O futebol, sendo talvez a mais irracional das actividades humanas organizadas, tem o condão de converter até o mais cartesiano dos homens num pequeno pagão doméstico. O engenheiro que despreza astrologia muda de lugar no sofá porque da última vez resultou. O professor universitário que discorre sobre probabilidades evita lavar a camisola da sorte. O gestor que ridiculariza crendices benze-se antes de um penálti.
No futebol, há uma suspensão temporária da razão que não envergonha ninguém. Pelo contrário, humaniza, porque, ao contrário de tantos domínios domesticados da vida moderna, o futebol ainda preserva uma dimensão de caos tribal que afronta a nossa necessidade de controlo.
Foi neste terreno fértil de irracionalidade consentida que floresceu, com algum vigor e considerável maledicência, a tese — ou mito, ou superstição operacional, ou até hipótese paranormal com indícios empíricos — de que eu, benfiquista de convicção antiga e desgostos modernos, dava sorte ao Sporting.
A teoria teve como principal doutrinador o meu camarada de pena Carlos Enes, homem de fé leonina e imaginação estatística selectiva, que, na sua varanda sportinguista, foi consolidando a narrativa segundo a qual a minha simples presença em jogos do Sporting funcionaria como uma espécie de amuleto involuntário. A evidência, admito, chegou a parecer desconfortavelmente robusta.
Sempre que me aproximava de um evento sportinguista, algo corria bem para os verdes. Incluindo, humilhação suprema, jogos contra o próprio Benfica. Lá estive eu na Luz naquele empate dramático do ano passado, esse empate que decidiu um campeonato que esteve quase, e que os sportinguistas celebraram com a contenção emocional de vikings embriagados.
Lá estava eu também em noites europeias memoráveis para os lagartos. Assisti, em Alvalade, ao 4-1 ao Manchester City. Vi este ano a vitória sobre o Paris Saint-Germain. A reviravolta épica contra o FK Bodø/Glimt. A determinada altura, a coincidência começou a ganhar contornos de caso clínico.
Mas como toda a superstição séria exige revisões periódicas, a minha carreira de talismã começou a degradar-se. Também fui eu quem assistiu ao 1-0 em Lisboa contra o Arsenal. Também fui eu quem viu, em Alvalade, a derrota do Sporting no último suspiro contra o Benfica, ainda que essa alegria se revelasse administrativamente inútil. E agora, consumando um ritual que nem eu sabia possuir, fui pela terceira vez ao Jamor ver uma final da Taça de Portugal com o Sporting.
Convém notar: eu, homem de estádios, mas não particularmente do Jamor, nunca tinha lá ido durante décadas. E eis que, nos últimos três anos, transformei-me numa espécie de peregrino da mata. Há dois anos, o Sporting perdeu com o FC Porto. No ano passado, para meu lombo e melancolia benfiquista agravada, e também raiva, o Benfica perdeu com o Sporting, numa tarde em que até o relvado, além do árbitro, parecia ter escolhido lado. Agora, regressado ao local do costume, desta vez sem a presença do Carlos Enes, assisti à consumação de mais um episódio que obriga a rever a tese do talismã.
O Torreense — bravo, disciplinado, sacrificado e descomplexado — fez aquilo que os teóricos do futebol chamariam improvável e os cronistas, com preguiça, chamarão histórico. Não foi um assalto oportunista nem um acidente meteorológico. Foi, é certo, um daqueles jogos em que a equipa pequena marca cedo, mas a equipa da segunda liga não fechou a oficina nem passou noventa minutos a praticar alvenaria táctica. Não. Jogou melhor em muitos momentos. Sofreu como quem sabe sofrer, mas também ousou como quem não recebeu o memorando sobre hierarquias nacionais. E ganhou o caneco de forma mais que merecida.
Donde, perante esta sucessão de eventos, só há duas hipóteses em tese. Ou a minha capacidade talismânica se esgotou por excesso de utilização, como uma pilha emocional barata comprada numa loja de conveniência futebolística. Ou, hipótese mais inquietante, nunca dei sorte a ninguém. Estou mais inclinado para a certeza de que existe apenas a necessidade humana de construir narrativas causais a partir de coincidências, essa doença cognitiva tão respeitável quanto universal.
O futebol é, na verdade, especialmente fértil nesse impulso. Não suportamos que vinte e dois homens aos pontapés e cabeçadas numa bola possam, em conjunto, produzir desfechos arbitrários (com ou sem influência dos árbitros) sem que exista um padrão secreto ou místico.
Precisamos de explicações — e, se não as houver, inventamo-las. O avançado marcou porque entrou com o pé direito. O treinador ganhou porque mudou de gravata. O adepto X dá sorte. O comentador Y traz azar. A tia Matilde não pode telefonar durante penáltis.
Mas talvez a conclusão seja outra. Porventura, e agrada-me esta ideia de ser um deus ex machina, eu não seja talismã de clube algum. Talvez seja apenas um acelerador de improbabilidades, uma espécie de partícula quântica da desordem futebolística. Onde apareço, os enredos complicam-se, os favoritos tremem, os cronistas ganham matéria-prima e os adeptos acrescentam novas camadas ao seu folclore privado.
Se assim for, talvez a minha utilidade não esteja em dar sorte ao Sporting, azar ao Benfica ou bênçãos ao Torreense. Talvez a minha função seja mais nobre: introduzir caos narrativo suficiente para que o futebol continue a parecer maior do que a lógica.
A Biennale di Venezia nasceu em 1895 como uma celebração internacional da arte moderna e depressa se tornou uma espécie de Jogos Olímpicos culturais: pavilhões nacionais, bandeiras, diplomacia, ministérios, curadores, coleccionadores, artistas e Estados a fingirem que estão apenas a falar de sensibilidade estética. A Bienal sempre foi política, mas dantes fingia melhor.
A escolha dos artistas também nunca foi um milagre espiritual. Cada país selecciona os seus representantes através de estruturas públicas, concursos, convites, comissários, júris e decisões institucionais. Quando um artista chega a Veneza, traz às costas uma logística nacional,, mesmo quando diz que só leva uma instalação, três vídeos e um texto de parede sobre memória, território ou melancolia atmosférica.
Curiosamente, durante o Estado Novo, vários artistas portugueses representaram oficialmente Portugal na Bienal de Veneza e noutras grandes exposições internacionais sem que isso tenha provocado campanhas internacionais de exclusão cultural semelhantes às actuais. Houve artistas próximos do regime, artistas ambíguos e artistas críticos que aceitaram representar o país apesar da ditadura. Alguns recusaram participar, outros navegaram pragmaticamente entre sobrevivência, visibilidade e convicções pessoais.
O circuito artístico internacional da época ainda não funcionava segundo esta lógica contemporânea de total responsabilização moral do artista pelo Estado que o selecciona. Caso contrário, metade da história cultural europeia teria sido impossível.
Este ano, a 61.ª Bienal abriu sob forte polémica devido à presença da Rússia e de Israel. A polémica agravou-se quando o júri internacional anunciou que não pretendia atribuir prémios a pavilhões de países cujas lideranças enfrentassem acusações ou mandados do Tribunal Penal Internacional, o que afectaria sobretudo a Rússia e Israel. A crise institucional acabou por conduzir à demissão colectiva do júri. Sem júri, os prémios tradicionais foram suspensos e a votação foi assumida pelos visitantes.
Houve protestos, encerramentos temporários de alguns pavilhões e uma greve convocada pela Art Not Genocide Alliance contra a presença israelita. Apesar da forte visibilidade mediática dos protestos, a adesão não foi consensual dentro da Bienal. Enquanto alguns artistas e pavilhões aderiam a protestos, muitos outros continuavam simplesmente a inaugurar exposições, a circular entre cocktails curatoriais e a discutir instalações sonoras em antigos arsenais venezianos. A revolução estética contemporânea também parece gostar bastante do caviar institucional.
O artista português Alexandre Estrela, representante de Portugal com o projecto RedSkyFalls, associou-se publicamente ao ambiente de contestação em torno da presença da Rússia e de Israel na Bienal, posicionando-se simbolicamente durante a inauguração do pavilhão português. A sua proximidade às posições defendidas pela Art Not Genocide Alliance foi interpretada como um gesto de coerência política no contexto da polémica internacional.
O problema não é um artista ter uma posição política. O problema é a transformação de parte do meio artístico numa espécie de polícia moral internacional, selectiva e profundamente incoerente. Porque, se o critério passa a ser excluir países envolvidos em guerras, repressões, ocupações ou crimes de Estado, então a Bienal acabará reduzida a um parque de estacionamento vazio.
Participam os Estados Unidos. Participa a China. Participam países aliados de guerras, regimes com historial de repressão, censura, violência policial e interesses militares globais. A indignação artística, porém, parece vibrar intensamente em certas direcções e adormecer noutras com uma serenidade curiosa.
O paradoxo torna-se ainda mais evidente no caso português. Alexandre Estrela, não sendo conhecido por desenvolver uma obra marcadamente política, representa um país que mantém há décadas uma cumplicidade estratégica com os Estados Unidos através da Base das Lajes, nos Açores, ainda hoje integrada na arquitectura militar da NATO e em operações logísticas americanas de alcance global. Se o critério passa pela responsabilização absoluta dos artistas pelos Estados que representam, então a fronteira moral transforma-se rapidamente num labirinto impossível.
A Espanha, por exemplo, apesar de igualmente integrada na arquitectura militar da NATO, não possui exactamente a mesma centralidade histórica da Base das Lajes na logística militar transatlântica americana. A pergunta deixa então de ser “quem deve ser excluído?” e passa a ser “onde termina a cumplicidade aceitável?”.
Curiosamente, a Espanha, que assumiu posições públicas duríssimas em torno da participação israelita na Eurovisão, revelou uma prudência bastante maior perante a Bienal de Veneza. Talvez porque protestar contra um espectáculo pop televisivo produza capital moral imediato com risco institucional praticamente nulo, enquanto afrontar directamente Veneza implica tocar no coração da própria maquinaria internacional de legitimação artística.
A diferença é reveladora: na Eurovisão, a dissidência funciona como performance mediática diante das massas; em Veneza, a moral precisa de aprender a circular com mais elegância entre fundações, ministérios, curadores, coleccionadores e convites para cocktails privados. A coragem cultural contemporânea parece variar bastante, conforme a proximidade do buffet e do financiamento.
Alexandre Estrela pode, evidentemente, protestar. O que se pode perguntar é por que motivo certas tomadas de posição surgem apenas quando entram em sincronização perfeita com o consenso moral dominante do circuito artístico internacional. A coragem, quando vem com certificado curatorial, não é bem coragem.
A ironia torna-se ainda mais evidente porque tudo isto acontece enquanto a Eurovisão atravessa polémicas semelhantes em torno da participação de Israel, ainda que num contexto bastante diferente e sem relação directa com a exclusão da Rússia, ausente desde 2022.
A diferença é sobretudo estética: na Eurovisão protesta-se entre lantejoulas, máquinas de fumo e refrões de laboratório; em Veneza protesta-se entre textos de parede, silêncio performativo e copos de prosecco. No fundo, é o mesmo teatro moral, apenas com dress code diferente. Ainda que existam diferenças substanciais noutros aspectos, tanto intelectuais como artísticos, evidentemente.
A Bienal mostra que o paradigma da arte está a mudar. O artista contemporâneo já não quer apenas fazer obras. Quer administrar legitimidade, vigiar fronteiras, validar presenças e expulsar impurezas. Surge assim a figura do artista-alfândega, do curador-fronteira, do performer-vigilante. Gente que fala permanentemente contra muros enquanto aprende, com uma eficiência notável, a construí-los.
A certa altura, muitos artistas contemporâneos parecem menos interessados em criar imagens do que em emitir autorizações éticas de circulação humana. O atelier aproxima-se do posto fronteiriço. O curador aproxima-se do funcionário aduaneiro. E a obra torna-se, cada vez mais, um documento de conformidade moral para acesso ao circuito internacional.
A parte mais irónica é que tudo isto acontece em nome da abertura, da inclusão e da liberdade.
Este texto é da autoria de Ruy Otero e de Bruno Cecílio.
As ilustrações são da autoria de THE SWIMMING POOL PROJECT
Sou o mais velho de setecentos irmãos. Ouviram bem, setecentos irmãos. E tenho de cuidar deles. E são tantos que, caminhando eu a passos largos para a morte, o mais novo é ainda infante, insciente até da longa linha que o precede e, portanto, é feliz na sua inocência. Quando começar a perceber o peso que será a indigência de ser o derradeiro irmão, perderá essa leveza ou, talvez, encontre a feroz liberdade da irrelevância. Na outra ponta da escada que, para mim, é já descendente, nunca tive um minuto de descanso, um instante de despreocupação e ventura, não só para tratar dos meus assuntos, pois todo e qualquer esforço foi dirigido a esta vasta progenitura, mas também para gozar, um pouco, a vida, sempre na perspectiva de um esbatimento, singular e único, da minha individualidade. O que tive de próprio, orgulho e maldição de primogénito, foi sempre a duvidosa circunstância de o mais velho ser e, por isso, o comando desta inconcebível legião. Tão diversa entre si, tão exigente nos problemas que faz surgir, tão caprichosa na vontade informe das suas dinâmicas internas que fazem vergar cada um dos seus elementos à sufocação da tribo, como se setecentos torsos esmagassem setecentas cabeças num emaranhado de mil e quatrocentas pernas enlaçadas em mil e quatrocentos braços. Mil e quatrocentos olhos que se vigiam entre si e mil e quatrocentos ouvidos, surdos na tamanha algazarra.
Setecentas bocas com o açoite das línguas, que gritam, por vezes, a raiva das suas vozes, desejos, frustrações e uma ânsia, não se sabe de quê.
Setecentos irmãos e eu entre eles, o mais velho de todos, porventura o mais sozinho. Sinto-o como uma lâmina afiada que corta a massa do sangue e do corpo, aos poucos, de dentro para fora, sem saber onde começa e onde acaba, apenas ferindo, no toque gélido dos anos que passam, pela solidão, o desalento e a responsabilidade minha por todas essas almas.
2.
Os nossos pais, por muito longevos e ancestrais que sejam, nunca quiseram saber de nós. O Pai, grande como um pássaro poderoso, apenas se preocupou com as suas estranhas elucubrações que ninguém entendeu nunca. Entregue, exclusivamente, a si próprio, única razão do seu Mundo, não reconheceu, distraído, as multidões que gerou, proliferação de matéria viva que ignorou, sempre, com rigorosa indiferença.
Era, no entanto, um homem bom. A ternura dos gestos largos da sua generosidade delirante. Certa vez, acumulou tantos gatos e cães vadios — que recolhia, sempre que encontrava algum na rua — que a casa se transformou num pequeno zoológico e era tanta a algazarra de miados e latidos que os vizinhos se queixavam continuamente até exigirem o despejo da cãozoada e da gataria, o que muito entristeceu aquele Pai que não ligava aos filhos, mas que conhecia de cor todos os nomes daquela enjeitada matilha. De resto, todos os amigos lhe pediam dinheiro e ele dava o que tinha, se o tivesse, o que não era sempre. Mesmo assim, tinha gosto genuíno em ajudar, ainda que mal conhecesse o requerente.
Enfim, em tudo se distinguiu pela caridade das acções, só não reparou na família crescente, aquilo que estava mesmo debaixo do nariz, e ninguém poderá dizer porquê. É verdade que se mostrava difícil acompanhar aquela prole imparável, filhos que brotavam como um desmando da Natureza e ainda que tais arroubos de fertilidade fossem mais do que perturbadores não eram motivo suficiente para tanta indiferença. Será que a força geradora de patriarca bíblico dependia, justamente, daquele desapego? Quase como maldição ancestral que determinava tanto a multiplicação da linhagem como a esterilidade dela? Nunca o saberei nem isso importa. Só quero que saibam e conheçam as contradições e ironias da nossa génese. Quando, finalmente, por motivo de grã idade perdeu o uso das faculdades da razão, já éramos umas poucas centenas, mas nem isso limitou o seu ímpeto, como vos disse, patriarcal, fonte geradora imarcescível e tão insana como o número prodigioso desta multiplicação familiar.
Agora, acompanha-nos como uma criança e é tão firme e tenaz como uma árvore, experimentando a alegria e a liberdade dos néscios. Corre atrás das borboletas dos campos, banha-se, sozinho, nas águas geladas da primeira invernia, contempla as estrelas deitado de costas no feno enquanto todos dormem no acampamento, feliz apenas por existir e gerar filhos.
3.
A Mãe, não era assim. Era, aparentemente, apenas uma mulher como as outras. Também fez todas aquelas coisas prosaicas, segundo o seu carácter e aquilo que se esperava dela. E ainda que, aos meus olhos, tivesse sido mais humana teria, no final, o mesmo fado da alienação procriadora do Pai, aquele que, talvez desde o princípio dos tempos, lhes estava destinado.
Embora bela quando jovem, não teve um destino ditoso e, sempre inchada de gravidez, eventualmente, mal se podia mover. Figura mais distante que o marido pois, estando presente, exalava a sensação de um torpor asfixiante, de mãe-matriz, inacessível. Ulcerada de tanto parir, era nada mais do que um grande totem, uma máquina de gerar filhos e filhas que ficavam ao Deus-dará assim que nasciam e que depois eram, colectivamente, criados segundo as nossas tradições, ainda que essas fossem recentes, pois tinham apenas o tempo de uma única geração. Transportávamo-la numa padiola e apenas dávamos pela sua presença porque o nosso número, incessante, aumentava ao ritmo da sua inconcebível geração.
Os inconcebíveis nascimentos eram quase um ritual e, aos nossos olhos, ela parecia-se com os antigos deuses genésicos o que, ainda na época em que eu era pequeno, nos contagiava com o assombro da proliferação. Como era estranho, ver as vivas e fortes mãos que nos podiam, se quisessem, ensinar a matar, tornadas frágeis e incapazes, conforme essa letargia ancestral lhe ia exaurindo as forças.
4.
Coisa difícil tal proliferação nossa porque fomos obrigados a uma existência precária. Tinha de o ser. Éramos como uma praga. Infame exploração dos recursos. Chegávamos a uma terra pela escura noite, ninguém notava e quando os pobres habitantes acordavam, despertavam para uma invasão de saltimbancos insaciáveis, turbulentos, que se derramavam pelas ruas, seguros no grande número e no susto de ostentar um ar selvagem, desgrenhado e brutal. Assustando e importunando todos, sem respeito ou gratidão. Gafanhotos. Comendo e bebendo do que havia, até se esgotarem os recursos, magros o mais das vezes, daquela gente que já era pobre antes de chegarmos. Depois, fazíamos a trouxa dos poucos pertences e partíamos para a terra seguinte, sempre silenciosos, ao abrigo da escuridão. E se, antes, foi com surpresa, num amanhecer de pesadelo, que nos viram chegar, sentiam alívio e exaustão quando sabiam que partíramos.
Se bem entendem, eu, o mais velho, o decano de todos, não queria ter feito parte disso. Não assim. Não quis participar dessa vida sem terra nem lugar, gorado o sonho de erigir uma comunidade, unida, mas em sítio seu e em serenidade com as multidudinárias cidades dos homens. Porém, mesmo que não quisesse cumprir esse desejo e partisse, nunca poderia ter deixado para trás aqueles muitos que confiavam na minha missão de trazer alguma ordem, de resolver os problemas mais urgentes. Uma lida diária, afinal, esta de pastor de gente.
E, assim, ainda aqui estou, de pé, com as mãos firmes, à frente desta turba, num sinal de paz e calma que queria, com todas as forças, que realmente existisse.
— Estou aqui!
Se o gritasse, ninguém me escutaria, apenas os que estão mais perto se incomodariam com a gritaria, sem entender, se o brado lhes chegasse aos ouvidos, coisa que não acontece porque, por vezes, este é Inferno todo interno. Calado o berro, surdos todos porque o não podem ouvir.
Estou aqui e aqui permaneço. Mais do que isso não sei. Pensei, como o já sugeri, em me afastar? Quando percebi que estava sozinho no meio de uma multidão em tumulto que, num instante, se podia transformar num coro de setecentas vozes desavindas, percebi que, mesmo que quisesse, não podia daqui sair. Sou deles e assim restarei até que sucumba.
Não. Não deixávamos saudades aquando da partida de um povoado, apena exaurimento e era por isso que sabíamos que jamais poderíamos lá voltar. Não éramos malévolos. Era, tão-só, uma questão de indisciplina. Como poderia eu controlar esse breve exército de todas as idades que crescia sem uma orientação definida, sem um propósito que não fosse sobreviver, isolado numa vivência endogâmica pois o que ficava fora desta desmesurada família era um Mundo exterior cheio de fascínio e perigos, mas sempre estranho, diferente, algo a que ninguém nosso se conseguia habituar e se houve alguém que tentava sair para o explorar, logo voltava, traumatizado, jurando nunca mais tentar semelhante aventura?
5.
De facto, todos os que tentaram sair do regaço acolhedor desta desatinada estirpe, repetiram, ao longo das décadas, esse padrão de partir e voltar, excepto o mais afoito de entre nós, aquele que, aliás, era o preferido dos nossos pais, talvez o único de entre tantos a quem prodigalizaram algum afecto e esse era João Terceiro, justamente, conhecido por João Afoito, que numa madrugada fria, já lá vão tantos anos, saiu sem se despedir de ninguém e nunca mais retornou. Por vezes, chegavam dele notícias desencontradas. Era avistado em locais diversos, protagonista de feitos contraditórios, pois num dia tinha ganho fortuna no contrabando e no tabaco e no outro era um político respeitado com ambições a deputado ou era dado como morto num naufrágio no Mar do Norte, para logo emergir como latifundiário no Brasil. Não sei se acreditámos em alguma dessas notícias ou em todas, porém o mistério do seu paradeiro persistiu, até que as gerações mais novas acabaram por se esquecer dele e apenas se tornou em mais um mito, a história vaga daquele que se quis ir embora para sofrer um destino incerto que a maior parte decidiu ter sido funesto e, por isso, mais serve como aviso do que como incentivo para que outros incautos sigam o mesmo caminho. De resto, poucas razões haverá para sair da protecção do colectivo porque, se temos alguma força, ela estará no nosso número que é não só a fonte das nossas muitas tribulações, mas também, como é evidente, a razão do aconchego de nos sabermos parte de um todo que transcende a nossa frágil individualidade. Basta aceitar a confortável imersão nesta confusa totalidade, uma mentalidade comum, que nos melhores e nos piores momentos, sempre tem funcionado como uma rede de salvação que, ao fim e ao cabo, nos guia por esta estranha aventura que todos chamam de vida.
Acontece que, quando Afoito chegou à cidade grande, ditoso nessa aventura, encontrou logo um amigo. Era um rapaz comum, mas cordial e honesto, de uma terra distante, que tinha sido enviado pelos pais a buscar um parceiro comercial num estabelecimento na capital e esse amigo, num gesto de consideração, ajudou-o nos primeiros meses, difíceis, mas que apresentaram a João Terceiro, a um momento, toda uma nova realidade, preenchida a todas as horas pelo bulício urbano, porém a outro era uma vida mais calma porque previsível, ordenada e a urbe um grande coração pulsante e regular, longe da álea dos setecentos que nunca tiveram nem pouso nem beira, apesar do meu desejo intenso que, um dia, o encontrássemos ou que pudéssemos, sem maior dano para a nossa integridade estrutural de comunidade, também nos perdermos numa grande cidade e usufruir dos seus confortos.
Na verdade, João Afoito pouco teve de afoito. Instalou-se na capital de província, afinal ali perto do acampamento de então, trabalhou como guarda-livros, um banal escriturário, casou e teve filhos, quebrando assim o estranho sortilégio desta copiosa, mas estéril geração. Depois do arroubo inicial, queria apenas esquecer aquela algazarra constante, as privações e a incerteza de não saber de onde viria a próxima refeição. Consegui-o, até que a sua família natural se tornou um sonho distante, tingido daquela qualidade onírica em que se tornaram as suas recordações inverosímeis embora, por vezes, nos momentos mais secretos, lhe custasse admitir, até para si próprio, as imensas saudades da Mãe e dos irmãos e, sobretudo, daquele clima de perpétua turbulência e festa que não mais tornou a sentir e que não logrou transmitir aos filhos. Morreu de morte natural e os últimos momentos de estertor foram dedicados, num derradeiro esforço de involuntária regressão, a reviver os primeiros anos e chegou à confusa, tardia e inevitável conclusão que, apesar de tudo, só então fora feliz.
6.
Bem vedes, com tantas bocas para alimentar, a nossa vida é difícil. Luto, desde a alvorada até a altas horas da madrugada, para tentar saciar esta turba que, como é evidente, nunca está satisfeita. E se a comida escasseia o que dizer das mil outras necessidades que este indisciplinado e voraz batalhão, constantemente, exige?
Uma coisa são sete, outra setenta e outra, ainda, setecentos. Não estranheis, por isso, o cansaço que me tolhe, com inúmeras preocupações, dir-vos-ia, setecentas preocupações, algumas prosaicas e pequenas, outras, questões de vida ou de morte, zangas e maleitas, a ocasional agressão, que viverem tantas almas juntas, mesmo sendo irmãs ou talvez por isso, provoca briga e ressentimento, vinganças. Nem sempre se pode evitar o ferimento ou as palavras que, como setas, dilaceram o outro, pois o convívio constante e intenso permite que nos conheçamos com outra profundidade e é mais funda e cruel a violência com que se deflagra o conflito.
Ainda no passado ano lançaram-se na refrega, à facada, um grupo de jovens, na flor da idade, robustos e até selvagens e um par deles ficaram em mau estado. Bem se quis que recuperassem, mas ali estiveram, entre a vida e a morte, em combate, exangues, pela sobrevivência. Nem todos se podem salvar quando o instinto pode mais do que a razão e nem posso eu estar em todo o lado para impedir as refregas.
Sabe-se o resultado, os dois caíram aos pedaços. Os outros irmãos ajoelharam-se ao lado da cama dos moribundos, choraram e imploraram para que se salvassem, enxergando então, por entre as profusas lágrimas que derramaram, o que também vejo: o desespero, o temor ao esforço de conter as emoções, a morte e a perda e, sobretudo, a solidão.
Tratámos deles como pudemos, e eu não saí da cabeceira do leito. Mas é assim a saúde — que se parece ao pavio de breve vela — e pode o fio da vida ser desprezado e apagar-se, depois de terminal ameaça, por alguns eventos fortuitos, pequena a causa que provocou a ira, grande o efeito que pela deflagração da catástrofe a extinguiu.
Os dois acabaram por morrer. Foram, pela tragédia, afastados da dinâmica do grupo e no mesmo lugar onde antes repousavam, outros irmãos lhes ocuparam o lugar. O mesmo catre, diferentes rostos. A renovação. Entretanto, o tempo passou, os corpos não foram retirados de onde foram velados, houve um escrúpulo de não aceitar a morte e, na verdade, pareceram incorruptos durante largo tempo, enfim, serenos como nunca o foram na vida.
7.
Nada é fácil e cada irmão tem uma personalidade diferente, cada um, a seu modo, feroz individualista. Apesar de estarmos todos juntos e de não passar pela cabeça de quase ninguém ir-se embora, qualquer de nós se comporta como um príncipe. Uma chusma de egoístas, mendazes, trapaceiros, rufias, aldrabões, pilha galinhas, cínicos, invejosos, maledicentes, caluniadores, incivilizados, arruaceiros, vingativos, bajuladores, licenciosos, hedonistas, deprimidos, megalómanos e maníacos que, parece, apenas concordam numa instintiva alergia ao trabalho, à honestidade nos modos e ao esforço produtivo. No resto, conspiram constantemente, juram alianças frágeis e planeiam vinganças definitivas que jamais se cumprem, enquanto perdem um tempo infindável em conciliábulos secretos ou na inércia de intermináveis sestas e inexplicáveis langores, adormecendo a todas as horas do dia nos locais mais improváveis, incómodos e, por demasiadas vezes, perigosos para si próprios e para a tribo pois por muitos ódios e rancores que esta penosa vida em conjunto nos tenha mostrado é-nos inconcebível perder um dos nossos e quando o inevitável acontece é tão dolorosa a perda como se da nossa própria vida se tratasse.
Uma ligação visceral que, ultrapassando os mais íntimos laços de sangue, se dirige ao conjunto. É mais do que uma irmandade literal porque baseada numa mesma filiação, é um modo de vida, um espírito comum que corresponde ao profundo do pensamento e à subtiliza do sentir, é um Mundo interno que se revê no acontecer de toda aquela gente e que reconforta na certeza de uma igual mentalidade. É, em suma, um vício e uma bênção, uma alegria na partilha e a necessidade de arcar com o peso sufocante dos outros, uma mole de gente indómita, mas ideossincrática no individualismo de cada um. Uma identidade.
Para além das razões racionais que se apresentavam diante a nossa vista, tinha-se de admitir que nossa fuga de terra em terra do lado de dentro do desencanto tinha-nos, no mínimo, endurecido e tudo era visceral e intenso, mesmo as coisas insignificantes, magnificadas pelo constante turbilhão de uma prole tão vasta e onde a autoridade, a minha, que era a única que havia, não atinava com uma fórmula eficaz para um módico de serenidade. Por outro lado, prezávamos ver a tribo tão livre no seu viver sem peias, e não há muito mal nisso, excepto a ocasional tragédia que é o preço a pagar pela liberdade dos impulsos e instintos e pela diversa índole de cada um.
8.
No entanto, todos os dias há ameaças de cisão, grandes cismas, batalhas intestinas pelo controlo das migalhas que são o nosso sustento, uns trapos com que nos tapamos, um módico de conforto, quando ele é possível. É uma bravata sem substância, ridícula e são os mais revoltados quem mais apego tem e todos sabem — mas ninguém diz — que são esses que não saberiam viver fora do manto protector da família, cruel e d’opressivo peso por demasiado numerosa. Porém, há força e segurança e — ouso dizer — uma peculiar calma numa comunidade tão próxima e desmesurada quanto a nossa. E seria de tal modo inconcebível a solidão de sermos perdidos no Mundo que se não pode imaginar sorte pior, desorientação tão digna de pena, como andar por aí sem poder chamar alguém de irmão no vero sentido da palavra que é coisa de sangue, com a espessura dele e que, desde sempre, é a inalienável herança e potência da memória do que somos. É uma identidade absoluta, um salutar porto da errância nossa. Nunca um momento de tédio. A todas as horas, do dia ou da noite, algo ocorre porque tem d’ocorrer..
— O que acontecerá?— dizia, com entusiasmo e certa ansiedade, por essa época, a filha mais nova, a de 17 anos, que já tinha compreendido o ambiente de perpétua novidade, onde se esticavam as possibilidades mais vastas da acção humana, disparatada ou profunda, suave ou agreste, retesadas as cordas da expectativa pois, parecia, nenhum dia, um a seguir ao outro, era igual à véspera e isso desencadeava um fulgor nas almas imaturas, aventurosas, implicadas na irreprimível curiosidade da juventude, sem um momento de tédio ou pausa, porque era tudo o que conheciam.
Inês Vinte e Cinco, irmã mais velha, embora de idade não muito distante daquela que havia falado, respondeu:
— Não sabes, não sabes. Connosco, tudo é misterioso. Nada se vê, nem ao longe, nem aqui ao perto, nada se pode antecipar. Mas a única certeza é que acontecerá algo. Talvez trágico, talvez ditoso, quem poderá saber? Era bom, no entanto, que nada mudasse, que nada pudesse mudar e uma serenidade inaudita invadisse todos os nossos. Assim, porventura, tivéssemos alguma paz.
9.
Certa vez, por causa de umas lentilhas e de umas batatas, gerou-se tal confusão que o edifício onde nos hospedávamos, com um grande rugido que parecia vir das entranhas da terra, começou a ruir. Era um velho prédio abandonado, já muito depauperado, de sorte que não aguentou esses últimos insultos da nossa intempestiva invasão e aquela briga. Desconjuntando-se, mal tivemos tempo de sair antes do derradeiro final de tijolos e telhas, ruindo numa nuvem de caliça branca que se abateu quase sem estrondo na neve ainda mais clara que também em silêncio caia, mansa. Mas aquela comoção acordou os habitantes da cidade que acorreram ansiosos e prontos para a catástrofe. Mas não era catástrofe. Éramos apenas nós. Sem um tecto na noite gelada, setecentas almas ao frio, com fome, sem os nossos escassos pertences e sem batatas nem lentilhas. Empreendemos, então, com precipitação e frio, a nossa diáspora de sempre, sem Norte e a esmo, até que encontrámos outro abrigo, muitos quilómetros depois, exaustos, numa madrugada ainda mais gélida do que a noite varada na viagem que não nos viu na acostumada alegre balbúrdia da chegada, mas na busca de um sono pesado que durou vários dias. Quando o letargo passou foi uma festa explosiva e radical como uma feira terminal que, de tal modo surpreendeu os novos vizinhos, que alguns pensaram que era coisa de pesadelo e foram avisar o padre para que tocasse a rebate, aviso solene de calamidade pública, pânico geral, ou, quiçá, do fim dos dias, coisa que ninguém sabendo quando há-de acontecer não diferirá grandemente desta multidão de pesadelo, embora em geral inócua, que somos nós e que lhes invadiu a casa e lhes iria depauperar os bens sem, ao menos, pedir por favor.
Não só os vizinhos de ocasião nos viam, pelo caos que trazíamos, como coisa de sonho malsão, como, desde o começo, quando os conhecíamos, estranhavam a turba de todas as idades, mas parecida nas feições e muito unida nos modos devido a este vínculo comum. Surgíamos de nenhum lugar, sem passado, sem futuro, perene presente, em busca de tudo, mesmo do próprio fado, o qual nunca sequer conseguimos encontrar porque nos falta tradição e memória.
Um grupo de irmãos, reunidos num café da aldeia. Conversam sobre o tema do destino:
— O que acham de se tratar de uma coisa básica, sumamente, prosaica?
— Sim, básica.
— E simples, também.
— Com certeza.
— Não. Não parece tão simples, afinal.
— Pois é, eu concordo — disse um deles depois de longa pausa, com ar melancólico: o que é, então, o destino?
Na verdade, que sabiam eles do destino se nada conheciam além daquele, multidudinário e vário caos, aleatório no extremo do êxodo?
10.
Havia, ainda, quem nos quisesse mal, quem se propunha caçar-nos. Ao longo da nossa persistência de exército de formigas sem formigueiro tínhamos granjeado muitos inimigos, gente malévola que não perdoava o escândalo de existirmos, assim, em turba movediça e colossal, sempre crescente, cada vez mais insubmissa às leis dos homens, cada vez mais fechada e imune à palavra do Senhor. Sim, seremos ímpios, já que não temos outro Deus que o regurgitar dos nossos estômagos e demais apetites e venetas que nos dê em querer no momento e isso, essa liberdade, ninguém nos perdoa, commumente cingidos que estão a toda a sorte de regras e normas e inúmeras proibições que lhes dizem o que comer e quando comer, o que beber e quando beber, a quem hão-de amar e em que condições, enfim, como têm de viver e até como terão de morrer e para onde irão depois, se merecerem ascender ou se vão descer aos infernos como justa punição ao que é desconforme.
Portanto, teremos de estar de olho aberto, ao mínimo deslize sempre haverá quem nos capture e nos submeta aos grilhões do cativeiro, aos tormentos do verdugo, aos terrores do cadafalso, se tiverem a sorte, que é azar nosso, de filar ovelha desgarrada do nosso rebanho ou então de atacar o conjunto íntegro do que somos, porque também eles se saberão organizar em vasto batalhão, bem armados, melhor aprovisionados, com a motivação dos justos que levam a Justiça aos réprobos que é aniquilação e nós amamos a vida e este estranho modo de sermos.
Somos uma grande ameaça? Não há nenhum grupo maior? Não há nenhuma criatura, colectiva ou Leviathan, mais forte? Não há nada mais assustador ou incómodo? Não há nenhuma outra ideia de comunidade mais coesa? Somos só pessoas, não é? Só isso. Apenas isso. Só isso. Somos muito menos do que as muitas criaturas da terra e da água, dos animais e dos inumeráveis pássaros e insectos que povoam os ares. O que nos diferencia, então, de um grupo de animais ou de um qualquer agregado humano? Uma raiz única e comum, uma marca genética e vivencial que nada nem ninguém poderá apagar a não ser que, pela força do extermínio, nos façam desaparecer, mas de vez, da face desta ditosa e rude Terra.
11.
Quando nasci os meus pais eram muito jovens, activos e felizes. Foi antes da sua incrível fecundidade se ter instalado e eu, primogénito e filho único, o destinatário de toda a sua atenção. O Pai era, então, um homem industrioso, mas nos intervalos das suas muitas ocupações e negócios ensinou-me a ler e escrever, a contar e os rudimentos de História e de Ciências Naturais que, ainda hoje, são a base dos conhecimentos que, ao longo de uma vida, consegui acumular e talvez, já por mim, aprimorar. A minha Mãe, nesse tempo, era de índole doce e generosa e, não estando esgotada pelo desgaste de tantos nascimentos, dedicava-se a manter uma casa limpa e organizada, uma horta bem aprovisionada, estando disposta a completar a minha educação sempre que ao meu Pai lhe escasseasse o tempo. Vivíamos, assim, comodamente, numa terra bastante distante, onde éramos, em geral, respeitados, até ao momento em que começou a tornar-se escandalosa a desmesurada prole gerada pelo casal.
Na realidade, nos primeiros tempos, enquanto a família crescia, todos acharam que era sinal de prosperidade e ficaram contentes por nós e é provável que até um pouco invejosos. Mas porque o número não parava de aumentar logo se percebeu que havia algo de doentio, malsão, em toda aquela proliferação, com crianças e adolescentes esfarrapados e esfomeados correndo por todo o lado, mendigando e fazendo pequenos furtos para amenizar a fome e, em simultâneo, operando-se nos meus pais uma transformação de mansa alienação e silenciosa tristeza. Quanto maior era o número dos nascimentos maior o distanciamento do Pai — patriarca genésico em construção — relativamente à realidade quotidiana e, do mesmo modo, maior era a indolência da Mãe, até que, por fim, não mais se preocupou sequer em sair do catre, ficando eternamente prostrada, à espera da morte ou de mais crianças por nascer.
12.
Por essa altura, já eu tinha idade bastante para, na ausência progressiva dos meus pais, tomar conta da situação. A primeira medida foi encetar a longa via do nomadismo, único modo de escapar às perseguições que, desde então até agora, não deixaram de nos acossar. Depois, tentei, em vão, estabelecer uma ordem qualquer naquela turba indisciplinada. Foi também nesse tempo que passaram a chamar-me José Primeiro pois era o irmão mais velho e por isso instituí que todos se passariam a chamar pelo nome próprio e pela ordem de antiguidade, numa hierarquia improvisada, mas que, na prática, acabou por ser respeitada. Não digo que não tive certa pena por deixar de ser filho único, mesmo se aquando do aparecimento do primeiro dos meus irmãos eu ainda fosse muito novo. A atenção passou a ser repartida, mas era normal naquela altura as famílias serem numerosas. Não era um fenómeno estranho a não ser quando se multiplicaram de tal maneira os nascimentos que se percebeu que era uma tendência que não parecia ter fim e que só o teve quando os nossos pais morreram com uma idade de prodígio a que se veio juntar o espanto retrospectivo daquela fecundidade impossível negada por todos os tratados médicos. Aliás, não foram poucas as vezes que apareciam no nosso acampamento doutores ardendo de curiosidade para observar com os próprios olhos este caso que contrariava tudo o que a sua arte lhes tinha ensinado, como se não bastasse a evidência de nos terem todos ali à sua volta, esta imensa linhagem de múltiplas idades, que os recebia e depois os escorraçava sob uma chuva de pauladas, pedras, chacota e impropérios pois ninguém gosta de se sentir como uma aberração de feira, apesar da aparência de campo circense que a nossa turbulenta vivência emprestava a todo o lugar em que arribássemos.
Quando os nossos pais, mais do que centenários, morreram eu havia cogitado que os irmãos se dispersassem ou que ficassem num acampamento perpétuo, sem alor nem vontade para continuarem a viver, mas não. A natureza ausente daqueles progenitores de mirabilia não alterou o ânimo comum, apenas se entendia que, por fim, o nosso número jamais se voltaria a ampliar e que, agora, começaríamos a decrescer em nossas fileiras, estanque o impulso multiplicador que, há tantas décadas, parecia inquebrantável.
Para a minha surpresa, a primeira morte veio antes mesmo da minha que sou o mais velho, de José Centésimo Primeiro, um acidente de caça, tão inevitável e arbitrário, como todos os acidentes.
Os meus irmãos, na maior parte, já formavam gigantesca família e, no entanto, foi profunda a comoção que atingiu todos. Até aí poupados à morte havia, sem que fosse explícito, um sentimento de invulnerabilidade, de progressão contínua do nosso número como se fôssemos repovoar a Terra com uma semente, uma presença e um apelido comum.
13.
Ainda assim, tinha quem me ajudasse naqueles primeiros tempos que foram os mais difíceis porque tudo era ainda novo, embora não os mais trabalhosos, pois éramos apenas algumas dezenas de infelizes e o verdadeiro caos só se instalou, em definitivo, quando passámos a centena e como o número não parasse de aumentar não foram poucas as noites em claro a pensar até quando nos dilataríamos o que, apesar de oferecer a módica protecção do grupo, também significava mais bocas para alimentar, mais necessidade para suprir, maior diversidade o que, como sabeis, é um obstáculo à ordem e ao bom funcionamento de qualquer comunidade, seja composta de estranhos, uma irmandade simbólica ou, como nós, com um vínculo de sangue, afinal também uma irmandade, mas num sentido literal e próprio.
Tais tempos de dureza e angústia tornaram-se, então, também tempos de reestruturação, de aprendizagem, de ajuste à realidade palpável desta nossa proliferação. O que foi ainda mais difícil para mim que, ao ser o responsável por esta desaforada criação, acabava, sempre, por ver-me afastado das tarefas mais prementes porque também me exigiam um papel conciliador que fui aprendendo a exercer. Não posso dizer, portanto, que conseguimos muito nessa altura, mas de alguma forma, fomos suportando todo este peso, esse pesadelo alegre, e embora fosse inevitável alguma moderação desta crescente família, esse momento de acalmia parecia nunca chegar e sob o peso de tantas bocas famintas, de tantos juízos discordantes a minha tarefa também se afigurava mais e mais exigente.
14.
António Segundo era pequeno e enérgico e parecia estar em vários lugares ao mesmo tempo. Tinha uma alegria muito própria e não se deixava abater pelas constantes contrariedades que nele se multiplicavam. Reveses, na maior parte das vezes, inexplicáveis como se tudo se avariasse à sua volta por estar contaminado pelo peso da simples soma automática das nossas fileiras que cresciam a um ritmo alucinante. Dava-se por isso, por essa tensão incómoda, mas palpável, e como não podia deixar de ser, acontecia o malogro nas piores alturas. Todavia se não fosse por Segundo e as suas inumeráveis confusões, talvez tivesse desertado do meu cargo e fugido para longe. Talvez até pudesse ter esquecido aquele quotidiano opressivo e preocupar-me, singelamente, com a minha vida, com a curiosidade omnívora que sempre me incendiou o espírito, talvez casar e nunca olhar para trás, para esta parentela interminável que me consumiu os dias e meses e anos e décadas até que eu perdesse a serventia. Exausto e gasto, desconheço quando vou poder, finalmente, descansar. Recuperar os prazeres da solidão e o do sossego e ter apenas de cuidar de mim.
António Segundo sempre foi, a contrario sensu, ou seja, pela sua natureza rebelde, o meu grande exemplo. Deixou-se criar e cresceu aqui, como todos, com trabalho e com afinco e durante muitos anos também se dedicou ao grupo com um fervor inquebrantável. Mas nunca me pareceu ter encontrado, em especial, na última parte de sua vida, uma razão ou, afinal de contas, um propósito para essa dedicação absoluta, ao contrário de mim que, apesar do peso da responsabilidade que me consumia, imaginava outras coisas, uma independência feroz que, como os demais que com isso também sonhavam e que nunca se logrou cumprir.
O caso da Mãe era, como sempre, um tanto estranho. Quando não estava com o seu mau-humor suave, era a única pessoa que nunca se cansava de agir como se fosse o centro das coisas, alheia à numerosa prole. Todavia, em poucos anos, acabou por ficar alquebrada com o peso da multidão engendrada e por engendrar, de modo a que o seu temperamento activo regrediu, para se tornar numa mulher frágil e lânguida, uma exaustão com o peso do Mundo que originou. Deixou de falar, um esforço que lhe era agora desmedido e porque usufruía dos cuidados de todos sem que necessitasse expressar-se. Apesar de envelhecer depressa manteve-se num estado alheio ao tempo. Apenas ia vivendo para além do que parecia possível.
Ainda assim, sempre que estava perto dela, era capaz de ver em António Segundo o carisma de alguém que parece ter encontrado, pelos anos, alguma espécie de sentido de comunicação secreto com ela e assim era como um intérprete, autorizado por esse dom, a ditar quais os desejos e as necessidades mais imediatas dessa matriarca, aparentemente, imortal.
A Mãe, por essa altura, tinha grande tendência para um certo impaciente desapontamento, e se isso não fora o suficiente, não temia usar a sua autoridade, não importava quantas vezes repetisse a mim mesmo que eu era a razão que, connosco, salvaguardava a decisão justa. Sabia que tinha de aceitar os seus caprichos que, embora raros, não admitiam contestação.
***
João Pereira de Matos é escritor e investigador no CHAM – Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa.
Não te conheço pessoalmente, mas creio que não levarás a mal que te trate de forma informal.
Chamou-me atenção, há dias, a tua crónica no Expresso com o título “A SPECTRE está a controlar-nos”, remetendo para o universo de James Bond, através da menção à organização criminosa inventada por Ian Fleming – acrónimo de Special Executive for Couter-Intelligence, Terrorism, Revenge and Extorsion, ou seja, Grupo Especial para Contra-Espionagem, Terrorismo, Vingança e Extorsão.
Contudo, o que me levou mesmo a ler o texto foi o lead, onde explicavas que não és tu quem diz que a SPECTRE está a controlar-nos, mas sim “gente séria”. E essa “gente séria” identifica a organização: “Chama-se Palantir. E não é secreta. Até publica manifestos no X para se exibir”, escreveste.
Artigo de opinião de Luís Pedro Nunes no Expresso, publicado originalmente em 29 de Abril de 2026.
Ao ver-te a mencionar a empresa Palantir como se estivesses a ouvir falar dela pela primeira vez, mais ainda o manifesto que o seu CEO, Alex Karp, publicou recentemente no X, fui ler o resto da crónica. Achei interessante, e até bastante corajoso da tua parte, a forma como descreveste o teu processo de descoberta pessoal.
Para quem ainda não te leu, permito-me reproduzir a parte onde explicas a tua reacção às primeiras notícias do manifesto de Alex Karp: “Não vi grande burburinho. Ou melhor, apareceu o Varoufakis a dizer que este era mesmo, mas mesmo, o manifesto do tecnofascismo. Mas era o Varoufakis. Ligaram os que costumam ligar ao Varoufakis”.
Manifesto da Palantir no X
Como dizia um amigo meu: “Tive de me rir”. Essa do “ligaram os que costumam ligar ao Varoufakis” teve piada. Se eu, como jornalista, pudesse dar-me ao luxo de descartar factos apenas por chegarem de quadrantes políticos onde a minha experiência de vida, e as circunstâncias que ditaram ser como sou, funcionassem como critério, estava a ser desonesto. Mas tu és um “opinador”, portanto, podes fazer essas distinções.
A seguir, escreveste: “Uns dias depois de terem digerido os 22 pontos, jornais supostamente sérios apareceram a dizer que aquilo era o ‘manifesto de um supervilão’ como se a ordem de trabalhos da SPECTRE — a organização criminosa global dos filmes de ‘007’ — fosse anunciada publicamente no X. Aí, interessei-me”.
Aí sim, quando disseste: “Aí, interessei-me”, interessei-me ainda mais. O teu texto tinha hiperligações para os artigos dos “jornais supostamente sérios”, mas que depois não nomeaste. Digo então esses nomes, para conforto de quem está a ler esta carta: o primeiro era um artigo do inglês The Guardian, na ligação da frase “manifesto de um ‘supervilão’”, com o título “Palantir manifesto described as ‘ramblings of a supervillain’ amid UK contract fears”.
Foto: D.R,
O segundo artigo era do espanhol El Mundo, com hiperligação na frase “ordem de trabalhos da SPECTRE”, com o título “El plan oscuro del gigante de la vigilancia para dominar el mundo: ‘Terminaremos sumidos en el autoritarismo o, directamente, en la extinción’”.
A seguir, mencionaste o nome do fundador da Palantir, Peter Thiel, e também o do CEO da empresa, e autor do manifesto, Alex Karp. Disseste que “Thiel é a metafísica antiliberal que alimenta a empresa que quer instalar-se no sistema nervoso do Estado e ‘ensiná-lo’ a pensar como uma máquina de guerra algorítmica” e, sobre Karp, que “não tem problemas em ser um desbocado, a dizer coisas com cabelo de vilão do Batman e a defender coisas do ‘lado negro’”.
A tua grande conclusão, se me permites o resumo, é o facto destes dois nomes estarem agora à frente de uma “empresa de IA militar, hard power, integração da Big Tech e Estado que relativiza debates éticos e escolhe um lado político. O do poder absoluto de vigilância não democrática sobre os cidadãos”.
Legenda: Artigo do El Mundo
E não é sequer a gente “ligada ao Varoufakis” que diz isso, mas sim a tal “gente séria”. Basicamente foi isto que escreveste, se bem que assim o interpretei.
Luís, tenho então apenas uma coisa a dizer-te: Bem-vindo ao mundo real, pá! Finalmente, começas a ver a luz onde todos os outros só viam teorias da conspiração!
Agora olha, para saberes mais sobre o mundo em que vivemos, nem sequer sou eu quem te vai contar, mas dou-te um conselho que um dia ainda vais agradecer-me pessoalmente: fala com a Clara! Pergunta-lhe a ela!
Sim, com a tua companheira de painel no Eixo do Mal, a Clara Ferreira Alves.
E porquê? Pá, porque a Clara conheceu pessoalmente o Peter Thiel!
Como sei? Ela própria o disse, no Expresso, a 22 de Janeiro de 2025, quando escreveu que Thiel “é intimidante” e “tem olhos de aço”. E ainda, “quando sorri não parece estar a sorrir”, e tem “uma voz metálica que articula uma corrente de pensamento enunciada com tal velocidade e dificuldade que se torna dura ao ouvido”.
Alex Karp à saída do encontro do Grupo Bilderberg, em Abril, em Washington
É a opinião de quem teve contacto directo com Peter Thiel, pois repara ainda no que Clara escreveu no mesmo texto: “É parco em graças sociais. Vi-o num encontro internacional, e ouvi-o, e não pude deixar de o associar a uma farda e a um pastor alemão. Teria dado um excelente ator secundário em filmes sobre o nazismo, e isto é o preconceito liberal a julgar. O que Thiel quer eliminar”.
Portanto, a Clara está numa excelente posição para te explicar como é que o mundo funciona, pois ela esteve “num encontro internacional” a ouvir o ‘supervilão’ Peter Thiel. Se fosse a ti, perguntava-lhe, discretamente, algo do género: “Clara, olha lá, li há dias um texto teu onde disseste que estiveste com o Peter Thiel, o tipo da Palantir, num encontro internacional”, isto apenas para começar.
Depois (não digas que fui eu que te disse), podes tentar confirmar um palpite que cá tenho: pergunta-lhe se ela se lembra onde e quando é que foi esse tal “encontro internacional”. Se a Clara disser que não se lembra, pergunta-lhe se, por acaso, não terá sido na Suíça, em 2011?
Crónica de Clara Ferreira Alves, Expresso, 22 de Janeiro de 2025.
Se ela se fizer esquecida, dizes: “Mas, Clara, mostraram-me depois uma foto tua, sentada na parte de trás de um carro, estilo vilã de James Bond, à entrada de um encontro internacional da SPECTRE”. Se ela se rir e disser que é falso, mostra-lhe a foto que ilustra este artigo e pergunta-lhe se pode confirmar se é ou não ela.
Depois, se tiveres confiança para tal, mostra-lhe a lista de participantes desse encontro, em 2011, na Suíça, e pergunta: “Foi aqui que estiveste, neste ‘encontro internacional’, a convite do saudoso Dr. Balsemão? Como é que se chamava aquilo? Ah! É Isso! Grupo Bilderberg! É que na lista de 2011 vem lá o teu nome, juntamente com o Peter Thiel, entre outros ditos ‘donos do mundo’, aqueles que o The Guardian chama agora de ‘supervilões’. Isso é verdade? Portanto, parece que o encontro foi em Saint Moritz, entre os dias 9 e 12 de Junho, certo?”
E podes ainda continuar: “Aparece, aqui, na lista, para além do teu nome e o do Peter Thiel, mais gente ‘ilustre’, como o David Rockefeller e o Henry Kissinger. Mais o Jeff Bezos, o da Amazon, que agora é dono do Washington Post. Também esteve lá o Mark Carney, que era então governador do Banco do Canadá e hoje é o primeiro-ministro do Canadá. Ah! E o Peter Mandelson, agora caído em desgraça por causa daquilo do Jeffrey Epstein, mais o Eric Schmidt, que estava à frente da Google”.
Clara Ferreira Alves, à chegada do encontro do Grupo Bilderberg, 2011, em Saint Moritz, Suíça.
Pois é, Luís, a Clara, se quiser, pode explicar-te depois mais coisas sobre os “supervilões” e como funciona o mundo, pois ela já esteve reunida com eles, e nunca escreveu nada sobre isso. Foi lá e calou-se muito caladinha. E, agora, os ‘maus’ estão ao teu lado e tu nem dás por eles.
Até te digo mais: eu, por exemplo, estive em Estocolmo, no ano passado, na reunião anual desse grupo internacional, onde vi o Peter Thiel com o Alex Karp. E, há um mês, em Washington, também voltei a ver Karp no mesmo encontro. Mas, sabes, ao contrário da Clara, estive sempre do lado de fora, onde está a maioria de nós, aqueles que não participam nos encontros da SPECTRE. Estive a ver e a registar. A testemunhar que existem mesmo e não são um produto da ficção.
E sabes quem esteve também, no último encontro de Washington, lá dentro, com o Alex Karp e outros que tais, agora a convite do Durão Barroso? A Guta! Sim! Ela mesmo! Fala com ela, também. Podes dizer-lhe que até vais da minha parte, do jornalista que a cumprimentou, e ao Barroso, no hall do Hotel Salamander, no fim do encontro.
Alex Karp e Peter Thiel, os principais nomes da Palantir, à porta do encontro do Grupo Bilderberg, Estocolmo, 2025.
P.S. Já agora, Luís, não percas tempo a falar com os jornalistas aí, do Expresso, que, em Fevereiro, ao escreverem sobre Peter Thiel, num artigo sobre o Epstein, disseram que a Palantir era “uma empresa de recolha e armazenamento de dados a nível internacional, envolta em controvérsia precisamente por colocar os dados dos cidadãos ao serviço de qualquer Governo que pague para tal”. Vê-se logo que quem assinou aquilo não percebe nada disto, pois o “qualquer governo que pague para tal”, que se saiba, são os governos dos Estados Unidos e Israel. E é ainda com a permissão deles que a Palantir também está a apoiar a Ucrânia, usando a guerra como laboratório de experiências de armamento. E, se anda a recolher dados privados, então isso tem o apoio do serviço nacional de Saúde do Reino Unido, cujo antigo ministro, Wes Streeting, aquele que dizem agora querer ser o futuro primeiro-ministro do Reino Unido, também esteve, no ano passado, no encontro Bilderberg de Estocolmo.
Por isso, se alguém estava a pensar na Rússia de Putin, ou no Irão, China e até na Coreia do Norte como clientes da SPECTRE, perdão, Palantir, esquece. Os vilões desta história, são mesmo os que já estão sentados ao teu lado.
A mente humana é uma máquina admirável, sobretudo quando resolve deixar de pensar para começar a coleccionar. O homem, apesar de ser animal dotado – que inventou a metafísica, a álgebra, a sonata, os impostos e até o requeijão light –, desce com enorme facilidade à condição de roedor quando lhe põem diante dos olhos uma saqueta colorida com sete cromos lá dentro. Sete.
Vejam este número bíblico, número cabalístico, número de dias da Criação, número de pecados capitais, que se mostra tão diabólico que transforma um adulto já dentro da segunda idade, aparentemente funcional, num ser que frequenta até papelarias e quiosques com o ar inquieto de quem procura morfina em vielas esconsas.
Foi assim comigo nos últimos anos.
Comecei a colecção dos cromos Panini com aquela inocência perigosa dos homens que ainda acreditam controlar os seus actos. No primeiro dia, entrei no Auchan da Rua Damasceno Monteiro e comprei algumas saquetas. Poucas, pensei eu. Uma experiência. Uma brincadeira. Um regresso moderado à infância. Mas a palavra “moderado”, em matéria de cromos, deve ser lida com a mesma cautela com que se lê “provisório” num imposto português.
Nos dias seguintes, o abastecimento correu bem. O sistema parecia civilizado: comprava umas saquetas, abria-as com uma dignidade relativa, separava os repetidos, alinhava os novos, registava na folha de cálculo do Excel e contemplava tudo como um cartógrafo do Império. Nessa fase inicial, nada se apresenta como vício. Surge vestido de passatempo. Cheira a nostalgia, não a compulsão. Fala-nos da infância. Sussurram-nos que somos apenas coleccionadores, jamais dependentes. Ora, o primeiro papel da dependência é fazer-nos mentirosos.
Depois, numa bela tarde, o Auchan secou.
Não foi uma ruptura comercial; foi uma catástrofe íntima. A prateleira vazia olhou para mim com a crueldade mineral das coisas que não se importam connosco. Onde antes brilhavam saquetas, restava o nada. E o nada, para um coleccionador, deixa de ser uma ausência para ser uma provocação.
Desci então à Papelaria Fonsecas, na Rua Maria Andrade, alcandorada embaixada da esperança onde ainda consegui comprar mais material, incluindo uma bela caixa, também ela objecto coleccionável, porque a Panini, como todo o génio maléfico, não se limita a vender o vício: empurra a moldura, o relicário, o altar portátil onde o vício se exibe com ar de decoração. Descobri que existiam quatro caixas diferentes. Quatro. O vício agradeceu a informação e registou-a para futura destruição orçamental.
Porém, também ali o manancial se extinguiu. O distribuidor, esse deus invisível dos cromos, recolheu-se aos seus mistérios. Ainda consegui, num último assalto de prudência desgovernada, comprar dez saquetas no Continente da Almirante Reis. Dez saquetas: setenta cromos. Setenta possibilidades de redenção, repetição, júbilo ou insulto estatístico.
A partir daí entrou-se na fase da abstinência, desde sábado passado.
Convém falar desta palavra com respeito: a abstinência dos cromos não provoca tremores visíveis, nem febres, nem delírios com morcegos no tecto. É pior: provoca telefonemas. O viciado começa a activar a rede: amigos, conhecidos, familiares, vizinhos, pessoas que há anos não recebiam uma mensagem que não fosse “bom Natal” passam a ser abordadas com uma pergunta de inquietante simplicidade: “Viste cromos Panini à venda por aí?”
A pergunta parece inocente, mas contém a degradação inteira. Quem a faz já atravessou uma fronteira moral: já não compra cromos; procura fornecedores. Já não frequenta lojas; inspecciona pontos de distribuição. Já não visita papelarias; ausculta mercados paralelos. A geografia da cidade transforma-se num mapa de abastecimento: Graça, Arroios, Almirante Reis, até Vila Franca de Xira, Continente, Auchan, Pingo Doce, papelarias antigas, quiosques melancólicos, balcões de tabaco, tudo passa a ser lido com olhos de um contrabandista.
E foi assim, neste degradante percurso, que descobri a nova aristocracia do vício: as listas. No Largo da Graça, a distinta tabacaria, papelaria e livraria Havaneza Bandeira, “a servir clientes desde 1937”, já existe lista para próximas remessas. Naturalmente, inscrevi-me. Na Papelaria Fonsecas, também já deixei o nome para me ligarem quando chegarem as “minhas” 24 saquetas. Vinte e quatro. Um número que, em qualquer outra circunstância, seria administrativo, passa aqui a promessa de salvação.
A lista de espera é, assim, a nova forma burguesa da dependência. O viciado, impedido de rastejar, inscreve-se. A civilização consiste nisto: transformar o desespero em formulário.
Nos supermercados, onde a moral é menos personalizada, reparei entretanto que não há listas. Reina o estado de natureza. Um caixa contou-me que, no dia anterior, um senhor comprara 500 saquetas. Quinhentas. Repito, para que a enormidade se imponha: 500 saquetas. Como cada uma traz sete cromos, o cavalheiro saiu dali com 3.500 cromos. Três mil e quinhentos pequenos rectângulos de esperança auto-colante.
Ao preço corrente, terá deixado no altar da Panini um total de 750 euros. Um dízimo respeitável, correspondente a uma viagem, um bom electrodoméstico de linha branca, uma semana de hotel. Ou, no caso vertente, uma montanha de papel brilhante destinada a provar que a infância, quando regressa, deve trazer consigo um terminal multibanco.
A Matemática, porém, impõe-se aqui. O álbum tem 980 cromos. O ingénuo cavalheiro pensou, às tantas, que 3.500 cromos chegariam para completar a colecção e ainda construir uma pequena muralha defensiva com os repetidos. Mas a teoria das probabilidades informa-nos que não: comprando 3.500 cromos ao acaso, a expectativa científica será obter cerca de 952 cromos diferentes. Ou seja, depois de abrir 500 saquetas, gastar 750 euros, respirar cola imaginária e atravessar uma experiência próxima da iluminação mística, aquele açambarcador – que evitou a tomada da minha dose – ainda ficará com 27 ou 28 buracos no álbum. Em contrapartida, possuirá perto de 2.548 repetidos de vários quadrantes, quantidade suficiente para empapelar uma casa-de-banho, iniciar uma microeconomia escolar ou fundar uma seita.
Este é o génio perverso do sistema. A colecção aproxima-se da plenitude como Aquiles da tartaruga: chega cada vez mais perto, mas os últimos cromos transformam-se em criaturas mitológicas. No início, tudo é abundância. Cada saqueta traz novidades. Depois começam os repetidos. Primeiro, toleráveis. Depois, irritantes. Mais tarde, ofensivos. Por fim, metafísicos. Um cromo repetido pela décima vez deixa de ser um pedaço de papel e passa a ser uma pergunta sobre Deus.
A Panini sabe isto, tenho a certeza. Ou, pelo menos, comporta-se como se soubesse. A escassez não mata o vício; apenas o tempera. A interrupção do fornecimento jamais cura o dependente; apenas lhe educa a ansiedade.
Durante dias, o coleccionador fica privado da dose, observa o álbum incompleto, conta as cadernetas vazias, passa os dedos pelas páginas como uma viúva por retratos antigos, promete a si próprio que, quando voltarem as saquetas, comprará apenas algumas. Mas a mente, depois da abstinência, já não calculará em unidades, mas em salvação. A dose seguinte tem de compensar, em triplo, a ausência anterior. Assim nasce a overdose cromática.
O mecanismo é conhecido em qualquer mercado de tentação. A privação cria tensão; a tensão cria desejo; o desejo, quando reencontra o produto, perde a compostura. Um fornecimento regular permitiria uma dependência calma, quase doméstica. A escassez intermitente transformará o consumidor num náufrago diante da tábua. Quando finalmente chegam caixas novas, ninguém compra “umas saquetas”. Comprar-se-á como quem repele a morte.
Talvez exista aqui apenas logística deficiente. Talvez os distribuidores tenham subestimado a procura. Talvez Portugal esteja cheio de adultos discretos a reviver infâncias mal resolvidas, escondidos atrás de pastas de trabalho e desculpas familiares. Mas a minha suspeita, que vale o que valem as suspeitas nascidas entre repetidos, é outra: a escassez favorece o transe. A falta torna o regresso mais intenso, a prateleira vazia constitui uma publicidade sem cartaz e o produto ausente torna-se mais poderoso do que o produto disponível.
Por isso, o homem das 500 saquetas não será já um excêntrico isolado, mas uma profecia. Representa ele aquilo que todos os coleccionadores temem ser e secretamente admiram: alguém que decidiu saltar a fase da moderação e avançar directamente para o colapso. O seu gesto tem, convenhamos, a grandeza napoleónica: invadiu a Rússia dos cromos com 750 euros e regressou, muito provavelmente, sem apanhar Moscovo – ou o médio-central da Bielorrússia.
Resta-me, pois, aguardar a chamada da Havaneza da Graça, a remessa da Papelaria Fonsecas, a sorte eventual de um Continente distraído. Resta-me fingir que controlo a situação, dizer-me, com voz serena, que são apenas 24 saquetas. E resta-me depois abrir cada uma com o respeito de um sacerdote e a vergonha de um reincidente.
Na verdade, a máquina diabólica da mente humana não precisa de grandes tragédias para revelar a sua natureza: basta-lhe uma caderneta, uma marca italiana, sete cromos por saqueta e a promessa cruel de que, algures no mundo, existirá ainda aquele último cromo que falta quando desesperadamente precisarmos dele antes da loucura.
Acredito que, pela natureza humana, há vícios respeitáveis. Não me refiro, evidentemente, aos que obrigam a internamentos, intervenções familiares ou visitas discretas a estabelecimentos de reputação ambígua. Refiro-me àqueles vícios menores, toleráveis no seio social, até ternurentos, que nos permitem fingir que continuamos ligados a uma qualquer inocência de infância.
Coleccionar cromos parece ser um desses vícios. Pelo menos até ao momento em que um homem adulto, com responsabilidades editoriais, contas para pagar e preocupações institucionais sérias, se apanha a fazer cálculos probabilísticos sobre a representação geopolítica do Uruguai numa colecção Panini.
No primeiro dia, fui razoável. Comprei duas caixas. Um gesto de moderação, quase de antropólogo que decide observar um fenómeno social sem se deixar contaminar. No segundo dia, porém, a ciência experimental cedeu perante a compulsão e comprei três caixas adicionais. Façamos as contas, porque a exactidão numérica ainda é a única âncora moral nestes processos de degenerescência lúdica: cada caixa traz oito saquetas; cada saqueta contém sete cromos; cada caixa equivale, portanto, a 56 cromos; três caixas correspondem a 168; somadas às duas caixas iniciais, o total ascende a 280 cromos. Dito assim, parece menos um passatempo e mais um pequeno programa de investimento paralelo.
A questão é que a Estatística começou a manifestar-se de forma ameaçadora. Dos 280 cromos adquiridos, tenho agora 247 úteis e 33 repetidos. Isto significa que cerca de 11,8% da minha experiência já consiste em pagar para voltar a receber aquilo que já possuía. Convenhamos, é um modelo económico que envergonharia alguns sectores esbanjadores da administração pública. Ainda assim, a colecção está em 25,2%, significando assim que um quarto da empreitada foi cumprido.
À primeira vista, não parece dramático. Porém, isto apenas uma percepção psicológica – e das perigosas. No início, cada saqueta abre-se com a emoção de quem espera descobrir um novo continente. Tudo é novidade. Até um obscuro lateral-esquerdo de uma selecção improvável merece atenção e respeito. Mas, à medida que o álbum se vai enchendo, instala-se uma inquietação subtil. O gesto de abrir deixa de ser esperança e passa a ser auditoria.
O mais curioso não está sequer no total, mas na distribuição errática desta pequena ordem mundial de cartão brilhante. Tal como o Irão, a Argentina, actual campeã do Mundo, comparece no meu acervo com a impressionante representação de um único cromo. Um. O Messi apareceu no contingente especial, o que significa que apanhei o sumo pontífice sem passar pelo colégio cardinalício. Pesquiso: no ‘mercado negro’ já há quem o ‘ofereça’ pela módica quantia de 65 euros – negociáveis.
Países inteiros parecem diplomaticamente ausentes desta conferência internacional improvisada sobre a mesa da sala. Em contrapartida, o Uruguai — esse pequeno mas bravo país de escassos três milhões de habitantes — já me ofereceu dez cromos. Dez. Neste momento, constitui a potência dominante da minha colecção. E, para tornar tudo mais bizarro, apenas um desses é repetido. Há claramente uma simpatia estatística pelas margens do Rio da Prata que a teoria das probabilidades talvez um dia explique.
Portugal está num estado de representação moderadamente digno. Tenho seis cromos portugueses, entre os quais o símbolo da Federação e a imagem da equipa. Tenho a estrutura, a bandeira, o aparelho institucional, mas ainda não tenho o Cristiano Ronaldo. Uma metáfora nacional, talvez. Temos os emblemas, os organismos, os enquadramentos formais, mas a figura tutelar tarda em aparecer.
Anúncio no OLX a vender o Lionel Messi… mas, nestas colecções, pelo contrário, a raridade não é proporcional ao talento.
Agora, a questão essencial: estou azarado? Curiosamente, não. Pelo contrário. Fazendo as contas, a expectativa teórica para 280 tiragens aleatórias numa colecção de 980 cromos apontaria para cerca de 244 cromos únicos. Tenho 247. Ou seja, estou ligeiramente acima da média.
A sensação de agravamento não decorre de azar, mas da própria mecânica do processo. Neste momento, faltam-me 733 cromos. Isso significa que a probabilidade de o próximo cromo ser novo continua a ser de quase 75%. Três hipóteses em quatro. Parece óptimo. Mas a comparação é cruel: quando tinha apenas 100 cromos, essa probabilidade rondava os 90%. A degradação não é uma ilusão; é apenas matemática.
A pergunta seguinte é estratégica: continuo a comprar compulsivamente como se o futuro económico não existisse, ou mudo de táctica? Aqui convém algum racionalismo. Sem trocas, completar esta colecção seria um acto financeiramente tresloucado. Estatisticamente, o número esperado de cromos necessários para completar tudo ultrapassa os sete mil. Sete mil. Não é um álbum; é um plano de insolvência. Até atingir talvez 400 ou 500 cromos únicos, comprar ainda pode fazer sentido, porque o retorno continua aceitável.
Aliás, estou já convicto de que completar esta colecção é estatisticamente impossível apenas com compras. O senso comum ingénuo poderia supor que, tratando-se de uma colecção com 980 cromos, bastaria aproximar-me desse número com alguma margem para completar a empreitada. Afinal, se há 980 cromos, pareceria razoável imaginar que comprando 1000, 1200 ou até 1500 o problema estaria resolvido. A matemática, porém, tem um humor cruel e nenhuma consideração pelos sonhos de homens crescidos.
Ao fazer as contas — com a ajuda de ferramentas que conferem uma aparência respeitável a comportamentos questionáveis —, percebi que comprar o equivalente exacto à colecção não me daria qualquer hipótese de a completar. Como cada compra é aleatória e os cromos podem repetir-se indefinidamente, o número expectável de cromos únicos ao fim de 980 compras é de apenas cerca de 619.
Dito de outro modo: mesmo investindo o equivalente exacto ao tamanho da colecção, o mais provável seria ficar ainda a faltar-me mais de 360 cromos. Neste ponto percebe-se logo que a Panini não vende apenas cromos; vende uma sofisticada experiência prática sobre a crueldade da teoria das probabilidades.
Probabilidade teórica de completar a colecção Panini do Mundial 2026 em função do número total de cromos comprados, assumindo distribuição aleatória uniforme com reposição. O cálculo parte do modelo clássico do coupon collector problem, considerando um universo de 980 cromos distintos, em que cada novo cromo comprado tem igual probabilidade de corresponder a qualquer um desses elementos, independentemente das compras anteriores. A curva foi obtida através de modelização probabilística exacta, estimando, para cada número acumulado de compras, a probabilidade de que todos os 980 cromos já tenham surgido pelo menos uma vez.
Mesmo com 3000 cromos comprados, a probabilidade continuaria virtualmente nula, o que equivale a dizer que eu poderia hipotecar uma parte significativa da minha dignidade financeira e continuar sem aquele obscuro médio defensivo do Uzbequistão ou um guarda-redes suplente da Coreia do Sul. Estou aqui a especular, porque nem fui ver se já os tenho.
Mais perturbador ainda: para atingir meros 50% de probabilidade de completar a colecção apenas através de comprando, seria necessário aproximar-me dos sete mil cromos. Sim, sete mil. Um número que já não pertence ao universo lúdico, mas ao da perturbação clínica. Para ter 90% de probabilidade, o exercício aproximar-se-ia dos nove mil cromos, altura em que já seria financeiramente mais prudente tentar comprar a Panini ou, pelo menos, adquirir um pequeno país com sistema fiscal complacente.
Para mim, está absolutamente clara uma verdade sobre a arquitectura amoral — ou talvez comercial — da Panini: as trocas entre coleccionadores não constituem um mero ritual folclórico da infância, uma tradição pitoresca de recreio escolar ou uma forma ingénua de socialização entre portadores de cromos repetidos. São, na verdade, uma peça estrutural do ecossistema, um mecanismo informal de correcção de um sistema probabilístico que, entregue em exclusivo ao acaso, bem usado pela empresa, transforma-se numa máquina de redundância e desgaste financeiro.
Sem esse mercado paralelo de permutas — esse admirável capitalismo de bairro fundado na equivalência entre o Cristiano Ronaldo e o Deroy Duarte, o cabo-verdiano que joga no Ludogorets — a conclusão da colecção deixaria de ser uma ambição lúdica para entrar no domínio da perturbação compulsiva.
Na verdade, a Panini não vende apenas cromos, mas um modelo matemático em que o entusiasmo inicial é progressivamente substituído por repetição, frustração e erosão orçamental, até que o coleccionador, outrora saudável, se descubra a ponderar seriamente adquirir mais cinquenta saquetas apenas para capturar um obscuro lateral-esquerdo da Coreia do Sul, o que será uma insanidade.
FUTUROLOGIA I Não é preciso ser bruxo para saber que mais mês, menos ano vamos levar com mais uma pandemia. O pandemónio é lucrativo. Mais: o medo é altamente lucrativo. A teoria da selecção natural está a par da solução final. O paradoxo dos agiotas é que precisam de rebanhos ordeiros, de crentes e doentes (da indústria farmacêutica ao que se come). Tudo está feito para criar enfermos (estafermos) e semear o pânico. A desconfiança, o medo, traz a agressividade e a militarização, o uso da força como desculpa para a ordenação. A melhor defesa pessoal é o conhecimento, mas até esse é selectivo. Uma coisa é certa: o mundo continua perigoso e não tende a melhorar.
VIRILHAS I Fetichistas de pés ou seios, já os conhecia, agora um fanático de virilhas, nunca tal vira de perto. Virgílio, de sua graça, ficava em ponto de rebuçado só de ouvir a palavra vi-ri-lha. Posso imaginar tal sentimento com pés macios, de unhas pintadas e cortadas na medida certa, como uma extensão de mãos arranjadas por mani e pedicure. O problema de Virgílio era ser acanhado e carecer de figura para abordar senhoras e cavalheiros. Ah, sim, Virgílio tinha um crivo alargado e tanto lhe faziam os habitantes dos arredores e o tipo de pilosidade. As virilhas eram como caminhos na estrada de um viajante. Um jardim onde todo o bem confluia depois de se bifurcar.
ADEPTOS I O adepto ferrenho é um militante de um partido extremista. Pode descambar num nó cego de façanhas menos dignas como atear e lançar very lights para a bancada adversária, ecoar a plenos pulmões o grito de FDP por cada chuto do guarda-redes adversário. Há num adepto deste jaez um terrorista em potência, quase sempre impune e defendido por um ajuntamento do seu calibre. Levar de vencida é o trabalho da equipa, do clube, por quem o adepto dará a vida se for preciso. Campeiam adeptos de ideologias fratricidas por todos os lados. Pequenos submundos regionalistas acolitados que dizem améns e se benzem como Ayatolas equipados de bombas incendiárias. No terreno de jogo têm a extensão do seu ódio ao rival. Lá em baixo, no relvado, os soldados não medem o impacto da violação da integridade física dos colegas de trabalho.
PEOPLE I Lidar com pessoas, a começar e acabar na nossa própria e suas facetas poliédricas, é o pão nosso. A cada dia, hora, instante, sucedem coisas. Agora deu-me para aqui, e no lugar de guardar este solilóquio, vou pôr-me a jeito de reacções (comentários). Vocês, em geral, são um people civilizado e ternurento e não se esticam. Também já sabem o que esta casa gasta. Sou daqueles sujeitos que não fazem fretes e comem e calam, mas tendo cada vez mais a pôr na borda do prato tudo o que não acrescenta. Neste caso, pessoas e as suas manias. É um arejo fantástico. Quanto ao trabalho podem suceder momentos insólitos, como ir passear um turista que fala uma língua desconhecida e só essa e mais nenhuma. Tentamos o Google e a tradução maquinal para estabelecer a possibilidade de comunicar já que nada lhe agrada, é tudo scheiße. Concluo a passeata a perguntar: se não gosta de nada (nem de si próprio, certamente) veio cá fazer o quê? Exercitar o sadomasoquismo?
DAS COISAS SIMPLES I Ao ver-ouvir a biopic do Bob Zimmerman ocorreu-me o mesmo de sempre com os “imortais”; para além da forma, da estética, do groove, da panache, do eco, dos groopies, a importância da linguagem e da mensagem. Simples e efectiva, e de uma poética medular.
Temos por cá o nosso Dylan, o Palma. Ou o Zeca, o Sérgio e o Fausto. A condição de quem toca em todas as esferas, transforma a sua viagem numa tocata universal. O Chico, no Brasil.
É claro que tudo isto é do domínio do sentir e do íntimo.
Há trinta anos ou coisa que o valha dei por mim hospedado num apartamento em Manhattan e o vizinho de cima era o Bob. Um dia, fui ao café da rua onde tomava a sua bica e dei-lhe um bacalhau. O shake hands é codfish em português, disse-lhe. O autógrafo ficou-me no toque de mão. Elogiou os caracóis da minha farta cabeleira de heavy metal além de mencionar o Pessoa, esse “nosso” poeta.
AUTOCONHECIMENTO I A voz na cabeça não sou Eu. Eu é tudo, cabeça, tronco, membros, escolhas, órgãos, acções e contradições. Quanto a vidas passadas, há disso nesta vida. Tal como órfãos e tiranos de púlpito ou de trazer por casa. Quanto ao julgamento final, julgamentos, vitórias e derrotas, é parte desse todo confluente. Curas, soluções, paliativos…? Há quem se drogue, medite, enclausure, abstraia, ignore, vá à bola e ao bordel, lute em vão ou por justas causas, claudique, vá passear o cão ou o macaco. Há quem se borrife, incense, esteja nas tintas ou pinte Guernicas. Há quem dispare ou faça inalações profundas e vá até ao fim do seu mundo para voltar de banho tomado.
Lisboa, 2026. Há uma loja Humana Portugal em quase todos os pontos onde a cidade aprendeu a transformar culpa em estética: Graça, Intendente, Arroios, baixa emocional da classe média, zonas onde a consciência ecológica anda de tote bag ao ombro e ar ligeiramente exausto, de quem já salvou o planeta três vezes antes do brunch.
À primeira vista, tudo parece simples: roupa usada, consumo responsável, economia circular, solidariedade, projectos de cooperação, ambiente, reutilização, aquele vocabulário todo que entra limpo pela boca e sai, muitas vezes, como factura moral.
A Humana apresenta-se como associação sem fins lucrativos, com estatuto de utilidade pública, certificações de gestão e ambiente, relatórios publicados e actividade centrada na recolha, triagem e venda de roupa e calçado usados.
Tudo muito correcto. Tudo muito arrumado. Tudo muito cabide.
O problema começa precisamente aí: quando a virtude está demasiado bem passada a ferro.
Porque a Humana vende também uma certa sensação de absolvição. Vende a sensação breve, confortável e ligeiramente perfumada de que se pode continuar a consumir desde que o consumo venha vestido de remorso sustentável.
Entra-se ali e sente-se um pouco uma espécie de capela urbana da reciclagem: deixa-se a culpa à porta, pega-se numa camisa com cheiro a armário nórdico e sai-se com a impressão de ter feito qualquer coisa pelo mundo. Não se fez grande coisa. Mas ficou bem no corpo. E isso, nesta época, já é quase uma religião.
Claro que nem todos entram ali para comprar virtude. Muita gente entra apenas porque precisa de roupa barata, porque encontra peças interessantes, ou porque o salário não dá para mais ou ainda porque a roupa nova é ofensivamente cara.
Tenho um amigo que lhes chama os novos pobres premium.
Eu próprio compro lá. Sei do que falo. E gosto.
E muitas vezes encontra-se melhor roupa, mais resistente e menos descartável do que em certas lojas de fast fashion onde tudo parece desenhado para sobreviver exactamente a três lavagens e a uma depressão ligeira. A expectativa é outra e depende sempre do ângulo de visão. Porque comprar rasgado e a fingir que é velho também se vende na Zara.
Já vi roupas a fingir que são velhas na Humana mas mesmo velhas. Parecem novas!
A matéria-prima é particularmente interessante: roupa doada gratuitamente por pessoas que acreditam estar a ajudar. Sacos inteiros de vestuário que saem de casas comuns, de armários cheios, de limpezas de Primavera, de separações, de mortes, de mudanças de estação ou de pequenos actos de bondade doméstica. Depois, essa roupa entra numa engrenagem: é recolhida, triada, vendida em lojas, encaminhada para reutilização, reciclagem ou outros mercados.
Segundo dados divulgados pela própria organização, foram recolhidas cerca de 3.900 toneladas de têxteis usados em Portugal em 2025.
Ou seja: há escala, há rede e logística. Há também uma operação económica significativa.
E há, sobretudo, uma pergunta que devia estar escrita em todas as etiquetas: quanto do valor gerado chega realmente ao destino anunciado?
Não há aqui prova directa de irregularidade. Há, isso sim, uma dificuldade persistente em perceber claramente onde termina a estrutura operacional e começa a promessa moral.
A Humana publica relatórios, sim. Mas publicar não é exactamente o mesmo que esclarecer.
Um relatório pode ser tecnicamente transparente sem ser verdadeiramente legível para o cidadão comum. A organização afirma apoiar projectos de desenvolvimento em países como Moçambique e Guiné-Bissau, mas a forma como os valores são apresentados nem sempre permite ao leitor perceber, com nitidez, quanto dinheiro entra, quanto fica na estrutura – lojas, salários, logística, armazéns – e quanto chega efectivamente aos projectos no terreno.
Mas não se trata de uma acusação nem sequer de uma exigência. Trata-se apenas de pensar um pouco nestes paradoxos pouco apetecíveis e muitas vezes lavados com OMO.
Quando uma organização se alimenta de donativos, ocupa espaço público com contentores, vende uma imagem humanitária e transforma roupa recebida gratuitamente em receita, não basta parecer boa. Deve deixar-se escrutinar.
Mas a Humana vive precisamente nesse território ambíguo onde o gesto solidário se mistura com o comércio, em que o resíduo se transforma em produto e a ajuda se cruza com a lógica comercial, mas também onde a consciência ecológica entra numa loja e por vezes se depara com preços estilo gasóleo.
E é aqui que a coisa começa a estremecer.
Uma camisola que alguém deixou num contentor por desprendimento, culpa ou falta de espaço renasce, dias ou semanas depois, como peça “vintage”, “circular”, “sustentável”, “com história”.
Mas também é verdade que quem faz a história somos nós. Basta ter imaginação.
A sustentabilidade tornou-se uma das formas mais eficazes de elitismo contemporâneo. Já não basta ter dinheiro. É preciso ter dinheiro com consciência. Dinheiro que sofre, que recicla.
A Humana é o Vaticano da roupa usada.
O que não significa necessariamente má-fé, mas revela como a sustentabilidade adquiriu formas quase litúrgicas. Tem os seus confessionários verdes espalhados pela cidade, os seus rituais de deposição, os seus fiéis, as suas lojas-capela, os seus saldos como indulgências temporárias.
Mas há outro problema, maior e menos confortável: o circuito internacional da roupa usada. A exportação de vestuário em segunda mão para países africanos é frequentemente apresentada como ajuda, mas vários estudos e reportagens têm apontado para efeitos ambientais e económicos complexos, incluindo situações em que parte da roupa exportada acaba como desperdício ou interfere com mercados locais.
Em certos casos chama-se ajuda quando sai da Europa. E problema quando chega ao outro lado.
A Humana Portugal integra a Humana People to People, uma federação internacional que, ao longo dos anos, foi associada em investigações jornalísticas a controvérsias envolvendo o universo Tvind.
Estas ligações têm sido negadas ou relativizadas por diferentes entidades da rede, sem que daí resulte prova pública conclusiva de ilegalidade da actividade da Humana Portugal, mas continuam a surgir em reportagens internacionais e levantam questões sobre a estrutura global da organização.
As dúvidas persistem. E uma organização que vende luz devia saber lidar melhor com sombras.
A questão, portanto, não é se a Humana faz algum bem. Pelos factos já citados, parece haver poucas dúvidas. A questão é outra: quanto bem, para quem, com que proporção e com que grau de transparência?
Porque os mercados contemporâneos já não precisam de ser cínicos às claras. Aprenderam a falar de sustentabilidade, de impacto, de comunidade. Aprenderam a vestir-se de virtude.
A Humana é uma metáfora quase perfeita do nosso tempo: em vez de mudarmos de vida, mudamos de roupa.
Em vez de enfrentarmos o sistema que produz excesso, compramos o excesso reorganizado ou, em vez de questionarmos a cadeia, deixamo-nos confortar pela etiqueta.
A reutilização é necessária. Não haja dúvidas.
A economia circular parece até ser urgente, ninguém o nega. Mas quando o gesto simples se transforma em narrativa moral com preço elevado, é legítimo perguntar: onde acaba a solidariedade e onde começa o negócio? O que também não traz mal por si.
Mas enquanto essa resposta não for clara, a Humana continuará a ser aquilo que talvez sempre tenha sido: uma loja onde se compra roupa usada – e se vende a sensação de sermos sustentáveis. E de salvarmos, no mínimo, o planeta.
E assim como os casacos de bombazina, também a sensação de responsabilidade nos é muitas vezes apresentada como um produto em segunda mão.
Texto de Ruy Otero (artista media). Ilustrações de The Swimming Pool Project
O início da minha saga com a colecção do Mundial da Panini confrontou-me com uma realidade pouco compatível com a fantasia pueril que acompanha estas aventuras: perante a minha escassez de tempo, manifesta inexperiência e absoluta falta de treino logístico nesta matéria, depressa percebi que o entusiasmo, por si só, não bastaria para impedir o colapso organizacional.
Uma coisa é abrir saquetas com a jubilação de um rapaz de doze anos; outra, bem diferente, é gerir de forma racional um universo de 980 cromos, dispersos por dezenas de selecções, variantes especiais e armadilhas estatísticas concebidas para humilhar a memória humana.
Percebi assim, com inquietante rapidez, que não posso confiar na memória. Seria o caminho mais curto para acreditar que aquele lateral suplente da Costa Rica, acabado de emergir de uma saqueta com a solenidade de um presságio, era novidade absoluta, quando, afinal, já repousava, duplicado ou triplicado, algures entre outros enganos semelhantes.
Também me pareceu pouco sensato proceder à colagem imediata na caderneta. Não por falta de entusiasmo patriótico ou devoção coleccionista, mas porque o acto exige uma combinação improvável de paciência beneditina, precisão cirúrgica e unhas adequadas à delicada operação de separar aquele microscópico intervalo entre o papel de cobertura e a película autocolante do cromo.
Assim, fiel a impulsos que por vezes me fazem parecer um funcionário prussiano com tendências estatísticas, optei por uma organização germânica: matriz em Excel, países por ordem alfabética, jogadores numerados de 1 a 20 por selecção, especiais devidamente assinalados, e siga. Uma arquitectura de dados digna de quem, em vez de brincar, simula um ensaio clínico multicêntrico.
A minha estreia consumista fez-se com dois conjuntos em caixa, totalizando 112 cromos. Sem qualquer analíse estatística, este resultado, confesso, pareceu-me auspicioso. Apenas três repetidos, o que significa 109 cromos únicos logo na primeira investida. Traduzido em percentagem — porque todo o vício respeitável merece uma falsa camada de racionalidade quantitativa —, arranquei com 11,1% da colecção completa preenchida.
Para uma primeira incursão deste género, explica-me a Estatística, o expectável seria algo próximo dos seis repetidos. Saí, portanto, com metade do infortúnio previsto. A probabilidade de obter um resultado tão favorável ou melhor andaria, grosso modo, pelos 12%, o que, não sendo um milagre mariano nem uma intervenção directa da FIFA nos assuntos terrenos, configura um começo simpático. Querem lá ver que a Panini afinal é bondosa?
Em todo o caso, a aleatoriedade tratou de exibir as suas excentricidades. Dei por mim com sete uruguaios, seis sauditas, cinco neozelandeses, e pequenos contingentes de belgas, colombianos, equatorianos, egípcios, marroquinos, mexicanos e escoceses, como se estivesse a montar um congresso diplomático desorganizado. Portugueses tenho três.
Em contrapartida, a França comportou-se como um sindicato em greve, a Suécia pura e simplesmente não compareceu, a Turquia evaporou-se, a Bósnia-Herzegovina manteve prudente neutralidade, e a Argélia recusou participar sem apresentar justificação formal.
Foi então que entrei na fase menos romântica da aventura: a da Matemática cruel. No primeiro dia, praticamente cada cromo surgia com elevada probabilidade de novidade, dado que eu partia de um admirável vazio estatístico. Agora, porém, já tenho 109 lugares ocupados, o que significa que cerca de 11% do universo possível se encontra preenchido. Em português corrente: a máquina probabilística da Panini vai começar a conspirar contra mim.
Cada nova compra passa, assim, a aumentar a probabilidade de me oferecer aquele prazer agridoce, quase litúrgico, de abrir uma saqueta com expectativa infantil, ver surgir um brilho promissor, e descobrir, com melancolia administrativa, que se trata de um senhor paraguaio que já possuo em duplicado.
Esta, afinal, é a velha maldição das colecções. O início é euforia, o meio é repetição e o fim transformará homens razoáveis em criaturas obcecadas com a localização exacta de um obscuro defesa-central da Coreia do Sul, cuja ausência passa a parecer uma falha intolerável na ordem do universo.
Terei em breve o segundo dia de compras. Veremos se a sorte persiste ou se a teoria das probabilidades decide, com a habitual frieza académica, recolocar-me no meu devido lugar.
Certas armadilhas da vida apresentam-se com a delicadeza enganadora dos gestos afectuosos. Não chegam sob a forma brutal de uma notificação fiscal, de uma infiltração descoberta tarde demais ou de um telefonema iniciado por aquela expressão ominosa — “temos de conversar” —, mas entram pela casa dentro com aparência de inocência, revestidas de ternura familiar e, pior ainda, acompanhadas por essa perigosa névoa nostálgica que tende a enfraquecer a vigilância crítica de qualquer homem adulto.
Foi assim que me apareceu, neste fim-de-semana, a caderneta oficial de cromos da Panini do Mundial de 2026, oferecida pelo meu enteado, cuja generosidade não quero aqui colocar em causa, embora comece a suspeitar de que certos actos de afecto deveriam exigir prévio enquadramento jurídico ou, pelo menos, uma advertência sanitária comparável à dos maços de tabaco.
A minha relação com os cromos nunca pertenceu à esfera do coleccionismo contemplativo, essa forma de devoção infantil quase monástica em que certas crianças olhavam para as suas cadernetas com a solenidade com que um copista medieval examinaria um manuscrito iluminado. Prefiro, na verdade, “coleccionar” livros e, em muitas circunstâncias, um bibliófilo comporta-se como um miúdo — ou como um caçador.
Voltemos. O meu contacto com esse universo dos cromos foi sempre mais pragmático, mais rude, mais conforme à antropologia económica dos recreios portugueses, onde os cromos não eram objectos estéticos, mas activos transaccionáveis, moeda informal, instrumentos de especulação e, em certos casos, mecanismos de transferência patrimonial pouco compatíveis com as melhores práticas de regulação financeira.
Recordo, aliás, com nitidez, aquele jogo cujo nome variava conforme a geografia e a criatividade local, mas cuja essência permanecia invariável: empilhavam-se cromos no chão ou numa mesa, desferia-se sobre eles um golpe seco com a palma da mão, por vezes aquecida pelo bafo, e aqueles que a deslocação de ar lograsse virar passavam a integrar com legitimidade — ou, pelo menos, de forma consensual — o património do executor da agressão. Muitos economistas passaram décadas a estudar os mecanismos primitivos da acumulação, sem saber que lhes bastaria a observação de um recreio português nos anos setenta ou oitenta do século passado para compreender certas pulsões fundamentais do capitalismo.
Nada, portanto, fazia prever que me encontraria, décadas mais tarde, numa papelaria, a entregar dinheiro com uma velocidade que não condizia nem com a prudência adulta nem com a moderação orçamental que costumo, pelo menos em teoria, defender e praticar. Isto porque, uma vez aberta a brecha afectiva, o mecanismo psicológico revelou-se de uma eficiência perturbadora. O gesto inicial foi de aparente inocência: “vou apenas comprar algumas saquetas para acompanhar a brincadeira”. Porém, como sabemos, toda a tragédia humana começa com versões ligeiramente diferentes desta frase.
Quando dei por mim, tinha comprado duas caixas. Doze euros cada. Vinte e quatro no total. Sem hesitação digna de registo. Cada caixa continha oito saquetas; cada saqueta, sete cromos; e eu, homem adulto, contribuinte, director de um jornal independente e pessoa que, por hábito ou defeito, se considera minimamente imune a impulsos infantis, encontrava-me sentado a retirar das embalagens um total de 112 cromos. O primeiro, acreditem, foi o Trincão, do Sporting, que nem se sabe bem se será convocado.
Foi num momento entre um avançado do Paraguai e um médio defensivo do Iraque, cuja existência até então me era inteiramente desconhecida, que decidi recorrer ao mais fiel oráculo do nosso tempo: a inteligência artificial. Noutras eras, um homem perturbado consultaria um padre, um contabilista ou um amigo prudente; a nossa civilização, mais sofisticada e talvez mais decadente, prefere interpelar algoritmos.
Perguntei-lhe, com a serenidade de quem julga formular uma questão meramente técnica, quanto me custaria completar a colecção.
A resposta foi exemplarmente cruel.
Num universo ideal — isto é, num universo fictício governado por princípios de justiça distributiva, boa vontade estatística e talvez por uma Panini dirigida por beneditinos — seriam necessárias cerca de 140 saquetas para completar os 980 cromos. O custo estimado rondaria os 210 euros. A soma, sendo já ofensiva para quem está a adquirir pequenos rectângulos de papel autocolante com fotografias de atletas, ainda conservava alguma aparência de razoabilidade.
Mas a máquina, que desconhece sentimentalismos e administra o desespero com a impassibilidade de um oficial de justiça, acrescentou o detalhe relevante: isso seria apenas o cenário teórico. No mundo real, onde existem repetidos, assimetrias distributivas e uma arquitectura comercial desenhada com a precisão psicológica de um laboratório especializado em dependências, o custo real de uma colecção desta dimensão poderia facilmente ascender aos 400, 500, 600 ou mesmo 700 euros.
Setecentos euros.
A quantia produziu em mim aquele breve silêncio interior que acompanha certas revelações existenciais. Por setecentos euros, um cidadão sensato considera uma pequena viagem, a aquisição de livros raros, um electrodoméstico respeitável ou a resolução de algum problema doméstico antigo.
Fiquei então consciente de que poderia acabar a canalizar setecentos euros para a paciente acumulação de laterais-esquerdos canadianos, suplentes iranianos e outros artefactos cromísticos cuja raridade artificial haveria de desencadear surtos especulativos entre cavalheiros da minha idade que deveriam, em tese, estar a discutir pensões, geopolítica, transparência da Administração Pública ou lombalgias.
Em vez de ganhar juízo, compreendi que isto não poderia ser tratado com amadorismo: exigia estratégia. Ou seja, se a Humanidade produziu inteligência artificial para responder a emails corporativos, fabricar retratos absurdos e auxiliar estudantes preguiçosos, não vejo razão para não a mobilizar para um objectivo verdadeiramente digno: derrotar, tanto quanto possível, o modelo económico da Panini.
A campanha será, pois, conduzida com método. A máquina fará contas, projectará probabilidades, calculará redundâncias, indicará o ponto exacto a partir do qual a compra de novas saquetas deixa de ser racional e passa a configurar uma forma ligeira de automutilação financeira. Eu fornecerei os dados empíricos: quantos cromos tenho, quantos faltam, quantos repetidos surgem, que oportunidades de troca aparecem e quando a aquisição avulsa se torna economicamente mais sensata do que persistir na esperança irracional.
Luto contra um monstro. A Panini deverá conhecer em profundidade a alma humana. O seu modelo assenta, presumo, na transformação gradual do coleccionador num ser emocionalmente fragilizado que, já com mais de oitenta por cento da colecção concluída, continua a comprar saquetas movido pela convicção delirante de que a próxima conterá aquilo que lhe falta. E sem falhar.
Mas, desta vez, talvez haja um pequeno problema para a multinacional italiana. Não enfrentarei esta guerra sozinho. Trago comigo um algoritmo.
E, se ele falhar, restará sempre a mais antiga e respeitável das tradições nacionais: a troca desigual argumentada, a negociação emocional e aquela capacidade portuguesa de atribuir valor objectivo a equivalências absolutamente delirantes.
No fundo, com a idade, a infância não desaparece — apenas aprende a usar ferramentas estatísticas.