Houve um momento recente na televisão portuguesa que, mais do que um erro ou uma infelicidade verbal, funcionou como uma espécie de revelação involuntária, um desses instantes que vão sendo menos raros em que o dispositivo mediático deixa de simular consciência e expõe, com uma clareza quase indecente, a sua própria mecânica interna.
Só não percebe quem não quer, nesta fase acelerada do campeonato. Mas talvez falemos de um campeonato pertencente a uma modalidade que ainda não tem nome.
Como se, por um segundo, a tinta que faz de sangue escorregasse pelo monitor abaixo e o público pudesse ver abertamente a forma como aquilo é produzido, acelerado e empurrado para fora do próprio objecto antes de existir verdadeiramente como pensamento, embatendo de frente com a própria realidade.
Pensamento que a própria apresentadora de televisão em questão diz não ter quando actua em directo. E ela representa o todo e (não) sabe do que fala.
Durante uma emissão de um programa da manhã da TVI, conduzido pela inefável Cristina Ferreira, discutia-se um caso de violação, desses que entram na televisão já com uma carga dramática preparada para consumo, em que o sofrimento real de alguém é traduzido em narrativa televisiva, com especialistas em estúdio, opiniões calibradas e aquela tensão ligeiramente artificial que mantém o espectador, certamente mais velho, preso entre o desconforto e a curiosidade.
Foi nesse cenário que surgiu a pergunta, formulada em directo a uma psicóloga, num registo que procurava aparentemente explorar o ponto de vista do agressor, num caso de abuso sexual colectivo por parte de quatro jovens a uma adolescente, insinuando-se que, no meio da excitação, alguém ouvir um “não” pode não ser fácil, como se a própria linguagem pudesse ser momentaneamente suspensa por um estado de tensão sexual.

Saberá a apresentadora do que fala?
É evidente que a pergunta trazia água no bico televisivo. Há uma percepção pública de que já usara várias vezes a expressão “pôs-se a jeito” para justificar vários actos violentos praticados por homens noutras situações. Não o posso confirmar. Mas, depois de ouvir comentadores de outros programas do género, fica-se com essa ideia.
Mas aqui pôs-se ela a jeito, mesmo não dizendo a famosa frase.
Neste caso, a pergunta, que a própria apresentadora viria depois a enquadrar, foi disparada como uma tentativa de “perceber a cabeça de um violador”.
Mas não caiu apenas mal por ser uma formulação infeliz; tratou-se de uma deslocação do eixo moral da conversa, um desvio subtil que retira centralidade à vítima para a transferir para um exercício especulativo que, mesmo quando se pretende analítico, acaba por reproduzir aquilo que diz querer desmontar.
Aqui, a própria ideia de uma conversa mais pedagógica, como seria normal manter com especialistas da área, sofreu uma alteração. Só que alguém reparou e, como a apresentadora já era um alvo a abater, lá veio o alimento para a fauna digital se manter ocupada.
Nenhuma das pessoas no estúdio reagiu negativamente à pergunta. Mas também é verdade que, nestes directos, banaliza-se a violência com prémios e telefonemas pelo meio das conversas tidas por especialistas entre psicólogos e criminólogos.

A própria psicóloga a quem a pergunta foi feita respondeu não denunciando a pergunta nem saindo do enquadramento, mas, depois da polémica, veio justificar-se noutros meios.
Tudo num contexto em que a televisão parece não pensar, apenas fala, e fala depressa, e fala sempre, porque o silêncio, nesse ecossistema, é visto como uma falha técnica, como morte, e não como uma possibilidade ética.
E o que se seguiu foi a previsível, mas reveladora, coreografia da indignação contemporânea.
A frase naturalmente circulou, amplificada pelas redes, destacada do contexto e, ao mesmo tempo, intensificada por ele, gerando milhares de reacções, críticas duras, acusações de banalização da violência sexual, leituras que apontavam para uma forma de culpabilização implícita da vítima.
Falou-se de machismo mais uma vez, como o refrão que, de tanto ser cantado, já perdeu o drama.
Segundo vários comentadores, ainda que sem consenso, a própria empresária tem vindo, há já algum tempo, a expor-se de forma recorrente, pelo que, a manter-se esta trajectória, coloca-se a jeito de ser seriamente canabalizada no espaço público.
Faz parte. A violência psicológica a que estas pessoas da televisão se sujeitam também é enorme. Por entre fotos em biquíni, resorts, dietas e Photoshop, vivem grandes neuroses e depressões. Tudo tem um preço.

A tragédia anunciada da estrela normalmente dá sumo para outros programas, mesmo que seja apenas especulativo. As televisões vivem disso. Mas mesmo que vá funcionando de forma autofágica, alguma coisa estará a mudar.
Do seu lado também surgiram defesas assentes na ideia de que perguntar não é o mesmo que afirmar, de que tentar compreender não implica justificar, como se a linguagem pudesse ser separada daquilo que produz, como se certas perguntas não transportassem já em si um mundo inteiro de pressupostos.
Nas redes, toda a gente, de um momento para o outro, se tornou especialista em retórica.
Mas a verdade é que pouca gente sabe efectivamente falar de retórica. Muito menos de retórica televisiva discutida na própria televisão. O problema está nesse “na própria televisão”.
O espelho a partir-se por auto-sugestão é estranho e pouco viável, mesmo num mundo que começa a sucumbir às suas fissuras.
A reacção de Cristina Ferreira, consolidada numa entrevista posterior ao Jornal Nacional, seguiu um padrão que a televisão conhece bem e executa com eficácia quase industrial: não houve um pedido de desculpas directo, mas um lamento pelas palavras escolhidas, uma tentativa de recentrar a questão na intenção e não no efeito.
Como se o problema residisse na interpretação pública e não naquilo que foi dito, como se a linguagem pudesse ser corrigida a posteriori sem que o gesto inicial perdesse a sua densidade e, ao mesmo tempo, uma ligeira deslocação da responsabilidade para o ambiente mediático, para os comentadores, para a velocidade com que tudo é julgado, esquecendo convenientemente que esse mesmo ambiente é o que sustenta e amplifica a sua própria presença.

Imagino a vítima que na altura do crime tinha dezasseis anos, em casa a ver este espectáculo, sobre uma passadeira vermelha cheia de nódoas ensanguentadas em que a vítima já não era ela.
Mas o mais interessante, e também o mais desconfortável, não está na pergunta nem na reacção explosiva, anunciada e expectável, mas no que ambas revelam sobre a lógica mais profunda da televisão contemporânea, essa maquinaria que vive de um equilíbrio instável entre a espontaneidade encenada e a provocação calculada.
Aqui, o pensamento em voz alta é incentivado como técnica de retenção de audiência, e a figura central, neste caso uma apresentadora que é simultaneamente rosto, marca, poder interno e produto, transforma-se inevitavelmente num ponto de convergência absoluto nesta neurose hodierna em que a realidade parece ser uma nota de rodapé.
Portanto nada de novo na frente ocidental.
Isto nunca foi um desvio atípico, sempre foi o funcionamento normal. Durante anos este funcionamento operou sob a ilusão de mediação; agora, sem filtro nem intervalo, o sistema limita-se a expor-se, revelando que falar nunca foi consequência do pensamento, mas o seu substituto desde o início.
Foi só mais um caso em que alguém não apenas conduz a conversa, mas a ocupa, moldando-a e, em momentos como este, deslocando-a para si própria.
O habitual narcisismo, tanto pessoal como industrial, em estado bruto, para que tudo aparentemente fique na mesma, num suposto pacto com o tempo que tudo apaga.
E falar de narcisismo aqui não é um insulto fácil, é quase uma descrição funcional: a televisão constrói e necessita de figuras que operam a partir de um centro contínuo, que falam com a convicção de que o mundo pode ser reorganizado através da sua enunciação.
Os resultados estão à vista.

Confundem, por força do próprio sistema, o acto de pensar com o acto de dizer e, ao longo do tempo, passam a habitar um espaço onde tudo o que é dito ganha automaticamente estatuto de acontecimento, independentemente da sua consistência, da sua prudência ou da sua responsabilidade.
Nada está perdido, simplesmente porque sempre assim foi. Agora está é o truque a ficar mais evidente. O comboio a alta velocidade está rapidamente a chegar a algum lado, mas parece não saber onde estão os freios.
Nesse sentido, a pergunta que gerou a polémica não é um acidente isolado, mas um sintoma, uma pequena falha que permite ver o todo: um meio que valoriza a velocidade sobre a reflexão e até a intensidade sobre a precisão, transformando qualquer deslize num ciclo produtivo, onde o “erro” inicial gera indignação, a indignação gera atenção, a atenção gera mais conteúdo, e o sistema, longe de ser ameaçado, pensa que sai reforçado, como um organismo que se alimenta das suas próprias disfunções.
Mas talvez já não seja bem assim.
O poder da televisão já não está na televisão. Estes actores, em estado pré ou mesmo neurótico, e cada vez menos sinuosos, feitos de Cláudios, Cristinas e até os aparentemente mais credíveis como o pivot do telejornal que a entrevistou, José Alberto Carvalho, (que ainda vai passando impune), fizeram apenas o seu “trabalho” ajustado à política do canal que defendeu a apresentadora.
Estes protagonistas já têm mais ar de vítimas que de carrascos frios de outrora, disfarçados de salvadores moralistas.
O jornalismo televisivo e não só, já há muito foi capturado para outro campeonato mais abstracto.
Com isto tudo, não fica apenas a memória de uma frase infeliz, mas a percepção de um mecanismo mais vasto, em que a televisão não se limita a mostrar o mundo, mas também já não o reconfigura constantemente à imagem da sua própria natureza.
Já perdeu essa faculdade.
É a vida feita de chuva televisiva que cada vez molha mais e há quem comece a perceber a construção e a sair, paulatinamente, dos seus armários.
Texto e ilustrações de Ruy Otero (artista media)







































