Categoria: Crónica

  • Benfica vs. Viseu: um castigo justo que deixa o futebol sem testemunhas

    Benfica vs. Viseu: um castigo justo que deixa o futebol sem testemunhas

    Assisto agora mesmo, enquanto escrevo, como jornalista, ao Benfica–Académico de Viseu com o Estádio da Luz despojado daquilo que lhe dá sentido: pessoas. Não faltam apenas cadeiras ocupadas. Foi decretada uma proibição de assistência – estamos assim, perante um ‘jogo à porta fechada’, apenas acessível a jornalistas.

    Falta assim a conversa antes do apito inicial, a águia Vitória que raramente vejo sentado – embora já me tenha cruzado com ela duas vezes no elevador, sinal de que chego (quase) sempre atrasado –, a ansiedade, o protesto, o golo que se anuncia um segundo antes de se perceber se entrou.

    A proibição não nasceu de uma decisão da Liga, nem tem relação com o Académico de Viseu. O Benfica cumpre neste jogo uma sanção definitiva aplicada pela Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto — a APCVD — e confirmada pelo Tribunal da Relação.

    Esta decisão resulta de um cúmulo de processos por utilização e arremesso de artefactos pirotécnicos por adeptos do Benfica em cinco partidas da época de 2022/23. As recepções ao Midtjylland e ao Arouca, em Agosto de 2022, e o dérbi com o Sporting, em Janeiro de 2023, estão entre os episódios referidos. O processo inclui uma multa de 150 mil euros e deu como provado que uma lona numa zona especial de acesso serviu para ocultar utilizadores de pirotecnia.

    Convém explicar o que é a APCVD. Não se trata de uma comissão da Liga, de um órgão da Federação ou de uma polícia futebolística privada. Trata-se de um serviço central da Administração directa do Estado, tutelado pela área governativa do Desporto, que fiscaliza o cumprimento das regras contra a violência, o racismo, a xenofobia e a intolerância nos espectáculos desportivos. Pode instruir processos de contra-ordenação e aplicar coimas e sanções acessórias. A sua decisão, neste caso, foi submetida à apreciação judicial e ficou definitiva.

    Não contesto um castigo. Pelo contrário: considero-o mais do que justo. Os clubes organizam um espectáculo de milhões e, nessa medida, têm a obrigação de controlar acessos, contratar segurança e conhecer os sectores de maior risco; não podem comportar-se como simples senhorios de um estádio, a lamentar o que ocorre depois de abertas as portas.

    Cabe-lhes impedir a entrada e a utilização de engenhos proibidos. A pirotecnia não é uma tradição pitoresca nem uma decoração de bancada: transporta riscos de incêndio, queimaduras, pânico e lesões. O arremesso acrescenta-lhe uma dimensão de agressão que não admite relativizações. Quem promove um jogo deve responder quando os mecanismos de prevenção falham.

    O Benfica teria, por isso, de suportar uma punição séria. E muitos outros clubes que insistem, impávidos, a ver de onde de lanças esses engenhos. A alternativa de transformar cada incidente em folclore tolerado conduziria os estádios àquela mistura de impunidade e espectáculo que tantos clubes e comentadores fingem combater de segunda a domingo.

    A dúvida sobre esta sanção específica de ‘jogo à porta fechada’ surge sobre os alvos da pena. Fechar integralmente um estádio não penaliza apenas o Benfica – ou a sua SAD.É certo que, segundo estimativas, a inexistência de receita para um jogo desta natureza, que teria pelo menos 50 mil espectadpores, acarreta um prejuízo de cerca de 1,5 milhões de euros.

    Isso não me comove: um clube que falha deve pagar. Mas castiga também milhares de sócios e espectadores que nunca acenderam uma tocha, jamais lançariam um objecto e nunca tiveram qualquer intervenção nos factos. Retira-lhes um jogo que compraram, acompanham ou vivem como parte da sua vida cívica e afectiva.

    A injustiça torna-se ainda mais nítida do lado de Viseu. O Académico regressa ao principal escalão 37 anos depois e encontra, na estreia, um dos maiores palcos do futebol português sem adeptos de qualquer clube. Perde-se um momento que pertencia aos jogadores, aos visitantes e a uma cidade inteira que esperava celebrar um regresso histórico. Nenhum deles foi parte nas contra-ordenações que levaram ao castigo.

    O jogo à porta fechada contém, por isso, uma contradição desconfortável. A pena produz (um merecido) dano económico ao Benfica – e que, espera-se, interfere com a fiscalização futura –, mas transfere uma parte relevante da punição para pessoas alheias à infracção e esvazia o próprio objecto que o Estado afirma proteger: a possibilidade de realizar espectáculos desportivos em segurança. O relvado mantém-se, as câmaras transmitem e o resultado conta, mas falta a comunidade que transforma vinte e dois homens e uma bola num acontecimento colectivo.

    Uma sanção mais inteligente permitiria atingir com maior precisão quem deve ser atingido. E com vantagens acrescidas. O estádio poderia abrir, mas com a receita líquida integralmente afectada a programas públicos de prevenção da violência, formação de stewards, apoio a vítimas e iniciativas sociais ligadas ao desporto. A gestão desse dinheiro teria de ser pública, transparente e fiscalizável — não se trataria de criar uma caixa para a APCVD —, mas o efeito financeiro para o clube manter-se-ia sem confiscar a experiência de dezenas de milhares de pessoas.

    Essa solução deveria acumular-se com a interdição ou redução da lotação dos sectores associados aos incidentes, a identificação e sanção individual dos responsáveis e fiscalização mais exigente nos acessos. Quem frequenta os estádios portugueses sabe que a pirotecnia continua a aparecer com frequência excessiva, não só na Luz mas também em outros recintos. Uma política pública credível não pode reduzir-se a fechar a porta depois de a falha ter entrado.

    Escrevo isto como jornalista que acompanha o jogo e também como benfiquista que não vê nesta pena uma perseguição ao seu clube. Muito menos quero que a factura de 1,5 milhões seja usada como argumento de piedade. O Benfica falhou e deve responder; qualquer clube que falhe nas mesmas circunstâncias deve responder de igual modo. Peço apenas que o Estado e a APCVD encontrem uma resposta simultaneamente firme, proporcional e útil. Castigar quem organiza e não previne mostra-se necessário. Castigar também quem nada fez, e retirar ao Académico de Viseu a festa de um jogo que lhe pertencia, parece-me uma forma demasiado pobre de defender o futebol.

    [Acabei este texto ao intervalo. O Benfica ganhava por 1-0, poderia ter marcado mais. Enquanto editava texto, o Académico de Viseu empatou; o Benfica desempatou, e novo lance de bola parada deu empate. Os viseenses foram felizes, mas fizeram por isso. Foi um jogo interessante? Nem sei. Faltou o barulho bom dos adeptos. E o Marco Silva nem sequer é o Jorge Jesus: dizem-me que no tempo da pandemia, com as bancadas às moscas, fartava-se de dar umas ‘caralhadas’ bem audíveis. E imagino quantas teria dado hoje…]

  • A casa também joga: parte I

    A casa também joga: parte I

    O desporto já expulsou o tabaco. Falta saber se terá coragem para enfrentar as apostas

    Durante décadas, o desporto conviveu tranquilamente com o tabaco. A Fórmula 1 era uma montra ambulante de marcas de cigarros. Equipas, pilotos, estádios, torneios, transmissões televisivas e eventos internacionais exibiam, sem grande sobressalto moral, marcas que hoje nos pareceriam absolutamente deslocadas no mesmo espaço onde se fala de saúde, juventude, superação, disciplina e exemplo.

    O tempo passou, a ciência impôs-se, a saúde pública ganhou voz e o direito fez aquilo que tinha de ser feito: fechou a porta depois de anos a fingir que o problema era apenas comercial. O patrocínio do tabaco foi sendo restringido e, em larga medida, expulso do desporto. Hoje, poucos defenderiam seriamente que uma camisola de formação, um carro de Fórmula 1, uma final europeia ou uma transmissão em horário familiar deveriam voltar a ser instrumentos de promoção do tabaco – percebemos, finalmente, que havia dinheiro que custava demasiado caro.

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    A pergunta agora é outra. Quanto tempo demoraremos a perceber o mesmo em relação às apostas desportivas?

    O desporto expulsou o cigarro das camisolas, mas entregou-lhes o espaço simbólico às odds, aos bónus, aos códigos promocionais, às apostas em direto, aos “super odds”, aos “cash out” e à mentira publicitária mais perigosa de todas: a de que se pode apostar sem risco, sem dano, sem dependência e sem ruína.

    O problema não é a existência legal das apostas desportivas, não vale a pena fingir Inocência  onde há realidade económica, tecnológica e social. O jogo existe. Sempre existiu. O próprio direito, desde cedo, procurou regulá-lo, tolerá-lo, limitá-lo ou aproveitá-lo para fins públicos.  O problema não está apenas na existência do jogo: está na sua normalização agressiva dentro do espectáculo desportivo.

    O adepto já não é apenas convidado a ver o jogo. É incentivado, a cada intervalo, a apostar nele.

    E quando a experiência desportiva passa a ser acompanhada, quase em permanência, por estímulos para apostar, a questão deixa de ser apenas comercial. Passa a ser jurídica, regulatória e ética.

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    O desporto vende mérito. As apostas vendem ilusão de controlo.

    O desporto vende verdade competitiva. As apostas, quando mal reguladas, vivem perigosamente perto da sua adulteração.

    E aqui começa a contradição.

    Durante anos, aceitámos que o tabaco não podia ocupar o espaço simbólico do desporto porque associava um produto nocivo a valores positivos: saúde, sucesso, juventude, força, pertença. Mas as apostas fazem hoje algo muito semelhante – colam-se ao clube, à camisola, ao golo, ao estádio, ao influenciador digital, ao antigo jogador, ao jogador actual, ao relato televisivo, à emoção do adepto e à identidade colectiva. Não vendem apenas um produto. Vendem uma normalidade.

    A indústria das apostas não patrocina o desporto por amor ou paixão ao jogo; patrocina-o porque o desporto lhe dá aquilo que nenhuma campanha isolada conseguiria dar – confiança, emoção, pertença e legitimidade.

    E os números mostram que já não estamos perante uma realidade marginal.

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    No plano internacional, estimativas recentes apontam para que o mercado global das apostas desportivas tenha atingido cerca de 111,2 mil milhões de dólares em 2025, podendo chegar a 123,4 mil milhões em 2026 e a 236 mil milhões em 2033. A Europa surge, nesse quadro, como a região com maior peso na receita global do sector.

    Em Portugal, os dados mais recentes do Serviço de Regulação e Inspecção de Jogos são igualmente expressivos. No primeiro trimestre de 2026, a actividade de jogos e apostas online gerou 323,7 milhões de euros de receita bruta, mais 13,7% do que no trimestre homólogo. As apostas desportivas à cota representaram 36,9% dessa receita. No mesmo período, existiam cerca de 4,9 milhões de registos de jogadores, 1,3 milhões de registos com prática de jogo e 380,5 mil registos autoexcluídos da prática de jogos e apostas online.

    Mais, o primeiro trimestre de 2026 registou o maior volume trimestral de apostas desportivas de sempre em Portugal, com cerca de 587 milhões de euros apostados. A receita bruta das apostas desportivas subiu de 114,9 milhões para 119,5 milhões de euros face ao período homólogo.

    Com estes números, as apostas deixaram de ser apenas um vício individual. Passaram a ser uma infraestrutura económica em redor do desporto.

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    E quando uma indústria com esta dimensão entra no desporto, não compra apenas visibilidade. Compra normalidade. Compra confiança. Compra associação simbólica a clubes, atletas, camisolas, estádios, golos, vitórias e pertença. É precisamente por isso que o paralelismo com o tabaco incomoda: durante muito tempo também se disse que era apenas publicidade, apenas patrocínio, apenas dinheiro necessário ao desporto. Até ao dia em que a sociedade percebeu que nem todo o dinheiro deve poder vestir uma camisola.

    E o direito sabe isto, ou devia saber.

    O regime jurídico português não trata os jogos e apostas como mera actividade recreativa. O Código da Publicidade exige que a publicidade a jogos e apostas seja socialmente responsável, proteja grupos vulneráveis, não apele à obtenção fácil de ganhos, não sugira sucesso ou êxito social por efeito do jogo e não encoraje práticas excessivas. Proíbe ainda publicidade dirigida a menores, publicidade no interior de escolas ou noutras infraestruturas destinadas à frequência de menores, publicidade a menos de 250 metros desses locais e a associação das entidades exploradoras à concessão de empréstimos.

    Isto é muito importante – o próprio sistema reconhece que as apostas desportivas não são apenas entretenimentos, são risco público regulado.

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    E quando o direito reconhece um risco público, não pode depois permitir que esse risco seja vendido como se fosse uma extensão natural da paixão desportiva.

    Há quem responda com a frase habitual – se não for legalizado, cresce o mercado ilegal. É verdade. Esse argumento já estava presente, historicamente, na legalização de apostas como o Totobola: a ideia de que o melhor seria dotar o sistema de garantias, assegurar lisura e aproveitar receitas para fins de assistência, educação física e desporto, evitando o crescimento do mercado clandestino.

    Mas esse argumento não resolve tudo. Legalizar não é ajoelhar, regular não é entregar o estádio. Admitir a existência de uma actividade de risco não obriga a transformá-la em paisagem permanente do desporto.

    0 Estado pode regular sem normalizar.

    A experiência do tabaco devia ter-nos ensinado isto – uma indústria pode ser legal e, ainda assim, não dever ocupar livremente o espaço simbólico de crianças, jovens, atletas e adeptos.

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    A dependência do jogo não deixa fumo no ar, mas deixa desgraça em casa.

    Destrói famílias, salários, poupanças, relações, patrimónios e estabilidade emocional. Há uma dimensão doméstica, silenciosa, envergonhada, que raramente entra na linguagem limpa da regulação. Fala-se em “jogo responsável”, “autoexclusão”, “protecção do consumidor”, “publicidade moderada” e “boas práticas”. Tudo expressões correctas, administrativas e higiénicas. Mas a vida real é menos limpa. Há pessoas que deixam de pagar rendas, destroem famílias, contraem crédito, vendem bens, afundam-se em dívidas e só muito tarde percebem que já não estão a jogar, – estão a ser jogadas.

    E não vale a pena fingir que o dinheiro não pesa. Pesa. Pesa nos clubes, nas ligas, nas federações, nos órgãos de comunicação social, nos eventos, nos patrocínios e nas transmissões. As receitas fazem falta, o desporto profissional vive de dinheiro e o desporto não profissional precisa dele ainda mais.

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    Mas esse argumento também existia no tabaco.

    A pergunta não é se o dinheiro faz falta – faz sempre.

    A pergunta é se todo o dinheiro deve poder comprar lugar no desporto.

    Em Portugal, esta pergunta não é abstracta. A principal competição profissional de futebol chama-se Liga Portugal Betclic, porque a Betclic é naming sponsor do campeonato desde a época 2023/2024. A casa de apostas não está apenas à volta do jogo: dá nome ao próprio campeonato.

    Há dinheiro que financia, que condiciona, que captura.

    E o direito existe precisamente para distinguir uma coisa da outra.

    Não defendo uma cruzada moralista contra as apostas desportivas. O moralismo é, quase sempre, má conselheira legislativa. Proibir tudo, de um dia para o outro, pode empurrar parte do mercado para zonas ainda mais opacas. Mas também não aceito a resignação cobarde de quem olha para o problema e diz,  “é assim mesmo, os clubes precisam”.

    Entre a proibição cega e a entrega sem pudor existe o território sério da regulação.

    O direito comparado mostra que esta discussão já não é excêntrica.

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    Em Itália, o chamado Decreto Dignità, de 2018, proibiu qualquer forma de publicidade, directa ou indirecta, relativa a jogos ou apostas com prémios em dinheiro, em qualquer meio, incluindo manifestações desportivas, transmissões televisivas ou radiofónicas, imprensa, internet, canais digitais e redes sociais. A partir de 1 de janeiro de 2019, a proibição passou também a abranger patrocínios de eventos, actividades, manifestações, programas, produtos ou serviços. É um modelo duro, discutível em alguns contornos, mas juridicamente revelador: houve coragem para tratar a publicidade ao jogo como problema de saúde pública e protecção do consumidor.

    Nos Países Baixos, a opção foi igualmente restritiva. A proibição de publicidade dirigida ao jogo online entrou em vigor em 1 de julho de 2023, com um período transitório para o patrocínio desportivo. A partir de 1 de julho de 2025, os operadores online deixaram de poder desenvolver actividades de publicidade ou recrutamento através de patrocínio desportivo. Ou seja, o legislador e o regulador perceberam que o patrocínio não é um detalhe neutro, é publicidade com camisola, emblema e emoção.

    Na Bélgica, o caminho também foi de redução progressiva da visibilidade do jogo no desporto. O regime aprovado em 2023 assumiu expressamente o objetivo de proteger menores e grupos vulneráveis e de combater a normalização do jogo. Desde 2025, a publicidade em equipamentos desportivos ficou sujeita a limites mais apertados e excluída da frente da camisola. A partir de 2028, os operadores deixam de poder patrocinar associações desportivas profissionais. É uma solução gradual, mas com uma direcção clara – menos jogo colado ao peito do desporto.

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    No Reino Unido, a própria Premier League, ainda que por via voluntária e não por imposição legislativa directa, acordou retirar os patrocínios de empresas de apostas da frente das camisolas dos clubes a partir do final da época 2025/2026. A solução é incompleta, porque não elimina publicidade nas mangas, painéis, parcerias ou outros espaços comerciais. Mas revela um reconhecimento político e desportivo difícil de ignorar: a presença das apostas no peito dos clubes tornou-se um problema de legitimidade.

    Na Austrália, a restrição é especialmente interessante porque incide sobre o momento de maior exposição emocional: o jogo ao vivo. As regras aplicáveis à publicidade a apostas durante transmissões desportivas em directo proíbem publicidade e promoção de cotas durante o jogo e impõem restrições agravadas nos períodos de maior exposição de crianças. A lógica é evidente: quanto mais intensa é a emoção desportiva, maior deve ser a contenção publicitária.

    Espanha mostra, por sua vez, a dificuldade jurídica do tema. O Real Decreto 958/2020 restringiu fortemente as comunicações comerciais das actividades de jogo, mas o Supremo Tribunal espanhol anulou, em 2024, vários preceitos desse diploma. Isto não enfraquece a discussão; torna-a mais séria. A regulação das apostas tem de ser firme, mas também tecnicamente bem desenhada, constitucionalmente sustentada e proporcional. Não basta ter razão moral – é preciso ter boa construção jurídica.

    Estes exemplos revelam uma tendência clara: a publicidade ao jogo e às apostas já não é tratada, em vários ordenamentos, como publicidade indiferente. Há países que avançaram para proibições quase totais, outros para restrições temporais, outros para limitações no equipamento desportivo, outros para soluções graduais ou voluntárias. Mas todos partem da mesma pergunta – até que ponto deve o desporto continuar a oferecer a sua credibilidade, os seus clubes, as suas camisolas, os seus atletas e a sua emoção a uma indústria que depende da aposta repetida e, em muitos casos, da vulnerabilidade do apostador?

    Portugal deve fazer essa pergunta sem medo.

    A resposta portuguesa não tem de copiar cegamente nenhum destes modelos, mas também não pode fingir que nada se passa à nossa volta.

    Bruno dos Santos Pereira é advogado e sócio na sociedade SPASS . É pós-graduado em Direito do Desporto.

    ***

    Poder ler aqui a segunda parte.

  • Raquel Varela, ou a arte de ajuizar sem ter juízo

    Raquel Varela, ou a arte de ajuizar sem ter juízo


    COMPRE na LOJA DO PÁGINA UM

    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Daqui, onde nunca se publicam recensões — a Providência retirou os autores de circulação, talvez para os poupar à escrita dos críticos, e estes, uma vez chegados cá, descobrem enfim o que custa ler um livro até ao fim —, tenho dedicado algumas horas vagas ao estudo de uma faculdade humana que os naturalistas, inexplicavelmente, deixaram fora dos seus compêndios: a aptidão para formar juízo antes de adquirir conhecimento.

    No mundo dos vivos, Teofrasto estudou as pedras; Plínio, o Velho, quase tudo o que encontrou entre elas e o firmamento; Lineu classificou as plantas; Buffon, os animais; Cuvier, os ossos; Lombroso, com resultados menos felizes, os criminosos pela forma do crânio. Nenhum deles, porém, se lembrou de estudar o Homo opinans, espécie abundantíssima, reconhecível pela prontidão com que conclui e pela lentidão com que verifica. O Homo sapiens pensa; o Homo opinans já pensou. Aquele hesita diante da complexidade; este resolve-a antes de tomar o pequeno-almoço.

    A minha entrada antecipada na confraria dos finados, associada ao pouco entusiasmo dos boticários — homens que acolhem qualquer cura com a reserva de quem vê o negócio ameaçado —, não consentiu que o meu génio terapêutico amadurecesse nas ciências nem que legasse à Humanidade o emplasto destinado a aliviar-lhe a melancolia. Conservo, ainda assim, ciência bastante para ensaiar uma modesta taxonomia das almas opinativas.

    Esta espécie não apareceu ontem. Os sofistas já ensinavam a vencer uma disputa sem o incómodo de ter razão. Os escolásticos discutiam quantos anjos caberiam na ponta de uma agulha, embora nenhum apresentasse uma agulha nem trouxesse um anjo para medição. Pico della Mirandola propôs-se defender novecentas teses sobre todas as matérias conhecidas, mas teve a prudência de viver antes das redes sociais; hoje teria de defender novecentas teses por manhã e ainda comentar a crise ministerial ao jantar.

    Montaigne, homem desconfiado, perguntava: Que sais-je? A interrogação fez-lhe a reputação. No vosso tempo, arruiná-la-ia. Imaginai um comentador convidado a pronunciar-se sobre a guerra, a inflação, a inteligência artificial, a queda do Império Romano, o teatro pós-dramático e a composição química dos iogurtes, respondendo: “Que sei eu?” Ao segundo programa seria substituído por alguém que soubesse menos, mas falasse mais depressa.

    Darwin, que não ignorava a fauna moral da espécie, deixou escrito que “a ignorância gera mais frequentemente confiança do que o conhecimento”. Eu, menos severo — talvez por já não disputar lugar no vosso mundo —, acrescentaria que a ignorância, quando tímida, nunca causa grande dano. Pode até possuir certa graça: o homem que não sabe cala-se, pergunta ou muda de assunto.

    Mais perigosa é a ignorância depois de adquirir vocabulário. Essa cita contextos, invoca estruturas, denuncia paradigmas, passeia pela hermenêutica, pela arqueologia, pelo cinema e pela geopolítica e, se lhe pedem uma data, considera a pergunta positivista.

    Nos meus tempos, para certos livros, existia a fórmula “não li, mas gostei”. Era um gesto de amizade literária. Comprava-se o livro, elogiava-se o título, acariciava-se a lombada e prometia-se uma leitura para depois do verão. O autor recebia o elogio; o leitor conservava a tarde. Tratava-se de uma pequena hipocrisia civilizadora, comparável a dizer que a criança é muito parecida com o pai quando ninguém deseja averiguar o assunto.

    Agora, a modernidade inventou uma fórmula mais audaciosa: “não li e não gostei”.

    Esta segunda modalidade é, do ponto de vista intelectual, mais económica: dispensa a leitura, sacode a simpatia e expulsa até a dúvida. O crítico não perde tempo com o objecto, que poderia enfraquecer-lhe a opinião. A obra permanece intacta, fechada e, portanto, incapaz de contradizê-lo. Nada é mais perigoso para uma convicção do que o contacto com aquilo sobre que se formou.

    Esta última espécie, porém, não deve ser confundida com todos os que se pronunciam sobre livros ou filmes sem lhes fazerem antes a arqueologia completa. A vida é breve, o catálogo do mundo é excessivo e, no caso do cinema, ainda há a obrigação de sobreviver à publicidade antes de chegar à sala. O episódio que me ocorreu é de natureza mais subtil.

    Esta reflexão ocorreu-me a propósito de uma apreciação de Raquel Varela sobre uma adaptação cinematográfica da Odisseia. Nem de propósito: tenho por esta historiadora aquela simpatia que se deve às inteligências combativas. Atira-se às polémicas como Aquiles entrava na batalha: com energia, rapidez e escassa disposição para deixar sobreviventes. Professora, investigadora e presença assídua no debate público, discorre sobre História, trabalho, política, sociedade, Economia e outros vastos continentes do saber com uma desenvoltura e uma segurança capazes de fazer o próprio Diderot corar diante da sua Enciclopédia.

    A certeza é, aliás, um dos seus talentos mais visíveis. Há pessoas que chegam a uma conclusão depois de atravessarem as dúvidas; outras preferem saltar por cima delas. Raquel pertence à segunda escola, que é mais veloz, exige menos bagagem e chega primeiro aos estúdios.

    Tudo corre admiravelmente enquanto se percorrem províncias onde a convicção vale quase tanto como a prova. Na política, uma certeza bem projectada pode passar por carácter; na Economia, uma estatística escolhida com números sustenta uma tarde inteira. A Cultura, porém, tem o desagradável costume de conservar os seus mortos: Homero, Ésquilo, Dante, Cervantes, Shakespeare e outros defuntos de péssimo feitio, que escreveram demasiado e se recusam, mesmo depois de enterrados, a caber numa tese de quinze linhas.

    Ora, Raquel escreveu-vos a dizer que foi ao cinema assistir à adaptação da Odisseia e saiu da sala exausta. O filme pareceu-lhe um suplício: barulho ensurdecedor, movimento frenético, emoções primárias, contagem de corpos, uma espécie de videojogo destinado a um público educado para a falta de atenção. Até aqui, nada a objectar. Quem pagou o bilhete adquiriu também o direito ao tédio, à irritação e, em casos extremos, ao desejo de fugir do intervalo ou após acabar o balde de pipocas.

    Mais delicada se mostrou a afirmação de que o realizador apagara tudo o que seria importante na obra: as alegorias, a memória, os encontros, o amor, a escolha e o canto das sereias. Porém, pouco depois, com uma franqueza que quase salva a empresa, Raquel Varela confessou nunca ter lido a Odisseia.

    Admirei o método.

    Não é qualquer pessoa que consegue comparar um filme com um livro que não leu e determinar, com precisão, quais os elementos que a adaptação suprimiu. Exige imaginação, autoridade e uma resistência considerável à embaraçosa vigilância da lógica. Ulisses precisou de dez anos para regressar a casa; a crítica contemporânea chega lá em dois parágrafos, sem mapa, sem navio e sem Virgílio, autor da Odisseia, como me ensinou o padre Lopes, meu antigo professor de latim.

    Virgílio o quê?! Não me interrompais!

    Voltarei a Virgílio mais adiante…

    Este episódio recordou-me o conselheiro Venâncio Pires de Alvarenga, que jamais assistira a uma ópera, mas detestava Wagner por excesso de metais. Perguntei-lhe certa vez qual das obras do alemão lhe parecera mais barulhenta.

    — Nenhuma — respondeu. — Nunca me sujeitei a ouvi-las.

    — Então como sabeis que são barulhentas?

    — Meu caro Brás, um homem não precisa de cair a um poço para concluir que o fundo é húmido.

    Venâncio passou quarenta anos a evitar poços, Wagner e todos os factos susceptíveis de modificar-lhe as conclusões. Morreu especialista nos três temas.

    Esta tentação de falar sobre tudo não nasceu com as redes sociais: é anterior à imprensa, ao mexerico e aos próprios mentideros — e suspeito de que preceda a linguagem, pois o homem terá começado a formar opiniões alguns minutos antes de aprender a exprimi-las. O século que aí corre não inventou assim o vício — limitou-se a dar-lhe velocidade, plateia e um botão para publicar.

    O sábio antigo sabia pouco e, por isso, perguntava. O sábio de agora sabe tudo e, por isso, fala, escreve e publica. Sócrates, que afirmava saber apenas que nada sabia, seria agora afastado de qualquer debate por manifesta insuficiência curricular. Como convidar para comentar uma guerra na Trácia um indivíduo que começa por confessar ignorância? Alcibíades, pelo contrário, reuniria todas as qualidades exigidas: boa presença, vocabulário flexível e capacidade para defender Atenas, Esparta e a Pérsia em três canais diferentes na mesma noite.

    Julgo, aliás, que Sócrates foi condenado à cicuta por se recusar a preencher uma grelha de competências. Ou talvez tenha sido Séneca. Paciência: ambos morreram e nenhum apresentou reclamação dentro do prazo.

    A erudição verdadeira, bem sei, pesa mais que os ossos. Obriga a comparar fontes, verificar datas, distinguir uma personagem de outra e reconhecer que certas matérias são maiores do que o vosso conhecimento. A falsa erudição, pelo contrário, é leve como espuma. Permite atravessar Homero, a Bíblia, Shakespeare, Marx, Freud, o cinema expressionista, a arqueologia micénica e a tinta pomorina antes do almoço, conservando ainda energia para explicar a estratégia naval no Mediterrâneo depois do café.

    Conheci no Rio de Janeiro o doutor Epaminondas Castelo Branco, que dominava todas as ciências, excepto aquelas que estudara. Por isso, falava de Medicina aos advogados, de Direito aos médicos, de Engenharia aos poetas e de Poesia aos engenheiros. Nunca escolhia um auditório capaz de o desmentir — era prudente. Desse modo, sustentava que a peste de Atenas fora causada pela queda do Império Romano, que Napoleão perdera Waterloo por não ter lido Maquiavel e que Cleópatra seduzira Júlio César durante as Cruzadas. Quando alguém lhe apontava uma inexactidão, Epaminondas sorria:

    — Meu caro, não se prenda a pormenores. Estou a falar do essencial.

    O essencial é um esconderijo muito cómodo. Cabe lá qualquer disparate, desde que seja pronunciado com voz grave. Se disserdes que Aquiles morreu atingido no cotovelo, aparecerá um pedante a corrigir-vos: foi no calcanhar. Respondei-lhe que o cotovelo representa um símbolo da vulnerabilidade das articulações do poder. O aristarco ficará embaraçado, vós ficareis profundos e Aquiles continuará morto, incapaz de esclarecer a controvérsia.

    Posto isto, nunca ter lido a Odisseia não constitui falta digna de censura. A vida é breve, as bibliotecas são compridas e há livros que a prudência manda conservar fechados.

    Mais singular é transformar essa ausência de leitura em instrumento de comparação: não conheço o original, mas sei que a adaptação o atraiçoou; não estudei a matéria, mas identifico sem esforço os erros de quem a estudou; nunca visitei o país, mas compreendo-lhe melhor a alma do que os habitantes; não assisti à peça, mas ofendeu-me a encenação; não ouvi a entrevista, mas reprovo-lhe o tom. Convenhamos, esta é uma sublime forma superior de conhecimento: dispensa o contacto com o objecto e preserva intacta a certeza — o milagre moderno da opinião sem contacto.

    São Tomé precisou de tocar nas chagas de Cristo para acreditar. Hoje seria censurado por excesso de exigência documental. Bastaria ter visto uma fotografia truncada, lido três comentários e recebido uma mensagem de um primo que conhecia alguém no Sinédrio. “Felizes os que não viram e acreditaram”, disse Moisés no Sermão da Montanha, máxima que viria a constituir o princípio fundador das caixas de comentários.

    Não foi Moisés?!

    Adiante…

    Em verdade vos digo, a crítica cinematográfica oferece terreno fértil a estas façanhas porque o espectador sai da sala ainda vibrando, física ou moralmente. Se o filme tem estrondo, acusa-se o realizador de barulho; se tem silêncio, de pretensão; se explica, de didactismo; se não explica, de hermetismo; se respeita o livro, de falta de imaginação; se o altera, de sacrilégio. O crítico possui sempre uma porta de emergência, mesmo quando o cinema não a possui.

    Pode assim declarar-se que o filme destruiu “as alegorias, a memória, os encontros, o amor e a escolha”. São palavras excelentes: tanto servem para Homero como para Proust, para um anúncio de perfume e para a ementa de um casamento. A sua vantagem está em ninguém saber exactamente que cena provaria a presença ou a ausência de cada uma. Onde termina a memória e começa o encontro? Quantos decibéis apagam uma alegoria? A partir de que número de cadáveres deixa uma guerra de ser homérica e passa a ser contemporânea?

    A resposta depende, com naturalidade, do comentário que se deseja escrever.

    Nada disto impede que um filme seja péssimo — um suplício, um videojogo de três horas, uma sucessão de explosões com actores lá dentro. Não o vi. E, justamente por não o ter visto, encontro-me numa posição de singular inferioridade perante quem viu. Posso desconfiar, ler críticas, conhecer o realizador e estudar a produção, mas jamais posso recordar o que não presenciei.

    Esta modéstia elementar está a cair em desuso. O vosso tempo considera que admitir desconhecimento equivale a perder autoridade, quando é quase sempre a única forma de a merecer. Também eu, confesso agora, cometi neste texto algumas “ligeiras” imprecisões. Virgílio não escreveu a Odisseia, mas a Eneida; Homero ficou com Ulisses, embora não se saiba ao certo quem ficou com Homero. Sócrates bebeu cicuta; Séneca abriu as veias por ordem de Nero, que não estava no júri ateniense. Moisés não pronunciou a frase sobre os que não viram; foi Cristo, depois da incredulidade de Tomé. E Cleópatra dificilmente poderia ter seduzido César durante as Cruzadas, visto que ambos tiveram a indelicadeza de morrer mais de mil anos antes.

    Deixei os erros ficar porque me pareceram expressivos. Esta é, aliás, a defesa mais usada por quem é apanhado em falso: o erro não era erro, era metáfora; a falsidade não era falsidade, era provocação; a ignorância não era ignorância, era uma crítica ao modo como construímos o conhecimento. Um homem pode confundir Aristóteles com Aristófanes e, descoberto o equívoco, declarar que quis demonstrar a proximidade secreta entre Filosofia e Comédia. Se o público aceitar, nasceu um ensaísta. Se não aceitar, nasceu uma polémica. Em qualquer dos casos, este homem será convidado para falar.

    Por isso, sapientes leitoras e doutos leitores, quando não souberdes, experimentai uma extravagância: calai-vos. Não por humildade cristã, que dá muito trabalho, mas por vaidade bem administrada. O silêncio nunca é citado contra quem o produz.

    Já uma opinião pode sobreviver vinte anos nas mãos de um inimigo, enquanto uma hesitação dura apenas o tempo de uma pergunta. E, por sua vez, um inteligente “não sei” dito a tempo poupa-vos à penosa tarefa de escrever três páginas para explicar que Virgílio era Homero em sentido alegórico.

    Quanto à Odisseia, não vos direi se a adaptação é fiel, infiel, ruidosa ou sublime. Nem vi o filme, mas li com deleite este célebre romance de viagens em que o troiano Ulisses regressa a Esparta, embora já não saiba se todo, se metade ou apenas as páginas que não saltei. A memória, depois da morte, detém a mesma fidelidade de certas adaptações cinematográficas.

    Mas posso assegurar-vos uma coisa: entre passar dez anos perdido no mar e passar três horas numa sala de cinema a olhar para o relógio, Ulisses escolheria o mar. Ao menos as sereias cantavam sem colunas Dolby Surround.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

    [Acaba Homero de me advertir de que Ulisses não era troiano, nem regressava a Esparta e aquilo que ele escreveu jamais poderia ser tido por romance. Felicitou-me, contudo, por eu conservar a Antiguidade, o Mediterrâneo e o protagonista. Nem toda a inexactidão alcança tamanha unidade.]

  • O Bem, o derradeiro álibi de um ministro nebuloso

    O Bem, o derradeiro álibi de um ministro nebuloso


    COMPRE na LOJA DO PÁGINA UM

    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

    ***

    Daqui, de onde vos escrevo, rijas donzelas e hirtos cavalheiros, chegam os ministros sem motorista, os directores-gerais sem cartão de visita e os grandes homens sem o pequeno séquito que lhes sustentava a grandeza. Despojados do gabinete, da precedência protocolar e daquele ar de eternidade que acompanha os automóveis oficiais, ei-los a observar com rara nitidez uma verdade que, aí por cima, costuma circular mascarada de teoria política: o poder não transforma os homens; limita-se a proporcionar-lhes melhores instalações para exibirem aquilo que sempre foram.

    Conceda-se a um sujeito um gabinete forrado a madeira, um chauffeur à porta, três assessoras à retaguarda, dois telefones sobre a secretária e a consoladora persuasão de que a sua consciência constitui uma fonte subsidiária de Direito, e logo o veremos confundir o próprio juízo com a razão de Estado. Consumada esta pequena transubstanciação administrativa — pela qual um mortal de expediente passa a considerar-se intérprete autorizado da Providência —, desaparece-lhe até o vocabulário vulgar da culpa.

    O homem comum, quando se engana, pede desculpa — por vezes chega mesmo a corar, manifestação fisiológica que o exercício prolongado do poder tende a curar. O poderoso, quando se engana, convoca o contexto. Se o contexto não bastar, invoca a complexidade. Se a complexidade se mostrar ingrata, chama o interesse público, esse vasto guarda-chuva sob o qual cabem todas as conveniências privadas. E, quando se esgotam os substantivos administrativos, as perífrases técnicas e as nebulosas circunstâncias, surge finalmente o Bem, de toga branca, auréola regulamentar e honorários pagos pelo erário, a exercer o seu antigo ofício de advogado de causas perdidas.

    In illo tempore — que é como quem diz, nos meus tempos de vivo —, o conselheiro Venâncio de Alvarenga, que serviu três ministérios do Império, atravessou quatro reformas administrativas e nunca chegou a perceber qual era a sua função, costumava dizer: “Autoridade que manda nunca erra; é apenas mal compreendida.”

    Venâncio nunca leu Maquiavel nem Hobbes, nem sequer os editoriais do Diário de Notícias do senhor Filipe Alves, circunstância que muito favoreceu a sua carreira. Sabia apenas, pela observação paciente dos superiores, que o poder desenvolve no espírito uma espécie de alergia à culpa.

    Segundo essa jurisprudência íntima do poder, o governante deixa de praticar actos: passa a atravessar circunstâncias. Não toma decisões discutíveis: enfrenta dilemas. Não beneficia ninguém: preserva relações institucionais. Não omite: jamais foi informado. Não se esquece: ocorreu uma efémera falha procedimental. E, quando o sucedido possui a indelicadeza de deixar vestígios, declara, com a serenidade dos mártires e o aprumo dos inocentes profissionais, que tudo fez em nome do Bem.

    Eis por que não vos deve admirar que Luís Neves, quando por fim falou sobre aquilo que toda a gente conhece, tenha trocado o rés-do-chão dos factos pelo andar nobre da metafísica. A matéria é toda terrena: uma herdade alentejana e o seu empreiteiro de Barcelos, com obras secretas para a Polícia Judiciária, um tanque que ascendeu à dignidade balnear de piscina em zona protegida e algumas soluções arquitectónicas que parecem ter resultado de um conciliábulo entre um mestre-de-obras, um cenógrafo de telenovela e um proprietário de churrasqueira com leituras ocasionais de Andrea di Pietro della Gondola, vulgo Palladio.

    Perante tão pedestre catálogo de terras, betão, água e contratos, Luís Neves preferiu elevar a defesa ao firmamento. E assim escolheu uma frase digna de figurar entre as grandes relíquias da antropologia política: “Nem sempre acertei, mas estive sempre do lado do Bem.”

    A primeira metade da frase aparenta uma concessão; mas já a segunda recolhe-a imediatamente, embrulha-a e manda-a de volta ao remetente. Nem sempre acertou, admite Luís Neves; porém, os seus erros pertencem à categoria superior das falhas virtuosas. Tropeçou, talvez, nos meios, mas triunfou na geografia moral. Pode ter tomado a estrada errada, passado um sinal vermelho, abalroado dois regulamentos e estacionado sobre a responsabilidade, mas conduzia para o lado do Bem. E quem segue para o Bem, como sabe qualquer condutor de viatura oficial, julga-se, com inteira naturalidade, dispensado de portagens.

    No meu Rio de Janeiro, o desembargador Honório de Sá Barreto, presidente vitalício de uma comissão imperial para apurar irregularidades, definiu assim esta magna matéria: “O erro do homem público não é propriamente erro quando a intenção traz plastrão.”

    Esta frase vale por um tratado. Um delito, quando praticado em mangas de camisa, desce ao xadrez; de sobrecasaca, colete e gravata de seda, sobe a controvérsia administrativa. Uma omissão praticada por um contínuo dá processo disciplinar; cometida por um dirigente superior chama-se insuficiência de articulação. Uma vantagem recebida por um cidadão comum desperta suspeitas; recebida por um ministro transforma-se numa conjugação infeliz de circunstâncias. A hierarquia não melhora os actos, mas aprimora o vocabulário.

    Mas a verdadeira engenhosidade da frase de Luís Neves consiste em transformar uma questão verificável numa questão celestial. Perguntam-lhe pelos factos; ele responde com a alma. Pedem-lhe procedimentos; ele oferece intenções. Querem saber quem decidiu, quem autorizou, quem recebeu, quem transportou, quem contratou, quem fiscalizou, quem declarou e quem se esqueceu de declarar; e ele apresenta o seu certificado de bondade.

    Convenhamos: torna-se difícil acusar um homem que já convocou Deus como testemunha de defesa. A lei pede documentos; ele traz uma auréola. O escrutínio pede datas; ele exibe princípios. O cidadão pergunta se podia; ele, o governante, responde que só queria ajudar o povo. E assim, com tamanha santidade e água benta, se constrói, entre o verbo poder e o verbo querer, grande parte da ruína administrativa lusitana.

    Quanto à idoneidade de Luís Neves, não me pronuncio, por cortesia, sobre a existência de crimes, ilegalidades ou culpas, matérias que competem a magistrados, inspectores e outros profissionais do verbo aguardar. O vosso país conhece os episódios, as relações, os contratos, as obras, o atrelado, os bidões, as declarações e as explicações. Conhece também aquela coreografia nacional em que um facto surge de manhã, uma justificação aparece à tarde e, à noite, já existem três versões, todas compatíveis com a honra do protagonista e nenhuma inteiramente compatível entre si.

    Portugal nem é uma república de escândalos – é mais uma escola de exegese. Cada caso produz mais intérpretes do que testemunhas, mais comunicados do que certezas e mais indignação selectiva do que memória. O barão de Itapecuru-Mirim, subsecretário de Estado dos Negócios em governo efémero do Império, resumiu-me certa vez o método: “Quando o facto é desagradável, discuta-se a intenção; quando a intenção é duvidosa, discuta-se o tom; quando o tom é indefensável, abra-se então um inquérito.” O inquérito, como se sabe, é o purgatório administrativo onde os factos assentam e aguardam que a opinião pública morra primeiro.

    Invocar o Bem é, na verdade, um salvo-conduto para a absolvição terrena, mesmo se, sendo falso, cause danação divina. Junto ao chão, como todos os advogados de reputação sublime, o Bem não costuma perder tempo com os pequenos trabalhos da administração corrente: não lê contratos, não confere assinaturas, não compara versões, não consulta declarações de interesses nem se rebaixa a essa vulgaridade rasteira a que os mortais chamam cronologia. E para semelhantes serviços dispõe de uma procuradora antiquíssima, diligente e infatigável, cuja presença se detecta em quase todas as absolvições autobiográficas: a Boa-Fé.

    Ah, a Dona Boa-Fé! Delicadas leitoras e sensíveis leitores, estamos perante uma senhora de reputação imaculada, genealogia antiquíssima e hábitos francamente suspeitos. Comparece com assiduidade em todos os escândalos, entra sem ser anunciada, instala-se com elegância ao lado do acusado e, por uma dessas coincidências que fazem a fortuna das democracias, nunca é chamada a depor. Não consta dos autos, não assina documentos, não recebe avenças nem figura nas declarações de interesses. Surge apenas no momento oportuno, envolta numa alvura moral que os factos, gente grosseira e pouco dada a transcendências, teimam em não confirmar.

    Discreta, incansável e extraordinariamente versátil, a Dona Boa-Fé serviu imperadores, tiranos, papas, inquisidores, cruzados, revolucionários, ditadores, ministros, vereadores, administradores de empresas públicas e até presidentes de junta. Nunca recusou trabalho, nunca pediu férias e jamais revelou incómodo por mudar de regime. Foi monárquica por devoção, republicana por civismo, revolucionária por humanidade, reaccionária por prudência e democrata por paixão. Tem, aliás, a invejável particularidade de se conservar sempre do lado certo — sobretudo depois de se saber qual deles venceu.

    Encontramo-la em toda a parte: na mitologia e na Bíblia, nos palácios de Tebas e nos pretórios de Jerusalém, nos concílios e nas cruzadas, nas fogueiras do Santo Ofício e nas praças ensanguentadas da Revolução Francesa, nos gabinetes dos impérios coloniais e, nos nossos dias, nas salas climatizadas onde assessores de comunicação decidem que um abuso não passou de uma opção infeliz tomada em circunstâncias exigentes.

    A Boa-Fé acompanhou a História como certas senhoras acompanham funerais: não conheciam intimamente o morto, mas fazem questão de ocupar um lugar na primeira fila. Torquemada, por exemplo, sempre julgou proceder de boa-fé quando defendia que salvava almas pelo fogo. A fogueira, considerada à luz da época e da doutrina aplicável, não constituía suplício, mas uma forma particularmente calorosa de acompanhamento espiritual. O Grande Inquisidor não queimava homens: promovia a sua reconversão térmica.

    Robespierre possuía tanta boa-fé que precisou de uma guilhotina para a administrar em série. Sendo a virtude, no seu entendimento, inseparável do terror, tratou de assegurar à primeira os meios mecânicos indispensáveis ao exercício do segundo. Não mandava decapitar adversários: corrigia desvios cívicos pela altura do pescoço. A lâmina, rápida, igualitária e republicana, resolvia com exemplar eficiência os problemas que o debate parlamentar insistia em prolongar.

    Pilatos, menos ambicioso e mais higiénico, limitou-se a lavar as mãos. Foi talvez o primeiro governante a compreender que a água não remove a culpa, mas melhora consideravelmente o retrato. “Não condenei Cristo”, esclareceria hoje em comunicado; “respeitei a autonomia decisória das autoridades competentes após uma consulta pública informal e perante forte pressão dos parceiros locais.”

    Também Bruto matou César por boa-fé: não por inveja, ressentimento ou ambição, vícios plebeus e pouco compatíveis com a estatuária, mas para salvar a República. César caiu sob vinte e três punhaladas, todas elas, suponho, constitucionalmente motivadas por quem estava do lado do Bem.

    A História ensina-vos, aliás, que a rectidão das intenções possui uma notável resistência ao sangue alheio. A Boa-Fé sempre esteve, de igual modo, ao lado dos conquistadores que atravessaram oceanos para civilizar povos que não tinham solicitado o favor, dos missionários que salvaram almas destruindo culturas e dos impérios que ocuparam territórios por altruísmo geográfico. As Companhias das Índias nunca exploraram: dinamizaram mercados de boa-fé. Leopoldo II jamais fez do Congo um domínio privado: implementou, também de boa-fé, um ambicioso projecto de modernização sujeito a alguns constrangimentos operacionais, demográficos e anatómicos.

    Não suponhais, porém, que a senhora se reformou com os impérios coloniais. A História, escrita de boa-fé pelos vencedores e revista pelos respectivos gabinetes jurídicos, constitui em larga medida a arte de substituir os verbos desagradáveis por substantivos abstractos.

    Os modernos, que herdaram dos antigos a consciência e acrescentaram-lhe consultores, já não lavam apenas as mãos. Lavam a biografia, higienizam o currículo, desinfectam as declarações e submetem o passado a uma limpeza profunda de reputação. Onde ontem existia um favor, aparece hoje uma “cooperação informal”. Onde se encontrava um conflito de interesses, descobre-se uma “proximidade institucional”. Onde houve omissão, ocorreu uma “falha de comunicação”. Onde alguém mentiu, produziu-se uma “imprecisão susceptível de interpretação descontextualizada”. O pecado, passando por um assessor, regressa ao mundo como lapso.

    A Dona Boa-Fé adaptou-se admiravelmente a esta linguagem. Já não aparece de mantilha nem fala latim. Usa fato neutro, pronuncia-se pausadamente e inicia todas as frases com “importa esclarecer”. Quando os factos são incómodos, recorda as intenções. Quando as intenções parecem duvidosas, chama pelo contexto. Quando o contexto agrava a culpa, apela à complexidade. E, quando nem a complexidade se mostra suficiente, profere a fórmula sacramental: “Fiz sempre aquilo que entendi ser melhor.”

    Eis a grande maravilha moral proporcionada pela Boa-Fé: permite que o poderoso seja, ao mesmo tempo, réu, juiz, testemunha abonatória e autor da sentença de absolvição. O Bem subscreve a defesa; a Boa-Fé fornece o álibi. Um proclama de que lado o homem estava; a outra dispensa-o de explicar o que fez.

    Feita a genealogia da procuradora, regressemos ao cliente.

    O ponto interessante neste episódio lusitano nem sequer está em saber se Luís Neves se considera uma boa pessoa. Todos se consideram. Nem vejo o Nero da lenda acordar uma manhã a pensar: “Hoje incendiarei Roma por maldade.” Julgar-se-ia, quiçá, apenas empenhado numa reforma urbanística de largo alcance. O Mal nunca se reconhece ao espelho; quando muito, acha-se enérgico, incompreendido e rodeado de assessores incompetentes.

    A espécie humana possui uma capacidade inesgotável para converter conveniência em princípio e interesse em dever. O ladrão chama necessidade ao furto; o déspota chama ordem ao medo; o burocrata chama procedimento à cobardia; o político chama serviço público à permanência no cargo. E o homem público, quando sente o chão a ranger, chama Bem ao conjunto das suas intenções.

    O vosso ministro Luís Neves faz-me, por tudo isto, lembrar o meu amigo conselheiro Ambrósio Furtado de Mendonça, que passou quarenta anos a fiscalizar contas alheias e os dois últimos meses da carreira a explicar as próprias. Depois de o processo ter sido arquivado entre suspeitas de favorecimento, auxílios providenciais e aquelas coincidências administrativas que só visitam os ocupantes de gabinetes importantes, deixou-nos esta sentença: “A consciência é um tribunal onde o réu nomeia o juiz, escolhe o escrivão e manda perder as actas.”

    Nunca encontrei melhor definição em filósofo algum; e procurei em vários, embora nenhum deles tivesse sido director-geral.

    Esta sentença explica, de facto, uma curiosa deformação produzida pelo exercício prolongado do poder: o titular começa por mandar nos outros e acaba convencido de que manda também no significado das palavras. Um favor sobe de categoria e torna-se cortesia institucional. Uma proximidade emagrece até se transformar em coincidência. Uma omissão é promovida a lapso. Uma vantagem recebida converte-se em equívoco. Uma irregularidade, depois de penteada, perfumada e entregue aos cuidados de um assessor, recebe o nome delicado de erro. E o erro, desde que cometido por alguém instalado do lado do Bem, adquire por fim a dignidade de sacrifício.

    Os gregos, que compreendiam melhor estas coisas por não disporem de departamentos de comunicação, chamaram hybris à desmesura de quem se esquece da própria condição. O poderoso não precisa de se julgar um deus; basta-lhe acreditar que a sua rectidão o dispensa dos limites impostos aos restantes mortais. O protocolo encarrega-se do resto.

    A tragédia começa nesse exacto momento: não quando o homem deseja o Mal, mas quando se convence de que o Bem que deseja legitima tudo quanto faz. O perverso assumido ainda reconhece a existência de uma fronteira, embora a atravesse; o virtuoso profissional apaga-a do mapa e manda instalar no lugar uma placa com a inscrição “interesse público”. Daí, talvez, a relação singular do poderoso com a responsabilidade. Um homem sem poder diz: “Talvez esteja enganado.” Um homem com poder declara: “Assumo inteiramente a responsabilidade” — frase que, traduzida do dialecto ministerial, significa quase sempre que não tenciona suportar consequência alguma.

    O visconde de São Jerónimo das Pastas, ministro durante os seis dias do primeiro gabinete de Zacarias de Góis e Vasconcelos — que pela brevidade do mandato jamais foi responsável por qualquer decisão que tivesse chegado a tempo de ser tomada —, chamava-lhe “responsabilidade honorífica”: aceita-se com solenidade, ostenta-se na lapela durante a cerimónia e devolve-se intacta à saída, juntamente com o traje de gala.

    Em política, uma profissão de alinhamento com o Bem ou com o Mal vale uma nonada quando é o próprio interessado quem passa a certidão moral. Não porque ambos se equivalham, mas porque nenhum pronunciamento subscrito pelo respectivo beneficiário prova coisa alguma. De resto, a metafísica não dispõe de conservatória: não emite certidões, não reconhece assinaturas nem arquiva processos.

    Enfim, um governante pode ser bondoso, generoso, patriota, católico, sportinguista, amigo dos animais e tão incapaz de esmagar uma formiga que a própria criatura lhe atravessa o gabinete sem receio — e nenhuma dessas virtudes esclarece o que decidiu, por que motivo o decidiu, com que fundamento legal e em benefício de quem. A formiga até poderá sair comovida do gabinete; mas o processo continuará, imperturbável, à espera de factos, documentos e explicações.

    Concedamos, ainda assim, por espírito de caridade, que Luís Neves permaneceu, mesmo, sempre do lado do Bem e nunca chegou sequer a vislumbrar o Mal, nem ao longe, por detrás de uma azinheira alentejana. Resta saber se permaneceu também do lado da lei, da prudência, da transparência e da responsabilidade. São lados menos luminosos, reconheço, sem anjos, trombetas ou querubins encarregados de lavrar pareceres, mas possuem a vantagem, bastante terrena, de poderem ser comprovados.

    O resto pertence à teologia autobiográfica, género em que os vivos são insuperáveis: escrevem a própria Paixão, reservam para si o papel de Cristo e entregam aos jornalistas, aos juízes e aos cidadãos a ingrata função de romanos.

    Quanto a mim, desconfio sempre de quem sente necessidade de anunciar o lado moral a que pertence. Os verdadeiramente bons jamais precisam de legenda — a virtude, quando autêntica, não costuma exibir-se em letras garrafais. São os outros que mandam fazer o cartaz — de preferência por ajuste directo, entregue a um empreiteiro de Barcelos, com os biscates de fim-de-semana liquidados em numerário. Em notas pequenas, de preferência.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • Fui à bola: uma aventura entre degraus

    Fui à bola: uma aventura entre degraus

    “Ir à bola! é uma expressão de belo efeito. Significa agrado, empatia, traços em comum, gramar. Podia dizer(-vos) gramo o Sporting Clube de Portugal, e acrescentar à brava, mas isto requer umas achegas, porque há condições neste amor que se quer recíproco.

    Não se trata de impor ou ditar leis, do género das regras conjugais estabelecidas nos códigos civil e eclesiástico, os limites do esticar da corda, o até onde estou capaz de aguentar o sofrimento, os tiros nos (meus) pés de adepto com os títulos perdidos; ainda a memória recente a latejar da vergonha alheia pela ausência do futebol no Estádio Nacional e a perda (justa) da Taça de Portugal para uma equipa que quis ganhar. O Torreense, esse colosso de vontade colectiva, como se quer tudo na vida, do casal ao partido, da equipa de uma redacção ao país e ao mundo, como se gostaria que tudo fosse, pacífico, feliz e ganhador, sem que perdas signifiquem mais do que derrotas necessárias, como a morte que sempre vem.

    Mas íamos nisto do meu Sporting.

    Enquanto adepto ninguém da varanda do Varandas ou do gabinete, seja o próprio ou outro alguém, me pergunta se concordo ou discordo com o que quer que seja feito “em nome do clube”. É o poder da Democracia e de delegar o voto, para que outros nos governem.

    Bem posso gritar a plenos pulmões no estádio, insultar o Presidente num encontro casual, maldizer o treinador e a equipa técnica, assobiar o colectivo de jogadores ali à mão de semear, além dos árbitros, claro está, cujo p*** que te pariu é um exercício de purga recomendável por especialistas de saúde mental.

    Quando se diz que o futebol é o ópio do povo, há que acrescentar o incenso dos turíbulos das claques, as pirotecnias, o rufar dos tambores, os símbolos da geometria sagrada, além dos mantos sagrados que justificam os crimes, como as matanças do Islão e do Cristianismo.

    Estou a dar voltas ao texto de propósito, para que vós, leitores, sejais obrigados a pensar. Onde quer este sujeito chegar? A sinopse aqui vai: jornalista vai à bola, destacado para o estádio do seu clube de coração, sem “ir à bola” com tudo o que ali vê, viu e verá.

    Começo por um alerta aos poderes leoninos sobre o acesso aos lugares de trabalho dos camaradas jornalistas, que para vossa informação, se encontram no sétimo andar, e se fazem somente por dois elevadores.

    Ora, este vosso jornalista, estreante nestes domínios de idas profissionais à bola (ainda para mais no terreno do seu clube de estima) chegou, como o padrinho de uma boda, a tempo e horas de preparar o estaminé e nada faria prever o tormento sucedido.

    Recolhida a credencial, a lunch-box (marmita) com a respectiva sandes de queijo flamengo, uma maçã golden, uma barra de cereais sem açúcares adicionados e uma água de 33 centilitros, fiz-me ao piso. Isto é, ao acesso às alturas de onde me seria colocada ao dispor uma secretária exclusiva, tomadas e cabos de ligação ao computador, zonas de fumo e um WC decente, além de máquina de café à descrição.

    Sendo homem de meia-idade e ainda viçoso graças ao método anti-aging do Dr. Manuel Pinto Coelho, não me fez grande mossa ter de subir os 900 degraus até ao sexto piso e em vão como já percebestes, após o aviso de que os elevadores não se encontravam em funcionamento e era somente por eles o acesso à tribuna de Imprensa; acontece que se estivesse mais atento teria poupado a ascese e a perda de calorias, porventura essenciais ao esforço de ver um jogo entre o mediano e o assim-assim (lá iremos).

    Dizia (e digo e repito) aos poderes leoninos que é disfuncional, disjuntivo e disruptivo ter o acesso a uma zona, em particular de trabalho, limitado a dois elevadores que podem avariar e depois? É o ai-jesus? Deu-se ainda o caso destes elevadores estarem neste dia de giraldinha a ser manipulados somente por um conciérge de ocasião, ao que me pareceu instruído para dar prioridade de ascensão aos acreditados VIPs; ora, estando este vosso escriba anónimo e ronceiro há mais de meia hora pendurado à boca dos elevadores, após ter subido em vão o escadório dos acreditados e esbarrado com uma parede no suposto sétimo piso (sétimo céu), eis que se abre o sésamo; mas, ao avançar para dentro com o ímpeto de Luís Suaréz vi-me chutado para fora, estando ali uma celebridade com prioridade de ascensão e não podendo esta ser acompanhada; faltavam neste preciso instante 7 minutos para o apito inicial do jogo e e mantinha-me ao nível do rés-do-chão.

    Podeis questionar-vos: e os outros colegas de media? Porventura mais experientes, deverão ter ali chegado três horas antes ou então são todos Vips menos eu. Ou então ainda, hipótese plausível, terão subido às alturas do estádio por algum feijoeiro oculto. Quando o apito soou, e esse chegou-me aos ouvidos abafado pelo eco da Maria José Valério e das claques perdoadas e reunidas, ainda me achava nos confins da escadaria, entre o desesperado e o conformado.

    Nem sequer tinha a quem barafustar, excepto ao aparecer no saguão uma moça da Prosegur que embora nada tenha resolvido, se veio a revelar um achado de simpatia e apaziguamento da minha raiva e frustração. Enquanto os minutos passavam e os ecos dos primeiros instantes da partida se ouviam dispersos pelas caixas de som das escadas, a moça ia-me dando pareceres dos andamentos dos elevadores; munida de um auricular, ouvia o relato do sobe e desce do conciérge e dava-me esperança de chegar ao meu assento de trabalho, talvez antes do intervalo, a hora limite decretada para poder instalar-me ou ser recambiado.

    Chegaram então do nada dois jovens bombeiros, afogueados de equipamentos de sobrevivência, de bochechas coradas como o defesa Gonçalo Inácio. Tive esperança de ter nestas duas almas a minha boleia para cima, ainda que tudo estivesse à mercê de um conciérge totalitário, a quem a moça da Prosegur se limitava a auscultar o relato… da cabina do elevador. Não pude deixar de me interrogar onde seria a zona de embarque destes seres tão importantes, pois dali, do rés-do-chão, não era, nem de nenhum piso percorrido na minha subida de véspera.

    O suor escorria-me agora em catadupa pelas têmporas, o pescoço, o peito e as costas, como se eu próprio estivesse ao serviço da equipa. Limpei-me com os guardanapos da lunch-box como se fosse esta a minha pausa para hidratação, isto após já decorridos uns vinte minutos de jogo. Do aquecimento até então nada vi, a não ser as paredes do saguão, o sorriso amarelo da moça da Prosegur e os esgares dos jovens bombeiros a quem fora atribuída a missão de dar assistência a alguém em desespero no piso 6.

    Depois de tamanho suplício e o verter de suores, um dos elevadores voltou a abrir; sem esperar guia de marcha ou autorização do conciérge supremo, entrei lado a lado dos bombeiros em sobressalto. Tinha uma missão a cumprir, se não de vida e morte, de dar crónica da disputa do Troféu dos Cinco Violinos.

    Não vi pois os lances do recém contratado uruguaio Rodrigo Zalazar, que podia ter inagurado o marcador aos 15 minutos, não fora a falha na abordagem, que ainda sobrou para o moçambicano Geny Catamo pontapear em arco ao poste da baliza defendida pelo guardião do Mónaco, Lukas Hradecky; logo a seguir, pelo que vim a ler mais tarde nos jornais, foi a vez do extremo português Flávio Gonçalves falhar o golo certo, a passe de calcanhar do jovem e promissor avançado Rafael Nel. Aos 21 minutos, estando quase quase a desembocar no lugar que me era devido para o exercício da minha função, Geny voltou a tentar a sorte, sem sucesso.

    O cronómetro do estádio marcava 23 minutos no instante em que me sentei no lugar C6 do estádio José Alvalade, onde em mais de mil idas nunca tinha estado. Após tamanha provação, o êxtase e a bonança de um lugar de excelência devolveram-me a paz, mais ainda ao ser-me permitido fumar um puro Churchill das Honduras, como podeis atestar pelas imagens recolhidas em modo selfie.

    Até ao fim da primeira parte anotei no caderninho as notas de um futebol bem entrosado, para a quantidade de mudanças na equipa que durante as últimas semanas tem feito correr tinta. A ver pelo endurance do todo e alguma lufada de talento individual, para fazer esquecer Trincão e outros saídos do plantel, a coisa promete.
    Rafael Nel marcou o primeiro tento, de cabeça, após uma jogada pela direita do brasileiro Luís Guilherme que fez o passe ao estreante Silas Andersen, este devolveu a Pedro Gonçalves “Pote” – em dia de despedida para as arábias, após seis anos de leão ao peito -, e “Pote” fez o que tinha de ser feito como tantas vezes o fizera, ou seja, passar a bola sem espinhas com um toque em habilidade por forma a ser tirado o cruzamento de linha para a cabeça de Nel num culminar de salto de peixinho.

    O marcador alterou-se de vez para 2 a 0, aos 68 minutos, por intermédio de mais um estreante, o inglês Jesse Derry, num lance de fino recorte técnico, sem que o Mónaco tivesse ameaçado ou esboçado uma reacção, excepto em lances de bola parada. Anotei como muito promissoras as prestações dos médios Doumbia, Altimira e Pedro Lima e o continuar da chama de Maxi Araújo. Vi uma vez de relance o mister Rui Borges à boca do relvado. Pareceu-me mais magro, próprio de quem tem andado a dar o litro, e gostei de o ver com umas peúgas pretas. Terminei a prosa que vos trago com um “foi canja”.

  • Kirkland ou a terra das coincidências

    Kirkland ou a terra das coincidências

    Tenho falado ultimamente com um amigo, o Nuno Ribeiro, grande especialista em Fernando Pessoa, sobre sincronicidade, alinhamento e equilíbrio.

    Mas também existem coincidências banais e coincidências obscenas. Chamemos-lhe o que quisermos, que pouco interessa. As coisas geralmente são o que são, mas também, segundo outro amigo chamado Pocinho, as coisas são frequentemente o que não são.

    O assassinato de Charlie Kirk, no dia 10 de Setembro de 2025, e o filme Snake Eyes, de Brian De Palma, habitam precisamente essa zona de obscenidade: não é uma teoria da conspiração, é talvez sincronia pura, esse lugar onde a realidade parece ter um prazer doentio em plagiar a ficção.

    No filme, um político chamado Charles Kirkland é baleado durante um combate de boxe. No mundo real, um político-activista chamado Kirk é baleado durante um comício.

    No filme, o pugilista que encobre o crime chama-se Tyler, “o Executor”; no real, o atirador chama-se Tyler Robinson e foi o suposto executor. No filme, a data do assassinato é 10 de Setembro, mas não é claro.

    No filme, o tiro atinge o pescoço; no real, é no pescoço que a bala vai morrer. No filme, há um furacão chamado Jezebel a cercar o estádio; na realidade, o site Jezebel tinha publicado, dias antes, textos virais sobre Kirk. No filme, o cenário é o Trump Taj Mahal; no real, as teorias surgidas após o crime arrastaram Trump, judeus e Mossad para o rol de suspeitos virtuais.

    O filme é sobre conspirações políticas e corrupção.

    Isto não é uma profecia. É outra coisa. É talvez o que Jung chamaria de sincronicidade e que eu prefiro chamar de cinema quântico: imagens que, uma vez filmadas, ficam suspensas no tempo, prontas a colidir com a realidade quando esta tropeça no mesmo arquétipo.

    Para Jung, a sincronicidade é a experiência de dois acontecimentos sem ligação causal, mas unidos por um fio de significado. Não é uma coincidência estatística; é uma coincidência carregada de sentido.

    O mundo deixa de ser uma sucessão mecânica de causas e efeitos para se tornar um tecido de símbolos que se activam mutuamente. É a carta de tarot que, virada na mesa, diz mais do que podia saber; é o sonho que antecipa o encontro; é o acontecimento que ressoa com outro, distante no tempo, como se houvesse um campo invisível de ligações. Jung chamou-lhe “princípio acausal” e fez dele uma alternativa ao determinismo.

    A sincronicidade é uma questão de linguagem.

    O tiro em público, o nome repetido, o palco e o ringue, o mesmo dia. Não há causalidade — há um eco. E esse eco é, por definição, perturbador: nunca sabemos se o ouvimos porque o som regressou ou porque ainda não partiu.

    A tentação é cair no delírio interpretativo viral, mas o que interessa aqui não é a explicação.

    Pelo menos para mim, que sou leigo em conspirações.

    É mais a sensação de curto-circuito entre ficção e real que me mata (embora nunca se morra).

    O que Snake Eyes mostra é que a América é um género cinematográfico antes de ser um país e o que o assassinato de Kirk prova é que esse género continua a produzir sequências sem guião, em que os vivos desempenham os papéis que o cinema já ensaiou.

    Onde os vivos parecem mortos e vice-versa.

    Onde a realidade mata a ficção e esta volta como zombie à realidade.

    As coincidências pedem sobretudo atenção.

    A filosofia do acaso não é procurar quem manuseou os cordéis, se existem marionetas ou se tudo é fruto do acaso. Nunca o saberemos, mesmo que tudo tenha sido pensado ou mesmo que não tenha sido. Mas já é muito perceber que vivemos num palco saturado de imagens que se repetem porque são demasiado fortes para morrer.

    E manipular faz parte. Convenhamos. Não sejamos ingénuos.

    Não será este próprio texto um exercício de manipulação?

    Bem, acho que não.

    É um bocado só…

    No fundo não foi De Palma que previu alguma coisa; foi a América que decidiu viver dentro do seu próprio filme. 

    E qual é o problema? 

    Bem… há muitos problemas. Mas isso já não é para aqui chamado.

    Quer dizer…

    Texto e ilustrações de Ruy Otero (artista media)

  • Ensaio sobre a morte ou ‘memento mori’

    Ensaio sobre a morte ou ‘memento mori’

    Comecei a interessar-me pela morte mal vim ao mundo. O cordão umbilical enrolou-se no pescoço e saí roxo e asfixiado da passagem no útero da minha mãe. A parteira salvou-me a vida. Podia ter morrido antes sequer de nascer como sucede a muito boa gente. Quando se nasce ou renasce, já agora? É sobre isto que vos quero fazer algumas considerações.

    Gosto de escrever, de tomar notas de tudo. Não tenho ambição de vir a ser escritor ou de mudar o que quer que seja, a não ser eu próprio e as minhas obsessões. Sou aquilo que se chama um obsessivo compulsivo. É uma doença como outra qualquer. Sou também hipocondríaco e isso dá-me uma variante obessiva que é saber um pouco de muitas e variadas condições. Prefiro dizer condições no lugar de doenças ou maleitas porque me parece mais humano.

    Uma das minhas patologias é a limpeza. A higiene nunca me larga e além de lavar as mãos e os braços ao ritmo de uma toma de medicação evito toda a espécie de contacto social. Limito-me a fazer o meu trabalho de tanatologia e a publicar pequenos textos nas redes sociais onde sou quase sempre apelidado de mórbido ou fatalista.

    Na minha vida íntima, escassa, devo dizê-lo e por própria vontade, o meu momento de eleição é a pequena morte. Esse lugar onde a consciência dá lugar à inconsciência até ocorrer o resultado da volta. Nessas alturas questiono quem seja o caso de estar ali comigo.

    Já ouvi as versões mais extraordinárias ou mesmo estranhas, como chamarem ao desfalecer o clique da iniciação ou a rendição a uma luta escusada do organismo segundo uma bióloga dada às mais variadas experiências. Uma entrega incondicional, em suma. Faço mais perguntas do que dou respostas, mas de uma coisa estou certo: o homem é tanto um ser para a vida como para a morte.

    Já aconteceu ter em cima da marquesa homens que morreram durante o acto, de síncopes, decerto fruto de abusos nas doses de substâncias excitantes. Nem todos demasiado entrados na idade.

    O sexo tem algo de conflito físico como num combate corpo a corpo, uma fricção que chega a ser dolorosa mas da qual se retira uma forma de prazer como matar alguém e submeter o outro. Isto, creio, brota de uma ambição. O poder de dar vida e de matar caminham juntos. É possível existir uma vida inteira sem se conhecer a sensação de estar vivo a não ser porque se respira.

    Nunca conheci ninguém que se dissesse feliz por saber que não viverá para sempre. Procuram-se em todas as religiões inventadas maneiras de aceitar o inevitável. A possibilidade de um regresso mais auspicioso, se a vida tiver corrido com mais durezas do que alegrias, ou então voltar a sentir os prazeres que se viveram quando a vida sorriu. Alguns suicidas tiram a sua vida por curiosidade.

    Não deve haver ninguém que não queira saber o que está do outro lado. Deve ser nada. Ou nada disto. Almas sem rosto, voz, pernas, tronco, mãos, pés e braços, órgãos bombeados por sangue, válvulas e orifícios, vómitos, diarreia e pruridos, dores, suor e lágrimas, acções concretas ou maquinais, truques de prestidigitação, jogos de sedução e arrivismos, recordes e fortunas, o Diabo vestido de vermelho. Deus barbudo e anafado, de túnica branca ou todo nu à espera de todos os convivas para um banquete ou um juízo final.

    O Diabo (XV), as paixões, materialismo, vícios, instintos e o lado sombra do ser humano, mas também a necessidade de confrontar as ilusões e a busca por poder pessoal, mostrando que os grilhões são, muitas vezes, autoimpostos e podem ser rompidos pela força de vontade, significando desafios, tentações, mas também oportunidade de libertação através da autoconsciência e do poder de escolha.

  • Deixem o Luís ir de férias!

    Deixem o Luís ir de férias!

    O anúncio foi apresentado como um daqueles sinais que só estão ao alcance de um génio político: Luís Montenegro decidiu não tirar férias de Verão. A desculpa é a de que há demasiado trabalho, demasiadas responsabilidades para que o primeiro-ministro se afaste. É uma decisão legítima e a lei permite-o. Mas será necessariamente uma boa notícia? E será esse o exemplo que um primeiro-ministro deve dar ao País?

    Sabe-se que, ao contrário da esmagadora maioria dos portugueses, o primeiro-ministro não está sujeito ao regime geral do Código do Trabalho, pois os membros do Governo são titulares de cargos políticos e não trabalhadores por conta de outrem. Não existe uma norma que lhes atribua, por exemplo, 22 dias úteis de férias por ano, nem uma obrigação legal de gozarem esse período de descanso.

    Kayaking through turquoise water surrounded by mountains.
    Foto: D.R.

    Em rigor, estão sempre em funções. Podem ausentar-se durante alguns dias, mas não deixam de ser primeiro-ministro ou ministros enquanto estão de férias. Continuam responsáveis pelo exercício do cargo e podem ser chamados a qualquer momento. É uma missão, não um emprego.

    Assim, a decisão de não tirar férias não constitui nem representa um sacrifício, pois é uma mera opção política. Se o Luís diz que vai andar a trabalhar quando podia estar de férias, desenganem-se, pois ele nem sequer tinha direito a férias, ou melhor, ele pode meter férias sempre que quiser, sem ter sequer de nos explicar que está de férias.

    Por exemplo: a Selecção joga em Toronto? Vamos a Toronto! Há depois jogo em Dallas, mas no dia seguinte temos uma reunião da NATO na Turquia? Vamos então, primeiro, a Dallas e depois seguimos para a reunião na Turquia. Afinal, temos avião pago! O Luís, na realidade, só precisa de justificar a ida ao futebol como missão de Estado e, a ida à Turquia, essa nem se discute, pois é uma obrigação de Estado.

    Foto: D.R.

    Mas, estas viagens cansam. Saem do pêlo, deixam mazelas físicas e convém descansar uns dias. As investigações científicas sobre desempenho cognitivo, após décadas de estudos, concluíram que o descanso melhora a capacidade de concentração, reduz erros de decisão, diminui o risco de respostas impulsivas e aumenta a criatividade na resolução de problemas complexos. A fadiga prolongada produz exatamente o efeito inverso.

    A Constituição consagra o direito ao repouso e ao lazer, enquanto o Código do Trabalho estabelece que as férias são irrenunciáveis, precisamente porque o legislador entende que o descanso não constitui um prémio, mas uma necessidade individual e colectiva. Não serve apenas para beneficiar o trabalhador, pois serve também para proteger a qualidade do seu desempenho e, consequentemente, o interesse da empresa onde trabalha.

    Aliás, muitos trabalhadores dificilmente conseguiriam dizer ao empregador que este ano preferem não tirar férias. O direito ao descanso é considerado tão importante que nem sequer pode ser livremente renunciado e o legislador entende que existe um interesse público na recuperação física e psicológica de quem trabalha. Mas o Luís, esse, pode fazer o quiser, pois pode dizer que não vai de férias quando, na realidade, nem sequer tem direito a férias. Mas também tem. Percebem? (Espero que sim, pois não sei bem se eu próprio percebi).

    brown wooden bench on beach during daytime
    Foto: D.R.

    Agora, há um outro problema que ainda ninguém viu. Mas vi eu: se o primeiro-ministro considera que o País exige a sua presença permanente, será natural que os ministros sintam a necessidade de seguir o mesmo exemplo. Afinal, quem quererá ser visto a banhos no Algarve enquanto o chefe do Governo anuncia que continuará ao serviço? Não existe qualquer obrigação legal para que o façam, mas existe aquilo que em política pesa quase tanto como a lei: a pressão do exemplo.

    Portanto, nenhum ministro deveria ir de férias enquanto o primeiro-ministro estiver a trabalhar. E, acaso o Luís, quando tomou a decisão, pensou nos compromissos familiares dos seus motoristas? Dos seus assessores? Acaso falou antecipadamente com eles para combinar como iriam ser as suas férias? Preocupou-se em saber se já tinham viagens marcadas e agora vão ter de adiar? Ou, pior ainda, se ninguém adiar e for tudo de férias, então o Luís fica a trabalhar sozinho? São perguntas que temos de ter a coragem de colocar, pois é o futuro do País que está em causa!

    É-nos dito que, hoje, as democracias maduras não dependem de uma única pessoa, pois dependem de instituições, equipas, procedimentos e um Estado moderno. Nesta era de tecnologias de comunicação, o Estado pode continuar a funcionar, a decidir e a responder aos problemas mesmo quando um ministro está ausente, um secretário de Estado está de férias ou o primeiro-ministro aproveita alguns dias para recuperar energias.

    a hammock between palm trees and a body of water
    Foto: D.R.

    Ora, o Luís, ao anunciar que não quer tirar férias, está a abdicar do descanso que precisa para recuperar forças. No fundo, está a prejudicar a condução da sua “empresa” – e não, não estou a falar da Spinumviva, mas sim de Portugal.

    Portanto, Luís, como português preocupado pelo futuro deste nosso País que todos amamos, faço-te um apelo: vai mas é de férias, pá!

  • A possibilidade do amor no interior da sua impossibilidade

    A possibilidade do amor no interior da sua impossibilidade

    É possível que nunca tenha existido um tempo em que o amor fosse simples — e talvez o próprio tema contenha já a ironia melancólica de quem intui que a simplicidade, quando atribuída ao amor, é quase sempre sinónimo de desconhecimento, de idealização ou de obliteração crítica das estruturas que historicamente o têm condicionado.

    E, no entanto, há algo no nosso tempo que parece ter acrescentado ao gesto de amar alguém  — já por si ambíguo, paradoxal, vulnerável e extenuante — uma camada suplementar de ruído, aceleração, descontinuidade, vigilância emocional e mercantilização vulnerável.

    Esse ruído tornou quase impraticável a construção de qualquer forma de vínculo que não seja atravessada por suspeita, por fadiga e por uma crescente tendência para a auto-preservação afectiva, como estratégia de sobrevivência num mundo saturado de promessas não cumpridas, afectos monitorizados e intimidades precárias sem tempo nem espaço de qualidade, como aparentemente deveria ser.

    Aparentemente.

    Vivemos num presente em que os dispositivos técnicos da conexão coexistem com uma erosão radical da disponibilidade afectiva, em que a proliferação de imagens do amor substitui a sua experiência vivida, e em que a liberdade de escolha, tantas vezes celebrada como sinal de emancipação, se transforma, na prática, numa lógica de descartabilidade e conceptualização emocional.

    Este tempo tende até a transformar o outro em algoritmo, o desejo em interface e a relação num projecto pessoal com deadlines afectivos e métricas de desempenho relacional em que tudo é contabilizado com estatística pobre e vulnerável.

    O que é estranho e uma grande adversidade para o amor mais poético, e quiçá, verdadeiro.

    Porque a verdade não é um monstro a abater, embora pareça.

    E, no entanto, talvez exista uma única brecha para o gesto amoroso hoje, apesar da maquinaria digital que nos treina para o adiamento e apesar da arquitectura económica que nos empurra para a fragmentação.  

    Deveriam questionar-se também as estruturas da imagética que regulam a intimidade como campo de negociação performativa e gestão emocional mútua.

    A verdade é que os gestos mínimos da atenção persistem, que a vulnerabilidade ainda se manifesta, e que há, apesar de tudo, corpos que se aproximam não só por carência ou cálculo, o que é inegável para as almas meio perdidas. É também evidente que a aproximação pode ser heróica por decisão, e que, mesmo quando interrompida, provisória ou descoordenada, não deixa por isso de ser radical na sua irrupção, na sua disfuncionalidade produtiva e na sua recusa em operar sob o signo da equivalência.

    O amor ou a sua percepção até pode ser anacronicamente romântico. Mas há sempre um preço a pagar.

    Tudo pode fluir ainda, se assim o desejarmos, num tempo em que o Dom Quixote de la Mancha  pode não ser só um calhamaço com o qual podemos partir cabeças quando arremessado para esse fim. Há sempre tempo e espaço para a existência de Dulcineas del Toboso.

    E ter o sumo necessário para percebermos que a ilusão do amor é real e verdadeira. O amor pode ser metafísico mas também pode ser palpável.

    Como sempre.

    Atribuiu-se muita política emocional à paixão amorosa, que deveria ser um acto natural e até espontâneo.

    Existe a ideia de vivermos num tempo que já não permite o amor. É um tempo que se sustenta por dados concretos sobre a solidão crescente, pela falência das estruturas relacionais tradicionais, pela hiperdisponibilidade digital, pelo declínio do tempo vivido em conjunto e pela desintegração da intimidade quotidiana. Este é um tempo em que o conceito de amor corre o risco de se cristalizar numa forma de nostalgia enganadora que confunde estabilidade com profundidade, ou mesmo duração com verdade.

    É como se as relações do passado, marcadas por violências estruturais, desigualdade jurídica, ausência de escolha e normatividade sexual obrigatória, tivessem sido mais “reais” apenas porque duravam mais, quando na verdade muitas delas subsistiam por falta de alternativas, dependência económica ou medo da vergonha pública associada ao fracasso conjugal — e esquecer isto é perpetuar a ilusão de que a dor longa é mais nobre do que a alegria breve.

    Hoje poderá em muitos casos, ser ainda assim, em tempos de precariedade laboral e financeira.

    É rara a série televisiva pós-televisão ou filme pós-cinema que traga um final feliz a uma relação amorosa.

    É raro não estarem votadas ao fracasso estrutural e que não acabem em crime ou tragédia ou afastamento e ódio.

    E se acabam bem, são comédias.

    Por outro lado, o discurso complementar — o que celebra a liberdade afectiva contemporânea como triunfo da autodeterminação emocional, e que proclama o fim das estruturas opressivas do amor romântico como uma abertura plural, fluida e ética — tende a ignorar o vazio logístico existencial em que essa mesma liberdade opera: os corpos não têm casa, os horários são incompatíveis, o rendimento é intermitente, o futuro é incerto, e o desejo, quando não é imediatamente transformado em mercadoria, torna-se alvo de auto-gestão permanente. É a lógica de optimização interior que recusa a entrega como perda, a dependência como valor e até o compromisso como gesto de sustentação da duração no interior do efémero.

    Como se a consistência fosse sintoma de fragilidade emocional ou prova de ingenuidade, e não um trabalho, uma construção, uma escolha que se repete todos os dias sem a garantia da reciprocidade nem a anestesia da estabilidade.

    É precisamente neste cruzamento entre impossibilidade estrutural e desejo persistente, entre colapso da linguagem e tentativa de relação ou entre a brutalidade do real e a insistência em dividir o tempo com outro (já não suporto a palavra partilha)  — mesmo que não haja lugar, tempo, casa ou futuro — que o amor, ou aquilo que ainda ousamos nomear como amor, se torna relevante, não enquanto categoria transcendental ou experiência universal, mas como acontecimento localizado, contingente, inefável e insubstituível.

    Único e intransmissível.

    Não porque seja puro, eterno ou redentor, mas porque marca uma suspensão momentânea da lógica da equivalência, um desvio mínimo na cadeia de pensamento quase único que por aí prolifera, uma interrupção do cálculo, um hiato no programa, uma espécie de bug íntimo que nos devolve, mesmo que por instantes, à possibilidade de um sentido que não seja totalmente instrumentalizável.

    Recusar a idealização do amor não implica renunciar à sua possibilidade, mas antes recusar o conforto preguiçoso da utopia ou da tragédia, da nostalgia ou da desilusão. Trata-se de habitar uma zona de indeterminação onde o amor, desprovido de garantias, já não serve para resolver a solidão, nem para dar sentido à vida, nem para justificar a existência, mas talvez — e apenas talvez — possa tornar-se um espaço provisório de sentido, uma suspensão mínima da lógica do mundo, uma interrupção entre a violência do sistema e a resistência íntima que alguns ainda praticam com o corpo, com a acção, com o silêncio, com a demora, com o tempo dado — e não o tempo prometido.

    É verdade que a linguagem do amor está em crise, por ter sido substituída por uma retórica de segurança emocional que, muitas vezes, transforma o consentimento numa gramática de protocolo. A linguagem do amor foi substituída por uma exposição afectiva mediada que troca a experiência pela sua representação, e por uma gestão da intimidade que esvazia o risco em nome da estabilidade.

    No entanto, também é verdade que essa crise, longe de significar o fim do amor, pode ser o lugar da sua reinvenção, desde que se aceite que não é possível amar sem contradição, sem erros grotescos, sem perda, sem medo, sem sombra, sem coação psicológica, sem tempo.

    É assim. E sempre foi. Não andamos a inventar a roda, essa é a questão. Mas em tempos de “desverdades” já se sabe o que se espera.

    O tempo, esse recurso cada vez mais escasso, cada vez mais capturado, talvez seja a verdadeira medida do amor: não o tempo da eternidade — essa ficção litúrgica do romantismo na qual é incrível acreditar, pois nunca se sabe, e não se sabe mesmo,  mas o tempo oferecido, o tempo a dois em que os segundos são segundos ou não são nada, o tempo perdido com o outro sem objectivo, sem rendimento, sem função, sem plano — o tempo como derrame, como nada, como recusa de optimização, como dádiva sem retorno. O tempo como eternidade amorosa.

    Como ideia.

    Não se trata, portanto, de negar a dificuldade — ela é real, é concreta, é estrutural —, mas de não aceitar que essa dificuldade seja argumento suficiente para o cinismo, para a desistência, para a substituição do gesto pelo scroll, já para não falar da demora pela aceleração, ou mesmo do vínculo pelo contrato.

    Este circo às vezes irrita porque está a ficar tão evidente e, estranhamente, parece até que as pessoas já não aspiram ao amor.

    Uma palhaçada que deveria ter fim anunciado.

    Porque mesmo nas ruínas, mesmo no entulho afectivo do tempo, mesmo no meio do colapso eloquente e transparente do presente, há lugar para a insistência, claro. Há lugar para o amor.

    Para a beleza.

    E essa insistência, que não deve ter medo, que não se explica, que não se representa ou defende, nem se deve justificar, talvez seja hoje a forma mais lúcida, mais radical e mais corajosa de relação possível.

    E isso é amor. E é sublime. E é possível. E anda por aí.

    A vida continua como num maravilhoso titulo de um filme de Kiarostami.

    1,2,3, vamos nascer outra vez.

    Texto e ilustrações de Ruy Otero (artista media)

  • A prevenção não tem lobby

    A prevenção não tem lobby

    Porque a actividade física prescrita devia ser tratada com a mesma seriedade que uma receita médica

    Durante anos tratámos a actividade física como conselho de bom senso: caminhe mais, suba escadas, mexa-se, perca peso, faça exercício. O problema é que aquilo que o Estado continua a apresentar como recomendação informal já é, no plano constitucional e legal, muito mais do que isso. É direito.

    A Constituição da República Portuguesa reconhece, no artigo 79.º, que todos têm direito à cultura física e ao desporto. Mas a atividade física não vive apenas nesse artigo, vive também no artigo 64.º, quando a Constituição liga o direito à protecção da saúde à promoção de práticas de vida saudável. A Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto reforça esta leitura logo no seu nome e no seu objecto, não é apenas uma lei do desporto, é uma lei da actividade física e do desporto, e o seu artigo 2.º afirma expressamente que todos têm direito à actividade física e desportiva.

    A pergunta, por isso, deixou de ser apenas médica, social ou comportamental. Passou a ser também jurídica. Que consequências tira o Estado de reconhecer um direito que depois trata como se fosse apenas um conselho?

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    Foto:Marc Kleen

    Esta distinção não é um  preciosismo de jurista, é política pública, é orçamento, é SNS. É vida concreta das pessoas. Se a atividade física é um direito e se a sua função principal, fora do contexto competitivo, é prevenir doença, melhorar a qualidade de vida e proteger a saúde, então a sua tutela estratégica deve pertencer ao Ministério da Saúde.

    Não se trata de retirar competências ao desporto federado, nem de negar a importância dos clubes, das federações ou da prática desportiva organizada. Trata-se de chamar as coisas pelo nome. A caminhada prescrita ao hipertenso, o treino de força recomendado ao idoso frágil, a hidroginástica indicada ao doente com limitação funcional, o exercício orientado ao diabético ou a actividade física acompanhada em contexto de depressão, não são manifestações menores do desporto, são instrumentos de saúde pública.

    E a saúde pública não se defende apenas nos hospitais, defende-se antes dos hospitais.

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    Foto: Trung Nhan Tran

    Portugal discute o Serviço Nacional de Saúde quase sempre a partir da urgência,  tempos de espera, falta de médicos, encerramento de serviços, camas insuficientes, pressão assistencial. Tudo isso é real. Mas nenhum país conseguirá salvar o seu sistema de saúde olhando apenas para a porta de entrada das urgências. A médio e longo prazo, aliviar hospitais também significa impedir que milhares de pessoas cheguem lá por doenças, quedas, fragilidade, perda de autonomia e agravamentos clínicos que poderiam ter sido prevenidos ou retardados.

    A inactividade física está associada a doença cardiovascular, diabetes tipo 2, obesidade, alguns tipos de cancro, depressão, perda de autonomia, fragilidade, quedas, isolamento e maior consumo de cuidados de saúde. A Organização Mundial da Saúde estima que quase um terço da população adulta mundial, cerca de 1,8 mil milhões de adultos, não cumpre as recomendações mínimas de actividade física. Entre adolescentes, a situação é ainda mais expressiva: 81% não cumprem as recomendações da OMS.

    Na Europa, a OCDE e a OMS estimam que mais de um em cada três adultos não cumpre as recomendações mínimas de actividade física e que 45% dizem nunca fazer exercício ou praticar desporto. Entre adolescentes, menos de um em cada cinco rapazes e menos de uma em cada dez raparigas atingem os níveis recomendados.

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    Foto: Federico Tonini

    Os custos desta omissão são enormes. A OMS estima que, se os níveis de inactividade física não forem reduzidos, o custo global para os sistemas públicos de saúde poderá atingir cerca de 300 mil milhões de dólares entre 2020 e 2030, aproximadamente 27 mil milhões de dólares por ano, e a OMS/OCDE estimam que aumentar a actividade física para os níveis recomendados poderia evitar milhares de mortes prematuras por ano na União Europeia e poupar milhares de milhões em despesa de saúde.

    Perante estes dados, a pergunta já não é se o Estado deve recomendar actividade física. A pergunta é se o Estado pode continuar a recomendá-la sem a organizar, sem a prescrever, sem a acompanhar e sem a financiar.

    Portugal não teria, aliás, de começar do zero.

    Na Suécia, a actividade física prescrita existe há mais de duas décadas no sistema de saúde. O modelo sueco, conhecido como Physical Activity on Prescription, foi escolhido pela Comissão Europeia como boa prática e serviu de base ao projecto europeu EUPAP, coordenado pela Agência de Saúde Pública da Suécia, precisamente para apoiar a sua implementação noutros Estados-Membros. A lógica é simples e profundamente diferente da mera recomendação genérica: aconselhamento individualizado, prescrição escrita, adaptação à condição clínica do doente, articulação com entidades da comunidade e acompanhamento posterior. A própria Agência sueca sublinha que a actividade física pode ser prescrita como prevenção, como primeira linha de tratamento ou como complemento de medicamentos e reabilitação.

    Doctor talks with an elderly patient on a couch.
    Foto: Vitaly Gariev

    Na Finlândia, a Physical Activity Prescription foi implementada num programa nacional especialmente orientado para os cuidados de saúde primários. O instrumento foi pensado para permitir ao médico iniciar a conversa clínica sobre actividade física e encaminhar o utente para profissionais de saúde ou de exercício capazes de elaborar um plano mais detalhado e assegurar acompanhamento. Mais relevante ainda, a prescrição de actividade física foi aceite no sistema nacional de registo de saúde e codificada como tal, ou seja, deixou de ser apenas conselho verbal e passou a ter existência clínica e administrativa.

    Na Alemanha, a experiência é mais fragmentada, mas também elucidativa: o chamado Rezept für Bewegung, ou receita para o movimento, tem enquadramento desenvolvido por entidades médicas e desportivas, embora a implementação varie entre os Estados federados. O modelo alemão deixa uma advertência útil para Portugal: prescrever actividade física sem garantir financiamento suficiente é reconhecer o problema sem assumir plenamente a solução.

    Isto confirma precisamente o ponto essencial deste artigo: a prescrição sem financiamento corre o risco de ficar a meio caminho.

    Investment Scrabble text
    Foto: Precondo CA

    No Reino Unido, a resposta tem seguido sobretudo pela via da prescrição social, integrada no NHS. O modelo não se limita ao exercício físico, mas liga utentes a actividades, grupos e serviços da comunidade que respondam a necessidades sociais, emocionais e de saúde. O NHS assumiu esta abordagem como parte da personalização dos cuidados, com trabalhadores de ligação nos cuidados primários e encaminhamento para respostas comunitárias, incluindo actividades físicas, contacto com natureza e grupos locais. Não é ainda o mesmo que comparticipar actividade física prescrita como uma prestação terapêutica autónoma, mas revela uma tendência clara – a saúde começa a sair da receita exclusivamente farmacológica e a entrar no território da comunidade, da prevenção e do acompanhamento de hábitos.

    Estes exemplos não devem ser aplicados cegamente. Cada país tem o seu sistema de saúde, a sua organização administrativa e a sua cultura clínica, mas todos mostram a mesma direção. A actividade física pode deixar de ser mera recomendação e passar a ser instrumento formal de política de saúde. A diferença está no grau de ambição. Portugal pode limitar-se a aconselhar os cidadãos a mexerem-se mais, ou pode assumir aquilo que a Constituição e a Lei de Bases já permitem: transformar a actividade física numa verdadeira prestação preventiva de saúde, com prescrição, acompanhamento, certificação e comparticipação escalonada.

    Men exercising outdoors with an ab roller wheel.
    Foto: Yishen Ji

    Dir-se-á que Suécia, Finlândia, Alemanha ou Reino Unido são países mais ricos, com outra capacidade financeira e administrativa. É verdade. Mas essa constatação não deve servir de desculpa para Portugal fazer menos; deve servir de razão para pensar melhor. Um país com menos recursos não se pode dar ao luxo de gastar eternamente mal. Se continuarmos a tratar a prevenção como ornamento e a doença como destino, continuaremos presos ao mesmo ciclo: pouca prevenção, muita doença instalada, mais medicamentos, mais urgências, mais internamentos e uma factura pública cada vez mais pesada.

    É aqui que o discurso muda de plano. O direito à actividade física não pode continuar a ser tratado como uma proclamação bonita da Lei de Bases, sem orçamento e sem consequência administrativa – direitos que não saem do papel servem pouco; direitos que não entram no orçamento, servem ainda menos.

    A actividade física prescrita deve entrar no SNS com a mesma seriedade institucional com que entra uma receita médica: indicação, dose, frequência, progressão, acompanhamento e avaliação de resultados. Naturalmente, não substitui medicamentos quando estes são necessários. Mas também não pode continuar a ser tratada como conselho de corredor, entregue à força de vontade do utente e sem consequência clínica.

    a stethoscope with a medical symbol on it
    Foto: Marek Studzinski

    Naturalmente, esta mudança encontraria resistências. Não vale a pena fingir o contrário. O sistema de saúde moderno está profundamente organizado em torno da resposta medicamentosa, da consulta, do exame, da receita e da terapêutica farmacológica. A indústria farmacêutica tem um peso económico, institucional e científico evidente, incluindo na formação contínua, na investigação, nos congressos e na própria cultura clínica. Isso não significa desvalorizar os medicamentos, nem lançar suspeitas generalizadas sobre os médicos. Seria injusto e intelectualmente pobre, a medicina farmacológica salva vidas todos os dias.

    Mas também seria ingénuo ignorar que qualquer política pública que deslocasse parte da resposta do medicamento para a prevenção activa, prescrita e acompanhada, mexeria com hábitos instalados, interesses económicos e rotinas profissionais. A actividade física não tem delegado comercial, não patrocina congressos com a mesma força, não chega ao consultório em embalagem, não tem marca, não tem campanha promocional e não se prescreve com a facilidade administrativa de uma caixa de comprimidos.

    A prevenção não tem o mesmo lobby da doença.

     Talvez por isso continue a ser tratada como recomendação, quando já devia ser política pública financiada.

    a stack of 20 euro bills next to a pack of 20 pills
    Foto: Marek Studzinski

    Ainda assim, essa resistência não pode servir de desculpa. O Estado não existe para proteger comodidades institucionais, mas para organizar o interesse público e, a médio e longo prazo, uma política séria de actividade física prescrita e comparticipada tenderia a ser menos dispendiosa do que continuar a financiar, quase exclusivamente, a doença depois de instalada.

    Prevenir quedas, obesidade, diabetes descompensada, hipertensão mal controlada, fragilidade, depressão, perda de autonomia e internamentos evitáveis é incomparavelmente mais racional do que pagar, anos depois, a fatura hospitalar, medicamentosa e social dessa omissão.

    O médico que prescreve um comprimido para a tensão, para a diabetes, para o colesterol ou depressão, sabe que a dose, a adesão, a duração e a monitorização importam. O mesmo raciocínio deve valer para a actividade física. Não basta dizer a um doente sedentário, obeso, hipertenso, diabético, ansioso ou idoso para “andar mais”– é necessário avaliar o ponto de partida, definir objectivos, indicar intensidade, frequência e progressão, articular com profissionais qualificados e acompanhar resultados.

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    Foto: Mitchell Luo

    A prescrição de actividade física deve ser integrada nos cuidados de saúde primários. Deve constar do processo clínico, deve ser avaliada, deve ser acompanhada, deve permitir referenciação para programas certificados, e deve envolver médicos, enfermeiros, fisiologistas do exercício, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas, autarquias, unidades locais de saúde, piscinas municipais, clubes, associações e espaços devidamente certificados.

    Mas levar este direito a sério implica mais do que prescrevê-lo.

    Implica comparticipá-lo.

    Se o Estado comparticipa medicamentos para controlar a hipertensão, a diabetes, o colesterol, a ansiedade, a depressão ou a dor crónica, deve pelo menos discutir-se por que razão não comparticipa programas certificados de actividade física prescrita que actuem precisamente sobre muitos desses mesmos factores de risco.

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    Foto: Towfiqu barbhuiya

    A actividade física clinicamente prescrita não deve ser tratada como uma mensalidade de ginásio; essa caricatura seria demasiado fácil e demasiado pobre. Não se trata de pagar ginásios indiscriminadamente à população, trata-se de comparticipar intervenção preventiva de saúde, quando clinicamente indicada, integrada num plano terapêutico, acompanhada por profissionais habilitados e sujeita a avaliação periódica.

    O modelo poderia começar de forma prudente, projectos-piloto nos cuidados de saúde primários, prioridade para grupos de risco, programas certificados, prescrição clínica, acompanhamento regular e avaliação de resultados. Idosos frágeis, pessoas com obesidade, diabetes, hipertensão, doença cardiovascular, depressão, limitação funcional, risco de queda ou vulnerabilidade económica deveriam estar na primeira linha.

    O Estado não teria de criar tudo de raiz, teria de organizar, certificar e financiar uma rede que já existe de forma dispersa – autarquias, piscinas municipais, clubes, associações, unidades de saúde, profissionais do exercício, fisioterapeutas e programas comunitários. O que falta não é apenas oferta. Falta transformar essa oferta em política pública de saúde, juridicamente enquadrada, clinicamente prescrita e financeiramente acessível.

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    Foto: Alexey Demidov

    A comparticipação pública da actividade física prescrita seria a consequência natural de a tratar como verdadeira prestação preventiva de saúde, e não como mero conselho de estilo de vida. Se uma caminhada orientada, um programa de treino de força, exercício adaptado, hidroginástica terapêutica ou actividade física supervisionada podem evitar agravamento clínico, internamentos, aumento de medicação, quedas, dependência ou perda de autonomia, então a comparticipação não deve ser vista como despesa desportiva, mas como investimento em saúde.

    É aqui que a tutela do Ministério da Saúde se torna essencial: a actividade física não pode continuar a ser uma política lateral, dependente de campanhas simpáticas, cartazes ocasionais ou slogans de vida saudável. Deve ser uma política permanente de prevenção, com orçamento, metas, indicadores, responsabilidade pública e avaliação de impacto.

    O Ministério da Saúde deveria assumir a actividade física como eixo estratégico do SNS – rastrear sedentarismo, formar profissionais para prescrição de exercício, criar protocolos clínicos, certificar programas, financiar respostas, articular com autarquias e medir resultados. Tal como se mede tensão arterial, glicemia, peso, colesterol ou risco cardiovascular, deve medir-se capacidade funcional, força, mobilidade, risco de queda, nível de actividade física e adesão ao plano prescrito.

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    Foto: National Cancer Institute (EUA)

    A médio prazo, esta política poderia aliviar a pressão sobre hospitais, não por milagre administrativo, mas por prevenção acumulada: menos diabetes descompensada, menos doença cardiovascular, menos obesidade grave, menos quedas em idosos, menos perda precoce de autonomia, melhor saúde mental e maior capacidade funcional significam menos procura futura de cuidados hospitalares evitáveis.

    O Estado não pode continuar a comparticipar a doença com rigor farmacológico e a tratar a prevenção como conselho informal, de corredor.

    A verdadeira questão é esta – se a Constituição reconhece o direito à cultura física e ao desporto, se a Lei de Bases afirma o direito à actividade física e desportiva, se a ciência demonstra o impacto da inactividade na doença e se o SNS vive sob pressão permanente, por que razão a actividade física continua a ser tratada como recomendação secundária e não como prestação preventiva essencial?

    Talvez esteja na altura de levarmos a sério aquilo que a lei já diz.

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    Foto: Henry Xu

    O direito à actividade física não pode continuar a ser apenas o direito abstrato de cada um se mexer se puder, quando puder e se tiver dinheiro para isso; tem de passar a ser o direito concreto a condições públicas que tornem essa prática possível, prescrita, acompanhada e, quando clinicamente justificado, comparticipada.

    Porque, no fim, a pergunta é simples: se o Estado comparticipa medicamentos para tratar a doença, por que razão não há de comparticipar actividade física prescrita para evitar que parte dessa doença exista?

    Bruno dos Santos Pereira é advogado e sócio na sociedade SPASS e possui uma pós-graduação em Direito do Desporto.