Categoria: Crónica

  • A teoria dos tiros ao poste

    A teoria dos tiros ao poste


    Chega um momento na vida de qualquer coleccionador em que deixa de coleccionar cromos e passa a coleccionar desilusões. Estatisticamente, é uma fase inevitável.

    Enquanto a colecção ainda vai nos seus alegres trinta ou quarenta por cento, tudo é entusiasmo: abre-se uma saqueta, cada vez com maior profissionalismo e praticamente todos os cromos servem. Assemelha-se a entrar num restaurante com uma fome desgraçada: tudo sabe bem. Sai o lateral esquerdo da Bósnia? Excelente! Um suplente da Tunísia? Magnífico! O suplente do Vozinha? Venha ele! A felicidade mede-se em sete cromos novos por euro e meio.

    Mas depois chega a idade adulta da colecção.

    No meu caso, essa idade adulta estava esta sexta-feira algures pelos 78%. Tenho já 765 cromos dos 980 da colecção Panini do Mundial de Clubes. Faltam-me apenas 215. Digo “apenas” com a mesma ironia com que alguém diz que só lhe faltam dois quilómetros para chegar ao Everest.

    Constato ser, nesta fase, que a Panini revela a sua verdadeira natureza e que o título desta crónica se justifica. A Panini não é uma editora – é um laboratório de psicologia experimental. E eu sou uma cobaia que ainda paga a experiência em si mesmo.

    Vejamos, as últimas doze saquetas custaram-me dezoito euros. Escrevo por extensão para se aquilatar a extensão do desastre. Oitenta e quatro cromos. Desses oitenta e quatro, apenas vinte e sete eram novos. Os restantes cinquenta e sete vieram confirmar uma suspeita antiga: os cromos repetidos reproduzem-se entre si.

    E, no entanto, o dinheiro nem sequer é a parte mais dolorosa. O pior é a sensação permanente de estar a jogar futebol contra a própria probabilidade. Já não marco golos. Agora acerto quase sempre no poste. Abro uma saqueta e lá vem o Enzo Fernandez, o argentino agora do Chelsea que passou fugazmente pelo Benfica. Excelente. Já tenho cinco. O problema é que continuo sem o Alexis Mac Allister, que estará mesmo ao seu lado na caderneta.

    É impossível explicar isto a quem nunca coleccionou cromos: a Matemática dirá que cada número tem exactamente a mesma probabilidade de sair, mas a realidade, porém, demonstra que o universo possui um sentido de humor bastante desenvolvido. Sendo Enzo Fernandez o 8 da Argentina, o número 9 tornou-se uma entidade metafísica.

    Começo a suspeitar que não existe. Talvez tenha sido uma invenção da Panini para manter viva a esperança dos coleccionadores. Um unicórnio em papel autocolante. Mas quem não aparece irrita-me menos do que aqueles que se repetem de forma sarcástica. Por exemplo, tenho quatro Wagner Pinas, o cromo 7 da selecção de Cabo Verde. Antes dele estará o Steven Moreira e depois dele estará o João Paulo. Não tenho nenhum deles.

    Há clubes inteiros onde já conheço quase todo os jogadores todos de cor, porque possuo três ou quatro exemplares de cada um. Se algum deles sofrer uma lesão, posso perfeitamente substituí-lo por um dos meus repetidos.

    As saquetas transformaram-se numa sucessão de quase-golos. O meu cérebro faz sempre o mesmo percurso. Pego uma saqueta e penso: “É desta.” Abro. Não é. Vejo as iniciais no reverso: POR. E penso: ” Vai ser o João Cancelo, o Ruben Neves, o Vitinha ou o João Felix”. Nenhum deles.  Surge um cabelo encaracolado. “Agora sim… acho que não tenho este”. Vira-se o cromo e confere-se no Excel. Já o tenho.

    Começo a convencer-se de que a Panini fabrica os cromos segundo um algoritmo perverso que calcula quais são aqueles que me provocarão maior frustração. Não me sai o que falta. Sai o que quase falta. É como ir ao bingo e fazer noventa em noventa.

    Entretanto, a pilha dos repetidos cresce de forma obscena. Já devo ter largas centenas. Qualquer dia tenho cromos suficientes para abrir um mercado paralelo. Posso fundar uma bolsa de valores onde um defesa-central do Iraque vale mais do que um avançado do Inglaterra apenas porque ninguém o consegue encontrar.

    Foi então que decidi fazer aquilo que qualquer cidadão racional faria. Peguei na Estatística para responder à grande questão científica que agora me atormenta: quando é que deixa de compensar comprar saquetas e começa a compensar trocar cromos?

    Pois bem. Se tenho 765 cromos dos 980, então completei 78% da colecção. Faltam-me ainda 215 cromos, o que corresponde a praticamente um quarto da caderneta. No início, quando praticamente tudo era novidade, cada saqueta de sete cromos, custando 1,5 euros, significava que cada cromo útil me ficava por cerca de 21,4 cêntimos.

    Hoje, a realidade é outra. As últimas doze saquetas custaram dezoito euros. Trouxeram oitenta e quatro cromos, mas apenas vinte e sete serviram para preencher espaços vazios. Traduzido em linguagem económica, cada cromo útil custou-me 66,7 cêntimos. Ou seja, estou actualmente a pagar mais de três vezes por cada cromo novo do que pagava no início.

    Porém, mesmo com esta degraça, a Estatística diz-me que ainda não chegou o momento de abandonar as compras. Enquanto estiver abaixo dos 85%, a probabilidade de obter cromos úteis continua suficientemente elevada para justificar a aquisição de novas saquetas, sobretudo porque cada repetido que aparece também aumenta o meu poder negocial para a fase seguinte.

    Entre os 85% e os 90%, entra-se numa zona de transição, onde as trocas começam a ser mais eficientes do que as compras. Já acima dos 90%, insistir em comprar saquetas deixa de ser uma decisão económica para passar a ser uma demonstração pública de teimosia.

    Existe, portanto, uma espécie de fronteira científica entre duas civilizações. Até aos 85%, vive-se na economia de mercado. Depois entra-se na economia do escambo.

    Os euros então deixam de ser a principal moeda. O verdadeiro capital passa a ser um monte de repetidos cuidadosamente organizados por clube e por número, capazes de comprar aquilo que o dinheiro já dificilmente consegue.

    Confesso que fiquei descansado. A Ciência e a Economia autorizam-me a continuar. Ainda posso comprar mais algumas saquetas para ouvir aquele som estranhamente reconfortante do papel a rasgar.

    Em todo o caso, continuo convencido de que existe algures, numa obscura fábrica da Panini, um funcionário exclusivamente encarregado de colocar o Jens Castrop da Coreia do Sul em todas as caixas destinadas ao meu código postal, certificando-se cuidadosamente de que o Seung-ho Park permanece fechado num cofre de alta segurança.

    A Estatística tem elevada probabilidade de explicar quase tudo, mas jamais conseguirá explicar por que razão, quando só falta um cromo, é precisamente esse que decide desaparecer da face da Terra.

    ***

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  • O filósofo de aeroporto (ao estilo de Alfama)

    O filósofo de aeroporto (ao estilo de Alfama)

    Estava a fazer zapping quando deparei com uma entrevista ao israelita e historiador/filósofo Yuval Noah Harari no canal 3 da RTP. Já conhecia a personagem de outras paragens e fiquei a ver.

    Se houvesse uma tasca no espaço físico da Google, encontraríamos facilmente este pensador a debitar “verdades” aí por entre pratinhos vegans regados com sumos naturais, numa versão blockchain do antigo Zé do Bitaites de Alfama, “amandando” verdades absolutas sobre o sistema.

    Acontece que Yuval Harari tem outro tipo de responsabilidades que o Zé dos Bitaites não tem, entre elas frequentar os TED com regularidade e os encontros do Fórum Económico Mundial, enquanto sócio honorário espiritual da coisa.

    Mas para quem não conhecesse a figura, e pela entrevista, poderia achar que se tratava de alguém ligeiramente anti-sistema e defensor das democracias contemporâneas.

    Provavelmente não deixa de ser verdade, mas a entrevistadora, embevecida com a conversa e com o êxito do historiador, não fez uma única pergunta que merecesse verdadeira reflexão do israelita.

    O que também não é novidade, seja em que plataforma for, nos dias de hoje. É realmente difícil haver debates inteligentes e éticos sobre assuntos que dividam as pessoas, tal é a polarização confinada no presente.

    Aliás, essa frase foi dita pelo próprio, referindo-se justamente à sociedade Norte/Sul em que vivemos.

    O problema é que Harari será do Norte ou do Sul conforme se queira usar os pontos cardeais a favor ou contra o que ditarem as regras.

    Harari não gosta muito de algoritmos e de empresas que se sirvam deles da forma como o fazem.

    Não mete as culpas nos utilizadores mas sim nas empresas que os manipulam e deixam os algoritmos aí a fazer estragos à vontadex, embora não ache que esteja errado.

    O problema de Harari é que trabalha para essas empresas, e é até uma espécie de baluarte intelectual de Bill Gates ou mesmo de Mark Zuckerberg.

    Acontece que eu não tenho nada a ver com isso, mas também não confio muito nesses filantropos.

    Acontece também que às vezes não sou parvo e imagino-me lá, sendo eu a fazer as perguntas.

    Naquele caso bastava inquirir o que é que, como intelectual e israelita, acha do conflito mais mediático e perene do mundo entre o seu país e a Palestina, sabendo no entanto que por vezes tem sido bastante crítico do seu país, Israel.

    Ou o que acha da Meta, ou mesmo da Microsoft, e já agora de Davos e de Klaus Schwab, que entretanto deixou de ser presidente do FEM, para ver provavelmente o filósofo vacilar, ou pelo menos ter de pensar um pouco para nos fazer mergulhar em paradoxos interessantes, podendo ou não concordar-se, já que nesta fase do campeonato, para usar linguagem de tasca, seria interessante pôr-se minimamente ao nível de pensadores capazes de sustentar paradoxos verdadeiramente perigosos, como Martin Heidegger, Paul Virilio ou Peter Sloterdijk.

    Mas claro que isso seria impossível, já que estes programas servem muito para operar marketing, vendendo aquilo que está estabelecido. Mas não tem mal, nas entrelinhas diz-se muito e também, para quem estiver mais atento, podem fazer-se leituras através do que não se diz e por vezes daquilo que se oculta.

    Não foi bem este o caso.

    Harari parece ter uma desenvoltura em comunicação bastante aceitável. Pelo uso frequente de frases curtas e até bombásticas, pode prender mais gente do que aquela que costuma frequentar a RTP3, que é… ninguém.

    Eu só estava a fazer zapping e distraí-me.

    O israelita é tudo menos chato, tipo aqueles pensadores, sociólogos, antropólogos que se arrastam nas catacumbas das universidades cheios de pó e com óculos démodé. Antigamente havia muitos franceses nesses aeroportos do saber, Mas o Michel Houellebecq entretanto foi acabando com eles atirando-llhes uns árabes para cima.

    Estava a brincar. Se o Harari pode, eu também posso.

    Ele não brinca em serviço e parece gostar dos prazeres da vida. Não quer é algoritmos nem empresas corruptas ao pé de si. E até é recomendado pelo inefável anarco-capitalista, diz ele próprio, Javier Milei, actual presidente da Argentina.

    Quem sabe, sabe, diria o Zé dos Bitaites, com alguma razão.

    Harari tem um livro de 2011 que vendeu no mundo todo mais de 15 milhões de exemplares chamado Sapiens: A Brief History of Humankind.

    Não li, mas já o vi tantas vezes citado em apresentações de trabalho em equipa, em oficinas sobre o futuro da humanidade e em retiros de liderança com meditação às 7h, que já sei de cor o tom: assertivo, cool, ligeiramente provocador, mas nunca ao ponto de fazer mossa.

    Harari é uma espécie de sushi do pensamento: fresco, arrumado, bonito no prato – mas no fundo cru e quase sempre sem espinhas.

    Dá para comer com os dedos, não suja a camisa e até há versão vegan para os mais sensíveis.

    E não sou só eu a pensar isto. O antropólogo C. R. Hallpike, por exemplo, acusou Harari de transformar ideias complexas em fábulas com moral no fim, confundindo instituições sociais com mitos – um historiador a brincar aos contadores de histórias.

    Para Hallpike, Sapiens sacrifica rigor pela fluidez e precisão pela sedução narrativa. Na mesma linha, a revista Current Affairs descreve Harari como um entertainer do pensamento, um autor que serve ideias fast food com embalagem de gourmet intelectual.

    A crítica é clara: simplifica até à banalidade e omite controvérsias científicas em nome de uma coerência artificial que agrade ao grande público.

    Num fórum de antropologia, alguém comentou que Harari trata hipóteses como dogmas e que o seu entusiasmo pela “ficção” como base da civilização é tão apelativo quanto perigoso. O problema está em deturpar para caber numa TED Talk. 

    Se o Eduardo Prado Coelho era a Almôndega Semiótica, Harari será o Kebab Ontológico.

    É o filósofo ideal para um mundo que quer pensar sem sujar a alma. Não estremece e cabe perfeitamente num painel asséptico de check-in.

    Pode ser servido tanto numa TED Talk em Davos como numa formação em liderança empática promovida por uma multinacional que despediu 200 pessoas na véspera.

    Yuval é o novo oráculo global: fala como se estivesse a ditar um anúncio da Apple sobre a eternidade. E talvez esteja. Porque no fundo tudo nele parece optimizado para o algoritmo que o próprio critica veementemente.

    A questão não é só o que ele diz, mas a estrutura em que isso circula. Harari é consumido por CEO’s em aviões, citado por banqueiros com ar espiritual e lido por adolescentes com sede de certezas sobre dinossauros e redes sociais.

    A história, para Harari, é uma linha limpa com capítulos claros, como se o caos do mundo tivesse sempre um manual de instruções e fosse ter a Davos, substituindo a clássica Roma quando todos os caminhos lá iam parar.

    Há mérito na clareza, claro. Mas há também um certo paternalismo nas frases feitas, como se ele tivesse descoberto o sentido da vida entre dois voos em classe executiva.

    Tudo é cuidadosamente calibrado para não ferir, não escandalizar, não perder patrocínios.

    Mas a mim escandaliza-me a naturalidade quase clínica com que fala da possibilidade de sermos hackeados por elites tecnológicas e governos, como se isso fosse apenas mais uma inevitabilidade histórica. Deus existe, diz ele, mas não é quem pensamos.

    E quando critica – porque sim, por vezes critica – fá-lo com a elegância de quem já sabe que está dentro da tenda, a discursar para os donos da festa.

    Enfim, o filósofo israelita é um produto de luxo no mercado da indignação global.

    Inteligência portátil com selo de sustentabilidade.

    Mas dói.

    Mesmo quando acerta, falta-lhe a dúvida. Falta-lhe aquele tropeção vital que separa os pensadores dos entertainers.

    O pensamento verdadeiro tem falhas, e até pó nos ombros. E Harari sai sempre imaculado do ecrã como entrou: sem rugas, sem restos, sem contradições.

    Quando acaba de dar mais uma palestra, não envelheceu nem lhe morreram células, é como se tivesse havido uma suspensão do tempo. É como uma viagem de avião: parece arriscado, mas nunca cai.

    Não sei explicar.

    Um filósofo de polpa light – com prazo de validade até ao próximo slogan sobre inteligência artificial ou mindfulness geopolítico.

    Mas entretanto ficou rico. Filosofia e riqueza às vezes não parecem colar.

    Mas nada de inveja. Haverá sempre um preço a pagar, não sabemos é se é o preço certo, como no concurso.

    Entretanto voltei ao zapping. Não porque ele me irritasse. Irritam-me mais os que fingem que ele incomoda.

    Voltei a fazer zapping porque ainda acredito que há pensamento fora do duty free da sabedoria.

    E talvez ainda encontre por aí, perdido por um Canal Memória qualquer, um Zé dos Bitaites verdadeiro.

    Texto e ilustrações de Ruy Otero (artista media)

  • O algoritmo humano

    O algoritmo humano

    Há um mal-estar organizado, uma arquitectura sólida da degradação, uma espécie de engenharia civil do niilismo que construiu o nosso tempo como o projecto de um centro comercial de domingo à tarde: funcional, previsível e morto por dentro.

    A cada esquina parece haver alguma coisa a colapsar: na linguagem, muitas vezes na política, quase sempre na intimidade ou na terra. E ainda assim, como um fungo a crescer num canto húmido da realidade, as coisas boas existem.

    As coisas boas do mundo não se vendem, não se deixam quantificar, não constam das estatísticas. São quase subterrâneas porque aquilo que está à vista parece degradar-se a uma velocidade furiosa.

    São desvios, talvez. Ou não.

    A sua forma mais pura é a interrupção: uma falha no sistema operativo da normalização afectiva, uma pausa num discurso bem-intencionado que nada acrescenta, uma acção que escapa à lógica da produtividade ou da vigilância.

    Como quando era criança e ia dar uma volta até outro bairro. Só porque sim. Sem compromisso. Para ver.

    As pessoas, de uma forma geral, são como nas tragédias gregas: melhores do que aparentam. Estão submergidas num mar de contradições, alimentadas por espectros venais que determinam a normalidade. Mesmo os figurantes que passaram pela minha vida me respeitaram quase todos. E eu a eles.

    Somos da mesma família, se virmos bem. Não há nações, nem raças.

    Há pessoas que têm ou já tiveram sonhos. Há pessoas que querem ou já quiseram ser felizes, ou o que for. Há uma energia humana em que sei reconhecer-me.

    Não é preciso estar sempre à espera de feedback.

    Aos poucos, com consciência de si e do outro, as partes vão-se unindo. E isso pode ser mais fácil do que parece.

    Quanto menos intermediários, melhor.

    Vivemos num tempo de cinismo automático em que até a esperança parece patrocinada e gostar vem com manual de instruções e consentimento por escrito.

    A vida não é um emoji. Às vezes parece.

    Mas as coisas boas não são inócuas. Não são neutras, nem fáceis, ainda menos pedagogicamente correctas. São só.

    Também não são puras. São impuras, implicadas, muitas vezes incómodas. Aparecem no meio da tragédia, como uma piada que não devia lá estar.

    Respeitam o mundo a partir do mundo interior. E não têm medo do prazer.

    Há pessoas que voltam a perdoar e depois voltam outra vez. Não é um conselho. Um dia pode valer a pena.

    Os outros andam como tu, mas com outros fusos horários.

    No outro dia ouvi uma amiga minha dizer que confia mais nos cães do que nas pessoas. Eu não. Mas acredito nela quando diz isso. E pior: posso perceber.

    As coisas boas não se confundem com o optimismo, esse sucedâneo ligeiro da esperança. Também não têm nada que ver com a celebração kitsch da vida, essa euforia ansiosa que se auto-promove a toda a hora para ninguém ver.

    Ver a sério.

    As coisas boas do mundo são vistas a sério. Absorvidas a sério. Revitalizam. E talvez por isso não sejam limpas nem exemplares. Podem ser sujas, difíceis de explicar, até ilegítimas. E, ainda assim, boas só por serem boas.

    Não servem para moralizar ninguém. Porque isto de usar a palavra “boas” corre riscos.

    Têm em conta a história do outro, que podia ser, em parte, a nossa.

    Servem apenas para lembrar que nem tudo se deixou domesticar. Mas também podem ser belas, generosas, efervescentes, como a conquista de bens materiais feita com gosto e consciência, como quem colecciona bom design mas não quer aparecer nas revistas.

    A maior parte das pessoas que conheço tem muitas valências e talvez não saiba, talvez já não as use, ou talvez nunca as tenha usado.

    Muitas apanharam o comboio do esquecimento.

    Talvez seja isso que tantas vezes nos escapa: as coisas boas do mundo não estão longe. Estão adormecidas, esquecidas ou fora de uso.

    É isso que torna as coisas boas difíceis de aceitar: obrigam-nos a abandonar o conforto da indignação total.

    Porque sim, o mundo está a arder. Mas alguém ainda resiste a achar que está a arder. Há qualquer coisa profundamente teimosa nesse facto.

    Arde e não arde.

    As coisas boas do mundo são subterrâneas, mas não marginais. Estão no centro, só que num centro que ainda não tem nome.

    Quando alguém insiste em cuidar sem recompensa. Quando uma ideia improvável sobrevive ao cinismo.

    Quando uma acção não devolve o que se espera, mas aquilo de que se precisa.

    E talvez o mais perigoso nas coisas boas seja isto: não querem salvar nada. Não se armam em redentoras.

    Apenas são.

    Não são necessariamente filmáveis. Não são selfies idiotas. Mas podem ter idiotice lá dentro, porque não? Desde que não se armem em redentoras nem em exibicionistas. Porque isso é estúpido.

    Como a possibilidade do amor quando já ninguém acredita nisso. E mais do que a possibilidade, a sua concretização.

    Como a arte quando já só se espera conteúdo político ou vazio apolítico.

    Há beleza que não foi comprada, emoção que não foi capturada, inteligência que não se quer transformar em produto.

    As coisas boas do mundo são muitas vezes uma afronta. E por isso mesmo valem a pena.

    As coisas boas do mundo, as que ainda fazem bater o coração fora de tempo, vivem muitas vezes no anonimato. É aí que compram a sua moradia.

    Sabem que, ao serem nomeadas, são logo convertidas em narrativa, em mercadoria de esperança. Por isso escondem-se. Riem-se sem crédito. Criam sem assinatura. Tocam sem performance.

    É no anonimato que habita o sentido mais radical da existência. Porque é aí que se age sem cálculo, sem audiência e sem simulacro, ou apenas com o estritamente necessário.

    Vivemos em modo autobiográfico, onde tudo é dito, exposto e arquivado, e onde até o silêncio se transforma em produto.

    Será assim?

    Ou será a decadência dominante uma história mal contada por telejornais que vivem com um atraso encenado, evidente, ainda que o incêndio esteja à vista?

    O anonimato rejeita a lógica da marca pessoal, essa forma de prostituição ontológica onde cada gesto é pensado como capital mercantilizável.

    E são esses anónimos, os não nomeados, os que passam sem serem mencionados nos créditos finais, que seguram o mundo com as mãos sujas e a alma intacta.

    Sim, disse alma.

    São eles que fazem a comida, limpam o palco, acolhem o estranho, não desistem mesmo quando já ninguém vê.

    São muitos. São a maioria.

    A verdadeira grandeza é a que não se pode mostrar. Esse é o paradoxo improvável. Essa é a esperança.

    É por isso que as coisas boas se camuflam. Talvez o maior problema do nosso tempo não seja a falta de bondade, mas o seu esgotamento público. A transformação do gesto bom em conteúdo, em prova, em currículo.

    Mete nojo.

    A generosidade, quando precisa de ser vista, perde o seu chão.

    Porque há vida que, para sobreviver, precisa de sombra.

    Cuidado com a palavra luz.

    As coisas boas do mundo são imensas. Pelo menos tantas como as más. Mas as boas têm mais sangue. Trazem beleza e, às vezes, consolação. Estamos vocacionados para isso.

    Nunca desistas delas. Andam por aí.

    Às vezes basta mudar de mapa. É difícil, sim, mas os mapas rasgam-se.

    Estamos muito mais ligados do que parece.

    Todos.

    O algoritmo humano é muito mais forte.

    Texto e imagens de Ruy Otero (artista media).

  • Grito a plenos pulmões: tenho Vozinha!

    Grito a plenos pulmões: tenho Vozinha!


    Quando os historiadores do futuro procurarem compreender os grandes dramas civilizacionais do primeiro semestre de 2026, talvez se enganem. Talvez destaquem os conflitos geopolíticos, como o do estreito de Ormuz, as tensões comerciais ou as disputas energéticas. Talvez escrevam tratados inteiros sobre a reorganização da ordem mundial. Mas estarão errados. O verdadeiro drama destes dias tem sido conseguir comprar cromos.

    A Panini, essa maligna entidade italiana que conseguiu provocar mais ansiedade colectiva do que muitos governos, parece ter sido apanhada de surpresa pelo entusiasmo em torno do Campeonato do Mundo. As redes sociais por estas semanas transformaram-se numa mistura de bolsa de valores e mercado negro. Há quem anuncie a chegada de carteiras com a solenidade de quem comunica a descoberta de uma nova jazida de petróleo. Há quem percorra papelarias, quiosques e supermercados com a determinação de um explorador vitoriano à procura das nascentes do Nilo. Eu próprio tenho participado nesta epopeia.

    No sábado passado consegui apenas dez carteiras depois de uma semana de jejum – e de um somatório de dias infindáveis sem alimento. Apenas dez. Escrevo “apenas” porque qualquer coleccionador compreenderá o drama. Na papelaria em que consegui este feito as funcionárias já estão proibidas de aceitar listas para que não haja privilegiados.

    Na segunda-feira seguinte, depois de mais de uma semana à espera de reposições, consegui finalmente uma caixa de 50 carteiras. Uma quase overdose: ainda nem tempo tive de as abrir. Se calhar, depois desta crónica, rasgo umas quatro ou cinco apenas por desfastio. Enfim, antigamente ansiava por encomendas de livros raros. Outros por vinhos de colheitas memoráveis. Agora, espera-se por caixas de cromos. Há fraquezas que se lamentam.

    Enquanto isso, o Mundial começou e segue o seu curso, oferecendo-nos aquilo que os grandes torneios costumam oferecer: surpresas, desilusões e a demonstração periódica de que o futebol continua a recusar obedecer aos prognósticos dos comentadores. Estou agorinha mesmo a ver a Argentina a espetar três à Argélia, com hat-trick de Messi, o ‘velhinho’ de 38 anos. Veremos CR7…

    Serafim guardando ‘destroços’ de carteiras.

    Em todo o caso, as poderosas equipas europeias têm descoberto que o resto do mundo também sabe jogar à bola. Mas nenhuma história foi tão deliciosa como a de Cabo Verde diante de Espanha nesta segunda-feira, em Atlanta.

    Ali esteve a cavalaria castelhana, armada com estrelas milionárias, contratos astronómicos e penteados meticulosamente estudados. E ali estava também um homem chamado Vozinha.

    Vozinha.

    Há nomes que parecem destinados à grandeza. Alexandre. César. Napoleão. E agora há Vozinha. A torrente ofensiva espanhola embateu repetidamente no muro defensivo cabo-verdiano e, sobretudo, naquele guarda-redes de 40 anos que durante anos passou discretamente pelos relvados portugueses, incluindo o Desportivo de Chaves, sem que o mundo lhe prestasse grande atenção.

    Até agora. Em poucas horas, o homem passou de menos de 50 mil seguidores no Instagram para qualquer coisa próxima dos 10,5 milhões à hora que escrevo. Nem os influenciadores profissionais conseguem uma ascensão tão meteórica. Napoleão precisou de campanhas militares. Vozinha precisou apenas de uma noite inspirada.

    E foi então que uma preocupação inesperada se instalou em minha cabeça. Não era saber se tinha o Messi na colecção da Panini. Tenho.

    Não era saber se tinha o Cristiano Ronaldo. Tenho.

    Não era saber se tinha Mbappé. Tenho.

    Nem Vinícius Júnior. Também tenho.

    A questão verdadeiramente importante era outra: teria eu Vozinha?

    Confesso que a busca foi angustiante. Percorri pilhas de cromos. Vasculhei montanhas de papel colorido. Analisei centenas de rostos. Já vou perto dos seiscentos cromos na colecção e, durante alguns minutos, temi o pior.

    Mas depois encontrei-o.

    Tenho Vozinha.

    E não escondo a felicidade.

    Há quem possua obras de arte. Há quem herde jóias de família. Eu guardo primeiras edições de Camilo Castelo Branco e de Eça de Queirós, conservo uma rara sentença impressa do jesuíta Gabriel Malagrida e tenho a edição primícia daquele que é considerado o primeiro romance moderno português, da autoria de Guilherme Centazzi. E muitas outras preciosidades bibliográficas.

    E tenho também, desde esta semana, o cromo do Vozinha.

    A enumeração poderá parecer desequilibrada aos espíritos mais académicos. Mas a História ensina-nos que cada época produz os seus tesouros. Já venerei incunábulos, disputei manuscritos iluminados; mas agora, neste modesto Junho de Mundial, dou graças à fortuna por me ter concedido a posse de Vozinha.

    Estou a exagerar… Como tenho os meus cromos registados numa folha de Excel foi fácil confirmar que tinha Vozinha. Porém, para confirmar, e como ainda não colei nenhum na caderneta, andei a vasculhar na caixa onde tenho tudo guardado, temendo que tivesse anotado mal. Não anotei. Tenho mesmo o valioso exemplar!

    Receio até que o seu valor venha a disparar. Se surgir algum repetido, poderá revelar-se um activo estratégico de enorme importância nas futuras negociações cromísticas. Quando a colecção estiver perto do fim, um Vozinha poderá valer mais do que três avançados argentinos, dois médios franceses e um lateral alemão.

    Mas tranquilizem-se os leitores. Não estará à venda. Se me saírem 10 Vozinhas, guardo-os todos. Há coisas que o dinheiro não compra nem vende. E, neste momento, uma delas chama-se Vozinha.

    ***

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  • Síndrome de Estocolmo digital (a)

    Síndrome de Estocolmo digital (a)

    Já não és bem um(a) jovem. Sabes bem. Até tens idade para ter juízo. Também te sentes mais que actualizado(a), tanto pelo teu sentido crítico como pelo teu conhecimento tecnológico. Achas que pensas pela tua cabeça.

    Ao início resististe. Até foi fácil. Tinhas mais que fazer.

    Disseste que eras analógico(a), que preferias papel, que detestavas notificações e que ias continuar a sublinhar livros com lápis. No início frisaste bem que não querias redes sociais, que não usavas filtros e que ainda sabias o que era o cheiro de uma enciclopédia. Fizeste questão em manter um Nokia antigo, e até te riste de quem não saía do YouTube a ver bocados de coisas, uma estupidez à qual escapavas. Enfim, não dançavas essa música desordenada.

    Mas o raptor foi paciente.

    O aparelho não entrou pela janela, não te ameaçou com uma arma. Apenas se fez necessário. Primeiro para uma coisa pequena. Depois para duas. Depois para quase tudo. Ainda assim, durante bastante tempo, continuaste a achar que estavas de fora.

    O tempo passava. Pequenos gestos. Uma mensagem menos expectável aqui, uma pesquisa ali. Um mapa para não te perderes numa cidade que conhecias bem. Um toque de alarme. Um lembrete.

    Nada de grave.

    Um dia pensaste que afinal essas redes, a internet, a cloud, as plataformas, não tinham trazido assim tanto mal ao mundo; em muitos aspectos até tinham melhorado pontos concretos da vida das pessoas. Pensaste isso sem entusiasmo, quase com desconfiança, mas aceitaste. Nada se podia fazer contra factos.

    Durante anos chamaste paranóia à vigilância.

    Entretanto, as antenas foram-se instalando. Primeiro visíveis, depois não. Já faziam parte da paisagem e nem se dava por elas.

    Compraste um smartphone. Não aconteceu nada. Tinhas pontos acumulados.

    Também começaste a acumular descontos por usares a aplicação do supermercado. Pareceu-te cómodo. O talão deixou de existir, o cartão passou para o ecrã e, sem grande drama, a tua lista de compras começou a saber mais sobre ti do que alguns amigos.

    Eras livre, pensavas.

    Podias também usar o papel, qual era o problema?… Uma coisa não impedia a outra.

    Ao princípio ias correr com os teus melhores ténis nas pistas da cidade e não necessitavas de levar esse pequeno computador de bolso instalado no braço a medir-te as pulsações. Corrias como sempre. Respiravas sem gráficos.

    Mais tarde, aceitaste ver quanto tempo demoravas. Era só por curiosidade. Olha, até sou rápido(a).

    Depois aceitaste melhorar.

    Até gostavas dos jogos arcade retro em apps de grande estilo. Enfiar os fones e mergulhar noutras zonas “cósmicas” até era bom em dias de fila e de espera. Um intervalo. Um descanso.

    Um dia riste-te com um gato a tocar guitarra. Não sabes bem porquê, mas aquilo ficou. Gostaste da ideia de o mundo ser ligeiro.

    Ficaste sem electricidade em casa, mas o telemóvel continuava a funcionar. Foi útil. Foi reconfortante.

    Quando o banco te pediu para confirmares a identidade através da aplicação, também não estranhaste. Quando o estacionamento passou a ser pago pelo telemóvel, adaptaste-te. Quando o relógio te informou que tinhas dormido mal, agradeceste-lhe a preocupação. Tudo parecia uma simplificação. E talvez fosse.

    Começaste a ir à net com mais frequência. Sem querer, já te ajudava a organizar ficheiros. Depois os e-mails. Depois sugeria-te palavras antes de as acabares de escrever. Às vezes acertava. Percebeste que havia youtubers que te informavam melhor que os telejornais. Parecia evidente que o mundo já não passava sem essa alternativa. A qualidade do mundo oficial piorava de dia para dia. A internet dava-te os bons dias.

    Começou também a antecipar coisas sobre ti que não tinhas dito a ninguém. Pequenos gostos. Pequenas irritações. Pequenos desejos.

    Aceitaste.

    Vias vídeos tutoriais de borla e, por momentos, sentias que pertencias a alguma coisa. Mesmo que não soubesses bem a quê.

    Convidou-te a falar com amigos, a espreitar notícias, a mostrar a tua cara. E, quando reparaste, já não tinhas tempo para escrever à mão. Tinhas 63 abas abertas e nenhuma delas te dizia exactamente o que procuravas.

    Tinhas Facebook e achavas que não ligavas muito. Instagram. Gostavas de fotografar.

    Mas começaste a voltar atrás para ver se alguém tinha visto. Não era importante, dizias. Só curiosidade. Até um dia fotografares na praia um pôr-do-sol, só porque sim.

    Depois já não sabias bem se era só porque sim.

    Começaste a saber a que horas certas pessoas estavam online. A imaginar respostas antes de existirem. A hesitar antes de desligar o telemóvel, como se estivesses a sair de um sítio onde podias ser chamado(a) a qualquer momento.

    A Síndrome de Estocolmo Digital não é uma patologia. É mais uma moral ou uma pedagogia. Um novo contrato social onde o “aprisionamento” é consentido e a rendição é interactiva.

    Não és refém: és colaborador(a) da tua própria vigilância.

    És utente de um sistema que te quer presente, visível, animado(a), produtivo(a) e, acima de tudo, satisfeito(a) por estares a ser observado(a). E há momentos em que estás mesmo satisfeito(a).

    Mas também sabes.

    Sabes quando abres uma aplicação sem motivo e a fechas, e a abres outra vez segundos depois. Sabes quando levas o telemóvel para a cama só para “ver uma coisa rápida” e já passaram quarenta minutos. Sabes quando o silêncio começa a parecer suspeito.

    Mas deixas o tempo passar.

    O raptor é elegante: oferece-te memes, filmes, meteorologia ao minuto para as tuas férias, mapas, conselhos sobre saúde mental, filtros incríveis. Ajusta-se ao teu ritmo, aprende contigo, devolve-te versões de ti que parecem melhores. Até está na moda dizer-se a nossa melhor versão.

    Enquanto isso, o raptor paciente observa cada gesto com uma atenção que nunca recebeste de ninguém.

    Não gostas. Mas habituas-te a gostar.

    Vives no talvez definitivo. A verdade é que não há alternativa. Já estás conectado(a) por todo o lado.

    Cada vez é mais difícil falar profundamente desse assunto com outras pessoas. Não porque não saibam, mas porque sabem demasiado. E ninguém quer ser o primeiro a admitir.

    A diferença entre gostar e precisar dissolveu-se na nuvem.

    Durante o apagão de Abril de 2025 até achaste que não eras dependente. Mas às sete da tarde, ainda sem electricidade, começou a doer-te a cabeça e sentiste falta de um tutorial.

    Já não sabes bem se gostas do smartphone ou se apenas não suportas estar longe dele. Já não sabes se segues alguém porque admiras ou porque tens medo de desaparecer. Se escreves por prazer ou porque o silêncio digital começa a ter consequências.

    O raptor ensina-te a gostar dele para que nunca tenhas coragem de o culpar. E tu aprendes.

    Porque a culpa também evoluiu.

    Tu és a sua grande actualização.

    E um dia, não muito longe, vais defendê-lo. Vais dizer que o computador não é o inimigo, que as redes nos unem, que há perigos maiores. Vais agradecer-lhe. Vais reorganizar a tua memória com base nele.

    E talvez nem seja mentira.

    Mas sabes – lá no fundo do disco rígido – que o raptor está lá em cima.

    E tu estás na cave, a escrever-lhe uma alegoria.

    (a) Entrada apócrifa no Dicionário Técnico-Afectivo da Pós-Humanidade. Termo banido de várias plataformas por excesso de verdade.

    Texto de Ruy Otero (artista media).

    Ilustrações de The Swimming Pool Project.

  • A verdadeira Ministra da Administração Interna

    A verdadeira Ministra da Administração Interna

    Acaso os leitores mais atentos sabiam que Luís Neves não é Ministro da Administração Interna? Se algum jornalista vos disser que Portugal tem um Ministro da Administração Interna, saibam então que está errado.

    Não que o jornalista esteja a mentir, pois só mente quem sabe que está certo e diz o contrário com o intuito de enganar o próximo. Os jornalistas, normalmente, acreditam que estão sempre certos, pois o seu trabalho consiste em não dar informações erradas. Mas, neste caso, cada vez que os jornalistas mencionam o nome de Luís Neves seguido do cargo “Ministro da Administração Interna”, estão completamente errados.

    Luís Neves tomou posse, em Belém, a 23 de Fevereiro
    Foto: Presidência da República/Miguel Figueiredo Lopes

    Temos de ser condescendentes com a ignorância dos jornalistas, pois eles, afinal, noticiaram, no dia 23 de Fevereiro de 2026, que decorreu em Belém uma cerimónia oficial destinada a dar posse a Luís Neves como Ministro da Administração Interna. E isso aconteceu na presença do então ainda Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, visto que o novo Presidente da República, António José Seguro, apesar de já ter sido eleito, ainda não tomara posse.

    E, de facto, o nome de Luís Neves é aquele que surge no portal oficial do governo identificado como “Ministro da Administração Interna”. Face a isto, é natural que os jornalistas olhem para Luís Neves e, como ele tem um gabinete no Terreiro do Paço, nomeia motoristas e aparece em cerimónias oficiais, acabem depois por o convidar a dar entrevistas na televisão na qualidade de “Ministro da Administração Interna”. E ele lá vai dizer coisas tão revolucionárias como: “há uma lógica de quintinha e pequenez” e “burocracias são cancro que nós temos”.

    Os jornalistas, portanto, não estão a mentir, contudo, quando chamam “Ministro da Administração Interna” a Luís Neves, ignoram o facto da Lei Orgânica do Governo considerar Luís Neves como “Ministra da Administração Interna”.

    O “Ministro” substituiu a “Ministra
    Foto: Presidência da República/Miguel Figueiredo Lopes

    Explique-se aos leitores mais surpreendidos: a Lei Orgânica do Governo é um documento criado por aqueles que nos governam, onde dizem como pretendem gerir o governo. É nesse documento que está descrita a constituição do governo, com as instruções de quem reporta a quem e como é que os ministros e ministras (sim, o documento faz essa distinção de sexo de forma bem específica) vão depois trabalhar com os secretários e secretárias de Estado.

    O documento foi visto e aprovado em Conselho de Ministros (que daqui a uns tempos ainda se vai chamar Conselho de Ministros e Ministras) a 10 de Julho de 2025. A Lei Orgânica do XXV Governo Constitucional, liderado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro, é o Decreto-Lei nº 87-A/2025, com data de publicação em Diário da República a 25 de Julho. Não diz os nomes dos ministros ou ministras, mas faz a devida diferenciação pelos sexos dos ocupantes do cargo na data da aprovação do documento em Conselho de Ministros.

    Assim, no Artigo 2º, debaixo da designação generalista de “Ministros” é dito, por exemplo, na alínea g), que existe um “Ministro da Defesa Nacional”, pois o Ministro da Defesa Nacional chama-se Nuno Melo e, até notícia em contrário, identifica-se como homem. Deste modo, na Lei Orgânica, Nuno Melo é identificado no seu cargo como “Ministro” e não “Ministra”. O mesmo se pode dizer do “Ministro das Infraestruturas e Habitação”, na alínea seguinte, a h), que é Miguel Pinto Luz.

    Está escrito na Lei Orgânica em vigor que Portugal tem uma “Ministra da Administração Interna”, Não há ainda qualquer menção a um “Ministro da Administração Interna” Imagem: Decreto-Lei nº 87-A/2025

    Quem é “ministra”, e não “ministro”, é a pessoa que vem na alínea seguinte: “i) Ministra da Justiça”. E confirma-se: Rita Alarcão Júdice é o nome da actual Ministra da Justiça. Visto ser mulher, e desejar continuar a ser tratada como tal, é “Ministra da Justiça” e não “Ministro da Justiça”.

    Agora, na alínea seguinte, j), lemos: “Ministra da Administração Interna”. Faz sentido, pois, a 25 de Julho de 2025, quem ocupava o cargo de “Ministra da Administração Interna” era a pessoa que respondia pelo nome feminino de Maria Lúcia Amaral, famosa pelas frases: “pifou”, “vamos embora” e  “há muito muito trabalho que se faz em contexto de invisibilidade, no gabinete”.

    Maria Lúcia Amaral, como é do conhecimento geral, demitiu-se a 10 de Fevereiro deste ano, pelo que o primeiro-ministro, após algum tempo sem conseguir indicar um nome para o seu cargo, acabou por convidar o então Director Nacional da Polícia Judiciária, Luís Neves.

    Entrevista a Luís Neves, “Ministro da Administração Interna”, SIC Notícias, 3 de Junho

    Ora, como Luís Neves ainda não anunciou publicamente que assume ser do sexo feminino, o Conselho de Ministros teria de actualizar a Lei Orgânica. À falta disso, obriga-se então a que, oficialmente, Luís Neves tenha de ser tratado como “Ministra da Administração Interna”.

    Ou, pelo menos, seria assim que deveria ser chamado ou… chamada. Os documentos oficiais saídos do ministério da Administração Interna, para estarem de acordo com a Lei Orgânica, deveriam continuar a ser assinados e dirigidos à “Ministra” e não ao “Ministro”, pois este último cargo não existe na Lei Orgânica em vigor.

    Podem achar que estou a exagerar, a criar uma pequena piada para justificar uma crónica e, com isto, a fazer-vos perder tempo. Acreditem que não, pois esta crónica tem trabalho de investigação jornalística. Reparem que fui ver como é que o anterior governo de António Costa resolveu o mesmo problema quando, por exemplo, teve de substituir a “Ministra da Saúde” pelo “Ministro da Saúde”.

    Na Lei Orgânica de 2022, no tempo de António Costa, havia uma “Ministra da Saúde”, pois o cargo era ocupado por uma mulher: Marta Temido

    A Lei Orgânica do XXIII Governo Constitucional, liderado por António Costa, foi aprovada no Conselho de Ministros de 21 de Abril de 2022, dando origem ao Decreto-Lei nº 32/2022, de 9 de Maio. Nele estavam descritos as “Ministras/os”, assim mesmo, com primazia às senhoras.

    Havia, na alínea a), “Ministra da Presidência”, b) “Ministro dos Negócios Estrangeiros”, c) “Ministra da Defesa Nacional”, d) “Ministro da Administração Interna” e, na e), “Ministra da Justiça”. Mais à frente, na alínea m), era a vez da “Ministra da Saúde”, cargo então ocupado por Marta Temido, uma mulher.

    Como é também do conhecimento geral, Marta Temido pediu a demissão a 29 de Agosto de 2022, sendo depois substituída por um homem assumido, Manuel Pizarro, que tomou posse a 10 de Setembro. Ora, essa nova nomeação contrariava o que estava escrito na alínea m) do Artigo 2º do Decreto-Lei n.º 32/2022, de 9 de Maio. Foi então necessário alterar o sexo da ministra para ministro, já que Manuel Pizarro continuava a identificar-se como homem.

    A Lei Orgânica de 2022 foi alterada quando deixou de haver uma “Ministra da Saúde” e passou a haver um “Ministro da Saúde”, Manuel Pizarro, que se identifica como homem

    E assim aconteceu não muito tempo depois da tomada de posse. A 22 de Setembro, o Conselho de Ministro aprovou o Decreto-Lei nº 65/2022, de modo a alterar o Decreto-Lei nº 32/2022. Entre outras alterações, teve o cuidado de mudar a alínea m) do Artigo 2º, referente a “Ministras/os”. Deste modo, onde antes estava escrito “Ministra da Saúde”, passou a constar “Ministro da Saúde”. Outros artigos da mesma lei, onde antes se lia a palavra “Ministra da Saúde”, também tiveram de mudar para passar a designar “Ministro da Saúde”.

    E, com isto, cumpriu-se a lei e ficou tudo em ordem. Só que, agora, quase quatro meses após a sua tomada de posse, Luís Neves continua a ser “Ministra da Administração Interna”, pois o Conselho de Ministros ainda não fez a alteração do Decreto-Lei nº 87-A/2025.

    Perante estes factos, o leitor certamente perguntará: mas se Luís Neves nunca disse identificar-se como mulher, por que raios ainda não alteraram a Lei Orgânica, mudando “Ministra da Administração Interna” para “Ministro da Administração Interna”?

    Crónica de Valentina Marcelino no Diário de Notícias, a 13 de Fevereiro, dez dias antes da tomada de posse de Luís Neves como “Ministro da Administração Interna”. Valentina seria nomeada, a 1 de Março, Adjunta política de Luís Neves, que, oficialmente, ainda é “Ministra da Administração Interna”
    Imagem: Diário de Notícias

    Vou então dizer o motivo pelo qual acho por que isso ainda não foi alterado: para mim, que tanto faz, quem manda mesmo no ministério da Administração Interna é uma mulher. Chama-se Valentina Marcelino, a jornalista que Luís Neves nomeou para Adjunta política a 1 de Março.

    Se a Lei Orgânica ainda diz que quem está à frente do ministério é a “Ministra da Administração Interna”, então a mulher à frente da política do ministério não é Luís Neves, mas sim a sua experiente Adjunta política. Aquela que, por exemplo, dez dias antes da tomada de posse de Neves como “ministro” já dizia numa crónica do Diário de Notícias como é que o futuro ministro deveria “vestir a farda de Portugal”. Portanto, basta aos jornalistas assumirem que Valentina Marcelino é a verdadeira “Ministra da Administração Interna” e fica tudo como manda a Lei Orgânica.

  • Os 700: parte dois

    Os 700: parte dois

    15.

    Ao invés, Pedro Sexto contrariava-me a cada passo. Não era uma bravata fútil, mas produto da convicção profunda de que devia desprezar a autoridade em qualquer forma que lhe aparecesse, não importando quão desinteressada e benigna fosse. Acresce que se divertia quando via frustrarem-se os meus planos o que, no meio daquela babélica balbúrdia, não era, de todo, difícil.

    «Onde estamos?», perguntava, interrompendo os meus pensamentos, os meus intentos, a minha serenidade. Ou inquiria, «vamos às cegas por este lugar? Qual o sítio de onde partimos?» ou, finalmente, «não, não é este o caminho».

    Sexto, no entanto, não era de carácter impulsivo ou desordenado. Tinha a sua suavidade, o fácil manejo de muitas formas e estruturas mentais e, ao mesmo tempo, um espírito sincero, mas aquela propensão para o desacordo, talvez para o conflito que albergava no mais fundo da alma, ditava-lhe a compulsão para um dissenso perturbador. Era, porventura, mais forte que ele, uma capacidade inaudita, afinal, para ver e sentir o outro lado das coisas, mesmo que fizesse tabula rasa dos mais elementares ditames de uma razoável razão.

    Mas se nada daquilo era de interesse para o que me propunha, também não me surpreendia ou tão pouco me indignava e embora, na realidade, não conhecesse aquele homem não podia, de facto, julgá-lo injusto ou imbecil, pois a maioria das gentes poderia ter as mesmas ideias ou, pelo menos, algo semelhante às suas posições em relação ao que eu queria e tanto tentava fazer. Não ignoro que qualquer decisão para o bem comum admite quase infinitas variações e Pedro Sexto era a voz de toda a alternativa, possibilidades que eu nem sempre levava em conta e, por isso, apesar da contrariedade, estava-lhe, secretamente, agradecido.

    16.

    Pois bem, nem quereis imaginar o que é organizar o transporte de setecentas almas, com os seus pertences, na noite cerrada, cada uma com as suas necessidades e urgências, ou porque têm fome ou porque têm sede ou porque estão cansadas ou porque têm sono ou porque estão doentes ou porque não podem andar ou porque estão impacientes, e o diabo do Sexto sempre a promover a confusão onde já o caos campeia à solta. Irrito-me, exaspero-me, ameaça-o, grito com ele e recebo um riso miúdo, escarninho, irresponsável e perverso, um gozo só, ao ver o naufrágio iminente da nossa constante e perpétua viagem, não entendendo que é, como em tudo o mais da nossa vida, questão de vida ou de morte, por pouco nos salvamos, por pouco nos perderemos. Não é necessário o diabrete para precipitar a queda. E ademais perecerá connosco caso um dia as coisas se desagreguem de vez, que ninguém nos acudirá ou terá pena.

    Quando ainda não me tinha perdido de mim, perguntava-me como é que se conseguia viver, ao saber que o destino é cruel e desigual, com o seu aprazado, inconcebível e inevitável fim que sobre todos impende. Por que não éramos mais felizes e contentes, por que o nosso Mundo aventuroso nunca era mais que o nosso Inferno? Por que vivemos e não morremos — o que nos fazia estar vivos? — por que no lado oposto da noite nos esperava, amiúde, uma jornada atroz? Por quê, se todas as vidas são as mesmas, sem sentido, sem um caminho sereno, e no entanto todos se apegam à sobrevivência? E, ainda, conseguem reunir energia para tanta festa, numa euforia muitas vezes estéril, é certo, mas também catártica ou, até, saudável pois tinha o condão não só de espantar os pesadelos, internos a cada um, como também o de exorcizar o mal-estar e os atropelos desta vida em comum. Excepto Sexto, esse teimoso, sempre coerente na discórdia.

    17.

    E quando se porfia na arte da sobrevivência, o mínimo escolho é estrepitoso drama. Não temos luxos e muito menos o luxo de poder descontrair e gozar a vida e esquecer todos os perigos que esta breve multidão tem de ultrapassar, se quiser sobreviver num Mundo cruel e impiedoso que nos não recebe nem quer, que nos não tolera ou aceita, que nos não entende e se não compraz com a nossa alegria álacre, o agitar das águas daquelas terras paradas para onde vamos, quase defuntas de pacatez podre, que há muito perderam, por pobreza e pela sangria da seiva jovem e vital, o alento da vida, cujas comunidades depauperadas perderam a esperança de uma existência mais plena e real, perdidas que estão na estagnação do seu próprio desalento. Esses desgraçados, quase como mortos que só sobrevivem por hábito atávico de agitar o pulmão, em vez de ficarem felizes com o hálito forte da nossa ferocidade, rejeitam-nos com ódio e, amiúde, com violência e rancor, como se o incómodo fosse um crime, o que é estrangeiro um escândalo que fere de pecado sem remissão, uma ofensa às leis divinas e humanas que nem a morte e a hecatombe poderão alguma vez compensar tamanho opróbrio.

    Esta a nossa existência, tão difícil, sempre lutando em fútil, mas permanente combate, vinte e quatro horas por dia, sem descanso, sem escola, sem pausa, sem deveres outros que uma precária subsistência.

    18.

    É, por isso, incompreensível que Sexto, mesmo com os mencionados efeitos salutares da sua atitude, tenha o afã de perturbar qualquer delicado equilíbrio, assim como todos os outros aspectos da nossa vida em comum, a não ser como veniaga pessoal contra mim, caso apesar de tudo improvável porque os laços de afecto entre todos são sinceros e profundos ou, então, porfia nessa atitude por arredio feitio aziago a todo o mando, e assim predisposto a propor obstáculo onde o não devia haver & nesta vida fechada que levamos o ensejo é estarmos juntos e o que tem à-não é impedir a paz no que é de casa, e são estas domésticas operações o que tem por ordem e rotina. Por isso também vos disse que Sexto é, para mim, como um estranho. Há, na realidade, um abismo mútuo de incompreensão e só não lutámos até à morte porque sempre há este peculiar afecto genésico e porque somos ambos de índole pacífica, incapazes de violência, mesmo que esse fosse o único e mais expedito modo de resolver, de uma vez por todas, a nossa eterna disputa.

    19.

    De qualquer modo, sempre que o fosso entre eu e Sexto parece intransponível e estou no fim da minha paciência, Júlia Vinte intervém, sempre calma, sempre delicada, sempre tentando promover a concórdia, com os seus modos suaves e gentis, e com um pensamento tão rápido e uma intuição tão certeira que consegue antecipar os conflitos e procurar uma certa tranquilidade com a eficiência de uma diplomata natural. É ela que, in extremis, salva a situação e permite um módico de paz até à próxima crise.

    Não fora ela e temo que nos tivéssemos afogado num banho de sangue, sociedade de fratricidas insanos já que não medem a gravidade do crime e estão dispostos a saltar para o abismo sempre que a serenidade lhes falta.

    Não imaginam, pois, como é difícil planear, coordenar e depois guiar toda esta turba para que, no dia e na hora marcados, nos façamos ao caminho e que não existam alguns tresmalhados, uns quantos distraídos, outros renitentes, aqueles que se perdem ou até que se recusem a ir. É muita gente, todos têm as suas ideias e ninguém me elegeu, nem tenho nenhum real ascendente sobre os demais. Sou, apenas, o mais velho. Preocupo-me. Estou habituado. É só. Ainda assim, contra todas as expectativas, o milagre acontece e lá adentramos na noite, tentando não nos perdermos uns dos outros na escuridão, à procura de um alojamento que acomode setecentos corpos cansados e com frio e com fome e com sede e com tantas ganas de viver que, como se adivinha, nem todos os edifícios sabem ou podem suportar o estrépito de terramoto dos nossos pés. E se no meio desta rotineira transferência de perpétua, mas necessária, diáspora, alguns se perderem, ou quiserem desertar por exaustão da mudança ou porque, se encontram, por esta ou aquela razão, demasiado frágeis para a viagem ou porque teimam em ficar, haverá, por certo, em pouco tempo, ainda mais, muitos mais da nossa estirpe que ainda se não encontrou fim, medida ou razão para a prodigiosa fecundidade destes nossos pais que, tendo já gerado sete centenas, ainda uns quantos nascem se alguns perecem ou tresmalham. O número é, porém, surpreendentemente estável, apenas mudando os indivíduos porque, se por abscôndito comando, só nascem uns quando outros morrem ou por aí se dispersam, dir-se-ia que só assim é para que tudo se mantenha igual, pelo menos, enquanto durarem os progenitores desta família máxima.

    20.

    E foi assim que naquele terrível Inverno, por certo o mais duro de que haveria memória, tivemos de fugir de uma multidão, enraivecida pelos nossos desmandos. Tinham toda a razão, pois havíamos esgotado os magros suprimentos que os habitantes daquela pequena cidade dispunham para enfrentar o rigor daquele frio. Finda a paciência viraram-se contra nós com uma determinação tão assustadora que não duvidei, ainda que por um instante, que nos matassem a todos e quis fugir de imediato só para enfrentar a letargia da família, enregelada e quezilenta, pouco interessada em empreender a viagem por um vale pedregoso e cheio de perigos. Sexto, delirava de júbilo ao ver-me, finalmente, derrotado, incapaz de mover sequer um dos setecentos irmãos. Só quando começou o susto do tiroteio e sentiu a morte de perto é que a imensa mole humana acordou do torpor, num pânico esponjoso e confuso e todos começaram a correr na direcção que eu lhes tinha indicado. Perdemos tudo nesse dia. Houve desespero e mais fome e gangrena de membros perdidos para o gelo, numa caminhada lúgubre que pareceu interminável em direcção ao Inferno. Escorraçados do abrigo, tivemos de enfrentar os elementos sem agasalhos, sem água, sem comida e sem a serenidade de um propósito, movidos apenas pela vontade de escapar aos nossos perseguidores e de nos protegermos daquela vastidão desoladora cujas temperaturas eram tão baixas que só o calor dos corpos, abraçados como amantes, impediu que se gelasse até à morte.

    21.

    Infelizmente, o inverso também nos aconteceu: fomos escorraçados de outro povoado e tivemos de fugir atravessando a meseta inóspita sob um calor tão abrasador que se derretiam as solas dos sapatos e o corpo se desidratava mais depressa do que se conseguia repor a água perdida. Água que, aliás, apesar de racionada com escrúpulo era, constantemente, escassa e razão de amargas disputas. Esta miséria durou semanas de sede e delírios e pó e ventanias tenazes. Para avançarmos tínhamos de rastejar sob a vergasta das rajadas do vento e durante vários dias andámos às voltas até percebermos que o acampamento deserto que acabáramos de encontrar era o nosso e que só pela desorientação e desvario dela completamos um vasto círculo perseguindo o próprio rasto. O desespero venceu e muitos rezaram por um maná que nunca chegou até que, por um puro acaso que foi confundido com a graça divina por esta multitude de incréus, se topou com um fio de água, na verdade, um riacho lamacento de águas estagnadas, mas que foi o suficiente para retemperar as forças, ganhar alento e procurar refúgio dos implacáveis siroccos que nos flagelavam. Estávamos salvos, porém não seria tão depressa que iríamos esquecer mais esta provação. Houve quem se radicalizasse a favor dos partidários da facção mais violenta. Da próxima vez, defendiam, ir-se-ia lutar antes de optar pela fuga. Era o que queriam os irmãos mais jovens que então chegavam à maioridade e tinham um espírito afoito e guerreiro, rebelde e propenso à violência, enquanto os mais velhos tendiam para a conciliação. Em vão tentava explicar-lhes que o Mundo exterior, o Mundo dos homens, era infinitamente mais forte, infinitamente mais vasto e infinitamente mais cruel e que se resistíssemos só iríamos acordar o espírito vingativo que é quando a humanidade verdadeiramente se une numa família universal e nós, afinal, meros setecentos, à mercê desse Mar de gente sanguinária, disposta a tudo, somos menos que uma gota no Oceano.

    22.

    Ver-se-á se o confronto é a melhor estratégia ou se compensa ser-se discreto, pelo menos, tão discreto quanto o podem ser setecentas criaturas desgrenhadas e orgulhosas, povo que transporta o seu Adão, senil patriarca que vê o Mundo como criança e que ama a sua Eva na distância da alienação em que ela própria caiu, mas ainda reconhecendo os filhos, embora não sabendo em que ano está, onde se encontra e o que almoçou naquele dia. De resto é um delírio contínuo. Julga-se nova, prestes a casar e tece perpétuos planos para uns esponsais sumptuosos e complicados. Deu em tecer, com suas próprias mãos, um vestido de noiva intrincado e fora-de-moda sem saber que costurava, primorosamente, ao invés, a sua própria mortalha.

    Os nossos passos fazem-se no ar do seu desvario, a ventania levanta-se e a correnteza que nos arrasta parece brotar da terra. Não era a primeira vez que via essa maré que emanava do delírio da sua senilidade, nem, com certeza seria a última, quando eu próprio fosse levado, pelos maus ventos da idade, a esse lado reverso da lucidez.

    23.

    De resto, a vida prosseguia como sempre nos foi destinada, uma imensa mole de gente que vagueava ao sabor do acaso e das circunstâncias, sem conhecer o dia de amanhã, como todos os que habitam neste orbe debaixo do Sol, excepto sabendo que a estirpe se acabará nesta única e proliferante geração pois toda ela é estéril e não só nenhum de nós teve filhos como já ninguém acredita que alguma vez os venha a ter. Podemos ser pródigos em muitas artes e todos os dias alguém revela uma qualquer habilidade até aí desconhecida e que se não conseguiu antever, mas todos sabem que não está em nosso poder gerar descendência pois dessa nossa cornucópia de dons exclui-se aquele da fecundidade ou não tenha sido esta família vítima da maldição ou duplo sortilégio da excessiva prole dos pais e da secura da semente dos filhos.

    A verdadeira razão por trás do fim da existência de toda a prole humana talvez não seja como muitos acreditam ser, uma expiação por qualquer arbitrário decreto divino. Os deuses e deusas não teriam condenado os homens ao exílio se não houvesse uma história, trágica e universal, com princípio, meio e fim, e nós desta absurda família, porventura, mais não somos que um microcosmo, uma experiência dessas divindades laboriosas para aferirem qual o passo seguinte em toda esta desdita humana. Pelo menos, é nisso em que acredito ou que, durante muito tempo, julguei acreditar, até perceber que nada na vida tem sentido. Que se vive ou morre sem que haja um propósito para além da sobrevivência quotidiana, arrancada a todas as vicissitude possíveis, algumas que desafiam a imaginação ou as faculdades terrenas de prever e prevenir o malogro

    24.

    Disse-vos já que por muita zanga e fúria e bravata que haja entre nós, às vezes quase chegando à violência de um punho erguido, irmão contra irmão, gritaria e objectos pelo ar, arremessos a esmo ou, se pontaria houver, uma cabeça rachada e sangue que jorra, mantemo-nos unidos, atravessando juntos as catástrofes diárias, hecatombes caseiras e domésticas que é de tremer o chão a algazarra de tanta boca esfomeada e não há só a fome de pão, pois, na verdade, nascemos juntos, do mesmo pai, da mesma mãe, juntos brincámos e juntos crescemos, juntos sofremos e colectiva é a nossa alegria e juntos queremos morrer, rodeados de nossos iguais, pois quem nos olha e um vê é como se visse todos e cada um, e qualquer de nós sendo diferente dos demais — com ressalva, claro, dos gémeos que aqui também os há, iguais, espelhos perfeitos macaqueando-se continuamente, ora invertendo-se como num vero espéculo ora duplicando-se, simétricos — tem traços tão comuns que se percebe logo que somos irmãos. Isso topa-se à distância e é evidente pelos olhos muito negros, pelo sorriso triste, nariz adunco, elas, loiras como a Mãe, eles, morenos como o Pai mas, todos, esguios. Os homens são enérgicos e estouvados, as mulheres têm um sentido prático incomum mas, por vezes, são vulneráveis à melancolia e às armadilhas da nostalgia caindo, as pobres, num torpor tão fundo que ficam perdidas para a vida. Catatónicas, no estado terminal de toda essa tristeza, transportamo-las como uma peça de mobiliário de indispensável estima e várias delas se deixaram consumir em incêndios até que, no meio do pânico geral, alguém se lembrasse de lhes apagar as chamas, pois ardiam sem um queixume. As que sobreviveram continuam, ainda hoje, entre nós como uma relíquia, estátuas antigas e chamuscadas que não se diria viverem a não ser pelos olhos brilhantes, perscrutadores, intensos.

    25.

    Apesar da nossa união, por certo, uma vez houve em que quase se chegou a um cisma, uma irremediável cisão entre dois grupos opostos e se tivesse acontecido seria para nunca mais. Isso foi quando a geração dos duzentos chegou à maioridade e queria imprimir ao grupo uma outra vitalidade e os mais velhos, sempre aconselhando prudência, consideravam, não sem alguma razão, que era a cautela, pelo menos aquela pouca de que éramos capazes, a única conduta possível. Ora, os jovens não estavam com meias medidas e queriam mudança imediata, queriam o poder de decidir por si o destino de todos e, como estavam no seu apogeu físico e passional, foi difícil convencê-los. A sua propensão belicosa depressa tornou a situação explosiva. Eu bem tentei arbitrar a disputa, mas com isso só consegui construir certas inimizades de ambos os lados pois foi demasiado tarde que percebi que não só atraí, com a minha atitude conciliadora, os rancores de todos como ela contribuiu para o clima de tensão surda que se agudizou até ao momento em que Paulo Duocentésimo Vigésimo Sétimo, o líder dos jovens, foi assassinado. Nunca se chegou a apurar quem praticou o crime, mas foi um sinal de aviso. A partir de então os ânimos serenaram e as nossa breves tradições prevaleceram. Por mim, compreendi que não devo interceder excessivamente nas disputas. Se consigo conduzir toda esta gente é porque, no geral, concedem que desempenho um papel inevitável, cumprindo as exigências de uma necessidade colectiva sem ceder às tentações de demonstrar uma opinião própria e pessoal, uma individualidade que pode degenerar numa tirania e se há coisa que, instintivamente, aqui se proíbe é qualquer tipo de repressão, por alguma razão vivemos apartados da demais humanidade, entregues aos nossos recursos e engenho e ao que nos dá na gana.

    26.

    Por mais que me esforçasse nunca consegui convencer nenhum dos meus irmãos a trabalharem um dia que fosse. Enquanto via o nosso número crescer, imaginava que seria possível obter um pedaço de terra e cultivá-la. Não nos faltariam braços. Ou construir uma pequena indústria ou mercar toda a sorte de géneros. Nada seria impossível, não há é vontade. Ou por um arreigado hábito de indolência ou por convicção que trabalhar é contribuir para a prosperidade do Mundo, o que é o mais provável, porque quem nasceu selvagem prefere sofrer a miséria a sujeitar-se a qualquer sorte de regras ou disciplina. É-lhe, por natural inerência, impossível o compromisso e a paciência para suportar um horário, uma ordem e um objectivo comum, as rotinas proletárias ou burguesas, como é uso dizer-se, que tanto podem significar conforto ou dolorosa subjugação, consoante o carácter de quem viva sob tal sina, a perspectiva que adopte e o sucesso do seu empreendimento. Esta errância, incerta como seja, cheia de perigos, angústias e privações, sempre é um modo de sermos livres. Ademais, esta funesta fama precede-nos e há, por isso, uma animosidade natural contra a nossa trupe o que nos levou a cerrar fileiras e somos, na íntegra, auto-suficientes, por reflexo defensivo e orgulho, ainda que isso signifique a penúria. Mas as dificuldades não nos assustam, fazem parte desta identidade que, como se de um líquido Proteu colectivo, está sempre em plena mutação, consequência inevitável de sermos livres e sermos tantos.

    27.

    Em boa verdade se diga que não necessitamos do Mundo. Hugo Trezentos e Um tem uma voz de encanto e nas noites cálidas de Estio delicia-nos, acompanhado por uma multiplicidade de instrumentos pois, entre nós, há muitos prodígios musicais e bailarinas deslumbrantes que dançam à roda de uma fogueira altíssima ao compasso das labaredas e assim se passam as horas até que a alba de róseos dedos desponta a Nascente. Só então nos vamos deitar, muito depois de a própria Lua se ter recolhido e já o Sol espreitar, curioso com a nossa festa e a fogueira ser um grande monte de carvão incandescente que levará um dia inteiro a apagar-se por completo. E assim cantamos e dançamos e somos felizes, cantigas e danças que inventámos longe da demais gente, ignorantes e imunes aos seus divertimentos e costumes, aos seus teatros e cinematógrafos e óperas e sinfonias e à radiotelefonia sem fios, perdidos, é certo, no nosso pequeno canto, mas satisfeitos com a nossa independência e porque nunca experimentámos o tédio. Com setecentas almas em permanente ebulição, o aborrecimento é, para nós, uma impossibilidade prática. Todas as outras emoções humanas estão à flor-da-pele, o terror, a angústia, o ódio e a ternura, a solidão colectiva de um povo exíguo, mas não o tédio, nunca o tédio.

    28.

    Em geral, evitamos as grandes cidades. Só uma vez cometemos o erro de nos derramarmos pelo dédalo de uma urbe desmesurada que nos maltratou como se fôramos um corpo estranho que ousasse perturbar a regular desorganização do seu funcionamento. Os comerciantes não se deixaram furtar, chamando logo a polícia e passado pouco tempo a fome apertava e nem conseguimos sítio onde pernoitar, à excepção de um prédio tão infestado de baratas que tínhamos de lhes disputar cada naco de pão que lográssemos trazer para alimentar aquelas setecentas almas aturdidas pela azáfama dessa ingrata terra. Estava frio e chovia ininterruptamente. Muitos tinham medo de se perderem no emaranhado confuso das ruas e os mais turbulentos estragavam-se em brigas nos bares do submundo, em prostíbulos de má fama ou caiam eles próprios vítimas de ladrões muito mais espertos, perigosos e ferozes do que eles. A situação logo se tornou insustentável, era hora de partir e só o não fizemos antes porque reinava tal confusão que ninguém atinava com o caminho de regresso daquele pesadelo, afinal tinha sido fácil entrar, mas não era tão fácil sair. Percebia-se, ainda que de modo incipiente, no meio de tanto pânico e letargia, o poder centrípeto das urbes, a sua fascinação doentia, onde tanto se perde um homem como se perdem setecentos e onde um ou sete centenas são ambos uma gota de água num Mar-alto de gente diversa. Ali, éramos poucos, pequenos e frágeis, perdíamos a força do grupo, diluídos na multidão anónima e cruel dos habitantes, frios e duros, habituados à sobrevivência na aridez da pedra e do cimento. Este não era o nosso elemento, mas como em tudo na vida, há que experimentar as coisas e uma cidade tão grande parecia poder oferecer conforto e protecção. Talvez em outras circunstâncias, com outra preparação, se tivéssemos a capacidade de nos organizarmos de outro modo «tu farás isto, e tu aquilo, e todos juntos havemos de conquistar uma prosperidade até agora nunca sonhada, e com ela o luxo de podermos parar, construir outra vida, com refeições certas, um tecto garantido, não mais o calor e o frio desses campos, as caminhadas nocturnas, seremos um clã de gente feliz, aqui ficamos». Mas isso não aconteceu como não poderia ter acontecido porque, se o nosso destino é errante, a nossa irreversível liberdade implica pagar o preço em desconforto e cuidados.

    ***

    João Pereira de Matos é escritor e investigador no CHAM – Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa.

  • A teoria geral da escassez aplicada aos cromos

    A teoria geral da escassez aplicada aos cromos


    Entre as muitas situações que imaginei viver aos 56 anos, não constava certamente a possibilidade de me encontrar envolvido numa corrida a papelarias para adquirir saquetas de cromos da Panini, acompanhando com genuína preocupação notícias sobre rupturas de stock, listas de espera e carregamentos misteriosos cuja chegada era transmitida tantos em notícias de jornais como em surdina entre coleccionadores.

    Em minha defesa, embora reconheça desde já a fragilidade do argumento, sempre poderei dizer que tudo começou por razões estatísticas. Salvo erro de memória, a minha intenção inicial não era regressar à infância nem recuperar nostalgias futebolísticas.

    O objectivo consistia em observar o funcionamento probabilístico da colecção, perceber a velocidade de preenchimento da caderneta, analisar a distribuição dos cromos e verificar até que ponto a Matemática se comportava de forma civilizada perante um sistema concebido para esvaziar carteiras com uma eficiência que muitos governos invejariam.

    Durante alguns dias consegui manter a ilusão de que estava a conduzir uma experiência racional. Comprava algumas saquetas, fazia contas, actualizava a minha matriz estatística e observava os resultados com o distanciamento científico que qualquer investigador deve preservar perante o objecto de estudo. O problema surgiu quando deixei de conseguir distinguir com clareza quem estava a analisar quem, porque a determinada altura tornou-se evidente que a Panini me estava a estudar a mim com muito mais sucesso do que eu a ela.

    Foi então que ocorreu um fenómeno que ainda hoje não sei se deve ser atribuído a falhas logísticas, a uma procura inesperada ou a uma brilhante estratégia comercial. Os cromos começaram a desaparecer. Primeiro de forma discreta, aqui e ali, numa papelaria que já não tinha recebido encomenda, noutra que apenas vendia um número limitado de saquetas. Depois surgiram relatos cada vez mais frequentes de esgotamentos. Finalmente, instalou-se aquilo que só pode ser descrito como uma pequena crise nacional de abastecimento.

    De súbito, encontrar cromos tornou-se mais difícil do que encontrar estacionamento em Lisboa. Multiplicaram-se as mensagens em grupos de coleccionadores, os relatos de deslocações infrutíferas entre bairros e os avisos sobre a chegada de carregamentos que desapareciam poucas horas depois.

    Algumas papelarias passaram a funcionar como verdadeiros centros de distribuição clandestina. Outras mantinham listas de espera. Em certos casos, a informação sobre a chegada de novas saquetas circulava com uma discrição que recordava operações comerciais de natureza bastante diferente.

    Confesso que acompanhei este espectáculo com sentimentos contraditórios. Por um lado, fascinava-me a dimensão sociológica do fenómeno. Por outro, incomodava-me descobrir que fazia parte dele. Uma coisa é observar uma febre colectiva; outra, bastante diferente, é perceber que se está contaminado. Pior ainda: perceber que se está dentro da armadilha sabendo perfeitamente que se está dentro dessa armadilha.

    Quando há algumas semanas escrevi sobre um entusiasta que comprara quinhentas saquetas de uma só vez, admito que o considerei um caso de estudo interessante. Hoje já não tenho tanta certeza. À luz dos acontecimentos subsequentes, talvez aquele homem não estivesse a manifestar qualquer forma de irracionalidade. Talvez fosse apenas um visionário que compreendeu antes de todos aquilo que viria a acontecer.

    Entretanto, como seria inevitável, começaram também a surgir os efeitos colaterais habituais de qualquer situação em que existe procura elevada e oferta escassa. Surgiram páginas na Internet prometendo lotes, envios garantidos e negócios extraordinários.

    Felizmente, a experiência acumulada em décadas de jornalismo ensinou-me uma regra simples: sempre que alguém anuncia um negócio extraordinário na Internet, existe uma forte probabilidade de o negócio extraordinário beneficiar apenas quem recebe o pagamento.

    Mantive-me, por isso, fiel à velha economia da papelaria de bairro. Passaram duas semanas de ‘lei seca’. Foi assim que, por fim, este sábado fui avisado para me deslocar a uma papelaria da Graça, que convém manter anónima, para levantar vinte saquetas que me aguardavam. A palavra discretamente não é uma figura de estilo. Havia recomendações explícitas para não fazer grande alarde. A situação atingiu um nível de escassez tal que a mera notícia da chegada de algumas dezenas de saquetas justifica cuidados especiais.

    Regressei a casa com cento e quarenta cromos e uma curiosidade estatística crescente. Nessa altura já possuía uma parte significativa da colecção e sabia que a Matemática começava a entrar numa fase menos simpática. Quando uma pessoa inicia uma colecção, praticamente tudo o que abre é novidade. Mais tarde a realidade começa a cobrar a factura.

    Dos cento e quarenta cromos obtidos, apenas sessenta e quatro foram novos. No meio, consegui o Modric e o Mbappé. Convém dizer que a Panini sabe-a toda: já tenho Cristiano e o Messi: dá a sensação de que os mais difíceis já estão no papo – um engano. Os restantes setenta e seis de entre os cento e quarenta passaram para a crescente república dos repetidos, uma espécie de limbo onde os cromos aguardam futuras trocas ou resignadamente aceitam o seu destino.

    Neste momento possuo 574 cromos dos 980 existentes, o que significa que completei 58,6% da colecção. Este número parece encorajador até ao momento em que me meto na Estatística. Com 574 cromos já adquiridos, cada novo cromo retirado de uma saqueta tem apenas cerca de 41,4% de probabilidade de ser novo. Em contrapartida, a probabilidade de ser repetido ascende a 58,6%.

    Traduzido para linguagem corrente, isto significa que se adquirir mais dez saquetas — setenta cromos — devo esperar cerca de vinte e oito cromos novos e quarenta e dois repetidos. Não é o tipo de investimento que faça sorrir um consultor financeiro.

    Apesar disso, continuo longe daquilo que os coleccionadores mais experientes consideram a verdadeira zona de perigo. Segundo explicaa Estatística, o momento em que faz sentido abandonar as compras e concentrar esforços nas trocas surge quando a colecção ultrapassa os 75% ou 80%. A partir daí a lei das probabilidades transforma-se numa adversária cruel para a paciência e as finanças.

    Aliás, desta vez já sucedeu ter uma carteira completa com todos os sete cromos repetidos. A probabilidade de ocorrência era de 0,91%. Quando tiver 700 cromos da colecção, a probabilidade será cerca de 10 vezes superior (9,5%). Este é o drama dos cromos: compra-se cada vez mais para obter cada vez menos.

    Por enquanto ainda tenho alguma margem para optimismo. A geografia da minha colecção continua, aliás, a apresentar fenómenos curiosos. A Áustria lidera com dezasseis cromos dos vinte possíveis, seguida de perto pela Austrália, Bélgica, Curaçau e Noruega, todas com quinze. Portugal já atingiu catorze. Em sentido contrário, Argentina, República Checa, Egipto, Espanha, Japão, Países Baixos e Estados Unidos continuam a revelar níveis de preenchimento modestos, abaixo da dezena.

    A situação é tanto mais interessante quanto se considera que a colecção inclui quarenta e oito selecções de vinte cromos cada. Com uma taxa média de preenchimento de apenas 58,6%, a probabilidade de já possuir uma equipa completamente concluída ainda é reduzidíssima. As selecções mais avançadas aproximam-se da meta, mas nenhuma parece preparada para a atravessar.

    Talvez resida aqui a verdadeira genialidade da Panini. A empresa não vende apenas cromos: vende uma sensação permanente de proximidade ao objectivo. Falta pouco. Mais algumas saquetas. Mais uma visita à papelaria. Mais uma tentativa. O coleccionador vive num horizonte estatístico peculiar: avança constantemente em direcção à meta, mas a meta parece afastar-se à mesma velocidade.

    No fundo, suspeito que esta colecção tem muito pouco a ver com futebol. O futebol funciona apenas como matéria-prima. O verdadeiro produto é outro: a esperança de encontrar aquele cromo específico, de completar aquela selecção, de a próxima saqueta ser melhor do que a anterior. E talvez, mais profundamente, a esperança de que desta vez a Matemática cometa um erro. Até ao momento, porém, a maldita Matemática continua a demonstrar uma disciplina admirável.

    ***

    Leia todas as crónicas de Breve tratado sobre a ruína.

  • A eloquência da banalidade

    A eloquência da banalidade

    Pedro Marques Lopes pertence àquela categoria muito específica de comentadores produzidos pelas democracias sociais-democratas em fase de fadiga, cujo mote principal é estabilizar emocionalmente o “espectador correcto”.

    Estas figuras não são exactamente jornalistas nem analistas, muito menos ideólogos no sentido clássico. Funcionam mais como ambientadores morais do espaço público.

    Reguladores subtis da ansiedade institucional dominante. Há mais, mas este comentador do Eixo do Mal é talvez o mais impressionante de todos.

    O tom meio pausado e por vezes nervoso, o riso aberto e a cumplicidade de quem pisca o olho ao fiel espectador do Eixo do Mal, marcam o seu estilo. Ostenta também uma voz quase sempre morna, sugerindo uma racionalidade adulta.

    Tem aquele ar de quem parece passar directamente de uma coluna de opinião para um jantar discreto onde empresários, políticos, directores de jornais e consultores europeus conversam sobre o “momento preocupante que atravessamos”, enquanto bebem vinho no Gambrinus e fingem habitar uma civilização funcional, regada de piadas e piadinhas cúmplices com algum poder.

    Durante anos, Pedro Marques Lopes vendeu-se como liberal moderado, social-democrata racional, europeu civilizado, homem do centro contra os radicalismos do tempo. Um profissional da lucidez e um técnico de manutenção da normalidade democrática.

    Começou por aparecer como uma espécie de cão de fila de Sócrates, passou para apoiante incondicional de Passos Coelho até o mundo mediático se virar contra os ex-primeiros-ministros, depois foi um “a ver se te avias” para ambos, com o seu espaço de comentário recheado de frases ocas mas cheias de veneno.

    Pedro Marques Lopes é provavelmente o comentador mais vazio de sempre. Mas cheio de si.

    Hoje diz-se centrista.  A ideia de “centro” transformou-se, nas últimas duas décadas, menos numa posição política do que numa identidade psicológica. Uma estética comportamental e uma moral de classe.

    O centro já não é propriamente um lugar entre esquerda e direita. É sobretudo um espaço de auto-imagem onde certas elites urbanas se vêem a si próprias como adultas, esclarecidas, responsáveis e historicamente superiores às massas emocionais que observam pela televisão.

    É por isso que estas figuras raramente parecem verdadeiramente surpreendidas com a realidade. O seu trabalho nunca consistiu em descobrir o mundo, mas em impedir que o “espectador correcto” sinta demasiado desconforto perante ele.

    Fazem algo mais sofisticado do que propaganda e muito mais importante para a sobrevivência dos regimes contemporâneos. Fazem uma gestão emocional da percepção.

    Atenuam, relativizam, aromatizam a decadência.

    Transformam a promiscuidade institucional em “complexidade”, a corrupção em “narrativa” e a degradação sistémica em “riscos de populismo”. Funcionam como tradutores simultâneos entre o colapso da realidade e a necessidade psicológica de manter intacta a ficção moral do sistema.

    Acabam por se tornar figuras risíveis assim que se percepciona o “embuste correcto”.

    Subitamente, os homens que durante anos exigiram vigilância ética permanente sobre adversários políticos, transformam-se em terapeutas da prudência democrática. Tudo abranda e tudo ganha contexto. O escândalo deixa de o ser e passa a “instrumentalização”.

    A corrupção converte-se imediatamente em “polarização”. O problema já não é o facto em si, mas a possibilidade de esse facto alimentar forças políticas consideradas esteticamente indesejáveis.

    E talvez nenhum caso revele melhor esta patologia elegante do comentário mainstream do que a relação quase afectiva de certos comentadores portugueses com Pedro Sánchez.

    Ouvindo figuras como Pedro Marques Lopes, quase parece que Sánchez representava ainda o último grande estadista moral da Europa do Sul. Uma espécie de reserva ética da modernidade democrática. O homem que defenderia a civilização liberal contra os bárbaros populistas da extrema-direita.

    Sánchez nunca foi apenas um político para esta classe comentadora. Era uma necessidade psicológica profunda. Precisavam dele para continuar a acreditar que ainda existia uma esquerda institucional elegante, moderna, cosmopolita, fotogénica e moralmente superior.

    Precisavam daquela figura bem iluminada, daquele progressismo visualmente apresentável, para esconder uma realidade bastante menos cinematográfica: aparelhos partidários exaustos, clientelismo administrativo, redes de influência, profissionalização absoluta da sobrevivência política e uma crescente substituição da governação pela gestão narrativa da moralidade pública.

    O sanchismo foi talvez uma das primeiras grandes experiências europeias de poder pós-ideológico totalmente mediado pela percepção.

    Já não se governa apenas através de decisões políticas, mas também por meio de enquadramentos emocionais permanentes, de uma produção contínua de linguagem moral. Criaram um Ministério da Igualdade totalmente sinistro, com uma gestão do “medo correcto”.

    A coisa mais parecida com o mito orwelliano, com uma putativa administração da ansiedade democrática.

    O poder deixa de se apresentar como poder e passa a apresentar-se como protecção psicológica contra monstros externos permanentemente convocados para legitimar a própria máquina institucional.

    Quem for contra é fascista. Quem apenas ouse questionar é fascista. Mas o dinheiro acabou para esses lados como tudo leva a crer.

    E é precisamente aqui que comentadores como Pedro Marques Lopes se tornam instrumentais, ainda que com cada vez menos audiência.

    A idiotice torna-se cada vez mais inútil.

    Este género de comentador tudólogo legitima o ambiente emocional necessário para que esse poder continue culturalmente aceitável. Ainda que com um imenso atraso.

    O mais fascinante nestas figuras é que raramente mentem de forma explícita. Mentir seria intelectualmente demasiado grosseiro para este ecossistema, mas ostentam um conceito de verdade bastante alargado.

    E talvez o mais desconfortável seja admitir que Pedro Marques Lopes provavelmente acredita genuinamente em tudo isto. Mas não.

    A tragicomédia destas figuras reside no cinismo consciente, para parecer que estão a proteger a democracia de forças irracionais e perigosas.

    É precisamente essa convicção moral que os torna incapazes de reconhecer a degradação quando ela emerge do interior do próprio campo ideológico que emocionalmente habitam.

    Para alguns, isto pode ser também sinal de uma descompensação psicológica. Uma certa psicopatia faz bem à televisão. Mas não entremos por aí.

    A realidade espanhola começou entretanto a tornar-se demasiado densa para continuar a ser dissolvida em linguagem terapêutica.

    O caso Koldo. As redes de influência. Os contratos suspeitos. As figuras do aparelho socialista sucessivamente envolvidas em investigações. Begoña Gómez, a mulher de Sanchez, e o sogro com o negócio duvidoso das saunas. A rede de prostituição. O próprio irmão de Pedro Sánchez e os seus negócios estranhos. No entanto nada está provado, embora existam fortes suspeitas.

    O regresso de Zapatero como sombra estrutural desta esquerda ibérica, transformada numa máquina de sobrevivência comunicacional, mas alegadamente também traficante. Sim, traficante. O processo que envolve o ex primeiro ministro é longo.

    O ambiente geral de promiscuidade institucional que paira sobre o PSOE. A sensação crescente de um poder fechado sobre si próprio, progressivamente incapaz de distinguir governação de autopreservação.

    As coligações com o braço político da ETA, Bildu, e as coligações com a extrema-esquerda depois de prometer que jamais o faria.

    Durante anos venderam Espanha como um modelo democrático avançado, enquanto o edifício – precisamente por estar bem protegido – começava lentamente a apodrecer por dentro.

    Literalmente, talvez seja este o momento mais humilhante para uma determinada geração de comentadores europeus: o instante em que a realidade deixa finalmente de obedecer à narrativa que se organizou para conseguir suportá-la.

    Porque, no fundo, Pedro Sánchez nunca foi apenas Pedro Sánchez.

    Foi o último grande espelho no qual uma certa elite mediática europeia ainda conseguia ver reflectida a fantasia, ou a caricatura de si própria como classe moralmente superior, historicamente esclarecida e emocionalmente apta para administrar o futuro.

    Mas partiu-se.

    E Pedro Marques Lopes, como fiel depositário do sanchismo, andará agora de pá e vassoura na mão, à procura de outro par de botas que lhe apareça pelo caminho.

    Texto de Ruy Otero e de Bruno Cecílio (artistas media). Imagens de Ruy Otero e de The Swimming Pool Project

  • Da superstição ludopédica, ou de como o Torreense levou o caneco

    Da superstição ludopédica, ou de como o Torreense levou o caneco

    O futebol, sendo talvez a mais irracional das actividades humanas organizadas, tem o condão de converter até o mais cartesiano dos homens num pequeno pagão doméstico. O engenheiro que despreza astrologia muda de lugar no sofá porque da última vez resultou. O professor universitário que discorre sobre probabilidades evita lavar a camisola da sorte. O gestor que ridiculariza crendices benze-se antes de um penálti.

    No futebol, há uma suspensão temporária da razão que não envergonha ninguém. Pelo contrário, humaniza, porque, ao contrário de tantos domínios domesticados da vida moderna, o futebol ainda preserva uma dimensão de caos tribal que afronta a nossa necessidade de controlo.

    Foi neste terreno fértil de irracionalidade consentida que floresceu, com algum vigor e considerável maledicência, a tese — ou mito, ou superstição operacional, ou até hipótese paranormal com indícios empíricos — de que eu, benfiquista de convicção antiga e desgostos modernos, dava sorte ao Sporting.

    A teoria teve como principal doutrinador o meu camarada de pena Carlos Enes, homem de fé leonina e imaginação estatística selectiva, que, na sua varanda sportinguista, foi consolidando a narrativa segundo a qual a minha simples presença em jogos do Sporting funcionaria como uma espécie de amuleto involuntário. A evidência, admito, chegou a parecer desconfortavelmente robusta.

    Sempre que me aproximava de um evento sportinguista, algo corria bem para os verdes. Incluindo, humilhação suprema, jogos contra o próprio Benfica. Lá estive eu na Luz naquele empate dramático do ano passado, esse empate que decidiu um campeonato que esteve quase, e que os sportinguistas celebraram com a contenção emocional de vikings embriagados.

    Lá estava eu também em noites europeias memoráveis para os lagartos. Assisti, em Alvalade, ao 4-1 ao Manchester City. Vi este ano a vitória sobre o Paris Saint-Germain. A reviravolta épica contra o FK Bodø/Glimt. A determinada altura, a coincidência começou a ganhar contornos de caso clínico.

    Mas como toda a superstição séria exige revisões periódicas, a minha carreira de talismã começou a degradar-se. Também fui eu quem assistiu ao 1-0 em Lisboa contra o Arsenal. Também fui eu quem viu, em Alvalade, a derrota do Sporting no último suspiro contra o Benfica, ainda que essa alegria se revelasse administrativamente inútil. E agora, consumando um ritual que nem eu sabia possuir, fui pela terceira vez ao Jamor ver uma final da Taça de Portugal com o Sporting.

    Convém notar: eu, homem de estádios, mas não particularmente do Jamor, nunca tinha lá ido durante décadas. E eis que, nos últimos três anos, transformei-me numa espécie de peregrino da mata. Há dois anos, o Sporting perdeu com o FC Porto. No ano passado, para meu lombo e melancolia benfiquista agravada, e também raiva, o Benfica perdeu com o Sporting, numa tarde em que até o relvado, além do árbitro, parecia ter escolhido lado. Agora, regressado ao local do costume, desta vez sem a presença do Carlos Enes, assisti à consumação de mais um episódio que obriga a rever a tese do talismã.

    O Torreense — bravo, disciplinado, sacrificado e descomplexado — fez aquilo que os teóricos do futebol chamariam improvável e os cronistas, com preguiça, chamarão histórico. Não foi um assalto oportunista nem um acidente meteorológico. Foi, é certo, um daqueles jogos em que a equipa pequena marca cedo, mas a equipa da segunda liga não fechou a oficina nem passou noventa minutos a praticar alvenaria táctica. Não. Jogou melhor em muitos momentos. Sofreu como quem sabe sofrer, mas também ousou como quem não recebeu o memorando sobre hierarquias nacionais. E ganhou o caneco de forma mais que merecida.

    Donde, perante esta sucessão de eventos, só há duas hipóteses em tese. Ou a minha capacidade talismânica se esgotou por excesso de utilização, como uma pilha emocional barata comprada numa loja de conveniência futebolística. Ou, hipótese mais inquietante, nunca dei sorte a ninguém. Estou mais inclinado para a certeza de que existe apenas a necessidade humana de construir narrativas causais a partir de coincidências, essa doença cognitiva tão respeitável quanto universal.

    O futebol é, na verdade, especialmente fértil nesse impulso. Não suportamos que vinte e dois homens aos pontapés e cabeçadas numa bola possam, em conjunto, produzir desfechos arbitrários (com ou sem influência dos árbitros) sem que exista um padrão secreto ou místico.

    Precisamos de explicações — e, se não as houver, inventamo-las. O avançado marcou porque entrou com o pé direito. O treinador ganhou porque mudou de gravata. O adepto X dá sorte. O comentador Y traz azar. A tia Matilde não pode telefonar durante penáltis.

    Mas talvez a conclusão seja outra. Porventura, e agrada-me esta ideia de ser um deus ex machina, eu não seja talismã de clube algum. Talvez seja apenas um acelerador de improbabilidades, uma espécie de partícula quântica da desordem futebolística. Onde apareço, os enredos complicam-se, os favoritos tremem, os cronistas ganham matéria-prima e os adeptos acrescentam novas camadas ao seu folclore privado.

    Se assim for, talvez a minha utilidade não esteja em dar sorte ao Sporting, azar ao Benfica ou bênçãos ao Torreense. Talvez a minha função seja mais nobre: introduzir caos narrativo suficiente para que o futebol continue a parecer maior do que a lógica.