Lembra-se da polémica que causaram os materiais publicitários da Olá a chocolates e gelados com “ganhas-te” e “experimentas-te”, em lugar de “ganhaste” e “experimentaste”?
Não gostando de cancelamentos de nenhum tipo, declaro serem os cancelamentos gramaticais os que menos me ferem.
Proponho, com meio átomo de esperança, uma mobilização ou berraria por causa das mínis.
Vamos por partes, como fazia o famigerado Jack.
“Mini-“ (sem acento) é elemento de formação de palavras: minimercado, minicomputador, minibar, miniprato, miniteste, minitrampolim. (Atenção aos elementos de formação de palavras: eles existem para estar juntos ou separados por hífen — nunca para vagabundear soltos pelos textos, como tantas, tantas, tantas vezes vemos com “mega-“, “super-“, “hiper-“, “pseudo-“, “anti-“. Etc., etc. etc., etc., etc.)
Não se confunda esse elemento de formação de palavras com o nome/substantivo. Parece impossível, mas é verdade: “míni” (com acento) é nome/substantivo feminino que designa a pequena garrafa de cerveja. Entre outros, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, os dicionários em linha da Porto Editora e da Academia das Ciências de Lisboa dizem-nos esta informação proveitosíssima.
Exemplos correctos:
“Estou de ressaca hoje. Nem uma míni consigo beber.”
“Gosto de ver futebol a beber mínis e a comer tremoços.”
Existe ainda, com acento, enquanto adjectivo (comprove como inúmeros dicionários físicos e digitais, mais antigos e mais modernos, lhe conferem — e bem — esta classe gramatical), para designar algo de tamanho muito reduzido.
Vejamos: uma coisa é falar de um miniprato; outra, dizer que determinado prato é míni; uma coisa é falar de um minilápis; outra, dizer que determinado lápis é míni.
Veja-se (perdão pela repetição do verbo) a ilustração feita para este artigo, por Bruno Rama, da míni que gosta da língua e não cede ao tantofazismo.
Dei por mim hoje, Dia da Liberdade, a recordar uma espécie em vias de extinção — embora, como todas as espécies resilientes, vá resistindo às mudanças de habitat: o jogador denso, pegajoso, de marcação homem-a-homem, desses que não distinguem entre bola e tornozelo e que fizeram da arte de impedir o jogo uma profissão estética.
Antes do VAR, tinham maior pujança. Não criavam, não inventavam, não encantavam — mas estavam sempre lá, colados ao talento alheio como uma sombra inconveniente, muitas vezes com recurso a expedientes que fariam corar um regulamento inteiro.
Vieram-me à memória alguns episódios que dispensam grandes apresentações. Claudio Gentile, por exemplo, no Mundial de 1982, decidiu que Diego Maradona não jogaria — e cumpriu. Não por mérito técnico, mas por saturação física: faltas sucessivas, contactos permanentes, uma perseguição pessoal que transformou o génio argentino num figurante.
Noutro registo, mais brutal, Andoni Goikoetxea resolveu a questão com uma entrada que partiu o tornozelo de Maradona, em Setembro de 1983, elevando a marcação cerrada a um patamar de pura violência. E poderíamos ainda falar de Gennaro Gattuso a perseguir Zinedine Zidane com uma devoção que roçava o fanatismo físico, ou das épicas marcações de Ashley Cole a Cristiano Ronaldo. Em comum, todos estes duelos têm um traço simples: quando a técnica não chegava, tentava-se impedir que existisse.
Recordei tudo isto — e não por nostalgia futebolística —, mas por me reconhecer, com algum humor e não menor ironia, numa versão contemporânea dessa marcação ao homem. Não num relvado, note-se, mas num espaço mais rarefeito, onde as faltas não deixam nódoas negras visíveis, mas se traduzem em insinuações, epítetos e uma certa obstinação em seguir cada movimento como se dele dependesse uma espécie de redenção moral.
Não cria jogo, não acrescenta substância, mas marca. Marca de perto, marca com insistência, marca com aquela convicção de quem acredita que a repetição substitui o argumento. E fá-lo, curiosamente, em nome de uma pureza que, se fosse levada a sério, obrigaria a um silêncio mais prudente.
Ora, não partilho dessa visão ornamental da democracia. Não me parece que a liberdade se meça pelo número de passos dados na Avenida da Liberdade, nem pela flor empunhada para a fotografia. Mede-se, isso sim, na capacidade de agir — e, no meu caso, de escrever — com independência, rigor e uma certa disposição para incomodar.
Não desci, portanto, pela Avenida; subi para a Varanda da Luz — que, convenhamos, tem uma acústica mais interessante e menos previsível. Levei comigo essa leveza que o futebol, mesmo quando sofrido, ainda consegue oferecer.
E lá assisti a mais um daqueles jogos que fazem do Benfica uma experiência filosófica: um golo marcado cedo — logo aos dois minutos, que só ouvi, porque cheguei, mais uma vez, atrasado —, como manda a tradição; um empate do Moreirense a reacender as dúvidas existenciais; um 2–1 meio fortuito, como se o destino também jogasse; e, claro, aquela tremedeira final que transforma minutos em eternidades.
Até que, já perto do fim, dois golos de Ivanovic vieram restituir alguma ordem ao mundo — ou, pelo menos, à tabela classificativa. E o Benfica está com quatro pontos de avanço sobre o Sporting, depois da vitória (à qual assisti ao vivo, para horror do sr. Barriga) na semana passada, em Alvalade, apesar dos dois jogos a mais no momento em que escrevo.
Não sei se este acto de liberdade (ou libertinagem) me tornou menos democrata. Suspeito que não. Sei apenas que, entre a solenidade imposta e a liberdade vivida, continuo a preferir a segunda — mesmo que isso implique, de vez em quando, escapar à marcação cerrada e encontrar espaço, nem que seja na bancada.
No fundo, talvez seja essa a melhor resposta aos “cães de caça” deste e de outros campos: não disputar o jogo deles, não entrar na lógica da falta sistemática, mas manter a bola em movimento. Porque, como o futebol nos ensina tantas vezes, há sempre um momento — um só, às vezes — em que a técnica, a inteligência ou simplesmente a persistência conseguem libertar-se da pressão.
E é aí que o jogo (da vida), finalmente, acontece. Não é, sr. Barriga?
Houve um momento recente na televisão portuguesa que, mais do que um erro ou uma infelicidade verbal, funcionou como uma espécie de revelação involuntária, um desses instantes que vão sendo menos raros em que o dispositivo mediático deixa de simular consciência e expõe, com uma clareza quase indecente, a sua própria mecânica interna.
Só não percebe quem não quer, nesta fase acelerada do campeonato. Mas talvez falemos de um campeonato pertencente a uma modalidade que ainda não tem nome.
Como se, por um segundo, a tinta que faz de sangue escorregasse pelo monitor abaixo e o público pudesse ver abertamente a forma como aquilo é produzido, acelerado e empurrado para fora do próprio objecto antes de existir verdadeiramente como pensamento, embatendo de frente com a própria realidade.
Pensamento que a própria apresentadora de televisão em questão diz não ter quando actua em directo. E ela representa o todo e (não) sabe do que fala.
Durante uma emissão de um programa da manhã da TVI, conduzido pela inefável Cristina Ferreira, discutia-se um caso de violação, desses que entram na televisão já com uma carga dramática preparada para consumo, em que o sofrimento real de alguém é traduzido em narrativa televisiva, com especialistas em estúdio, opiniões calibradas e aquela tensão ligeiramente artificial que mantém o espectador, certamente mais velho, preso entre o desconforto e a curiosidade.
Foi nesse cenário que surgiu a pergunta, formulada em directo a uma psicóloga, num registo que procurava aparentemente explorar o ponto de vista do agressor, num caso de abuso sexual colectivo por parte de quatro jovens a uma adolescente, insinuando-se que, no meio da excitação, alguém ouvir um “não” pode não ser fácil, como se a própria linguagem pudesse ser momentaneamente suspensa por um estado de tensão sexual.
Saberá a apresentadora do que fala?
É evidente que a pergunta trazia água no bico televisivo. Há uma percepção pública de que já usara várias vezes a expressão “pôs-se a jeito” para justificar vários actos violentos praticados por homens noutras situações. Não o posso confirmar. Mas, depois de ouvir comentadores de outros programas do género, fica-se com essa ideia.
Mas aqui pôs-se ela a jeito, mesmo não dizendo a famosa frase.
Neste caso, a pergunta, que a própria apresentadora viria depois a enquadrar, foi disparada como uma tentativa de “perceber a cabeça de um violador”.
Mas não caiu apenas mal por ser uma formulação infeliz; tratou-se de uma deslocação do eixo moral da conversa, um desvio subtil que retira centralidade à vítima para a transferir para um exercício especulativo que, mesmo quando se pretende analítico, acaba por reproduzir aquilo que diz querer desmontar.
Aqui, a própria ideia de uma conversa mais pedagógica, como seria normal manter com especialistas da área, sofreu uma alteração. Só que alguém reparou e, como a apresentadora já era um alvo a abater, lá veio o alimento para a fauna digital se manter ocupada.
Nenhuma das pessoas no estúdio reagiu negativamente à pergunta. Mas também é verdade que, nestes directos, banaliza-se a violência com prémios e telefonemas pelo meio das conversas tidas por especialistas entre psicólogos e criminólogos.
A própria psicóloga a quem a pergunta foi feita respondeu não denunciando a pergunta nem saindo do enquadramento, mas, depois da polémica, veio justificar-se noutros meios.
Tudo num contexto em que a televisão parece não pensar, apenas fala, e fala depressa, e fala sempre, porque o silêncio, nesse ecossistema, é visto como uma falha técnica, como morte, e não como uma possibilidade ética.
E o que se seguiu foi a previsível, mas reveladora, coreografia da indignação contemporânea.
A frase naturalmente circulou, amplificada pelas redes, destacada do contexto e, ao mesmo tempo, intensificada por ele, gerando milhares de reacções, críticas duras, acusações de banalização da violência sexual, leituras que apontavam para uma forma de culpabilização implícita da vítima.
Falou-se de machismo mais uma vez, como o refrão que, de tanto ser cantado, já perdeu o drama.
Segundo vários comentadores, ainda que sem consenso, a própria empresária tem vindo, há já algum tempo, a expor-se de forma recorrente, pelo que, a manter-se esta trajectória, coloca-se a jeito de ser seriamente canabalizada no espaço público.
Faz parte. A violência psicológica a que estas pessoas da televisão se sujeitam também é enorme. Por entre fotos em biquíni, resorts, dietas e Photoshop, vivem grandes neuroses e depressões. Tudo tem um preço.
A tragédia anunciada da estrela normalmente dá sumo para outros programas, mesmo que seja apenas especulativo. As televisões vivem disso. Mas mesmo que vá funcionando de forma autofágica, alguma coisa estará a mudar.
Do seu lado também surgiram defesas assentes na ideia de que perguntar não é o mesmo que afirmar, de que tentar compreender não implica justificar, como se a linguagem pudesse ser separada daquilo que produz, como se certas perguntas não transportassem já em si um mundo inteiro de pressupostos.
Nas redes, toda a gente, de um momento para o outro, se tornou especialista em retórica.
Mas a verdade é que pouca gente sabe efectivamente falar de retórica. Muito menos de retórica televisiva discutida na própria televisão. O problema está nesse “na própria televisão”.
O espelho a partir-se por auto-sugestão é estranho e pouco viável, mesmo num mundo que começa a sucumbir às suas fissuras.
A reacção de Cristina Ferreira, consolidada numa entrevista posterior ao Jornal Nacional, seguiu um padrão que a televisão conhece bem e executa com eficácia quase industrial: não houve um pedido de desculpas directo, mas um lamento pelas palavras escolhidas, uma tentativa de recentrar a questão na intenção e não no efeito.
Como se o problema residisse na interpretação pública e não naquilo que foi dito, como se a linguagem pudesse ser corrigida a posteriori sem que o gesto inicial perdesse a sua densidade e, ao mesmo tempo, uma ligeira deslocação da responsabilidade para o ambiente mediático, para os comentadores, para a velocidade com que tudo é julgado, esquecendo convenientemente que esse mesmo ambiente é o que sustenta e amplifica a sua própria presença.
Imagino a vítima que na altura do crime tinha dezasseis anos, em casa a ver este espectáculo, sobre uma passadeira vermelha cheia de nódoas ensanguentadas em que a vítima já não era ela.
Mas o mais interessante, e também o mais desconfortável, não está na pergunta nem na reacção explosiva, anunciada e expectável, mas no que ambas revelam sobre a lógica mais profunda da televisão contemporânea, essa maquinaria que vive de um equilíbrio instável entre a espontaneidade encenada e a provocação calculada.
Aqui, o pensamento em voz alta é incentivado como técnica de retenção de audiência, e a figura central, neste caso uma apresentadora que é simultaneamente rosto, marca, poder interno e produto, transforma-se inevitavelmente num ponto de convergência absoluto nesta neurose hodierna em que a realidade parece ser uma nota de rodapé.
Portanto nada de novo na frente ocidental.
Isto nunca foi um desvio atípico, sempre foi o funcionamento normal. Durante anos este funcionamento operou sob a ilusão de mediação; agora, sem filtro nem intervalo, o sistema limita-se a expor-se, revelando que falar nunca foi consequência do pensamento, mas o seu substituto desde o início.
Foi só mais um caso em que alguém não apenas conduz a conversa, mas a ocupa, moldando-a e, em momentos como este, deslocando-a para si própria.
O habitual narcisismo, tanto pessoal como industrial, em estado bruto, para que tudo aparentemente fique na mesma, num suposto pacto com o tempo que tudo apaga.
E falar de narcisismo aqui não é um insulto fácil, é quase uma descrição funcional: a televisão constrói e necessita de figuras que operam a partir de um centro contínuo, que falam com a convicção de que o mundo pode ser reorganizado através da sua enunciação.
Os resultados estão à vista.
Confundem, por força do próprio sistema, o acto de pensar com o acto de dizer e, ao longo do tempo, passam a habitar um espaço onde tudo o que é dito ganha automaticamente estatuto de acontecimento, independentemente da sua consistência, da sua prudência ou da sua responsabilidade.
Nada está perdido, simplesmente porque sempre assim foi. Agora está é o truque a ficar mais evidente. O comboio a alta velocidade está rapidamente a chegar a algum lado, mas parece não saber onde estão os freios.
Nesse sentido, a pergunta que gerou a polémica não é um acidente isolado, mas um sintoma, uma pequena falha que permite ver o todo: um meio que valoriza a velocidade sobre a reflexão e até a intensidade sobre a precisão, transformando qualquer deslize num ciclo produtivo, onde o “erro” inicial gera indignação, a indignação gera atenção, a atenção gera mais conteúdo, e o sistema, longe de ser ameaçado, pensa que sai reforçado, como um organismo que se alimenta das suas próprias disfunções.
Mas talvez já não seja bem assim.
O poder da televisão já não está na televisão. Estes actores, em estado pré ou mesmo neurótico, e cada vez menos sinuosos, feitos de Cláudios, Cristinas e até os aparentemente mais credíveis como o pivot do telejornal que a entrevistou, José Alberto Carvalho, (que ainda vai passando impune), fizeram apenas o seu “trabalho” ajustado à política do canal que defendeu a apresentadora.
Estes protagonistas já têm mais ar de vítimas que de carrascos frios de outrora, disfarçados de salvadores moralistas.
O jornalismo televisivo e não só, já há muito foi capturado para outro campeonato mais abstracto.
Com isto tudo, não fica apenas a memória de uma frase infeliz, mas a percepção de um mecanismo mais vasto, em que a televisão não se limita a mostrar o mundo, mas também já não o reconfigura constantemente à imagem da sua própria natureza.
Já perdeu essa faculdade.
É a vida feita de chuva televisiva que cada vez molha mais e há quem comece a perceber a construção e a sair, paulatinamente, dos seus armários.
Desde aquela noitada maluca em Londres, o leão aguenta-se nas patas mas não pode com uma gata pelo rabo.
— Mete o Alisson, mister.
— Eu metia, mas…não sei onde ele está!
Com o ponta esquerda brasileiro as pontas finais eram uma alegria para o Sporting e uma desfeita para os adversários.
— Onde se meteu o miúdo?
Os rafas não chegavam a tempo da Turquia.
— Até já o tinha na ementa, carago.
E nove bravos de azul e branco, mais um de cor-de-rosa — novos campeões com todo o mérito — não ousariam invadir a área para uma última jogada.
— Luís, solo una carrerita más! Perdona, Alisson fue cancelado.
À chegada, os seguranças tinham instruções precisas.
— O senhor Alisson de Almeida Santos aqui não entra para roubar bolas nem toalhas.
O macaco também não entrou no estádio, mas deram-lhe a ele o microfone, a fim de animar a bancada com cânticos de incentivo ao adversário.
—O Sporting é meeeeeeeeeeeeeeerda. E o Alisson foi barrado.
Naquele derradeiro e decisivo pontapé de canto, ao ver os defesas em estado terminal, Rui Tiago Dantas da Silva teve uma epifania. Subiram-lhe à cabeça as meias-finais na Puerta del Sol, a glória do tricampeonato e a inveja que o Mourinho ia ter de o ver a defender penalties na final da Liga dos Campeões.
— O Alisson não entrou, mas a bola também não passa!
Atirou-se e
— Ó delicioso voo!
Como no poema de Mário Quintana, foram encontrá-lo miraculosamente incólume no relvado.
O debate entre André Ventura e José Pacheco Pereira (JPP) não foi o confronto esperado por quem gosta de boa informação estatística e factual, como o historiador prometia. Parecia até que, caso o líder da direita radical aceitasse, seria quase bater em mortos.
Mas não.
O que se viu foi uma operação contínua de ocupação da linguagem, onde cada frase surgia para impedir que a anterior se completasse. O tempo entrou em jogo apenas para o campeonato-boomerang da interrupção, antes que qualquer ideia ganhasse força, criando uma superfície em que tudo acontece depressa demais para que alguma coisa exista de facto. Até parecia estar tudo combinado, como nalguns combates de boxe.
E o jornalista de serviço (João Póvoa Marinheiro) foi mais espectador do que eu.
Se fosse eu, despedia-o. Embora conheça o poder do auricular e da busca incessante de audiências…
A verdade é que ninguém ganhou. Nem o Chega, nem o JPP, nem o público da mocada, nem o público que queria aprender alguma coisa.
A única coisa que ficou, ainda que torpe, foi a certeza de que, depois da Revolução de Abril, houve abusos, tortura e terror da parte da extrema-esquerda. Alguns já o sabiam. Muitos não sabiam. Outros sabiam, mas não diziam nada.
André Ventura actuou por cortes sucessivos. Reduziu tudo a blocos mínimos que entravam e saíam sem ligação, como fragmentos lançados contra o outro, para impedir o militante do PSD (não se percebe bem como) de construir uma frase e um raciocínio.
Pacheco Pereira respondeu deslocando o centro da fala para si próprio. Não como argumento, mas como saber acumulado. A velha autoridade moral da extrema-esquerda – e de quem trata os media por tu – veio ao de cima, mas já não tem peso.
Como se o passado pudesse funcionar como prova suficiente no presente. O efeito foi estranho: solidez aparente, sem consequência real. A realidade da ditadura é suficientemente conhecida. Ainda assim, percebeu-se que o líder do Chega é bem musculado quando olha para trás. Não faço ideia se isso traz votos. Imagino que sim.
Ele domina o TikTok. JPP dominava outra coisa: uma espécie de tiki-taka televisivo, com goleadas a Costa, Xavier, Coelho e companhia. Parecia nascido para aquilo. Até à pandemia era o principal crítico dos media vindo dos próprios media – que o adoravam.
Masoquismo dos media? Não me parece.
Mas nada foi verdadeiramente desmontado naquele dia na CNN. No meio de tanta berraria, não havia muito para desmontar.
Viu-se apenas um desvio constante. Duas linhas que nunca se cruzaram. Duas velocidades que se anularam: uma pela saturação, outra pela fixação.
O pensamento não falhou. Nem sequer entrou.
O formato não o permitiu. E o jornalista parecia estar a fazer outra coisa durante o debate, talvez a ver o próprio debate no YouTube, comentado por alguém mais entusiasta, porque a vida já virou para esses lados.
Este encontro exigia regras que, à partida, Pacheco Pereira deveria conhecer. Não faz outra coisa que respirar o ar digital dos estúdios há demasiado tempo, ainda vindo do tempo em que se respirava em analógico.
Assim, sinceramente, não se percebeu a atitude do septuagenário, que já não tem a mesma guelra de quando arrasava o José Magalhães em programas semanais para gáudio televisivo.
Devia dedicar mais tempo ao seu incrível arquivo de design e comunicação.
Fica o ruído. Algum ritmo. Tensão, vá. Zero transformação.
Ventura percebeu isto melhor. Sabe que, naquele formato, construir menos vale mais. Cortar rende. Apertar pode fazer jackpot. Voltar atrás também pode render. A televisão já lhe interessa pouco como espaço de persuasão. Interessa-lhe como passagem para o recorte, para o excerto e para a circulação posterior. Mesmo quando está ali, já está a falar para outro lado.
Pacheco Pereira entrou como se ainda estivesse no tempo em que bastava ter um bom arquivo. Não tinha à frente o Miguel Sousa Tavares ou o Mário Crespo, deslumbrados com a sua sabedoria, de língua caída nalguns casos, impressionados com a memória e, na altura, fôlego do historiador para arrumar a sala e dar lições aos espectadores mostrando serviço público que a televisão oferecia de “borla”.
Mas agora já não basta. Continua talvez a saber mais do que quase todos em televisão (não é difícil), mas isso deixou de garantir vantagem quando o terreno foi desenhado para premiar a agressão, a brevidade e a reincidência. Armou-se em espadachim num ringue onde já só se distribuem cotoveladas. Devia saber.
Talvez por isso nada tenha sido desmontado. Matéria havia de sobra, mas o debate televisivo já quase nunca serve para desmontar seja o que for. Serve para manter circulação, produzir recortes, encher grelhas e dar à decadência um ar de utilidade pública.
Ora bem, lá estou eu a bater no ceguinho outra vez mas é aqui que os media entram a pés juntos. Não como árbitros, e muito menos como lugar de esclarecimento, mas como indústria de embalamento da gritaria, onde o “deixe-me só terminar” é a frase mestra.
O jornalista, que noutras ocasiões até se mostra seguro, não falhou apenas por ser fraco ou passivo mas porque aquele papel hoje consiste em assegurar que o ruído pareça um debate e que a desordem não ponha em causa a emissão.
E claro que, para mim, não houve vencedores. Houve um velho profissional da televisão a descobrir que a televisão já não é dele, um político tiktoker perfeitamente adaptado à economia do corte e ao seu tempo e um jornalista reduzido à função de assistente de tráfego. Incomoda. Mas também dá artigos de jornal. E isso não faltou.
Enfim, foi um jogo amigável com bofetadas pelo meio, mas sobretudo um retrato bastante exacto do estado em que as coisas se encontram na zona da comunicação mediática. Deploráveis, como diria nos seus bons velhos tempos JPP.
Nestas crónicas quero dizer tudo e porque as determinações do Mundo, sós, não bastam, apela-se ao êxtase da supra-sensível fantasia. mirabilia, portanto, na sua codificação de teratologias, de voos outros, além da evidência da matéria. Pois as fantasmáticas figuras, todo o precipitado de tanta literatura e cultura, são elas próprias metáfora da urdidura do todo, na sua quotidiana faina que, aliás, se não ousa, por inteiro, desfiar.
E convém relembrar, em primeiro lugar, que o mais insondável elenco, mirífico e incrível é esse conjunto de vinte e poucos sons e símbolos os quais, mais diversos que a forma de Proteu, compõem a enunciação de toda a criatura, viva e respirante ou, tão-só, pensada em ideal.
2.
Imagino, no entanto, um texto infinito — a crónica inesgotável. Que conte toda a circunvolução do orbe, onde o ínfimo pormenor e a grande pincelada de azul, que predomina. Todas as conversas de imemorial resíduo, os sonhos e dissabores de quanta humana criatura penou sob o Sol. E as infinitas, cambiantes, fulgurações, as imagens em completa série dos pluriformes espelhos que, virtualmente, multiplicam a face da realidade.
Suprimido, assim, o silêncio, poder-se-ia extinguir o planeta que esse arrazoado, autopulsado, moto perpétuo de coisa nenhuma faria, com vantagem, a tão necessária companhia aos anjos. Único sustentáculo, se bem que cifrado, na tessitura da vida, deste ingrato mundaréu. Teriam esses albialados, afinal, o seu Deus. Pois, se eles respiram palavra pura que anelo melhor que um perpétuo texto para sua consolação?
Julgais que deliro? Decerto, julgais. Mas, não vos ocorreu já, que não existindo essa absurda ideia de uma todo-sapiente divindade, outras entidades, por força, teriam de ser, para que o drama prosseguisse, sobrevivesse ao cansaço que a todos tolhe com a força do pó? Guardiões, no seu eterno autismo, da palavra, que não mesmo da luz.
Mas, doutra banda, toda a imagem é divina porque toda a alegria é passageira e, assim, há que transfixar o momento da perene contemplação.
Ora, isso é mor de deuses e esses, que nem chegam a ser, estão em tudo: no mais breve sonido, na víscera das coisas que são e, do mesmo modo, na fantástica imaginária, da cornucópia celeste e terrena que, pura e perfeita se abstém da consabida corrupção.
3.
Por isso o texto inaugural destas crónicas só poderá ser a crónica das crónicas do porvir.
Defina-se, a paleta de cores irreais para que nada fique, virtualmente, de fora excepto o por dentro das coisas, já que se tenta a duvidosa edificação de uma ciência vaga, talvez nula, mas no que haja no flutuar na orla do sentido.
E, é por mor de leveza, para distração do leitor, que se procura o lar de um fantástico breve, esse o que é próprio do que de luminoso houver na vária cultura: um lugar, um tempo, um modo e um género de dizer, mas que cative, pois se verta a escrita em enamoramento pela forma, pelo ritmo ou pelo tom de um texto que, em toada própria, desdobre o mote em estrofes ou, de um refrão, as variações de cançoneta. E, ainda, o que não é pouco, se verta um quantum de alegria no texto, e alegria na leitura, porque é nesse labor que se encontra a fugaz-elusiva ventura de nos cumprirmos em escrita e se tal alor contagiar o leitor, então ter-se-á por meritório o esforço.
Introduzir, por fim, a variedade de tema e motivo, saltando mesmo de assunto em assunto com a liberdade própria de outro tempo, o da nostalgia de uma era heróica, ainda que não acontecida.
4.
Assim, os autores obsidiantes, aqueles livros obscuros mas fecundos, que carecem de ser relembrados ou trazidos à luz, as anedotas filosóficas que, à margem das filosofias estabelecidas, são signo e repositório de alguma verdade, até a ficção, ainda que em tom de alguma ruminação. Mas também a música e o cinema ou toda e qualquer expressão de uma angústia, uma esperança. Enfim, de quanta marginália nos lembremos ao fluir da pena: as realidades um pouco esquecidas ou todas novas e actuais, mas que mereçam um tanto de reflexão. Sim, o devir do tempo que pode ser circular ou contínuo, o fragmento que, sendo a forma que hoje se impõe, permite infinita arrumação, umas vezes sequencial, outras, remissiva.
Ter o fantástico — não só na literatura ou o que assim é denominado — presente em texto ou em acto-de-escrita; o bizarro, ínsito no dia-a-dia, assim como naquele instante irreal, único e irrepetível, em que se dá a inversão, a distorção das regras comuns ao ser-do-mundo, mas como signo-sinal do que reste conforme e assim estas breves crónicas poderão — quem sabe? — em quas’alquímico precipitado, conter um Cosmo.
5.
Como vos disse, nestas crónicas quisera dizer tudo, mas como tal é impossível, propõe-se, então, explorar o conceito de mirabilia, que significa «milagre» ou, mais especificamente, o que de maravilhoso, bizarro, obscuro, exótico e esotérico nos foi legado na tradição cultural do Ocidente.
João Pereira de Matos é escritor e investigador no CHAM – Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa.
À primeira vista, a BlackRock pode parecer o nome de uma banda de metal dos anos 70. Assim como a Vanguard Group.
Mas não, nada disso.
Há uma minoria de pessoas que sabe, ou já ouviu falar, destas mega-hiper empresas de investimento que tentam passar pelos pingos de uma chuva que cada vez molha menos (ou mais, segundo o ângulo político, ou mesmo geográfico, por onde se olhe).
É disso mesmo que se trata: vultos gigantescos de capital que surgem frequentemente como grandes accionistas das mesmas empresas, cruzando presença e influência. Não têm nada propriamente físico para vender. Só lidam com capital. São uma espécie de marca branca com um nome dark.
Confusos? Claro, é programa conceptual a mais para a nossa camionete, ainda que com alta potência.
A BlackRock foi fundada em 1988 e nunca mais parou de crescer. O verdadeiro salto de gigante deu-se em 2009, quando comprou a Barclays Global Investors e se tornou no maior gestor de activos do mundo. Subiu definitivamente ao pódio durante a pandemia viral e política da Covid-19, com o aval praticamente do mundo todo.
Na verdade, a BlackRock é uma entidade em que não se sabe bem quem está por detrás, porque o capital é disperso, institucional e global, com participações cruzadas que se diluem em fundos que detêm fundos que detêm fundo.
O seu CEO é Larry Fink, e é ele que dá a cara por este monstro financeiro. Não tem ar de choninhas geek tipo Bill Gates, mas anda lá perto.
Os donos deste tipo de estruturas não são figuras únicas nem famílias míticas. São redes de capital institucional que se repetem, se cruzam e se reforçam através de participações, fundos e estruturas financeiras cada vez mais opacas na sua transparência formal.
Dizer que a BlackRock controla o mundo é quase um lugar-comum para quem já tropeçou nas teias invisíveis dos mercados financeiros. Mas talvez seja mais rigoroso dizer que está presente nos pontos onde o mundo se torna inevitável.
E o problema não está apenas no que ela controla. Está no que ajuda a enquadrar e a tornar possível, com a cumplicidade de agentes de quem os conspiracionistas digitais gostam tanto, como a Open Society Foundations, de George Soros, ou a Organização Mundial de Saúde, associada por muitos a Bill Gates. Já para não falar nas grandes farmacêuticas.
Esta mega-máquina de investimento (inversão de valores, de prioridades, de escrúpulos) gere biliões e ainda influencia enquadramentos políticos, crises e reorganizações económicas. Tudo com uma agilidade que nenhum partido, nenhum governo e quase nenhum jornalista consegue, quer ou pode acompanhar.
Porque, vejamos: quando um país entra em bancarrota, quando uma empresa de petróleo “verde” finge que salva golfinhos enquanto derrama crude no mar, ou quando uma guerra algures na Eurásia faz disparar os preços do trigo, a pergunta não é “quem ganha com isto?”, mas “quem já estava posicionado para beneficiar?”.
E a resposta é quase sempre a mesma.
Durante a crise financeira dos anos 10, muita gente ficou a saber de um monstro chamado Goldman Sachs. Ao pé da BlackRock e da Vanguard, são uns meninos de coro. É como pôr um T1 ao lado dos Jerónimos.
Nessa altura, a Goldman Sachs era muito criticada pela esquerda, que apontava setas à Alemanha, à Troika, aos bancos centrais. Com razão e pertinência. Tivemos o exemplo de Yanis Varoufakis, ministro das Finanças grego depois da vitória do Syriza, que tentou confrontar a Troika de cabeça erguida e elucidou parte da população portuguesa sobre os mecanismos obscuros que operavam por aquelas bandas. Para muitos, foi um caso flagrante de dissidência controlada. Para outros, uma típica varoufakizada de um especialista em teoria dos jogos.
Mas os tempos mudaram. Durante a pandemia, os “monstros” eram os mesmos da crise de 2008, mas as ruas calaram-se, e o rock and roll passou, no caso de alguns países, para o lado das direitas extremadas (conservadoras ou mais liberais) que gritavam nas avenidas. Um mundo ao contrário, mas certamente com design de autor (para não perder o sal conspirativo).
Há quinze anos, o mundo ocidental ainda parecia dividido de forma mais clássica: uma esquerda mais humana e social, uma direita mais económica e liberal, ainda que para alguns mais cépticos não fosse bem assim. Ainda não tinham chegado a Portugal as forças da extrema-direita, ou da direita radical, securitária, identitária (há versões para todos os gostos), que vieram baralhar o jogo político e dividir ainda mais os endividados.
Há um momento revelador que raramente é tratado com o peso que merece.
Em 2017, numa entrevista, Larry Fink afirmou de forma bastante clara que certos comportamentos teriam de ser forçados:
os comportamentos vão ter de mudar, e este é um aspecto que estamos a pedir às empresas. É preciso forçar comportamentos, e a BlackRock está a forçar comportamentos. Cinquenta e quatro por cento dos novos estudantes universitários são mulheres. Adicionámos quatro elementos no que diz respeito à diversidade do emprego neste ano. Não alcançando os níveis de diversidade, a remuneração pode ser afectada. Temos de forçar comportamentos. Se não se forçam comportamentos, seja de género ou etnia, na composição das equipas, vai haver consequências. E isto não passa apenas pelo recrutamento. […] Estou chocado que não tenhamos visto mais oportunidades, e vamos ter de forçar a mudança.
Avancemos uns anos para 2026. O mesmo Fink surge agora a dizer que o pêndulo foi longe demais. A sustentabilidade já não se sustenta no mesmo discurso. Disse-o numa entrevista televisiva:
A sociedade move-se, o pêndulo move-se o tempo inteiro. No caso da BlackRock, somos responsáveis por gerir o dinheiro de todos. Mesmo hoje, fala-se menos das energias renováveis, mas temos muitos investidores em todo o mundo a tentar reforçar a energia solar e outras coisas similares. Estamos a trabalhar com a Occidental Petroleum neste preciso momento para construir as melhores fábricas de captura de carbono no Texas. Acredito que o pêndulo de há cinco anos foi longe demais? Sim. Acredito que somos mais pragmáticos, eu próprio sou mais pragmático agora. [O jornalista pergunta-lhe: «A BlackRock empurrou as empresas mais para a esquerda do que pensava?»] Nunca foi nossa intenção, porque tenho de ser fiduciário de todos os que nos dão dinheiro. A nossa responsabilidade é assegurar-nos de que, se um dos nossos investidores quer investir cem por cento em hidrocarbonetos no Texas, eu invisto cem por cento do dinheiro no Texas. Mas se outro fundo estatal quer que invistamos em toda a energia verde, também vamos fazê-lo. É o dinheiro deles. Hoje, devido à IA e à imensa necessidade de energia e electricidade, não podemos ser apenas de uma maneira. A China está a construir velozmente mais centrais nucleares do que qualquer outro país. Têm os maiores painéis solares, mas são os maiores importadores de gás e óleo. Para mim, hoje, a sociedade está a direccionar-se para uma posição melhor, de maior pragmatismo. O que estão a ouvir de mim são ecos dos nossos clientes.
Como se percebe, a BlackRock não precisa de ter uma ideologia estável. Basta-lhe ajustar o enquadramento e financiar uns quantos.
Quando a linguagem dominante pede diversidade, promove diversidade. Quando o contexto energético pede pragmatismo, promove pragmatismo. Tanto salva golfinhos como ajuda a matá-los.
E no meio disto tudo houve quem acreditasse que certas agendas culturais estavam em guerra com o grande capital. Talvez não. Talvez o que tenha acontecido tenha sido mais desconfortável: essas linguagens tornaram-se suficientemente compatíveis com o sistema para serem absorvidas, medidas, financiadas e devolvidas como norma.
Não é uma conspiração no sentido clássico. É uma integração funcional. Dividiu, criou novos mercados e, agora, com a falta de financiamento visível, acabaram-se as vitaminas para muitos e, em particular, para alguns que viviam hipocritamente melhor enquanto gritavam por igualdade. Os danos estão a tornar-se visíveis e a alimentar as novas direitas e os novos mercados.
Enquanto se discute moral, linguagem e representação com intensidade quase religiosa, o essencial continua a operar com a serenidade de um algoritmo bem alimentado, à base de alguma indiferença generalizada e do desconhecimento destes terríveis paradoxos.
Já não é preciso dividir para reinar. Basta que a divisão funcione.
A BlackRock não precisa de escolher entre “woke” e “anti-woke“. Precisa apenas de um sistema que continue a permitir circulação de capital. E se para isso for necessário falar a linguagem da moral, fala-se. Se for necessário abandoná-la em nome do pragmatismo energético, abandona-se. Sem remorsos, isso é sentimento demasiado humano.
O truque destas empresas é sempre o mesmo: estar em todo o lado sem parecer estar em lado nenhum. Como um fantasma que não assusta crianças. O mundo já está demasiado infantilizado.
Uma coisa é certa: para o poder e influência que tem, é estranho (ou não) que nenhum partido se atreva a falar de quem possui parte significativa dos títulos da dívida pública portuguesa, matéria que raramente sai dos relatórios técnicos do IGCP. E em Portugal a presença da BlackRock não é um rumor. Está nos principais accionistas indirectos da EDP, da Galp, do BCP, da Jerónimo Martins, da Mota-Engil. Está nos índices, nos fundos, nos ETF que qualquer banco vende ao balcão a um aforrador distraído. Está, portanto, no IRS de uma boa parte dos portugueses, que sem o saberem financiam aquilo de que se queixam.
Enquanto isso, ficamos no meio, entretidos com eleições, inflação, inteligência artificial, custo de vida, futebol e outras distracções que parecem urgentes mas que só servem para que não nos lembremos de quem realmente controla uma parte da vida.
A BlackRock raramente aparece nas notícias convencionais. É dona de muitas das empresas que as fazem. A Goldman Sachs, que já foi o Satanás oficial da finança mundial, teve os seus quinze minutos de fama. A BlackRock não precisa disso. Mantém-se discreta, eficiente, inevitável.
Perguntei a algumas pessoas politizadas se conheciam a marca. A resposta foi quase sempre negativa, ainda que a BlackRock e companhia façam parte do modelo político global.
O verdadeiro poder da empresa de investimentos está em ser inevitável.
Mas o que podemos fazer com esta informação? Boicotamos? Protestamos? Ouvimos podcasts de economia enquanto bebemos café de comércio justo e sonhamos com um mundo mais ético?
Talvez.
A verdade é que a BlackRock já investiu nesse café, na água engarrafada, na energia que alimenta o telemóvel e, possivelmente, na empresa que fez as camisolas que vestimos, orgânicas ou não. Mesmo que seja só uma esperança convertida em activo.
Talvez o mais assustador nem seja o que já compraram. É o que aprenderam a enquadrar. A linguagem.
Tudo são slogans ESG agora, como se o mundo pudesse ser salvo por um PDF bem paginado.
A BlackRock já não precisa de censurar nada. Basta financiar o contexto. E isso fá-lo bem. Transforma cada gesto subversivo num activo especulável. Percebeu uma coisa simples: o mais rentável não é só o petróleo ou o lítio, é também o simulacro da resistência.
Enfim, a “esquerda” já não quer sair do sistema, a “direita” mais na moda parece não querer entrar, mas ambas se sentam à mesma mesa, à volta da mesma moeda. Uma finge acreditar no mercado com coração, a outra finge acreditar no coração do mercado.
Definitivamente o mundo está a ficar mais transparente. Mas os vidros ainda continuam turvos.
O entusiasmo é um sentimento suspeito. Não digo isto com a leviandade de quem já desistiu de se entusiasmar — que isso seria apenas cansaço com pretensões filosóficas. Digo sim com a desconfiança metódica de quem, ao longo de três anos de crónicas benfiquistas, começou a notar em si uma circunstância que, não sendo ainda publicável em revista científica, já merece, pelo menos, uma nota de rodapé: sempre que acredito, o Benfica desilude; sempre que escrevo com esperança, o campeonato foge; sempre que me comprometo, o destino corrige-me com um empate.
E é aqui que eu acho que o entusiasmo revela uma natureza estranha: não é apenas uma emoção; é uma aposta. Uma espécie de contrato íntimo entre aquilo que desejamos e aquilo que esperamos que o mundo nos devolva. Ora, como qualquer contrato, tem cláusulas implícitas — e uma delas, no meu caso, parece ser a de que o Benfica não tem qualquer obrigação de cumprir o que eu sinto.
Comecei estas crónicas no rescaldo de um momento perigoso: o derradeiro jogo do título de 2022-2023. Digo perigoso porque o entusiasmo, quando confirmado pela realidade, cria uma ilusão de continuidade. Achamos que aquilo que aconteceu uma vez tem vocação para se repetir. E isto é o clássico erro do adepto, mas também o erro do cronista, que confunde narrativa com tendência, e tendência com destino.
No primeiro ano de crónicas, estava convencido de que íamos ser campeões. Não fomos. No segundo, ajustei as expectativas — esse gesto típico de maturidade que consiste em baixar a fasquia sem nunca admitir que se está a desistir —, e quase se conseguiu. Até fui ver o Benfica ao Porto espetar quatro aos dragões e até corri até ao Estoril. Não fomos, porque jogámos a medo contra o Sporting na Luz e perdemos aí o campeonato.
Neste terceiro ano de crónicas, há muito que já não há propriamente expectativa; há uma espécie de vigilância resignada, um acompanhamento quase clínico, como quem observa um doente que não piora, mas também não melhora.
Aqui entra uma hipótese — ainda não testada, mas cada vez mais plausível — de que eu próprio me tornei um factor de instabilidade, uma espécie de variável maldita no sistema benfiquista. E nem escrevo assim com verdadeira convicção, embora não esteja em tom de brincadeira. Constato somente uma recorrência demasiado persistente para ser ignorada. Três anos, três épocas de crónicas, três falhanços — e eu sempre presente, sempre a escrever, sempre a cumprir este compromisso que, ironicamente, parece ter efeitos colaterais.
O entusiasmo, portanto, tornou-se um luxo perigoso. Não porque o Benfica jogue agora demasiado mal — não joga, pelo menos de forma consistente, e neste campeonato até ainda está invicto —, mas porque já não há surpresa suficiente para o justificar.
Este Benfica é uma equipa curiosa: raramente perde, mas frequentemente não ganha. Move-se nesse território ambíguo onde a derrota é evitada, mas a vitória não é garantida. É um Benfica de probabilidades: a única dúvida relevante é se o jogo termina em vitória ou empate, sendo que o empate tem vindo a ganhar um peso estatístico que começa a ser desconfortável.
O jogo com o Vitória de Guimarães foi, nesse sentido, um caso de vitória. E até exemplar. Correu-me tudo bem. Um jogo que começou às seis da tarde — o que, em si mesmo, já introduz uma dimensão quase doméstica ao futebol — e terminou às oito, sem sobressaltos dignos de memória duradoura. Não se deslumbrou, mas também não comprometeu. Houve esforço, houve organização, houve até momentos de competência — ganhou-se por três a zero, sem espinha. Porém, faltou aquilo que, em teoria, justificaria o entusiasmo: a sensação de inevitabilidade da vitória.
E, no entanto, foi um jogo útil. Não tanto pelo que aconteceu dentro de campo, mas pelo que permitiu fora dele. Pela segunda vez, consegui fazer aquilo que começa a tornar-se um ritual paralelo: ver o Benfica e, logo a seguir, assistir a um espectáculo. Desta vez, foram os Trovante. Há duas semanas, foram os The Divine Comedy.
Talvez seja esse o novo papel do futebol na minha vida: não tanto o centro do entusiasmo, mas um elemento de uma sequência mais ampla de experiências. Um pretexto, quase. O jogo começa às seis, acaba às oito e abre espaço para outra coisa — música, teatro ou simplesmente a sensação de que o tempo foi bem utilizado.
Desta sorte, transporto-me de volta ao ponto inicial: o entusiasmo é estranho porque exige exclusividade. Quer ser absoluto, quer dominar a experiência, quer convencer-nos de que aquilo — o jogo, o resultado, o clube — é o mais importante naquele momento. Mas a realidade, como sempre, está a moldar-me. Nestes dois últimos jogos, o ponto alto do dia não foi o jogo: foi o que se seguiu.
Em todo o caso, continuarei na Varanda da Luz — e a chegar atrasado. Continuarei a escrever estas crónicas. Continuarei, de certa forma, a acreditar — mas já não no sentido inflamado do termo. Na verdade, até ao final da época teremos um Benfica sem euforia e um cronista sem ilusões — ambos ainda em campo, ainda em jogo, ainda à espera, não se sabe bem de quê. Talvez da próxima época.
Como hoje se sabe, o pobre e precipitado Darwin foi pioneiro a sacrificar a sociedade no tortuoso e especulativo labirinto da evidência científica.
— O Homem não vem do macaco.
A verdade que faltava revelar aos povos surpreenderá a todos por poder ter permanecido oculta até ao minuto 119 do Sporting – Bodø/Glimt — quando, afinal, era óbvia.
— O Homem vai para o leão.
Por mais cuidadoso e persistente que tenha sido Caetano Veloso a incluir “O Índio” e o “Leãozinho” nos seus concertos em Lisboa, só nesse espectacular e faustoso momento a Ciência triunfou sobre o negacionismo.
— Um filhote de leão / Um raio em Alvalade / Arrastando o meu olhar como um íman.
Assim cantou o defesa esquerdo de ocasião, fardado de amarelo encharcado, ao ver Morten Hjulmand passar por ele. Com as pernas já bambas e os olhos trocados, mais não pôde do que deitar as manápulas à cintura de um homem casado, ainda a habituar-se a aquecer biberões de madrugada para saciar o primeiro filho.
— For helvede, for satan, den er vundet!
O pai leão caiu tranquilo e infalível como o Bruce Lee. Sentou-se sobre os calcanhares, qual karateka no final do combate. Começou aí a metamorfose. Com as patas dianteiras, aquele leonotauro pregou no relvado uma tareia de três segundos, registada por todos os sismógrafos do Porto a Portimão.
— Alerta amarelo: o presidente Moedas tem de enfiar o pescoço numa gravata verde e o corpo no casaquinho impermeável da Protecção Civil!
Naquela eternidade — com entrada directa para a História da Humanidade, à frente do primeiro passo na lua do Neil Armstrong — cresceu a Morten Hjulmand uma juba, que eu vi. O defesa fugiu apavorado.
— Há por aí um leitor valente que alguma vez tenha enfrentado um leão alavancado nas patas traseiras?
Sua majestade apontou os dois ceptros às estrelas. Com o júbilo tresloucado do minotauro, rugiu por três vezes — como Cristo ao Diabo — a primeira palavra em português do dicionário de um capitão.
— Vamos! Vamos! Vamos!
Um rapazinho destemido, chamado Rafael Nel, baixou as orelhas, cerrou os dentes, fez mira ao ângulo superior esquerdo, puxou a culatra atrás e obedeceu.
A tomada de posse de António José Seguro e a polémica com o vestido Valentino da sua mulher, Margarida, trouxe-me a memória recente do dia em fui ao cinema ver o documentário “Melania”, sobre a primeira-dama dos Estados Unidos e os 20 dias anteriores à tomada de posse do segundo mandato do marido, Donald Trump.
Digo-vos que, na altura, quis ir ver o filme, porque diziam que ninguém o queria ver. Calhou até ser a última exibição em Portugal, e estavam quatro pessoas a assistir na sala. Eu era essa quarta pessoa.
Foto: D.R.
Paguei 4,90€, pois beneficiei do desconto do dia do espectador. Sei que haverá sempre alguém que dirá: “Nem 4,90€ dava por um filme sobre a Melania, que ainda por cima custou 40 milhões e foi realizado por um amigo do Epstein com fama de homofóbico e abusivo”. Têm toda a razão, mas foi precisamente por isso, para mim, que se tornou ainda mais importante ter de ir ver a obra sobre a primeira-dama dos Estados Unidos.
(Sei que esse também não vão perder a oportunidade de o ir espreitar, sem o assumir, num qualquer canal de televisão por cabo ou arranjar por aí uma versão pirata)
O filme é propagandístico, uma espécie de hagiografia moderna de Melania Trump. E era precisamente disso que estava à espera e não me desiludi. Claro que o realizador Brett Ratner não tem a mesma qualidade de uma Leni Riefenstahl – para quem não sabe (suspiro), era uma extraordinária realizadora alemã que viveu no tempo de Hitler. E sim, fez uns documentários para o Reich.
Foto: D.R.
Para além de jornalista, também sou cidadão e, combinando ambas características, acho perigoso andar a opinar sobre coisas que não conhecemos. Pior ainda se estivermos a falar de um filme que nunca vimos apenas porque sabemos que não o queremos ver. Aquilo que ninguém quer ver, acaba por se tornar depois no que mais importa discutir.
“Melania” não é certamente um grande filme. Não é cinema de autor, não está indicado para ganhar prémios, nem sequer tenta disfarçar a sua intenção política e emocional. Mas é um documento, um registo histórico e, goste-se ou não da personagem, isso, por si só, já lhe dá valor.
Houve alturas em que dei algumas gargalhadas mais sonoras, confesso. Não estou a falar das partes em que Melania fala de si própria (essas são mais solenes, mais ensaiadas), mas de algumas cenas que são involuntariamente deliciosas.
Foto: D.R.
Há imagens de bastidores que parecem saídas de uma sitcom política como, por exemplo, o momento em que Trump e Joe Biden, após o juramento presidencial, ouvem as instruções do responsável do protocolo enquanto lhes explica os passos para o adeus final ao antigo Presidente, e ambos trocam sorrisos e piscares de olho como se fossem dois miúdos marotos na escola. Ver isto numa sala de cinema quase vazia foi mesmo um privilégio.
Antes disto, já tínhamos visto Melania a preparar, com detalhe minucioso, o vestido para o baile de gala, com o estilista Hervé Pierre, no alto do seu apartamento de Manhattan. Já a tínhamos visto numa visita pessoal à igreja nova-iorquina de Saint Patrick, onde foi acender uma vela em memória da mãe, que falecera um ano antes — uma cena que não respeita o silêncio respeitoso da solenidade da Igreja Católica, mas inclui, como música de fundo, o “Amazing Grace” de 1972, pela voz eterna de Aretha Franklin, um gospel mais adequado à igreja protestante afro-americana. Mas, no fundo, Melania é uma católica emigrante nos EUA disposta a criar uma unidade entre todos os norte-americanos.
Quem está mesmo crescido é o filho, Barron — altíssimo, quase surreal de tão grande. Era um miúdo quando o vimos aparecer, em 2016, na noite da primeira vitória do pai. Foi terno ver o seu regresso à Casa Branca, onde viveu entre os seus 10 e 14 anos, reencontrando caras conhecidas entre os empregados. Foi para assistir a momentos como esse que valeu a pena pagar o bilhete.
E é aqui que mora o verdadeiro perigo daquele documentário.
Foto: D.R.
No final, quase simpatizamos com a família Trump. Eles aparecem como um casal normal, cansados depois do baile, sentados numa das salas da Casa Branca, como se fossem os vizinhos do lado, depois de um casamento longo. Humanos. Próximos. A propaganda funciona precisamente aí: não nos convence politicamente — mas aproxima-nos emocionalmente.
Não deixei de notar no facto de que o povo está fora do filme. Não há contacto real com pessoas comuns. Uma cena particularmente reveladora é aquela em que Melania diz algo como: “Hoje é o meu último dia como cidadã privada.” E como é que essa transição é mostrada? Com a futura primeira-dama a entrar no avião privado com o nome “Trump” escrito a letras gordas.
Não há uma imagem sua a passear na rua, nem um aperto de mão ao homem comum ou um sorriso face um rosto anónimo. Compreende-se: afinal o marido tinha sido alvo de uma tentativa de assassinato meses antes. Há coisas a evitar.
Tomada de posse de Donald Trump no seu primeiro mandato como Presidente dos Estados Unidos, em 20 de Janeiro de 2017. Melania Trump vestiu um conjunto azul-céu, de caxemira, de Ralph Lauren. / Foto: D.R.
Mas há o contraste entre o luxo e os corredores de garagens, e ainda uma rara visita aos bastidores do Congresso no dia da tomada de posse. Há Melania dar um conselho para uma palavra que Trump vai depois incluir no seu discurso: “unificador”. Há um mundo à parte que nos foi aberto por 40 milhões de dólares e que devíamos ter aproveitado melhor.
Sei que aproveitei, pois fui o último a sair da sala (estive a ver a ficha técnica até ao fim – sim, sou desses, ok?) e o filme saiu de sala no dia seguinte. Fui então a última pessoa em Portugal que viu “Melania” numa sala de cinema. E tudo isso graças a quem não o foi ver.
Agora, ao pensar nisso, expliquem-me uma coisa se souberem: alguém se lembrou de fazer um filme, em Portugal, com o título “Margarida”? Pois é. Aquilo do documentário da Melania não era mesmo para qualquer um.