EM BUSCA DE UM MUNDO MELHOR I Todos somos energia. Positiva e negativa. A neutralidade é uma forma de acção. Na vida interessa-me o livre arbítrio e as escolhas, bem como as origens e raízes das coisas, incluindo da etimologia. Embora viver ultrapasse o entendimento e sejam mais as razões que a razão desconhece. A escolha do Amor, a título de exemplo, pode ditar muito do vindouro. Uma boa ou má união, para quem veja o casamento como uma empresa, dita bastante do percurso de cada um.
Daí que proliferem as clínicas de tratamento de desaguizados. Há quem diga que escolhemos os pais e deles podemos extrair os maiores ensinamentos, mesmo os difíceis de gerir, como a rejeição, a negligência e o abandono quando somos dependentes, o que dura uns anos.
O país onde se nasce também conta, e em virtude da sua melhor ou pior condição pode levar ao seu abandono, como se deixa tudo para trás quando não acrescenta. Quantos, válidos, ou mesmo geniais, não debandaram para fintar o atraso de vida? Que se aprende nas escolas e universidades que acrescente para tornar o mundo (o país) melhor? Escolhi História porque tudo são histórias, melhor ou pior contadas. Escolhi trabalhar factos sem descurar as razões que levam a executá-los. Entendo a guerra como forma de resposta ao mal maior como uma forma de retaliação contra o abuso, a humilhação, a submissão. Entendo perfeitamente que poucos falam ou escrevem no pleno gozo das suas faculdades.
O mundo melhora quando há confiança no sistema. Quando se cura até onde seja possível e se faz das cicatrizes, das feridas, dos obstáculos, da dificuldade, uma forma de suportar e superar.
AMIZADE I Há dias fui agraciado com um bilhete para ver o Benfica-Nápoles. De quem havia de vir a dádiva senão do ilustre Manel, uma das almas mais bonitas do mundo pardacento dos tuks. Enquanto uns dão navalhadas nos pneus, sabotam, fazem avanços a la Cosanostra, outros, como o Manel, dá-lhes para a generosidade.
Foi o mesmo Manel que me ofereceu a camisola Stromp, ele o mais puro vermelho, benfiquista até à medula. Diz que até experimentou no vestiário não fosse o número não me servir. Ofereceu não só um bilhete mas três, aos seus amigos templários Tiago Silva Zumbi e Alex Ventura Máximo.
Vi uns quantos jogos do Terceiro Anel no velho recinto onde brilharam o Eusébio, o Coluna, o Chalana e o Carlos Manuel ou o Néne e o João Vieira Pinto, entre outros. Já que a maioria do pessoal de Alvalade era do Benfica não tinha outro remédio a não ser juntar-me às papoilas. Neste recinto à inglesa .foi uma estreia.
Digamos que vi um jogo limpinho e bem disposto e de uma perspectiva interessante para ver como se pode fazer passar energia para dentro do relvado. Mas o mais importante foi estar com amigos, amigos daqueles que se pode contar.
QUEM ESTÁ MAL? I A seu tempo farei uma exposição sobre um assunto sério de trabalho em sede própria. Hoje, falo de algumas impressões sobre coisas vistas, ouvidas e sentidas, o mesmo será dizer testemunhadas e a ter em conta. Não há dia que passe (em Lisboa) sem me ocorrerem as notícias do Correio da Manhã.
Falo de facadas, tiros, óbitos e façanhas cabotinas. Os chamados ajustes de contas. Já nem falo da indigência cultural, da selva e suas leis do mais astuto, manhoso e predador. Isto vai do espectro mais “elevado”, o Poder, as instituições, ao mais subterrâneo zé-ninguém que aspira ao mesmo domínio da exploração do filão. Por vezes nem o linguajar varia.
Mas vamos ao que importa antes de ser eu próprio notícia. Avento que a razão de tanta ira, tanta cólera, tanto ódio, provenha da grande frustração e ignorância que anda em par com a ganância. Onde cheira a dinheiro, cheira a merda e a sangue pisado ou a borbulhar. Ainda a procissão vai no adro, ou seja, quando a fome estiver ao rubro, e nem um café pingue, um papo-seco encha a barriga, haja um telhado onde acoitar o esqueleto, aí sim, as notícias do CM jorrarão em barda.
Quando a diferença entre o patrão e os assalariados for de tal monta que os empregados sejam sem-abrigo e durmam no alpendre da loja ou fábrica. Isto está bom para patrões, políticos, senhorios, agiotas, banqueiros, mafiosos e bandidos. O resto é um coro de sapos.
Qual a piada disto, a não ser para a escrita de thrillers, de crónicas mordazes, de reportagens a partir a loiça?
Na antevéspera da Consoada, quando o país já entrou naquele estado intermédio entre a gula anunciada e a culpa adiada, o Benfica resolveu lembrar-me — ou lembrar-nos — que o Natal, tal como o futebol, não obedece a calendários litúrgicos rígidos. O Natal é quando um homem quer, dizia-se antigamente; e, pelos vistos, também quando um clube precisa.
Esta segunda-feira foi dia de vitória. Não exuberante, ainda menos redentora, mas suficiente para afastar fantasmas que já começavam a pedir quarto cativo na Luz, com direito a pequeno-almoço incluído e estadia prolongada.
Esta partida contra o Famalicão teve o que os jogos têm tido nesta época: frio nas bancadas, ansiedade nas pernas e um público que já observa o relvado como quem olha para um presépio ainda por montar — José inclinado demais, o boi fora do lugar e o Menino ainda por chegar. O Benfica continua sem deslumbrar, mas também não se deixou deslizar, desta vez, para aquele pântano emocional que tem sido a sucessão recente de empates caseiros. Desta vez, não houve novo empate. E isso, convenhamos, já é motivo de aleluia — não daqueles cantados em coro celestial, mas dos murmurados com prudência, como quem agradece sem fazer promessas.
E mais ainda o penálti sobre Otamendi. Um braço levantado como quem invoca o céu, um VAR atento — milagre dos tempos modernos — e aquela pausa solene em que o estádio inteiro prende a respiração como num conclave à espera de fumo branco. Não houve dúvida teológica nem exegese prolongada: assinalou-se o penálti, Pavlidis marcou o golo da praxe, e o Benfica passou para a frente, mantendo-se fiel àquele mandamento simples e raramente cumprido esta época: não sofrerás depois de marcar. Nada de epifanias, nada de escândalos — quase um milagre natalício, precisamente pela sua anormalidade.
Mas talvez mais importante do que o golo marcado foi o outro golo não sofrido. Não houve, como já sucedeu demasiadas vezes esta época, aquele golo nos descontos da equipa adversária, aquela espécie de castigo bíblico que tem caído sobre a Luz como praga tardia: depois das rãs, depois dos gafanhotos, depois das águas tornadas sangue, eis o golo forasteiro aos 93 minutos. Desta vez, não. O apito final chegou inteiro, sem trombetas apocalípticas nem ranger de dentes. Salvou-se a noite. Salvou-se a semana. Salvou-se, para já, a sanidade colectiva.
Não há duas sem três — mas, por agora, não houve quatro, apesar de já terem existido três empates caseiros esta época nos descontos: Santa Clara, Rio Ave e Casa Pia. Na matemática do futebol, como na teologia, há números que contam mais pelo que evitam do que pelo que alcançam.
Não foi, desta vez, um quarto desaire. E isso confirma, ainda que timidamente, que afinal pode haver três sem quatro. Um pequeno dogma menor, não inscrito nos Evangelhos, mas aceite pela fé benfiquista, que nesta fase já se contenta com menos milagres e mais estabilidade.
Enfim, foi “só” um jogo mais sofrido do que inspirado, mais pensado do que sentido. Houve fases em que a bola circulou com a solenidade de um sermão dominical — longo, monótono, mas necessário — e outras em que parecia pedir socorro, como Jonas no ventre da baleia. Mas houve também algo que tem faltado: controlo. Não domínio absoluto, não futebol champagne, mas controlo suficiente para não deixar que o jogo descambasse para aquele território caótico onde tudo é possível — sobretudo o pior.
Nesta época natalícia, o futebol ensina-nos, em todo o caso, uma lição curiosa: nem sempre é preciso um banquete para haver celebração. Às vezes basta não faltar o essencial. Santo Tomás diria que o bem é aquilo que convém à natureza da coisa — e, neste momento, convém ao Benfica ganhar jogos, mesmo que seja sem estrelas no presépio e sem anjos a cantar. A estética fica para depois. A sobrevivência vem primeiro. Primeiro, o pão. E depois, se houver tempo, os peixes.
No fim, já no túnel de acesso ao Colombo, os adeptos saíram com aquele cântico do SLB, conscientes de que não tinham recebido ouro, incenso nem mirra, mas aliviados por não terem ficado com um par meias — ou seja, mais um empate embalado em papel de embrulho. Houve alívio. Houve conversa. Houve aquela sensação típica de Dezembro: “para já, chega”. E talvez seja isso o mais honesto que se pode pedir ao Benfica nesta fase do ano: menos apocalipse, mais Advento; menos promessas grandiosas, mais pequenos sinais de que, afinal, ainda pode haver redenção.
DA MORTE I É (e não é) espantoso observar a natureza humana, sobretudo na hora da morte. A Clara, a mestra Clara, a Dra. Clara, cujo trabalho viverá nas bibliotecas e teses de doutoramento, no legado dos seus pupilos, de repente é amada por todos, todos a leram, todos a aclamaram, incluindo o Presidente farricoco Marcelo.
O ardiloso Soares, ao menos, pagava a renda ao Luiz Pacheco. Mais triste é ver como por cá se tratam os génios. A opção estóica é uma coisa, a depauperação é outra. É como as tropas rasas do Ultramar e as pensões miseráveis.
A Clara estava doente e decerto a irmandade sabia. Penso quem saberá se estou doente, se tenho o suficiente para o básico. O Estado está-se nas tintas, a não ser para arrebanhar o premiar os que dele se amamentam.
A Clara foi Grande em todos os aspectos, do vigor da escrita e da oratória, do raciocínio ao sentimento. Amar demais o que se faz e mostrar Trabalho acarreta inimigos. A Clara escrevia no PÁGINA UM, imagino que pro bono (como eu), porque simpatizava com o projecto, dos poucos que não tem medo do Sistema. Não ter medo é coisa rara e não falo de fanfarronice de escrita, de mandar petardos na retaguarda. Falo de dizer tudo com todas as letras, incluindo chamar hipócritas aos bajuladores ou mandar para a gávea os invejosos e cínicos.
A morte é a morte. O problema é o que se diz e faz na vida. A Clara disse e fez.
Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)
Últimas palavras de Hipátia de Alexandria, pelo menos segundo a lenda.
Entrou Novembro e mudou a hora. O que tínhamos a fazer para que a sociedade não descambasse no pior dos caos era simples, certo? Somos todos pessoas crescidas e para nós estas coisas nem chegam a ser um pensamento, são um mero reflexo medular: andávamos com os relógios uma hora para trás e pronto. Até ganhávamos algum tempo extra de ronha boa pela manhã, a ouvir a chuva para lá da janela, entre o sonho e tudo o que a vida tem de bom, com a cabeça pousada no peito de alguém que nos é especialmente querido[1]. Isso eu percebi, também não sou assim tão burra. Mas o meu telemóvel está num estado tão periclitante que já nem sequer muda a hora sozinho – e, no entanto, eu acreditei nele. Podia ter visto as horas no PC, mas andava a padecer de uma hérnia e não conseguia sentar-me à secretária para trabalhar. Fui a correr acertar o despertador, mas em vez de o pôr para trás pu-lo para a frente e depois deixei de usá-lo porque não confiava nele. Costumo estar a cinco horas de distância do Massachussets. Quando o Dick me disse “como nós ainda não mudámos a hora, ficamos com quatro horas de distância”, foi o baralhanço completo. Demorei uma semana a esclarecer esta completa perdição, ciente de que faria péssima figura se me abeirasse de qualquer das pessoas minhas amigas, por muito amigas que fossem, e, tipo, cinco dias depois de termos mudado a hora, lhes perguntasse num total desespero “eh pá, por favor, isto é um desatino, que horas são?”. E por que é que isto aconteceu? Porque tive um AVC no fim do Verão. E ninguém nos avisa desta consequência colateral, mas depois a pessoa anda estúpida durante muito tempo. Só que, como não nos dizem nada quando nos dão alta, não vamos dali preparados para vivermos com o cérebro a meio-gás. Eu, por exemplo, fui directamente do hospital para a praia com autorização médica[2]. E acreditava mesmo que aquelas duas semanas enevoadas se tinham esfumado completamente. Por que é que não havia de acreditar? Os AVCs não são a minha área de especialidade, e não houve uma única pessoa que me dissesse que, depois das crises agudas, deixam atrás de si um rasto que pode durar meses.
Estou em Estremoz há cinco anos, e nunca fiz férias. Acima de tudo, tinha um desespero de me atirar mar adentro e me deixar ficar lá durante imenso, imenso tempo, para depois me oferecer ao sol da praia como um lagarto, os dedos enfiados na areia e o pensamento inebriado de sal e iodo. Desta vez é que foi a grande desforra: duas grandes amigas, uma com casa no Burgau e outra na Meia-Praia, convidaram-me ao mesmo tempo. Aquilo, assim, dava para tirar mais de uma semana inteira. Que maravilha.
Ou seja, teria dado, e teria sido uma maravilha, se não fosse o AVC.
Assim, foram três dias de praia e cinco dias de hospital.
Por sorte, tive o AVC mesmo em frente da minha amiga da Meia-Praia, que me arrancou da cama ao meio-dia estranhando tanto silêncio, tentou dar-me café e eu deixei logo cair a chávena que se partiu sonoramente no chão de azulejo e me manchou toda, e pronto. Tive a sorte de estar sozinha com uma mulher forte e determinada, que não se deixa impressionar facilmente e que não perde tempo a entrar em acção. Agarrou em mim e levou-me logo para Lagos, de onde me mandaram logo para Portimão, onde ainda demorei dois dias para recomeçar a falar[3] e conseguir andar, mas depois comecei a arrebitar[4] e não houve mais dramas. Hoje horroriza-me pensar que aquilo me podia ter dado sem ninguém notar. Este tipo de acidente é um assaltante extremamente dissimulado. Se me desse à noite em casa, o Sebastião pensaria que eu estava a dormir e não daria nenhum alarme. Quando desse já seria tarde demais. Até no expresso Estremoz-Lagos as pessoas pensariam que eu estava a dormir. Quando um condutor me abanasse no fim da linha também já era tarde demais.
E, no entanto, este AVC deu imensos sinais. Eu é que não os conhecia, e, por conseguinte, não os li.
Fazem-se tantas campanhas para prevenir tantas doenças, e os AVCs tornam-se tão prováveis a partir de uma certa idade, era um mínimo de cautela básica educar também as populações sobre sintomas que podem ser sinais vermelhos.
Antes de ir para o Algarve, eu dormi tanto, tanto, tanto, que perdi duas das camionetas que queria apanhar. Finalmente, já com um dia de atraso, consegui chegar à estação com a minha mala grande cheia de coisas porreiras e com o PC lá dentro. Como o expresso só chegava daí a quatro horas fiz uma confusão de todo o tamanho, achei que estava a chegar a casa e não que ia partir, deixei a mala na estação e voltei para trás, e felizmente estava cá a minha amiga que ia tomar conta do Sebastião que ficou a olhar para mim de boca aberta, e imediatamente a perguntar pela mala. Diz ela que todo o meu discurso estava entaramelado, e que eu só repetia que queria dormir. Depois de muito esforço e muito café que eu entornava com frequência, levou-me de volta à estação e claro que a mala já não estava lá, o que quer dizer que o meu PC, e tudo o que escrevi desde que aqui vivo, também não. Fui para o Algarve com uma malinha de emergência, muito sono, e um grande sobressalto só de pensar na estranheza do meu comportamento. Mas achava, achava genuinamente, que aquilo era tudo o resultado de cinco anos de falta de praia, e agora o mar ia tratar de mim. Como dizem os surfistas,
“A água do mar faz bem a tudo.”
Por isso mesmo, depois de longas horas de conversa à beira-mar com a minha amiga do Burgau, já o sol descia sobre as ondas e todo o mar estava dourado, fui a correr vestir o biquíni e atirei-me de cabeça para dentro do grande bálsamo universal que varre as costas do mundo inteiro. Nadei debaixo de água até já não ter fôlego, e quando voltei à superfície estava fora de pé. Estiquei-me toda a boiar por cima da água, a descansar do meu sprint submarino, a receber o mar e o sol num gozo imenso de regresso e saudade – e depois, quando a maré cheia começou a levar-me para cada vez mais perto da rebentação, virei-me de bruços e decidi ir a nadar à tona até chegar à areia.
Em Portugal, praticamente toda a gente sabe nadar bruços.
Eu aprendi sozinha na Baía de Luanda aí pelos meus quatro anos a imitar o que os outros faziam, e era muito pequenina e aquelas ondas eram bastante mais avultadas do que as do Burgau. Posso não ter nenhum estilo elegante, mas claro que sei nadar bruços.
Pois. Mas naquele fim de tarde, no Burgau, com as ondas suaves da maré cheia a empurrarem-me para a areia, eu não conseguia nadar bruços de maneira nenhuma. Não conseguia coordenar os movimentos das pernas com os movimentos dos braços, nem sequer coordenava os braços um com o outro e as pernas também não, à superfície não tinha qualquer espécie de controlo sobre os meus movimentos. Vim até à rebentação a nadar debaixo de água, e deitei-me ao sol cada vez mais baixo a pensar qualquer coisa como,
“Santo Deus, cinco anos sem ir à praia e estou completamente fora de forma. Tenho de nadar imenso enquanto cá estiver, até acertar outra vez os movimentos todos. Isto devia ser como eu nadava quando era pequenina e comecei a imitar os crescidos, na Baía de Luanda.”
Digo tudo isto porque não há, de facto, qualquer campanha como tantas outras que nos alerte para os sinais inequívocos de um AVC que vem a caminho. A avaliar por esta lista, eu tive uma data de sinais desses. Se soubesse, e se estivesse tranquilamente em Estremoz, iria imediatamente desinquietar o meu médico de família e passar-lhe a bola – ele leria estes sinais muito melhor do que eu e saberia o que devia fazer. Com tudo o que me aconteceu ainda antes de arrancar para o Algarve, teria caído em mim e já não arrancava – uma pessoa que deixa a mala abandonada na estação com o PC lá dentro[5] e confunde estar a partir com estar a chegar, tudo isto sempre presa de uma sonolência tão insistente que a faz falar com a voz cada vez mais entaramelada, não está obviamente em estado de viajar sozinha[6] para lado nenhum. Uma vez mais, é cancelar logo a viagem e passar a bola ao médico de família com o carácter da maior urgência.
Depois há as sequelas. E, quando nos dão alta, também não nos dizem nada a esse respeito. Mas devia ser obrigatório dizerem, porque nós não nascemos ensinados. Antes de nos deixarem sair, alguém tem que ter uma conversa muito séria connosco e avisar-nos de qualquer coisa como,
“Agora tenha muito cuidado com o que faz, e o que pensa, e a forma como se organiza, porque os AVCs não se curam logo, e por menor que o seu acidente lhe tenha parecido, para o seu cérebro foi de uma grande violência. Tenha cuidado sempre que se sentir confusa, que fizer mal as contas, que confundir os dias do mês com os dias da semana[7], que não conseguir encontrar as palavras que procura usar, e olhe… (Céus, quem me dera que alguém me tivesse dito isto a mim) … a senhora não escrevecrónicas para um jornal online? Não se sinta frustrada se ao princípio se cansar imenso a escrever, e precisar de quinze dias para fazer o trabalho que costumava numa tarde. E, acima de tudo, não tenha confiança nenhuma em si própria, releia tudo quatro ou cinco vezes até estar certa de que fez tudo bem. E peça a alguém de confiança que vigie os seus escritos – porque senão, por muito boas que sejam as suas intenções, ainda se arrisca a contar as suas histórias de uma forma que magoa as pessoas que gostam de si.”
A simples experiência da parte da minha vida em que eu sou uma escritora marota que manda vir para o grande público fez-me começar a mandar as minhas crónicas para as minhas irmãs, porque, ainda por cima, peguei em temas tão extremamente delicados que até o nosso director ficou com medo das suas consequências. Fartei-me de levar na cabeça, e ainda bem: o esforço de apresentar o meu material de forma mais adequada puxou seriamente por mim, até me trazer para fora daquele túnel em que eu nem conseguia acertar os relógios. Com o meu esforço e o passar do tempo, estou bem.
Mas continuo a achar imperdoável que nunca se faça uma única campanha de esclarecimento, a nível nacional, sobre um problema que afecta tanta gente. Aviso à Ordem dos Médicos e à Indústria Farmacêutica: se é por não terem ninguém que dê a cara, eu ofereço-me já. Para tudo o que quiserem. E não quero que me paguem nem um cêntimo, porque isso seria deveras vil. Quero é que a vida dos portugueses não acabe cedo demais porque nunca ninguém os ensinou a reconhecer o temível sinal de alarme que, de repente, se acende no meio de um nevoeiro cerrado.
Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora
[1] E eu, como sou uma zebra bizarra, fico a fazer festinhas atrás da orelha do Sebastião, enquanto saboreio o primeiro café e o primeiro cigarro da manhã. E o Sebastião ronrona. A sério. É um espectáculo desconcertante, um rafeiro alentejano colossal absolutamente podre de mimo a ronronar como se fosse um gato.
[2] “E pronto, faça esta medicação conforme está indicada e já pode voltar à sua vida normal.” – “Então posso ir para a praia?” – A minha amiga desmancha-se a rir. O médico abre os olhos de espanto. “Agora? Com todo este calor? Está maluca?” – “Não doutorzinho, lá mais para as quatro e meia, quando começa a soprar aquele ventinho… eu vim para Lagos para ir à praia e afinal passei o tempo todo no hospital… Vocês são muito queridos, mas eu preferia ainda aproveitar o resto da tarde de hoje,” – “Está bem… se isso é assim tão importante para si…” – “Doutorzinho, a água do mar faz bem a tudo.” – “Pois, os surfistas são os piores.” – “Eu não sou surfista, só gosto deste lema deles porque é absolutamente verdadeiro. Deixe-nos lá ir à praia a partir das quatro e meia, vá” – “Tudo bem, mas só se já houver vento e nunca antes das quatro e meia, ouviu, sua maluca?” – Vira-se para a minha amiga – “A senhora é composta e decente, e já me disseram que foi uma grande académica, acha que consegue conter os ímpetos aqui desta criancinha?” – A minha amiga, que é da minha idade, desmancha-se outra vez a rir. Satisfeito, o médico aperta-nos a mão e vai-se embora.
[3] Havia um paciente nortenho, do outro lado da enfermaria, que sempre que eu fazia uma tentativa nocturna berrava “Ó mulher cala-se que isso mete nervos só de ouvir!”. Eu tentava dizer “desculpe”, mas só agravava a situação.
[4] Recomecei a falar, antes de mais nada. Trapalhona, a precisar de terapeuta da fala, mas desse lá por onde desse estava a falar e as pessoas entendiam-me. Foi um dos maiores alívios que tive na vida. Estava a imaginar-me a fazer apresentações de livros, a participar em debates, só com aqueles fonemas bizarros a saírem-me pela boca fora. Estava a ver o fim da minha vida pública. Estava a ver imensas coisas que não queria ver. Raios me partam, mas é que já me basta o que basta.
[5] E várias outras coisas extremamente preciosas, incluindo um rosário de prata e turquesas herdado da minha avó que eu gostava muito de usar ao pescoço; e alguns fatos de banho daqueles que mais ninguém tem senão eu porque mais ninguém ousaria usar, que é o género de coisa que eu própria confecciono com desvelo, amor, e carinho. E livros muito preciosos para as minhas amigas, claro. E com toda a franqueza? Um saquinho com uma ervinha que há aqui que é muito leve e cheira a esteva, mas bate que não é brincadeira. Mas era pouca e era para partilhar, note-se. No domínio das vaidades, também tinha posto nessa mala as minhas roupas mais impressionantes com acessórios a condizer. Se calhar foi exactamente por causa do Pecado da Vaidade que Deus Nosso Senhor me castigou.
[6] E que fosse acompanhada. Aquela pessoa não está em estado de viajar, ponto final parágrafo.
[7] Ah, gaita, passo a vida agarrada à agenda para ter a certeza da semana em que estou – e ao princípio este esforço não adiantava de nada, porque não conseguia acertar com o mês em que tudo isto se passava.
Regressei ao derby contra o Sporting como deve regressar um benfiquista dos tempos modernos: sem grande fé, sem grande expectativa e com aquela teimosia quase antropológica de quem acredita que, um dia, talvez veja um jogo inteiro do início ao fim. Na época passada perdi meia parte do jogo — e a paciência com o Metropolitano, que decidiu tirar uma folga nesse dia, obrigando-me a ir de Uber. Nada mais humilhante para um cidadão que ainda acredita nos transportes públicos do que chegar à Luz dentro de um Toyota híbrido.
Este ano, como manda a tradição, voltei a não ver o início. Mas, justiça seja feita, não por culpa da engenharia soviética do Metropolitano de Lisboa. Não — desta vez a responsabilidade foi inteiramente do Benfica, que decidiu encerrar a Porta 30, o acesso habitual dos jornalistas. Talvez para testar a nossa resiliência física, talvez para demonstrar que a orientação espacial também deveria contar na estatística.
Eu e mais uns quantos jornalistas lá fomos, como peregrinos enganados, conduzidos até à Porta 11-D, uma entrada que, sinceramente, ficaria melhor num parque temático ou num túnel de fuga de um parque eólico. A partir daí seguiu-se a travessia épica pelos subterrâneos da Luz: corredores intermináveis, rampas, portas que só abrem com códigos e — deixemos esta parte ficcionada, porque o parque é como todos os parques subterrâneos do mundo —, para terminar, negociações diplomáticas com um segurança que tinha, naquele momento, mais poder do que o Pedro Gonçalves no lance do golo aos 12 minutos. Que, claro, também não vi.
A verdade é que perdi mais de meia parte da primeira parte. Não vi o golo do Sporting, essa oferta generosa da defesa benfiquista. Não vi o empate embrulhado de Sudakov, que — dizem — terá empurrado a bola quase por acidente, mas não há acidentes estatísticos: a bola entrou, logo vale. Mas vi, isso sim, algo que a esmagadora maioria dos 65.247 espectadores não viram: os subterrâneos da Luz. E devo confessar algo que nunca pensei formular publicamente: são deslumbrantes.
Porque, ao contrário do que se passa à superfície — onde o Benfica insiste em alternar entre jogos sofríveis e empates que oferecem vantagem ao Porto —, nas catacumbas chega-se à conclusão de que Portugal é afinal um país eficientíssimo, um país rico. Riquíssimo! Uma potência que só não aparece nos relatórios da OCDE porque, aparentemente, eles nunca foram ao piso -3 do Estádio da Luz. Ali, onde o PIB tem forma de berlina alemã, percebe-se verdadeiramente a distribuição do rendimento: desigual, sim, mas muito fotogénica.
Enquanto atravessava o parque subterrâneo — esse Olimpo automóvel onde a cilindrada é argumento moral — dei por mim a reconsiderar décadas de análise económica. Não há crise em Portugal. Não há austeridade. Não há salários estagnados. Tudo isso é ficção literária. A realidade estava ali, luzidia: BMWs e Mercedes como quem colecciona cromos, Teslas a brotar como orquídeas de estufa, e até um punhado de Range Rovers, Porsches, Ferraris e Maseratis estacionados com a displicência de quem encosta um Fiat Punto em Santo Amaro. No meio da opulência, encontrei um Smart, encolhido, constrangido, quase a pedir desculpa por existir. O dono, creio eu, deve ser alvo de intervenção psicológica urgente.
Quando finalmente cheguei ao elevador de serviço — após vencer portas, rampas e um segurança que exigiu mais explicações do que um juiz de instrução — e mordisquei o meu farnel, o jogo ia embalado para o intervalo. Sentei-me e percebi que o futebol português continua a oferecer aquilo que melhor domina: imprevisibilidade organizativa, golos que perco sistematicamente e uma sensação de déjà vu que Freud teria prazer em facturar.
Na segunda parte, observando um jogo de caca, percebi algo extraordinário: o desfile automóvel tinha sido infinitamente mais emocionante do que o próprio derby. O Benfica dominou mas não convenceu; o Sporting respirou mas não existiu; e Prestianni tratou de acrescentar irritação à noite sendo expulso ao minuto 90, para que os descontos acabassem em sofrimento. Resumindo: um empate tão útil para o Benfica e para o Sporting quanto um saco de moedas de chocolate numa reunião do FMI.
No fim, embora continue sem perceber a decisão de encerrar a Porta 30, reconheço que, ao cabo e ao resto, ofereceram-me material para reportagem. Fosse outro jogo menos relevante, teria ficado ali, no piso -3, a fazer um levantamento sistemático deste fenómeno sociológico: um país pobre ao ar livre e riquíssimo no subsolo.
Se na próxima vez me obrigarem a repetir a romaria pelos corredores subterrâneos, farei então o inventário exaustivo daquela fauna mecânica. Quem sabe se não encontrarei um Koenigsegg tímido atrás de um pilar, à espera pacientemente do próximo derby — e de nós, peregrinos ludibriados da Porta 30.
PACOTE LABORAL I Desde 2005 libertei-me de entidades patronais. O meu último patrão foi o sr. Paulo Ferreira, mentor do universo Blue. Saí do remanso azul depois de um quiproquo com o sr. Tiago Silveira Machado, esse modelo de virtudes. Era ele ou eu. Depois de uns meses na prateleira acertámos a saída e ficou o leal director até este engenheiro da lisura sair airosamente para fazer o seu produto alternativo e a Blue dar o badagaio. A Blue foi um grande projecto até certo ponto. Devo a essa revista muitos meses na estrada, mundo e antecâmara de livros. E amizades. Depois passei a freelancer.
Um bom patrão reparte e não parte. Não alinha por partidos a não ser a defesa dos seus empregados. Não toma os accionistas como os únicos merecedores de lucros.
No mundo do trabalho o melhor patrão que tive foi um mestre da Cabala. É por ele que me sigo.
A venda de rua é um trabalho, embora não pareça. Neste mundo há poucos amigos, e os que há não padecem de invejite aguda. Eles sabem quem são, e eu idem.
Andam ao sol, ao frio, à chuva e respeitam a inclemente acção do tempo. Não têm salário, subsídios e os descontos são por sua conta. Tirando meia dúzia de empresas que se querem exemplares. As benesses são como as das empresas sediadas nos Países Baixos.
Creio que no dia da greve geral furarão o protesto. Afinal, não é nada com eles.
MANEL JOÃO I O jogral João faz falta. O problema é haver dois palhaços ricos na corrida a Belém. Quero ver o face a face Ventura Vieira. Num país de aflitos, o humor de salvação nacional é uma lufada de aerofagia, um hino ao peido. O MJ foi meu vizinho ou fui eu dele, no bairro de Campo de Ourique. É um blasée costurado, veste fatos por medida. Um actor, poeta fingidor, necessário para desconstruir a falsa seriedade do candidato bem intencionado cuja intenção é sacar umas viagens e uma avença vitalícia. O Vieira não quer nada disso, a começar porque não precisa. Tem dote. Costumava ir ao Maxim ver os Ena Pá. O alívio da tensão facial é imperativo. Se é para morrer, que se morra de riso. Se tudo isto já é uma desbunda triste, venha o tinto. Troco o Ferrari por um Aston.
ADN I Estava aqui a falar com o meu botão esquerdo sobre genealogia. Saber de onde vimos, pode dar uma ajuda para onde vamos. Sei por onde não vou (emprenhar por ouvido, a título de exemplo). Talvez deva ao avô Garcia (jornalista, escritor) a mania de só falar e escrever a partir da escuta e observação, acompanhada da leitura. Levar a carta a Garcia é bonito. É como o belicismo justiceiro dos Gomes. O Salazar tem patine e ecoa dos bascos. E o Abel, claro. O Sousa rima com todos e vem de pai e mãe. Agora, vamos ao carácter do indivíduo entrelaçado com os povos, as origens. Um quinhão sefardita via Morão de Campos também cá mora e nutro curiosidade e simpatia por hebraicos (filósofos, artistas, humanistas, mestres de Krav Maga), como por Ibn-Arabi ou Ibn-Batuta. Adão Cadmon ou Jesus de Nazaré, serei parente ou basta a afinidade? Já chamei pai ao Miller e mãe à Clarice, num auto-baptismo literário. Ou à Cristina Carvalho que bate todas as mães. Lede a breve trecho o seu livro sobre a Yourcenar, essa rainha da lucidez retrospectiva que me deu ensejo para chamar Margarida à minha mais pequena. Tudo está ligado, até o pó de Cassiopeia.
AMIGOS I A Amizade é do melhor que o mundo tem. Amistad, de amistoso, de aligeirar a carga, partilhar larachas, chorar ombro a ombro, rir até voltar a pingar a lágrima, emprestar algum sem receio de calote. É por aí, livre de ciúme, orgulho, inveja, leva e trás, chibaria. Coisa nobre de guardar segredos até à tumba. Saber que se pode contar. Discordo quando os pais dizem aos filhos “eu não sou teu amigo”. Os pais deveriam ser os primeiros e maiores amigos, para se estabelecer um lastro de confiança nesse traço de união. Os Estados (e os governos) deveriam ser os melhores amigos dos cidadãos e não os seus primeiros inimigos. Os amigos, os grandes, dão por dar, sem moeda de troca. Aturam-nos como nós a eles. Gosto de amigos que dizem o que pensam e sentem. Um amor sem amizade é coxo. Não é Amor.
DA RELEVÂNCIA I Para um amblíope é relevante andar por passeios desimpedidos (incluindo de ciclistas e trotineiros nas suas montadas apressadas), além de ter um cão-guia com benefícios fiscais e outros que tais, pois a cegueira limita. Para quem tem fome ou quem vive para se enfartar a comida é relevante. É de igual maneira relevante dormir descansado e ter sonhos fúcsia, livre de ameaças de despejo, aumento de renda ou da taxa de juro do crédito, incluindo as desferidas na própria casa. A relevância abrange o livre acesso à informação dos direitos e deveres de um cidadão ou de quem o pretenda ser numa pátria adoptada. É de extrema relevância o domínio da língua bem como das emoções. Tal pode estender-se à compreensão de um texto. Comunicar, seja a quem for, oralmente ou por pomba-correio, o resultado de uma reflexão, sem preconceitos e hostilidade, munido apenas da razão e da ternura, é de relevância superlativa.
Era aqui que queria chegar: comunicar com ternura, ainda que o assunto seja difícil. Na irrelevância de uns, pode estar a relevância de outros.
Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)
Já se passaram 45 anos e continua-se a discutir se Camarate foi atentado ou acidente. O assunto pode vir à tona durante o Natal em família, tanto mais que vamos ter eleições presidenciais, algo que também estava no plano político de 1980. Por isso, aqui ficam algumas dicas sobre como pode ser abordado o assunto de Camarate de modo a evitar estragar a harmonia sempre tão necessária nesta festa da família.
Placa em memória das vítimas do atentado que tirou a vida ao então primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, instalada junto ao local onde se deu a tragédia, em Camarate. / Foto: D.R.
1 – Diga que foi acidente
Ainda há dias, numa entrevista na rádio da rua João Saraiva, o candidato a candidato à Presidência da República, — o “não sou maçon” — Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo, disse de forma muito enfática e sem espaço para dúvidas que Camarate foi “acidente”. Como não creio que o ex-militar tenha sido testemunha ocular do acidente, deduzo que estivesse apenas a produzir uma opinião pessoal.
É bem mais seguro dizer que Camarate foi acidente do que atentado. O acidente encerra logo ali o assunto, pelo que podemos seguir em frente na vida, sem mais questões. Esta opinião é até aquela que mais agrada a jornalistas, pois não têm depois de fazer perguntas que podem ser incómodas. Agrada igualmente a juízes, investigadores judiciais e a outros ligados à área, que assim podem dar o assunto por encerrado e não se fala mais nisso. E agrada ainda a certos meios políticos, já que não abre caminhos para se ir mexer em assuntos delicados e que não interessam nada aos seus interesses.
O recém-falecido ex-primeiro-ministro Francisco Pinto Balsemão, por exemplo, era adepto do acidente e, no caso dele, sabemos bem que também não podia ter sido testemunha ocular, pois há testemunhas de que estava no Porto, no aeroporto de Pedras Rubras, à espera da chegada de Francisco Sá Carneiro para o comício extra que iria ter lugar no Coliseu da Rua Passos Manuel.
Foto: D.R.
Por isso, se não quiser arranjar problemas na conversa da família, diga que Camarate foi um infeliz acidente, que o avião estava podre, os pilotos andavam cansados e, sobretudo, não havia maneira de saber se Sá Carneiro iria estar ou não naquele avião, mas que, à última da hora, Sá Carneiro mudou para o aparelho podre. Ah! E ainda havia o avião da TAP, para onde ele tinha reservas.
Por isso, acidente. Sem sombra de dúvidas. É bem mais seguro e evita chatices.
2 – Diga que ainda não está bem esclarecido
Se é daqueles que, por uma questão intelectual, não pode ficar calado e não consegue dizer que foi acidente, pois parece que é uma posição simples e de alguém que está mal informado, é então obrigado a dizer que foi atentado. Sabe que o acidente nunca foi verdadeiramente explicado e, um avião, mesmo podre, não cai assim. Que a falha de um motor até pode ser compensada pelos pilotos — por muito cansados que estivessem.
E como seguiu a polémica, leu os livros do Cid, sabe ainda que havia um segundo avião, aquele que Balsemão pediu ao dono da RAR, o empresário João Macedo e Silva, e em melhores condições. Também esteve atento às inúmeras comissões de inquérito, pelo que pode sempre dizer mal do exagerado número de comissões — foram 10, mas metade delas foram a continuação da outra, após terem sido interrompidas pelo fim das legislaturas até serem retomadas na seguinte. Esta é também uma maneira segura de mostrar que até se interessou pelo assunto e procurou informar-se melhor sobre o caso. Que não tem uma opinião ligeira.
Foto: D.R.
Pode sempre demostrar alguma superioridade perante aqueles que dizem ter sido acidente, dando a entender que até sabe mais sobre o assunto. Mas, como não quer ser visto muito deslocado do resto da família e convém não ser desagradável em relação aos que estão sentados na confortável ideia do acidente, o melhor a fazer é dizer que, mesmo sendo atentado, ainda existe muita confusão. Embora pense que o atentado é algo plausível, ainda assim não sabe explicar muito bem como foi e, por isso, seria melhor haver mais uma comissão, mas o problema dessa confusão toda é precisamente por ter havido já muitas comissões, pelo que não faz sentido haver mais outra, mas lá que seria necessário, lá isso seria.
Uma posição informada, segura e que não ofende ou coloca em perigo a convicção daqueles que vivem tranquilamente na segurança do acidente.
3 – Diga que foi atentado, mas o alvo era o Adelino
Este já está um nível mais acima, mas ainda assim dentro daquele conforto que também não cria perigos e não provoca choques sociais. Está apenas ao alcance de um grupo de pessoas muito específicas. Ainda há dias ouvi, por exemplo, o antigo grão-mestre da maçonaria regular, José Manuel Anes, a justificar as acusações da sua filha nas redes sociais — onde ele era acusado de ter feito a bomba de Camarate —, a dizer que as palavras da filha não faziam qualquer sentido, pois ele investigou o caso e concluiu que houve uma bomba. E que até foi ameaçado de vida — por quem? Não disse.
Francisco Sá Carneiro. / Foto: D.R.
Manuel Anes, que na altura dos factos era funcionário do laboratório científico da PJ desde 1978, é uma daquelas pessoas, que ao contrário do Henrique Melo, não pode dizer que foi acidente. Mas como também não pode parecer ter dúvidas quanto a ter sido um atentado, acrescentou à jornalista Tânia que o atentado foi contra Adelino Amaro da Costa e não contra Francisco Sá Carneiro. E a jornalista nem tugiu nem mugiu.
Esta opinião foi aquela que Conceição Monteiro, a secretária de Sá Carneiro e principal testemunha do que se passou durante aquele dia, começou a propalar quando se viu perante as evidências de um atentado, confirmado depois por Manuel Anes. Disse a senhora que, como não havia tempo para preparar um atentado contra Sá Carneiro, o alvo seria o ministro da Defesa, Amaro da Costa.
Como se a morte de um ministro fosse algo que se pudesse varrer depois para baixo do tapete e não merecesse uma investigação cabal. Mas, como o mais importante é retirar o nome de Sá Carneiro desta equação, para evitar uma investigação mais aprofundada, esta posição é aquela que deve ser usada por aqueles que não têm mesmo hipóteses de negar o atentado e que, tal como Anes, não podem discutir as conclusões oficiais das últimas comissões de inquérito e não podem parecer ter dúvidas.
Adelino Amaro da Costa na tomada de posse como ministro da Defesa do Executivo liderado por Sá Carneiro. / Foto: D.R.
Dizer que foi para o Adelino é uma boa maneira de dizer que foi atentado, mas depois arrumar o assunto sem ter de dar muitas mais explicações.
4 – Sobretudo, nunca diga estes factos:
Sá Carneiro estava no avião que caiu em Camarate porque era o único táxi-aéreo disponível no País depois de, uma semana antes, a 26 de Novembro, os aviões da campanha presidencial de Soares Carneiro terem sido apreendidos pela Guarda Fiscal no aeródromo de Tires. Essa apreensão, levada a cabo por uma autoridade que dependia do ministro das Finanças, Cavaco Silva, tem de ser considerada como parte do plano e demonstra que, ao contrário do que dizia Conceição Monteiro, houve mesmo tempo para preparar um atentado contra o primeiro-ministro Sá Carneiro.
Sá Carneiro nunca teria tido necessidade de ir ao Porto de avião se não lhe tivessem marcado um comício extra no Coliseu do Porto, facto de que foi informado a 1 de Dezembro, quando estava em Évora. De acordo com a agenda há muito feita, o comício onde ele deveria ter ido era o de Setúbal e não no Porto. O comício do Porto fora no dia anterior.
Foto: D.R.
Havia um segundo avião privado, mas Sá Carneiro nunca foi informado da existência desse aparelho. Esse era o avião privado da RAR que Balsemão garantiu que iria haver e que, depois, a sua prima, a secretária Conceição Monteiro, desmarcou após o encontro de Sá Carneiro e Amaro da Costa à hora do almoço.
Sim, havia reservas no voo comercial da TAP, mas isso era apenas uma medida de último recurso caso o avião privado não fosse autorizado a descolar devido ao mau tempo. Também havia, dentro da mesma linha de pensamento, reservas para o comboio. Aliás, o avião privado foi solicitado para levar Sá Carneiro de volta para Lisboa após o comício e permitir cumprir a agenda de primeiro-ministro na manhã do dia seguinte. E não havia avião da TAP para fazer esse regresso após o comício.
Quem insistiu na ideia do avião da TAP como uma mudança de última hora, ampliando as dúvidas em relação a um acidente e não a um atentado, foi o então director-interino do semanário Expresso, Marcelo Rebelo de Sousa, actual Presidente da República.
Francisco Sá Carneiro. / Foto: D.R.
A morte ocorreu numa altura em que Sá Carneiro andava a ameaçar fazer um ajuste de contas com os traidores no seu partido, andava a extremar a luta presidencial contra o general Ramalho Eanes e colocava em perigo a estabilidade democrática de Portugal, recusando um futuro bloco central com o PS de Mário Soares.
No campo internacional também coincidiu com o negócio de tráfico de armas para o Irão e que levara à derrota, um mês antes, do presidente norte-americano, Jimmy Carter, perante Ronald Reagan e George Bush. As ligações à CIA ainda estão por esclarecer, mas estão lá, pois Bush tinha sido chefe da CIA e o chefe da sua campanha presidencial, e principal mentor do negócio de tráfico de armas ilegal para o Irão no sentido de atrasar a libertação dos reféns norte-americanos em Teerão, William Casey, foi depois nomeado chefe da CIA. Na altura da morte de Sá Carneiro, o número dois da CIA era o ex-embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, Frank Carlucci, uma pessoa que não tivera boas relações pessoais com o primeiro-ministro durante a sua permanência no nosso País.
Seja o 25 de Novembro ou o 25 de Abril, jornalistas estavam lá para cobrir os acontecimentos. Hoje, uma crónica que publicámos no PÁGINA UM inclui uma foto que aqui republico porque é especial, para mim.
Na imagem, um grupo de jornalistas recolhe os comentários e respostas a perguntas do embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, Frank Carlucci, na sua chegada à capital em Janeiro de 1975. Entre eles, a segurar num dos microfones, de gravador na mão, está um querido colega: Carlos Pontes, companheiro na Reuters.
Frank Carlucci, na altura embaixador dos Estados Unidos em Portugal, na sua chegada ao aeroporto de Lisboa em meados de Janeiro de 1975. Carlos Pontes é o jornalista que está quase de frente para o fotógrafo. / Foto: Embaixada dos Estados Unidos
Imagino que, logo a seguir, desatou a correr para uma cabine telefónica, tirou as muitas moedas que carregava nos bolsos, e ligou para ditar a notícia, que seria depois difundida para todo o mundo. (Agora já sem os riscos da censura da PIDE que rasuravam os muitos takes que guardava do tempo da ditadura.)
O Carlos estava lá. Estava em Santa Apolónia, aquando da chegada de Mário Soares, também. E era uma delícia ouvi-lo contar como se “apoderou” de uma cabine que havia na estação antes de outros jornalistas, os quais faziam fila para poderem também enviar as suas notícias para a redacção.
Gostaria de poder ouvi-lo hoje a contar uma das suas histórias do 25 de Novembro … e a acabar por escutar outras tantas, de outros acontecimentos históricos do país, que ele testemunhou e noticiou.
Sinto que, de algum modo, falou comigo hoje, na mesma, ao aparecer-me essa foto. Consigo imaginar alguns dos comentários que provavelmente faria sobre os tempos que vivemos. E recordo, em silêncio, algumas das muitas suas histórias que tive o privilégio de escutar.
Os nossos vizinhos espanhóis evocaram há dias os 50 anos do 20-N, que lhes corresponde ao dia 20 de Novembro, data da morte do ditador Francisco Franco. Esta forma abreviada, ao colocaram o número do dia seguido pela primeira letra do mês, é uma maneira assaz interessante que os habitantes do outro lado da fronteira desta nossa Península Ibérica têm para evocar os seus acontecimentos históricos recentes. Por cá, não é comum escrever 28-M, 25-A, 28-S, 11-M, 25-N, ou 4-D.
Costuma-se dizer que Portugal e Espanha são dois países separados pela mesma História. E a expressão nunca esteve tão perto da verdade. Reconhecemos que temos um certo desconhecimento da História de cada um, muitas vezes partilhada em factos paralelos, mas frequentemente ignorada nas suas leituras comuns.
Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República, e José Pedro Aguiar-Branco, presidente da Assembleia da República, na Sessão Solene Evocativa dos 50 anos do 25 de novembro de 1975 que decorreu hoje. /Foto: D.R.
De vez em quando, procuro colmatar esse desconhecimento e, há dias, acabei de ler uma banda desenhada vinda de Espanha, “La Caja de Pandora”, de Angel de la Calle. É um romance gráfico, que recomendo a quem aprecia o género (e sugiro, a quem consegue ler em espanhol, como um bom exemplo para quem ainda não descobriu a força impactante desta forma de arte literária e gráfica). O autor faz um passeio introspectivo e semi-biográfico pelos anos da transição espanhola da ditadura para a democracia (1975-1978). Um período semelhante aos nossos primeiros anos pós 25-A.
Em mensagem pessoal que enviei para Angel de la Calle, a agradecer a oportunidade, qualidade e importância da produção desta obra, mencionei uma frase que cito de memória, onde o próprio rei Juan Carlos terá dito ao seu amigo do Estoril, o nosso recém-falecido ex-primeiro-ministro, Pinto Balsemão: “Em Portugal, houve uma Revolução. Em Espanha, morreu um homem”. Se o rei nunca disse esta frase, não é essa a questão, pois digo-a eu na mesma por a achar verdadeira. Nela, resume-se uma diferença, mas não esconde o que se seguiu depois nos dois países até, pelo menos, 1985, ano em que Portugal e Espanha assinaram, no mesmo dia, a entrada na CEE. Portugal, de manhã. Espanha, depois do almoço.
O Angel, na resposta à minha mensagem, disse-me que, em Portugal, tivemos mais sorte, pois a nossa revolução foi pacífica. E numa entrevista que deu a um canal de televisão espanhol, relatou que, em Portugal, no 25-A, só morreu uma pessoa e foi porque seria atropelada por um camião militar numa manobra de marcha-atrás. Quero acreditar que essa afirmação era uma alegoria, pois temos de incluir as vítimas dos tiros da PIDE e contar ainda com os anos bombistas que se seguiram e a Guerra Civil nos territórios ultramarinos portugueses que tiveram de ficar independentes.
Sessão Solene Evocativa dos 50 anos do 25 de novembro de 1975. / Foto: D.R.
A Espanha não fez uma descolonização em apenas um ano após o dia em que o carro militar fez marcha-atrás. Nem teve de integrar, em dias, meio milhão de retornados. Tivemos um PREC, que acabou no 25-N e, dez anos depois, lá entramos, Portugal e Espanha, na CEE. Após os sacrifícios que fizemos a nível económico, ao dar um sinal de unidade europeia, sem ditaduras, com a “Democracia”, foi dado um sinal a Moscovo que a Alemanha tinha de ser unida. E isso aconteceu quatro anos depois, em 1989, ao cair o muro. A própria URSS caiu em 1991 e foi criado o Euro, onde os países da Península Ibérica, apesar de não termos um sistema económico forte, ainda assim tivemos de entrar para dar mais um sinal de unidade europeia.
Até que, juntamente com outros países do sul da Europa que ajudaram ao fortalecimento do centro da Europa – Irlanda, Itália e Grécia –, puseram-nos no clube dos PIIGS. Os porcos da Europa. Obrigadinho, Europa comunitária e solidária. De nada. Afinal, para quê queixar-nos se até temos uma representação do PCP no antigo Hotel Vitória – imóvel de interesse público, arquitectura de 1934, de Cassiano Branco –, situado na luxuosa Avenida da Liberdade, ao lado de lojas de luxo? Podemos sempre ir exorcizar os nossos sentimentos de Liberdade com desfiles de 25-A nessa avenida da alegada liberdade e depois ir fazer compras – os que podem, claro – nas lojas bem recheadas de produtos que a liberdade do mercado e das condições laborais permite existirem.
Agora que estamos a evocar os 50 anos do 25-N, aquela madrugada que muitos esperavam, o tal dia inicial, inteiro e limpo de 1975 (E então? Acaso, não são assim todos os dias para aqueles que gostam de os viver sem se cansar?), convém lembrar que nenhuma comemoração estaria completa sem a menção de dois nomes que muito contribuíram para o sucesso da estabilização da Democracia em Portugal: Frank Carlucci e Henry Kissinger.
Frank Carlucci, na altura embaixador dos Estados Unidos em Portugal, na sua chegada ao aeroporto de Lisboa em meados de Janeiro de 1975. A sua primeira conferência de imprensa foi em português, algo inédito para um diplomata norte-americano. / Foto: Embaixada dos Estados Unidos
O primeiro até tem um azulejo com o seu nome – diz “Casa Carlucci” – na fachada da residência do embaixador dos Estados Unidos na Rua do Sacramento à Lapa. Era aí que costumava reunir-se com o líder do PS, Mário Soares, a conspirarem, na lavandaria do palacete – era onde havia menos hipóteses de serem escutados. Os serviços de Carlucci em prol da Democracia do 25-N foram depois recompensados com um emprego em Langley, nos Estados Unidos, como director-adjunto da CIA. A mesma CIA à qual ele sempre negou pertencer enquanto esteve em Lisboa – e é verdade que não perten…cia, mas depois de ter adquirido experiência no terreno, passou a pertencer.
Quanto a Henry Kissinger, por sua vez, teve o mérito de confiar no julgamento de Carlucci, adiando a ideia de que Portugal estava perdido para uma Democracia previsível e obediente ao interesse norte-americano, e que até poderia funcionar como “vacina” ao ser a Cuba da Europa.
Bem revelador da importância de Kissinger para o 25-N e o sistema de partidos que temos hoje em vigor, é a declaração de Melo Antunes, então ministro dos Negócios Estrangeiros, que num encontro com Frank Carlucci, duas semanas após o 25-N, quando o embaixador lhe perguntou o que teria acontecido se os comunistas tivessem vindo para a rua, Melo Antunes disse que havia uma coisa na sua mente: “A oferta da ajuda de Kissinger”. Isto data de 5 de Dezembro de 1975 e, para que não haja dúvidas, está aqui uma cópia certificada. Se não está ainda numa exposição sobre esta data, aqui fica a referência da mesma para que sejam incluídas nas comemorações oficiais: https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1969-76ve15p2/d169
Henry Kissinger (ao centro), em Paris, em 28 de Setembro de 1970. / Foto: D.R.
Daqui a dias teremos ainda os 45 anos do 4 de Dezembro, a data do assassinato de Sá Carneiro – sim, porque já se concluiu na Assembleia da República que a explicação mais lógica para a queda do avião teria sido devido à deflagração de um engenho explosivo a bordo. Mas, nestes 45 anos, iremos continuar a ouvir que foi acidente, pois isso é mais tranquilizador para as mentes que não querem investigar o móbil do atentado. Talvez daqui a cinco anos se saiba mais.
E, finalmente, daqui a seis meses, vamos celebrar os 100 anos do 28 de Maio, outro momento em que os militares agiram com a intenção de salvar o país do caos e da ruína. Teremos, portanto, com a força da democracia, encarar uma data em que o chefe dos militares portugueses de há 100 anos, Gomes da Costa, dizia aos jornalistas de há 100 anos coisas como estas (Entrevista a Gomes da Costa, Diário de Lisboa, 3 de junho de 1926):
“Fazer uma revolução nacional desta força e significação para nos instalarmos no Terreiro do Paço a fumar charutos tranquilamente também não pode ser”.
Edição do Diário de Lisboa, 3 de junho de 1926.
“A imprensa é útil, é uma força nacional. Tem liberdade para dizer o que pensa. Não abafaremos o pensamento de ninguém. Também acreditamos que ninguém desvirtuará as nossas intenções. Sou militar. Falo a linguagem da verdade. O país estava cansado dos políticos que nos arrastaram para a miséria que aí estava”.
“Se é ditadura meter o país nos eixos, sim, ditadores somos. Mas nunca uma ditadura no conceito antigo, suprimindo liberdades, perseguindo e vexando. De porcarias estávamos nós fartos. Liberdade bem distribuída, justiça para todos, saneamento das finanças e dos serviços públicos – eis a nossa ditadura”.
O general Gomes da Costa. / Foto: D.R.
No livro de Angel de la Calle, numa conversa em Cuba, uma amiga sua pergunta-lhe: “Em Espanha, têm Rei?” Sim, há rei, responde o autor. “E Guardia Civil?” Sim, há Guardia Civil. E concluiu a amiga: “Então de que transição estás a falar”? Poderíamos fazer o mesmo exercício sobre Portugal: Em Portugal, existe um Presidente da República e um primeiro-ministro? Sim. E GNR? Sim. Então de que revolução estamos a falar?
Os democratas de hoje, em Portugal e Espanha, sabem que, no tempo das ditaduras de Salazar e Franco, os Estados Unidos e União Europeia não tinham tanto poder sobre as decisões internas da “democracia orgânica” de cada nação ibérica. Se houve depois uma transição em ambos países, essa foi para entregar o poder de Lisboa e Madrid aos bons servos dos poderes de Washington e Bruxelas.
“O fascismo é belo, é vertiginoso. Vivere pericolosamente.”
Últimas palavras que a linda Eunice dirige a Vasco em OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO, de Eurico Veríssimo.
É vergonhoso irmos já no dia 23 de Julho de 2025 quando finalmente é reconhecida na Assembleia da República a Lei contra a violação das mulheres, mas enfim. É melhor que nada. Esta Lei permite que os violadores sejam julgados sem que a sua vítima, ou várias vítimas, tenha de passar pelo Tribunal e ser filmada, julgada, e exposta aos olhos de toda a gente. E, mais ainda, permite que os atacantes ao que a nossa privacidade tem de mais sagrado recebam penas tão pesadas que na oportunidade seguinte, se chegarem a sair da cadeia a tempo, pensem duas vezes antes de repetirem a proeza – ou então são acabados psicopatas que gostam de estar presos porque é onde se encontram presas mais fáceis para actividades sodomitas, e só compete à sociedade fazer-lhes a vontade em celas isoladas.
Mas acreditem, por favor acreditem. Acreditem que as leis não bastam. Nada mudará, nunca, por muito rígidas que sejam as novas normas de penalização da violação às quais ninguém parece ter ligado grande coisa, se as mulheres não se revoltarem frontalmente, e acusarem os seus vampiros com todas as letras, por forma a acabar com os divertimentos de gente porca e viciosa, como por exemplo o Guarda da Estação e o Tiago.
Há cinco anos atrás, o Guarda da Estação e o Tiago foram os dois tarados que juntaram esforços para tornar possível a minha violação.
E depois, como fazem todas as mulheres violadas, falei com a minha médica[1] mas não falei com mais ninguém.
Mas, agora que temos uma lei que nos protege, é imprescindível conseguirmos falar. Só depois de ouvir a nossa voz é que a sociedade pode acordar e revoltar-se, e iniciar a prática, agora possível, de pôr os que nos desfiguram a beleza natural da vida e a alegria de estarmos vivas em tribunal… de onde, de hoje em diante, teremos a certeza que hão de seguir para a prisão.
Agora, isto só acontece a partir do momento em que as vítimas se organizarem[2] e começarem a fazer ouvir a sua voz. Conto-vos a minha história para que as outras mulheres se sintam mais acompanhadas ao fazerem o mesmo.
E também porque o meu caso é um verdadeiro clássico.
Pensei que, envolvendo-me bem no meu silêncio em torno deste nojo, estaria a proteger todos os familiares e amigos, todos os filhos e netos que estão longe, os muitos que costumavam juntar-se regularmente comigo e que não haviam de querer andar a ter de aturar histórias porcas de foi assim ou assado. Pelo contrário, vejo agora, passados mais cinco anos, que o meu desaparecimento das nossas festas, das nossas conversas, e das nossas intimidades mais profundas, magoou de certeza toda a gente que esperava de mim a pessoa que eu era dantes, e agora vou tarde para dizer “queridas manas e mais família, queridas amigas e amigos, queridos filhos e netos, só posso pedir-vos desculpa mas não dei por isso, fiquei traumatizada até ao mais fundo do meu coração por um janado que me violou na Malorada[3] numa noite de chuva, com a complacência do Guarda da Estação”.
Era noite de Natal, aquela única noite do ano em que toda a minha família se junta e se ri a por a escrita em dia, a saborear tudo quanto há de bom e a visitar os que nos são queridos. Foi tudo como manda a lei, mas o regresso foi complicado. Vivia-se uma fase caótica do confinamento, chovia a potes, e eu ia esperar pelo último expresso para Estremoz, com o bilhete enrolado entre os dedos.
Eram as minhas primeiras Festas aqui, e eu vinha de boleia, com uma grande amiga que nem sequer vive na Malorada, vive num monte a seguir ao castelo romano, mas teve o carinho de me depositar sã e salva na estação, a essa hora cheia de gente, e de se certificar que eu já estava de posse do bilhete. Demos muitos beijos e muitos abraços, soltámos alguns murmúrios de “epá foi tão bom voltar a ver-te” e de “agora já podemos fazer isto mais vezes”, mas eu não tive lata de lhe pedir dinheiro emprestado. O meu chegava para duas bicas, mas, pela conversa que viemos a ter pelo caminho, eu sabia que não era a única que estava a tinir.
Destes Natais com toda a família voltamos para casa felizes, mas muito, muito cansados. Fiquei a dizer adeus aos faróis do Mehari dela, depois entrei no café ao lado da estação para tomar um dos dois cafés a que tinha direito, e a seguir ali fiquei, numa mesinha encostada ao vidro da janela, à espera do expresso que me levaria a Estremoz pelo meio da chuva da Noite de Natal.
É aqui que a festa degenera.
Desde que as estações da Rodoviária deixaram de ter um balcão próprio, onde podemos esclarecer dúvidas sobre os nossos bilhetes, e com verdadeiras pessoas a quem podemos perguntar o que é que fazemos a seguir, todas estas viagens, por pacatas e pequenas que sejam, ficaram tão profundamente desumanizadas que quem ainda não conhece o terreno sujeita-se a ir parar onde não quer. Se fosse agora, depois de cinco anos de treino, nada disto aconteceria. Mas, à época, eu estava a estrear-me na arte dos expressos de Estremoz para o mundo e nem tudo fazia sentido. À noite, a chover, em pleno confinamento que subvertia os horários gerais das camionetas, com toda a gente a quem perguntei a dar-me indicações estranhas e sobretudo erradas, fui deixando passar uma camioneta atrás de outra até deixar passar a última camioneta para Estremoz.
Logo a seguir, sempre com chuva, apareceu o guarda da Rodoviária para fechar a estação.
E eu estritamente com moedinhas para uma bica na carteira.
Mais: com tanto azar, naquela altura o meu telemovel ligava para toda a gente, mas, numa daquelas birras electrónicas que a gente não pode esperar que venham algum dia a ter explicação, recusava-se a ligar exactamente para aquela minha grande amiga da Malorada – exactamente a única pessoa que poderia voltar à estação para vir resgatar-me. Quando queríamos falar uma com a outra, tínhamos de recorrer ao Skype, ao Messenger, agora muitas vezes ao Zoom – com os telemómeis mortos pousados ao lado dos nossos PCs, a todos os títulos inúteis para qualquer tipo de ligação entre nós.
E isto não me acontecia a mim com mais ninguém, nem lhe acontecia a ela com mais ninguém.
Há Forças.
Eu sei que é muito difícil de acreditar, mas há mesmo Forças.
E, entretanto, ia-se fazendo cada vez mais tarde.
Fui explicar a minha situação ao guarda da estação, que não pareceu particularmente preocupado e disse logo que havia um AL ali mesmo por trás. Eu insisti que, por confusão entre as nossas malas, a minha carteira ficara com a minha amiga[4]. E ele repetiu então por que é que eu não ligava a essa amiga, a quem eu já dissera que não conseguia ligar. Ou era surdo ou estava a gozar comigo. Apetecia esmurrá-lo.
“Eu levo-te a Estremoz,” disse uma voz por traz de mim.
“Ah!”, disse o guarda, de onde se prova que não era surdo. “Muito bem, Tiago. Muito bem.”
Era um jovem de pernas finas e olhos brilhantes.
“Muito obrigado,” disse eu. “Mas Estremoz ainda é longe e vai gastar bastante gasolina por minha causa.”
“Ora, não tem importância,” disse o Tiago. “O carro tem o depósito cheio para ir até Lisboa.”
Devia ser um menino do papá a exibir as suas posses. E o guarda da estação parecia venerá-lo.
“É assim mesmo, Tiago,” repetiu ele. “Assim mesmo é que se trata uma senhora.”
Virou-se para mim e sorriu-me um sorriso rasgado, depois do que encerrou a conversa com alguns pronunciamentos sobre a minha sorte.
Agarrei no saco pesado e lá fui atrás do Tiago, a pensar na conjuntura estranha de acontecimentos daquela noite. Estava tão perdida nos meus pensamentos que já era tarde para voltar para trás, sempre pendurada do meu saco pesado, quando percebi que tínhamos entrado numa viela estreita e escura, onde era absolutamente impossível alguém guardar um carro. O Tiago deu-me um empurrão para dentro do abarracamento onde morava, deduzo eu, porque, graças a Deus, lá dentro não havia qualquer luz. Houve só uma conversa interminável de “olha que não te armes em boa que eu trouxe-te para aqui para te mandar um fodão, e se não vai a bem vai a mal que estou com uma puta tesão, e fica sabendo que já comi velhas muito mais velhas do que tu e é do que eu mais gosto. Anda lá, meu, deixa entrar, abre-me essas pernas ou eu parto-te toda,” e mais débitos infindos de ordinaricesque acabaram por vencer-me pelo cansaço. Então o miúdo satisfez-se comigo uma data de vezes, a dizer uma data de porcarias. Acho que queria tanto que aquela tortura acabasse que acabei por adormecer entretanto[5].
Acordei com o Tiago a sair-me de cima, enquanto dizia “tenho de ir buscar uma coisa.” Eu lembrei-me das pernas de alicate e dos olhos brilhantes, pensei “este pobre rapaz não vai viver muito;” nem reparei nos pormenores do casinhoto à minha volta, desapareci dali assim que ele desapareceu, fui andando com tudo a doer e o saco a arrastar até chegar à zona do centro onde fica a praça dos táxis, entrei no café mais próximo onde só estavam homens que olharam todos para mim com desconfiança[6], pedi o tal único café que ainda podia pagar, e, depois de pensar muito, liguei para a Isa – a mulher que já na altura era a minha empregada, e ainda hoje o é. Contei-lhe a história de perder o último Expresso, de não conseguir ligar para a minha amiga, dei-lhe o telefone dela e pedi-lhe que lhe ligasse. Mas a Isa ficou tão horrorizada com a minha noite sabe-se lá como e com só ter dinheiro para um café que me disse para me meter logo num táxi para Estremoz que ela pagava. Por acaso estava um táxi na praça, e estes são daqueles momentos em que a pessoa não vai dizer que não. A Isa ainda foi comigo e ficou comigo para me devolver a tranquilidade e a segurança da minha própria casa, até eu parar de suar e de tremer.
Foi nesse mesmo dia, pelas 18h, que o Bruno apareceu à minha porta com uma caixa de vinho, sem dizer uma palavra.
Como o homem era o taberneiro da esquina e era dia de Natal, pareceu-me perfeitamente normal que me oferecesse uma garrafa de vinho – e assumo desde já que a primeira coisa que me passou pela cabeça foi ligar a televisão na CNN ou qualquer um desses programas alheios, e distanciar-me cada vez mais do meu mundo a beber devagarinho a garrafa do Bruno até ao fim.
Mas o que saltou de dentro da caixa foi antes um Sebastião minúsculo, animadíssimo, eternamente curioso, bichinho alacre e sedento de focinho pontiagudo que explora através de tudo em perpétuo movimento, que logo nessa noite me fez rir como uma perdida e me encheu a cama de pulgas.
Não sei se notaram que já vos falei por várias vezes do dia em que o Bruno apareceu lá à porta com o Sebastião na caixa de vinho, mas a versão que vos contei nunca correspondeu inteiramente à verdade. E eu nem dei por isso. Até agora, que foi quando me lembrei da verdade pela primeira vez.
Com o tempo, creio que com os anos, ainda cheguei a contar a história à Isa só para não carregar o fardo sozinha. Tirando isso, fiz o que fazem todas as mulheres violadas, sejam quais forem as nossas razões para as nossas escolhas: tomei duche, calei-me, e nunca, mas nunca na vida, contei nada a ninguém.
Em grande medida, calei-me porque fiquei bem, e, na ausência da lei da violação, não quis ser obrigada a trazer todos estes monstros à superfície. E também não quis que pessoas que eu amo tivessem de lidar com semelhantes porcarias.
Mas – esperem lá. Eu escrevi, mesmo, “fiquei bem”?
Só agora é que reparo que não, que fiquei mal, mas mesmo muito mal, depois do que aconteceu. Diga-se que fiquei traumatizada, por que não – a palavra existe para uso em casos como este. Por exemplo, nunca mais passei nenhum Natal com aqueles ajuntamentos ciclópicos de família de que, no entanto, gosto tanto. Tem sido sempre por motivos de saúde – mas, e se não fosse? Instintivamente, é como se me acontecesse alguma coisa horrível se não ficar calmamente em Estremoz com o Sebastião.
O bebé que cabia dentro da garrafa de vinho agora é um colosso.
Toda a gente diz que eu sou muito corajosa. Mas a verdade é que tenho medo, um medo pânico, de ir à Malorada. Vivo sozinha há mais de vinte anos e já não tenho medo de quase nada, nem sequer da coisa que está debaixo da cama e me perseguiu até tarde. A casa dela no monte é grande, linda, e tem a toda a volta um jardim muito bem concebido, com oliveiras, chocalhos de ovelhas, e glicínias em Junho.
Essa chaveta da taxonomia familiar adora fazer festas.
E eu confesso, de uma vez por todas, o que nunca tive a coragem de confessar até hoje. Desde que conheci o Tiago e o Guarda da Estação, cada uma dessas festas é um suplício para mim. Sou sempre a primeira a vir embora, com o coração apertado pelo terror de ser engolida, uma vez mais, pela noite da Malorada.
O Sebastião não pode sair do carro porque é tão grande, e ladra tão alto, que assusta os meninos. Mas o que interessa neste particular é que, havendo carro, eu nunca deixo de levar o Sebastião comigo[7]. Sempre conversamos pelo caminho.
E, se não houver carro e me pedirem para me meter no Expresso em Estremoz e ir ter à estação da Malorada[8], onde alguém irá buscar-me vindo do monte, acabou-se toda e qualquer racionalidade. Entro num pânico tão violento que deixo, pura e simplesmente, de conseguir pensar.
E é então começam a acontecer coisas que eu nunca sei de onde vieram, coisas parvas que se vão alinhando uma atrás da outra, coisas que deveriam ser fáceis de resolver mas de súbito o pânico lobotomiza-me, quero fazer tudo bem mas cada vez faço mais porcaria – e pronto, como já se percebeu nunca consigo chegar à Malorada. Se a festa fosse em Viseu, eu punha-me lá nas calmas[9]. Chegava a Finisterra num instante. No outro dia descobri que também há um directo Estremoz-Lagos, vários por dia vindos sabe-se lá de onde. Apanhei um naquela vaga de calor dos quarenta graus, e lá dentro as janelas estavam protegidas, o ar condicionado estava ligado e bem ligado, tínhamos à disposição mantinhas e almofadas, eu agarrei numa almofada, tapei-me com uma mantinha, adormeci profundamente e nem dei pela viagem. Mas dei pela chegada a Lagos. O final desta sequência não é exactamente “… de tal maneira que só acordei em Sagres.” Gaita, comecei a viajar sozinha aos doze anos, em viagens que vinham de Alfândega da Fé para Lisboa com seis mudanças de linha, e finalmente lá estava a Mãe à minha espera em Santa Apolónia, de lágrimas nos olhos porque achava tudo aquilo muito arriscado.
Quando eu tinha vinte anos, a Mãe suplicou-me, de mãos postas, que não tentasse usar o velho acordo celebrado entre o Xá e o Salazar para os portugueses poderem entrar no Irão sem documentos por forma a ser mais fácil recrutá-los para as plataformas de petróleo, onde eram muito apreciados. Isto aconteceu quando o Khomeini acabava de tomar o poder e logo a seguir de expulsar todos os jornalistas do país, mas eu e o Cáceres Monteiro socorremo-nos desse velho acordo de que eu tivera conhecimento por mero acaso, ignorei a súplica da Mãe e fomos mesmo – de camioneta, a correr as montanhas durante três dias, quando tudo aquilo era uma aventura extremamente perigosa.
Não tive medo nenhum.
E agora aqui estou eu a descobrir que por qualquer razão ainda não voltei a passar o Natal com a família desde a minha noite trágica na Malorada, um pionés importantíssimo no mapa das festas familiares que faz cinco anos que me aterroriza ter de revisitar, e no entanto eu só agora reparei que aterroriza.
Como eu estarão neste momento, certamente, centenas ou milhares de mulheres portuguesas, vítimas de outras histórias que lhes roubaram outras liberdades. E, quando finalmente é aprovada a lei da criminalização da violação, passa-se à frente como se nada tivesse menos importância neste mundo.
Talvez por “criminalização da violação” ser um termo novo extremamente difícil de encaixar na língua portuguesa.
Mas nada disto é desculpa, minhas senhoras.
Temos a lei a nosso favor. A bola está no nosso campo. Apanhá-la é aceitarmos a nossa responsabilidade, o nosso dever de começarmos a falar.
Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora
[1] Quer dizer, falei… o mais laconicamente possível, e pronto. Só queria ter a certeza de que o Tiago não me tinha pegado nenhuma porcaria nascida do esterco.
[2] Por muito que eu deteste a palavra “partilhar”, mas que se lixe. Quando é preciso, é preciso mesmo.
[3] Nome fictício da cidadezinha alentejana onde isto se passou.
[4] História improvisada para uso da criatura, claro. Pura e simplesmente, eu era pobre. Perdida aquela camioneta, já não tinha mais recursos. Cartão de crédito também não tinha. Nem tenho.
[5] Versão extremamente resumida, como hão de compreender e agradecer.
[6] Está bem que estes homens são uns rústicos. Mas neste caso alguma razão teriam ao verem entrar uma senhora que já devia ter andado toda muito composta e agora estava toda descomposta, com rasgões na roupa, arranhões no peito, palha no cabelo, e tudo. Seria, porventura, alguma fugitiva de um novo filme do James Bond onde o Alentejo fazia as vezes de velho West?
[7] Os meus sobrinhos e sobrinhos netos quando o vão lá ver, numa excitação impensável: “A Tia tem um Lobo dentro do carro! A Tia tem um Urso dentro do carro! A Tia trouxe o Abominável Homem das Neves no carro!”
[8] Uns meros 30 minutos de distância. Imensas crianças fazem esta viagem sozinhas, pelo amor de Deus.
[9] Também, estou a exagerar a minha capacidade de resolver problemas rodoviários. Quando vivia no Burgau, juntei-me a um encontro dos Missionários Comboiamos que ficava exatamente em Viseu. Foi assim que descobri que o velhinho “ESPRESSO DA GUARDA”, que partia de Lagos, corria o Algarve, e a seguir virava a Norte e subia até à Guarda com paragem em vários pontos importantes do caminho – e um deles era Estremoz! Entretanto as camionetas melhoraram as suas capacidades, e o “ESPRESSO DA GUARDA” vai hoje até Viseu. Gosto sempre de ir no lugar da frente, com a sua impressionante visão panorâmica, que me vai contando histórias e escrevendo páginas inteiras de romances na cabeça. O pior são os dois motoristas, necessários para a execução perfeita dos horários e da segurança da paisagem: estão permanentemente, mas é que mesmo permanentemente, ao longo de todo o percurso, de onde é que há os melhores restaurantes do caminho, com os pratos preparados como e aquele sítio onde o vinho da casa vem do Céu. Ora, Gaita!