Agora que Portugal se despede de António Lobo Antunes, falecido no dia 5 de Março, fomos aos arquivos recordar e, sobretudo, esclarecer um episódio registado na Imprensa portuguesa e que provocou um equívoco sobre a relação entre Lobo Antunes e José Saramago, o prémio Nobel da Literatura de 1998.
Estamos a falar de uma entrevista a António Lobo Antunes, à revista Ler, na edição de Maio de 2008, assinada por Carlos Vaz Marques. Nessa conversa, o jornalista perguntou a Lobo Antunes como era a sua relação com José Saramago, ao que o escritor respondeu: “Eu não tenho nada a ver com o que ele escreve. Nada. Conheço muito mal a obra. Não tem nada que ver com a pessoa. O homem é da idade do meu pai. Não tem nada que ver com ele. Espanta-me sempre esse matrimónio. Isso, para mim, não faz qualquer sentido”.

Carlos Vaz Marques insistiu no tema e procurou esclarecer se existia, ou não, uma “alegada rivalidade entre os dois”, ao que Lobo Antunes respondeu, de forma taxativa: “Não. Eu não sinto nenhuma”, mas acrescentou: “Mostraram-me uma vez uma fotografia em que o homem atirava ao chão um livro meu. Deu-me vontade de rir. Mas o homem nem sequer me é antipático. Eu não o conheço”.
Era uma acusação séria: José Saramago, prémio Nobel da Literatura, era acusado de ter atirado ao chão um livro de um outro escritor português que foi sempre considerado igualmente merecedor da mesma distinção e reconhecimento internacional. E isso foi dito pelo próprio autor visado no episódio.
Ora, Carlos Vaz Marques foi depois entrevistar José Saramago, para o número do mês seguinte da revista Ler, e procurou esclarecer o episódio relatado por Lobo Antunes. Começou então por perguntar ao prémio Nobel de 1998 se, ao contrário de Lobo Antunes que dizia não ler obras de Saramago, ele lia os romances do outro escritor.

Saramago disse que “ao princípio, sim”, até que os lia e, depois de um pausa, afirmou: “Pois, para quem nunca leu um romance meu, ele desdobrou-se em opiniões a meu respeito, como escritor. Tem todo o direito a não ter lido e a continuar a não ler, até ao fim da vida, uma só linha minha. Mas, em princípio, isso retira-lhe o direito de julgar”.
Saramago não se ficou por aqui na apreciação e rematou: “E há uma outra coisa, em toda esta história lamentável: eu nunca me comportei, em relação ao Lobo Antunes, como ele em relação a mim”. Foi então, na sequência desta resposta, que Carlos Vaz Marques lembrou a acusação de Lobo Antunes feita na entrevista da edição anterior da revista Ler: “Ele diz, nessa mesma entrevista, que há uma fotografia do José Saramago atirando um livro dele ao chão”.
O Nobel português exprimiu toda a sua indignação, que ficou registada na entrevista publicada no número 70 da Ler: “Que disparate é esse? Que disparate é esse, pá?! Ele não precisa de inventar coisas para reforçar a sua animadversão em relação a mim. Não invente! Quer dizer, você que me conhece razoavelmente, diga-me: é capaz de imaginar-me a atirar ao chão um livro de um suposto rival ou competidor, fosse ele português, espanhol, italiano, uruguaio ou o que quer que fosse? Isso não é infantil? A raiva expressa dessa maneira?”

Perante uma negação enfática de Saramago, Carlos Vaz Marques ainda insistiu e lembrou o detalhe da fotografia: “Segundo António Lobo Antunes isso foi fotografado”, afirmou. Ao que o escritor, acusado de ter atirado o livro ao chão, perguntou ao jornalista: “E onde é que está esse documento que ninguém viu? Não há nenhum documento fotográfico porque a situação que o documento fotográfico supostamente ilustra não existiu”.
Carlos Vaz Marques calou-se. Não tinha mais argumentos, não vira nenhuma fotografia e sua pergunta baseou-se apenas na declaração de Lobo Antunes e, depois, numa confrontação com Saramago, sem provas daquilo que Lobo Antunes denunciara.
E a história ficou assim, no ‘diz que disse’. Saramago faleceu dois anos depois, a 18 de Junho de 2020, com a suspeita de que um dos escritores estaria a mentir em relação ao outro. Agora, foi Lobo Antunes que inventou a história? Ele viu mesmo uma foto onde Saramago atirava um livro seu ao chão? Ou será que Saramago realmente atirou um livro de Lobo Antunes ao chão, mas como sabia que não havia nenhuma foto, podia negar que o fizera? Embora Carlos Vaz Marques nunca o tivesse esclarecido, a história tem uma explicação.

Na origem deste episódio está um artigo publicado no semanário Tal&Qual, no dia 24 de Dezembro de 1998, pouco depois de José Saramago ter recebido o prémio Nobel das mãos do Rei da Suécia. A reportagem contou como um livro de Lobo Antunes foi “atirado ao chão” por Saramago, num momento documentado com fotos.
O semanário Tal & Qual, conhecido pelo seu estilo irreverente e por reportagens com algum humor, preparou em 1998 uma edição especial de Natal com uma ideia simples: entregar presentes simbólicos e inesperados a várias figuras públicas. Algumas dessas ofertas tinham um tom claramente satírico — como discursos de Mário Soares para Jorge Sampaio ou uma fotografia de Pinto da Costa para Vale e Azevedo —, num espírito que misturava reportagem e brincadeira.
O acaso acabou por criar uma oportunidade particular. José Saramago, encontrava-se hospedado no Hotel Altis, perto da redacção. O jornalista (por acaso, autor destas linhas), vestiu-se de Pai Natal e foi apresentar-lhe um presente inesperado: o embrulho continha um exemplar do primeiro volume do “Livro de Crónicas” de António Lobo Antunes, recém-lançado e comprado, poucas horas antes, na livraria Bucholz.

A cena tinha algo de quase teatral. O escritor parecia um menino pequenino, com olhos a brilhar, quando abriu o presente com curiosidade. Durante alguns instantes, tudo parecia decorrer com naturalidade. Mas quando percebeu qual era o livro e quem era o autor, a reacção mudou. Saramago devolveu o volume, deixando claro que não queria aceitar aquela oferta, que interpretou como uma provocação.
Não o atirou ao chão. A cena da devolução do livro foi captada pela lente atenta do fotojornalista José Carlos Pratas. Vê-se claramente que o Nobel simplesmente recusou o livro e devolveu-o ao jornalista do Tal&Qual.
Acontece que este episódio, quando foi depois relatado no artigo do semanário teve um título que seria hoje considerado como ‘inaceitável’ num ‘Crivo da Verdade’ do ContraProva: “Atirado ao chão”.

A escolha do título induzia o leitor ao engano, pois dava a entender que José Saramago atirara mesmo para o chão um livro de António Lobo Antunes. Só que isso não batia certo com a sequência registada pelas fotos que ilustravam o texto.
As três imagens do texto com o título “Atirado ao chão”, mostrava toda a sequência do sucedido: a entrega do livro embrulhado, seguido do momento em que Saramago abre o presente e, finalmente, a devolução da prenda ao jornalista vestido de Pai Natal. O “Livro de Crónicas” de Lobo Antunes nunca foi atirado ao chão, embora o texto do Tal&Qual não o explicitasse.
O título, contudo, para quem conhece a obra de Saramago, era uma alusão ao seu livro de 1980, “Levantado do Chão”. É uma obra sobre a qual, em entrevista ao jornal Tempo, em Novembro de 1981, Saramago afirmou: “O livro chama-se ‘Levantado do Chão’ porque, no fundo, levantam-se os homens do chão, levantam-se as searas, é no chão que semeamos, é no chão que nascem as árvores e até do chão se pode levantar um livro”.

Contudo, a brincadeira de Natal do Tal&Qual não foi tão evidente aos olhos de Lobo Antunes, ficando-lhe na memória apenas o que estava no título, embora as fotos de José Carlos Pratas contrariassem a ideia de que o livro fora atirado de forma física para o chão. Na realidade, era uma metáfora, numa alusão à obra “Levantado do Chão”, acentuando a recusa de Saramago em aceitar um livro que, segundo ele, também “se levantam do chão”.
A história do Tal&Qual aconteceu em 1998, dez anos antes das entrevistas de Carlos Vaz Marques na revista Ler. É natural que, passado uma década entre os dois momentos, as memórias de ambos os escritores se tenham confundido. Na realidade, nenhum deles estava a mentir. Para Lobo Antunes, Saramago atirara mesmo um livro dele ao chão. E havia fotos.
Saramago, aparentemente, não se recordava de, um dia, ter recusado receber um livro de Lobo Antunes das mãos do Pai Natal. Talvez, caso se lembrasse do episódio, pudesse ter explicado a Carlos Vaz Marques que até poderia ter reagido de uma forma mais ‘desportiva’ à provocação do Tal&Qual. Afinal, acabara de receber o prémio Nobel e preparava-se então para uma visita a Cuba. Poderia ter optado por agradecer e, longe da vista, atirar o livro ao chão. Sem fotógrafos por perto.

Fica aqui o esclarecimento necessário em jeito de homenagem a Lobo Antunes: Saramago nunca o deitou o chão. E, do chão, Lobo Antunes levantou muitos mais livros. O equívoco que Carlos Vaz Marques nunca esclareceu, fica agora explicado.
Por fim, o autor destas linhas, ainda hoje, guarda em casa o “Livro de Crónicas” de Lobo Antunes que Saramago lhe ofereceu no Natal de 1998, ano do Nobel. Está lido e relido, com uma memória de ‘Arquivo Vivo’. Para que nunca se apague.























































