamentos, no dia de São Nunca, à tardinha


    Em Portugal, o combate à corrupção tem uma característica singular, talvez mesmo digna de figurar no património imaterial da Nação: é sempre prioritário, desde que não seja urgente.

    Anuncia-se com solenidade, apresenta-se em conferência de imprensa, baptiza-se com maiúsculas, transforma-se em Estratégia, Agenda, Mecanismo, Regime Geral, Plano, Código, plataforma, grupo de trabalho e, quando a imaginação administrativa se encontra inspirada, em declaração sob compromisso de honra. Depois chega-se à desagradável fase da execução — aquela em que alguém teria efectivamente de declarar interesses, revelar incompatibilidades, afastar-se de uma decisão ou deixar um papel assinado no processo — e descobre-se que o País ainda não está preparado para tamanha precipitação.

    A história da moderna declaração obrigatória de inexistência de conflitos de interesses para cargos políticos e públicos é uma pequena obra-prima deste método português de combater a corrupção sem a incomodarmos demasiado.

    A ideia vem de longe e nasceu com pompa suficiente. Em Setembro de 2020, o Governo de António Costa apresentou para discussão pública a Estratégia Nacional de Combate à Corrupção 2020-2024, que é algo que os políticos se cansam de garantir que nunca existe, mas que convém prevenir. A então ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, explicou que a prevenção seria a “chave do sistema”, porque não bastava perseguir criminalmente os corruptos depois do serviço feito.

    Seguiram-se meses de consulta pública, especialistas, magistrados, ordens profissionais, associações e cidadãos. Em Março de 2021, o Conselho de Ministros aprovou finalmente a Estratégia Nacional Anticorrupção 2020-2024, apresentada pelo Governo como um dos seus “objectivos prioritários”. Pretendia-se, dizia o comunicado oficial, agir “a montante do fenómeno”, criar mecanismos de identificação precoce dos riscos e aumentar a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas.

    Tudo magnífico.

    António Costa prometeu declaração que vai de adiamento em adiamento. Foto: D.R.

    Em Dezembro de 2021 surgiu então o Decreto-Lei n.º 109-E/2021, que criou o Mecanismo Nacional Anticorrupção (MENAC) e o Regime Geral da Prevenção da Corrupção (RGPC). E neste último apareceu uma ideia de uma violência burocrática quase revolucionária: quem decidisse certas matérias particularmente sensíveis teria de assinar uma declaração dizendo que não tinha conflitos de interesses.

    Não se falava de assuntos menores. O artigo 13.º abrangia precisamente quatro territórios onde dinheiro, poder administrativo e interesses privados costumam encontrar-se com maior frequência: contratação pública; concessão de subsídios, subvenções e benefícios; licenciamentos urbanísticos, ambientais, comerciais e industriais; e procedimentos sancionatórios. Administradores, dirigentes e trabalhadores que interviessem nesses processos teriam de deixar escrito que não se encontravam numa situação susceptível de fazer duvidar seriamente da sua imparcialidade.

    Faltava apenas uma insignificância: o Governo tinha de aprovar o modelo da declaração.

    Ora, demorou dois anos e oito meses.

    Só para se produzir este texto da declaração gastou-se dois anos e oito meses.

    Só em 14 de Agosto de 2024, já com Luís Montenegro em São Bento e Rita Alarcão Júdice na Justiça, surgiu finalmente a Portaria n.º 185/2024/1. E não se diga que a Administração fora confrontada com uma complexidade documental comparável à revisão do Código Civil. O resultado de quase três anos de maturação administrativa é essencialmente uma página: nome, cargo, entidade, procedimento, declaração sob compromisso de honra, data e assinatura.

    Estava finalmente pronta a temível arma contra os conflitos de interesses. A portaria dizia que entraria em vigor 30 dias depois.

    Durou 51 dias esta audácia.

    Em 4 de Outubro de 2024, antes de a obrigação conseguir perturbar seriamente a tranquilidade administrativa, o Governo publicou a Portaria n.º 242/2024/1. Descobrira-se que o artigo 13.º tinha um âmbito “muito abrangente”, tanto subjectiva como objectivamente, causando dificuldades sobretudo às entidades envolvidas em muitos procedimentos. Como a Agenda Anticorrupção do Governo Montenegro previa entretanto rever o RRGPC e o próprio MENAC, considerou-se prudente “sobrestar à vigência”. Em português corrente: esperar. A declaração passaria a entrar em vigor 180 dias depois da publicação original.

    Luís Montenegro lidera um Governo desde 2024 que combate a corrupção de adiamento em adiamento… Foto: PCM.

    Chegou Fevereiro de 2025 e os 180 dias começaram perigosamente a aproximar-se. O Governo verificou então que ainda não conseguira aprovar a revisão prometida. Publicou a Portaria n.º 38/2025/1 e concedeu mais seis meses à prevenção da corrupção: a declaração entraria em vigor um ano depois da portaria original, em Agosto de 2025. A justificação incluía a necessidade de “acautelar as legítimas expectativas das entidades abrangidas”.

    Aparentemente, uma das expectativas legítimas da Administração Pública portuguesa era não ter ainda de assinar a declaração.

    Chegou então 14 de Agosto de 2025. E, como um relógio suíço aplicado ao adiamento português, apareceu a Portaria n.º 287-A/2025/1. A obrigação passou para 14 de Agosto de 2026. Dois anos depois da publicação do formulário. A explicação continuava a remeter para as dificuldades de aplicação e para a revisão do regime.

    E chegámos a ontem, sexta-feira.

    Quando já não parecia haver espaço no calendário para outro passo atrás, Rita Alarcão Júdice, ministra da Justiça, e Marisa Garrido, secretária de Estado da Administração Pública, não tiveram um pingo de vergonha na cara e publicaram a Portaria n.º 345-B/2026/1.

    A declaração que devia vigorar 30 dias depois de Agosto de 2024, que depois passou para Fevereiro de 2025, depois para Agosto de 2025 e depois para Agosto de 2026, entrará agora em vigor — assegura-nos solenemente a República — em 31 de Julho de 2027.

    A fundamentação da ministra e da secretária de Estado é, aliás, uma jóia de economia literária: “mantêm-se os pressupostos subjacentes” aos adiamentos anteriores e entendeu-se assim “adequado diferir a data da entrada em vigor”.

    E pronto.

    Montenegro: deixa para amanhã aquilo que te pode comprometer hoje. Foto: D.R.

    Seis anos depois de o Governo Costa ter começado a preparar a Estratégia Nacional Anticorrupção e de Francisca Van Dunem ter anunciado que a prevenção era a “chave do sistema”; quase cinco anos depois de o Regime Geral da Prevenção da Corrupção ter tornado obrigatória a declaração; três anos depois de o Governo Montenegro ter finalmente aprovado o formulário de uma página, a Administração Pública portuguesa continua sem conseguir aplicar uniformemente esse formulário.

    Tudo isto demonstra que, em Portugal, combater a corrupção nos discursos é facílimo. Requer um púlpito, duas bandeiras, uma Estratégia Nacional e expressões como “transparência”, “integridade”, “confiança dos cidadãos” e “tolerância zero”. Combater conflitos de interesses no mundo real já exige uma coisa infinitamente mais incómoda: obrigar alguém, antes de decidir sobre dinheiro público, licenças ou sanções, a pôr o nome por baixo de uma declaração e assumir responsabilidade pelo que declara.

    E isso, pelos vistos, exige preparação. Muita preparação.

    A Estratégia chamava-se, recorde-se, 2020-2024. Estamos em Agosto de 2026 e uma das suas mais elementares concretizações foi remetida para Julho de 2027. Se chegar então a entrar em vigor, terão passado quase sete anos desde a apresentação pública da Estratégia e cinco anos e sete meses desde a publicação do RGPC.

    Contudo, deve reconhecer-se ao Estado português, e aos sucessivos Governos, uma qualidade rara: a perseverança. Encontramos países que combatem a corrupção perseguindo o dinheiro, reduzindo zonas de discricionariedade e expondo interesses e responsabilizando decisores. Nós aperfeiçoámos uma modalidade administrativamente mais sustentável: combatemos a corrupção adiando a data em que começaremos a combatê-la um pouco melhor.

    Por isso, talvez seja injusto chamar à data de 31 de Julho de 2027 um prazo. À luz do currículo desta declaração, será mais prudente chamar-lhe a próxima oportunidade para publicar outra portaria de adiamento.

  • Jornais no interior, ou como Marco Galinha quer fazer-nos de patos

    Jornais no interior, ou como Marco Galinha quer fazer-nos de patos


    Marco Galinha anda preocupado. Muito preocupado. O empresário que controla o Grupo BEL, no qual se integra a VASP, e que mantém interesses no Global Media Group, proprietário, entre outros títulos, do vetusto e decrépito Diário de Notícias – e que não apresentou, talvez por vergonha, as contas de 2025 –, descobriu nos últimos dias que a distribuição de jornais no interior do país constitui uma espécie de serviço público em risco de colapso, ameaçado pela possibilidade intolerável de aparecer uma coisa exótica num mercado onde durante anos quase ninguém a viu: um concorrente.

    O motivo da inquietação encontra-se num concurso lançado pelo Governo para assegurar a distribuição de publicações em 96 municípios de baixa densidade, com uma dotação próxima de três milhões de euros para três anos. Traduzido para contas menos majestáticas, falamos de cerca de um milhão de euros por ano destinado a compensar os custos de levar jornais a territórios onde a reduzida circulação torna as rotas pouco ou nada rentáveis.

    Foto: PAV.

    Marco Galinha gostaria de continuar a fazê-lo através da VASP. Até aqui, nada a apontar. Uma empresa concorre, apresenta a sua proposta e procura ganhar. O problema começa quando o empresário transforma a defesa do seu negócio numa cruzada em defesa da imprensa, quando apresenta a eventual derrota da VASP como ameaça ao pluralismo e quando procura convencer o país de que um segundo operador não representa concorrência, mas quase uma calamidade pública.

    A concorrente chama-se Pergaminhoflash e nasceu há pouco tempo. Marco Galinha e os seus jornais têm sublinhado essa juventude empresarial, como se a data da constituição de uma sociedade determinasse a experiência das pessoas que estão por trás dela. A empresa encontra-se ligada a José Manuel Rogeira de Jesus, empresário que não desembarcou ontem de uma nave espacial para descobrir que Portugal tem jornais, bancas, carrinhas e redes de distribuição. Rogeira de Jesus possui interesses na FEPI, na E.S.T. Distribuição, na Radar da Sorte e, através da Parsoc, participa no universo que passou a controlar a Notícias Ilimitadas, onde se encontram agora o Jornal de Notícias, a TSF e O Jogo.

    O relacionamento entre os dois homens possui, aliás, uma ironia adicional. Rogeira de Jesus não corresponde a um desconhecido surgido das brumas para assaltar o negócio da VASP. Os dois universos empresariais – o de Galinha e o de Jesus – estiveram, aliás, envolvidos na operação que retirou aqueles títulos da esfera da Global Media e os colocou na Notícias Ilimitadas, negócio ao qual se seguiram divergências e uma separação pouco amistosa. Aliás, já está na fase litigiosa. O concorrente de hoje de Marco Galinha já foi, em certa medida, parceiro negocial de ontem.

    Marco Galinha, à esquerda, a receber António Jose Seguro na denominada “Grande Conferência DN”: o homem-forte do Grupo Bel e da VASP usa o vetusto Diário de Notícias (com vendas inferiores mil exemplares diários) como charneira para o poder político. Foto: D.R.

    Nada disto prova que a Pergaminhoflash consiga cumprir um contrato. Nem que seja garantido que vai entrar em incumprimento. O júri do concurso terá de avaliar capacidade financeira, meios logísticos, recursos humanos, garantias e tudo quanto o caderno de encargos exija. Também não transforma automaticamente a experiência empresarial de Rogeira de Jesus em experiência operacional da nova sociedade. Uma coisa não deve ser confundida com a outra.

    Mas também não vale fazer o percurso inverso e apresentar a Pergaminhoflash como uma casca vazia apenas porque a matrícula comercial ainda cheira a tinta.

    Nos últimos dias surgiu até uma notícia do Correio da Manhã sobre falhas formais na candidatura concorrente, relacionadas com documentação entregue no procedimento. O júri concedeu prazo para o suprimento das irregularidades. Nada mais normal num concurso público quando a lei permite suprir documentos ou esclarecer elementos, ainda mais quando se trata, como parece evidente neste caso, de pormenores associados a uma assinatura.

    Mas a amplificação mediática, sobretudo pelo Correio da Manhã, de cada pequeno tropeção – a par de uma extensa entrevista de Marco Galinha no canal NOW, também da Medialivre – começa, contudo, a revelar algo mais interessante do que as insuficiências burocráticas da proposta rival: revela o nervosismo de quem não contava ter ‘companhia’. No Jornal de Notícias, ligado a Rogeira de Jesus, responde-se com farpas à VASP.

    Marco Galinha, ou a arte de afastar a concorrência. Foto: D.R.

    E as próprias palavras de Marco Galinha, lidas nas entrelinhas e para quem percebe o que está verdadeiramente em causa, ajudam a perceber o problema.

    Segundo o empresário, distribuir jornais no Interior dá prejuízo. Nessa linha, a ‘benemérita’ VASP suportaria perdas relevantes nessas rotas e o milhão de euros anual previsto pelo Governo nem sequer chegaria para compensar o esforço. Aceitemos por momentos a afirmação sem discutir a contabilidade analítica que a sustentará.

    Então… mas, nesse caso, Marco Galinha deveria agradecer à Pergaminhoflash.

    Se uma atividade provoca prejuízo e se o apoio público previsto não cobre sequer esse prejuízo, perder o concurso livraria a VASP e Marco Galinha de uma operação ruinosa. O concorrente ficaria com as carrinhas, os quilómetros, os jornais vendidos aos magotes de meia dúzia e a conta final negativa; e o homem-forte do Grupo BEL ficaria com a parte boa do negócio e poderia dedicar-se às rotas rentáveis.

    Entrevista de Marco Galinha no canal Now: 11 minutos de publicidade às virtudes da VASP. Foto: captura de ecrã.

    Porém, em vez de alívio, vemos alarme.

    E a explicação encontra-se nas contas.

    As últimas demonstrações financeiras disponíveis da VASP respeitam a 2024. As contas de 2025 não foram ainda apresentadas. Por mensagem, questionou Marco Galinha sobre essa ausência. Não respondeu.

    Em todo o caso, os números de 2024 já desmontam parte da narrativa. A VASP apresentou 164,3 milhões de euros de proveitos operacionais, mas ficou-se por 3,35 milhões de EBITDA e 172,8 mil euros de lucro líquido. Falamos de uma enorme máquina comercial, mas com uma margem final quase microscópica, o que se mostra compreensível: o ganho faz-se por via da quantidade.

    Dentro dessa máquina, o velho papel continua a desempenhar um papel que ninguém deve menosprezar. A unidade “Editorial — Publicações”, que agrega jornais, revistas, colecionáveis e serviços associados, gerou 118,96 milhões de euros de volume de negócios e 2,43 milhões de EBITDA. Quase três quartos do EBITDA total da VASP nasceram, portanto, nessa área que o discurso da diversificação empresarial tantas vezes apresenta como negócio em declínio.

    printing machine
    Foto: D.R.

    Só os jornais representaram cerca de 52 milhões de euros de vendas em 2024; as revistas acrescentaram outros 35,4 milhões. Jornais e revistas movimentaram, em conjunto, perto de 87,4 milhões de euros. Depois do custo contabilístico das mercadorias, a diferença bruta entre vendas e custos rondou 11,9 milhões de euros, antes dos restantes encargos de distribuição, pessoal, transporte, instalações, sistemas e estrutura.

    Estas contas não permitem afirmar quanto do EBITDA resulta dos jornais em sentido estrito nem quanto rende cada rota. Quem pretenda fazer essa afirmação necessita da contabilidade analítica da empresa, que não está publicada. Porém, os números mostram outra coisa e essa interessa bastante mais para compreender a agitação de Marco Galinha: a distribuição editorial continua a sustentar grande parte da infraestrutura económica da VASP.

    Uma rede logística vive de escala, frequência e densidade. Uma carrinha que percorre cem quilómetros para entregar apenas vinte jornais constitui um desastre; a mesma carrinha, usando a mesma rota para transportar jornais, revistas, livros, encomendas, jogos, produtos de conveniência e outros bens, começa a apresentar outra conta. O valor económico da distribuição da imprensa não pode, por isso, medir-se apenas através do resultado isolado de um exemplar vendido numa aldeia de Trás-os-Montes.

    Neste ponto aparece o verdadeiro medo de Marco Galinha.

    a button with the word press on it
    Foto: by Nik

    O milhão de euros não constitui o problema central. Para uma empresa com mais de 164 milhões de euros de proveitos, esse apoio representa uma parcela pequena do volume global. Aquilo que está em causa encontra-se noutro lado: o dinheiro público pode financiar a entrada de um novo operador numa rede onde a VASP desfruta hoje de uma posição quase monopolista.

    Um concorrente que obtenha apoio governamental para instalar rotas em dezenas de concelhos passa a dispor de viaturas, motoristas, pontos de entrega, relações comerciais, conhecimento territorial e uma estrutura que já não começa do zero. Nenhuma regra permite usar um subsídio público destinado ao Interior para financiar negócios alheios ao contrato, evidentemente. Mas as economias de escala não desaparecem por decreto. Depois da rota montada, colocar outros produtos na carrinha custa menos do que montar outra carrinha.

    E um distribuidor capaz de levar jornais às zonas deficitárias pode, no futuro, bater à porta dos editores e oferecer também distribuição nas zonas rentáveis.

    A partir desse momento, o problema deixa de valer um milhão. Passa a valer o monopólio de facto.

    A river running through a small town next to a hillside
    Foto: Filipe Nobre.

    Um editor que hoje dependa da VASP tem escassa capacidade negocial porque não dispõe de alternativa com cobertura comparável. Um editor com dois distribuidores à porta pode comparar preços, condições, comissões, prazos e serviços. Quem controla a rede deixa então de controlar sozinho a negociação.

    Marco Galinha sabe fazer contas. Por isso mesmo, custa acreditar que todo este ruído resulte do receio de perder um subsídio que, segundo o próprio, nem chega para cobrir o prejuízo.

    O receio mais plausível encontra-se na possibilidade de o Estado estar, sem o dizer, a criar as condições mínimas para quebrar uma posição dominante construída ao longo de décadas.

    Marco Galinha tem todo o direito de lutar pelo concurso, criticar o modelo, contestar a proposta concorrente e defender a VASP. Também pode demonstrar, com números, que o apoio é insuficiente ou que nenhuma outra empresa conseguirá prestar o serviço nas condições exigidas. Outra coisa consiste em transformar o interesse económico da VASP no interesse da imprensa portuguesa.

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    foto: Vlad Tchompalov.

    Se as rotas do Interior dão prejuízo, a entrada de um concorrente que aceite fazê-las não deveria matar a VASP. Se a perda dessas rotas ameaça todo o modelo económico da empresa, então talvez essas rotas não sejam tão irrelevantes nem tão ruinosas como agora nos quer Marco Galinha fazer crer. E se a simples existência de um segundo operador põe em risco a distribuição nacional da imprensa, então o problema do país não se encontra no aparecimento de concorrência. Reside na dependência que se deixou criar.

    Marco Galinha pode preocupar-se com os seus negócios. Faz parte da função de qualquer empresário. Já querer que os portugueses confundam a sua preocupação de negócios e de interesses comerciais com uma emergência nacional exige um esforço adicional. E para isso terá mesmo de nos fazer de patos.

  • ‘É pá, não posso escrever sobre isto!’

    ‘É pá, não posso escrever sobre isto!’


    Há um momento, na vida de um jornalista, em que a autocensura passa a funcionar como uma espécie de reflexo? Um automatismo? Antes de escrever uma frase, já sabe quem poderá ficar incomodado. Antes de publicar uma notícia, antecipa os comentários. Antes de fazer uma pergunta, imagina a reacção dos colegas, do editor, dos políticos, dos activistas, dos leitores ou das redes sociais. E, pouco a pouco, o jornalista começa a eliminar palavras, a corrigir frases, a ajustar ângulos e perguntas não porque sejam falsos, mas porque podem ser inconvenientes.

    Recentemente, um certo contrato público chamou a atenção. Um ajuste directo de alguns milhões de euros feito por uma autarquia com uma empresa com um nome curioso, daqueles instantâneos que se escolhem a “empresa na hora”.: Fabulous Episode. Verificado o registo da empresa, a morada da sede e o capital social, um detalhe saltou à vista: o proprietário único da empresa unipessoal é imigrante. Do Bangladesh. O primeiro pensamento foi: “não posso escrever sobre isto”. Foi a primeira coisa que me veio à cabeça. “Uma empresa de um imigrante e ainda por cima do Bangladesh. Vão dizer que somos xenófobos ou da extrema-direita”.

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    Foto: Mario Gogh

    Fiquei surpreendida com o pensamento automático que saltou na minha mente ao ler o registo de constituição da Fabulous Episode. Mas, pensando bem, acontece muitas vezes saltarem estes pensamentos automáticos perante temas que os media e a sociedade transformaram em “tabu”.

    É uma armadilha particularmente perversa para o Jornalismo.

    Um jornalista pode investigar um governo de esquerda e ser acusado de fazer o jogo da direita. Pode escrutinar um partido de direita e ser imediatamente classificado como militante da esquerda. Pode revelar os “pés de barro” de uma decisão tomada durante uma crise sanitária e ser acusado de negar a Ciência. Pode investigar uma empresa privada e ser acusado de estar ao serviço de interesses concorrentes. Pode denunciar abusos cometidos por uma instituição pública e ser acusado de atacar o Estado e de ser “anti-sistema”. Pode simplesmente fazer uma pergunta incómoda e descobrir que, para alguém, fazer a pergunta já significa ter escolhido um lado.

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    Foto: Yannick Pulver

    O problema tornou-se particularmente evidente num ambiente mediático e político profundamente polarizado, em que quase todas as questões são apresentadas como uma disputa entre dois campos. Há os “nossos” e os “outros”; os “progressistas” e os “conservadores”; a esquerda e a direita; os cristãos e os ateus; os defensores da democracia e os que querem ditaduras, mais vigilância e censura. Os que estão de um lado da barricada e os que estão do outro. E, nesse cenário, quem questiona um argumento de um lado é imediatamente suspeito de pertencer ao outro.

    Na pandemia, quem ousasse noticiar algo “fora da linha” do “pensamento único autorizado”, era negacionista, anti-vacinas. Na cobertura da guerra na Ucrânia, se apresentasse dados que desmentissem a ideia de que Zelensky é um santo, era ‘putinista’. Se criticasse a chacina de inocentes num trágico 7 de Outubro em Israel… E por aí adiante.

    Há muitos outros temas onde jornalistas não querem sequer tocar, dada a polarização extrema. Um exemplo: tudo o que tenha a ver com LGBT+ (seja versus os direitos de gays, seja versus os direitos das mulheres). Aqui inclui-se o tema da mutilação definitiva (ou na nova linguagem, da “transição”) de jovens “transgénero” com autorização e assinatura de pedopsiquiatras. Se um jornalista vê a sigla LGBT+ o melhor é fugir porque vai meter-se na “linha de fogo” e acabar na gaveta dos “transfóbicos”.

    yellow road signage at daytime
    Foto: Robert Ruggiero

    Também não convém que o jornalista apresente dados que possam sequer beliscar os “comboios de tempestades” ou escrever no Facebook que se lembra de ter estrelado ovos nas pedras da calçada, nos Verões da sua infância. Esqueça isso! Vai meter-se em sarilhos.     

    Mas há temas seguros. Todas as notícias que critiquem ou exponham defeitos a Trump ou Putin continuam a ser uma tendência geralmente aceite. Em Portugal, tudo o que possa ter culpas atribuídas ao Partido Chega também dá mais ‘likes’ do que ‘haters’. Mesmo que a notícia seja falsa.        

    Claro que o jornalista não pode ceder nem à censura nem à autocensura. Obviamente que, no PÁGINA UM, noticiámos o caso do ajuste directo milionário à empresa com sede numa mercearia do Bairro Alto. Mas era evidente que abria o flanco a ataques e comentários difamatórios. Mas o que pode um jornalista fazer? Temos culpa que a autarquia tenha feito o ajuste directo? Que a empresa tenha sede numa mercearia? Que seja detida por um imigrante? Que tenha feito um enorme aumento de capital às pressas?

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    Foto: Kaitlyn Baker

    Mas sei que muitos jornalistas já não escrevem sobre certos temas para não ter chatices. É que já nem tentam. Para quê? Só vai ser mau para eles. É melhor seguir dentro das linhas “autorizadas”, não correr riscos desnecessários. Mas, nestes casos, o Jornalismo fica metido na gaveta.    

    O jornalismo, porém, não deveria ter lados.

    O jornalista deve estar radicalmente comprometido, sim, mas é com a verificação dos factos, com a procura de evidência, com a identificação de contradições e com o direito dos cidadãos a conhecer aquilo que os poderes públicos, económicos ou institucionais prefeririam manter escondido.

    E compromisso com os factos não é compromisso com uma “tribo”.

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    Foto: Markus Winkler

    A dificuldade é que o actual ecossistema mediático recompensa precisamente o comportamento tribal. A economia do clique transformou a atenção num bem escasso e a indignação e comportamentos de “manada” em ferramentas altamente rentáveis. As tribos dão cliques. Uma notícia que confirma aquilo que o leitor já pensa tem maior probabilidade de ser partilhada do que uma notícia que o obriga a reconsiderar as suas certezas e a reflectir. O pensamento crítico dá muito trabalho para alguns. Não é natural. Uma manchete que provoca indignação ou choro de emoção produz mais reacções do que uma que exige reflexão. Uma acusação simples, um relato de fazer chorar as pedras da calçada ou a criação de um “herói” mobilizam mais facilmente do que uma investigação complexa, que aprofunda, que não fica pela espuma.

    E, assim, o jornalista fica perante uma escolha que não deveria existir: fazer jornalismo ou fazer conteúdo fácil para agradar (ou para ficar sossegado, sem chatices).

    A pressão não vem apenas das audiências. Vem também de dentro das próprias redacções. Num ambiente em que determinadas opiniões, temas ou perguntas se tornaram socialmente mais aceitáveis do que outras, o jornalista aprende rapidamente quais são os terrenos perigosos. Não precisa que alguém lhe diga explicitamente para não investigar determinado assunto. Basta ver o revirar de olhos, os comentários na secretária ao lado para perceber que determinadas perguntas provocam desconforto, que determinadas fontes são consideradas “problemáticas”, que determinadas conclusões podem causar uma crise nas redes sociais ou que determinada reportagem poderá ser interpretada como uma cedência ao “outro lado”.

    Two blue signs pointing in opposite directions on a white wall
    Foto: holigil 27

    A autocensura instala-se assim sem necessidade de ordens.

    E talvez o mais grave seja aquilo que acontece depois: o jornalista deixa de perguntar “isto é verdade?” e começa a perguntar “como é que isto será interpretado?”. A primeira pergunta é jornalística. A segunda é política.

    Quando isso acontece, a profissão perde uma das suas funções essenciais: a capacidade de investigar a fundo. Doe a quem doer.

    Um bom jornalismo deve, por vezes, irritar todos. Deve poder publicar uma informação que desagrada simultaneamente ao governo e à oposição, às empresas e aos sindicatos, aos activistas de uma causa e aos seus adversários. Deve poder elogiar uma decisão de alguém que habitualmente critica e denunciar uma decisão de alguém com quem normalmente concorda.

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    Foto: Bernard Hermant

    Essa aparente incoerência é, na realidade, uma das maiores provas de independência.

    O jornalista não pode ser obrigado a escolher uma barricada para ter direito a falar ou investigar. Nem pode aceitar que a ausência de alinhamento seja interpretada como prova de alinhamento com um qualquer “adversário”. Se a única posição considerada legítima é a de um dos dois campos, então aquilo que está a desaparecer não é apenas a independência jornalística. É o próprio espaço público onde ainda é possível pensar.

    Talvez seja esse o verdadeiro dilema do jornalista contemporâneo: resistir à tentação de agradar a uma audiência, a uma redacção, a um grupo político ou a uma comunidade ideológica para preservar aquilo que deveria ser a sua única lealdade — a procura da verdade possível, sustentada por factos. Mas … e a estabilidade no trabalho? E o seu salário no final do mês?

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    Foto: Laurin Steffens

    Num tempo em que todos parecem especular de que lado um jornalista está, talvez a resposta mais importante seja precisamente esta: de nenhum lado. Melhor. Está do lado dos factos.

    E, às vezes, isso significa escolher ficar sozinho entre as duas barricadas. Afinal, no médio prazo, só arrisca tornar-se num pária. E, eventualmente, ficar no desemprego.

  • A ERC, o Diário de Notícias e a Lusa entram num bar: a fome e a vontade de comer

    A ERC, o Diário de Notícias e a Lusa entram num bar: a fome e a vontade de comer


    Existe uma forma muito peculiar de atenção na imprensa portuguesa: a atenção condicional. O PÁGINA UM pode revelar documentos escondidos, obrigar organismos públicos a cumprir a lei, descobrir contratos, expor incompatibilidades ou vencer processos nos tribunais administrativos. Nesses casos, a maior parte da imprensa olha para o lado, assobia, consulta a meteorologia e prossegue serenamente para a notícia seguinte.

    Mas basta surgir uma deliberação susceptível de ser embrulhada como crítica ao PÁGINA UM para se ouvir, de súbito, o tropel da cavalaria mediática.

    Filipe Alves, director do Diário de Notícias, sócio-gerente da Parágrafo Mágico e sócio da Atlas Extrovertido.

    Foi o que sucedeu hoje. A Agência Lusa correu a anunciar que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) considerara que o PÁGINA UM faltara ao rigor e ultrapassara os limites da liberdade de imprensa numa notícia sobre o indocível Filipe Alves, director do vetusto Diário de Notícias. O próprio DN publicou o “despacho, da agência, metendo uns ‘pozinhos de perlimpimpim’, com um título triunfal, apresentando a deliberação como uma vitória do bom nome, da reputação e, pelos vistos, da civilização ocidental contra este jornal bárbaro.

    Não constitui um pormenor irrelevante que a directora de Informação da Lusa, Luísa Meireles, acumule essas funções com a presidência da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, que não consegue disciplinar promiscuidades atrozes na imprensa lusitana.

    Esta acumulação pode ser legal, mas não deixa de ser extraordinária: a pessoa que dirige editorialmente a agência estatal que distribui notícias sobre processos contra jornalistas preside simultaneamente ao organismo que fiscaliza os deveres profissionais desses mesmos jornalistas. Espero agora que Luísa Meireles, como presidente da CCPJ, me abra um processo disciplinar para confirmar ou negar aquilo que a ERC me acusa e o jornalista da sua agência fez eco (sem me ouvir). Fico aqui sentado…

    Luísa Meireles, directora de informação da Lusa e presidente da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista. Foto: D.R.

    Também não é possível compreender esta súbita diligência da Lusa sem recordar o historial recente entre o PÁGINA UM e a ERC. Este jornal tem incomodado muito, confesso, o regulador. Ou melhor, os membros do Conselho Regulador: dois indicados pelo PSD, dois pelo PS e uma ‘sugerida’ pelo actual primeiro-ministro Luís Montenegro.

    Já noticiámos que o vice-presidente da ERC, Pedro Gonçalves, depois de ter exercido, em situação ilegal, a gerência de uma sociedade unipessoal de consultadoria, acumula docência em três universidades, deslocando-se em viatura e com motorista pagos pelo regulador.

    Noticiámos, na semana passada, que Rita Rola, vogal cooptada, foi uma escolha do actual primeiro-ministro, Luís Montenegro, e recebe 6.166 euros mensais, apesar de se deslocar habitualmente apenas uma vez por semana a Lisboa. E de avião.

    Pedro Gonçalves, vice-presidente da ERC. Foto: D.R,

    Além disso, o PÁGINA UM tem vencido sistematicamente todas as intimações — três, no total, estando uma quarta em análise — apresentadas no Tribunal Administrativo para obrigar a ERC a revelar documentação que vergonhosamente esconde, incluindo o uso das viaturas pelos seus dirigentes, os acordos parassociais entre a Global Media e a Notícias Ilimitadas, um regime de protecção da IURD à la carte e decisões de confidencialidade sobre empresas de comunicação social.

    Notem, portanto: dá imenso jeito à ERC que a ERC delibere que o PÁGINA UM é um jornal que não cumpre regras.

    A ironia seria deliciosa, se não fosse institucionalmente obscena. Um regulador que resiste à entrega de documentos administrativos, que protege as mais torpes comportamentos da imprensa (ainda há dias ‘institucionalizou’ o assalto a velhinhos com um lamentável acordo de pseudo-regulação com os canais televisivos para assaltar velhinhos em concursos telefónicos), vem com deliberações desta natureza apresentar-se como professor de liberdade de imprensa perante o jornal que o obriga judicialmente a ser transparente. É como encontrar um arrombador a dar uma conferência sobre a vantagem das fechaduras que ele próprio vende.

    Foto: Rita Rola, vogal da ERC ‘indicada’ por Luís Montenegro. Foto: D.R.

    Mas vejamos, em detalhe, o meu terrível delito. O PÁGINA UM escreveu que Filipe Alves, director do Diário de Notícias era sócio-gerente de uma empresa de comunicação social que estava “fora da lei”, isto é, em situação ilegal. Não escreveu que Filipe Alves era um fora-da-lei. Em português, não usamos o “to be or not to be”. Existe um verbo ser — e existe um verbo estar. Além disso, a ortografia deveria ajudar os membros da ERC, sobretudo se usassem a ortografia que deveria ser usada — a anterior ao famigerado AO90: fora-da-lei, com hífenes, designa uma pessoa colocada à margem da ordem jurídica; fora da lei, sem hífenes, descreve uma situação de desconformidade com uma obrigação legal. Isto é simples, mas os senhores membros de Conselho Regulador da ERC não sabem. Pobres jovens que são seus alunos…

    Ora, insista-se, o título usou a expressão “fora da lei”. E uma empresa que não cumpre uma obrigação declarativa encontra-se numa situação ilegal. Isso não transforma os seus sócios em salteadores de diligências, nem lhes coloca um cartaz de “procurado” à porta de casa.

    Ora, a notícia original do PÁGINA UM identificava duas sociedades ligadas a Filipe Alves e à sua mulher. Em relação à Parágrafo Mágico, afirmava, com base na consulta dos registos públicos, que não se encontravam depositadas as contas de 2024; em relação à Atlas Extrovertido, referia que as contas desse exercício tinham sido entregues. Isto são factos indesmentíveis, por mais cambalhotas e abusos de poder os senhores conselheiros da ERC cometam, sobretudo porque são factos públicos: qualquer pessoa pode consultar e confirmar as datas. Não há aqui alegados ou meio-alegados: são documentos públicos.

    Notícia do PÁGINA UM foi publicada em 26 de Dezembro de 2025 e a Parágrafo Mágico estava em situação ilegal por não ter entregado então as contas de 2024 (deveria ter feito até 15 de Julho desse ano). Só o fez dois dias depois da publicação do PÁGINA UM. Foto: Registos públicos.

    Mas, esta segunda-feira, a notícia distribuída pela agência noticiosa dirigida pela presidente da CCPJ e publicada pelo DN responde com um comprovativo de entrega e uma declaração de cessação de actividade datada de Março de 2023, mas não esclarece cabalmente se está a falar da empresa concreta e do exercício concreto que sustentaram o título. Pelo contrário, parece transformar duas sociedades diferentes numa conveniente névoa societária.

    Isto não é uma minudência. A Informação Empresarial Simplificada (IES) reúne obrigações fiscais, contabilísticas, estatísticas e de depósito das contas. A falta de prestação de contas não é um detalhe: a sua gravidade demonstra-se pelo facto de a falta de entrega durante dois anos consecutivos poder desencadear um procedimento administrativo de dissolução da sociedade. Isto mesmo é destacado pelo Instituto dos Registos e do Notariado [ver ponto 34] — portanto, não estamos perante uma excentricidade burocrática inventada pelo PÁGINA UM para atormentar um director de jornal. Estamos perante uma obrigação legal de transparência empresarial.

    A ERC até pode discordar da força do título — mas a ERC não foi criada pela Constituição da República para que os membros do seu Conselho Regulador tenham ‘estados de espírito’ sobre títulos. Pode achar a expressão dura, incómoda ou excessivamente impressiva. Aquilo que não pode fazer, sem se expor ao ridículo, é transformar uma divergência sobre linguagem jornalística numa espécie de excomunhão constitucional, sobretudo quando a própria notícia se baseou em registos oficiais, documentados e evidentes, e quando o PÁGINA UM até tentou auscultar a posição de Filipe Alves.

    Estas são, segundo o próprio IRN, as consequências legais da falta de depósito das contas, quando o incumprimento persiste durante dois anos. Apesar de os registos públicos mostrarem de forma inequívoca que, à data, Filipe Alves não depositara as contas da Parágrafo Mágico, a ERC prefere falar em “alegados incumprimentos de obrigações declarativas e contabilísticas”, sustentando que dos factos descritos na peça não resulta, de forma inequívoca, que a empresa se encontre “fora da lei”, porquanto “um incumprimento de obrigação declarativa não equivale necessariamente a uma situação de ilegalidade global da empresa”.

    Quanto ao Diário de Notícias, compreende-se o entusiasmo do seu director. Filipe Alves deve sentir-se ufano por usar o jornal que circunstancialmente dirige — e vende 700 exemplares por dia — para publicar uma notícia sobre uma queixa apresentada por si próprio, celebrando uma decisão favorável a si próprio e reproduzindo uma narrativa distribuída pela agência dirigida por quem preside à entidade disciplinar dos jornalistas. É uma admirável composição circular. Só faltava a ERC escrever o editorial e a CCPJ tratar da paginação.

    Amanhã, o PÁGINA UM publicará novos elementos sobre a situação financeira da Global Notícias, proprietária do Diário de Notícias, depois de ter colocado perguntas, há cerca de duas semanas, ao seu sócio de referência, Marco Galinha, bem como à empresa Páginas Civilizadas — a tal que chegou a pertencer ao famigerado fundo das Bahamas. Talvez a Lusa também se interesse. Talvez a ERC se preocupe com o rigor, a transparência e o interesse público quando o objecto de escrutínio não for um pequeno jornal independente, mas um grupo histórico com peso institucional, relações políticas e contas que continuam a exigir esclarecimentos. Ou não.

    Não estou, pessoalmente, surpreendido nem especialmente perturbado com esta deliberação da ERC. Sabemos que esta é uma batalha desigual, mas estamos preparados para enfrentar membros de um Conselho Regulador bem remunerados — e que se aproveitam de bens públicos para compor ainda mais os seus rendimentos —, agências financiadas pelo Estado e grupos de comunicação social habituados a conversar entre si.

    Deste lado está um jornal que, sendo pequeno, tem os seus trunfos: incomoda, pede documentos, faz perguntas inconvenientes e não solicita licença para investigar. Por isso, o episódio desta segunda-feira representa apenas a feliz conjugação de três apetites: a fome da ERC por disciplinar — e denegrir — quem a escrutina, a vontade do Diário de Notícias de descredibilizar quem lhe examina as contas e a disponibilidade da Lusa para servir o prato.

    Eis a fome e a vontade de comer. E, ao centro da mesa, o PÁGINA UM — que, para desgosto dos convivas, ainda não perdeu o apetite. E vai continuar a morder. Ai se vai…

  • CORPUS: quatro anos de luta pela transparência na saúde (agora) numa página da Internet

    CORPUS: quatro anos de luta pela transparência na saúde (agora) numa página da Internet


    Simbolicamente, quatro anos cabem, por vezes, numa única página da Internet. Quem olhar hoje para o CORPUS, um autêntico observatório de dados da saúde portuguesa ao longo de 25 anos, verá gráficos, mapas, inteligência artificial e mais de 38 milhões de registos hospitalares. Verá uma plataforma tecnológica, construída por programadores e alimentada por uma quantidade quase brutal de informação. Nenhuma linha de código explica, contudo, o CORPUS. Nenhum algoritmo conta a sua verdadeira história.

    A origem desta plataforma escreve-se antes em requerimentos, recusas, intimações, recursos, sentenças e numa batalha iniciada em 2022 contra uma Administração Pública demasiado habituada a tratar a informação pública como propriedade privada. Durante quatro anos, o PÁGINA UM enfrentou a resistência da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), venceu por três vezes nos tribunais — incluindo no Supremo Tribunal Administrativo, em Junho de 2023 — e só recebeu a totalidade dos dados em Novembro de 2025 quando a possibilidade de multas diárias aos gestores públicos tornou o incumprimento demasiado oneroso.

    dextrose hanging on stainless steel IV stand

    Quem agora entra no CORPUS encontra o resultado final. Não vê as horas gastas a redigir peças processuais, a desmontar argumentos, a responder a expedientes dilatórios e a insistir perante sucessivas tentativas de entregar informação incompleta. Também não vê o momento em que a desistência teria sido mais fácil, mais cómoda e, do ponto de vista financeiro, provavelmente mais sensata.

    Mas um jornal não se define apenas pelas notícias que publica. Define-se também pelas batalhas que aceita travar.

    O CORPUS representa, talvez melhor do que qualquer declaração de princípios, aquilo que o PÁGINA UM procura ser. Não um jornal que fala vagamente de transparência, mas um jornal que recorre aos tribunais para que esta se imponha. Não um jornal que se limita a denunciar a opacidade, mas um jornal que a combate até transformar aquilo que estava escondido numa ferramenta acessível aos cidadãos.

    Por isso, esta plataforma vale muito mais do que os milhões de registos que contém. Cada mapa representa uma parcela de informação recuperada. Cada gráfico encerra uma pequena derrota da opacidade. Cada pesquisa demonstra que a persistência pode converter um processo judicial iniciado quase no anonimato numa infra-estrutura inédita de conhecimento público.

    As potencialidades são imensas. O CORPUS permite observar a evolução da saúde dos portugueses ao longo de 25 anos, comparar hospitais, analisar diagnósticos, estudar taxas de mortalidade e construir relatórios a partir de perguntas colocadas em linguagem corrente. A inteligência artificial converte essas perguntas em consultas à base de dados, aproximando dos cidadãos uma informação que, mesmo quando formalmente pública, permanecia praticamente inacessível.

    Nada disto surgiu por acaso. Muito menos nasceu de um financiamento público generoso ou de uma estrutura empresarial com recursos ilimitados. O projecto avançou sem apoio do Estado e sem fundos comunitários, suportado pelo trabalho e pelos meios de um jornal independente que decidiu não esperar pela autorização de ninguém para cumprir a sua missão.

    Sede da ACSS. Foto: D.R.

    Na entrevista conduzida por Elisabete Tavares, que publicámos nesta sexta-feira, conto esse percurso, explico o funcionamento do CORPUS e mostro aquilo que esta plataforma já permite fazer. Mas a conversa interessa, sobretudo, porque ajuda a compreender que o CORPUS não nasceu de uma ideia tecnológica. Nasceu de uma recusa moral: a recusa de aceitar que a Administração Pública possa esconder dos cidadãos dados produzidos com dinheiro público.

    O futuro da plataforma depende agora dos utilizadores.

    Registar-se gratuitamente permite começar a explorar os dados, acompanhar os relatórios produzidos por outros utilizadores e perceber a dimensão do conhecimento que permanece por descobrir. A subscrição integral dá acesso às funcionalidades mais avançadas e ajuda a suportar os custos tecnológicos de um projecto que pretende continuar a incorporar novas bases de dados e novas ferramentas.

    Nenhuma plataforma vive apenas do mérito da ideia que lhe deu origem. Precisa de utilização, de curiosidade e de uma comunidade disposta a transformá-la numa ferramenta viva.

    Quatro anos ‘couberam’ numa página da Internet. As próximas batalhas também poderão começar assim: com um dado escondido, uma recusa administrativa e a decisão de não desistir.

  • Concursos telefónicos: ERC institucionaliza o ‘assalto aos velhinhos’ na TV

    Concursos telefónicos: ERC institucionaliza o ‘assalto aos velhinhos’ na TV


    A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) decidiu transformar em respeitável aquilo que, visto sem o verniz burocrático, não passa de uma exploração comercial da esperança. Os concursos televisivos de participação telefónica são jogos pagos em que o vencedor é escolhido, em regra, por sorteio.

    O telespectador não demonstra conhecimento, competência ou habilidade: telefona, paga e espera que a sorte o escolha. Pode chamar-se concurso, passatempo ou interactividade, mas social e economicamente, estamos perante uma forma de jogo de fortuna enxertada em programas generalistas. Os alvos são, por regra, os reformados.

    ‘Concursos’ são, na verdade, jogos de fortuna e azar, ganhando-se ou perdendo-se independente de qualquer habilidade. Foto: captura de ecrã.

    A própria ERC – que em 2015 considerava que estes concursos eram “acções enganosas” – reconhece agora, através do seu Conselho Regulador liderado por Helena Sousa, que estes concursos são transmitidos durante o dia para audiências compostas por crianças, idosos e pessoas vulneráveis; admite que os operadores televisivos obtêm receitas directamente dos valores pagos pelos participantes; identifica apelos promocionais insistentes; reconhece que os mecanismos técnicos não impedem eficazmente a participação de menores; e assinala o risco de condicionamento da vontade dos telespectadores.

    Depois de reconhecer tudo isto, que faz o regulador? Proíbe? Impõe uma separação clara entre conteúdos editoriais e exploração económica da audiência? Limita severamente a promoção? Exige mecanismos de auto-exclusão, auditorias independentes, transparência financeira e acompanhamento dos participantes compulsivos? Não. A ERC senta-se à mesa com RTP, SIC e TVI e assina um acordo que permite a continuação do regabofe, agora com sinalética, letras ligeiramente maiores e fórmulas de advertência destinadas a produzir uma aparência de responsabilidade.

    O acordo autoriza até seis participações diárias por concurso e por número telefónico. Mas nada impede que uma pessoa participe em vários concursos, utilize vários números ou repita este comportamento ao longo de semanas e meses. Para alguém economicamente fragilizado, seis chamadas por dia não são uma salvaguarda: são uma autorização institucional para continuar a gastar dinheiro na expectativa de uma recompensa improvável.

    Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social: Helena Sousa, Pedro Correia Gonçalves, Carla Martins, Telmo Gonçalves e Rita Rola. Foto: D.R.

    Ainda mais revelador é o regime de promoção. O acordo permite cinco períodos de convite à participação, com uma duração média máxima de seis minutos, por cada hora de programa. Em termos literais, podem ser trinta minutos de apelos numa hora. Metade de um programa pode, assim, ser ocupada por apresentadores a insistirem para que o público telefone, desde que, algures pelo meio, se diga que os menores não podem participar e que a decisão deve ser “responsável e informada”.

    É difícil imaginar melhor exemplo de hipocrisia regulatória. A televisão cria pressão emocional, exibe prémios, repete números, acelera contagens, sugere urgência e explora a ilusão de proximidade com os apresentadores. Depois, uma frase dita mecanicamente ou um texto corrido num oráculo transforma, por milagre administrativo, uma prática agressiva numa participação consciente.

    A maior fragilidade do acordo está, porém, no seu modelo de fiscalização. São os próprios operadores que elaboram os relatórios semestrais sobre o cumprimento das regras, cabendo à ERC produzir um relatório anual a partir desses elementos e de eventuais acções de monitorização. Não se exige uma auditoria externa permanente, não se estabelece a publicação do dados completos, não se cria um mecanismo independente para receber e analisar padrões de participação excessiva e não se prevê uma verdadeira sanção económica.

    Perante empresas de media ‘aflitas’ financeiramente, o regulador prefere que se ‘esmifrem’ os últimos centavos das reformas dos espectadores na esperança de ganharem prémios cujas atribuição é um mistério. Foto: PAV.

    O incumprimento reiterado pode apenas conduzir à exclusão do operador do acordo. Ou seja, uma televisão que viole repetidamente as regras pode deixar de pertencer ao instrumento que violou. Não há multas definidas, suspensão automática dos concursos, devolução de valores aos participantes ou responsabilização dos administradores. É uma ameaça sem dentes, dirigida a empresas que retiram destes formatos receitas relevantes.

    Também aqui a ERC revela as suas prioridades. O acordo invoca repetidamente a necessidade de conciliar a protecção dos telespectadores com o equilíbrio financeiro das televisões. Mas a missão de um regulador não é garantir a rentabilidade de modelos comerciais assentes na vulnerabilidade do público. A liberdade de programação não inclui um direito natural a converter idosos, desempregados, doentes ou pessoas em dificuldades económicas numa fonte de receita telefónica.

    Mais grave: os dados sobre receitas, peso dos concursos nas contas dos grupos e contribuição para o EBITDA surgem no anexo como elementos de disponibilização voluntária. A ERC aceita, portanto, regular uma actividade sem exigir transparência completa sobre o dinheiro que ela gera. Protege-se o negócio, mas não se esclarece plenamente a sociedade sobre a dimensão do negócio.

    Este acordo não acaba com os abusos nem impede a exploração da esperança. Apenas normaliza comportamentos eticamente questionáveis dos operadores televisivos. Não protege prioritariamente os vulneráveis, mas sim a continuidade financeira das televisões, permitindo-lhes manter concursos baseados em sorte, pagamento e insistência promocional.

    A ERC não foi criada para tolerar este tipo de modelos. Porém, está a dar-lhe cobertura institucional. E quando um regulador escolhe disciplinar cosmeticamente uma prática que deveria questionar na sua essência, deixa de ser um escudo dos cidadãos para se tornar uma espécie de notário do interesse económico dos grupos televisivos que andam asfixiados, mas que não devem ser salvos através de programas que servem para esmifrar os últimos tostões de uma reformada.

  • Estatística, o calor dos termómetros e a febre dos jornalistas

    Estatística, o calor dos termómetros e a febre dos jornalistas


    Uma sociedade que aprendeu a medir quase tudo continua, paradoxalmente, a interpretar mal muitos dos números que produz. Nunca dispusemos de tanta informação, de tantas bases de dados, de tantos indicadores e de tantos modelos estatísticos. Nunca foi tão fácil conhecer a realidade quase em tempo real. E, no entanto, nunca pareceu tão frequente confundir um número com uma conclusão ou um pico com uma tendência.

    A pretexto do que sucedeu neste mês de Julho com a tão falada onda de calor – que, supostamente, seria a pior de sempre –, vale a pena reflectir sobre um problema que ultrapassa largamente a Meteorologia: a forma como a comunicação social, as instituições e até alguns especialistas continuam a olhar para a Estatística.

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    Foto: John Fowler.

    Durante vários dias sucederam-se notícias sobre temperaturas extremas, avisos sucessivos, previsões de mortalidade e referências ao número de “ondas de calor” registadas este ano. Em muitos casos, transmitiu-se quase a ideia de que cada nova onda de calor corresponde inevitavelmente a um aumento significativo de mortes. Mas não corresponde. Nem do ponto de vista científico, nem do ponto de vista epidemiológico.

    Desde logo porque uma onda de calor é uma definição meteorológica, não uma definição epidemiológica, constituindo um fenómeno atmosférico caracterizado por determinados limiares de temperatura e duração face a uma média. Ora, isso não significa, por si só, que exista impacto relevante na mortalidade. Muito menos significa que esse impacto seja igual em qualquer altura do ano.

    Este ano já se fala em oito ondas de calor. O número impressiona, mas sobretudo porque surge sem contexto. Uma onda de calor em Fevereiro não possui o mesmo significado epidemiológico que uma onda de calor em Agosto. Pelo contrário. Num mês tipicamente frio, temperaturas anormalmente elevadas podem até reduzir alguns dos riscos associados ao Inverno: menos frio significa, frequentemente, menos stress fisiológico para os mais frágeis e, em consequência, menor probabilidade de mortalidade associada às baixas temperaturas. O conceito meteorológico mantém-se, embora o significado para a saúde pública se altere bastante.

    Estatística
    Foto: Luke Chesser.

    Mesmo durante o Verão – que, independentemente das ondas de calor é em Portugal, já há muitas décadas, a estação do ano de menor mortalidade absoluta –, falar apenas em “onda de calor” continua a ser insuficiente. O impacto depende da intensidade das temperaturas máximas, da persistência das temperaturas mínimas durante a noite, da duração do episódio, da humidade, da vulnerabilidade da população exposta e, sobretudo, das condições em que vivem os grupos mais frágeis.

    Muitas das mortes associadas ao calor não resultam da exposição directa ao exterior. O problema encontra-se quase sempre dentro de casas sobreaquecidas, de lares sem climatização adequada ou de hospitais onde as condições ambientais dificultam a recuperação de pessoas particularmente vulneráveis. O termómetro da rua conta apenas uma parte da história.

    Foi isso que procurámos analisar utilizando os dados diários da mortalidade em Portugal. Em vez de observar apenas os dias em que a mortalidade atingiu os valores mais elevados, decidimos colocar esses números dentro de um contexto temporal mais amplo.

    Com efeito, se analisarmos exclusivamente a primeira semana de Julho, encontramos, de facto, um aumento expressivo: entre os dias 1 e 7 registaram-se 2401 óbitos, cerca de 21,4% acima da média histórica para o mesmo período. Trata-se do segundo valor mais elevado da série analisada (2014-2026) e de um sinal que justifica atenção.

    Mas importa também recordar que o pico diário atingiu 396 mortes, valor ainda distante dos grandes episódios de calor extremo conhecidos em Portugal, nos quais os totais diários ultrapassaram largamente os 500 óbitos. Mesmo nesta análise restrita, a anomalia observada ficou um pouco abaixo do limiar utilizado para caracterizar um episódio estatisticamente excepcional.

    A questão decisiva, porém, é outra: será metodologicamente correcto transformar esses sete dias numa conclusão sobre todo o episódio?

    A resposta é não.

    Quando alargámos a análise ao período compreendido entre 1 de Junho e 12 de Julho, o cenário alterou-se de forma significativa. O excesso de mortalidade reduziu-se para apenas 5,8% relativamente à média histórica e deixou de representar uma anomalia invulgar. Mais ainda: o total observado em 2026 ficou abaixo dos registados em 2022, 2024 e 2025 para esta janela temporal.

    E quando ampliámos ainda mais a perspectiva, abrangendo três meses – ou os 91 dias compreendidos entre 13 de Abril e 12 de Julho –, o resultado praticamente estabilizou. O excesso relativo permaneceu próximo dos 5%, enquadrando-se na variabilidade histórica da série – sem contabilizar o factor envelhecimento – e voltando a situar-se abaixo de vários anos recentes. O aparente dramatismo da primeira semana diluiu-se quando passou a ser observado dentro do episódio completo.

    A Estatística ensina uma importante lição: a escolha da janela de observação pode alterar uma interpretação dos resultados. Quem selecciona apenas os dias de maior mortalidade encontrará, de forma inevitável, um quadro mais dramático. Quem observa o fenómeno na sua totalidade perceberá que um pico pode constituir apenas uma flutuação intensa mas transitória, sem que isso corresponda a uma perturbação excepcional da mortalidade global.

    Existe ainda outro aspecto frequentemente ignorado, mas que faz parte da vida e da Epidemiologia. Uma parte das mortes observadas durante episódios de calor pode corresponder ao chamado efeito de deslocação temporal da mortalidade.

    Em linguagem simples, algumas pessoas extremamente frágeis poderão morrer alguns dias antes do que morreriam na ausência desse episódio. Isto não diminui a importância do calor enquanto factor de risco, mas significa que contar todas as diferenças relativamente à média histórica como “mortes provocadas pelo calor” constitui uma simplificação que a evidência científica não permite sustentar.

    O problema, afinal, não está apenas na forma como comunicamos as ondas de calor, mas sim como se comunica a própria Estatística. Na imprensa, existe uma tendência crescente para procurar o número mais impressionante, o gráfico mais inclinado ou o período temporal mais dramático.

    E neste processo, o contexto desaparece, as comparações desaparecem e a incerteza desaparece. E permanecem apenas os números que melhor alimentam a narrativa.

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    Foto: Federico Respini

    Ora, uma sociedade estatisticamente madura não se constrói assim. Percebe que um número nunca fala sozinho; que uma média exige comparação; que um pico exige contexto; e que uma associação temporal não equivale de modo automático a uma relação causal.

    A boa Estatística raramente produz manchetes estrondosas. Prefere algo muito mais importante: conhecimento. E talvez seja disso que mais necessitamos quando a temperatura sobe — menos ansiedade produzida pelos números e mais inteligência na forma de os interpretar e de agir para evitar impactes negativos.

  • Burla nas escolas: ERC abre processo contra o PÁGINA UM por fazer jornalismo de investigação em caso sob suspeita no DIAP

    Burla nas escolas: ERC abre processo contra o PÁGINA UM por fazer jornalismo de investigação em caso sob suspeita no DIAP


    A regulação da comunicação social pode ser exercida de modo limpo, transparente e compatível com a liberdade de imprensa. Também pode seguir caminhos soezes, oblíquos, envernizados de juridiquês, em que deixa de proteger o jornalismo e passa a servir de bengala reputacional a quem foi apanhado por ele. Os cinco membros do Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social — Helena Sousa, Pedro Correia Gonçalves, Carla Martins, Telmo Gonçalves e Rita Rola — continuam a aproximar-se perigosamente da segunda categoria.

    O caso das burlas nas escolas, protagonizadas pela Advance Station e pela Associacão Internacional Lusófona para a Educação (AILE), é disso um exemplo tristemente paradigmático.

    ERC, um regulador a colocar os princípios do jornalismo no lixo. Foto: PAV.

    O PÁGINA UM investiga, desde Abril passado, a entrada de uma associação alegadamente sem fins lucrativos em escolas públicas, a recolha de dados de alunos, a posterior aproximação a encarregados de educação e a conversão desse circuito pseudo-pedagógico em negócio privado. Não se tratou de uma opinião lançada ao vento, nem de uma suspeita sem corpo: foram publicados documentos, testemunhos, perguntas, contactos tentados, reclamações e desenvolvimentos institucionais.

    Este trabalho persistente e meticuloso do PÁGINA UM teve efeitos. O Ministério da Educação interveio. As relações entre escolas e entidades envolvidas foram suspensas. A Direcção-Geral do Consumidor assumiu que as notícias mostravam “factos penalmente relevantes“. E, sobretudo, o Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) confirmou a abertura de uma investigação. A matéria saiu, pois, do plano de uma querela reputacional e entrou no domínio do interesse público qualificado e da apreciação por autoridades competentes.

    Perante isto, a ERC deveria ter feito o que qualquer regulador prudente faria se lhe fosse endereçada uma questão da empresa mais de um mês após o início da investigação jornalística: conter-se. E analisar previamente as informações antes de avançar com algum procedimento contra um órgão de comunicação social.

    Conselho Regulador da ERC: Helena Sousa, Pedro Correia Gonçalves, Carla Martins, Telmo Rodrigues e Rita Rola. Foto: D.R.

    Não para proteger o PÁGINA UM, mas para proteger a liberdade de imprensa, a separação de esferas institucionais e a própria seriedade da investigação em curso. Em vez disso, os cinco membros do Conselho Regulador promoveram o seguimento de uma queixa contra o PÁGINA UM por alegada falta de rigor informativo e por violação do direito ao bom nome e reputação construída sobre uma amputação deliberada da realidade.

    Mas note-se nos detalhes. A Advance Station queixou-se à ERC de sete artigos, mas a sua própria construção revela a fraude processual: a queixa entrou em 23 de Junho, pelo que apenas a peça de 24 de Maio poderia, em tese, estar dentro do prazo legal. As peças de 7, 11, 12, 13, 15 e 19 de Maio estavam já fora de prazo. Mais: a empresa até reconhece que existiram dez peças e que omitiu três por considerar ultrapassado o prazo, tentando, porém, conservar outras seis com o mesmo vício temporal. A ERC soube disto mas decidiu avançar com um processo antes de sequer averiguar o que estava em causa.

    Mas o ponto mais grave nem é a ginástica dos prazos. É a omissão selectiva. A empresa deixou de fora da queixa os artigos que mostram o início da investigação e a tentativa de contraditório. A primeira peça omitida referia reclamações de encarregados de educação no Portal da Queixa e na DECO, a entrada em escolas públicas por via de uma associação apresentada como sem fins lucrativos e um “aparente esquema de burla” envolvendo projectos educativos, recolha de dados e posterior actividade comercial dirigida a pais.

    Sem análise prévia, ERC dá guarida a uma queixa sobre jornalismo de investigação, alertando que “a falta de apresentação de oposição implica a confissão dos factos alegados pelo queixoso, com consequente proferimento de decisão sumária pelo conselho regulador, sem prévia realização de audiência de conciliação”.

    Mais decisivo ainda: essa primeira peça indicava expressamente que o PÁGINA UM tentou contactar o empresário da Advance Station, João Carlos Oliveira Dias, que é simultaneamente dirigente da AILE. É esta peça que a empresa omite e é esta peça que a ERC fingiu não existir para avançar com mais uma queixa e com mais uma deliberação sobre o PÁGINA UM.

    Tudo se conjuga para uma tentativa de instrumentalização – e nestas matérias já me deixei de ingenuidades. A empresa não respondeu quando foi questionada; depois, queixou-se de não ter sido ouvida, construindo uma narrativa de vitimização quando houve consequência do Ministério da Educação e do Ministério Público. E o regulador – que saliva quando alguém se queixa do PÁGINA UM –, em vez de travar a manobra, acolheu-a com a solenidade burocrática e persecutória de quem confunde papel timbrado com verdade.

    A ERC pode avaliar rigor. Porém, não pode é aceitar que uma empresa lhe sirva uma narrativa amputada para transformar uma investigação jornalística num processo disciplinar encapotado contra o jornal. Pode apreciar conteúdos. Contudo, não pode apagar o contexto. Pode regular. No entanto, jamais pode ser cúmplice útil de uma estratégia de intimidação.

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    A ERC acha que tem capacidade técnica para avaliar o rigor da investigação jornalística mesmo em casos revelados pela imprensa que resultaram em medidas políticas, administrativas e judiciais. Foto: D.R.

    A situação torna-se ainda mais preocupante pelo histórico recente da relação entre o PÁGINA UM e a ERC. Este jornal tem obrigado o Conselho Regulador a responder em tribunal, através de intimações administrativas, sobre matérias que a entidade preferiria manter longe da luz: actas, gestão, veículos, actividade regulatória, funcionamento interno.

    A ERC não gosta de ser escrutinada, e menos ainda os seus dirigentes que usam meios públicos para comporem o seu pé-de–meia usando a seu bel-prazer chauffeur e veículo do Estado. E, nos últimos meses, os seus membros têm mostrado uma disponibilidade inquietante para devolver ao PÁGINA UM, em actos regulatórios, o incómodo que o PÁGINA UM lhes causa em tribunal.

    Não se trata de paranóia. Trata-se de experiência. Quando um regulador que se sente incomodado por um jornal aceita uma queixa truncada de uma empresa sob investigação em curso – ainda na semana passada publicámos um novo capítulo –, omitindo artigos essenciais, ignorando tentativas de contacto e admitindo que peças caducadas reapareçam mascaradas de “narrativa acumulativa”, já não estamos apenas perante um procedimento administrativo. Estamos sim perante um problema democrático.

    Foto: D.R,

    Por isso, o PÁGINA UM não se limitou a responder à ERC. Divulga os exactos termos da sua pronúncia. Fá-lo por transparência e por prudência. Fá-lo porque sabe que, nas deliberações contra este jornal, a ERC tende a resumir, deturpar ou amputar a substância das respostas apresentadas, deixando para a deliberação uma ‘versão domesticada’ dos factos. Desta vez, os leitores verão o que o jornal disse, o que a empresa omitiu e terão assim os elementos para conferir o que regulador escolhe aceitar.

    A ERC nasceu para proteger a liberdade de imprensa. Quando se aproxima da função contrária — servindo, ainda que por acto próprio, quem pretende domesticar jornalismo incómodo — deixa de ser regulador e passa a ser parte do problema. No caso da burlas nas escolas, o problema é simples: uma empresa investigada quer lavar reputação usando o regulador; a ERC parece disposta a emprestar-lhe a bacia. O PÁGINA UM não lhe dará a água.

  • 306 euros, a ERC e os cinco magníficos patifes

    306 euros, a ERC e os cinco magníficos patifes


    Ontem, o PÁGINA UM gastou, ou pode mesmo dizer-se que desbaratou, 306 euros em custas judiciais para apresentar uma providência cautelar antecipatória, com pedido de decretamento provisório imediato e sem audição prévia, contra uma deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) para garantia urgente do direito de acesso jornalístico a um local público.

    Fizemo-lo sabendo que, perante a celeridade dos tribunais, as hipóteses de decisão útil antes de domingo eram reduzidas. Mas não havia alternativa: quando uma porta se fecha por acto administrativo reles de um regulador criado pela Constituição da República para defender a liberdade de imprensa, um jornal independente tem a obrigação de a tentar abrir em tribunal. Nem que seja para memória futura.

    Helena Sousa, Pedro Correia Gonçalves, Carla Martins, Telmo Gonçalves e Rita Rola: os cinco magníficos membros do Conselho Regulador da ERC. Foto: D.R.

    Mesmo que essa porta não se abra – porque uma coisa é a teoria das providências cautelares; outra a prática -, serve para demonstrar que a Justiça em Portugal anda a passo de caracol na época da digitalização e da inteligências artificial.

    Parece que estamos perante uma querela menor: uma acreditação para um festival no Meo Arena, mas hoje é isto e amanhã será outra coisa. Aliás, esta sexta-feira o jornal ECO queixou-se que um jornalista foi impedido de entrar no Ministério das Finanças como represália por uma notícia. E as três dezenas de intimações do PÁGINA UM em tribunal administrativo – contra entidades que vão desde Ministérios até à Procuradoria-Geral da República, passando pelo Conselho Superior da Magistratura – demonstram à saciedade o obscurantismo que tem trespassado Governos e Administração Pública.

    Na verdade, são mesmo os casos pequenos, aqueles que não dão parangonas nem causam escândalo, que revelam a qualidade democrática das instituições e de quem as dirige. Porque tendem a repetir-se indefinidamente até normalizar práticas ilegais. No caso em apreço, Helena Sousa, Pedro Correia Gonçalves, Carla Martins, Telmo Gonçalves e Rita Rola, enquanto membros do Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, decidiram nesta quinta-feira, ao final da tarde, que promotores privados podem escolher os jornalistas que façam a cobertura dos seus eventos, através de critérios que o Estatuto do Jornalista não prevê: especialização temática, regularidade da cobertura, secções editoriais ou apresentação de uma equipa de jornalista e fotógrafo.

    O Conselho Regulador da ERC está a deitar para o lixo os princípios que nortearam a sua criação: a defesa da liberdade de imprensa. Agora, interpretam como querem uma lei de 1999 aprovada pela Assembleia da República. Fonte: PAV.

    A ERC não é uma associação de promotores, nem uma agência de relações públicas dos grandes recintos. A sua existência está consagrada na Constituição para defender a liberdade de imprensa. Porém, o Conselho Regulador fez o contrário: pegou numa lei que admite condicionamentos de acesso apenas em circunstâncias excepcionais e que fixa prioridades objectivas quando os lugares são insuficientes, e aceitou que uma entidade privada acrescentasse requisitos que possibilitam a divisão de jornalistas entre desejáveis e incómodos em função da linha editorial. Ou de escreverem bem ou mal sobre os eventos e promotores.

    O formulário de acreditação da empresa em causa, a Prime Artists, é uma ‘pérola’: até solicita com antecedência que o jornalista candidato à acreditação liste o clipping que executou sobre o evento, ou seja, as notícias que escreveu sobre o evento antes de lhe ser concedido a acreditação. Ou seja, para a ERC, um direito legal passou a ser um concurso de afinidades editoriais ou de promoção de eventos. Convém acrescentar que um jornalista está proibido de publicitar eventos, mas para este Conselho Regulador, habituado a tanta promiscuidade, isso é um pormenor.

    Este não é um episódio solto deste Conselho Regulador que tomou posse em finais de 2023 e que está a causar danos irreversíveis na comunicação social por aquilo que faz e por aquilo que deixa fazer a quem lhe agrada. Só no mês passado, o PÁGINA UM apresentou duas intimações contra a ERC por recusas de acesso a documentos e mantém um terceiro litígio por inexecução de sentença favorável. Num dos casos, o Conselho Regulador defende que os jornalistas devem identificar previamente perante a entidade pública a que solicitam os documentos que investigação pretendem desenvolver.

    Para análise do pedido de acreditação, a Prime Artists exigia analisar as notícias prévias relacionadas com o evento. Essa prática constitui publicidade proibida pelo Estatuto do Jornalista. O PÁGINA UM recusa essa prática. A ERC acha que os promotores podem exigir isso e definir critérios sobre a linha editorial para concederem ou não acreditação.

    Mas desta vez o Conselho Regulador atingiu níveis inauditos de patifaria e de má-fé administrativa. O PÁGINA UM tinha alertado a presidente da ERC, Helena Sousa, no passado dia 4 de Março, há quase três meses, para a existência daqueles “critérios de elegibilidade” da Prime Artists, que considerava violadores do Estatuto do Jornalista.

    Havia tempo para avaliar o problema, ouvir as partes, promover audiência prévia e decidir de modo sério e eventualmente permitir uma impugnação judicial útil antes do evento. A decência entre as partes obriga a isso. Mas a ERC deixou intencionalmente o tempo correr e aprovou a deliberação ao final da tarde desta quinta-feira, para um festival marcado para domingo. Não preciso de conhecer as intenções dos cinco membros para perceber o efeito da escolha: reduzir quase a nada a possibilidade de uma reacção judicial efectiva.

    A providência do PÁGINA UM no Tribunal foi entregue esta sexta-feira de manhã e foi logo distribuída. Chama-se, por inteiro, “providência cautelar antecipatória, com pedido de decretamento provisório imediato e sem audição prévia, para garantia urgente do direito de acesso jornalístico”.

    Antes deste caso, duas recusas de acesso a actas do Conselho Regulador e de registos de uso dos veículos pelos seus membros levaram o PÁGINA UM a apresentar intimações no Tribunal Administrativo de Lisboa em Junho passado.

    Mas a urgência jurídica não coincide com a urgência do mundo real. Um concerto não espera por um despacho; um domingo não se adia; uma decisão na segunda-feira poderá ser irrepreensível na forma e inútil na substância. A ERC sabia que o tempo, e não a razão, lhe era favorável. E por isso cometeram a patifaria de, perante um assunto que lhe foi comunicado há três meses, deliberarem na tarde da véspera do derradeiro dia útil antes do evento.

    Aceito que aqueles cinco membros não apreciem o PÁGINA UM, as suas notícias, a sua insistência em pedir documentos e investigações. Não lhes peço simpatia. Exijo sim: respeito pela lei e pelos direitos dos jornalistas, incluindo os jornalistas que lhes desagradam. A neutralidade institucional não consiste em gostar de todos; consiste em impedir que o gosto de quem decide se transforme num critério de deliberação na esfera pública.

    O dano, por isso, não se limita ao PÁGINA UM. A partir desta deliberação, qualquer promotor, clube desportivo, organizador de conferências ou entidade com meia dúzia de lugares para a comunicação social pode criar “critérios de elegibilidade” à medida da conveniência. Um jornal que incomoda uma direcção pode passar a ser pouco especializado; um repórter que investigou demais pode subitamente não ter cobertura regular; uma redacção sem fotógrafo pode ser declarada incompleta. A censura moderna raramente precisa de proibir. Basta criar um formulário, chamar-lhe transparência e permitir que a arbitrariedade se disfarce de organização.

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    Foto: Tingey Injury Law Firm

    A palavra “patifes” não é aqui um insulto por causa de uma decisão desfavorável. Seria excesso se estivéssemos perante uma divergência jurídica leal, decidida a tempo, com contraditório no âmbito de uma audiência prévia prevista no Código do Procedimento Administrativo e verdadeira possibilidade de escrutínio judicial. Não estamos. Estamos perante uma decisão tomada depois de quatro meses de silêncio, na véspera de um evento, por uma entidade cuja missão inclui proteger a liberdade de imprensa, sabendo que, dessa forma, a defesa do direito fica quase esvaziada.

    Quando uma entidade desta natureza se comporta como adversária do jornalismo que deveria proteger, dizer que o seu comprtamento me causa asco é usar um eufemismo. O perigo maior, na verdade, nem está neste concerto de domingo: tenho está já uma melhor alternativa, a cantora tunisiano Emel Mathlouthi, no Capitólio, para o qual recebi acreditação em tempo recorde. Está na regra que pode sobreviver a segunda-feira: a de que o acesso de um jornalista deixa de depender da lei e passa a depender da boa disposição de quem tem interesse em não ser observado.

  • A parolice do ano: o jornal ECO premiou o CEO da Impresa como Gestor do Ano

    A parolice do ano: o jornal ECO premiou o CEO da Impresa como Gestor do Ano


    A crise da imprensa não é apenas uma crise de receitas, nem sequer começa por sê-lo. Antes de chegar às contas, aos despedimentos, às audiências, aos subsídios, às parcerias, aos patrocínios e aos expedientes de sobrevivência, começa por uma coisa mais simples e mais grave: uma crise de exigência.

    Exigência perante o jornalismo, que deixou demasiadas vezes de se medir pela independência, pela investigação e pela capacidade de incomodar, para passar a medir-se pela docilidade, pela circulação nos salões certos e pela facilidade com que se confunde proximidade com relevância.

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    Foto: Glenn Carstens-Peters

    Mas também exigência perante a gestão das empresas de media, onde se foi aceitando como normal aquilo que em qualquer outro sector seria visto como sinal de falência estratégica: negócios cronicamente endividados, redacções emagrecidas, produtos editoriais desvalorizados, dependência crescente do Estado, promiscuidade com marcas, fóruns, conferências, patrocínios e parcerias que transformam o jornalismo numa extensão cerimonial do mercado e do poder.

    Nesse contexto, a atribuição pelo jornal ECO do prémio de Gestor do Ano a Francisco Pedro Balsemão, CEO da Impresa desde 2016, é mais do que discutível: é, a todos os títulos, absurda.

    Não porque a Impresa não tenha melhorado alguns indicadores em 2025. Melhorou, mas teria sido difícil igualar os 64 milhões de prejuízos de 2024.

    Regressou, é certo, a um lucro, mas simbólico, com uma reducão ligeira da dívida (quatro milhões de euros, que representou um de acréscimo de apenas 3.1%) e aumentou o EBITDA recorrente em cerca de 3,7 milhões de euros.

    Leitão Amaro: nada melhor do que festejar a imprensa portuguesa com a presença do membro do Governo que ‘tutela’ a comunicação social… Foto: captura de ecrã de noticiário da SIC.

    Mas distinguir como gestor do ano o responsável executivo de uma empresa que, ao fim de quase uma década de liderança, apresenta receitas estagnadas, dívida remunerada líquida de 126,9 milhões de euros e resultados financeiros negativos de 11,1 milhões é transformar a fasquia da excelência numa linha pintada no chão.

    A Impresa não é uma história de gestão exemplar; é uma história de sobrevivência condicionada. O lucro de 1,2 milhões de euros em 2025, apresentado como regresso triunfal, representa menos de 1% das receitas.

    A dívida continua a comer uma parte substancial da capacidade operacional do grupo. O balanço permanece pesado. O goodwill (que é ‘fumo’ para mais tarde dar origem a imparidades) pesa mais do dobro do capital próprio. E a própria continuidade das operações é justificada, nas contas, com referência a cash-flow esperado, plafonds de crédito, linhas renováveis e aumento de capital posterior.

    O Gestor do Ano do Eco a falar para a sua própria televisão… Foto: captura de ecrã de noticiário da SIC.

    Isto não parece nada o retrato de um capitão de indústria a abrir mares novos; é mais a imagem de alguém a manter o navio à tona depois de o ter deixado navegar demasiados anos com água no porão.

    Na verdade, a Impresa só não foi ainda ao fundo porque acabará por ser adquirida pela MFE, a multinacional italiana controlada pela família Berlusconi.

    O aspecto mais grotesco do prémio atribuído pelo ECO, porém, não está apenas nas contas. Está na perda completa da noção do ridículo. Um jornal económico atribuir o prémio de Gestor do Ano ao líder de um grupo de media familiar, estruturalmente endividado, com receitas praticamente paradas e resultados líquidos anémicos, diz muito sobre o estado do jornalismo económico em Portugal.

    A exigência desapareceu até dos prémios. Já não se distingue a criação de valor; distingue-se a resistência ao colapso. Já não se celebra a excelência; celebra-se o facto de a empresa ainda respirar.

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    Foto: Nijwam Swargiary

    E talvez seja esse o retrato mais cruel da imprensa portuguesa: um sector que pede confiança aos leitores enquanto se habituou a viver de expedientes; que proclama independência enquanto se aproxima demasiado do Estado (o ministro Leitão Amaro esteve na entrega do prémio a botar faladura), das grandes empresas e dos seus próprios pares; que se queixa da crise do jornalismo enquanto aceita transformar o jornalismo numa mercadoria de prestígio para vender em conferências, rankings, prémios e jantares.

    Quando a exigência desce ao ponto de fazer de Francisco Pedro Balsemão o Gestor do Ano, o problema já não é apenas da Impresa. É do próprio jornalismo que aplaude.