FUTUROLOGIA I Não é preciso ser bruxo para saber que mais mês, menos ano vamos levar com mais uma pandemia. O pandemónio é lucrativo. Mais: o medo é altamente lucrativo. A teoria da selecção natural está a par da solução final. O paradoxo dos agiotas é que precisam de rebanhos ordeiros, de crentes e doentes (da indústria farmacêutica ao que se come). Tudo está feito para criar enfermos (estafermos) e semear o pânico. A desconfiança, o medo, traz a agressividade e a militarização, o uso da força como desculpa para a ordenação. A melhor defesa pessoal é o conhecimento, mas até esse é selectivo. Uma coisa é certa: o mundo continua perigoso e não tende a melhorar.

VIRILHAS I Fetichistas de pés ou seios, já os conhecia, agora um fanático de virilhas, nunca tal vira de perto. Virgílio, de sua graça, ficava em ponto de rebuçado só de ouvir a palavra vi-ri-lha. Posso imaginar tal sentimento com pés macios, de unhas pintadas e cortadas na medida certa, como uma extensão de mãos arranjadas por mani e pedicure. O problema de Virgílio era ser acanhado e carecer de figura para abordar senhoras e cavalheiros. Ah, sim, Virgílio tinha um crivo alargado e tanto lhe faziam os habitantes dos arredores e o tipo de pilosidade. As virilhas eram como caminhos na estrada de um viajante. Um jardim onde todo o bem confluia depois de se bifurcar.

ADEPTOS I O adepto ferrenho é um militante de um partido extremista. Pode descambar num nó cego de façanhas menos dignas como atear e lançar very lights para a bancada adversária, ecoar a plenos pulmões o grito de FDP por cada chuto do guarda-redes adversário. Há num adepto deste jaez um terrorista em potência, quase sempre impune e defendido por um ajuntamento do seu calibre. Levar de vencida é o trabalho da equipa, do clube, por quem o adepto dará a vida se for preciso. Campeiam adeptos de ideologias fratricidas por todos os lados. Pequenos submundos regionalistas acolitados que dizem améns e se benzem como Ayatolas equipados de bombas incendiárias. No terreno de jogo têm a extensão do seu ódio ao rival. Lá em baixo, no relvado, os soldados não medem o impacto da violação da integridade física dos colegas de trabalho.

PEOPLE I Lidar com pessoas, a começar e acabar na nossa própria e suas facetas poliédricas, é o pão nosso. A cada dia, hora, instante, sucedem coisas. Agora deu-me para aqui, e no lugar de guardar este solilóquio, vou pôr-me a jeito de reacções (comentários). Vocês, em geral, são um people civilizado e ternurento e não se esticam. Também já sabem o que esta casa gasta. Sou daqueles sujeitos que não fazem fretes e comem e calam, mas tendo cada vez mais a pôr na borda do prato tudo o que não acrescenta. Neste caso, pessoas e as suas manias. É um arejo fantástico. Quanto ao trabalho podem suceder momentos insólitos, como ir passear um turista que fala uma língua desconhecida e só essa e mais nenhuma. Tentamos o Google e a tradução maquinal para estabelecer a possibilidade de comunicar já que nada lhe agrada, é tudo scheiße. Concluo a passeata a perguntar: se não gosta de nada (nem de si próprio, certamente) veio cá fazer o quê? Exercitar o sadomasoquismo?

DAS COISAS SIMPLES I Ao ver-ouvir a biopic do Bob Zimmerman ocorreu-me o mesmo de sempre com os “imortais”; para além da forma, da estética, do groove, da panache, do eco, dos groopies, a importância da linguagem e da mensagem. Simples e efectiva, e de uma poética medular.
Temos por cá o nosso Dylan, o Palma. Ou o Zeca, o Sérgio e o Fausto. A condição de quem toca em todas as esferas, transforma a sua viagem numa tocata universal. O Chico, no Brasil.
É claro que tudo isto é do domínio do sentir e do íntimo.
Há trinta anos ou coisa que o valha dei por mim hospedado num apartamento em Manhattan e o vizinho de cima era o Bob. Um dia, fui ao café da rua onde tomava a sua bica e dei-lhe um bacalhau. O shake hands é codfish em português, disse-lhe. O autógrafo ficou-me no toque de mão. Elogiou os caracóis da minha farta cabeleira de heavy metal além de mencionar o Pessoa, esse “nosso” poeta.

AUTOCONHECIMENTO I A voz na cabeça não sou Eu. Eu é tudo, cabeça, tronco, membros, escolhas, órgãos, acções e contradições. Quanto a vidas passadas, há disso nesta vida. Tal como órfãos e tiranos de púlpito ou de trazer por casa. Quanto ao julgamento final, julgamentos, vitórias e derrotas, é parte desse todo confluente. Curas, soluções, paliativos…? Há quem se drogue, medite, enclausure, abstraia, ignore, vá à bola e ao bordel, lute em vão ou por justas causas, claudique, vá passear o cão ou o macaco. Há quem se borrife, incense, esteja nas tintas ou pinte Guernicas. Há quem dispare ou faça inalações profundas e vá até ao fim do seu mundo para voltar de banho tomado.
Tiago Salazar é escritor e jornalista
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