O Diretor do Departamento

Chegara à função pública numa época em que poucos o faziam com um diploma na mão. Rapidamente progrediu e foi nomeado Diretor do Departamento.

Decidido a deixar a sua marca, assumiu como missão “pôr ordem na casa”. Via-se como um reformador e, durante anos, não deu tréguas aos seus inimigos de estimação: os cafezinhos que se prolongavam em conversas de corredor, as chamadas particulares em horário de serviço, o “isso não é da minha competência” e os bolos de aniversário partidos nos gabinetes, entre palmas e cantorias.

Repetia, para quem o quisesse ouvir, que os funcionários públicos faziam o que queriam, sem receio de serem despedidos. Era quase impossível pô-los a trabalhar.

Para os “endireitar”, descobriu uma arma infalível: um pequeno arquivo instalado num edifício bafiento, ao fundo da avenida. Um compartimento meio enterrado, sem janelas, onde a luz artificial substituía o sol durante oito horas por dia. Para lá iam os que ousavam contrariá-lo ou tinham tido o azar de o encontrar mal-humorado. Passavam os dias a alinhar e realinhar pastas destinadas ao esquecimento. Documentos que ninguém voltaria a abrir. “Necessidades do serviço”, decretava. E contra as necessidades do serviço não havia recurso nem misericórdia.

Ninguém gostava. Mas ninguém se atrevia a recusar. E assim, senhor absoluto do pequeno feudo, o Diretor garantia a ordem e um silêncio quase sepulcral. Nada perturbava a rotina do departamento. Nem sequer o próprio trabalho.

Um dia, porém, deu-se uma mudança de ministro. Um jovem fervoroso que chegou decidido a moralizar a Administração Pública. Prometeu acabar com a pouca-vergonha dos funcionários que só faziam o que queriam, torná-los eficientes, racionalizar procedimentos, otimizar serviços. E começou pelo princípio: extinguiu o cargo de Diretor do Departamento.

O Diretor ficou em choque. Como era possível? Ele, que passara a carreira a combater a impunidade, via-se agora remetido, por e-mail, para “outras funções a designar”. A mensagem tresandava a arquivo, a subterrâneo, ao pequeno compartimento ao fundo da avenida. Indignou-se. Aquilo, concluiu, não se fazia a ninguém.

Um colega, incapaz de se conter, comentou:

— Não te estão a fazer mais do que tu fizeste aos outros.

O ainda Diretor lançou-lhe um olhar ríspido e corrigiu:

— Meu caro amigo, há uma diferença fundamental. O que eu fazia era exercer a autoridade. Isto é abuso de poder.

Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

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