À saída do recinto José Alvalade, um adepto brasileiro do Corinthians caçoava com razão “deu até para cochilar”. Gerir jogos com o vagar de quem sobe, quando na frente do marcador, é um costume táctico do nosso treinador mirandês.
Até lá chegar, à vantagem, vi uns rasgos do meu quase homónimo Zalazar, a quem ainda não topei o furor guerreiro trazido do Minho e mais arreigado dos genes uruguaios, os mesmos estampados na língua marota e nos pezinhos espertos de Maxi Araújo.
De resto, ainda muito poucochinho de vitalidade e entrosamento, de jogo da bola. Este novo Sporting vai cumprindo os mínimos exigíveis a atletas de alta competição e pagos como CEOs. Um treinador e sua equipa técnica são os maestros, é deles que vem a batuta e a leitura de jogo e do rendimento dos seus pupilos, mas a raça é ou não é matéria prima de cada um.
Fresneda, por exemplo, entrou titubeante quando chegou à casa do leão, porém fez-se um jogador endiabrado e fiável. Faz das pernas coração e sai de campo enlameado e a pingar. Além de ganhar jogos ou dar tudo por vencê-los, requer-se aos artistas vontade e seriedade. Galgas ou dias menos felizes, toca todos. Dormir na formatura ou pôr a clientela a cabecear de tédio é que não, meus caros.
Outro pedido aos cavalheiros que domam ou instigam as feras do reino do leão é tratar de fazer das bonitas palavras expostas nas bancadas em letreiros uma prática arreigada. Altimira creio ser um leitor atento da ideologia do clube que aliás se repete onde haja estádios. É um estádio de espírito, vestir a camisola e dar o litro e o caparro. Fazer dos adeptos chaparros ou tratá-los a ansiolíticos é gozar com quem paga e por vezes falta ao trabalho.
Tiago Salazar rumo ao estádio.
Ando mais convencido das aptidões do grego matulão para ombrear com o cafeteiro mandrião na titularidade. Sinto umas saudades danadas do húngaro sueco tractor. Foram dois anos de puro deleite. Gyokeres são cometas e eclipsam-se. Por essas e por outras o futebol em Portugal é uma volúpia do aborrecimento.
A parte mais divertida de ir à bola, nestas condições, está no patuá das bancadas, nas recolhas de vocabulário e na permissão de um cronista fumar um charuto.
Estava há dias a ver o documentário sobre José Mourinho na Netflix quando o ouvi, no segundo episódio, a falar do período mais difícil que viveu como treinador adjunto no Barcelona, em 1996. Contou que foram três meses difíceis, em que faleceu a sogra, irmã e, finalmente, nasceu a filha, Matilde. Mourinho acrescentou então: “Foi um período incrivelmente difícil, mas eu estava absolutamente a fazer tudo para merecer estar naquele nível numa situação difícil”.
O treinador frisou depois o esforço que fez para se destacar, tendo trabalhado duro de modo a deixar de ser visto apenas como um simples treinador adjunto. Ao ouvir aquilo, a minha memória foi transportada para um episódio que tenho de partilhar: penso que terei sido responsável pelo momento em que Mourinho tomou consciência que, ser adjunto de Bobby Robson, no Barcelona, afinal não era algo assim tão especial, pelo que decidiu deixar de ser um tipo simpático e começar a trabalhar, no duro, para se tornar no melhor treinador do mundo.
Imagem: Netflix
Sei que dito assim soa a presunção da minha parte, mas não, não me considero um ‘Mourinho’ do jornalismo ou digno de ostentar o título de “special one”, embora tenha tido os meus feitos profissionais únicos. Porém, deixem-me apresentar os factos e depois façam o vosso julgamento.
Recuemos então a 1996, há 30 anos. Estava eu na cidade do Porto, a trabalhar, desde Abril, como colaborador do semanário Tal&Qual. Recebia à peça e conseguia colocar uma média de dois textos por semana no jornal. Eram trabalhos sobre a política local e histórias de interesse social.
A empresa proprietária do jornal tinha ainda uma revista de televisão, a TV Mais, onde, de vez em quando, devido ao facto de haver algumas vedetas que iam ao Porto, também conseguia publicar peças.
Bola, 24 de Junho de 1996
No dia 23 de Junho de 1996, fomos eliminados nos quartos-de-final do Euro96 com um golo de Poborsky, desfeiteando Vítor Baía. Assisti ao República Checa – Portugal integrado no grupo de jornalistas que viu o jogo na Câmara Municipal do Porto, com a presença do presidente da República, Jorge Sampaio, sendo então presidente da câmara, o socialista Fernando Gomes. Lembro-me bem da data, pois dificilmente poderia esquecer que depois do jogo fomos todos afogar as mágoas na folia da noite de S. João.
É nestes detalhes que encontro pontos de referências para datas e poder construir uma memória cronológica daquilo que se seguiu depois nessa altura. Posso cometer equívocos, mas para vos poder contar o resto, digo-vos que até fui, há dias, consultar jornais na hemeroteca de modo a confirmar alguns factos.
Assim, após a derrota no Euro96, Vítor Baía foi contratado pelo Barcelona, sendo anunciado a 5 de Julho. Bobby Robson e José Mourinho já estavam em Barcelona, tendo saído do FC Porto. Luís Figo jogava no Barcelona desde a época anterior. E, a 26 de Agosto de 1996, Fernando Couto foi também contratado pelo clube catalão, juntando-se aos dois colegas da selecção nacional.
Bola, 5 de Julho de 1996
Sei então que, a partir de Setembro de 1996, havia três jogadores portugueses no Barcelona, mais Robson e Mourinho, antigos treinadores do FC Porto. O mundo do jornalismo desportivo seguia com atenção os jogos em Espanha. Embora o Tal&Qual e aTV Mais tivessem outras áreas de interesse, pensei propor uma ida até Barcelona para fazer uma reportagem sobre os três jogadores portugueses ao serviço de um dos maiores clubes do mundo.
Apresentei a ideia ao director e dono da TV Mais, José Rocha Vieira, que também era proprietário do Tal&Qual. Perguntei se a revista suportaria despesas de viagem e alojamento para mim e um fotógrafo. O director disse que sim, mas havia um problema: será que eu iria conseguir convencer Figo, Baía e Couto a dispensar parte do seu precioso tempo livre para posar para uma sessão de fotos e darem uma entrevista a uma revista de televisão sem contrapartidas?
Nunca tinha pensado que iria haver qualquer problema nesse sentido. Dentro da minha ingenuidade, não me passava pela cabeça que teria de pagar a quem já auferia um bom salário. Ou aceitavam a entrevista, ou não aceitavam. Era simples. De qualquer modo, precisava de os contactar e combinar uma data antes de viajar do Porto até Barcelona.
Bola, 31 de Julho de 1996
Falei então, via telefone, com o departamento de Imprensa do Barcelona. Foram muito simpáticos, mas disseram-me que era difícil combinar com os três, sobretudo quando estavam a gerir uma agenda de vários pedidos para um outro jogador entretanto a destacar-se no clube. Era um tal de Ronaldo.
Acho que foi até por indicação do departamento de Imprensa que fiquei a saber que Figo, Baía e Couto iriam estar em breve no Porto para um jogo da selecção nacional, pelo que poderia tentar um encontro com eles ao hotel e combinar a entrevista de Barcelona. O clube não teria problemas em receber-me caso os jogadores aceitassem a entrevista.
O hotel era o Tivoli, que ficava perto de minha casa, não muito longe do Estádio do Bessa, na zona do Foco. Fui até lá, depois do jantar. Vi o Sá Pinto, um conhecido do tempo do liceu, vi o João Pinto a falar com o major Valentim Loureiro, e o Rui Costa a dar uma entrevista. Também vi o seleccionador, Artur Jorge, e, depois, finalmente, lá apareceram os ‘três mosqueteiros’ portugueses do Barcelona.
Bola, 27 de Agosto de 1996
Sentei-me com os três à minha frente, expliquei-lhes a minha ideia de reportagem e perguntei se concordavam. E se sim, quando seria a melhor altura para ir a Barcelona.
Guardo ainda bem vívidos detalhes do que aconteceu depois. Quando começaram a falar, pareciam miúdos a responder todos ao mesmo tempo. Apesar de sermos praticamente da mesma idade — Figo é apenas três meses mais novo do que eu —, senti-me como se fosse o único adulto na sala.
E, sim, pediram contrapartidas. Queriam saber o que oferecia a revista. Surpreendido, perguntei o que tinham em mente. Os três, quase de forma coordenada e, praticamente ao mesmo tempo, esticaram as mãos, destacando os pulsos. Queriam relógios. Relógios de luxo. Não me lembro de todas as marcas, mas nunca mais me esqueci que Luís Figo pediu um Tag Heuer. Recordo-me bem desse, pois era um que eu também apreciava.
Bola, 9 de Novembro de 1996
Estava incrédulo. Pensava: “Caramba, mas vocês não ganham já o suficiente para comprarem um relógio? São assim tão pobres?” Percebi depois, ao comentar com José Rocha Vieira, que era normal pedirem contrapartidas. Mas aquelas eram inaceitáveis e, portanto, não iria haver entrevista em Barcelona.
Então, e José Mourinho nisto tudo? Tantos detalhes e nada de Mourinho na história? Calma. Estes factos e datas foram importantes para que vejam agora como tudo vai fazer sentido. Lembram-se quando, no início do texto, mencionei que Mourinho teve uns meses difíceis no Barcelona? Houve a morte da sogra, da irmã e o nascimento da filha? Pois bem, este último detalhe, o nascimento da filha, permite-me então contar-vos, finalmente, aquilo que aconteceu depois entre mim e José Mourinho.
Através de uma pesquisa na Internet, podemos confirmar que a filha de José Mourinho, Matilde, nasceu no dia 4 de Novembro de 1996. Isso é público — já agora, é também o dia em que, em 1972, nasceu Luís Figo. Segundo os jornais que consultei na hemeroteca, confirmei que o Barcelona, nesse dia, empatou 0-0 em Gijón.
Bola, 5 de Novembro de 1996
Uma pequena notícia na Bola, a 6 de Novembro de 1996, diz que Figo, Couto e Baía viajaram para o Porto depois do jogo, num avião privado, desde Gijón. Portanto, isto confirma ainda que o nosso encontro, no hotel Tivoli, ocorreu antes do jogo da selecção nacional contra a Ucrânia, a contar para a qualificação do Mundial de 1998, que se disputou no Estádio das Antas, no dia 9 de Novembro — vencemos com um golo de Fernando Couto.
Digo isto porque guardo ainda na memória que, depois da conversa com os três futebolistas, telefonei para Barcelona para comunicar ao departamento de Imprensa que os jogadores não queriam dar entrevistas sem contrapartidas. Solícitos, ainda me propuseram que falasse com José Mourinho, para ver se ele os podia convencer a dar a entrevista.
Bola, 10 de Novembro de 1996
Não sei se me deram o número ou se estava por perto, mas, a dada altura, dei por mim a falar ao telefone com José Mourinho. Lembro-me da sua simpatia e modéstia. Ele queria, genuinamente, ajudar-me. Mas depressa percebemos ambos que a reportagem, nos moldes pretendidos, não poderia acontecer sem uma contrapartida.
Foi nessa altura que José Mourinho ofereceu-me uma última solução para eu poder ir a Barcelona: “Só se quiserem vir fazer uma reportagem comigo, pois fui pai há dias”, disse-me.
Mais Futebol, 4 de Novembro de 2021
Estou ainda a ver-me, ao telefone, sentado na mesa redonda da pequena sala do andar alugado, na Rua Conde de Vizela, no Porto, a falar com o treinador adjunto do Barcelona. Ele a oferecer-me a oportunidade para, sem necessidade de contrapartidas, receber-me em Camp Nou e fazer uma reportagem por ocasião do nascimento da sua filha. Mourinho acabara de ser pai pela primeira vez, era um português num dos maiores clubes do mundo. Acaso, isso não mereceria um investimento da TV Mais para uma deslocação?
Sabem o que respondi a José Mourinho? Querem mesmo saber? Pois bem, eu digo-vos.
Respondi-lhe: “Zé, se é só por causa de si, não vale a pena ir a Barcelona”.
E, pronto, o resto é História.
Imagem: Netflix
P.S. Tempos depois, Figo apareceu a fazer publicidade à Tag Heuer. Cruzei-me pessoalmente com José Mourinho, em 2007, quando saiu do Chelsea e esteve a viver uns tempos em Setúbal, antes de ir para o Inter de Milão. Mas, não me lembrei de lhe dizer era eu o jornalista que não achou relevante ir a Barcelona entrevistá-lo depois de ter sido pai. Creio que, se lhe tivesse dito, ele até me teria agradecido não ter ido, pois devido à minha recusa, encontrou dentro de si a vontade extra de, um dia, fazer-me engolir aquelas palavras. Afinal, vistas as coisas nessa perspectiva, se eu tivesse ido a Barcelona, em 1996, teríamos perdido o melhor treinador do mundo!
Este texto é a continuação da primeira parte que pode ser lida aqui.
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Match-fixing, jovens atletas e a erosão silenciosa da verdade desportiva
No artigo anterior, a questão ficou colocada no plano da publicidade, dos patrocínios e da normalização das apostas dentro do espectáculo desportivo. Aí, o problema era sobretudo este: até que ponto pode o desporto vender a sua credibilidade simbólica a uma indústria que vive da aposta repetida, do impulso e, muitas vezes, da vulnerabilidade do apostador?
Mas essa é apenas a primeira parte do problema.
Porque as apostas não estão apenas à volta do jogo, podem tentar entrar dentro dele.
E é aqui que a discussão deixa de ser apenas sobre patrocínio, publicidade ou dependência familiar, para passar ao território mais sensível do direito do desporto – a verdade desportiva.
E depois há a outra face, talvez ainda mais grave para o direito do desporto: a captura do atleta.
As apostas desportivas não ameaçam apenas quem aposta, ameaçam também quem joga.
Sobretudo quando falamos de jovens atletas, jogadores de escalões inferiores, modalidades com menor visibilidade, contratos precários, prémios baixos e carreiras frágeis. É aí que a promessa de dinheiro rápido se torna mais perigosa. Não é preciso comprar uma final europeia; basta comprar um ponto, uma dupla falta, um cartão amarelo, um canto, uma substituição, uma derrota discreta num torneio menor ou num campeonato periférico.
A corrupção moderna do desporto nem sempre entra pela porta principal.
Não precisa de alterar um campeonato inteiro, basta manipular um momento estatisticamente apostável.
Esse é o perigo das apostas contemporâneas. Já não se aposta apenas no resultado final. Aposta-se em tudo, golos, cantos, cartões, faltas, pontos, sets, substituições, intervalos, micro-eventos. Quanto mais se fragmenta o jogo em mercados de aposta, mais se multiplicam as oportunidades de manipulação.
Aliás, o legislador português já deu nome a esta realidade. A Lei n.º 14/2024, de 19 de janeiro, chama «incidências» às acções ou acontecimentos susceptíveis de aposta, incluindo o vencedor, o resultado, os golos ou pontos, os cartões, os cantos e os livres, finais ou parciais. E define a manipulação de competições como a alteração irregular do resultado ou do próprio desenrolar da competição destinada a eliminar, no todo ou em parte, a sua natureza imprevisível para obter uma vantagem indevida. O direito percebeu, portanto, que não é preciso comprar o resultado final para corromper o jogo.
O direito do desporto tem de abandonar a ingenuidade.
A verdade desportiva não é um ornamento dos regulamentos, mas o centro de tudo. Sem verdade desportiva não há competição; sem competição leal não há mérito; sem mérito não há resultado digno desse nome e, sem confiança pública no resultado, o desporto deixa de ser desporto e passa a ser encenação.
A manipulação de competições não prejudica apenas a casa de apostas, o clube ou a federação. Prejudica o adversário, o adepto, o patrocinador, o colega de equipa, o jovem que treina honestamente, o treinador que prepara o jogo, o clube que investe, a competição que se organiza e o próprio fundamento jurídico da actividade desportiva.
Quando um atleta é aliciado para manipular um jogo, não está apenas perante uma tentação individual – está perante uma rede e, quem entra numa rede destas, raramente sai limpo.
A primeira aceitação compra mais do que um lance: compra silêncio, vulnerabilidade e o futuro. Quem cede uma vez pode ser chantageado na segunda. Quem aceitou dinheiro para manipular um momento passa a viver com a ameaça permanente da exposição. As redes criminosas ligadas à manipulação de apostas não compram apenas resultados, compram pessoas.
É por isso que falar de apostas desportivas apenas como patrocínio é pouco – o patrocínio é a montra; o problema é o sistema que floresce à sua volta.
A Netflix tem explorado esta realidade em documentários sobre corrupção desportiva. A série Bad Sport cruza crime real e desporto para revisitar escândalos globais, incluindo manipulação de jogos, corrupção no futebol e queda de atletas envolvidos em redes ilícitas. Caught Out: Crime. Corruption. Cricket. aborda o grande escândalo de manipulação de resultados no críquete indiano. Estes documentários não são prova jurídica de nada, naturalmente. Mas são úteis porque mostram ao grande público aquilo que o direito do desporto já devia saber há muito tempo: a corrupção desportiva raramente nasce apenas da ganância individual. Nasce de vulnerabilidade, oportunidade, silêncio, medo, dinheiro e redes que sabem escolher bem as suas vítimas.
No ténis, o caso de Marco Trungelliti é especialmente revelador. O tenista argentino denunciou uma abordagem corrupta recebida de terceiro à antiga Tennis Integrity Unit. A própria entidade internacional de integridade do ténis veio esclarecer que Trungelliti comunicou voluntariamente essa abordagem; não foi investigado, acusado ou sancionado, não recebeu pagamento pela informação prestada e actuou com integridade. A imprensa internacional relatou depois o custo pessoal dessa denúncia: hostilidade, ameaças, isolamento e saída da Argentina.
Este tipo de caso mostra o paradoxo mais cruel da integridade desportiva – pede-se ao atleta que denuncie, mas muitas vezes deixa-se o denunciante sozinho.
A mensagem oficial é: denunciem.
A mensagem real, demasiadas vezes, parece ser outra: denunciem e aguentem.
Portugal, pelo menos no plano legal, já não parte do zero. A mesma Lei n.º 14/2024 impõe aos agentes desportivos que comuniquem imediatamente ao Ministério Público os comportamentos de que tenham conhecimento ou de que suspeitem e que possam afectar fraudulentamente uma competição ou o seu resultado. Garante a confidencialidade da identidade do denunciante e proíbe ameaças, actos hostis e práticas laborais desfavoráveis ou discriminatórias contra quem denuncia. A lei reconhece, assim, uma evidência que o caso Trungelliti torna quase dolorosamente clara: pedir coragem ao atleta sem lhe garantir protecção é apenas transferir para ele o risco que o sistema devia assumir.
E a arquitectura institucional também existe. A Lei criou a Plataforma Nacional destinada ao tratamento da manipulação de competições desportivas, que funciona junto da Unidade Nacional de Combate à Corrupção da Polícia Judiciária. Cabe-lhe coordenar a luta contra a manipulação, centralizar e analisar informação sobre apostas irregulares ou suspeitas, emitir alertas, transmitir elementos às entidades competentes e articular autoridades judiciárias, policiais, desportivas e de regulação do mercado do jogo. A pergunta, portanto, já não é se Portugal precisa de inventar uma entidade. É mais incómoda: a estrutura que criámos tem meios, rapidez e capacidade operacional para chegar antes da chantagem, antes da carreira destruída e antes do resultado manipulado?
Ora, um sistema sério de integridade não pode viver apenas de cartazes, códigos de conduta e sessões de formação no início da época. Precisa de proteção efectiva: canais seguros, acompanhamento psicológico, apoio jurídico, mecanismos de denúncia credíveis, resposta disciplinar rápida e cooperação entre federações, ligas, operadores, reguladores, autoridades policiais e Ministério Público.
A integridade não se defende com slogans; defende-se com arquitetura institucional.
Grande parte da manipulação de competições pode ser prevenida se existirem regras claras para todos: estruturas de cumprimento nos clubes e nas organizações desportivas, combate real ao jogo ilegal, protecção efectiva dos denunciantes, monitorização de mercados suspeitos, partilha célere de informação e uma Plataforma Nacional dotada de meios para exercer as competências que a lei já lhe atribuiu.
É também necessário não misturar realidades diferentes. Um operador de apostas licenciado não é, por definição, aliado de quem manipula uma competição. Também ele é prejudicado pela fraude e pode ter um papel decisivo na detecção de padrões e apostas suspeitas. A própria lei prevê circulação de informação relativa a operadores licenciados e não licenciados e coloca o regulador do jogo dentro da arquitectura de cooperação. As redes criminosas, o jogo ilegal, os operadores licenciados e os patrocinadores não são a mesma coisa.
O problema do patrocínio é outro, e é suficientemente sério sem precisarmos de lhe acrescentar culpas que não tem. Quando o desporto se torna financeiramente dependente de uma indústria com a qual tem de cooperar, mas que simultaneamente tem de manter à distância da decisão desportiva, cria-se um problema de independência institucional e de aparência de independência. A cooperação é necessária, a dependência é perigosa. E a pergunta decisiva permanece: devem competições e clubes ser patrocinados por casas de apostas?
Esta pergunta devia estar no centro do debate português.
Não basta perguntar se as casas de apostas cumprem a lei.
É preciso perguntar se a lei cumpre a sua função.
E a função da lei não é apenas licenciar operadores, cobrar receita e punir abusos depois de ocorrerem. É prevenir danos previsíveis. É proteger vulneráveis. É preservar a integridade das competições. É assegurar que a necessária cooperação com o mercado regulado não transforma o desporto num braço emocional da indústria do jogo.
O problema não é uma casa de apostas existir.
O problema é a camisola de um clube parecer uma extensão da casa de apostas.
O problema é um adolescente ver o jogo e receber, ao mesmo tempo, a mensagem de que perceber de futebol é apostar em futebol.
O problema é transformar o adepto em apostador e o jogo em carteira aberta.
O problema é convencer uma geração de que emoção desportiva sem aposta é experiência incompleta.
A publicidade às apostas já tem proibições relevantes. Mas a pergunta é se isso basta.
Porque o menor pode não estar dentro da escola. Pode estar no sofá de casa, ao lado do pai, a ver o jogo. Pode estar no estádio. Pode estar nas redes sociais. Pode seguir um antigo jogador. Pode ouvir um podcast. Pode ver uma camisola. Pode decorar o nome de uma casa de apostas antes de perceber verdadeiramente o que é uma aposta.
A proteção de menores não se esgota em afastar publicidade da porta da escola. A escola hoje é também o ecrã. O recreio é também o telemóvel. O estádio é também a página inicial de uma rede social. A publicidade deixou de ser apenas geográfica, passou a ser comportamental, emocional e algorítmica.
É aqui que a comparação com o tabaco volta a fazer sentido.
Durante anos, a sociedade tolerou que o tabaco comprasse glamour desportivo. Depois percebeu que a associação era tóxica. Hoje, corremos o risco de repetir o mesmo erro com as apostas, só que com uma diferença: o cigarro exigia compra, fogo e consumo físico. A aposta exige apenas um clique.
O tabaco adoecia o corpo do adepto; as apostas, quando invadem o coração competitivo do desporto, adoecem o próprio jogo.
A verdade desportiva não se protege apenas punindo quem manipula competições. Protege-se impedindo que o ambiente económico, publicitário e emocional do desporto se torne favorável à manipulação.
A integridade começa antes do crime.
Começa na coragem de perguntar se a indústria que mais lucra com a imprevisibilidade do desporto deve estar colada à imagem institucional do próprio desporto.
Pierre de Coubertin via no desporto uma escola de esforço, lealdade, superação e respeito pela regra. Podemos discutir, com justiça, as limitações históricas e sociais dessa visão. Mas há um núcleo que permanece: o desporto só tem valor se o resultado for verdadeiro.
Quando o adepto começa a perguntar se aquele cartão foi natural, se aquela dupla falta foi azar, se aquele canto foi apenas consequência do jogo, se aquele erro foi humano ou encomendado, a competição perde a inocência mínima de que precisa para existir.
O desporto pode sobreviver ao erro do árbitro, à falha do guarda-redes, ao azar do ressalto e à injustiça do resultado. Não sobrevive bem à suspeita permanente de encenação.
Por isso, talvez esteja na altura de dizermos com as apostas aquilo que um dia tivemos de dizer com o tabaco – o facto de uma indústria ter dinheiro não lhe dá direito natural a ocupar o imaginário do desporto.
O desporto não tem de fingir que as apostas não existem, mas também não pode continuar a fingir que são apenas mais uma marca na camisola.
A dependência do jogo destrói famílias.
A manipulação de competições destrói carreiras.
A normalização das apostas dentro do desporto ameaça destruir a confiança no próprio resultado.
E quando se destrói a confiança no resultado, destrói-se aquilo que nenhuma casa de apostas, nenhum patrocinador e nenhum contrato televisivo conseguem comprar: a alma competitiva do jogo.
Sem verdade desportiva, não há vencedor; há apenas um guião com camisolas.
Bruno dos Santos Pereira é advogado e sócio na sociedade SPASS . É pós-graduado em Direito do Desporto.
Na última sexta feira deste agosto, dia 28, às 17 horas, entrei no sítio de uma editora porque, pouco antes, recebera um aviso de que o resultado de um concorrido concurso literário seria divulgado naquele dia. Li os nomes dos 30 selecionados na categoria Conto e não encontrei o meu ali.
Bem, bola para a frente. Autor que mora fora do eixo Rio-São Paulo e distante das grandes províncias literárias (Minas, Rio Grande do Sul, Pernambuco), venho recorrendo, desde 1980, aos concursos literários como forma de divulgar, com cepticismo e desesperança, meu trabalho como narrador de histórias breves.
Mal saí do sítio da editora, recebi um e-mail no qual era informado de que havia ganhado o primeiro lugar na categoria Contos. Voltei a reler a relação. E lá encontrei meu nome no alto da página, em negrito, seguido pelos outros quatro finalistas. Os selecionados vinham a seguir.
Começo com esse causo engraçadinho para falar do que realmente me interessa: descrever a longa e movimentada caminhada de um conto cujo título é “Noite brasileira (O Artesão e suas criaturas)”.
Essa narrativa começou a nascer quando cheguei a Brasília, aos 24 anos, para trabalhar como jornalista. De madrugada, entre onze e meia e uma hora, espancava furiosamente o teclado de uma maquininha de escrever. Eram esboços de contos, poemas, crônicas e outros objetos literários ainda hoje não identificados. Na maioria poemas sobre o que via nas noites da, ainda, nova capital. Escrevia – em grandes quantidades e em alta velocidade – em laudas de jornal, que ia empilhando. Talvez um dia usasse alguma daquelas frenéticas escrituras.
Em 1993, fui convidado a participar de uma edição da Revista da Academia Brasiliense de Letras. Não sei por qual motivo, já autor de 15 impressos de ficção, acabei apresentando dois poemas. O primeiro dele intitulado “Canção da Oficina (Toada à moda de João Cabral)” constava de 19 estrofes de quatro versos de sete sílabas.
Sem saber e canhestramente, eu estava usando a redondilha maior, estratagema lírico que só viria a conhecer melhor em 2014, ao ter aulas informais com o poeta Kledir Ramil, quando escrevemos a letra de uma canção de título bifronte: “Mistérios do Bule Monstro – Brincando na Praça dos Enforcados”, que entrou em um disco (“Com todas as letras”), de Kleiton e Kledir, mestres em harmonia e poética.
Vejamos, pois, às primeiras duas estrofes desse velho poema operário:
A regra deste obreiro
É começar pelo fim
E acabar por primeiro
O que tem fome de sim
Segue férrea disciplina
Seja pedra, lama ou lenha
(Ou outra matéria indigna)
É o caos que o orienta
Passemos ao segundo poema, intitulado “Cantiga do Artesão (Exercícios espirituais de um fazedor de bonecos)”, que assim principia:
Dei a eles um só rosto
De alegria e dor mesclado
Sejam jovens, sejam velhos
Na virtude ou no pecado
Parecem todos iguais
De uma inteireza macabra
Às vezes os funde o fogo
Às vezes o tempo os acaba
Avancemos. Em meados dos anos 1990 andei de namorico com o teatro. Escrevi duas peças, ambas premiadas (Funarte e Prefeitura de Manaus), ambas ainda não encenadas: “Umas poucas cenas vistas do caos” e “Teatro da Bolsa: Valores”. Porém, tive a alegria de ver montada e exibida em três unidades da federação uma divertida e movimentada peça infantil musicada: “Puro tempo perdido”. Com uma banda de cinco músicos (irmãos!) sete personagens e oito dançarinos, foi um espetáculo que não faria feio se existisse uma Off-Broadway no Cerrado.
Foi nesses anos de um peregrino interesse pelos palcos que ajuntei todos os muitos poemas que escrevera vinte anos antes. Passei-os pelo triturador a fim de que formassem um drama. Partejada a peça, cujo título era “Noite cega adentro”, eu a coloquei a dormir na tal gaveta hipotética de que dispõem todos os rabiscadores.
Finalmente, lá pelo começo deste novo e aterrador século, percebi que aquela versão teatral, nascida de um punhado de versos, deveria sofrer mais uma mutação. Essencialmente contista, obviamente eu deveria tentar transformá-la em um relato curto.
Foi o que fiz, em junho de 2004, quando estava a elaborar meu quinto livro de contos: A arte excêntrica dos goleiros (LGE Editora, Brasília, 2004). Nessa coletânea reuni catorze contos. Sete deles tratam de, digamos, pessoas normais. Os outros sete são sobre, digamos, artistas ou quase isso.
Eu já tinha contos sobre uma escultora maluca, um pintor agonizante, um leitor apaixonado pela literatura russa, um amante do cinema e do teatro, um contista fracassado e um mestre na estranhíssima arte de jogar no gol. Ou golo, como se dizia em Pelotas antigamente. Alcancei o número cabalístico com “Drama do artesão e das suas criaturas”, o novo nome daquele ser mutante.
Passadas quase duas décadas, o livro ganhou uma segunda edição (Arribaçã, Paraíba, 2023), prefaciada por Regina Zilberman, uma das mais destacadas estudiosas de literatura do Rio Grande do Sul. Nessa nova impressão, o conto de que estamos aqui tratando passou do penúltimo para o último lugar da coletânea e ganhou uma nova denominação: “O drama do artesão e das suas criaturas (Noite brasileira)”.
E, em seguida, voltou para o entulho do gavetão de guardados a serem burilados, porque jamais me satisfaço com o que fabriquei e passo muito tempo a retocar velharias.
No começo deste ano, eu o pincei do limbo e o lapidei a marteladas para que fosse estampado no PáginaUm – sítio noticioso e encrenqueiro da Lusitânia -, no qual apareceu em 8 de março. Cinco dias depois foi publicado no sítio do Pelotas 13 Horas, respeitado programa radiofônico – quase cinquentenário! – da Atenas Sul-rio-grandense, a Princesa do Sul, a terra de João Simões Lopes Neto.
Ainda naquele mês, ao saber de uma disputa que aceitava contos já publicados, voltei a mourejar nele. E muito, muito, muito. Ajustei melhor a movimentação dos personagens em cena e inverti o título. Foi com essa nova denominação que ele desembarcou no tal prêmio.
Enfim, eu, que nada entendo de estudos literários – pois nunca li uma só dessas obras que examinam os desconhecidos mecanismos que movem as mãos de escrevinhadores e vates -, sinto-me inclinado a dizer que “Noite Brasileira (O Artesão e suas criaturas)” é uma historinha sobre a arte, sobre as artes, sobre qualquer uma delas. Sobre a minha arte, se é que tenho alguma.
Como costumo colocar o ano de 1976 como aquele em que passei a dedicar todas as poucas horas que me restavam do trabalho de jornalista à literatura, acredito que se pode dizer que esse é um dos contos de mais demorada confecção de que se tem notícia aqui nesta nossa carnavalesca Pindorama. O danado levou cinco décadas para chegar à versão final, para a qual peço a piedade e a atenção daqueles cinco improváveis leitores com os quais sonhava o pulha, pilantra e pelintra Brás Cubas, que atualmente, ressurrecto, anda a escrever aleivosias em um pasquim vitriólico da comarca de Lisboa.
A citação é tão poderosa que a citadora garantia tê-la exposta, devidamente emoldurada, em sua casa. Contudo, a citação é apócrifa, o que gerou alguns comentários mais ou menos jocosos sobre a arte de bem citar e a necessidade de consultar as fontes antes de se visitar um vidreiro.
Será certo que, nos tempos que correm, em que campeia a desinformação, uma citação incorreta, mal atribuída ou apócrifa será o menor dos males, dizemos nós. Mas, mesmo assim, pode causar alguns engulhos a quem a profere, se se demonstrar que aquilo que passa por sageza, mais não é que leituras mal-enjorcadas ou (o que será igualmente mau) um mero desleixo. Não digo que tenha sido o caso da jornalista, pois como se verá ao longo das páginas seguintes, muitas citações há que damos por certas e que, afinal, ou não são de quem se crê, ou estão truncadas, ou são apócrifas. Quem nunca citou mal uma fonte, quem nunca indicou incorretamente uma referência bibliográfica, quem nunca registou mal uma data, quem nunca confundiu autores e/ou os seus escritos, que faça como Jesus sugeriu aos acusadores da mulher adúltera. Estou certo que de lado nenhum virão calhaus.
Ora, citar é uma arte, ainda que, muitas vezes, como dizia Oscar Wilde, uma citação seja…
“Um substituto aceitável para o ‘humor’ [‘wit’, no original]”.
Outro grande citador foi o escritor e jornalista norte-americano Ambrose Bierce, que, no seu “The Unabridged Devil’s Dictionary” (1911), definia assim uma citação:
“Citação, n: O ato de repetir erradamente as palavras de outrem.”
Sabia-a toda, este Bierce…
Sim, citar é uma arte, e há não só livros e sites dedicados a esse tema, como há especialistas da coisa. Tenho a felicidade de me corresponder com o autor, jornalista e crítico literário brasileiro Carlos Castelo, um apaixonado por essa arte e que, por via disso, me fez descobrir o fascinante universo das citações em obras como “Orações Insubordinadas” (Ateliê Editorial) ou “Frases Desfeitas” (Ed. Noir).
Ora, citar incorretamente pode significar que damos por adquirido aquilo que “todos dizem” sobre o que outros terão dito. Lá, está: “repetir erradamente as palavras de outrem “. E isso é mais problemático numa época em que o conhecimento está, supostamente, na ponta dos dedos, ou devia estar. Afinal, não seria difícil confirmar se Churchill disse do inferno aquilo que (falsamente) lhe atribuem. E assim, umas vezes trunca-se (em maior ou em menor grau) citações que foram reais, de outras vezes indica-se mal o seu autor, de outras vezes, ainda, inventam-se-lhes frases.
Tudo isto nos leva ao fascinante universo das citações erradas, no qual Churchill é uma das personalidades mais vezes mencionado, o que se compreende por ele ter imenso “wit”, sobretudo quando exibia os seus preconceitos e apostrofava as mulheres, os povos indígenas e o Mahatma Gandhi.
Vejamos, então, alguns exemplos de citações erradas ou truncadas que lhe são atribuídas. Comecemos pela famosa…
“Nada tenho para oferecer a não ser sangue suor e lágrimas.”
Foi dita no auge da Segunda Guerra, em 13 de maio de 1940, na Câmara dos Comuns, e simbolizou, exemplarmente, a resistência dos britânicos e do seu dirigente à barbárie nazi que parecia, então, invencível.
Muitas vezes é resumida a “sangue, suor e lágrimas”, expressão usada quando alguém se quer referir a um desafio incerto e árduo, contra o qual é necessário lutar com unhas e dentes. A verdade é que, na frase original, a ordem dos substantivos está errada, embora não seja por aí que o gato vai às filhós. Além disso, está também truncada. O que o primeiro-ministro britânico disse, naquela londrina segunda feira de maio, foi:
“Nada tenho para oferecer a não ser sangue, duros esforços [toil], lágrimas e suor.”
Sim, além da tal troca na ordem dos substantivos, faltou o tal “toil” (labuta, esforço, trabalho duro), o que, convenhamos, não é muito grave. O significado não muda por aí além. Mas que é uma citação truncada e incorreta, é.
Mais interessante é a história de uma outra citação que lhe atribuída e que, desta vez, ele disse mesmo. Mas…
“Desde Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente.”
É um excerto de um discurso proferido em 5 de março de 1946, em Fulton, nos Estados Unidos. Estas palavras são consideradas como uma premonição da Guerra Fria (que já fermentava deste os derradeiros meses da Segunda Guerra) e a demonstração um aviso perspicaz oriundo de uma mente acutilante. Aliás, a expressão “cortina de ferro”, serviu futuramente para crismar o muro separador que atravessou a Guerra Fria, valendo a Churchill mais uma medalha de retórica.
Ora, nem o sentido da frase, nem a expressão em si, são da sua autoria. A primeira personalidade a usar a expressão “cortina de ferro”, foi a rainha Isabel da Bélgica, em 1914, quando se referiu à ocupação alemã de parte do seu território. E até à Segunda Guerra, outros autores mais anódinos a usaram. Contudo, quem a formalizou no sentido usado por Churchill treze meses depois, foi, imagine-se, o Ministro da Propaganda nazi, Joseph Goebbels, que, no seu derradeiro artigo, escrito no jornal “Das Reich”, em 25 de fevereiro de 1945, afirmou:
“Uma cortina de ferro descerá sobre este enorme território controlado pela União Soviética, atrás da qual as nações serão massacradas.”
Não será estulto supor que Churchill conhecia a frase de Goebbels que, de resto, foi desde logo difundida nas transmissões radiofónicas internacionais do ministério.
É certo que, uma vez mais, podemos questionar se isto é verdadeiramente uma citação errada. Afinal, Churchill disse mesmo a tal frase. O ponto é que ele não é, como muitas vezes se crê, nem o autor da célebre expressão, nem do seu sentido. Mas seria complicado, no mundo da política ocidental do pós-guerra, referir que uma frase tão forte e tão definidora, teve o célebre nazi coxo como autor, em vez do heroicizado estadista e lorde nascido em Oxfordshire. Afinal, as más companhias maculam todas as causas.
Outras citações há que lhe são atribuídas e que, mais do que terem sido truncadas ou de origem alheia, ele nunca disse. Um bom exemplo (para além da supracitada sobre o inferno) é a que se segue, e que é repetida muitas vezes por conservadores que se avaliam de espirituosos:
“Se não fores um socialista quando tiveres 25 anos, não terás coração. Se não fores conservador quando tiveres 35 anos, não tens miolos.”
Pois… também é apócrifa. Churchill nunca a proferiu.
Outra, é esta:
“Tens inimigos? Ainda bem. Significa que, algures, na tua vida, defendeste algo.”
É certeira, sim, mas o seu autor foi o escritor francês Victor Hugo, em 1845, embora com palavras um bocadito diferentes.
E que dizer da seguinte, que muitos de nós já escutaram com ligeiras alterações?
“Isto contém coisas verdadeiras e coisas relevantes. Infelizmente, o que é verdadeiro não é relevante, e o que é relevante não é verdadeiro..”
O “isto” pode ser um estudo académico, uma tese, um artigo ou uma dissertação. Noutras versões, os termos “coisas verdadeiras” e “coisas relevantes”, são substituídas por “coisas boas” e “coisas originais”… Seja como for, nenhuma versão é de Churchill.
Enfim, outras há que lhe são erradamente atribuídas ou estão truncadas. Se o caro leitor quiser verificar a lista e as explicações anexas, terá apenas de aceder ao site da International Churchill Society. Está lá tudo e, como sempre, ao alcance da ponta dos dedos.
Por falar em citações comummente atribuídas a um autor, mas que, na realidade, foram criadas por outrem, temos um exemplo curioso com esta:
“A religião é o ópio do povo.”
É de Karl Marx, como se sabe. Mas, esta conhecida asserção tem algumas pedrinhas na engrenagem da exatidão. A primeira pedrinha tem a ver com o facto de estar um pouco descontextualizada, um problema que se mantém muito atual, seja por ser tal técnica da “descontextualização” muito usada quer nas redes sociais (geralmente um palco pouco propenso à exatidão), quer em alguma comunicação social, cuja tendência para a simplificação só é superada por uma certa busca de sensacionalismo, duas coisas que, como se sabe, não se coadunam muito com o rigor. Nota: antes que se diga que estou a acusar a comunicação social de leviandade, superficialidade, ligeireza ou sensacionalismo, enfatizo que escrevi “alguma comunicação social”. Esclarecido este aspeto, retomemos Marx. A frase completa é esta:
“A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo.”
A bem dizer, para se entender totalmente o seu sentido, teríamos de ler a sua Introdução à “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel” (publicada em 1844 nos Deutsch-Französischen Jahrbücher). Aí se perceberá que a coisa é bem mais complexa do que a aparente singeleza e acutilância da frase aparentam.
A segunda pedra na engrenagem da exatidão, é que Marx não foi o primeiro a referir esta ideia nestes termos. Kant, Johann Herder, Novalis, Ludwig Feuerbach, Bruno Bauer, o Marquês de Sade, Moses Hess e Heinrich Heine (curiosa mistura), escreveram frases similares nas quais partilharam essa tese.
Eis uma citação mais torta que errada…
Ainda a propósito de conhecidas citações mal transcritas ou “tortas”, temos o caso de uma que é atribuída ora ao arquiteto modernista Mies van der Rohe, ora a Alfred Einstein, ora a Gustav Flaubert:
“O diabo está nos pormenores.”
Na realidade, nenhum a disse dessa forma, embora se deva enfatizar que Mies van der Rohe afirmou algo de semelhante, mas com Deus em vez do diabo. Mas, por vezes, é o demo que dá o peito às balas no mundo das citações (ver a aquela com que começámos este artigo). Como, neste caso, se desceu do Céu ao Inferno, é algo que ignoro. O inferno, pelos vistos, dá boas citações, embora quem lá tenha estado nunca tenha regressado para contar o que viu, exceto Orfeu, Ulisses e Dante, claro…
Adiante.
Quantos caros leitores não juram e rejuram que, no filme “Casablanca” (Michael Curtiz, 1942) a personagem Ilse Lund (Ingrid Bergman) pede ao pianista Sam (Dooley Wilson):
“Play it again, Sam.”
A frase original é um pouco diferente, embora não se altere muito o sentido. Neste caso, em prol da interatividade entre nós, sugiro ao caro leitor que reveja o filme e verifique a citação correta. Não perde nada e reverá um bom filme, apesar de eu crer que, quando chegar a essa cena, ficará um pouco desiludido, já que a citação real não é muito diferente. Mas é-o…
Outro tanto sucede com a frase que o primeiro ser humano afirmou ao pisar a superfície lunar. Recorda-se, caro leitor?
“É um pequeno passo para o Homem, um salto gigantesco para a Humanidade.”
Uma vez mais, a frase original do astronauta Neil Armstrong é um bocadito diversa, pois apenas muda uma letra. Mas essa letra faz diferença. Ei-la:
“É um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a Humanidade.”
Não, não é “o homem”, mas sim para “um homem” que, neste caso, será ele mesmo. São coisas diferentes. A culpa foi de uma momentânea falha nas transmissões.
Outro exemplo de uma citação (muito) truncada, é:
“Se tens de perguntar o preço de alguma coisa, é porque não o podes pagar.”
A frase original é do banqueiro americano J.P. Morgan, que, a bem dizer, disse isto:
“Não tens o direito de ter um iate, se perguntares o preço [if you ask that question].”
Isto do dinheiro tem sempre muito que se lhe diga, como surge explicito em Timóteo 6:10, na anglicana Bíblia do Rei Jaime (que, na realidade, devia ser a Bíblia do Rei Tiago, pois “James” devia traduzir-se como “Tiago”, e não como “Jaime”):
“O dinheiro é a fonte de todos os males.”
Porém, a frase correta é:
“O amor do dinheiro é a fonte de todos os males.”
O sentido não é o mesmo…
Poder-se-iam dar mais exemplos de citações que não correspondem bem ao original, as tais citações truncadas, mas parece-me despiciendo. Mais interessante é o universo das citações – essas, sim – totalmente erradas ou apócrifas. Quem não conhece, por exemplo, a frase:
“Elementar, meu caro Watson”
É atribuída a Sherlock Holmes, e serve para caracterizar uma solução evidente, uma constatação óbvia, uma suposição clara, mesmo se os amadores não as enxergam. Como escreveu o grande Mário Henrique-Leiria no seu conto “Noivado”:
“É o que faz a miopia.” (in, “Contos do Gin Tonic”)
A questão é que Holmes nunca a proferiu. Ou melhor, o seu autor – Arthur Conan Doyle – nunca a escreveu em nenhum dos textos em que o famoso detetive de Baker Street participou. Apenas numa novela (“The Crooked Man”, de 1893) e palavra “elementar” é proferida pela personagem. O resto, é silêncio. Mas quem nunca a usou ou a escutou e creu ser dele?
Uma outra citação falsa, pois nunca foi proferida (a não ser pelo talentoso desconhecido que a criou e a atribuiu a outrem) é:
“Há causas pelas quais vale a pena morrer; nenhuma há pela qual valha a pena matar.”
É referida como sendo de Camus, que nunca a disse. Mesmo assim fez escola, pois é repetida muitas vezes, como, por exemplo, na película “Gandhi” (Richard Attenborough, 1982), pelo personagem principal, por volta do minuto 28. Um anacronismo cinematográfico, pois, no filme, Gandhi tê-lo-á citado em 1913, um ano antes de Camus nascer.
Já Mark Twain, outra personalidade famosa pelas suas frases acutilantes e plenas de “wit”, terá dito:
“Um banqueiro é alguém que te empresta um guarda chuva quando o sol brilha, mas que to tira quando chove.”
O sentido é certeiro, mas o autor não. Desconhece-se quem a criou.
Outra citação falsa muitas vezes repetida, é:
“Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana.”
É atribuída, erradamente, a Einstein. Mas esta citação falsa, tem requintes próprios, pois há quem creia que o cientista terá ainda acrescentado:
“…e sobre o universo, tenho dúvidas.”
Enfim, seria a cereja no topo de um bolo que nunca existiu.
Aliás, ao mesmo autor é ainda atribuída outra citação falsa que já todos escutámos:
“Insanidade, é repetir incessantemente os mesmos procedimentos, esperando que se alcancem resultados diferentes.”
De novo, a frase é certeira; o seu autor, não, pois é desconhecido.
Estou certo que também a citação seguinte já terá sido escutada (e até dita) por muitos de nós:
“Para que o mal triunfe, só é necessário que os homens bons nada façam.”
É atribuída ao político oitocentista Edmund Burke, que não a proferiu. E que dizer desta, atribuída a Maquiavel?
“Os fins justificam os meios.”
Contudo… Bom o caro leitor já sabe o resto. Maquiavel disse muitas coisas acertadas, mas esta, não (embora não ande muito longe da sua visão política).
Não alonguemos a lista, não vale muito a pena. Mas, já que lá atrás falámos de Oscar Wilde, sempre deixamos aqui um par de conhecidas citações cuja autoria lhe é erradamente apontada:
«Bigamia é ter uma mulher a mais; monogamia é precisamente o mesmo»
E…
“O ridículo é tributo pago pela mediocridade ao génio.”
Ficamos por aqui, que longa vai a lista, embora mal tenhamos raspada a superfície da questão.
Para concluir, trago aqui uma outra citação (ou algo de parecido) que cada vez mais faz escola no fascinante mundo dos comentadores e afins. Ocorre quando alguém se refere a uma personalidade que constantemente aponta perigos iminentes que nunca ocorrem:
“É a velha história de Pedro e do lobo…”
O que estes comentadores querem dizer é que essa personalidade (como o Pedro da historieta) passa a vida a gritar que vem aí o “lobo”, mas o “lobo” nunca vem. Quando, realmente, o lobo se acerca, já ninguém acredita em Pedro. Logo, o “Pedro” é, ao mesmo tempo, um alarmista e um inconsciente.
Creio que a primeira vez que escutei esta asserção com este significado foi em 2016, quando um outro Pedro (o ex-primeiro ministro Passos Coelho), afirmou no Parlamento – a propósito das medidas do governo de António Costa – que vinha aí o diabo. Foi assim:
“Gozem bem as férias que em setembro vem aí o diabo.”
Não veio. Mas uma vez mais, o inferno e o seu “chefe” são, amiúdes chamados à colação.
Bom, a história real de Pedro e do Lobo nada tem a ver com avisos alarmistas ou com advertências que não se confirmam, gerando desconfiança em quem os proferiu…
O conto verdadeiro, que se crê ser do romanceiro russo, narra a aventura de um menino que vai caçar um lobo com o auxílio de outros animais. É tudo. É ainda uma belíssima peça musical escrita e composta em 1936 pelo músico soviético Sergei Prokofiev, cujo objetivo era ensinar às crianças os diferentes sons de instrumentos musicais, já que cada personagem (Pedro, o avô, o lobo, a pata, o gato, os caçadores, o passarinho) é interpretado por um instrumento diferente.
Ora sucede que, muito antes de Prokofiev (mais concretamente, cerca de 2400 anos antes), o grego Esopo escreveu uma fábula vulgarmente conhecida como “O pastor mentiroso” ou “O pastor mentiroso e o lobo”. Já se vislumbra onde isto vai parar. No conto de Esopo, um pastor diverte-se a assustar os aldeãos gritando que “vem lá lobo”, quedando-se, depois, deleitado a ver o caos que desencadeara com o seu alarme falso. Claro que no dia em que ele brada o alerta de forma justificada, ninguém acredita nele, e é (uma vez mais) o diabo…
O que sucede, é que se passou a misturar as duas histórias tão diversas, escritas por autores muito diferentes em épocas assaz distantes entre si. Afinal, a pressa, a leviandade e a tentação de mostrar “cultura” citando “umas cenas finas”, dá nisto.
Seria, insistimos, muito fácil verificar que Prokofiev e Esopo nada possuem em comum, além da arte e do talento, independentemente de ambos terem obras (uma, musical, a outra, poética) que metem lobos ao barulho.
Enfim, por estas e por outras é que devemos ter cuidado com o que citamos (e dizemos), pois dessa forma poupar-se-iam vários erros de comunicação e algumas despesas em molduras.
Esta rubrica nasceu para isto. Para transpor para o papel algumas das minhas irritações: umas surgem no quotidiano, perante coisas tão pequenas que provavelmente só me irritam a mim; outras aparecem quando, por exemplo, abro um jornal e descubro que alguém fez, como jornalista encartado, aquilo que eu julgava reservado à literatura: ficção da pura. Melhor dizendo, escrever ficção da pura mas sem inventar um único facto – e publicar isso intitulando-se jornalista.
É uma arte. E Filipe Santa-Bárbara, no Público, acaba de nos oferecer uma bela demonstração de que é um artista com carteira profissional de jornalista. Tem futuro na Literatura; não deveria ter no jornalismo.
Epic Sana Lisboa no centro de uma ficção. Foto: D.R.
Um grupo de extrema-direita investigado por terrorismo falou de Luís Montenegro. Verdade.
Numa conversa numa plataforma online entre elementos desse grupo foi colocada a hipótese de lançar uma granada para o interior da sua residência. Verdade.
Montenegro não estava a viver nessa residência. Verdade.
Luís Montenegro entrou em funções em São Bento no dia 2 de Abril de 2024. Fonte: D.R.
Agora pega-se em todos estes factos, mete-se tudo dentro de um saco, abana-se com vigor e sai de lá uma conclusão: o hotel evitou um atentado.
É maravilhoso. Não é preciso mentir nem falsificar um documento nem inventar uma fonte: basta unir pontos que ninguém demonstrou estarem unidos.
Aliás, seguindo o mesmo método de Filipe Santa-Bárbara, o Epic Sana não se limitou a dar cama e pequeno-almoço ao primeiro-ministro. Salvou-lhe a vida. Temos, portanto, um novo serviço hoteleiro: quarto, pequeno-almoço, piscina, spa e protecção contra terrorismo. Por mais 250 euros talvez incluam late check-out.
O problema disto tudo, num contexto jornalístico, é que, entre alguém escrever ou dizer que se poderia lançar uma granada contra uma casa e existir um atentado em condições de ser executado, vai alguma distância. Mesmo quando estamos perante pessoas que não devem ser tomadas por inofensivas.
Jornalismo não é fazer ficção com factos. Foto: Maxim Hopman.
De facto, o Ministério Público acusou nove arguidos ligados ao Movimento Armilar Lusitano e descreveu uma organização com armas, fabrico de componentes, preparação logística e identificação de potenciais alvos. Constitui matéria grave e não tenho qualquer intenção de a diminuir. Mas o próprio DCIAP diz que as acções violentas projectadas não chegaram a ser executadas porque os arguidos consideravam não dispor ainda de suficientes membros, armas, fundos ou meios logísticos, ou porque entendiam que não tinha chegado o momento.
Isto é bastante diferente de um homem estar com uma granada na mão à porta de São Bento, tocar à campainha e perguntar:
— O senhor primeiro-ministro está?
— Não. Está no Epic Sana.
— Ah, então fica para outra vez.
Talvez Filipe Santa-Bárbara tenha, afinal, informações adicionais que o Ministério Público não divulgou. Talvez existisse um operacional. Talvez tivesse uma granada. Talvez tivesse escolhido o dia. Talvez tivesse estudado o percurso. Talvez soubesse onde disparar. Talvez tivesse ultrapassado ou encontrado forma de ultrapassar a segurança existente em torno da residência oficial de um primeiro-ministro. Talvez…
Filipe Santa-Bárbara, jornalista do Público. Foto: UALMedia.
A palavra é esta: talvez. Só que “talvez” estraga títulos. Veja-se: “Hotel onde Montenegro estava talvez tenha contribuído para que uma hipótese de atentado discutida num grupo não avançasse” – é uma frase muito menos vistosa. Não dá Pulitzer.
Por isso desaparece o talvez e aparece o “evitou”. E, com um verbo, uma possibilidade converte-se num facto.
Esta história ganha ainda outro encanto quando nos lembramos de como começou. Quando se soube que Montenegro estava alojado no Epic Sana enquanto a sua casa estava em obras, a questão era saber por que motivo o primeiro-ministro escolhera um hotel de luxo em vez da residência oficial. Montenegro disse que negociara uma diária de 250 euros, paga por si. A 30 noites por mês, são 7.500 euros. Não é dinheiro público, segundo a explicação dada pelo primeiro-ministro, mas também não é propriamente o preço de uma pensão de duas estrelas na Amadora.
Foto: Giorgio Trovato.
Seria interessante saber quantas noites foram efectivamente pagas. Quanto custou toda a estadia. Qual era o preço normal daquele quarto nas mesmas datas. Que desconto foi negociado. Se existem facturas. Se foi Montenegro quem suportou todas as despesas associadas à sua permanência. Estamos perante coisas maçadoras: facturas, recibos, datas, valores. O jornalismo tem destas chatices.
Muito mais emocionante é descobrir, como parece que fez Filipe Santa-Bárbara, mais de um ano depois, que a conta do hotel talvez tivesse afinal uma rubrica que ninguém notara: seguro de vida. E é aqui que a coisa deixa de ser apenas divertida e começa a irritar-me, porque o efeito narrativo é extraordinário.
No princípio desta história tínhamos um primeiro-ministro que, durante meses, preferira um hotel de cinco estrelas à residência oficial que o Estado coloca à sua disposição. No fim temos um primeiro-ministro que, sem sequer saber, tomou uma decisão providencial que lhe salvou provavelmente a vida.
Foto: Enric Moreu
O problema transformou-se em virtude. A extravagância converteu-se em prudência. A polémica acabou em redenção. E o Epic Sana surge quase como instrumento da Providência.
Não digo que Filipe Santa-Bárbara tenha querido fazer uma hagiografia de Luís Montenegro. Não faço julgamentos sobre intenções que não posso conhecer. Seria, aliás, cometer exactamente o vício que estou a criticar. Fico pelos factos. E pelos efeitos.
E o efeito daquele título é simples: aquilo que poderia suscitar escrutínio sobre a opção do primeiro-ministro acaba justificado retrospectivamente por um acontecimento que nunca aconteceu. O atentado que não chegou a existir explica o hotel que existiu – isto é uma proeza narrativa.
Há muitos anos que os jornalistas aprendem uma regra elementar: não confundir factos com opiniões. Talvez seja altura de acrescentar outra: não confundir factos com histórias.
Foto: Yannick Pulver
Podemos ter todos os factos verdadeiros e, ainda assim, contar uma história falsa. Por exemplo, vejamos este caso.
Um homem saiu de casa às oito da manhã. Verdade.
Às oito e cinco caiu uma telha junto à porta. Verdade.
O homem está vivo. Verdade.
Conclusão: a saída às oito salvou-lhe a vida.
Calma. Isso já fui eu que escrevi.
Exacto: é nesse pequeno espaço entre aquilo que sabemos e aquilo que gostaríamos que tivesse acontecido que o jornalismo pode deixar de ser jornalismo e começar a ser literatura. Nada contra a literatura – já escrevi quatro romances. Mas eu, quando compro um jornal, prefiro saber em que secção estou.
***
Nota: Sobre a primeira crónica de “Hodiernas irritações”, intitulada “O delito de fotografar“, recebi uma mensagem do Metropolitano de Lisboa, por correio electrónico, que inclui as seguintes passagens:
“[…] O Metropolitano de Lisboa respeita integralmente a liberdade de imprensa e o exercício da atividade jornalística. O procedimento em vigor e a intervenção de funcionários do ML ou de vigilantes ao seu serviço não pretende limitar ou condicionar o direito a informar, destinando-se exclusivamente a garantir, na medida do necessário, que a captação de imagens nas suas instalações decorre de forma compatível com as regras de segurança, as condições operacionais e o normal funcionamento do serviço.
Nas circunstâncias concretas descritas na sua mensagem, que estamos a averiguar, uma vez esclarecida a finalidade da captação de imagens, terá havido uma interpretação inadequada do âmbito de aplicação do procedimento em vigor […]”
A propósito do alarido social devido à criação de um grupo de mulheres designado “Mulheres Conservadoras de Portugal”, tive de me sentar a ver uma discussão televisiva entre uma jornalista dita “feminista” e uma representante do grupo, apresentada como “consultora de comunicação” e que, como a própria frisou, é do “PPD/PSD”.
No fim do debate, fiquei com a sensação de que ambas concordaram entre si, mas com visões políticas diferentes. Nada de novo, portanto. No entanto, como acredito em coincidências, achei que não fora um mero acaso este debate ter ocorrido dias depois de ter encontrado, durante as minhas deambulações pela Feira da Ladra, um exemplar do número 109 da publicação da Mocidade Portuguesa Feminina, Menina e Moça, de Setembro de 1956. Ou seja, de há 70 anos.
Menina e Moça, Setembro 1956
Chamou-me então à atenção a reportagem sobre a Obra das Mães pela Educação Nacional, mais concretamente sobre o “Curso de Aperfeiçoamento de Trabalhadoras Sociais”, que decorrera entre 24 de Julho e 3 de Agosto de 1956. Um curso que abordara praticamente tudo aquilo que o regime do Estado Novo entendia interessar à formação feminina da altura: ensino familiar doméstico e agrícola, artesanato feminino, assistência materno-infantil, psicologia da adolescência, pedagogia, educação artística e, até, defesa civil do território.
Não sou ingénuo suficiente para saber que aquilo era tudo propaganda. Se quiserem saber mais, até andei numa escola com nome de Maria Lamas. Portanto, posso dizer que tento ter uma visão equilibrada das discussões políticas quando exigem contextualizações históricas, procurando conhecer argumentos de um lado e do outro.
Trago então à partilha com o leitor a reprodução das palavras do discurso de encerramento que fez o Subsecretário de Estado da Educação Nacional da altura. Este representante do Estado Novo criticou os pais que só apareciam na escola na época dos exames, lamentando a falta de acompanhamento dos filhos. E avisou que nenhuma escola, creche ou internato substitui inteiramente a família.
Menina e Moça, Setembro 1956
“Sem lares estáveis, onde se viva o saudável contacto de pais e filhos, domine o exemplo daqueles e exista para estes compreensão dos seus problemas; sem o conhecimento, o apoio, a vigilância, dos filhos pelos pais — a obra formativa é necessariamente imperfeita”, afirmou então o representante do governo.
E dizia ainda o governante de há 70 anos: “Não peça a família à Escola ou a outras instituições aquilo que estas não dão, porque só a família pode dar. E certo que, em muitos casos, a família se encontra impossibilitada de conceder à educação familiar o relevo que seria de desejar, quando, por exemplo, pai e mãe se empregam ambos no ganha-pão diário ou quando, por outras razões, ela se cinde ou desarticula. Mas, assim mesmo, não há fórmula técnica de substituição da família. Creches, asilos, internatos, escolas, ajudam e completam a acção familiar — não são sucedâneos dela”.
Creio que, hoje, tanto a jornalista feminista como a consultora de comunicação do PPD/PSD, não contestam aquelas palavras, mesmo que tenha sido ditas por um funcionário governamental do executivo presidido por aquele senhor que tinha o nome na Ponte 25 de Abril.
Menina e Moça, Setembro 1956
Mas, há mais palavras que, se calhar, ainda hoje, podiam ser ditas igualmente por ambas as intervenientes do debate: “Se os pais, absorvidos na luta pela vida ou nas distracções não encontram tempo livre para ouvirem, falarem, conviverem com os filhos, procurando compreendê-los, dando-lhes o exemplo ou o conselho na hora própria, envolvendo-os na sensação de que, em suma, não estão sós no mundo – poderão amanhã, ao ver frustradas as suas melhores esperanças, sentir-se os primeiros culpados dessa frustração”.
E não pensem que as críticas também não contemplavam as classes sociais mais favorecidas, pois também esses diziam não terem tempo para os filhos. Conforme apontou o Subsecretário: “Todos vemos que sempre conseguem tempo para os divertimentos e distracções, para o que chamam as suas ‘obrigações sociais’”.
Portanto, os pais, sejam eles um casal trabalhador ou um casal com “obrigações sociais”, não podem demitir-se do dever de, quando juntos, formarem uma família. E é a família, com todas as suas condicionantes, uma parte da sociedade que não pode ser substituída pelas instituições do Estado. Afinal, a família é também ela uma parte da orgânica da sociedade. Logo, do Estado que a gere.
Menina e Moça, Setembro 1956
O discurso do membro do governo do Estado Novo dizia ainda que “na família, representa a Mãe o centro afectivo aglutinador, o alicerce sobre o qual as famílias se congregam, se elevam ou se perdem”. A mulher era, portanto, muito importante. Essencial, até. Tão essencial que sobre ela repousava praticamente a sobrevivência da civilização. Avisou o governante que as sociedades onde a mulher se afastava da sua missão de “primeira e mais íntima educadora das almas das crianças”, do “recato”, da “sensibilidade”, da “pureza” e da “feminilidade que é inerente ao seu sexo” são “civilizações em crise”.
É claro que há quem veja hoje nestas palavras uma imagem de um passado fascista, opressor da mulher e revelador do poder do patriarcado. É uma propaganda de um regime onde as mulheres estavam privadas de direitos como o voto, da possibilidade de escolherem a sua carreira profissional, do direito a não quererem depender de um homem para viajarem, de não serem olhadas de lado pela sociedade caso decidissem não ser mães. E palavras como aquelas escondiam as desigualdades salariais, a violência doméstica, as violações e o direito ao aborto.
É precisamente aqui que o discurso se torna mais interessante, porque o governante fez questão de esclarecer que não estava a defender uma mulher do passado. Pelo contrário: “Estou a pensar na mulher actual, do nosso tempo, intelectual e desportista, companheira do homem e não num modelo ultrapassado”, disse. Segundo o governante, a mulher podia estudar, ser intelectual e praticar desporto. Podia, e devia, acompanhar o homem, participar na sociedade. O problema era quando essa liberdade ameaçava aquilo que continuava definido, de antemão, como a verdadeira natureza e missão da mulher.
Menina e Moça, Setembro 1956
É nesse momento que o governante olha para o futuro e fica preocupado. Diz então: “Mas interrogo-me se, pela confirmação de viciosas tendências que, aqui e ali, parecem esboçar-se, não veremos amanhã, crescer o número das que, incapazes de sacrifícios, se demitem da dignidade da maternidade, abdicam, e atraiçoam a sua missão”.
Pois é. Fomos avisados há 70 anos que iria haver mulheres a seguirem “viciosas tendências” e que iriam “atraiçoar” o seu papel na sociedade. Já se previa que iria haver mulheres que iriam deixar de fazer “sacrifícios” pela família. Estas palavras, já sei, fazem eriçar os pelos das nucas de muitas feministas e, antes que me atirem para a fogueira, digo-lhes: têm toda a razão em se sentirem insultadas.
Não gosto de ver caracterizado como “viciosas tendências” a decisão de muitas mulheres que, hoje, optam por terem uma carreira profissional em vez de ficarem em casa a tomar conta dos filhos. Sobretudo agora que os filhos já nem sequer saem de casa aos 18 anos, para irem morrer na guerra colonial ou emigrarem.
Menina e Moça, Setembro 1956
Muitos filhos ficam em casa dos pais até aos 35 anos ou regressam a casa da mãe quando se divorciam da mulher de sonho. Aquela com que se casaram pensando que era até morrerem. Como os pais o tinham feito.
A sociedade capitalista ganha muito dinheiro com os casamentos, mas também ganha com os divórcios, pois em vez de haver uma casa para uma criança, passa a haver duas. E, depois, é tudo a dobrar, pois passa a haver duas camas para a criança, duas colecções de livros infantis ou duas consolas de jogos. O capitalismo tem mais a ganhar com a destruição do modelo familiar de há 70 anos do que em manter viva a ideia de Deus, Pátria e Família. E as feministas são óptimas para isso.
Na realidade, quantas mais feministas apregoarem o fim da ideia da Mãe como “o centro afectivo aglutinador”, quantas mais divisões familiares existirem, mais se move a economia capitalista. Contudo, acredito que tanto as feministas como as mulheres conservadoras estão ambas preocupadas com a família e o futuro da civilização.
Menina e Moça, Setembro 1956
Podem ter visões diferentes dos métodos, mas, no fundo, queremos todos o mesmo: Paz e Harmonia familiar. Quem não quer isso, são os criadores das “viciosas tendências” dos dias de hoje: os que sustentam a divisão familiar e os que não estimulam o estender da mão a quem está do outro lado.
Já agora, a terminar a crónica, devo acrescentar algo que ainda não tinha dito: o Subsecretário de Estado que disse aquelas palavras no discurso na Obra das Mães chamava-se Baltazar Rebelo de Sousa. Era então pai de um menino a caminho dos oito anos e que viria a ser o futuro Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.
Alvalade foi o meu primeiro bairro. Ali fiz o tirocínio das artes da guerra que são as de crescer na rua, entre uma rapaziada danada da breca e ciganada dos bairros periféricos do Cambodja e Vietname (em Chelas).
Nos primórdios da adolescência, por curiosidade antropológica, comecei a visitar a aldeia cigana ao cimo da Avenida dos Estados Unidos da América. Queria ser adoptado pelo rei dos ciganos e tardava em voltar a casa, deixando-me estar até anoitecer deitado à etrusca nos tapetes da família Lelo que vivia de expedientes de feira e outros, dos quais não me apercebi ao certo, mas deviam ser marginais.
Mais tarde vim a saber que eram contrabandistas e traficantes de haxixe e isso explicava os carros de luxo, os molares doirados e o ceptro (uma moca cravejada de diamantes) do grande chefe. Havia sempre guitarras, dança, cantos e lamentos, gataria e vira-latas e um vozear roufenho. Chamavam-me o russo de má-pêlo e acolhiam-me como um dos seus, mal sabendo que Salazar era de origem romani.
Fui parar ao ramo dos tuk-tuks por causa do Frederico Duarte Carvalho, um carolas da História e das narrativas orais, além de escritor prolífico e de valor (com quem editei o livro Cartas do Confinamento). Sabia dos ventos de glória de um par de antigos compagnons de route do Jornalismo, que ali viram uma forma de compensar a míngua das redacções, continuando a fazer da arte de comunicar a bordo de um riquexó o seu ganha-pão, com a tripla vantagem dos vazios legais, o ajuste de contas poético com o Sistema e o grito de liberdade.
Dava-me jeito para compensar um azar de percurso e vim a descobrir na vida de feirante um verdejante pasto de crónicas e reportagens, que me levariam a escrever O Moturista Acidental, e a gravar uma série homónima para TV. Para quem nunca experimentou a vida de tuktukeiro, isto é, visto de fora, e julgando o monge pelo hábito, quem o faz não passa de uma estirpe de diletantes. Um escol de janados, maltrapilhos, indigentes, impostores. A escória da sociedade, que, não tendo onde cair morta, caiu no cockpit de um tuk para arrebanhar uns cobres fáceis.
Ora, o guia, se tiver brio, estuda e dedica-se. Além de saber meia dúzia de línguas, os meandros da História, e de entreter, tem que usar da fineza dos vendedores avisados. Está na rua, mas podia estar numa livraria ou alfaiataria, a dissertar sobre a obra de autores ou a vender fatos por medida. Se sabe quem foi o olisipógrafo Júlio Castilho ou quem são Appio Sottomayor e a Maria João Martins, tanto melhor.
Se pode levar o viajante à mesa do British Bar onde Cardoso Pires escreveu o seu Lisboa: Livro de Bordo ou à viela onde desafinou o papillon de Baptista-Bastos por avanços sobre a sua esposa; ao Martinho da Arcada, onde Pessoa bebeu absinto e caligrafou A Mensagem; ou à passagem esconsa e sombria junto às Portas de Santo Antão onde Luís Vaz se travou de argumentos que o levariam ao cárcere, ali vindo a escrever o primeiro canto de Os Lusíadas, melhor ainda. Se anda munido dos mistérios desvendados por Victor Mendanha ou sabe dos passos secretos e da geometria dos maçons, é pura questão de gosto e apreço pelo que não está à vista.
Alvalade é falar do meu Sporting, indo um pouco mais além. Avô e pai Gomes, adeptos do Sporting, trouxeram-me, por ADN, a paixão leonina. Tenho bem presente o baptismo no velho estádio José Alvalade. Era uma tarde ensolarada e lá fomos, eu, pai e avô (das poucas vezes que nos recordo juntos), assistir a uma partida do campeonato.
Vi-me fascinado com o espectáculo ao vivo, embora me lembre de ter passado mais tempo ocupado a comer queijadas e a emborcar sumóis de ananás. Ganhámos o jogo e por cada golo (uma cabazada) vi-me içado como um papagaio de papel entre leões em êxtase. A emoção do golo tem a sua razão de ser na explicação para a irracionalidade do clubismo.
Ao passear um turista em Lisboa dou por mim a pensar no poema Invitation au Voyage, de Baudelaire, e de como a minha ideia de Portugalidade insiste em ser a de um lugar ao sol onde povos sucessivos campearam para se instalarem, mas no final sobrou um gueto feliz, oásis de turistas em sobressalto, um dos poucos lugares do mundo onde é possível uma mesma rua alojar um muçulmano, um judeu e um ateu sem a noite acabar num paiol de pancadaria.
Penso em discussões pífias de futebol, em poetas e versejadores, em mandriões e mânfios e tanas e badanas e sacanas (como lhes chamou o Nuno Bragança), mas tudo malta convencida de que é porreira e de bom coração, penso no Ernesto Sampaio que dizia ser esta uma terra de bimbos, mas a ocidente não conhecer outra melhor.
Viajar fez-me concluir que o português emigrado é um tipo orgulhoso do seu torrão deixado para trás onde sempre voltará, de peito feito à conquista da terra escolhida como canteiro adoptivo, mas sem nunca perder de vista a pátria por mais anafada a conta bancária.
Dei por mim, na qualidade de exilado (que me levou a escrever o livro de crónicas e contos Quo Vadis, Salazar? Escritos do Exílio), saudoso de um pão capaz, uma sopa da avó, uma diatribe de bola olho no olho na tasca do senhor Abílio, o mar ao sair da porta, a luz coada do Verão quando ainda é Inverno, o burburinho das ruas estreitas da Mouraria e Alfama onde sempre voltei e me vi guia acidental.
Se professor é quem ensina (a andar, falar, pensar…) a minha avó Vessadas que morava em Alvalade foi a primeira e grande mestra da minha vida. Antes de sentar o rabo na 1.ª classe, no Bairro de S. Miguel, comecei por ir com a minha avó para o Campo de Santa Clara, onde ela dava aulas aos neófitos. Eu ficava à retaguarda, nos bancos dos fundos, ao lado de um calmeirão angolano.
Tiago Salazar no ‘local de trabalho’, onde escreveu esta crónica.
Como era o neto da “stôra”, olhavam para mim de lado, mas, com o tempo, acabei por ser incluído e ganhei mesmo a alcunha de Tintim, graças a um redemoinho no meio da testa que perdurou até aderir ao semblante heavy-metal na adolescência.
Nas aulas da avó Vessadas aprendi o bê-á-bá (e as linhas de caminhos-de-ferro e os rios e a tabuada), como os mais velhos costumam dizer, “à moda antiga” (com açoites de régua e demais ensinamentos).
(não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)
***
A morte, que me extorquiu alguns prazeres e quase todos os compromissos, deixou-me, em compensação, uma cadeira excelente para assistir ao progresso humano. Daqui vejo os vivos correrem de descoberta em descoberta, avançarem de uma desocultação para uma revelação, da vela para a electricidade, da diligência para o automóvel, da pena de aparo para o computador, do almanaque para o satélite – e confesso que poucas coisas me divertem tanto como verificar que, enquanto a técnica galopa, a natureza humana segue atrás, de chinelos, sem pressa nenhuma e levando consigo, intactos, os mesmos medos, vaidades, superstições e tolices com que já se embaraçavam os gregos, os romanos e os meus contemporâneos.
Não digo isto por misantropia, que seria defeito pouco elegante num defunto – digo-o por experiência. Andei aí o bastante para desconfiar dos vivos e morri há tempo suficiente para confirmar as suspeitas. A inteligência humana possui a particularidade de inventar instrumentos cada vez mais perfeitos para servir paixões que permanecem primitivas, de modo que o telescópio não matou o astrólogo, o microscópio não extinguiu o charlatão e a estatística, longe de eliminar o medo, deu-lhe casas decimais.
A Astronomia oferece talvez o exemplo mais belo desta combinação entre grandeza e ridículo. Durante milénios, um eclipse não era uma simples interposição de corpos celestes, mas uma carta registada do além, por regra redigida em tom ameaçador. Na Mesopotâmia, anunciava perigos para o rei; na China, um dragão com apetite desmedido a morder o Sol e obrigava os homens a bater em tambores para lhe estragar a digestão.
Entre medos e lídios, conta Heródoto, bastou que o dia se vestisse de noite para que cessasse uma guerra que nem a prudência, nem a diplomacia, nem sequer o cansaço dos homens haviam logrado interromper; donde se pode concluir, sem grande injúria para a espécie, que o céu sempre exerceu sobre ela uma autoridade que ela própria jamais soube exercer sobre si.
Depois chegaram os astrónomos, esses grandes desmancha-prazeres do sobrenatural, e começaram a pôr método onde antes bastava o assombro. Tales ganhou fama de áugure, sem necessidade de esventrar vítima alguma, limitando-se a prever um eclipse; Halley calculou outros com uma precisão que aos seus antepassados teria parecido feitiçaria; Newton submeteu boa parte do céu à disciplina das leis; Einstein concedeu à luz a delicadeza de se curvar; e, para que não restasse ao firmamento sequer o consolo do mistério, em 1919 Eddington foi ao Príncipe e Crommelin ao Ceará perguntar ao Universo se obedecia ao alemão. Obedecia.
Desde então, o homem passou a saber não apenas que o Sol desapareceria, mas onde, quando, durante quantos segundos e com que inclinação voltaria a mostrar a cara.
Seria de esperar que, uma vez desvendado o mecanismo, se dissipasse também o assombro. Leitores e leitoras, conheceis mal a espécie…
O homem não abandona facilmente o prodígio. Quando a Ciência lho explica, limita-se a transferi-lo para a cerimónia, para o protocolo e, se possível, para o Diário da República. E assim chegamos a esta quarta-feira, em que Portugal terá, numa estreita faixa transmontana, cerca de vinte e seis segundos de velamento total — duração que me pareceria bastante para um espirro, um soluço ou uma declaração de amor sincera, mas que o país entendeu revestir de solenidade quase cesariana. Porque vinte e seis segundos de sombra podem ser breves para o Sol, mas não para a República: e assim, para os acompanhar, aos segundos, nada menos do que um Comissário Nacional para o Eclipse do Sol de 2026.
Detive-me algum tempo na designação, não por desconfiar do homem — Pedro Mota Machado, dizem-me, é astrofísico e, por isso mesmo, talvez seja a primeira vítima inocente da pompa —, mas porque um Comissário Nacional pressupõe, para o meu espírito antiquado, uma matéria que exige comissão solene, supervisão vigilantíssima, coordenação superior, autoridade quase majestática ou, pelo menos, uma remota possibilidade de desobediência; e pressupõe ainda, segundo a liturgia terrena destas grandiosas sinecuras, motoristas, assessores, gabinetes, ajudas de custo e alcavalas.
O Sol, até onde sei, dispensa tudo isso e continua a cumprir o expediente sem sequer pedir senha; a Lua, pelo que me consta, não recebe circulares; e a Terra jamais se sindicalizou – pelo que, assim, anda a mecânica celeste na desagradável modorra de cumprir o calendário mesmo se o responsável de serviço faltar.
Ora, o senhor comissário poderá mesmo adormecer sobre os papéis, perder o comboio, confundir a data, ficar cativo entre dois andares ou, num assomo de independência pastoral, abandonar o posto e entregar-se à pesca: nada disso perturbará a menor engrenagem do firmamento. À hora aprazada, a Lua comparecerá, o Sol consentirá no seu breve desaparecimento e a Terra prosseguirá, impassível, a sua rotação secular, com aquela soberba pontualidade dos corpos celestes que nunca conheceram despacho, greve, tolerância de ponto ou crise ministerial. O eclipse começará e terminará sem esperar pelo titular do cargo, privilégio administrativo de uma elegância quase ofensiva e que, convenhamos, pouquíssimos governantes conseguem oferecer aos governados.
Procurei, na verdade, com a curiosidade ociosa dos mortos, o decreto que instituíra semelhante magistratura sideral e não o encontrei – talvez não exista, talvez pertença apenas à arquitectura organizativa da Ciência Viva, talvez tenha brotado, de modo espontâneo, como certas flores depois da chuva. Pouco importa: o título adquire em si suficiência, porque há títulos que explicam uma época melhor do que tratados inteiros.
O Governo do senhor Montenegro, como é natural, não deixou o comissário entregue, sem escolta administrativa, a tamanha calamidade orbital. Publicou, entretanto, recomendações, muitas delas de uma ternura quase maternal, advertindo os cidadãos para o perigo de se dirigir, olhos nos olhos, para o Sol, porque tal imprudência pode lesar a retina — descoberta que, suponho, terá poupado ao país algumas experiências empíricas desnecessárias.
Sucede, porém, que a solicitude governativa, uma vez posta em movimento, sofre do mesmo vício dos grandes rios e de certos departamentos do Estado: custa-lhe reconhecer a margem e ainda mais deter-se nela. Ainda assim, seria injusto exagerar. A nota oficial não chegou ao ponto de recomendar protector solar factor 50, panamá para os cavalheiros, lenço de cambraia para as donzelas e um casaquinho leve para o eventual arrefecimento ao fim da tarde. Nem aconselhou água, merenda, sapatos confortáveis ou uma pequena almofada lombar para quem pretenda contemplar os vinte e seis segundos com dignidade postural.
Há limites para o paternalismo. Em algum momento, até o Estado português é forçado a admitir, com manifesto desconforto, que o cidadão talvez consiga tomar conta de si.
Confesso que poucas formulações administrativas me deram tanto prazer desde que deixei o mundo dos vivos, porque dois milénios de filosofia natural, três séculos de ciência moderna, Darwin, Pavlov, Lorenz, toda a etologia e grande parte da Medicina Veterinária conduziram, por fim, a esta síntese sublime da sabedoria estatal: se o gato quiser esconder-se, deixe o gato esconder-se.
Imagino o Bobi e o Tareco reunidos de manhã junto à televisão, atentos às orientações do Conselho de Ministros, aliviados por saberem que, durante aqueles vinte e seis segundos terríveis, poderão reagir sem incorrer em infracção administrativa. O Bobi talvez rosne, o Tareco talvez desapareça debaixo do sofá, e ambos poderão fazê-lo com aquela paz de espírito que só nasce quando o comportamento instintivo recebe homologação do primeiro-ministro Montenegro e do ministro Pinto Luz, verdadeiros luminares de uma Nação às apalpadelas.
Por sua vez, a imprensa, que possui o admirável talento de transformar qualquer prudência numa temporada da Netflix, tratou logo de desenvolver o capítulo veterinário: ponderar se a interposição dos astros assusta cães e gatos, como devemos ajudá-los, o que sucede quando o dia se transforma em noite, que sinais observar, que ambiente proporcionar. E, num momento de particular elevação civilizacional, sentiu-se até na necessidade de esclarecer que não se devem pôr óculos de eclipse nos cães, recomendação cuja existência me parece mais alarmante do que a hipótese que pretende prevenir.
Porque, ajuizadas leitoras e sopesados leitores, uma sociedade que necessita de ser advertida para não enfiar óculos protectores num labrador — e muito menos num pinscher, mas aí já por razões que dizem respeito à conservação dos dedos — talvez não deva inquietar-se em demasia com o desaparecimento temporário do Sol.
No meio deste umbrático ofício, vieram ainda os óculos humanos de protecção, distribuídos, procurados, esgotados, repostos e de novo desaparecidos com aquela velocidade reservada às mercadorias que a comunicação social consegue elevar, em poucas horas, da condição de objecto dispensável à de requisito elementar da sobrevivência.
Durante algum tempo chegou mesmo a anunciar-se um ataque informático à plataforma de reservas, notícia que me deu a esperança, infelizmente breve, de que a humanidade tivesse enfim conciliado os terrores da mitologia antiga com as comodidades da tecnologia contemporânea. Os chineses tinham um dragão que devorava o Sol; os lusitanos, menos indocíveis, ficam com hackers a atacarem a plataforma digital dos óculos. Mudaram os monstros, conservaram-se os viventes.
E, porque nenhum pânico moderno alcança a dignidade de acontecimento nacional sem o concurso organizado das instituições, todos acudiram. A Ordem dos Médicos quis avisos em praias e miradouros; multiplicaram-se as cautelas para câmaras e telemóveis; a Protecção Civil considerou deslocações, aglomerações e incêndios; os operadores eléctricos vigiaram, apreensivos, o breve soluço da produção fotovoltaica; os municípios traçaram estacionamentos; Espanha mobilizou milhares de polícias; a Iberia preparou um voo especial para perseguir a sombra; os hotéis encheram; e não tardaram a chegar ainda sacerdotes menores da vossa época em sessões de ioga, meditação, retiros espirituais e cocktails heliacais.
Em suma, três corpos celestes, que executam há alguns milhares de milhões de anos as suas sizígias sem pedir licença, orçamento ou parecer jurídico, conseguiram produzir agora em terras do século XXI uma dessas grandes óperas administrativas e comerciais em que cada organismo, empresa e especialista desempenha com gravidade a sua pequena parte para que o vivente, até capaz de olhar para o céu por conta própria, se convença de que necessita de instruções, reserva, estacionamento, polícia, aplicação móvel, assistência médica e talvez um mojito para sobreviver a vinte e seis segundos de obnubilação.
Na verdade, a Astronomia progrediu muito; a espécie, pelo que se vê, tem encontrado maneiras mais sofisticadas de permanecer parva.
Ao longo da vida acumulam-se pequenas amarguras que, isoladamente, parecem não justificar protesto. Um funcionário inventa uma regra; uma empresa transforma a incompetência em vantagem; uma autoridade desconhece a lei, mas conhece o conforto de mandar. Nada disto tem a grandeza de uma tragédia, embora tenha a persistência de um mosquito: perturba o sono e multiplica-se.
Perdi já demasiadas horas com assuntos classificados como questiúnculas. Mas as grandes arbitrariedades poucas vezes nascem grandes. Começam num balcão, numa cancela ou num regulamento que ninguém mostra. O pequeno poder alimenta-se menos da lei do que da obediência dos outros.
Decidi, por isso, criar esta crónica, porque acredito que aquilo que me acontece sucede a muitas outras pessoas; a diferença talvez resida no facto de eu não comer e calar. Quando alguém invoca uma proibição, peço a norma; quando uma autoridade manda, pergunto com que poder; quando a incompetência beneficia o infractor, recuso aceitar que a injustiça se torne razoável por ser frequente.
A primeira destas Irritações começa assim à conta de um dos gestos mais banais do nosso tempo: tirar uma fotografia. Foi no domingo, e “indo eu, indo eu” a caminho do estádio da Luz para ver o Académico de Viseu, levei desta vez uma máquina profissional para registar o que um jogo sem público, por causa do castigo ao Benfica, produzia: acessos vazios, cancelas inúteis e corredores sem cachecóis.
Cerca das 19h50, na estação de Alto dos Moinhos, fotografei, então, as cancelas de acesso do átrio, como tantas vezes fiz para a minha Da Varanda da Luz. Não apontava para instalações técnicas, não entrara numa área reservada nem montara tripés. Fotografava cancelas vazias, procurando mostrar o acesso ao estádio que receberia futebol sem receber pessoas.
Ora, talvez por enfado — uma estação quase deserta reduz as oportunidades do pequeno poder —, um jovem vigilante da empresa 2045 perguntou-me por que motivo fotografava, se tinha autorização e quem eu era. Respondi que não conhecia qualquer proibição e que até me encontrava no exercício da actividade jornalística. E a carteira, que até acabei por lhe mostrar, esclarecia a finalidade; não criava direitos.
Mas o jovem vigilante era rapaz de brios, e insistiu: o regulamento do Metropolitano proibia fotografias sem autorização. Pedi-lhe a norma. Não a tinha. O regulamento pertencerá àquela categoria portuguesa de diplomas invisíveis: ninguém os mostra, ninguém sabe onde estão publicados, mas todos exigem obediência. A teologia medieval precisava de argumentos mais elaborados para demonstrar a existência de Deus; ao pequeno poder basta um uniforme e a frase “são ordens”.
Nem de propósito, chegaram dois agentes da PSP com as mãos numa ‘ocorrência’. A autoridade pública juntou-se à suposta ‘autoridade’ privada que não era autoridade, iniciando-se então uma amena cavaqueira sobre um regulamento que, afinal, nenhum dos presentes conhecia. Mas os agentes da PSP até admitiram que, existindo uma regra interna do Metropolitano, talvez eu não pudesse fotografar. Em Portugal, quem proíbe beneficia de uma presunção de legitimidade até por agentes policiais; e quem pergunta pela lei começa a ser tratado como parte do problema.
Expliquei que um regulamento interno não se transforma, por geração espontânea, numa lei. Depois simplifiquei o seminário: anunciei que iria tirar umas fotografias à frente dos polícias. Tirei uma, depois outra e uma terceira. Caso estivesse a praticar um crime, uma contra-ordenação ou outro ilícito, disse-lhes, encontrando-me então diante de dois polícias, estaria em flagrante delito, com o alegado instrumento do delito nas mãos. Pedi-lhes então que actuassem com a norma aplicável.
Não actuaram. O momento tornou-se deliciosamente confrangedor. Ninguém queria admitir que a proibição podia não existir, mas ninguém se atrevia a aplicar uma sanção que não sabia identificar. Restou a solução tradicional: eu devia ir-me embora. Não por ter infringido uma norma, mas porque a minha permanência tornava demasiado visível a ausência dela.
Confesso alguma maldade neste tipo de episódios. Obrigo as pessoas a permanecerem dentro da contradição que criaram. O vigilante parecia convencido de que o uniforme lhe atribuía uma parcela de soberania; os agentes mostravam-se menos preocupados em saber de que lado estava a lei do que em conseguir o desaparecimento do cidadão que insistia em perguntar por ela. Talvez todos preferissem alguém que pedisse desculpa por incomodar quando era ele o incomodado.
A pandemia não inventou estes pequenos procônsules, mas deu-lhes treino intensivo. Há uns anos, qualquer balcão produzia regras, qualquer fita no chão fundava uma fronteira e qualquer funcionário se sentia autorizado a interpretar direitos entre duas ordens de serviço. Muitas dessas pulsões sobreviveram ao vírus. Ficou a ideia de que basta falar com firmeza para mandar e vestir um colete para exigir explicações.
O mesmo mecanismo surge quando a incompetência beneficia quem falhou. Um serviço não funciona, um processo demora, um documento desaparece ou uma resposta não chega — e o custo recai sobre o consumidor. O infractor ganha tempo, enquanto o lesado perde dinheiro e paciência. A ineficiência converte-se numa amnistia privada paga pelo elo mais fraco. Quando este protesta, recebe ainda o diagnóstico de conflituoso.
Depois do malfadado jogo, regressei à estação de Alto dos Moinhos. Continuava sem encontrar qualquer funcionário do Metropolitano, embora existissem três vigilantes privados disponíveis para defender um regulamento invisível. Acabei por enviar um pedido de esclarecimentos à presidente do Metropolitano de Lisboa. Queria conhecer a norma, a base legal, as instruções transmitidas à empresa 2045 e os poderes que a empresa pública julga ter colocado nas mãos de um segurança privado.
Estou, até agora, a aguardar a resposta. Caso a proibição exista, procurarei saber se é legal. Caso não exista, restará apurar quantas pessoas obedeceram a uma regra imaginária apenas porque alguém a pronunciou com convicção. As liberdades também se perdem assim: em pequenas cedências perante quem manda sem poder mandar.
Será que vou ter de pedir a norma ao abrigo da Lei do Acesso aos Documentos Administrativos? E se não resultar vai então uma intimação para o Tribunal Administrativo de Lisboa?