Categoria: Crónica

  • Ciclones de mudança

    Ciclones de mudança


    RAZÕES DE QUEIXA I Quando viajo, viajo ao encontro de realidades, busco factos, para além das evidências. Se possível, como fiz no Brasil, Rússia ou Zimbábue, entro no submundo (um dia conto). Vejo Portugal dividido e não vejo nada de novo, nem do que vivi e vivo, nem do que reza a História (que tem várias versões e tonalidades políticas).

    Antes de haver combates, combatentes e razões de queixa (por regra fruto da desigualdade social, que leva à justa luta de classes) já havia uma disputa pela posse desta terra e dos seus recursos. O problema não está, pois, na falta de riquezas, mas sim na sua repartição. O avarento é avarento porque acha que pode não chegar. Podemos ser avarentos nos afectos. Ou cobradores de amor. Volto à dicotomia.

    Os partidos existem porque há diferentes formas de ver. Por vezes, parecem farinha do mesmo saco, ou apenas ocupados de tomar as rédeas ao poder e satisfazer as suas necessidades. A própria palavra partido traz fractura. O que faz falta em qualquer Estado, Nação ou país, em qualquer lugar, é haver bases sólidas (Educação, Saúde, Habitação e Justiça para quem envereda por maus caminhos) e pensamento e acção flexível.

    Enquanto houver competição não haverá cooperação. Vale na sanha desportiva. Os cínicos vão dizer que é preciso haver o mal para se valorizar o bem. Depois, há um outro elemento: a ambição. Nada contra querer ser excelente, excepcional e bem haja aos génios, aos que se ocupam de um mundo melhor. Tal como bem haja a quem queira trabalhar. Depois ainda, parece-me óbvio que quem é mais dotado ganhe mais, e falo de remuneração. Sem distinção de sexos.

    Não somos todos iguais e quem é melhor, e faz por isso, merece o melhor. Meritocracia. Quanto aos subsídios, fazem parte das leis de mercado, e quem descontou cem não pode querer receber 1000. Agora, subvenções vitalícias, e a dobrar, quando se acumulam cargos, ou viver promiscuamente a vida política com um olho na burra e outro na comissão… é usar de retroactivos e exigir o reembolso, tal como faz o fisco por dívidas de um cêntimo.

    Isto de mudar e mudanças começa aqui dentro. Se tivesse andado a vida toda a culpar a, b ou x, sem escutar, ver e tentar perceber o porquê de negligências, maus tratos, abandonos e toda a espécie de traumas, não seria capaz de estar neste momento nas Bahamas a gozar a minha pré-reforma, fruto de ter começado a descontar cedo e ter feito uma fortuna no meu ofício de viver.

    MUDÁSTI I O sopro de mudança neste velho burgo dá pelo nome Chega e sibila das bochechas de um colérico AV. É uma velha táctica de propaganda, virar o povo contra as élites. Afinal, o povo é quem mais ordena e mete na urna, no chão raso da democracia. O povo não é sagrado e governar requer saber tecer como os aracnídeos. AV adopta em público um estilo carrosseiro, um misto de Cantinflas e rufia, mas em privado (juro, pois vi) é um amor de miúdo. Até sussurra ao ouvido das peixeiras que lhe ensinaram os vibratos.

    Quanto aos outros (partidos), tirando quem anda às cavalitas, montado e ao colo dos suspeitos do costume – os militantes, simpatizantes e beneficiados de um qualquer assento ou fundo -, são todos muito semelhantes: todos se desresponsabilizam das repetidas falhas no sistema que os amamenta.

    Portugal merecia melhor do que uma agremiação de imundos para contrariar a sujidade (o pântano estagnado) de quem atacam. Um partido sem partes gagas cujo grande líder fosse uma espécie de Mahatma, uma Alma Grande, e não um agressor, fractal, fracturante, que uma vez empossado tudo fará por atirar o povo ao rio ou pô-lo a marchar.

    O “sucesso” do Chega e seus apaniguados deve-se à promessa de asseio num país conspurcado. A ideia de povo no Chega é selectiva. Os cheganos perfilham o sangue puro lusitano. O resto é choldra. Será difícil achar um exemplar que seja descendente directo de Viriato ou dos tomates de Afonso I em qualquer província do reino. De brutos, fatelas e enfartados estão bem servidos. A acção directa é necessária quando estão em risco as liberdades essenciais, a começar pela de expressão.

    O Chega pratica-a e quer varrer o país de chupistas e opositores do bem. De malandros e indigentes. De cafres e maometanos ou de olhos em bico e instalar um núcleo de sicofantas para fazer a limpeza e o teste do algodão. Quer a morte ou a prisão perpétua de comunistas, ciganos e sefarditas. A castração está no seu programa de castrati. Tem elementos habilitados para executar o seu programa de selecção natural, basta ver onde foram recrutados e os seus cadastros. É um partido do ódio e do ressentimento. De mal amados, ressabiados e amantes rudimentares. O seu grande amor é a tomada do poder e o extermínio implacável. São inimigos da sociedade aberta e fiéis acólitos do grande capital.

    MUDANÇAS I Quando se analisa o pós e o antes 25 de Abril uma coisa é certa: pior não estamos. Pelo simples facto de haver uma certa liberdade. Os partidos que governam Portugal desde então sofrem do problema de todos os partidos: o vício de certos militantes dirigentes meterem a mão, cravarem a unha e fazerem a repartição irmamente.

    Há gente de valor em quase todos os quadrantes, da direita à esquerda, pese embora o facto de não bastar parecer, há que ser e agir em conformidade. A reacção do “povo” às falcatruas é o resultado de um misto de revolta e desejo secreto de estar em posição de fazer o mesmo. A minha questão pessoal com partidos, não só a agremiação Chega, é o que os move, à vista do que se vai vendo. Lendo é preciso beber da fonte segura. Usar o crivo e a peneira.

    P.S. Numa frente de batalha todos são crentes, não há ateus nem agnósticos.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista

  • Real Milagre 4.2

    Real Milagre 4.2


    Sou do Benfica desde que me conheço. Nasci no final dos gloriosos anos 60, quando o clube ainda vivia da memória quente de cinco finais europeias em dez anos e de duas taças conquistadas. Nunca vi Eusébio jogar, nem Coluna, nem outras Águias míticas que povoam a iconografia da eternidade benfiquista.

    A minha infância foi outra, mais modesta e, talvez por isso, mais resistente. Cresci com Bento na baliza, Nené a rasgar defesas, Humberto Coelho a impor respeito, depois Carlos Manuel e Diamantino, Shéu o desafortunado Veloso e tantos outros que ainda me deram esperança nos anos 80, quando já andava pela Universidade, em Évora, a aprender que a vida raramente cumpre o que promete.

    Não sei se chorei nas derrotas das finais de 1988 e 1990, contra PSV e Milan. Sei que doeram. Depois veio o deserto dos anos 90, uma travessia longa e ingrata, algum rejuvenescimento nas últimas décadas, mas na Europa tudo parece definitivamente fora de alcance. Não acredito já que, na minha vida, veja o Benfica campeão europeu. Vivo bem com isso. Há amores que sobrevivem à renúncia. Olho para o Benfica como para aquele amante que nunca conseguimos deixar, mesmo quando há muito deixou de nos animar.

    Desde que comecei a escrevinhar esta crónica da Varanda da Luz — já lá vão três temporadas, curiosamente depois de uma crónica avulsa escrita na última vitória no campeonato de 2022/2023 — tenho somado desilusões. Ainda assim, continuo a apreciar esta tarefa de escrita, talvez por ser a forma mais elegante de suportar a frustração.

    Desta Varanda da Luz, cada vez mais íngreme, por vezes um verdadeiro calvário, já vi de tudo: sandes indescritíveis (embora tenham melhorado), golos esquisitos, jogadas exasperantes, jogos empolgantes e outros desesperantes — estes rimam melhor com a história recente.

    Cruzei-me com a águia Vitória, ou a Glória, ou ambas, e parece até que há uma terceira. Vi de tudo. Mas confesso que nesta época já me tinha frustrado tanto — quatro empates na Luz para o campeonato e duas derrotas caseiras na Liga dos Campeões, frente ao Qarabag e ao Bayer Leverkusen — que comecei a arrastar-me para o Estádio mais por dever do que por entusiasmo. Até a vitória por 4–0 contra o Estrela da Amadora, na passada semana, me soube a pouco; tão insípida que, pela primeira vez, salvo erro, assisti a um jogo sem escrever uma linha. Apeteceu-me meter férias na crónica.

    Ainda assim, com chuva irritante, lá me predispus a subir a Colina Sagrada, sem saber bem se iria assistir a mais um desastre do Benfica ou a um Real Madrid que já viu melhores dias. Caminhei para o meu poiso da Varanda da Luz — para uma zona mais lateral, como habitualmente sucede em noites europeias, recordando jogos contra o Barcelona de má memória. Atrasado, como já é epicamente reconhecido, subia a escadaria quando o relógio marcava o minuto 30. Nesse exacto instante, Mbappé fazia o primeiro golo do Real Madrid.

    Molhado, resignado, subi para o meu posto. Meti a sandes à boca — esta não era má de todo, tinha mesmo carne — e preparei-me para deglutir uma derrota anunciada. Mas não. O Benfica empatou logo a seguir por Schjelderup. Depois, um penálti caído do céu antes do intervalo: golo do incontornável PAVlidis. Chegámos ao descanso com um improvável 2–1.

    Sentiu-se na bancada que a honra do convento — ou da Catedral — ainda podia ser salva, mesmo sem grande esperança em milagres de passagem para a fase seguinte. Com três vitórias — as únicas, a seguir às de Ajax e Nápoles — só uma conjugação quase absurda de resultados permitiria seguir em frente.

    Poucos minutos após o recomeço, o 3–1. Logo a seguir, o Real reduz. Lembrei-me imediatamente daquele jogo com o Barcelona: a ilusão de uma noite gloriosa que acaba sempre em naufrágio. Enganei-me. O Benfica segurou a bola, jogava sem receios do adversário, enquanto eu fazia contas no telemóvel, à espera que a Juventus marcasse ao Mónaco e que o Atlético de Madrid, pelo menos, empatasse com os noruegueses cujo nome nunca sei pronunciar – Bodo, ou qualquer coisa do género. Nada. O tempo passava. O minuto 90 aproximava-se – e chegou. Os outros jogos iam fechando, um a um. Até o Sporting ajudava, vencendo o Athletic Bilbao, mas de pouco valia.

    Pela táctica, parecia que o Benfica se contentava com o resultado. Entrou António Silva para reforçar a defesa. Mas então foram expulsos dois jogadores do Real por acumulação de amarelos. E ouviu-se, difuso, mas insistente, um murmúrio que cresceu: “só mais um”. Talvez, nesse instante, alguém no banco de Mourinho se tenha apercebido de que bastava afinal só mais um golo para que o impossível se tornasse real. Mas os descontos eram apenas cinco em minutos.

    E então, faz-se cinema:  Aursnes é travado no lado direito do ataque, já no último terço. Mourinho manda Trubin subir, como ponta-de-lança em desespero, à moda antiga, daqueles que, falhada a investida, condena a equipa num contra-ataque fatal do adversário. O argumento era outro. Livre. Centro de Aursnes. A bola sobe, sobrevoa a área e… golo. Trubin! Cabeça de guarda-redes.

    Desde essa noite, tenho revisto em looping a cabeçada de Trubin – e até já meti uma cunha para ver se, passados alguns meses, ficando o ucraniano em paz, lhe saco uns rabiscos para valorizar a minha acreditação, aqui bem guardada. E que jamais venderei – aviso já. Um dia, acredito, quando se perguntar onde se estava a 28 de Janeiro de 2026, haverá cerca de 60 mil pessoas que dirão, com orgulho simples e inabalável: no Estádio da Luz. Eu fui um deles. Um dos que assistiu a um milagre.

    E sim, digo-o sem pudor nem heresia: este milagre vale, para mim, mais do que um campeonato europeu, porque esse, quando chega para adeptos de certas equipas, já vem anunciado. Ora, uma vitória como esta, com esta passagem, não. Caiu do céu, por intervenção divina – e nem foi com a mão de um génio argentino: foi com a cabeça de um ucraniano improvável.

  • Votar Ventura é votar num democrata (e é por isso que devemos ter cuidado)

    Votar Ventura é votar num democrata (e é por isso que devemos ter cuidado)


    Agora que já captei a atenção do leitor com o título, vamos então ao que está em causa: o apelo do antigo líder do PS, António José Seguro, “a todos os democratas”, para se juntarem à sua candidatura presidencial e derrotarem, na segunda volta, “o extremismo e o ódio” de André Ventura, líder do Chega.

    Este ódio extremo ao extremismo mereceria uma leitura académica, mas mesmo tratando-se de um apelo politicamente natural por ser emocionalmente tentador, não deixa de ter os riscos estratégicos associados ao conteúdo. É que, meus senhores, Ventura está no boletim por via regular, pelo que chamar “democratas” apenas aos votantes de um lado é insinuar que uma parte do país vota fora da democracia.

    Boletim de voto referente à segunda volta das eleições presidenciais difundida pela Comissão Nacional de Eleições.

    Ora, o apelo é uma daquelas coisas que fica bem nas conversas entre amigos, mas quando é usado como arma política, abre uma ferida social: transforma a democracia num clube moral, propriedade de alguns, semelhante a um clube de fumo, um grémio onde só entra quem usa gravata.

    Claro que, sabemos todos, há uma diferença entre ser “democrata”, no plano legal, e ser “democrata” no plano dos valores. E Seguro é, seguramente, muito diferente de André Ventura.  Seguro até tem esta eleição no papo e não precisa de ser extremista. Nunca o foi e não é agora que vai ser – vamos é ver se daqui a cinco anos se safa da mesma maneira.

    A democracia é um sistema de regras aceite pelo democrata que aceita também o espírito que as sustenta, como o pluralismo, limites ao poder, direitos fundamentais, respeito por minorias e pelo contraditório. Mas uma pessoa também pode cumprir a lei eleitoral e, ainda assim, desejar uma sociedade menos livre. A história fala-nos desse paradoxo.

    Foto: Captura de imagem a partir de vídeo do debate televisivo entre António José Seguro e André Ventura, os dois candidatos que passaram à segunda volta das eleições presidenciais.

    Nas salas de cinema, por exemplo, está em exibição o filme “Nuremberga”, sobre o julgamento dos líderes Nazis, que teve lugar entre 20 de Novembro de 1945 e 1 de Outubro de 1946. O réu principal, à ausência de Adolfo Hitler, era Hermann Goering, interpretado por Russell Crowe. E, a dada altura do julgamento, Goering lembrou, em defesa do fim da democracia na Alemanha Nazi, que até foi o presidente dos EUA, Roosevelt, que disse haver “certas democracias na Europa que abandonaram a democracia, não porque o desejassem, mas porque a democracia produziu homens demasiado fracos”.

    Franklin D. Roosevelt, num dos seus discursos radiofónicos, conhecidos como Fireside Chat —  “Conversa à Lareira”, o que, para nós, seria algo como a “Conversa em Família” — Roosevelt afirmou, a 14 de Abril de 1938, que a “democracia desapareceu em várias outras grandes nações, não porque o povo dessas nações desprezasse a democracia, mas porque estava cansado do desemprego e da insegurança, de ver os seus filhos com fome, enquanto se sentiam impotentes perante a confusão e a fraqueza governamental, por falta de liderança no governo. Finalmente, em desespero, escolheram sacrificar a liberdade na esperança de conseguirem algo para comer”. O objectivo da frase era alertar para os perigos que podiam levar à perda da democracia, não para legitimar o fim da mesma.

    Não creio que, no Portugal de hoje, se esteja já num nível de crise política onde seja possível começar a pensar em acabar com a democracia por via democrática, mas há sinais que importa detectar para impedir essa solução radical. E não é André Ventura que me preocupa. Ele é apenas, se quisermos, um soluço na nossa história comum.

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    Apelo aos democratas deste país, eleitores de Seguro e Ventura, abstencionistas e votantes do nulo, para a defesa da democracia como mecanismo de alternância e alguma decência e moralidade. E isso passa por reconhecer, por exemplo, que as eleições presidenciais não foram legais. Houve fraude perante os eleitores, pois há regras elementares da democracia que não foram cumpridas.

    Se alguém quiser levar o caso português a um tribunal internacional, como o de Nuremberga, pode começar por apontar que, no espaço mediático, através de convites para debates pré-eleitorais, participaram candidatos que ainda não tinham formalizado a sua candidatura no Tribunal Constitucional. Isso provocou desde logo um enviesamento mediático de uns eleitos, com apoios de partidos (desvirtuando a ideia de que o Presidente da República é um cidadão independente), versus outros (verdadeiramente independentes).

    Depois, as sondagens, usadas para conduzir o eleitor a um cenário onde existe o “voto útil”, como se outros votos fossem “inúteis”. Afinal, quem “escolhe” os candidatos antes do voto? Oficialmente, é o cidadão. Mas, na prática, há filtros invisíveis que funcionam como portas giratórias. Só passa pelo crivo quem tem partido e convites de jornalistas, estes mais interessados em audiências e polémicas do que em entrevistar um candidato ao maior cargo da Nação, cujo vencedor é decidido pelos proprietários do lugar ao emprego a que se apresenta: os eleitores.

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    Dizem que as eleições presidenciais são a duas voltas. Mentira: são a três voltas. A primeira não está na urna — está nos estúdios de televisão, nos alinhamentos, nos critérios que se apresentam como neutros: “representação parlamentar”, “notoriedade”, “sondagens”. A segunda é o voto formal nos candidatos oficiais. E, finalmente, a terceira, aquela que dizem ser a segunda volta, quando já só restam dois nomes e o país é empurrado para um plebiscito emocional. Radicalizado.

    É preciso avisar o próximo Presidente da República, António José Seguro, que ninguém é dono da democracia. Nem ele, nem o candidato que grita e diz que fala “pelo povo”. A democracia é de todos, mas para que funcione, é preciso que seja mesmo para todos. Para que Seguro seja eleito de uma forma democrática e para que Ventura continue a poder viver livre e feliz em democracia.

  • A vida como ela é (mas podia não ser)

    A vida como ela é (mas podia não ser)


    A VIDA COMO ELA I Para já, a vida é aqui e agora. O resto são memórias, ancestralidade, biografias avulsas com nascimento, crescimento e morte. A origem da Vida humana é somente um parágrafo no Universo. Há tanto, mas tanto mais, e incomensurável, que chega a ser absurdo pregar a supremacia.

    Se o Ventura ganhar, ganha porque votarão nele mais do que no Tozé. Para uns, como eu, o Ventura representa o mais bafiento, intruja, rasteiro e demagogo. O populismo na sua expressão abjecta e sectária. Ao posicionar-me contra estas figuras de pouco estilo, estou também eu, apesar de sincero, a ser um sectário. Na verdade, eu acho que todo aquele que me quer governar é meu inimigo. Entregar a alguém o comando da minha vida é incauto. A obediência à lei tem limites pois a lei tem excepções e não é necessariamente justa.

    Um tipo como eu devia morar numa terra de ninguém e não a reclamar. Tendo que me sujeitar ao que me foi dado (educação e saúde) retribuo na justa medida. Quanto à saúde evito recorrer ao SNS. Lá chegará o dia de justificação de pagar parte do lucro do meu trabalho desde os 18 anos. O povo queixa-se com razão das injustiças, de confiar em partidos e de ser enganado, mal tratado e esbulhado. O que o povo quer é trabalhar, digo eu, ser pago na justa medida, não morrer à espera de atendimento médico e ir à escola aprender a lutar pelos seus direitos. O dever de um povo é unir-se na luta pela satisfação do que é básico.

    Neste nosso sistema o presidente da república é sobretudo um representante e um mediador de conflitos. Se o Ventilador da ira vencer o conflito será aumentado. A Constituição desrespeitada e se lograr mudada a favor de um regime marcial. Se tal suceder, fora o que já sucede de ínvio, desigual e aldrabão, haverá molho. Além do líquido putrefacto vertido nas redes sociais.

    PRECONCEITOS I Este raciocínio vale para tudo e todos: se calçar os sapatos dos outros, lá se vão os preconceitos. Se lhes sentir os sentimentos, o que os apoquenta, o que sonham, e até poder dar-se o caso de desgostar das raivas e fúrias e velhacarias que lhes passam no espírito retorcido, por vezes resultando em maldades e crimes desgraçados ou em posts cínicos ou ressabiados, a tresandar de soberba, ego e mania da superioridade.

    Acontece que isto tanto se dá a quem milita no Chega como na extrema esquerda armada em santa. Gente boa e gente deplorável há em todos os hemisférios. Até ateus e cristãos podem ser uns queridos e uns fdp. O filme ‘A máquina de matar pessoas más’ tem piada para ver como o bem e mal sempre andam de mãos dadas. E o Diabo está nos detalhes. Depois pode ser que a balança penda mais para um lado, digamos risonho, mas ainda assim pode ser que o exercício da bondade seja uma farsa para ficar bem na fotografia. É como meter o bedelho na vida dos outros cheio de boas intenções, mas fechar-se em copas sobre a própria intimidade.

    Posto isto, lá porque o Seguro é da família xuxalista, não significa que não seja válido para um cargo que é de figura de Estado, de mediador, de vetar leis para depois serem aprovadas no Parlamento ou andar às turras para inglês ver com o Governo e dar bacalhaus nos bastidores. Respeitar a Constituição, isso sim, já é de valor. Mas vale para todos e não só o Presidente. O exemplo venha de cima. De Deus.

    NADA DE NOVO I O populismo da raça suprema sempre existiu. É um tribalismo atávico de cabo a rabo desta Terra perturbada e de mal paridos. Se me puser a gritar que os bons são os que pensam e agem como eu torno-me igual aos supremacistas. Felizmente nunca padeci de embirrações torcionárias.

    Tenho um quadro do Che, outro do Ali e outro do Zeca Afonso no meu quarto. Três figuras tudo menos consensuais, cujas vidas e obras de de certa forma perfilho. Tenho uma fotografia original de Camilo Cienfuegos e a frase chave de Jack La Motta tatuada nas costas entre as omoplatas dita diante de Sugar Ray “you never put me down”. São santos e senhas, digamos assim, mas não sou Eu.

    No meu mundo há lugar para todos, incluindo os radicais livres. Não significa que vá pegar em armas para abater os inimigos da minha fé. Embora um jornalista possa fazer tanto dano como empunhando uma Magnum. Não nutro simpatia por fachos e mentecaptos e rezo ao deus do esparguete que os leve e guarde num fogo ardente, apesar de um inimigo poder ser uma valiosa jazida de instrução. De igual forma não me calo diante de quem se quer apossar da minha liberdade, seja de que extremo for. Ou tentar corromper-me com nacionalismos pífios. Preocupa-me a violência gratuita e cabotina que é contrária à luta justa de um ringue, tal como a matança continuada dos inocentes. Ou fazer de estrangeiros bodes expiratórios e andar a esmifrá-los com soez hipocrisia.

    A boçalidade como discurso de Estado também me encanita. Os radicais são todos iguais nos seus propósitos de ego mania e tribalismo. A maior força de um ser humano é tornar-se ser humano e indivíduo. Aderir a quem é moderado e não pugna pela morte e ódio como narrativa de estilo. Há livros negros em todos os ismos.

    P.S. Radicalismo vem da injustiça, diferença é que hoje mostra-se com facilidade.

    ASPIRAÇÕES AO SER MAIS DO QUE AO TER I Entende-se que 51 anos de Democracia com partidos a girarem entre poleiros de chupistas levem ao discurso radical. Mas antigamente não era melhor. Estude-se não só o Estado Novo, mas todos os reinados. Aliás, nunca foi fácil e bom para todos. Em lado nenhum.

    A grande Revolução é o estado de consciência do que é o amor e a compaixão. E um bocadinho de humor, já agora.

    Duração humana é nada no tempo do Universo. Extinção de tudo é garantida. Daí o absurdo de tudo.
    Dar o melhor é o mínimo que se pede a cada um.

    QUAL É O ESPANTO? I A adesão ao populismo surge em momentos de alta tensão com o fosso entre ricos e pobres intransponível. São muito breves os períodos de paz e prosperidade. O líder populista apela ao ressentimento do povo para ser eleito.

    Por regra, quer implodir o Sistema mas recorre a todos os expedientes da Democracia para se alcandorar. Uma vez eleito põe em marcha o discurso de sangue. Usa as forças policiais e militares, igualmente ressentidas por conta de salários medíocres, e faz tudo por eliminar os inimigos da sua crença na raça suprema: a sua. Não se interroga sobre o seu ADN ou como harmonizar a igualdade e corrigir as debilidades sociais.

    A igualdade só existe no seio do seu partido e quem lhe faz frente é executado. Isto vale para qualquer ismo. Os ismos são perigosos. Promovem a barricada, belicista, boçal e acusatória. É-me difícil para não dizer inadmissível estar à mercê de qualquer Sistema onde o indivíduo que pensa e age pela sua cabeça seja acossado ou mesmo exterminado.

    Quando a Constituição de 1976 previu a proibição de partidos fascistas teve como princípio a interdição de novas ditaduras e imperialismos. Não há pais mais fascista do que os EUA. Seguir-lhe o exemplo é aceitar a servidão voluntária ao líder, ao cacique, ao tirano torcionário. É como idolatrar o Diabo.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista

  • Marques Mendes não desiste. Nem Cotrim. Nem Seguro. Desisto eu!

    Marques Mendes não desiste. Nem Cotrim. Nem Seguro. Desisto eu!


    Esta crónica é sobre uma desistência: a do cronista. Desisto de tentar adivinhar quem vai ganhar estas eleições. Se tivesse de ser coerente, diria que o candidato que tem mais hipóteses é António José Seguro, pois foi o único que, até ao momento, esteve numa reunião do Grupo Bilderberg.

    (Sim, foi em 2013, em Inglaterra, quando Seguro era líder do PS e participou no encontro anual, na altura em que os convites ainda eram feitos por Francisco Pinto Balsemão, antes de Durão Barroso ter assumido o cargo no comité director do grupo dos chamados “Donos do Mundo”. O outro convidado português nesse ano calhou ser Paulo Portas, então ministro dos Negócios Estrangeiros do governo liderado por Pedro Passos Coelho).

    António José Seguro. / Foto: D.R.

    Acontece que António Filipe, candidato indicado pelo PCP, também deve saber que Seguro só é de esquerda porque não diz que é de direita e, por isso, garante ao Povo comunista que não vai desistir a favor do candidato apoiado pelo PS. Ele não é como Ângelo Veloso, em 1986, nem Seguro é um Salgado Zenha ou merece que se feche os olhos no momento de colocar a cruz no voto. António Filipe faz isso mesmo com o risco de dormir mal no próximo Domingo, enquanto Seguro também não iria dormir bem se desistisse a favor do candidato do PCP e depois visse que ele não conseguiria ir à segunda volta.

    (Como os candidatos que desistem têm de entregar no Tribunal Constitucional a declaração, reconhecida no notário, até 72 horas antes das eleições – são três dias –, temos de esperar até ao fim de quinta-feira, dia 15, para a oficialização das não-desistências).

    Jorge Pinto, o candidato Livre, bem que avisou no debate da RTP que “no que de mim depender, não será por mim que António José Seguro não será Presidente de Portugal”, sugerindo um acordo à esquerda com PCP, BE e Livre.

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    Catarina Martins, a eurodeputada do BE (e ex-líder), riu-se e disse que Jorge Pinto poderia ter feito um telefonema para si antes de trazer o assunto a público na televisão pública (e Catarina, já agora, é o número que termina em 276 ou 351? Nenhum dos dois? Depois diz qual é, sff).

    Se ninguém à esquerda vai desistir, se Manuel João Vieira só desiste se for eleito, que mais possibilidades temos então no resto da lista? André Pestana e Humberto Correia, por exemplo, poderão desistir? Se sim, então a favor de quem? O primeiro não pode desistir por mais ninguém, pois é contra tudo e todos. O segundo, é por D. Afonso Henriques.

    Seguem-se André Ventura e Henrique Gouveia e Melo. Ora, o líder do Chega não desiste porque assim não poderia depois votar em si. Quanto a Gouveia e Melo, esse não saberia muito bem por quem desistir, pois a sua candidatura é o albergue espanhol, onde há lugar para tudo e todos. Aliás, é a candidatura de quem ainda não desistiu porque não sabe que D. Sebastião já morreu – mesmo que tivesse sobrevivido a Alcácer-Quibir, eu sei.

    André Ventura. / Foto: D.R.

    Sobram dois nomes de ilustres candidatos: Marques Mendes e Cotrim Figueiredo. Os candidatos do PSD e IL. Esses sim, seriam os únicos capazes de desistir um a favor do outro e causar algum impacto na votação de Domingo.

    Marques Mendes, que não parece conseguir separar-se dos anticorpos adquiridos pelos anos em que esteve ao serviço nos negócios da Abreu Advogados – que anuncia lucros como se fosse uma multinacional com negócios de Lisboa a Caracas, Luanda e Washington –, poderia perfeitamente desistir a favor de Cotrim Figueiredo. E, acredito, Cotrim iria à segunda volta e chegaria mesmo a Presidente da República.

    Se fosse ao contrário, e Cotrim desistisse a favor de Marques Mendes, esse acto de sacrifício histórico da direita (onde, até hoje, nas várias eleições presidenciais sempre tivemos desistências à esquerda e nunca à direita), levaria Mendes a ser o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa. Afinal, PSD e IL estão juntos em algumas autarquias. Se foi é, por exemplo, em Lisboa e Porto, porque não em Belém?

    Luís Marques Mendes. / Foto: D.R.

    Só que nenhum deles parece disposto a desistir a favor do outro. E, com isto, desisto eu. Vou votar nulo, pois há ainda três candidatos cujos nomes aparecem no boletim e que são oficialmente nulos, enquanto os outros 11 nomes são todos opções igualmente nulas, embora não reconhecidas oficialmente.

    Aliás, vendo bem, como até sou monárquico, nem sei porque ainda me preocupo pessoalmente com isto de eleições presidenciais. É só mesmo para que a noite do Domingo de eleições tenha alguma emoção na hora de ver o resultado prático desta República, já que nem o Boavista joga e a malta precisa de se divertir com algo para as conversas de café. Ou nas redes sociais. E em crónicas.  

  • Voto Seguro

    Voto Seguro


    VOTO SEGURO I Como sabeis — se não sabeis, ficais a saber — faço parte da Comissão de Honra do candidato António José Seguro. Também suspeitais ser um comunista no sentido bíblico. Serei mais acrata, mas isso não vem agora ao caso. Então porquê não voto no candidato do partido?

    O voto presidencial é um voto num dirigente. Num indivíduo. Num estilo de intervenção. Nada contra o camarada Filipe, e não é um voto útil, o meu. Fiz questão de privar com António José Seguro antes de tomar esta decisão. E estive diante de um homem resolvido, sereno, blindado à bojarda, que me inspira confiança.

    António José Seguro. / Foto: D.R.

    Não seria de esperar outra coisa, num encontro de apoio, mas podia ter concluído estar ali um farsante, um socialista inquinado, um arrivista, um situacionista ou mesmo um pato-bravo disfarçado de ouvinte atento.

    Além de ter consideração pela sua postura ao arrepio do próprio partido onde assenta a sua ideologia, o homem faz vinho. Quem mete as mãos à obra na terra é sempre de considerar. Depois, não diz que lê só para ficar bem na fotografia. Até a mim me leu, vejam lá. Ou que é melómano e troca Bach por Baco.

    Por último, a amostra de quem pode ser eleito é de tal forma medonha que se não houvesse um Seguro antes preferia ir à cata de um putativo rei. Ganhe ou não ganhe, estou certo de que havemos de beber um copo ou dois e brindar à raça lusitana.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista

  • Vícios

    Vícios


    DESMAMES I Tenho uma teoria baseada num largo espectro de viagens e sociabilizações mais ou menos forçadas de que todos padecemos de alguma doença ou vício. Pode ser crónica ou passageira, aguda ou grave e levar ao túmulo. Quando escrevo no meu bloco de notas “dia 1 começo o desmame de (não digo o quê)”, estou a decretar os meus vícios. Sei que um par deles me podem arrumar ou até arruinar, acabando os meus dias arrumado e seco como uma uva passa.

    Um desmame confessável é a dependência de um dispositivo onde ir buscar entretenimento. Um telefone esperto, cheio de aplicações úteis e inúteis. O desejo de ser inútil é mais forte e não cedo à utilidade. Por exemplo, a inteligência artificial, esse logro dos ociosos. Quem diz que não estou a mentir e tudo isto que aqui vai escrito não foi parido por um cérebro virtual à boa maneira do escrivão Tiago Salazar? Quero desmamar como quem desabrocha tirando da boca um caule viçoso e usá-lo como deve ser, isto é, em sede própria que é amar sem orifícios. Não alcançaram este rasgo boca Giano mas eu explico. Quero largar o vício de me enamorar perdidamente e só me perder para me encontrar a seguir, onde haja mamas grandes e vistosas, preenchidas de chicha como um belo bife da vazia. Quero desmamar-me de tudo o que me é nocivo e nefasto, de prosas chochas a cagalhões com asas e quem exorta o osso da pila e seja falho de tomates.

    Nem se trata de um sonho a sair do sono para a vida real. É tão-somente o querer absurdo de viver num prado quente, amaciado pela lhaneza dos dias felizes. E que não me cobrem IMI. O IVA não há como escapar, pois é de valor acrescentado querer-me assim tão despojado no calor da Felicitas. Há ainda um outro querer, mais prosaico e digno de constar de um livro de auto-ajuda: quero que todos os que mal me querem se fodam. Irei cuspir-lhes nos túmulos se não os vir antes numa artéria qualquer, à esquina do labirinto e me sair uma gosma de Minotauro directa às suas fuças imundas, às comissuras dos seus lábios infectos. Sim, é um vício danado este de dar piparotes como o faz com cintilante talento do além de Vera Cruz o meu defunto colega de trabalho D. Brás. Mas que diabo, não faz parte da comédia humana ter um pequeno vicio como atirar aos patos?

    DESCULPAS I Se formos a ver há sempre uma (tentativa de) justificação para certas e determinadas condutas. Para tal se inventou a legislação da legítima defesa.

    Por exemplo, o famigerado Casanova antes de andar de leito em leito e telhado e telhado foi um corno sofrido, vítima de um desgosto. Após a rejeição e o abandono passou a usar e deitar fora. Nada de compromissos. Tivesse feito terapia e muitas vítimas teriam sido poupadas. Incluindo o próprio.

    Andar à cata de falhas, faltas e falhados também não há de ser coisa boa. Dá jeito aos humoristas mas pouco acrescenta.

    NATAL I Todos os dias há um natal para acontecer. Um nascimento ou renascimento, uma outra forma de ver. O verbo Ver enforma amplitude. A grande questão (humana) é o perdão e a paz que isso traz. Entre os bichos é outra coisa. Quando os homens não saem dos bichos o território é muito importante. A sobrevivência, o instinto, o medo. Não o medo consciente de morrer, mas o que vem da ameaça. Ninguém deveria viver sob ameaça, de não ter comida, abrigo e um certo lugar de confiança e conforto. Estar na natureza (como estou neste dia) e ver o firmamento de pés bem assentes na terra a rever o filme da minha vida, amplifica o sentimento de que o melhor está sempre para vir. Quanto ao fim, há sempre uma hora marcada para nós todos. O apito final. Enquanto isso folguem-se as costas e sobretudo aprenda-se o mais possível, de tudo um bocadinho, de como fazem os bichinhos até ao acto constante do Amor.

    19710 I Daqui a pouco serão estes os dias passados no planeta Terra. Que aprendi de novo, de significativo entre a infância e o dia de hoje? A medir e avaliar o bom uso das palavras. A ter em consideração que moro entre gente cujas vidas são, tal como a minha, um constante tirocínio. Ou seja, a não esperar nada de ninguém. Aprendi cedo o que é a rejeição, o abandono, a negligência, a pancada, o tabefe, o soco, o sarcasmo, a ofensa e o grito. A espaços, conheci laivos de ternura, doçura materna da mãe avó, a importância de fazer bem o trabalho seja ele qual for. A não dizer tangas nem armar-me aos cucos e a viver com o amealhado sem saquear. Aprendi que a maldade, a ingratidão, a infâmia, andam a par com a bondade e a compaixão. Aprendi a estar mais calado do que a reagir a cada bojarda, a cada atoarda e a ler e a escutar o dito entrelinhas. Talvez por isso, no lugar de percorrer ruas e avenidas de amargura me limite a criar enredos mormente a partir de factos, de acções e constatações de que o pior da Terra são os humanos. Aprendi que o Amor é uma rua sossegada onde se passa raramente.

    O MODELO RONALDO I O dom para a chincha do menino Cristiano fez-se notar cedo e ala para Alvalade como poderia ter ido parar a outro clube qualquer. Foi lá que comeu, bebeu, dormiu, treinou, aprendeu e teve palco para se mostrar e começar a encher o pote. Agarrou todas as oportunidades e transcendeu-se a jogar à bola. A determinação é o seu forte. Chamem-lhe ego, narcisismo ou ganância e ambição desmedida. Se o dom do puto fução fosse outro, a pintar (como o Jordão) ou escrever romances, não se teria feito multimilionário, recordista de tudo e um par de botas. O modelo Ronaldo é válido no escanteio. Perseverar, comer frango, peru e bróculos, não beber, não fumar, não beber nada a não ser água ionizada, e contratar os melhores, da confecção aos dribles aos fiscos ou a abafar historietas de agasalho e alguidar.

    O problema actual dos Ronaldos é acharem-se mais papistas que o Papa. E não se contentarem com os seus feitos. Quererem sempre mais e mais (ocultando as suas falhas). Não se trata de conformismo de fim de carreira, mas de saber sair de cena e reinventarem-se noutras cenas. Já nem se fala de como redistribui o amealhado, porque isso é lá com ele. Quanto a ser partenaire de regimes autocráticos que fuzilam jornalistas e achincalham mulheres, o que seria de esperar de um rapaz que só aprendeu a jogar à bola?

    PESSOAS I Tudo se resume às pessoas. A laços e percalços. A começar nos pais, ancestrais, padrões e o que fazer com tudo isso, a herança, a genética, até chegar à superação e à transcendência, se for o caso, ou uma vida inteira redundar numa oportunidade (ou sucessão de oportunidades) perdida. A pessoa que melhor conheço sou eu. Daí que prefira a autobiografia. A vida que conheço melhor do que qualquer outra é a minha. Não que tudo o que se escreva seja a mais pura das verdades. A memória é falível e a expressão fluente não toca a todos. Mas que se diga e escreva tudo sem contemplações. Entre o que eu gostava que tivesse sido e o que foi há um fosso de crocodilos. Foi um crescimento disfuncional e graças a Deus e a mim, não descambei nas drogas, nem leves, nem duras, no alcoolismo ou qualquer coisa desviante como a política ou a polícia. Não escapei aos comprimidos e ao divã, e ao sexo promíscuo até concluir que tudo faz parte. É a plena consciência da nossa natureza múltipla e a integração da miríade de elementos de que somos compostos que nos faz completos, que nos faz humanos.

    A escrita foi desde cedo e é uma forma de achamento e redenção. As pessoas, incluindo eu, são estranhas e capazes do melhor e do pior. Até ver não houve homicídios na família. Pilhagens, ofensas, ódios, intrigas, invejas e desejos de ver um familiar na merda ou morto, isso há, como em muitas idóneas famílias. Também houve e há os parentes por afinidade que cospem fel depois de terem mamado à conta e partilhado a mesa da consoada. Como pode haver paz se o que mais há é Insensíveis?

    1991-2026 I Este ano passam 35 anos da publicação do meu primeiro artigo enquanto profissional de Imprensa. Um artigo sobre o grupo de Teatro do Hospital Júlio de Matos. Posso dizer com orgulho ter feito tudo o que mais quis. Reportagens, entrevistas, crónicas e artigos de toda a espécie e feitio, até sobre bricolage. Fiz o tirocínio com mestres como Eurico de Barros, Nuno Henrique Luz, Sofia Barrocas, Maria Augusta Silva ou António Moutinho Pereira, entre outros, como Vera Lagoa ou Miguel Sousa Tavares.

    Hoje, assino no PÁGINA UM, um projecto de Jornalismo com caixa alta. Mesmo nos anos de suspensão da carteira, mantive-me no activo a escrever crónicas. Passei por jornais, revistas, TV e rádio. Para assinalar esta data redonda vou fazer uma viagem. Foi graças ao Jornalismo que publiquei Viagens Sentimentais, A Casa do Mundo, As Rotas do Sonho, Endereço Desconhecido, Quo Vadis, Salazar?, Crónica da Selva e O Moturista Acidental. Desta viagem nascerá um livro e projecto digital. Em breve haverá divulgação mais específica. Os livros é só aviar. As crónicas Cá se Fazem estão disponíveis no PÁGINA UM.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista

  • Estoril 3.1

    Estoril 3.1


    Há coincidências que o futebol trata de transformar em metáforas. No dia em que uma assembleia geral extraordinária aprovava o chamado Benfica District, eu assisti a mais um jogo a partir da Varanda da Luz, esse promontório existencial onde se vê futebol, mas também se encontra oportunidade para reflectir sobre urbanismo, finanças criativas e a influência crescente do VAR na vida espiritual do benfiquista. Tudo ao mesmo tempo, como convém a um clube moderno.

    O jogo, esse, começou sofrível, como já começa a ser hábito. E sofrível não apenas no sentido épico do sofrimento redentor — isso seria suportável —, mas naquele outro, mais burocrático, em que se sofre porque nada parece fluir. O Benfica entrou sem controlo, permitiu iniciativa ao adversário, passou largos minutos a correr atrás da bola e a dar a sensação de que o jogo estava sempre prestes a escapar-lhe. A pressão inicial do outro lado foi suficiente para inquietar a Luz e para instalar, cedo demais, aquele desconforto típico de quem percebe que a noite vai ser longa.

    Porém, houve VAR — claro que houve VAR —, houve interrupções, houve aquela liturgia contemporânea de esperar pela decisão como quem aguarda uma sentença administrativa. E foi precisamente numa dessas interrupções que surgiu o penalti, depois de um lance inicialmente mandado seguir e revisto à lupa por uma cotovelada no Otamendi. Veio Pavlidis e marcou, como manda o figurino, com a naturalidade de quem já começa a parecer menos um avançado e mais um instrumento regulamentar. Se isto continuar assim, ainda lhe colocam um apito ao pescoço. Ou um despertador para o lembrar do minuto em que se deve dirigir à marca dos 11 metros.

    O golo não trouxe tranquilidade. Pelo contrário: trouxe a ilusão dela. O Benfica melhorou ligeiramente, teve momentos de posse, criou alguma ordem, e a fechar a primeira parte um remate de belo efeito do Pavlidis para facturar o segundo. Mesmo quando ampliou a vantagem, continuou a pairar no ar a sensação de que bastava um descuido para tudo se complicar. E complicou-se. O adversário reduziu ainda antes do intervalo, o estádio encolheu-se — e não foi do frio. A segunda parte surgiu e com ela o estado natural do Benfica: o da ansiedade permanente, com a equipa a gerir mais o resultado do que o futebol.

    E viu-se o que não se gosta de ver numa equipa com o historial do Benfica: pragmatismo defensivo caseiro perante uma equipa de meio de tabela, aceitando perder controlo em troca de segurança relativa e lá se foi sobrevivendo entre ameaças ocasionais, bolas paradas mal defendidas e aquela constante expectativa de que algo podia correr mal. Só perto do fim, numa transição rápida e já com o adversário esticado, o terceiro golo apareceu, consumando-se um hat trick do Pavlidis e fechando-se o jogo sem nunca verdadeiramente o pacificar. Foi uma vitória, sim. Mas daquelas que se explicam mais pelo resultado do que pela exibição.

    Mas o que verdadeiramente me inquietou não foi o jogo, nem o VAR, nem o penálti do costume. Foi perceber que nesse mesmo dia, em assembleia geral extraordinária do Benfica, se anunciava mais um capítulo ordinário de uma história muito portuguesa: a do betão que avança sempre com a promessa de que desta vez é diferente. Desta vez é planeado. Desta vez é viável. Desta vez é sustentável.

    Garantiu o presidente Rui Costa que o Benfica District vai revolucionar o espaço envolvente ao Estádio da Luz, que será um destino nacional e internacional, que haverá pavilhões, hotéis, zonas comerciais, cultura, entretenimento e, imagino eu, talvez até um bocadinho de futebol. O investimento será de centenas de milhões (nunca se sabe ao certo) e a conclusão aponta para 2029 ou 2030, conforme a velocidade a que a Câmara Municipal decidir colaborar. Como se sabe, quando as contas apertam, há sempre mais uns metros quadrados para licenciar.

    Se a memória não me falha — e não me falha assim tanto, estava eu no Expresso no final dos anos 90 —, já no passado os direitos de construção em redor do Estádio da Luz foram generosos, para usar um eufemismo simpático. Tão generosos que a autarquia chegou a contabilizar o próprio relvado como espaço verde. Um jardim, portanto. Um jardim com marcações, balizas e bancadas à volta. Lisboa tem destas inovações botânicas e paisagísticas.

    E agora, mais betão. Sempre mais betão. Um clube que vive acima das suas possibilidades, como tantos outros, e que depois se apresenta, com ar compungido, a pedir compreensão institucional. Nada de novo, portanto. Apenas mais moderno, mais district, mais anglo-saxónico, porque chamar bairro parece coisa pobre e antiga. Benfica District soa a PowerPoint, a branding, a alguém que acredita sinceramente que mudar o nome muda a substância.

    Porém, aquilo que verdadeiramente me preocupa, confesso, é a reconfiguração do estádio, que passará dos actuais 65 mil lugares para 80 mil. E isto através do rebaixamento do relvado. E eu, que já me encontro bem no topo, demasiado no topo nesta Varanda da Luz, começo a fazer contas à vida.

    Se o relvado desce e eu fico onde estou, ficarei mais alto, mesmo se ao mesmo nível das águas do mar, mais distante, mais próximo do céu — ou do inferno. A visão do jogo — e a minha já viu melhores dias (e piores, porque, entretanto, a minha miopia teve correcção cirúrgica) — tornar-se-á um exercício de fé.

    Mas, bem vistas as coisas, talvez não seja assim tão mau. Se o Benfica continuar a jogar como tem jogado, poupa-me o detalhe. Vejo menos, sofro menos. Há vantagens em tudo.

    Enfim, neste jogo, saí da Varanda da Luz com a sensação de que vi um jogo mas vislumbrei também um plano urbanístico, a um penalti e a uma maquete; a um VAR e a um District. Talvez seja esse o novo futebol: menos jogo jogado, mais jogo aprovado, um relvado a descer e o betão a subir.

  • O Acordo da Carlota

    O Acordo da Carlota


    Este texto é uma crónica, que é um estilo jornalístico onde o autor é livre de exprimir os seus pensamentos em vez de se limitar a apresentar informação pura ou simplesmente factual. Na crónica pode construir as suas interpretações pessoais, opinar, sugerir uma posição social e até política, pois isso está bem visível perante o leitor.

    Por uma questão de honestidade pessoal, apesar de ser uma crónica, ainda assim o jornalista não deve deturpar factos para apresentar uma ideia que lhe seja conveniente. Na realidade – e aqui falo por mim – as minhas crónicas baseiam-se em perguntas que não consigo encontrar durante o normal trabalho jornalístico de recolha de informação e, perante essa impossibilidade, acabo por partilhar as dúvidas com o leitor anónimo da mesma forma que o faria com um amigo próximo. Pois, nunca se sabe quem está desse lado e poderá até, após ler este texto, acabar por me ajudar a fazer o trabalho jornalístico.

    Henrique Gouveia e Melo, candidato à Presidência da República. / Foto: D.R.

    Uma das minhas mais recentes dúvidas jornalísticas é o Acordo da Carlota. Mas o que é isso do Acordo da Carlota que poucos terão ouvido falar? Na realidade, foi um nome que dei ao episódio público, e devidamente analisado, sobre o almoço que dois candidatos a Presidente da República, Henrique Gouveia e Melo e André Ventura, tiveram em Agosto do ano passado. O local foi a Quinta da Carlota, um complexo turístico de luxo, localizado em Torres Vedras e que é propriedade de Mário Ferreira, o empresário natural de Matosinhos que, entre outros negócios turísticos, é ainda accionista maioritário da TVI/CNN Portugal e financiador da campanha eleitoral de Gouveia e Melo.

    Que dois candidatos à presidência da República se encontrem num almoço privado, organizado por um empresário da Comunicação Social que apoia financeiramente um deles, enfim, o que podemos dizer? Não é proibido. Se o quiserem fazer em privado, longe do olhar dos jornalistas, claro que o podem fazer. Não há lei que os impeça. Que não se saiba publicamente o que foi discutido entre ambos, se acaso chegaram a um entendimento político pessoal, ou descobriram que não precisam de combinar nada e está tudo bem em relação ao papel de cada um na sociedade portuguesa, isso é, com certeza, algo que só eles saberão entre si. Que cada um deseje depois manter privado o teor de certos detalhes da conversa, é perfeitamente normal.

    Notícia publicada na edição de 12 de Setembro de 2025 do jornal Público sobre o almoço entre Gouveia e Melo e André Ventura, líder do Chega e actual candidato à Presidência da República. / Foto: D.R.

    Os jornalistas, perante estes casos, nunca conseguirão ir mais além do que os participantes decidirem divulgar. Aliás, o facto de se ter sabido publicamente que houve esse almoço – que nenhum dos implicados negou –, já é, por si só, uma grande novidade jornalística. E, em abono da verdade, o seu a seu dono, devemos dar o crédito da informação à jornalista Ana Sá Lopes, que a publicou em primeira mão na edição do diário Público de 12 de Setembro passado, cerca de um mês após o encontro. Para além de responder aos requisitos básicos de uma notícia, com a resposta às perguntas básicas de Quem? (Mário Ferreira, Gouveia e Melo e André Ventura); O quê? (almoçaram juntos); Onde? (na Quinta da Carlota); Como? (em privado); Quando? (Agosto, embora sem indicação do dia exacto) e Porquê? (para se conhecerem melhor), o único dado extra foi o facto do nome Carlota ser em honra a uma das filhas de Mário Ferreira –algo que ignorava e, sem ironias, muito me enriqueceu pessoalmente sabê-lo através da leitura do artigo.   

    Se era para ter sido um almoço secreto ou não, não se sabe, mas nestas coisas, por vezes, é sempre difícil manter o segredo. Por exemplo, o autor desta crónica foi o jornalista que, na noite de 19 de Novembro de 2024, recebeu a informação de que o mesmo Henrique Gouveia e Melo, quando ainda era Almirante em funções de chefe Estado-Maior da Armada, iria ter um encontro com o ministro da Defesa, Nuno Melo, num bar em Arroios, e acabou mesmo por os fotografar à entrada, onde mantiveram depois uma conversa que só a ambos disse respeito.

    Foto: PÁGINA UM

    A bem da verdade, há apenas duas maneiras do jornalista poder ter acesso ao conteúdo de conversas deste género sem ser através dos próprios que, entre si, podem muito bem combinar a versão mais conveniente para o público: através de um empregado que tenha ouvido partes da conversa e a relate ao jornalista debaixo da protecção do anonimato, ou uma gravação captada por algum microfone indiscreto, que até poderia ser de um dos convidados.

    Quando questionados pelos jornalistas sobre o teor da conversa, ambos desvalorizaram o encontro e declaram, de uma forma geral, que foi para se conhecerem melhor. E que nada terá sido combinado entre eles. Ora, como jornalista, registo os factos públicos: houve mesmo um almoço, em Agosto, no local em causa, organizado por quem se disse que o fez, onde ambos os convidados negaram depois que qualquer acordo político em relação à corrida presidencial tenha sido estabelecido e, após o encontro, Ventura oficializou a sua candidatura a presidente da República, tornando-se adversário de Gouveia e Melo. Coisa que ainda não era quando foi almoçar.

    No entanto, para efeitos de crónica, digo que tenho a convicção pessoal de que houve mesmo um Acordo da Carlota entre Gouveia e Melo e André Ventura. e justifico com outros factos. Repare-se que, antes daquele almoço, Ventura, como líder do Chega, poderia ter apoiado Henrique Gouveia e Melo e não precisava de ser ele o candidato do seu partido a Presidente da República, podendo dedicar-se ao seu trabalho partidário no Parlamento. Mas, depois do almoço, Ventura decidiu que não iria apoiar o outro comensal. Imagine-se a desilusão de Gouveia e Melo que, assim, perdeu o apoio do líder do segundo maior partido de Portugal.

    André Ventura, candidato à Presidência da República e líder do partido Chega!. / Foto: D.R.

    Se o almoço era para garantir o apoio de Ventura, então aquilo correu mal para o candidato e para o empresário que pagou a conta do almoço – não creio que Mário Ferreira, Gouveia e Melo e Ventura tenham feitos as contas da refeição à moda do Porto para dividirem entre os três.

    Só que, caros leitores, acredito que o Acordo da Carlota foi precisamente esse: não haver um apoio de Ventura a Gouveia e Melo, sendo precisamente esse o único e verdadeiro apoio que Ventura poderia dar. Como assim? Ora – e aqui reside a ironia da coisa –, foi o próprio Ventura que acabou por revelar essa estratégia e que legitima todo o meu pensamento.

    Durante o debate presidencial, na RTP, perante Gouveia e Melo, André Ventura, ao analisar as sondagens que o davam com o vencedor da primeira volta, foi mais longe e acrescentou o que ele achava que iria acontecer depois: “(…) admito, numa segunda volta, possa acontecer o contrário. Entendo que uma maioria se junta à volta de Gouveia e Melo, Marques Mendes, de António José Seguro. (…) Na segunda volta, quem for o adversário, também vai ser curioso ver o que é que alguns partidos vão fazer. Porque, se for Gouveia e Melo, o PSD vai apoiar Gouveia e Melo? Se for Marques Mendes, o Partido Socialista vai apoiar Luís Marques Mendes?”

    Foto: D.R.

    Realmente, imaginemos que, em Agosto, André Ventura oferecia o seu apoio directo a Gouveia e Melo. O que teria acontecido a seguir? Isso faria do militar o candidato da Direita Radical, perdendo os apoios na direita conservadora e até nos socialistas menos inclinados à esquerda. Assim, sem o apoio directo de Ventura, Gouveia e Melo pode continuar a dizer que é o candidato independente e moderado. Não será ele o perigoso extremista, contra o sistema, que iria perder numa segunda volta contra um candidato moderado do PSD ou do PS.

    Agora, meus senhores, digam-me lá se, perante estes factos óbvios e claros do ponto de vista analítico político nacional, estarei errado em pensar que isto não foi discutido de forma natural e óbvia por Ventura e Gouveia e Melo à frente de Mário Ferreira? Posso permitir-me a imaginar que o almoço na Carlota foi precisamente para fazer um acordo em que André Ventura avançaria então como uma “lebre” à extrema da Direita, que ganharia na primeira volta, mas perderia na segunda. Assim, Gouveia e Melo precisa agora de passar à segunda volta, a 18 deste mês, vencendo Marques Mendes e Seguro, para ser depois o Presidente da República, eleito na segunda volta, a 8 de Fevereiro, contra Ventura. E tomará posse a 9 de Março. Algo já combinado desde Agosto passado.

    Esse é, para mim, o Acordo da Carlota. Mas isto é apenas uma crónica, não uma notícia. 

  • Como Soares e os militares escolheram Ramalho Eanes

    Como Soares e os militares escolheram Ramalho Eanes


    As primeiras eleições Presidenciais em democracia irão cumprir 50 anos em Junho do próximo ano, tendo resultado na eleição do general Ramalho Eanes como o primeiro Presidente da República após o 25 de Abril de 1974. Agora que estamos na iminência de voltar a ter um militar em Belém, convém lembrar como se deu a escolha de Eanes pelos militares e políticos de então.

    Para tal, servimo-nos de fontes públicas relacionadas com alguns dos principais protagonistas. Comecemos com o líder do PS, Mário Soares, que nas entrevistas a Maria João Avillez contou como tratou o assunto durante um almoço com Melo Antunes, Vítor Alves e Vasco Lourenço, no Hotel Rex, – que ainda hoje existe na Rua Castilho. É uma informação que podemos encontrar página 24 do livro “Democracia”, edição Círculo de Leitores, 1996.

    António Ramalho Eanes. / Foto: Presidência da República

    Os convivas do almoço falaram sobre a questão presidencial e, apesar do nome de Soares até ser uma opção, ainda assim o então líder socialista achava que “o País ainda não estava pacificado; as instituições eram débeis; o Partido Comunista – e os seus aliados, civis e militares – detinham ainda um poder forte”.

    Para Soares, não havia dúvidas: o Presidente da República tinha de ser um militar. Quem? Sobre isso, Soares não quis indicar um candidato específico, mas permitiu-se a mencionar aos militares os nomes que o PS estaria disposto a aceitar como os “possíveis”: Costa Brás, Firmino Miguel, Pires Veloso e Ramalho Eanes.

    Soares não diz – nem a jornalista perguntou (ou se perguntou, depois não o escreveu na entrevista) – em que dia terá sido esse encontro. Mas podemos sempre inferir que foi após as primeiras eleições gerais, a 25 de Abril de 1976, aquelas que o PS venceu, embora sem maioria absoluta. E o que nos permite pensar nisso? Por causa daquilo que Soares afirmou a Maria João Avillez quando justificou o primeiro nome, Costa Brás, que era então ministro da Administração Interna e “responsável pelo êxito logístico da realização das primeiras eleições livres”. Portanto, o nome de Costa Brás estava em alta na “bolsa” política após essas eleições.

    Soares disse sobre Firmino Miguel, ministro da Defesa no II Governo Constitucional, que era um militar “com o qual o PS se entendera sempre bem” e, quanto a Pires Veloso, Comandante da Região Militar do Norte, apoiava-o por ser “o nosso principal aliado no Norte, nas lutas contra a ameaça comunista”. Finalmente, Eanes, porque alcançara o seu estatuto público como o militar do 25 de Novembro de 1975 e era então Chefe de Estado-Maior do Exército.

    O que se seguiu após deste almoço pode ser depreendido ao lermos o livro-entrevista de Vasco Lourenço a Maria Manuela Cruzeiro – “Do Interior da Revolução”, Âncora Editora, 2009. Contou o actual presidente da Associação 25 de Abril, na página 483, que não tinha uma opinião positiva em relação a Pires Veloso: “Depois do 25 de Novembro, em que ele se inseriu perfeitamente no Grupo dos Nove, considero que se ligou a forças pouco democráticas, por mais que apregoassem o contrário, enveredando por procedimentos, no Norte do País, francamente reaccionários e anti-25 de Abril”, afirmou.

    É então, na sequência desta crítica a Pires Veloso, que, sem que Maria Manuela Cruzeiro tivesse necessidade de mencionar a entrevista de Maria João Avillez a Soares, Vasco Lourenço contou um “episódio interessante” sobre Pires Veloso. E que episódio era esse? Precisamente como se escolheu o militar que deveria ser candidato a Presidente da República em 1976.

    Conta Vasco Lourenço que, em data não mencionada, teve um encontro, no Forte de S. Julião da Barra, com mais oito membros do Conselho da Revolução, militares do Exército, mandatados para encontrar um candidato a Presidente da República, já que o então Presidente, Costa Gomes, não desejava continuar no cargo que lhe tinha sido entregue após a demissão de Spínola, no 28 de Setembro de 1974 – uma data quase esquecida, essa, a da “Maioria Silenciosa”.

    Relata Vasco Lourenço que, “após alguma discussão, onde não se vislumbrava uma solução”, Pires Veloso deu “um passo em frente” e disponibilizou-se para “se sacrificar”. Vasco Lourenço, que achava Pires Veloso “um homem de mão” do líder do então PPD, Sá Carneiro, sorriu e disse que não era necessário esse “sacrifício”. Votaram então, de braço no ar, em duas hipóteses: Costa Brás ou Ramalho Eanes. Este último, igualmente presente nesse encontro, foi escolhido com sete votos a favor e dois contra. Os votos contra tinham sido de Vasco Lourenço, que queria manter Eanes à frente do Exército, e o outro fora do próprio Eanes.

    Mas Pires Veloso tem uma outra memória de como decorreu a discussão que levou àquela votação. Contou ele na sua autobiografia “Vice-Rei do Norte – Memórias e Revelações”, Âncora, 2008, (pág. 431), que o seu nome na lista de preferência de Mário Soares até era o segundo, atrás de Firmino Miguel e antes de Costa Brás. Eanes era o último da lista. Recorda o Vice-Rei do Norte que foi chamado, com um dia de antecedência, para uma reunião em São Julião da Barra, só com conselheiros do Exército.

    “Quanto perguntei o motivo dessa reunião, foi-me dito que ia ser escolhido quem devia ser o próximo Presidente da República das Forças Armadas, tendo eu exclamado: ‘Que democracia é esta?’ Ninguém me informou de que esta reunião havia sido convocada para dar resposta à proposta do Partido Socialista”, escreveu na sua autobiografia.

    O então Presidente da República e a família no Jardim da Cascata, no Palácio de Belém (c. 1978). / Foto: Presidência da República

    De acordo ainda com as palavras de Pires Veloso, a reunião teve início “com o Melo Antunes a dizer que se tornava necessário escolher o Presidente da República e que, no seu entender, devia usar óculos escuros, ser magro, ter patilhas compridas, ser sério, gostar muito do camuflado”.

    O Vice-Rei do Norte não estava para meias palavras, interrompeu o conselheiro e atirou: “Ó Melo Antunes, diga que o Presidente da República tem de ser o Eanes!” Mas essa tirada não impediu Melo Antunes de prosseguir como se nada tivesse passado, “a bater sempre na mesma tecla, com ares de dominador”, descreveu na sua obra.

    Por volta do meio-dia, Pires Veloso disse que tinha de sair e a reunião foi interrompida. Conta que, à saída, Eanes o abordou dizendo que estavam todos “na mesma barca” e que “um de nós tem de se lixar”, ao que o conselheiro respondeu: “Lixe-se o senhor!”, e foi à sua vida, pois tinha de estar em Cascais às 13h00. A reunião retomou da parte da tarde, com Pires Veloso a recordar o momento como “uma farsa, onde o Melo Antunes ia ditar a sua sentença, não lhe prestei grande atenção, nem me preocupei minimamente com o resultado da votação”.

    Ernesto Melo Antunes, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, fotografado num evento oficial em 1975. Ramalho Eanes afirmou que o ideólogo do Movimento das Forças Armadas de 1974 é “pai da democracia”. / Foto: D.R. 

    Em jeito de conclusão sobre este momento decisivo na escolha do futuro chefe de Estado de Portugal, Pires Veloso ainda acrescentou na autobiografia que “eu também devo ter votado no Eanes, mas nessa altura ainda acreditava nele”, tendo ficado guardado na memória a capacidade de Melo Antunes em “dominar as pessoas, nas reuniões e assembleias”.

    Mas a história não acabou aqui. O que se seguiu é ainda mais revelador dos bastidores políticos na escolha do primeiro candidato vencedor à Presidência da República. Apesar de Vasco Lourenço não mencionar a data da reunião em S. Julião da Barra, o mais certo é esta ter acontecido na noite de terça-feira, 27 de Abril de 1976, pois o que se seguiu está publicado nos jornais da época, embora sem os detalhes que saíram das entrevistas separadas no tempo a Mário Soares e Vasco Lourenço.

    Ainda na voz de Vasco Lourenço, e segundo a sua versão depois da reunião em S. Julião da Barra, Pires Veloso “foi para Cascais, para uma estalagem de um familiar do Tomás Rosa onde estavam reunidos alguns dos militares da Força Aérea. Chegou e informou do que se passara. De imediato telefonaram a alguém do PPD, penso que ao Marcelo Rebelo de Sousa – linda peça! – que contactou o Sá Carneiro”. Pires Veloso, por sua vez, na autobiografia, nunca deu qualquer explicação do que fez nessa noite após a reunião.

    O major-general António Pires Veloso foi uma figura central no 25 de Novembro de 1975.
    / Foto: Arquivos RTP

    Explicou ainda Vasco Lourenço que o líder do PPD foi a correr, de manhã cedo, para a frente das instalações do Estado-Maior do Exército, a Santa Apolónia, onde abordou Eanes à entrada, dizendo-lhe que era o preferido do partido e queria fazer o convite oficial para ser o candidato do PPD a Belém. Assim, o líder do PPD ultrapassou o adversário político socialista, Mário Soares, colocando-se na liderança para a escolha do futuro Chefe de Estado.

    A Imprensa foi também avisada dessa decisão, sendo esta uma jogada política de antecipação que permitia a Sá Carneiro, que ficara em segundo lugar nas eleições realizadas dois dias antes, associar o seu nome, e do partido, ao candidato a Presidente da República que tinha mais hipóteses de ser o vencedor, já que contava com o apoio de uma parte importante dos militares do Conselho da Revolução e do PS.

    “Está mesmo a ver a minha cara, quando cerca das onze horas telefono ao Mário Soares a dar-lhe conhecimento da nossa decisão e ele, pouco satisfeito, me informa que a rádio já anunciara o convite do PPD ao Eanes!”, comentou Vasco Lourenço na entrevista a Maria Manuela Cruzeiro.

    Vasco Lourenço, Capitão de Abril e um dos rostos do Conselho da Revolução. / Foto: Arquivos RTP

    Voltemos a Mário Soares e à entrevista a Maria João Avillez: “Quando os militares me informaram que a preferência entre os quatro militares propostos recaíra no nome de Eanes, reunimos a direcção do PS, na Rua da Emenda, onde se combinou que Salgado Zenha e eu próprio nos encarregaríamos de fazer o convite formal do PS a Eanes, para que se candidatasse às eleições presidenciais”. Soares seria surpreendido com a notícia do apoio de Sá Carneiro, que surgiu “horas depois”, segundo se recordava. Para Soares, a fuga da informação teria ocorrido ainda nessa noite, via Jaime Gama, que teria encontrado “ocasionalmente” Ângelo Correia, a quem disse que Eanes foi o nome escolhido pelo PS.

    A jornalista Maria João Avillez, na entrevista a Soares, chamou a atenção para o facto de que a sua própria versão “não é essa”. Soares adiantou então que “noutra versão, que não posso afirmar como segura, terá sido Rui Vilar que deu a notícia a Marcelo Rebelo de Sousa”, sendo que Soares soube depois do apoio do PPD “pela imprensa da manhã”.

    Há um nome comum que se destaca nestas duas versões, baralhadas nas brumas da memória pelos avós da democracia Soares e Vasco Lourenço e que é Marcelo Rebelo de Sousa, o actual ocupante da cadeira de Belém.

    Marcelo Rebelo de Sousa aos 26 anos, deputado à Assembleia Constituinte. 1975 / Foto: Arquivo Fotográfico da Assembleia da República

    E onde estava Marcelo quando tudo isto aconteceu? Naquela altura não havia telemóveis para mandar mensagem SMS, não havia aplicações como WhatsApp ou Telegram para trocar mensagens privadas a altas horas da noite. Se alguém telefonou para Marcelo desde a taberna de Cascais, será que ligou para sua casa? Ou para a sede do PPD? Para um restaurante? Ou para o Expresso, a sede informal do PPD?

    Uma consulta on-line aos arquivos do jornal Diário de Lisboa permite verificar duas coisas que confirmam factos cruzados nesta história de bastidores: numa pequena informação na primeira página da edição de quarta-feira, 28 de Abril (a publicação era vespertina, saliente-se, ou seja, um jornal colocado à venda depois do meio-dia, com as notícias frescas dessa manhã), podemos ler, debaixo do título “A candidatura de Ramalho Eanes”, que “o apoio do PPD foi confirmado esta manhã ao ‘DL’ depois de anunciado, na madrugada de hoje pela agência ANOP”.

    Manchete do Diário de Lisboa de 28 de Abril de 1976. / Foto: D.R.

    No interior da mesma edição do dia 28 de Abril, na página 5, temos a notícia, de que, “ontem à noite”, na SEDES – Sociedade de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social –, fundada em 1970 por Rui Vilar, tivera lugar um debate para análise dos resultados eleitorais “que contou com a participação de Marcelo Rebelo de Sousa (PPD) e Medeiros Ferreira (PS)”.

    Notícia no Diário de Lisboa de 28 de Abril de 1976. / Foto: D.R.

    E se mais dúvidas houvesse, eis que Marcelo Rebelo de Sousa, em entrevista a Vítor Matos para a biografia de Novembro de 2012, na Esfera dos Livros (pág. 314), confirmou que, depois da sessão na SEDES, perto da sede do Expresso, na Duque de Palmela, cruzou-se com Rui Vilar que lhe contou do fumo branco decisão em S. Julião da Barra. Marcelo ainda pensou ir comer uma sanduíche no restaurante Pabe antes de seguir para a reunião que estava a decorrer na sede do PPD, não longe dali, no cimo da Duque de Loulé. Mas, com ele, estava António Patrício Gouveia que insistiu para que fossem imediatamente informar Sá Carneiro.

    Na Duque de Loulé ainda se discutiam os nomes de outros possíveis candidatos a apoiar, com Pires Veloso e o primeiro-ministro, almirante Pinheiro de Azevedo, como hipóteses. Assim que Sá Carneiro percebe o valor da informação, rapidamente confirma com Pires Veloso através de um telefonema e informa o partido da decisão. Helena Roseta, qual pitonisa, avisa que “ainda se vão arrepender”. E assim aconteceu, o que levou depois Sá Caneiro a ter de apoiar Soares Carneiro em 1980.      

    Portanto, cruzando as memórias de Mário Soares com as de Vasco Lourenço e juntando ainda os factos jornalísticos públicos relativos a Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Vilar – este tinha sido eleito deputado do PS dias antes –, vemos que a história de bastidores mais aproximada da verdade dos factos coloca Mário Soares no almoço, no Hotel Rex, presumivelmente após as eleições de domingo, 25 de Abril de 1976, seguindo-se a reunião dos militares em S. Julião da Barra, na noite de terça-feira, 27, com a informação, ainda nessa noite, a resultar na conversa entre Rui Vilar e Marcelo Rebelo de Sousa e, daí, com Marcelo a ir até à sede do PPD, então na Duque de Loulé, onde estava Sá Carneiro numa reunião pós-eleitoral e, após ser informado, decidiu comunicar aos seus militantes – alguns chorosos – que o candidato do PPD já não seria Pires Veloso, mas tinha de anunciar o apoio do partido a Eanes, com a notícia a ser enviada para a ANOP, nessa mesma noite, a tempo de sair na rádio e nos jornais vespertinos de quarta-feira, 28, levando Soares a ser ultrapassado pelo timing político de Sá Carneiro.

    Francisco Sá Carneiro. / Foto: D.R.

    Quem se mostrou bastante crítico desta manobra tácita de Sá Carneiro e achava que o apoio do PPD a Eanes era um “beijo de morte” ao candidato foi a embaixada dos EUA em Lisboa, onde estava Frank Carlucci, futuro director-adjunto da CIA. Num telegrama diplomático norte-americano, datado de 29 de Abril, podemos ler que a embaixada em Lisboa era da opinião de que “o apoio do PPD a Eanes vai prejudicar mais do que ajudar. Uma vez mais, o PPD reagiu de forma apressada e agressiva face a uma situação que percebeu ser ameaçadora”.

    Excerto de um telegrama diplomático norte-americano de 29 de Abril de 1976.

    E a embaixada liderada por Carlucci sabia bem do que falava, pois o anúncio de Sá Carneiro adiou a decisão do PS que, finalmente, acabaria por dar o seu apoio público a Eanes apenas a 10 de Maio, quatro dias antes do general ter feito o anúncio público a sua candidatura à Presidência da República.

    E, como no final dos filmes, aqui fica um resumo do que aconteceu aos principais protagonistas nos anos seguintes:

    Eanes foi eleito, a 27 de Junho de 1976, como o primeiro Presidente da República após o 25 de Abril, com o apoio do PS, PPD e CDS. Seria reeleito a 7 de Dezembro de 1980, mas sem o apoio do então líder do PPD/PSD e primeiro-ministro, Sá Carneiro, morto em Camarate três dias antes.

    O então Presidente da República, António Ramalho Eanes, dando posse ao VI Governo Constitucional, liderado por Francisco Sá Carneiro; a assinar, o ministro das Finanças, Aníbal Cavaco Silva, que viria a ser eleito Presidente da República em 2006. (3 de Janeiro de 1980) / Foto: D.R. / Presidência da República

    Mário Soares foi o primeiro Presidente da República civil após o 25 de Abril após ter vencido as eleições de 1986 contra o ex-líder do CDS, Freitas do Amaral, sendo reeleito em 1991. Perdeu uma terceira eleição em 2006 contra o ex-primeiro-ministro do PSD, e ex-ministro das Finanças do governo de Sá Carneiro, Cavaco Silva, que assim sucedeu ao ex-líder do PS, Jorge Sampaio, e foi reeleito em 2011.

    Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito Presidente da República em 2016 e reeleito em 2021.

    No início de 2026, 50 anos depois da eleição de Ramalho Eanes, Portugal está na iminência eleger um segundo militar como Presidente da República após o 25 de Novembro, caso não encontre soluções nas hipóteses civis.