Categoria: Crónica

  • Eu e Balsemão em cinco momentos

    Eu e Balsemão em cinco momentos


    Agora que já tudo foi dito e redito sobre a vida de Francisco Pinto Balsemão, o jornalista Frederico Duarte Carvalho deixa aqui o testemunho de cinco momentos-chave da sua vida profissional em que se cruzaram directa e indirectamente e que acabam por constituir um retrato de um País.   

    Momento nº 1

    Dia 6 de Outubro de 1992. Estava de passagem em Lisboa, vindo do Algarve, onde tinha ido assistir ao concerto da Samantha Fox na discoteca Kiss, como jornalista estagiário de “O Primeiro de Janeiro” – ao mesmo tempo que frequentava a Escola Superior de Jornalismo do Porto – e resolvi ir com o Rui Arala Chaves fazer a reportagem sobre o primeiro dia da SIC. Vi Balsemão pela primeira vez, mas não falei com ele. Testemunhei o início histórico do primeiro dia da televisão privada em Portugal e escrevi depois um texto para “O Primeiro de Janeiro”.

    Momento nº 2

    Pouco tempo depois do lançamento da SIC – não consigo precisar quando, Balsemão foi ao Porto fazer uma apresentação sobre o Expresso e fui ao hotel onde decorria a sessão. Tinha na minha mente duas perguntas para lhe fazer: “Pode um jornalista ser candidato a Presidente da República” e a outra era saber onde iria ser a delegação da SIC no Porto.

    Balsemão sorriu com a pergunta sobre o Presidente da República, pois considerou que era a pensar na hipótese de ser ele próprio o candidato, quando, na realidade, era eu a pensar na sempre eterna questão da isenção dos jornalistas. Quanto à localização da delegação, fiquei a saber que era no Edifício Capitólio, na Avenida da França, e que até nem era longe de minha casa. Mais tarde, fui perguntar ao delegado da SIC, José Manuel Lemos, se podia fazer um estágio.

    Fiquei um mês até que me mandaram embora. Foi o suficiente para aprender como funciona o jornalismo televisivo e ficar amigo do Mário Augusto e do Alberto Serra.

    Captura a partir de vídeo da SIC

    Momento nº 3

    Junho de 2010. Estou em Sitges, nos arredores de Barcelona, para assistir à reunião de Bilderberg. Pelo menos, até onde os jornalistas são autorizados a ir, fora do hotel e para lá do cordão policial. Balsemão convidou Paulo Rangel, então eurodeputado do PSD e o ministro das Finanças do governo socialista de José Sócrates, Fernando Teixeira do Santos. Será este último que, meses depois, em Abril de 2011, manda chamar a “Troika” à revelia do primeiro-ministro que, por sua vez, também fora um convidado de Balsemão para uma reunião de Bilderberg, em 2004, meses antes da sua ascensão ao cargo em S. Bento. 

    Momento nº 4

    Março de 2011. Vou entrevistar Francisco Pinto Balsemão no seu palacete na Lapa, na Rua Ribeiro Sanches, para o meu livro sobre Camarate. Recebe-me com simpatia e temos uma conversa agradável, apesar da delicadeza do tema. Confirma-me aquilo que já era conhecido: estava no Porto desde quarta-feira, dia 3 de Dezembro de 1980, véspera da tragédia.

    Coordenou com a direcção de campanha para que o empresário da RAR, João Macedo e Silva, emprestasse o avião Cessna da empresa e, no dia seguinte, levassem o primeiro-ministro Sá Carneiro de Lisboa ao Porto e, depois do comício extra no Coliseu, garantisse o regresso a Lisboa, de modo que o primeiro-ministro cumprisse a sua agenda oficial na sexta-feira. Estava no aeroporto à espera da chegada de Sá Carneiro quando soube da notícia da tragédia e arranjou um avião privado que o levou imediatamente para Lisboa. Sorriu quando disse que processou Augusto Cid pelas insinuações de que estava dentro de um plano para matar Sá Carneiro, nomeadamente quando o colaborador de “O Diabo” e autor de vários livros sobre Camarate contou que a sua mulher, Mercedes, teria desabafado num cabeleireiro que recebera um aviso do marido para não viajar com Sá Carneiro. “Fui até aos tarecos”, afirmou.

    No fim do encontro, aproveitei para lhe fazer uma pergunta sobre a sua participação nas reuniões do Grupo Bilderberg. Disse-lhe que já ganhara várias apostas sobre quem seria primeiro-ministro em Portugal, bastando-me olhar para a lista das pessoas que ele convidava anualmente. E acrescentei que até tinha estado em Sitges. Ele perguntou como é que as pessoas que iam assistir de fora aos encontros “tinham dinheiro para estarem ali”.

    Disse-lhe que, no meu caso, foi pago pelo meu próprio bolso. Lancei a provocação: “Se as reuniões não são assim nada de especial, então que tal levar-me a uma um dia para confirmar?”. Ele disse-me, com um sorriso de charme, que o meu estatuto profissional não o permitia. Três meses depois, para o encontro anual que decorreu na Suiça, Balsemão convidou António Nogueira Leite e… Clara Ferreira Alves, a ex-jornalista do Expresso e regular comentadora da SIC. Confesso que sorri e não levei a mal: confirmei que quem faz os estatutos não são as pessoas, mas sim o que Balsemão decidia sobre o que são os estatutos.

    Momento nº 5

    Noite de 22 de Outubro de 2025. Estou na fila para o velório de Balsemão. Atrás de mim está João Soares, que acabou de dar uma entrevista a José Manuel Mestre. Abordo o filho de Mário Soares e pergunto se se lembra da vez em que, antes das eleições europeias de 2004, fui a casa dele, junto ao Príncipe Real, para o entrevistar sobre uma possível candidatura à liderança do PS. E disse-lhe então, mal cheguei: “Então, o José Sócrates é que vai ser o próximo líder do PS!”.

    Perante o espanto de João Soares, expliquei que acabara de ler que Balsemão convidara Santana Lopes e José Sócrates para o encontro de Bilderberg, que iria ter lugar em Junho, em Itália. Mencionei ainda ao filho do antigo Presidente da República que acabara de publicar um livro, em Novembro de 2003 – “Eu Sei Que Você Sabe” –, onde explicava como é que as reuniões do Grupo Bilderberg eram bons indicadores para futuras escolhas políticas. “Isso é que ainda vamos ver!”, respondeu-me João Soares, cheio de confiança.

    Em Setembro, quando Sócrates venceu a corrida para a liderança do PS, telefonei ao João Soares para ouvir a sua opinião: “Frederico, acabei de sair da SIC onde encontrei Balsemão. Ele veio cumprimentar-me e dizer que tinha apreciado a forma como eu me tinha batido nas eleições. E eu, enquanto olhava para ele, só pensava: tenho de ler o livro do Frederico”. Lembrei isto ao antigo candidato e ele desabafou: “Já nem me lembrava”. A irmã, Isabel, não sei se ouviu toda a nossa conversa mas ouviu o meu desabafo: “O que Portugal não teria vivido se não tivesse sido o apoio de Balsemão a Sócrates”.

    Conclusão: Agradeço a Balsemão a sua vida e o esforço que fez em deixar o mundo melhor da forma que ele acreditava como deveria ser o mundo. Foi ao fazer exactamente o contrário daquilo que os seus seguidores sempre acharam que eu deveria fazer, pude conquistar um dos mais preciosos bens que podemos ter na Terra enquanto cá estamos: liberdade de pensamento. E isso, felizmente, ao contrário de alguns que conheço, Balsemão nunca me conseguiu tirar. Antes pelo contrário, pois se não tivesse sido ele, nunca teria tido motivos para lutar pela Liberdade. Por isso, só lhe posso dizer: Obrigado por me ter dado a conhecer o que é ser-se livre de verdade!        

  • Casa Pia 2.2

    Casa Pia 2.2


    Com o Benfica não se faz farinha — porque a farinha, ao menos, quando se amassa, dá pão. O Benfica, por estes dias, dá apenas azia.

    Mas comecemos pela parte mais divertida da epopeia encarnada: o Guinness Book of Records, essa Bíblia dos exageros humanos, recusou sancionar o recorde da primeira volta das eleições para a presidência do Benfica. Razão? Havia 86.297 sócios votantes, o que superaria um sufrágio do Barcelona, mas — pasme-se — não houve eleito.

    Porém, como o povo benfiquista é resiliente, e talvez também algo supersticioso, as águias juntaram-se em bando ainda mais cerrado e, na segunda volta, este sábado, lá bateram o recorde — sem penugem nem hesitação — e tiraram as peneiras aos blaugranas:93.891 sócios a exercer o seu voto. Um mar humano. Ou melhor: um bando de águias em romaria cívica.

    Poderia ter sido 93.892, se este vosso cronista tivesse ido cumprir o seu “dever” cívico. Contudo, abstive-me — não por desinteresse, que o Benfica é coisa séria, mas por prudência moral. Já bastam as bocas ocasionais de que, por escrever nesta modesta varanda, não abordo os muitos temas sensíveis da bola. E agora, se aparecesse de boletim em punho, diriam logo que tentei influenciar as eleições em favor de um candidato — especialmente depois de ter escrito, na última semana, que a holding familiar de Rui Costa é um inferno.

    Assim sendo, preferi não dar azo a rumores. E, convenhamos, a abstenção no desporto também tem a sua poesia: é o direito de quem ama, mas não quer ser cúmplice.

    De qualquer modo, a democracia benfiquista continua a ser um hino à complexidade: eu, com 25 anos de sócio, teria direito a 50 votos — e isto, sim, é uma verdadeira democracia, daquelas em que uns valem por cinquenta e outros por um. No fundo, é o Benfica a antecipar o futuro da política portuguesa. Mas pronto, também não se perdeu muito: Rui Costa venceu Noronha Lopes com larga vantagem, e o único voto que o Guinness perdeu foi o meu.

    Depois deste feito monumental, esperava-se que o Benfica serenasse os nervos e, liberto das tensões eleitorais, mostrasse em campo a mesma força que mostrou nas urnas.

    Afinal, quem é capaz de mobilizar quase cem mil pessoas devia ter potência para mobilizar onze jogadores. Mas não: a equipa, qual símbolo da nação, continua a jogar como quem espera que alguém faça por si o trabalho. Contra o Casa Pia — sim, o Casa Pia, e não o Real Madrid — esperava-se uma exibição tranquila, um banho de bola, um resultado folgado. No ano passado foi 3-0.

    Afinal, o que se viu neste domingo foi mais uma sinfonia de passes inúteis: trocam bolas, recuam, lateralizam, atrasam, contemporizam… Fintar, cruzar com precisão ou rematar à baliza já é pedir um esforço quase revolucionário.

    O primeiro golo até apareceu cedo, por Sudakov, num remate de belo efeito aos 17 minutos — daqueles que enganam o público e fazem sonhar os adeptos com um milagre.

    Foi sol de pouca dura. O Benfica, fiel à sua nova doutrina táctica do tédio, retomou o carrossel de passes para o lado, como se o futebol fosse um concurso de quem adormece o adversário primeiro. Ao intervalo, a plateia já bocejava. Ou, pelo menos, eu. Salvou-se a sandes — que tinha alguma carne de verdade — e a pêra do farnel, que estava rijinha, como deve ser.

    No regresso ao relvado, o destino fez o favor de nos recordar que o Benfica moderno tem um pacto secreto com o infortúnio. O inevitável penálti a favor ainda surgiu — é quase uma cláusula contratual de cada jogo — e Pavlidis não falhou.

    Mas quando se esperava alguma serenidade, eis que António Silva, que parece ter sido abençoado com o dom de complicar o simples, decide oferecer um momento de suspense. Fez das dele, com um penálti discutível — é certo —, mas penálti. Trubin, que anda a jogar o papel de santo padroeiro dos desgraçados, ainda defendeu o castigo. Só que, no Benfica, até as defesas se tornam tragédias: Tomás Araújo, num gesto de solidariedade suicida, resolveu limpar a área, evitando uma recarga, com um pontapé que acabou, certeiro, dentro da própria baliza.

    Foi um autogolo tão sincero que até pareceu ensaiado. O público não sabia se devia rir, chorar ou pedir uma auditoria às leis da física.

    A partir daí, o destino fez o resto: houve um golo (bem) anulado a Leandro Barreiro, para dar um toque de injustiça, e, como manda a tradição desta época, houve golo do adversário nos descontos — porque, no Benfica, o relógio é sempre inimigo.

    Mais um empate caseiro — o terceiro concedido esta época na Luz, depois de Santa Clara e Rio Ave —, mais uma exibição de sonolência, mais uma prova de que esta equipa é previsível até na mediocridade.

    O Benfica transformou-se numa espécie de dramaturgia grega: conhecemos o início, o meio e o fim — e o coro já canta o lamento antes da tragédia acontecer.

    Rui Costa, reeleito com pompa e circunstância, bem podia aproveitar o embalo das urnas e tentar governar também o relvado, porque José Mourinho parece mais preocupado em garantir posse de bola do que golos — e, convenhamos, os adeptos não pagam bilhete para ver passes horizontais.

    Há, todavia, uma beleza estranha nesta desgraça. O Benfica mostra-se o espelho perfeito de Portugal: tem talento, tem história, tem paixão e até recorde no Guinness — mas tropeça sempre nos próprios pés.

    De qualquer forma, eis-me aqui a revelar aquilo que sou: a Da Varanda da Luz mantém-se fiel à sua tradição — crítica, sim, mas com amor. Até ao próximo desaire.

  • O Capital (e o regresso à A Capital)

    O Capital (e o regresso à A Capital)


    PEDRADAS NO CHARCO I Há axiomas a levar em conta nisto de intervir. Por exemplo, o Jornalismo é o quarto poder, e o seu papel é noticiar com isenção, expôr com factos e enfrentar os poderes, ouvir todas as partes. A mercantilização da Imprensa tornou o negócio dos Media um pardieiro de favores, promíscuo e servil. Um matrimónio entre a publicidade e a manipulação. O espaço de opinião é onde se pode e deve fazer a exposição de tendências e idiossincrasias. Goste-se ou não. Se me der para lembrar numa crónica factos ocorridos em 1900 e carqueja, não vou tergiversar ou cometer delitos gratuitos de opinião, ataques velhacos ad hominem, mas tenho direito a tecer retratos parciais fruto da minha experiência com tratantes (ou elogiosos, se for o caso). Outra coisa: escrever para agradar a gregos e troianos é um mau princípio. A escrita criativa é por natureza uma actividade subversiva. Tal como a escrita de Imprensa (artigo, notícia, reportagem) um espaço de informação.

    A SALVAÇÃO I Talvez a paz de espírito permita deixar este mundo sem conflitos (internos e externos). Não faltam livros de ajuda, terapias, exemplos de gurus e influencers de serviço à grande causa da paz entre os homens. O humor (negro ou de outra tonalidade) é uma arma eficaz, mas os picaros sofrem de cinismo. Um cinismo de sobrevivência, idealista, mas cinismo na mesma. Os guerrilheiros idealistas querem limpar a face da terra da corja que explora o homem. A morte do inimigo é o seu credo. Há uma pestilência de competição encarniçada que vai das ruas ao parlamento, dos estádios aos templos. Nasce tudo de cabeças onde a cooperação é tomada apenas no sentido de acabar com o inimigo. Onde estás, amigo? Onde estás, amor? Há um refúgio secreto onde se ouvem os bateres do coração, o murmúrio de um cão fiel e leal, um caminhar de mãos dadas. Se o têm não o divulguem. Até isso é motivo de cobiça e inveja, o motor da frustração que leva à apologia da inimizade. Só é inimigo quem vos quer governar e pôr a pata na jugular.

    O CAPITAL I Quem precisa de bulir para sobreviver (e observa as notícias sérias e isentas) é natural que se indigne, insurja ou até parta para a angariação directa de fundos perante o regabofe com os dinheiros”públicos”. Se o fizer é uma justa causa. Por outro lado, ninguém deveria abrir o bico sem ter passado por duras realidades (ditaduras, estupros, violações, violência gratuita, bullying ou assim). Não falo de perder os pais segundo a ordem natural da vida. Falo de perder um filho, por exemplo, raptado, torturado, violado e depois atirado aos bichos ou de tiro na nuca ou alvo de tiro de um sniper como um pato. Vale para um ou outro lado da barricada de quem perpetra. Falo do patrão coçar a micose enquanto os assalariados se esfalfam (estudasses, não é? Ou não tivesses dignidade para não subir na horizontal). Falo de não ter pais ricos, heranças, e ser incorrupto e dar o litro a trabalhar por uma vida decente e nunca sair da cepa torta porque o sistema é o que é. Falo de haver fome quando há desperdícios. Falo de andar a roubar, espancar e assassinar pobres diabos só por serem doutro país (pobres diabos pois claro). Falo de usar a lei cabotina do mais forte para subjugar no lugar de carregar em ombros e alcandorar quem trabalha e enriquece os accionistas. Falo de usar o panegírico do socialismo, do comunismo e da social democracia e ser um déspota ou arrivista de trazer por casa. Falo de escrever sem lágrimas.

    EXERCÍCIO I Antes de qualquer actividade física é preciso aquecer, alongar, para prevenir o risco de lesão. Na escrita o princípio é idêntico. Alinhar o tico e o teco, dar a primeira demão, limpar a ganga (gordura), corrigir os excessos e só então publicar. O público leitor agradece. Até é capaz de reler ou guardar e partilhar como se guardam recortes de jornais e revistas. Por falar nisso é raro ver aqui textos fotografados com as respectivas caligrafias. A escrita manual diz muito da persona. É como uma voz silenciosa na forma de gatafunho ou um desenho letra a letra, símbolo a símbolo, frase a frase, ideia a ideia, irrepreensível.

    Hoje é dia de mudar o mundo, depois da tempestade varrer a madrugada.

    Começar o dia com um abraço e um beijo sem desejos.

    Agradecer a quem nos ensanduicha o papo seco, tira a bica sem um gesto maquinal. A quem nos conduz ao trabalho, o motorista, o carro bem oleado e de travões revistos, o político e seu partido que se batem por leis justas e guardam a língua no saco, os jogadores que deram o litro para vencer mesmo que tenham sido derrotados. Agradecer aos músicos, aos artistas, aos escrevinhadores de redes sociais ou aos jornalistas que se ocupam em escrever a verdade dos factos. A Divina só Deus sabe.

    BILHETE DE IDENTIDADE I Não tenho cadastro, mas não significa não ter aprontado. E não falo de meter chupa-chupas ou chocolates Regina ao bolso. Estou a falar de outras cenas, e não me arrependo. A acção directa é um instrumento de defesa pessoal. Quando nos atacam a defesa deve ser proporcional. Um insulto, toma lá outro. Um soco, esquiva, e pimba. Um tiro já é mais complicado. Se alguém tocar nos meus, a resposta é na mesma moeda, ou um pouco mais contundente. Estou a fazer uma simulação para o entendimento do estado do mundo. Evolução é ignorar, dar a outra face, recorrer ao coro dos tribunais ou ter a guarda alta? Posso beliscar ou mesmo ir à jugular num texto. Mas isso é coisa pouca se a maldade é refinada.

    Em puto sofri de bullying. Levei porrada da grossa, além das bofetadas correctivas. Ouvi barbaridades. Passei por humilhações. Emasculações disfarçadas de amor a cargo de vítimas piores do que carrascos
    Fui gamado pelo Estado e ciganos. Tenho uma catarata no olho esquerdo à conta de um ajuste de ciganos que trouxeram os primos por causa de uma luta que me correu bem. Fui gamado pelo Estado de tal ordem que quase sucumbi a uma depressão. Não há lutas leais. Talvez nos ringues e nem todas.

    Sou pouco crente na bondade generalizada. Há gente boa. Há gente do Amor e da Paz. São esses que quero comigo, ao meu lado, nem à frente nem atrás.

    A CAPITAL (O jornal defunto)

    Não esperei 28 anos para falar deste assunto na última crónica “A Glória Perdida”. O nome do chefe de redacção (que exerceu o seu contraditório) ocorreu-me somente num contexto de histórias lamentáveis ao serviço do Jornalismo. Podia escrever um ensaio sobre esses 30 anos e picos a dar a cara e o corpo ao manifesto, mas só digo que conheci diversos vespeiros e fiz um punhado de amigos. Também amigos, amigos, negócios à parte.

    Sobre a situação em concreto, tal como disse o chefe nasceu de um erro meu, fruto da ingenuidade. Bastaria ter confirmado se o nome e a patente correspondiam ao entrevistado. A impressão que guardei foi de nada do sucedido ter sido inocente.

    Sobre a intenção da peça, foi encomenda do editor Rodrigues, que me disse para me deslocar ao comando-geral da PSP no pressuposto de entrevistar o Comandante. Se fosse apenas para recolher um depoimento de um relações públicas tê-lo-ia feito por telefone. Fui tolo ao comprar lebre por gato.

    É facto que fui levado à sala da direcção para ser despedido e nunca mais me esqueci do vil cenário que presenciei. Se o chefe diz que me apoiou, fico satisfeito por saber, mas não foi essa a impressão que guardei, sobretudo pelo terror psicológico que vivi nos meses seguintes até sair do jornal por minha livre vontade.

    Quanto à directora Helena Sanches Osório (com quem mantive uma boa amizade até ao fim e depois do sucedido ainda me convidou para ver o filme do Taveira e umas belas jantaradas na sua casa do Estoril) limitou-se a mudar-me para a secção de Cultura. O chefe sabe o que estou a dizer porque estava lá. Se foi sugestão sua salvar-me, aqui fica um obrigado extemporâneo.

    De resto chegámos a ter uma conversa os dois, na mesma noite, no corredor à saída da redacção, sobre o que achava daquele incidente e da irrelevância de me chamar Salazar. O Gomes, homem de guerra, soa mais bonito.

    Também faltou dizer que toda a redacção sabia que eu ia ser pai (aos 25 anos) e caso tivesse sido despedido seria de uma tremenda crueldade.

    Nada de anormal neste mundo e não só nos pés de vento do Jornalismo.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)

  • A Glória perdida

    A Glória perdida


    É A ECONOMIA, ESTÚPIDO I A violência nasce da frustração. Pode ser apenas um grito de raiva ou uma acção colectiva. Por exemplo, sabemos (sabeis, certo? Talvez até tirais partido da propriedade) que arrendar uma casa não é para todos. Ide aos sites e vede quanto custam e o que é pedido. Os ordenados (quando os há) não batem certo com o valor da renda. O certo é uma renda representar um terço do salário e nunca acima das possibilidades. Isto, de cobrar os olhos da cara, não vai mudar. Quanto à aquisição e ao recurso ao crédito bancário são outros 500.

    Depois, há o acesso aos alimentos e bens essenciais, nas mãos de galifões de grandes superfícies que recrutam na base do salário mínimo africano. Já para não falar da qualidade dos alimentos. Viver custa e não é barato. Enquanto isso, peleja-se pelas quinas e símbolos da agremiação desportiva onde o dinheiro é de outra galáxia. Aspiram os putos a serem artistas da bola. Pudera. Ou então entrarem na vida política e juntarem-se aos coros de sapos. Exibirem o que se constrói num chatgpt ou fazerem de conta que são felizes. Isto não vai mudar. O dinheiro é quem mais ordena e nós (a maioria) somos as tetas para ordenhar e manter ordenadas. De ordenado mínimo, se possível. Se escrever aqui for a pagantes, haverá deserção em massa, como quando a necessidade pede acção. Acção directa.

    a glass jar filled with coins and a plant

    À MERCÊ DE MERCEEIROS E MERCENÁRIOS I O desastre do elevador da Glória levanta questões graves e sérias sobre a gestão e a política. Acidentes sucedem, mas podem ser evitados se houver o cuidado de não facilitar. Há uma manutenção imperativa a fazer e remunerada a condizer com a responsabilidade. Há a lotação para respeitar. Se for apurada a ausência de contrato de manutenção há pelo menos um mês (como se aventa) é um crime. Tal como muitos crimes e impunidades que se alastram onde cheira a dinheiro. Lisboa tresanda a esturro e avidez. Este acidente é muito mais do que um acidente. É um presságio.

    P.S. Ando a alertar para a falta de obrigação de inspecções obrigatórias aos veículos de animação turística, que mais cedo ou mais tarde redundará num acidente fatal, fora o imperativo não obrigatório de certificado profissional para o exercício da profissão, ou mesmo o cadastro limpo. Leram aqui.

    DESGRAÇAS I Se um tuk perder os travões numa rua íngreme e a descer pode dar-se o caso de morrerem 6 passageiros, mais o condutor e uns quantos transeuntes de passagem, vítimas do acaso. Não faço a mínima ideia de quantos tuks há a circular, ou quantos há no mercado (registados ou não, com matrículas falsas) mas serão mais de 500, todos os dias. Uma coisa é certa: não é obrigatório fazer inspeções aos veículos e duvido que os donos lhes dêem assistência regular. Ou seja, é mais um ramo de uma tragédia à espera de acontecer. Dou de barato que os governos se estejam nas tintas para a obrigatoriedade de certificação profissional, de cadastro limpo ou quem tem competências para este ofício.

    Porém, nesta matéria de segurança não facilito. Até sou capaz de arriscar que há tuks a circular sem todos os seguros obrigatórios ou registos de animação turística. Como é próprio das repúblicas das bananas. Conduzir sob o efeito de estupefacientes são outros 500. Haveria mais temas de peso para analisar mas deixemos o tema de lado e voltemos à segurança. Não sinto segurança de qualquer espécie a circular nas ruas de Lisboa, seja pela condução mentecapta, seja pela agressividade lactente no rol de doentes mentais que pululam. Dou por mim sempre em guarda e volta e meia lá tenho que me socorrer do directo à cana do nariz sem me pôr com solilóquios. Imagino-me a viver um drama com família ou amigos, de uma desgraça fruto de incúria. Estou preparado para a vinda do fascismo. Tal como não vejo nada de auspicioso num mundo onde nos querem matar. Falo dos sem fortuna, como eu, cuja maior fortuna é Ver. Ver como nos tratam. E nos atiram areia para os olhos.

    man driving yellow and black golf cart

    DA RESPONSABILIDADE I Tudo está ligado, a começar. Se vendo um “tour”, passeio, uma volta ao bilhar grande, um recojido, ballade ou giro, estou a vender uma experiência sensorial, cultural, histórica, política, social, antropológica, sociológica, filosófica que me exige rigores. Se for apeado, o dever implica certificar-me das informações prestadas além da voz colocada e da elegância. Da bastardia do mestre de Avis à zaragata de Luís Vaz, da passagem de Cagliostro por Lisboa e arredores à desbunda do Conde Duque de Olivares, da vida lisboeta de Cristóvão Colombo e seu irmão Bartolomeu, da graduação dos últimos vinte sete terramotos à negligência no Elevador (Ascensor) da Glória, da deambulação e flanneries de artistas à engenharia de Monsieur Ponsard, dos exilados brasileiros aos invasores franceses, dos sefarditas mais ou menos ilustres aos Califas e centuriões. É todo um trajecto de possibilidades infinitas. Convém ter bibliografia avisada e ler sem empinar. Os euros da viagem têm razões de ser. Tal como a condução segura, o brio e a seriedade intelectual. A negligência neste ramo só é ofensiva perante a concorrência desleal. Quando um patas de urso se achega a tentar o dumping o turista incauto só pensa na poupança. No poupar não está o ganho.

    train between buildings

    O QUE FAÇO EU ALI I De 1991 a até 2016 vivi materialmente do Jornalismo e, em parte, da venda de livros e cursos de Escrita de Viagens. Ou seja, paguei as minhas contas e outras contas que me foram imputadas pela ingenuidade de casar com comunhão de bens adquiridos. De confiar na idoneidade de quem entreguei o meu coração e tudo o que tinha. Cheguei ao mundo dos tuks por mero acaso. Para escrever ‘O Motorista Acidental’.

    Escrever é tudo para mim. Em dez anos de tuks publiquei vários livros, sempre na esperança de poder viver somente da escrita. Fui encarando esta actividade como um serviço de embaixada cultural, e como não sou hipócrita, para beneficiar do vazio legal como 100% dos ramificados. Seria o primeiro a ser ordeiro nessa matéria se fossem martelar um a um dos que ali andam.

    Pagaria outra vez o meu quinhão. O que mais me enoja é haver gajos que nunca na vida – a não ser como ladrões e vigaristas – teriam o soldo que têm e andam na rua a vender tours cujo passeio equivale ao embuste que são, a amedrontar os colegas, a picar, a espicaçar e a dropinar, cheios de papo com os seus euros amealhados sem vergonha do embuste que vendem. Gajos que não valem o chão que pisam, muitos deles iletrados e sujos da cabeça aos pés. Merda humana. Em todos os ofícios há disto. Pena que não morram nas tragédias da Glória. Oxalá a vida os foda bem fodidos. Eles sabem de quem falo.

    man sitting on chair holding newspaper on fire

    FALAR DE COR E SALTEADO I O Jornalismo ensinou-me (entre outras coisas) a ouvir todas as partes visadas. É claro que onde há um sujeito há idiossincrasias, tendências, gostos, afinidades e recalcamentos e opiniões mais ou menos bem formadas. Quando o escritor Graham Greene escreveu “odeio mexicanos” pagou caro o preço da boutade. Ódios destes, generalizados, são comuns. Contra clubes rivais, religiões sectárias e ideologias políticas. Contra raças e cor de pele. A capacidade de aceitar a diferença é rara.

    O caso de Gaza é um paradigma do ódio mútuo. Da tentação do mal. Se pudessem, e quando podem, as vítimas tornam-se carrascos. Um dia entrevistei um Rinpoche violentamente torturado no Tibete de sorriso nos lábios e na face. Tinha as marcas da tortura no corpo e decerto na alma, mas falava dos carrascos com compaixão. Afinal só cumpriam ordens. É como culpar os pais e o país pela atitude ressabiada. Ainda o melhor é ir às origens da maldade e avaliar as possibilidades de restauro. No lugar de pegar em armas.

    womans face in dark room

    DA MALDADE I Quando descobri a maldade era criança como todos nós. Um tio cobarde batia-me só por sadismo. Dava-me carolos na cabeça e deixava-me a chorar agarrado aos galos. Porquê o fazia, não sei. Talvez por querer fazer o mesmo ao meu pai e não ter coragem. Na rua havia uma resma de velhacos, caceteiros, invejosos e ardilosos vigaristas.

    A minha estreia na maldade foi ir ao lote de papelão de um andrajoso e torná-lo a patacos. Tal como o fiz com os pinheiros dos ciganos da avenida da Igreja ou a aliviar as hóstias da sacristia para vender na padaria. Só parei a maldade do tio pulha no dia em que lhe dei com um cinzeiro nas fuças. No Jornalismo cruzei-me com vários tratantes, um deles o grande comunista Pedro Tadeu que me quis fazer a cama na Capital. Embirrava com o meu apelido e armou-me uma cilada como meu editor. Alterou o artigo (a patente do oficial da Polícia) e fez-me passar por um embaraço que quase me custava o emprego. Valeu-me a confiança da Helena Sanches Osório. Teria um rol simpático de histórias com patifes na minha vida profissional, como a equipa de produção e realização do Endereço Desconhecido, a começar e acabar no José Carlos Santos, esse biltre cocaínómano, psicopata e narcisista. No ramo dos tuks achei o pior da raça humana. Talvez por ser um trabalho de vendilhões de rua, cuja única lei é a do mais forte e astuto. É a condição humana animal fruto mormente da inveja do carisma.

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    GUIAS I Se me fosse dado poder de veto, só uma elite ilustrada faria serviços de guia. Nem eu o faria sem antes me sentar nos bancos universitários e dali saísse ornado de diploma. Toda a choldra teria guia de marcha e estou certo de que em havendo fiscalizações 99,99% teriam contas a ajustar com o fisco, a IGT e a ASAE. Para os Moedas da vida é mais fácil atiçar os cães da EMEL e da PM, do que ir ao cerne da questão. Ou seja, ser guia é guiar e quem o faz precisa de competências além de um bigode com laca ou um decote pronunciado. De arranhar as línguas aprendidas enquanto emigrantes de vão de escada ou citar a Wikipédia quando o faz. Já nem vou falar da chusma de asiáticos que descobriu uma mina de ouro ao conduzir um riquexó que nas suas terras lhes serve de táxi. Um embuste generalizado é o que é. Óbvio que há guias diplomados como a Dona Lígia ou arquitectos frustrados e empresários ávidos de dinheiro sem espinhas.

    A Literatura levou-me ao ofício de guia. Primeiro em Istambul, depois em Praga e por fim, Lisboa, a minha menina rainha. Só preciso de um tuk para subir ribanceiras. De resto, posso sentar-me no British Bar, pedir um Jameson e brindar ao Zé Cardoso Pires, para nomear apenas um ilustre que decerto todos estes guias de ocasião devem achar ser um falecido jogador do Benfica.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)

    Esta crónica teve um texto de direito de resposta, da autoria de Pedro Tadeu, que pode ser lido aqui.

  • Astérix já é um dos nossos

    Astérix já é um dos nossos


    Foi preciso esperar 66 anos desde a criação de Astérix e Obélix até que, finalmente, a dupla gaulesa apanhasse o barco do mercador fenício, no norte da Gália e, em vez de rumarem até ao Mediterrâneo, parassem numa cidade do Atlântico e que é ainda mais antiga do que Roma: Olissipo. 

    A aventura “Astérix na Lusitânia”, sabemos bem, não é a mesma que resultaria caso tivesse sido feita pelos criadores originais, Uderzo e Goscinny, mas podemos afirmar que a nova equipa, o argumentista Fabcaro e o desenhador Didier Conrad, fizeram um trabalho competente e que não envergonha o original. Reconheça-se ainda que não têm um trabalho fácil, pois, como explica Conrad: “Se tirarmos a opinião do editor, dos herdeiros, as expectativas dos leitores e as exigências do formato e da impressão, temos toda a liberdade de criar o que queremos”.

    Fabcaro (Fabrice Caro ) e Didier Conrad, autores de “Astérix na Lusitânia”. / Foto: D.R.

    O certo é que também não é preciso ser um génio da edição de livros para saber que um novo álbum de Astérix será sempre um sucesso de vendas. Pois, mais não seja, os leitores das aventuras originais irão sempre querer ter o último álbum na estante para não ficarem com a sensação de uma colecção incompleta. Enquanto isso acontecer um pouco por todo o mundo – são cerca de 5 milhões de exemplares no total, em cerca de 19 países –, então cada álbum será sempre um êxito garantido, independentemente da qualidade e das expectativas do mesmo.

    Este é o 41º álbum da coleção, mas apenas o sétimo feito a partir de 2013, altura em que Uderzo passou a responsabilidade do desenho para Didier Conrad. Os textos – que até 1977 eram de Goscinny – tiveram a assinatura de Jean-Yves Ferri nos cinco primeiros álbuns, mas, desde 2023, é Fabcaro quem os idealiza. E, depois de ter criado o álbum anterior a este, “O Lírio Branco”, podemos dizer que a aventura na Lusitânia é capaz de estar no topo das preferências desta nova fase, tanto mais não seja pelo facto de Portugal estar na moda.

    Os estereótipos estão lá todos, para o bem ou para o mal. Temos a referência a Amália, que até escolheu um dos fados “mais alegres” para dar as boas-vindas aos gauleses. Existe uma personagem que o editor quis que se chamasse “Saudade”, em vez do “Oxalá” do original francês. Há ainda paisagens, como as Azenhas do Mar. Falta, contudo, o trânsito em Olissipo – que já naquela altura seria tão movimentado quanto o da Lutécia. Depois, temos bacalhau, pastéis de nata, azulejos, galo de Barcelos, eléctrico XXVIII e ainda Ronaldo, que até aparece em dose dupla.

    Apresentação do livro “Astérix na Lusitânia”. Foto: D.R.

    “Desenhei uma criança que joga à bola com o número VII na camisa, mas o editor queixou-se que estava muito pequena e mal se via. Então desenhei-o, de forma mais visível, noutra situação”, explicou Didier Conrad ao Página Um. E quando perguntámos aos novos autores por que não recriaram um jogo de futebol onde Ronaldo, o primeiro futebolista multimilionário da história do desporto, pudesse ter mais destaque, um pouco à semelhança do jogo de rugby que Goscinny e Uderzo fizeram na aventura entre os Bretões, os autores explicaram que, no caso da viagem à Inglaterra, o rugby era um desporto mais típico dessas paragens, “enquanto a paixão do futebol é transversal a vários países e não apenas a Portugal”.

    Quanto à história em si, sabemos que Astérix só precisa de um pequeno pretexto para sair da aldeia – existe uma tradição em que as aventuras de Astérix alternam entre uma história dentro da aldeia e outra que é o chamado álbum de “viagem”, como é neste caso. Na realidade, uma aventura de Astérix na Lusitânia era algo que poderíamos esperar desde, pelo menos 1967, altura em que Goscinny fez, em “Astérix, Legionário”, uma menção à canção francesa dos anos 50, “As Lavadeiras de Portugal” (que chama “As Lavadeiras da Lusitânia”). Depois, em 1969, a dupla criativa original fez a aventura na Hispânia, criando, três anos mais tarde, um personagem lusitano na história “O Domínio dos Deuses”. O próprio Uderzo, que visitou Portugal em 1991, e falou nessa altura da possibilidade de haver uma aventura na Lusitânia, ainda criou mais um personagem lusitano no álbum “O Pesadelo de Obélix”, editado em 1996.  

    Fabcaro explicou como se lembrou do lusitano de “O Domínio dos Deuses” para dar início à aventura, onde ele chega à aldeia a pedir ajuda para libertar um amigo, produtor português do garum – o molho de peixe fermentado e que a Lusitânia era fornecedora para o Império Romano. E há um detalhe que, até ao momento, poucos terão ainda dado por ele: o rival desse português é um napolitano, Crésus Lupus (Burlus Lupus na versão portuguesa), que Conrad desenhou numa óbvia caricatura de Sílvio Berlusconi – o magnata da Imprensa e ex-primeiro-ministro de Itália.

    Foto: D.R.

    Fizemos notar ao argumentista a coincidência dessa personagem surgir neste álbum num momento em que o filho de Berlusconi, Pier Silvio Berlusconi, está interessado na compra do grupo Impresa, nas mãos da família Balsemão. Fabcaro garante que não foi de propósito, pois trata-se de um personagem que já surgira na aventura de 2017, “Astérix e a Transitálica”, precisamente como um rico produtor de garum. E, agora, fez todo o sentido trazê-lo para a aventura na Lusitânia.

    A propósito de outras caricaturas que surgem na aventura portuguesa, há uma que não tem qualquer relação com o País, mas que se trata de um centurião romano que caricatura o cómico inglês Ricky Gervais. Conrad confirmou ao Página Um ser um pedido especial do editor francês “que é um grande fá do comediante inglês”, acrescentando que, por outro lado, o governador romano na Lusitânia, Pluvalus (Interesseirus em português), não corresponde à caricatura de ninguém em real. Fabcaro sorri, pois na sua descrição estava uma pessoa semelhante a… Donald Trump. Acontece que Didier Conrad vive nos EUA, no Texas, é decidiu que não seria boa ideia. Esse tipo de censura é algo que também transparece na fala do pirata africano que, de repente, já diz os “r”.    

    Outra questão que levantou alguma estranheza entre os leitores portugueses é facto de os personagens portugueses estarem sempre a dizer “ó pá”. Isso surge de forma que, podemos mesmo considerar, ser exagerada. Não era preciso usar isso sempre em todas as falas dos lusitanos. Menos seria mais. Aliás, o editor português da ASA, Vítor Silva Mota, sentiu mesmo a necessidade de explicar essa opção perante a plateia que encheu uma das salas de cinema do UCI no El Corte Inglés onde decorreu uma apresentação pública. Disse ele que foi uma opção para brincar com o original onde os personagens lusitanos trocam a terminação francesa de palavras terminadas em “ion” por “ção”. Fabcaro disse mesmo ao Página Um que recebeu mensagens de amigos franceses com “félicitação” em vez de “félicitation”.

    Outro dos desafios da tradução tem a ver com uma referência ao nosso 25 de Abril. Na versão francesa, os autores colocam um prisioneiro a gritar “oyez, oyez”, como “ouçam, ouçam”. Um outro prisioneiro diz que se trata “de mais um jovem idealista que julga que se pode fazer a revolução com oyez”, sendo que esta última palavra soa a cravos em francês, os “oillets”. Na versão portuguesa o prisioneiro diz que “o povo jamais será vencido” e o companheiro explica que ele é o prisioneiro número MCMLXXIV (1974), e pede para que não lhe liguem, pois tem a cabeça cheia de ideias revolucionárias.

    Astérix e Obélix, num momento raro, mas não inédito, disfarçam-se de locais, pintando o cabelo de escuro, o que dá um efeito cómico também único a esta aventura, e ainda participam numa cimeira internacional a bordo da galera “Davos”, que Fabcaro explicou fazer sentido decorrer em Lisboa, pois é uma cidade que deu início à globalização. E essa é ainda uma referência que surge com uma personagem feminina lusitana chamada Gama, que tem um tasco chamado Vasco – que em francês é o Le Vase Clos –, onde há sempre belas descobertas.

    Outras descobertas deste álbum é a citação do poema de Voltaire sobre o terramoto de Lisboa, que surge a explicar a nostalgia portuguesa, com a tradução de Vasco Graça Moura: “Bem será tudo um dia, é essa a nossa esp’rança; Hoje tudo está bem, é essa a ilusão”. Também Fernando Pessoa é lembrado, embora apenas na versão portuguesa, quando um soldado romano diz que não é nada, mas tem em si todos os sonhos do mundo.

    Cada leitor teria feito uma aventura diferente, mas esta é a que agora temos. E, fatalmente como destino, vamos ter de gostar dela como está e para sempre.

    Frederico Duarte Carvalho, jornalista e escritor, colaborador regular do Página Um, assina este texto porque também é um especialista em banda desenhada tendo, inclusive, editado recentemente, nas edições Polvo, o livro “As Aventuras de Goscinny e Uderzo entre os Lusitanos”, onde explica a evolução das aventuras da dupla gaulesa até chegar à história na Lusitânia. Uma obra que conta com documentos inéditos do Institut René Goscinny, cedidos especialmente para esse trabalho.

  • Arouca 5.0

    Arouca 5.0


    Há quem diga que a vida é feita de grandes eventos. Que a História avança em sobressaltos, de batalha em revolução, de tratado em catástrofe. Os manuais de filosofia, porém, já nos ensinaram — e com razão — que o essencial raramente se veste de pompa. Assim se explica que, entre guerras no Médio Oriente e na Ucrânia, crises políticas e abalos financeiros, o evento deste fim-de-semana de maior relevância — para a pátria lusa e suas diásporas — seja, sem margem para dúvida metafísica, as eleições do Sport Lisboa e Benfica.

    Rezam as crónicas, e confirmam as estatísticas (que, como Deus, às vezes também jogam pelo Benfica), que se bateu o recorde de votos, e logo mundial, eleições num clube de, ou com, futebol. Acreditemos, porque isto é uma crónica – e não uma notícia. Estaremos assim um feito democrático digno da Ágora ateniense, se a Ágora tivesse ecrãs gigantes, cerveja sem álcool e a habitual romaria de camisolas vermelhas. Ou não tanto, porque aqui a democracia mede-se pela antiguidade: se eu tivesse votado – o que não fiz por preguiça de ir para a quilométrica fila indiana –, teria valido 50 votos, uma vez que este ano perfiz 25 anos de sócio.

    Dir-me-ão que exagero na Ágora ateniense. E eu responderei com a serenidade dos cronistas que observam o mundo do alto da varanda — e da Luz. Quando 83 mil almas atravessam a cidade para sufragar um presidente de clube, é porque a política morreu e a paixão tomou o poder. A polis, no seu estado puro, já não se reúne em parlamento, mas em estádio.

    Em todo o caso, para os adeptos benfiquistas, o evento do dia acabou por ser a inesperada conjugação dos astros: um jogo descansado, com ritmo, uma mão-cheia de gotos e um hat-trick de Pavlidi. A multidão vibrou, os telemóveis filmaram, as redes sociais inflamaram-se. Não foi ainda o 15 a zero sempre pedido pelo Ricardo Araújo Pereira, mas há muito não se viam, tantos golos desta varanda. No fundo, foi a versão moderna do milagre das rosas: o público pediu um golo, e vieram cinco. Não há mística maior.

    Para o árbitro Hélder Carvalho, a relevância do evento foi outra: a existência do VAR, que teve o condão de o livrar do odioso de não marcar dois penáltis em menos de um quarto de hora (aos 5 e aos 18 minutos de jogo) tão claros como a luz que dá nome ao estádio. A tecnologia, que noutros campos ameaça a humanidade, aqui redimiu os seus pecados. O árbitro viu-se absolvido pela máquina. Santo VAR, rogai por vós!

    Já para o meu amigo Lourenço Cazarré, escritor do Rio Grande do Sul, vivente em Brasília e observador da alma humana, a tarde foi de deslumbramento etnográfico. Vindo do Brasil, onde o futebol é religião politeísta, encontrou no Estádio da Luz uma liturgia diferente: menos samba, mais coreografia; menos improviso, mais espetáculo.

    Disse-me ele — ou estarei já a inventar — que o futebol português é o único teatro em que o público paga para sofrer, e agradece quando sofre menos. Lá o levei, pois, entre bifanas, coiratos e cervejas – esta parte é mentira – , a ver a águia Vitória, majestosa, sobrevoar o estádio. E o homem, habituado a pássaros tropicais, emocionou-se: “Isto é civilização, Pedro. Um país que ensina uma águia a cumprir o hino é um país que ainda acredita em símbolos.”

    Enfim, também aqui estou a ficcionar – mas ficaria sempre bem ele ter dito isso. Na verdade, ele viu o jogo na bancada central, um pouco mais abaixo Da Varanda da Luz, para onde levei o seu premiado livro ‘Breve memória de Simeão Boa Morte e Outros Contos Poéticos’, com o qual venceu justamente o Prémio Imprensa Nacional Ferreira de Castro.

    Para mim, confesso, o evento foi especial por simplicidade. Não sou dado a epifanias, mas há momentos em que um cronista, cansado de descrer, reencontra a simplicidade do espanto. Ora, para este jogo, cheguei cedo — anormalmente cedo, que é como quem diz sem o habitual atraso filosófico — e consegui assistir àquilo que há muito me escapava: o voo completo da Vitória. Um círculo perfeito sobre o estádio, o bater lento das asas, o mergulho gracioso até ao emblema. Nenhum drone, por mais caro, conseguiria tamanha elegância.

    Depois veio o espectáculo de luzes — porque até os deuses modernos precisam de LEDs —, e finalmente, pasme-se, vi todos os golos. Nenhum à distância, nenhum repetido em ecrã. Todos ali, em carne, relva e suor. Acontecimento raro, e portanto memorável – basta confirmar nas minhas múltiplas crónicas mais recentes.

    Mas a relevância dos eventos, aprendi, não se mede pela sua magnitude exterior. Mede-se pela coincidência feliz entre o tempo, o olhar e a alma. Um jogo de futebol pode ser banal para quem apenas lê o resultado – e este foi –, mas para quem o viveu, pode ser a pequena eternidade de um sábado à noite. Enquanto a multidão gritava, eu pensei no filósofo Heraclito: “Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio.” Pois também ninguém vê duas vezes o mesmo jogo, ainda mais um 5-0 — nem mesmo quando o adversário é o Arouca.

    E contudo, há em tudo isto uma moral discreta, que se impõe ao cronista com a força da evidência: a vida é uma sucessão de eventos de que só percebemos a importância quando já passaram. Assim como a águia que voa e volta ao seu posto, também nós giramos em torno dos nossos rituais, convencidos de que controlamos o tempo, quando apenas o acompanhamos.

    Enfim, a relevância de um evento não está na sua escala, mas no seu significado. Para uns, um jogo; para outros, uma eleição; para mim, a certeza de que, por uma vez, nada falhou — nem o VAR, nem a águia, nem o relógio. Vi tudo os golos de uma vitória – e isso basta-me.

    E, se querem que vos diga, talvez seja essa a suprema ironia da vida moderna: precisamos de um estádio cheio para perceber que o que realmente importa é chegar a horas. Chegar a tempo de ver a águia voar, o primeiro golo entrar, e o amigo Cazarré satisfeito. Tudo o resto — as eleições, os recordes, os comunicados — são apenas VARs existenciais: correcções tardias de decisões já tomadas.

    Moral da história: a relevância de um evento não depende do mundo o reconhecer, mas de nós o termos vivido antes que passasse o prolongamento. E, já agora, se puder ser com cinco golos e sem penáltis por marcar, tanto melhor.

    Ou, de forma mais prosaica, talvez seja essa a verdadeira lição deste Da Varanda da Luz, onde cada vez se fala menos de futebol: que a felicidade raramente se programa, apenas acontece — no instante exacto em que o cronista levanta o olhar e percebe que, por uma vez, o mundo inteiro está em ordem: a bola entra, a águia pousa, o estádio vibra, e a crónica escreve-se (quase) sozinha.

  • Uma despedida que tardava: parte 1

    Uma despedida que tardava: parte 1


    Outrora esta coluna ergueu-se, muito brevemente, de forma esburacada e sob cerco, com o título Arquitectura do Silêncio.

    Ia ser assim, por ser coisa também antiga no meu caminho, mas fomos advertidos que a frase já estava reivindicada por quem de mais direito, e pronta e humildemente corrigi-a. Era, de qualquer modo, apenas uma dissertaçãozita, daquelas de Bolonha, como a massa, encheu.

    Podia ter sido sobre arquitectura prisional, campos de concentração, campos de refugiados, arquitectura forense, urbanismo reduzido a cinzas (o pó da demolição), mas era sobre um mosteiro. O mosteiro de S. João d’Arga, em Caminha, só porque o avistei ao serpentear a estrada acima dele e, de imediato, me apaixonei. Coisas de amores silenciosos, que são irracionais e, porquanto o são, para animal da minha estirpe propensa a chiliques e anseios, houve certa pressa em passar os dois anos seguintes a fundamentar furiosamente o porquê desse amor, sem nunca falar de amor, não fosse eu ser acusada de histeria.

    Mas também e então, sobre o que podia e não pôde, porque deverão amor ou silêncio ser adjectivados? Deverá o silêncio ser bom, expectante, pensativo, sereno, cúmplice, conivente, calculista, estratégico, culpado, ou mau? Será vitimizado? Será abusivo? Será um tratamento, uma agressão, ou respeito?

    E deverão também ser as vozes tão altas, seja em harmonia de coro perfeitamente sincronizado, ou troadas desafinadas de quem berra mais que o seu vizinho? Haverá ego, em tudo isto? Estar activo e activista é uma profissão que consome quem canta, uma selva canora que enrouquece a alma até que não se ouça a si própria, pés de megafone, roufenha.

    (Mas, na falta de música, até o rádio de bolso que rugia, preto, metálico, o fio fraco de som que tentava entrar pela antena que magicamente esticava e encolhia, era mel, mesmo na altura do silêncio da infância.)

    Estranho mundo que temos vivido, tão urgente se tornou que façamos parte da partitura, e, ao mesmo tempo, tão terrível se questionamos os maestros, tão terrível se paramos de cantar. De vírus a inoculações, de máscaras a invasões, de ideologias a eleições — que nem nossas são —, de sofrimentos que só ecoam na caverna retroiluminada. Mas não queimam a pele, não sugam o estômago até à cavidade, não nos paralisam a segurar uma criança assassinada, não nos entorpecem o olhar vítreo na explosão (o som), no pó (a cor), no cheiro de morte que não entra em casa e, mesmo assim, está a esgaçar laços entre amigos e irmãos, de tão gordo e enorme que é quando entra pelas narinas, que até imaginado se torna intolerável.

    Estranho mundo em que, em cada um destes momentos, desatam todos a rabear, a correr para o seu cantinho, a ver o que o seu cantinho lhes diz, a pegar na bandeira ou, se preferirem (ninguém prefere), a ficar no triste limbo de descobrir que o que sentem nos ossos não lhes permite continuar naquele sítio, naquele cantinho, porque a turma disse que não.

    Mas para quê continuar críptica e hesitante na censura que vivemos? Passei sete anos em tratamento de silêncio, passei uma vida a respirar baixinho.

    A gestão sanitária foi um teste de autoridade às massas democráticas ocidentais. E falhámos. As inoculações foram um descarado aproveitamento do pânico para lucro de mafiosos. E deixámos. Os cavalos de batalha ideológicos das sereias de esquerda dão uma tirania espampanante que alavanca a ascensão da tirania boçal de homúnculos de direita. E escolhemos. A Rússia invadiu a Ucrânia, porque a Ucrânia devorava o seu próprio leste a favor do pôr do sol. E pusemos.

    E agora, e sem saber se, mesmo agora, é o final desta saga interminável, o mundo vê o eléctrico a dirigir-se a uma bifurcação e, sem travões, e sem ajuda, supostamente havendo uma última possibilidade decisora para quem observa a cena (porque quem conduz nos conduz a essa quimera), dão-nos a alavanca que matará muitos ou matará poucos, num golpe final de asa moral, que nos ascenda a todos ao paraíso com o regozijo da soberba do samaritanismo.

    A Palestina é o desgraçado sacrifício amarrado nos carris, segundo o condutor do eléctrico (é um genocídio), poderemos ter de decidir, aqui mesmo a esta distância e com a alavanca na mão, se em silêncio permitimos o seu arrasamento, ou se em gritos clamamos por um exército global, das nações todas, que esse sim vai nos salvar a todos.

    Não acham?

    Não são os exércitos conhecidos por nos salvar a todos? Entram pelas nossas casas e não nos levam os filhos mas lavam-nos a roupa e até deixam o lixo no contentor à saída. Atiram beijos e cravos dos canos das armas, sorriem e não passam por cima da lentidão dos velhos e das crianças, com as suas disciplinas, e as suas botas, e os seus deveres, e as suas obediências, e o rasto da lama, da lama, da lama.

    E, vejam bem (que não há só gaivotas em terra), somos nós, o povo, o impotente povo, que novamente podemos clamar,

    Inoculem-nos!

    Fechem-nos!

    Protejam-nos!

    Defendam!

    Ataquem!

    Certamente em cada decisão seremos novamente ouvidos naquelas mesas, e assembleias, e cadeirinhas com espacinho para a canetinha e o caderninho, das pessoas pensantes e decisoras e representantes e activas e activistas que têm profissões.

    Certamente se um dia tivermos filhos em exércitos globais que o povo clamou que existissem e, por isso, é legítimo, elevado, superior a todos os outros, tanto que, certamente, será tão grande a honra e o privilégio de os receber em caixas já sem um sopro de ar no peito deles.

    Não acham?

    Mariana Santos Martins é arquitecta


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

  • A Arte de amar

    A Arte de amar


    MANIF DO AMOR I O meu Deus ex Machina é o Cupido de caracóis. O archeiro do Amor, de seta apontada a todos os pontos erógenos, que é como quem diz, ao coração de onde tudo pulsa. Nada como desferir um tiro de besta (um arco retesado) em cheio numa generosa reentrância ou ser engolido e mastigado com o vagar de quem sobe por um molusco aprazível, natureza viva e sã. Tudo consentido e sem ponta de abuso. Imaginemos, pois, um mundo de humanos e tudo o que mexe em cópulas doces ou mais intempestivas, em concílio e devoção de todos os envolvidos que serão todos até ao esgotamento das horas, coitos apenas interrompidos para comer maçãs bravo esmolfe e beber água de riachos e ribeiros onde não cai o mijo (vá, e dar um mergulho para remover os odores numa enseada amena). Todos de lombos nus derramados em solo fértil à luz do sol manso e tépido, ora derreados pela interminável dança dos ventres, ora rejuvenescidos por simbioses de riso e ocitoxinas. Alguém se lembraria de agarrar na G3 ou na ponta e mola, no canhão ou cerrar o punho da ideologia? Façamos uma ode aos gritos de prazer. Sem o empecilho da luxúria e do desempenho. Façai eco contra as desgraças. E se não puderes levantar o membro, ponde o dedo no cu.

    Nota: isto é para levar quase a sério. Ninguém é forçado a aderir e orgulhosamente sós também resulta.

    MEDICINA I Quando as crianças brincam aos índios e cóbois ou aos polícias e ladrões, melhor seria que os pais lhes dissessem para brincar aos médicos e enfermeiros. O mundo precisa é de curativos, de Avicenas e Gandhis, de paz e prosperidade e harmonia, de entendimento da diversidade, não de dicotomias e narrativas extremadas. És um ingénuo, um romântico, um idealista. Pois então que seja. Se brincar aos índios e cóbois faço de Touro Sentado ou de Gerónimo. Se for aos polícias e ladrões visto o fato de Pancho Villa. Ah, não. Esperem. Esse foi um guerreiro. Faço de Jesse James ou John Dillinger, ou de Robin dos Bosques. O Ernesto foi um assassino movido pelo ardor da paixão antimperialista, porém, fez o mesmo caminho de Aquiles. E o Nixon ou o bom Bush Jr, foram o quê, a não ser defensores do modelo de virtudes americano? Por essa ordem de ideias o Viriato, esse grande guerrilheiro que fez a vida negra aos justos romanos exterminadores de etnias e culturas, foi um terrorista inimigo da Pax Romana. Guerra e Paz, andamos nisto, dificilmente sairemos disto, enquanto houver quatro pés à face da terra e muita estupidez e ignorância. Basta uma acendalha, uma chispa, um insulto, para atear o fogo da emoção. Basta uma crítica depreciativa, um comentário atirado da tresloucada leitura apressada, para criar um novo inimigo. O bloqueio é o equivalente à declaração de guerra.

    Posto isto, não significa baixar os braços ou alinhar por um rebanho em fúria. Um partido, um clube ou uma seita.

    Se nos matarem ou violarem e torturarem um filho ou ente querido, o mais natural é respondermos na mesma moeda. É a condição humana.

    TRINCHEIRAS I Os animais fazem tocas para se esconderem dos predadores. Os animais humanos cavam trincheiras. Armam-se, ferram o dente, disparam, matam sem ser por meras contingências da alimentação. Há gente má como as cobras. Mas também há gente do Bem, digamos assim. Ou seja, seres humanos. Capazes de sair do seu ego e das suas palas até para escutar o suposto inimigo. Não se trata de ter pobrezinhos de estimação para ornar como aves de gaiola. Trata-se de ir à raiz ou raízes do mal que aflige. Há quem faça da escrita um laboratório para o Mal (a vingança), como outros escrevem alimentados pela esperança.

    P.S. um palavrão bem metido sabe bem, tal como há limites para a tolerância. Agora, não se alcança a paz a fomentar a guerra.

    MOBILIZAÇÃO I Gostava de ver o nobre povo e a nação valente mobilizado para questões que matam na sua própria terra. A morte em vida é terrível. As nações também morrem. A falta de instrução e de educação espiritual, por exemplo, mata que eu sei lá, só com um dedo. Os baixos salários. A exploração do patronato. A corrupção endémica. Todo o tipo de abuso e injustiça, como o benefício que leva à exclusão. A mentira política e a desonestidade intelectual. A xenofobia e a misoginia e o feminismo esdrúxulo. A falta de saúde, sobretudo mental e do aparelho digestivo. A construção de um raciocínio sistemático (antes de dar ao dedo ou ao gatilho) com princípios, meios e um fim capaz de unificar. É claro que haverá sempre obstáculos, a começar pelas capacidades de cada um. As crenças são terríveis. Informação não é sabedoria. A mim, irão ter-me sempre do lado dos inocentes e das minorias, dos Davids. Há vítimas em todos os cantos do mundo. Eu vi.

    Nota: Os bravos Templários, as Ordens Militares Religiosas, eram movidos por altos ideais mas havia um inimigo a abater. O bastardo de Avis matou pelo seu próprio punho. Admito admiração por William Wallace ou José Doroteo Arango Arámbula, todos os que estão do lado dos sem terras. Foram necessários combatentes para repor a justiça. Exércitos de Soldados da Paz, é o que faz falta.

    FORMAS I As formas de levar bolos ao forno têm formas variadas. A variedade é salutar. Imagine-se Lisboa plana e sem colinas, toda igual de habitação e salário, elevado já agora. Lá se ia pelo cano o negócio dos tuks e as sociedades de investimento. Os gostos discutem-se. Discutir não é berrar ou acabar tudo à porrada, de naifa entre as costelas ou tiro nos miolos.
    Vou dizer o seguinte à vossa sana consideração: posso gostar de escritores Israelenses como o falecido Meier Shalev ou um compositor judeu? Um Espinosa, uns Camondo, um Simão Sólis? Tal como apreciar um Ibn-Arabi, um Tagore, um Ali, um Gore Vidal, Norman Mailer, Truman Capote, Henry Miller, um zé não sei das quantas que dorme na Figueira porque veio aqui parar iludido com os euros europeus e precisa mas é de ajuda? O jornalismo ensinou-me a escutar ambas as partes e as terceiras. É tão radical quem está à esquerda ou à direita. A virtude do centro (não comercial) é a de quem calça os sapatos dos outros. Quando cito Emma Goldman ou Etienne de la Boétie, Montaigne ou Nestor Makhno, elejo quem considero virtuoso na defesa da individualidade, vulgo, Liberdade de pensar e agir. Alguns recorreram às armas para lutar pelo seu ideal. Se nos invadirem, atacarem, tentarem submeter, é justo. Ainda não descobri nenhum mais avisado do que o acrata teósofo Jiddu Krishnamurti.

    Lede esta frase.

    “A vida exige acção extraordinária, criadora, revolucionária. Só no despertar dessa inteligência criadora há possibilidade de se viver num mundo pacífico e feliz”.

    É o meu santo e senha de todos os dias, enquanto faço pela Vida.

    ESPERANÇA DE VIDA I Se tudo correr bem, daqui a 40 anos e picos ainda estaremos por cá a contar a História. Uns talvez partam em breve, ainda jovens ou já carcomidos. Quem sabe o dia do adeus, a não ser os suicidas? Os portugueses são peritos no suicídio. Unamuno dixit. Cada um de vós, tal como eu, tem uma ou duas estórias para contar, façanhuda ou cabotina, de maldade ou bondade. O somatório é a História da Humanidade. Há muito de desumano nessa História. É a selecção natural, dirão os cínicos e os clínicos. Se formos a ver bem, o que leva ao extermínio de uns e outros é a mania da superioridade. A reboque dessa mania vêm os deuses ou a fobia dos ateus profanos que odeiam os adoradores de templos. É como nos clubes de futebol ou hóquei. Também se mata por isso. Os tempos nunca foram pacíficos. Viver custa a todos, mais ou menos abonados pelas circunstâncias. O que fazer quando tudo arde?

    Em primeiro lugar ajudar e apoiar filhos e pais, além do amor conjugal se o houver. A família é muito importante. Seja lá onde for, abrir os braços ao estrangeiro e ao desconhecido que é o que somos todos em qualquer parte. Aprender línguas, ler os humanistas cujas obras e vidas se entrelaçaram. De todos os quadrantes e hemisférios para lograr a mundividência. Evitar a cegueira das paixões (políticas, religiosas e clubísticas), e também no domínio das relações conjugais. O ciúme e a inveja matam. Cooperar no lugar de competir. Aceitar a diferença e até os pólos opostos. Nem todos sabem o que fazem, ou mesmo o que fazer.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)

  • Em louvor dos bons exemplos

    Em louvor dos bons exemplos


    Tendo agarrado pelos cabelos a cabeça de Golias, que acabava de cortar com a sua própria espada, verdadeiramente mais pesada do que uma montanha, comecei a alimentar-me desse manjar raríssimo que é a glória.

    Carlo Coccioli

    MÉMOIRES DU ROI DAVID



    Tenho um filho lindo que é um verdadeiro marginal, fugido à Justiça sabe-se lá por onde. Não deixei de ser[L1] mãe dele, gosto imenso dele,[L2]  continuo a comover-me de cada vez que vejo aparecer no meu monitor a sua carinha linda de criança, mas vamos lá com calma – este menino já tem mais de trinta anos e não deixa de ser um verdadeiro marginal, fugido à justiça sabe-se lá por onde. Se voltasse a entrar em Portugal ia preso. Por isso sobrevive por aí, como todos os marginais, sem visto de residência nem autorização de trabalho. Faz biscates para o submundo e partilha quartos com as outras pessoas que o povoam. Eu nunca sei onde, nem quero saber. O que vou sabendo, porque são truques que ele não para de magicar, são os seus planos para ficar livre, sobretudo aqueles em que a minha ajuda é importante. Este último era um desses. O meu filho lindo estava tão entusiasmado com a possibilidade de juntarmos as nossas forças para o libertarmos do estigma de viver escondido para sempre que me deu cabo do coração.


    Já tinha raiado o sol de um dia que viria certamente a ser muito quente, porque estávamos à época em pleno Verão. O Sebastião sai às seis para a sua volta matinal pelas padarias e tascos[1] de Estremoz onde o pessoal há muito que cede ao seu charme e lhe dá qualquer coisa bastante melhor do que a ração. Eu ponho-me minimamente visível para sair um bocado depois, tomar um café, dar dois dedos de conversa, tomar outro café e finalmente acordar mesmo, às vezes comprar uma coisa ou duas para trazer para casa, por isso hão de ser aí umas sete horas, e ainda sopra o ventinho fresco da manhã, quando descarrego a minha carga na mesa da cozinha e oiço tocar a chamada do Messenger.

    O meu marginal está sentado numa estação de metro, enfiado numa das suas habituais hoodies escuras muito largas, com a mão cheia de tatuagens a segurar um resto de pizza que deve ser o fim do seu pequeno-almoço, num dia que se entrevê cheio de nuvens, debaixo de um relógio que indica precisamente uma hora a mais do que a nossa. Faz-me o seu sorriso lindo assim que me vê, mas já não diz “então kota?”, como dizia sempre antes de fazer a grandessíssima parvoíce que agora o impede de voltar para casa ou de se gozar dos privilégios da União Europeia. Agora diz, com grande dignidade, “olá mãe”. Houve muita coisa que mudou no comportamento dele. Talvez já tenha passado tempo que chegue para o meu menino perceber que foi muito, muito estúpido[2].

    Isto pensava eu, só de ouvir aquele “olá mãe” tão sério e sóbrio, poderíamos mesmo dizer – tão adulto.

    Mãe,” continua o meu menino, que, entretanto, já engoliu o resto da pizza e acabou de chupar um refrigerante qualquer de uma palhinha e deitou tudo não sei para onde e se sente mais livre para se animar. “Mãe, fiquei a saber que ainda posso fazer uma coisa para ficar livre… mas mãe, eu precisava da tua ajuda.

    Da minha ajuda, filho?

    Pois, mãe, não conheço mais ninguém que possa ajudar-me.

    Meu querido, eu já te disse que te amo muito, mas que, depois da última parvoíce que fizeste, escusavas de voltar a tentar contar com a minha ajuda. E não te atrevas a tentar pedir ajuda ao teu pai porque…

    Ele já fez zapping.

    Mas mãe, eu ia defender-me sozinho. Só que esta defesa só funciona se tiver muita cobertura dos jornalistas, e quem conhece os jornalistas és tu.

    Queres um salvo-conduto para vires a Portugal contar uma versão falsa da tua história a um bando de jornalistas, como se isso fosse possível, e como se achasses que a mãe te ajudava numa coisa dessas?

    Não, mãe, eu vou contar a verdade. Mas, mesmo tendo cometido erros…

    Erros? Filho, tu cometeste um erro monumental quando estavas quase a ser posto em liberdade e acabavam-se os erros todos, palerma!

    Está bem, mãe, mas foi por amor[3]. E posso ser defendido em tribunal e ter uma pena já muito atenuada, desde que as pessoas estejam dispostas a ouvir-me. Não vou a Portugal, mãe. Posso ser julgado num país europeu que defenda os meus direitos de cidadão europeu. Eu agora estou em Inglaterra, mãe, e eles aqui têm esses tribunais e julgam casos desses, e portanto se os jornalistas portugueses prestassem atenção ao meu julgamento…

    Filho…Alguém te vendeu essa história e te pediu dinheiro em troca? Ou foste tu que inventaste isso tudo sozinho para a seguir pedires não-sei-o-quê ao teu pai?

    Não, mãe, é a sério. Há tribunais ingleses que fazem isto.

    E tu achas que a tua mãe ia convencer todos os jornalistas portugueses que conhece a voarem para Inglaterra por causa de um malandro que fugiu da prisão?”

    “Ó mãe não foi bem isso.”

    “Porreiro, filho, combina com o teu advogado inglês como é que vão chamar ao que tu fizeste. Eu entretanto vou falar com alguns amigos jornalistas para ver se percebo melhor que raio de história é essa dos tribunais europeus que deliberam à luz de direitos europeus de que eu nunca ouvi falar.

    O miúdo percebeu que era melhor não dizer mais nada, e já estava em pé.

    Tenho de apanhar o metro, mãe.

    Adeus, querido.”

    O que se seguiu foi inacreditável[4], e claro que já não precisei de falar com ninguém.

    Quando desliguei do meu marginal passava das sete e meia, fui tomar mais um café, arrumei na cozinha o que trouxe da rua e o que estava ainda em caos desde a noite anterior, tomei duche, e depois, por mero hábito, sentei-me a ver as notícias das oito.

    Foi nesse dia que o Engenheiro Sócrates saiu todo arrogante[5] de dentro do Tribunal para dizer a uma multidão de jornalistas, microfones, e câmaras de televisão, que todo aquele processo era, de qualquer maneira, absolutamente irrelevante, pois que ele tencionava recorrer da forma como fora tratado durante todos estes anos para um tribunal da Europa alheio à União Europeia, mais precisamente em Inglaterra, invocando os seus direitos enquanto cidadão da Europa. E esse processo entraria em marcha assim que considerado necessário. Que eu saiba, esta foi a primeira refutação absurda que o primeiro grande governante corrupto da nossa democracia apresentou logo no início do seu julgamento, e eu nem queria acreditar.

    Mas será que os marginais, de antípoda a antípoda, estão todos a seguir os males do mundo agarrados aos seus Smart Phones topo da gama[6], o que fez com que qualquer fora-da-lei da Austrália acordasse o meu filho a meio da noite com a grande notícia dos tribunais europeus que ilibavam os bandidos à luz das leis europeias? Basta acreditar que esta rede existe para o mundo ficar ainda um bocadinho mais horrível. E o meu filho acreditou na conversa com a mesma seriedade com que começou por experimentou começar por dizer-me que fez a sua incrível estupidez “por amor” antes de ver a minha raiva, que é uma coisa que ele não está habituado a ver.

    O meu querido marginal tem lá dentro um ladrão formidável que aos treze anos já sabia desmontar fechaduras de alta segurança, entrar pela janela aberta de um terceiro andar, e executar outras proezas afins; mas, tirando isso, sempre foi de uma ingenuidade assustadora. Aos vinte anos acreditava mesmo que no futuro seria o Rei dos Bandidos, impossível de prender por estar no topo de uma pirâmide em que presos iam os outros, todos aqueles que lhe obedeciam e o protegiam à custa do seu próprio coiro.

    Da última vez que o vi em pessoa estava a pedir-me a chave da casa para me fazer um jantar especial, dado que era o primeiro dia do meu novo emprego e eu ia chegar muito tarde e muito cansada. Acho que lha passei para a mão porque às sete da manhã já estava cansadíssima e atrasadíssima e houve ali um minuto em que deixei de pensar e o tratei como se ele fosse uma pessoa normal.

    Ao princípio da tarde, sem qualquer espécie de embaraço, voltou a aparecer na rua e parou diante do meu prédio, num Volkswagen carocha descapotável e todo artilhado, obviamente roubado de propósito para a operação em vista, com a putéfia ao volante. Explicou aos vizinhos que ia ter com o irmão a Londres onde já estava à sua espera um bom emprego como segurança[7]. Assim sendo, ia vender todas as suas posses electrónicas, que não teriam qualquer utilidade em Inglaterra. Dito isto, e contando até com a ajuda bem-intencionada de alguns vizinhos que andavam por ali e nem hesitaram em ajudar o filho da Clarinha que todos eles conheciam perfeitamente, tratou de limpar tudo o que lá havia em casa – plasma gigante, o meu PC topo da gama cheio de trabalho original que no entanto estava escondido no meu quarto e o meu quarto estava trancado, aparelhagem, máquina Nespresso que na altura ainda era um verdadeiro investimento, enfim: não consigo lembrar-me da lista toda, mas lembro-me do ridículo de até o meu secador de cabelo, daqueles pequeninos, de viagem, ter ido na voragem. Só escapou a varinha mágica, porque estava dentro de uma gaveta e o meu ladrão nem se deve ter lembrado de que isso existia.

    Não está em causa se me partiu ou não o coração. Está em causa a ingenuidade do ladrão audacioso que dá uma golpada destas depois de uma longa acumulação de processos em tribunal, e acredita mesmo que não vai acontecer-lhe nada.

    O Engenheiro Sócrates também deve ter passado toda a sua governação de roubos e favores acreditando mesmo que não ia acontecer-lhe nada.

    Parte do que o meu filho levou era minha, de facto[8]. Mas a outra parte, na mesma medida, era do senhorio. Telefonei-lhe imediatamente, e ele veio imediatamente, e fez imediatamente o inventário de tudo o que faltava, tanto do que era dele como do que era meu e estava ao serviço da casa. Ouviu atentamente as descrições dos vizinhos que tinham visto o dito cujo carocha descapotável todo artilhado, e certamente roubado, com uma gaja feia como cornos ao volante, tomou nota das horas, raciocinando que alguém havia de apresentar queixa pelo roubo do carro e depois seria tudo uma questão de cruzar dados. Convidou-me para ir com ele à polícia formalizar a queixa, eu declinei porque o que podia fazer já tinha feito, mas alguns espontâneos que tinham visto ou mesmo ajudado no roubo por engano juntaram-se a ele, e lá foram todos para a sua Batalha da Alfarrobeira pessoal.

    Dada a quantidade de casas que aluga naquele bairro, e a enorme rotação de pessoas que habitam essas casas, o senhorio tem uma relação privilegiada com a polícia.

    Qualquer polícia gosta de protagonizar a conclusão inevitável de uma história tão bem contada, praticada por um indivíduo cujo nome consta em tantos processos.

    Na manhã seguinte, quando o meu ladrão foi com a putéfia vender os seus despojos da batalha ao Cash Converters, fez soar o alerta e já nem sequer conseguiu voltar a sair de lá de dentro.

    Ela fugiu com o carocha e deixou-o abandonado num baldio qualquer.

    Ele, depois de tudo baralhado e voltado a dar, apanhou uma pena não comutável de oito anos de prisão.

    Há já uma eternidade que eu lhe dizia que era isto mesmo que acabaria por acontecer ao Rei dos Bandidos.

    Não que esta justiça poética me faça feliz.

    Agora o meu Rei dos Bandidos, que pelos vistos ainda acredita no Pai Natal, inspira-se num Rei dos Bandidos de outra índole para tentar adquirir o direito a não passar mais tempo na prisão. Só que o Rei dos Bandidos também conhecido como O Único Primeiro-Ministro Português Que Foi Preso Até À Data pela prática de 31 crimes tem uma rede impressionante de facínoras a trabalhar para ele desde que assumiu as rédeas do seu primeiro governo absoluto em 2005.  E, pelos vistos, sobram-lhe a título de escudo humano suficientes restos dessa rede, ou porque entretanto também já foram presos e precisam de protecção, ou porque entretanto já se criaram também suspeitas contra eles e precisam de ajuda para não virem a ser presos. A verdade, meu filho, é que, ao todo, esta tropa-fandanga incluía 28 pessoas, com um total de 189 crimes distribuídos entre elas. E eram todas, todas, todas – autarcas, banqueiros, administradores de grandes empresas públicas ou privadas, estes membros da Rede Sócrates, que foram sendo presos um por um para estupefação crescente dos portugueses, eram todos, de facto, verdadeiros bandidos.

    Sabes, amor, a tua mãe às vezes interrogava-se. Por exemplo, via seis autoestradas, todas paralelas, rasgar de alto a baixo o Norte do país. O Norte do país não precisa de seis autoestradas paralelas. O lobby do betão tinha pago a alguém, mas a quem? Pela rapidez com que aquilo aconteceu, até parecia que tinham pago directamente ao Primeiro Ministro. Ainda por cima, ele tinha antecedentes. Os jornais já tinham exposto a ligação da sua família à construção do FREEPORT[9] em plena zona protegida do estuário do Tejo. Claro que ele disse que eram só calúnias. Tinha a seu favor ainda ser cedo no primeiro mandato. Eu, pelo menos, não gosto de pensar mal de ninguém. E devem ter existido, nessa altura, milhares e milhares de outros portugueses como eu.

    Mas depois via o Primeiro-Ministro a passar férias com os filhos e com a namorada, o que ao todo faz quatro pessoas, durante quinze dias na Quinta do Lago. E pensava, mas que estranho, a Quinta do Lago é um dos resorts mais caros e exclusivos de todo o Algarve, onde é que ele vai buscar o dinheiro? É que os primeiros-ministros, enquanto estão nessas funções, não podem ser mais do que empregados do Estado ao serviço do Estado. E um funcionário público que é primeiro-ministro pode ser mais bem pago do que outro que é médico num Centro de Saúde, mas não é propriamente tão bem pago que possa assim instalar-se à vontadinha durante quinze dias na Quinta do Lago, sempre a frequentar restaurantes e outros locais a pagantes conforme constava das fotos que iam aparecendo nos jornais.

    E dava ideia de que os seus rendimentos eram cada vez maiores, porque os seus comportamentos eram cada vez mais dignos do parolo a quem saiu o euromilhões. Ao fim de três anos do seu segundo governo, já em plena “gestão da crise”, quando o pessoal cada vez tinha menos dinheiro mas não conseguia perceber nem como nem porquê, nem os bancos nos davam grandes explicações[10], o Engenheiro Sócrates convocou a Troika para gerir as finanças portuguesas, invocou a sua eterna cláusula de estarem todos a faltar-lhe ao respeito, e apresentou a demissão. Logo a seguir fez o que disse ser o seu dever fazer para não deixar o povo português entregue às más línguas: partiu para Paris, onde foi fazer um Mestrado em Engenharia na Sorbonne.

    Estas más-línguas nem sequer eram assim muito más. Foram antes um murmúrio de estupefacção quando se soube de onde vinha o título de engenheiro de José Sócrates: tirara-o numa universidade privada sem historial de cursos de engenharia, com aulas dadas aos domingos propositadamente para si, e créditos baseados sobretudo no seu trabalho político, incluindo a introdução no país dos carros eléctricos, que ainda estava em curso aquando desta investigação. Mas bom, vá: já que os grandes intelectuais portugueses tinham suspeitado gravemente das suas credenciais, ele agora ia mostrar a todo o seu país o que valia com um Mestrado tirado numa das melhores universidades da Europa.

    Tudo bem, mas – uma vez mais, tudo aquilo era muito estranho. A Sorbonne aceitava sem hesitações um candidato com aquela licenciatura duvidosa, vinda de um candidato que nunca ninguém ouviu falar francês e cujo inglês, até, era medíocre? Tinha dinheiro para viver calmamente numa cidade tão cara como Paris, e ainda por cima naquele apartamento de luxo num bairro de luxo?

    Eu acho que não fui só eu. Acho que foram todos os portugueses que, a partir daí, descreram cada vez mais da honestidade daquele indivíduo, que ainda por cima depois disso nem pareceu estar a estudar nem se mostrou muito dado a por os pés em Portugal.

    O primeiro-ministro sem vergonha em quem tu te inspiraste para seres ouvido num “tribunal europeu” foi preso no Aeroporto da Portela quando regressava de Paris, a 21 de Novembro de 2014. Juntamente com ele, começaram logo a ser presos os outros suspeitos que lhe eram mais chegados. A situação foi-se revelando de tal forma séria que, mesmo quando foi libertado, a 16 de Outubro de 2015, ficou proibido de voltar a falar com todos os outros arguidos no processo, que não paravam de crescer em número.

    Os portugueses nem sabiam o que é que haviam de pensar.

    Em Maio de 2018, quando o Engenheiro abandonou o Partido Socialista, os portugueses sentiram-se ainda mais incomodados.

    E aqui aparece o último personagem sem vergonha que se descobre ter entrado em conluio com o Engenheiro, quando ele já ia nesse seu tal segundo mandato e estava a ver toda a Europa social-democrata à sua volta a caminhar lentamente para o desastre financeiro – e não devia ser nada disso que queria para a sua vida pessoal.

    Este novo amigo secreto era o banqueiro Ricardo Salgado, director do antigo Banco Espírito Santo, que ensinava carinhosamente aos colegas mais novos que é importante ter sempre um Xanax no bolso de dentro do casaco, para ir rapidamente dar-lhe uso à casa de banho em caso de crise de pânico durante as reuniões mais difíceis[11]. Os outros banqueiros chamavam-lhe o DDT[12].

    Ora bem, a certa altura, por volta desse ano fatídico de 2014, este Ricardo Salgado transferiu quase dois mil milhões de euros para contas em nome da mulher e dos filhos. Cinco meses mais tarde, declarou o colapso financeiro do seu próprio banco. Isto devorou, logo ali, num segundo, todos os investimentos, grandes e pequenos, que dois mil portugueses tinham feito ao longo da vida. Estas pessoas tornadas subitamente pobres, que agora tinham apenas um rótulo taxonómico digno de uma tabela de Excel, passaram a chamar-se “os lesados do BES” e tem sido impossível recompensá-las até hoje. Só à sua conta, Ricardo Salgado fizera entretanto desaparecer duzentos mil euros num offshore de Singapura onde o Governo português não tem maneira de chegar. Depois foi proibido de sair do país e começou a ser visto em grandes passeios ali pelo Estoril na companhia dos seus dois guarda-costas, que se não eram agentes da MOSSAD imitavam muito bem.

    Finalmente, em Janeiro de 2017, também este indivíduo simpático foi condenado no mesmo processo que envolvia o Engenheiro José Sócrates[13]. E, em Março, foi também condenado o administrador da Quinta do Lago, pelo que ao menos ficámos a saber de onde é que vinham aquelas férias em família de bizarro luxo.

    Os portugueses, que pensavam que já tinham visto tudo, e que tinham tudo isto subtraído das suas contas bancárias, nem queriam acreditar na porcaria do filme que estavam a obrigá-los a ver.

    Querido filho, se por acaso estiveres mesmo a ler isto, como a mãe te pediu, lembra-te por favor de uma coisa: o ex-primeiro-ministro que está a ser julgado e se saiu com essa conversa do “tribunal europeu” em Inglaterra é tão desavergonhado que consegue mentir mais vezes seguidas do que tu. Tu podes ter feito muito mal à tua mãe, bastante mal ao teu pai, e, agora para o fim, um mal a que eu chamaria imperdoável ao teu irmão mais velho. Mas aquele senhor conseguiu fazer muito pior, porque fez mal a todos os portugueses. Fez-lhes o pior mal que se pode fazer a um povo: tirou-lhe o chão de debaixo dos pés.

    Esquece o gajo, que ele não podia ser mais tóxico.

    Eu ainda me lembro de Portugal ser uma nação feliz, onde nós tínhamos de ser fortes e resilientes e segurar a barra das nossas próprias ideias quando as levávamos para o trabalho ou para a educação dos nossos filhos, mas desde que a segurássemos com força conseguíamos todos ter vidas bonitas, com amigos porreiros iguais a nós que eram pais de filhos da idade dos nossos, e seguir viagem com alegria porque essas viagens eram possíveis desde que lhes planeássemos bem os custos à partida. Portugal nunca foi um país de ricos, mas era um país onde as pessoas da classe média como nós podiam encher os carrinhos dos supermercados até eles ficarem a deitar por fora, mandar entregar aquilo tudo em casa sem pensar mais do assunto, e sair logo dali rumo a qualquer outra coisa mais interessante porque nessa altura, nesse tempo, havia imensas coisas interessantes e era possível viver assim. Se isso agora se tornou tudo tão inacessível que já nem pensamos em fazê-lo com os nossos netos, hás de ter ouvido dizer muitas coisas sobre de quem foi a culpa. Foi do Euro. Foi da União Europeia. Foi do Passos Coelho. Foi da Troika.

    Não, meu amor. A culpa foi deste senhor em quem tu te inspiras para tentar apagar as faltas do teu passado,

    Sabes, filho, por alguma razão este senhor que te deu o exemplo há de ter passado 288 dias de prisão preventiva em Évora, e depois mais 42 dias de prisão domiciliária. Passada a fase do “Tribunal Europeu”, a sua estratégia é tão repetitiva que já toda a gente a percebeu e já absolutamente ninguém lhe liga: vai para os julgamentos empatar, empatar, empatar, à espera que a maioria dos seus processos prescrevam.

    O mal que ele fez aos portugueses, tornando-os tristes e cansados, tão paralisados pela falta de fundos que ainda conseguem juntar-se para beber uns copos mas já não viajam juntos nem sonham acordados, incapazes de acreditar nos políticos e na política, e por regra mais absentistas do que outra coisa – esse mal, infelizmente, não é passível de prescrever. Foi com este senhor que dez milhões de nós perceberam, com sincero horror, que um primeiro-ministro pode ser uma ave de rapina voraz, que todos os dias abate mais uma presa para seu proveito próprio e de mais ninguém. Isto, e mais tudo o que se seguiu como se a culpa fosse nossa – ah, meu filho, isto quebra mesmo a espinha às pessoas, e se ainda não lhes roubou tudo agora rouba-lhes o orgulho. E tu podes andar por aí a vida inteira a roubar aquelas cenas que tu sabes roubar tão bem que nunca haverá forma de chegares a Rei dos Bandidos – nem fora nem dentro da prisão, como viste.

    Um beijo de muita saudade,

    da Mãe.

    Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora



    [1] E mesmo casas de pessoas que se levantam cedo e apreciam os olhos meigos da sua visita feliz. É um total desavergonhado, o meu cão.

    [2] Não podia mesmo ter sido mais estupidamente cretino. A sorte dele foi eu não poder esbofeteá-lo. Ao fim de seis anos, quando basicamente estava quase a cumprir os oito anos estipulados pelo Tribunal e muitíssimo bem merecidos, aproveitou o seu primeiro fim de semana em liberdade para fugir da prisão “porque eu morro de saudades do meu amor, ó mãe”. Mentiu ao Pai para conseguir sacar-lhe os cobres ingénuos do costume, obrigou o irmão a acolhê-lo na sua casa perto de Londres onde já vivem o casal e quatro filhos, e o tio a dormir na sala e todo o dia a fumar ganzas e a ver filmes de porrada não é bom exemplo para ninguém, mas não era o irmão mais velho que ia denunciar fosse a quem fosse o que realmente se passava na vida do irmão mais novo, eu ainda não tinha conseguido falar com ele mas percebi logo a história toda graças ao Engenheiro Sócrates, e tive de ser o corvo enorme das más notícias. Ainda por cima há aqui uma chatice acrescida, que é que o meu rapaz marginal adora o Primeiro-Ministro Marginal, porque houve um dia dourado na sua vida, aos oito anos, em que todos nós menos o Dick corremos a meia-maratona de Lisboa, passámos sobre a Ponte 25 de Abril, o meu menino adorável e lindo, que tinha andado a treinar, fez um sprint de todo o tamanho e ultrapassou o Sócrates. Um dos Guarda-Costas até o pôs aos ombros, toda a gente lhe bateu palmas, e eu até escrevi uma crónica a dizer que democracia é quando um puto de oito anos ultrapassa um primeiro-ministro. Só mo vieram entregar à noite e ele estava nas nuvens. E não se fala mais nisso.

    [3] De certeza que ele viu a minha cara quando invocou o amor, porque deixou logo cair o argumento. A mulher a quem o meu filho chama o seu amor é uma putéfia feia como cornos, mas em contrapartida bastante sábia na arte da ladroagem, que tem o rapaz estranhamente hipnotizado há mais de dez anos.

    [4] Para mim, claro.

    [5] Passe a redundância.

    [6] A facilidade com que este rapaz deita as unhas aos melhores gadgets dos outros é digna do Flash e corta mesmo o fôlego. Há muito, muito tempo, teria ele uns doze anos e uma voz mais de criança do que de adulto, andava eu às voltas na Rotunda dos Três Pastorinhos a praguejar cada vez mais alto no meio do trânsito espesso do Natal. Tínhamos encontro marcado na aldeia dos nossos Avós, e eu queria ir lá ter pela estrada antiga, aquela por onde os nossos Avós nos levavam de férias para a Nazaré. Sabia que tinha de escolher ali mesmo uma daquelas imensas saídas, mas o mundo tinha mudado ferozmente desde a minha infância e eu não conseguia encontrar-lhe nem o rasto. De repente oiço aquela vozinha inconfundível lá de trás: “Ó Mãe, mas como é que se chama a nossa aldeia?” – “Então filho, chama-se Tremês, não é? Porquê?” – “É que o meu telemóvel tem GPS”. Pôs-nos no caminho certo num segundo, e eu achei melhor nunca lhe perguntar de onde é que vinha aquele Smart Phone com GPS, que na altura ainda era uma raridade. Não foi nenhum de nós que lho deu, e a semanada nunca chegaria para a aquisição de semelhante estravagância. Os putos estavam todos tão maravilhados por verem casas verdadeiras com pessoas verdadeiras, e até um cavalo estranho que eu tive de esclarecer que era uma mula e explicar como é que se obtinha e para quê, que deixei o ladrão de doze anos ter o seu momento de glória. O irmão mais velho também não é melhor, foi o que eu pensei para me calar. Ainda não estava refeita do desaparecimento do meu maravilhoso zipo dourado, e esse levou caminho numa altura em que o mais novo estava comigo em Tavira a participar numas filmagens para o Cunha Telles, em que lhe assistia o privilégio de chamar puta à Marisa Cruz, e depois levar um beijinho dela. Só o mais velho é que ficou em casa.

    [7] Era o emprego do irmão naquela altura.

    [8] Agora lembrei-me de outro farrapo igualmente ridículo, que foi a minha escova de dentes eléctrica já muito velhinha. Dada a penúria, passou-se bastante tempo até conseguir comprar outra.

    [9] Lembro-me muito bem do que os meus filhos gostavam de ir ao FREEPORT quando era preciso fazer compras por atacado, tipo meias e sapatos para o início do ano escolar naquelas idades em que eles não param de crescer e de rasgar as calças todas nos joelhos a jogar futebol no recreio. Decrépito como o outlet está agora, duvido que lhes parecesse muito apelativo. Em troca de uns cobres a família Sócrates terraplanou uma área vastíssima do estuário, e acabou por criar um elefante branco.

    [10] Era mais que nos incitavam a comprarmos a segunda casa sem termos ainda acabado de pagar a primeira. Parece que tinham combinado o golpe com o primeiro-ministro em pessoa.

    [11] As coisas que eu sei, estão a ver? E, na altura, ninguém sonhava, sequer, com o que este mestre seria capaz de fazer mais tarde.

    [12] Dono Disto Tudo era um epíteto negativo muito em voga entre a estudantada do esquerdalho durante os dias agitados do PREC. “E depois chega a gaja, a arrastar as botas, completamente DDT”, indicava que quem estava a falar detestava a dita gaja, que devia estar no poder de qualquer coisa, nem que fosse, simbolicamente, de um coro, ou de uma comissão de moradores. O termo pareceu extinguir-se com o tempo, para ser surpreendentemente reacendido pelos outros banqueiros quando inicialmente questionados sobre a seriedade de Ricardo Salgado. Não deixou de estar em uso desde então.

    [13] E pouco depois apresentou-se ao grande público com um caso crescente de doença de Alzheimer, igual àquela que a tua Avó teve, lembras-te? Aquela que te fez deslocar-me a omoplata porque podia ser Natal à vontade mas tu não ias visitá-la ao Hospital nem morto? São brutalidades destas que dão origem a ordens de restrição, eu é que me fiz de mula e olhei para o outro lado quando voltei da UMass porque tinha muitas saudades tuas. Agora, no caso no Ricardo Salgado, que estava dolorosamente mais decadente quando eu voltei, claro que aquele Alzheimer até pode ser uma mentira muito bem arquitectada, mas enfim, convenhamos: dá imenso jeito.

  • A caminho de lado nenhum

    A caminho de lado nenhum


    LIS BOA I Parte dos meus dias são passados nas ruas de Lisboa. Nas ruas cheira a mijo e cáca. As fachadas, se lhes passar o dedo, trarão uns gramas valentes de bedum. Os donos (as sociedades de investidores) estão nas Maldivas, a chupar berbigões de putas finas. Nas condutas de ar do Metro os párias dormem ao relento, esquálidos, macerados, cagados e a feder. Os turistas detêm o olhar por instantes. Seguem viagem. Um ou outro agarrado já é nosso conhecido e pede uma moedinha para a buxa. Passam as velhas e os aleijadinhos romenos com as latas de badalo a dar e dar. Os carteiristas reconhecem-se à distância. Arrecadam, entram e saem do xilindró. Deito-me num banco da praça a observar os pássaros nas acácias. Caem moedas do céu. É o Carlos, o edil. Veio ver.

    EVOLUÇÃO I Todos os dias faço o balanço (das ancas). Enquanto dou ao cóccix é inevitável pensar, nem que seja na morte da bezerra, um excelente objectivo da meditação. Penso rápido ou mais devagar. Escrevo uma frase ou outra, uma vez por outra. Uma expressão recorrente entre seres sencientes é “anda meio mundo a enganar outro meio”. Este axioma leva a seguir a máxima de Santo Agostinho de confiar, desconfiando. Como viver relações limpas? Quem me quer bem, eu sei porque sinto. Sinto, logo existo. Gostava e vou continuar a gostar à brava do Luís Fernando Veríssimo ou do Cervantes, do Beco das Pichas Murchas ou da rua Triste-Feia, como tantas. Gosto de todos os partidários do riso justo. O resto, os calhordas, os do rei na barriga, os sôfregos de chegar a todo o lado e a lado nenhum, é lá com eles. A não ser que me queiram governar. Aí saco da BIC.

    TENDÊNCIAS I Quem vota no Chega acha estar ali a solução para os seus problemas. Sucede o mesmo em qualquer escolha, de qualquer partido, ideologia ou clubite. É o preço da Democracia apática. Enquanto os candidatos a donos disto tudo esfregam as mãos por serem empoderados, os votantes e simpatizantes delegam a sua responsabilidade com servidão voluntária. Acatam os ataques à sua liberdade e esperam que alguém resolva o que lhes cabe solucionar. O direito à igualdade. Neste momento quem é senhorio, proprietário ou societário está feliz e contente por haver turistas e emigrados que paguem o preço do livre mercado. Querem lá saber se os bairros estão imundos e descaracterizados. Se quem governa, governa em favor do seu umbigo. Desde que não lhes faltem os pagamentos, ou os acossem com taxas e taxinhas. Posso dizer o mesmo dos atentados à livre circulação de veículos motorizados para fins de animação turística. Só com imaginação e persistência se consegue mostrar uma cidade autêntica. Uma autêntica farsa, um embuste, se não se denunciar o que se faz por aqui. Contar as verdades da História com todos os seus podres e glórias, bem como levar os interessados a ver o que resta, para além do luzeiro dos miradouros. Falar de quem fez pouco e esbulhou, para além do Bonaparte e do Maneta. Exortar os artistas e os combatentes que muito fizeram para que nunca se tivesse chegado aqui, a esta lástima.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)

    As ilustrações foram elaboradas com recurso a inteligência artificial.