Categoria: Crónica

  • Astérix já é um dos nossos

    Astérix já é um dos nossos


    Foi preciso esperar 66 anos desde a criação de Astérix e Obélix até que, finalmente, a dupla gaulesa apanhasse o barco do mercador fenício, no norte da Gália e, em vez de rumarem até ao Mediterrâneo, parassem numa cidade do Atlântico e que é ainda mais antiga do que Roma: Olissipo. 

    A aventura “Astérix na Lusitânia”, sabemos bem, não é a mesma que resultaria caso tivesse sido feita pelos criadores originais, Uderzo e Goscinny, mas podemos afirmar que a nova equipa, o argumentista Fabcaro e o desenhador Didier Conrad, fizeram um trabalho competente e que não envergonha o original. Reconheça-se ainda que não têm um trabalho fácil, pois, como explica Conrad: “Se tirarmos a opinião do editor, dos herdeiros, as expectativas dos leitores e as exigências do formato e da impressão, temos toda a liberdade de criar o que queremos”.

    Fabcaro (Fabrice Caro ) e Didier Conrad, autores de “Astérix na Lusitânia”. / Foto: D.R.

    O certo é que também não é preciso ser um génio da edição de livros para saber que um novo álbum de Astérix será sempre um sucesso de vendas. Pois, mais não seja, os leitores das aventuras originais irão sempre querer ter o último álbum na estante para não ficarem com a sensação de uma colecção incompleta. Enquanto isso acontecer um pouco por todo o mundo – são cerca de 5 milhões de exemplares no total, em cerca de 19 países –, então cada álbum será sempre um êxito garantido, independentemente da qualidade e das expectativas do mesmo.

    Este é o 41º álbum da coleção, mas apenas o sétimo feito a partir de 2013, altura em que Uderzo passou a responsabilidade do desenho para Didier Conrad. Os textos – que até 1977 eram de Goscinny – tiveram a assinatura de Jean-Yves Ferri nos cinco primeiros álbuns, mas, desde 2023, é Fabcaro quem os idealiza. E, depois de ter criado o álbum anterior a este, “O Lírio Branco”, podemos dizer que a aventura na Lusitânia é capaz de estar no topo das preferências desta nova fase, tanto mais não seja pelo facto de Portugal estar na moda.

    Os estereótipos estão lá todos, para o bem ou para o mal. Temos a referência a Amália, que até escolheu um dos fados “mais alegres” para dar as boas-vindas aos gauleses. Existe uma personagem que o editor quis que se chamasse “Saudade”, em vez do “Oxalá” do original francês. Há ainda paisagens, como as Azenhas do Mar. Falta, contudo, o trânsito em Olissipo – que já naquela altura seria tão movimentado quanto o da Lutécia. Depois, temos bacalhau, pastéis de nata, azulejos, galo de Barcelos, eléctrico XXVIII e ainda Ronaldo, que até aparece em dose dupla.

    Apresentação do livro “Astérix na Lusitânia”. Foto: D.R.

    “Desenhei uma criança que joga à bola com o número VII na camisa, mas o editor queixou-se que estava muito pequena e mal se via. Então desenhei-o, de forma mais visível, noutra situação”, explicou Didier Conrad ao Página Um. E quando perguntámos aos novos autores por que não recriaram um jogo de futebol onde Ronaldo, o primeiro futebolista multimilionário da história do desporto, pudesse ter mais destaque, um pouco à semelhança do jogo de rugby que Goscinny e Uderzo fizeram na aventura entre os Bretões, os autores explicaram que, no caso da viagem à Inglaterra, o rugby era um desporto mais típico dessas paragens, “enquanto a paixão do futebol é transversal a vários países e não apenas a Portugal”.

    Quanto à história em si, sabemos que Astérix só precisa de um pequeno pretexto para sair da aldeia – existe uma tradição em que as aventuras de Astérix alternam entre uma história dentro da aldeia e outra que é o chamado álbum de “viagem”, como é neste caso. Na realidade, uma aventura de Astérix na Lusitânia era algo que poderíamos esperar desde, pelo menos 1967, altura em que Goscinny fez, em “Astérix, Legionário”, uma menção à canção francesa dos anos 50, “As Lavadeiras de Portugal” (que chama “As Lavadeiras da Lusitânia”). Depois, em 1969, a dupla criativa original fez a aventura na Hispânia, criando, três anos mais tarde, um personagem lusitano na história “O Domínio dos Deuses”. O próprio Uderzo, que visitou Portugal em 1991, e falou nessa altura da possibilidade de haver uma aventura na Lusitânia, ainda criou mais um personagem lusitano no álbum “O Pesadelo de Obélix”, editado em 1996.  

    Fabcaro explicou como se lembrou do lusitano de “O Domínio dos Deuses” para dar início à aventura, onde ele chega à aldeia a pedir ajuda para libertar um amigo, produtor português do garum – o molho de peixe fermentado e que a Lusitânia era fornecedora para o Império Romano. E há um detalhe que, até ao momento, poucos terão ainda dado por ele: o rival desse português é um napolitano, Crésus Lupus (Burlus Lupus na versão portuguesa), que Conrad desenhou numa óbvia caricatura de Sílvio Berlusconi – o magnata da Imprensa e ex-primeiro-ministro de Itália.

    Foto: D.R.

    Fizemos notar ao argumentista a coincidência dessa personagem surgir neste álbum num momento em que o filho de Berlusconi, Pier Silvio Berlusconi, está interessado na compra do grupo Impresa, nas mãos da família Balsemão. Fabcaro garante que não foi de propósito, pois trata-se de um personagem que já surgira na aventura de 2017, “Astérix e a Transitálica”, precisamente como um rico produtor de garum. E, agora, fez todo o sentido trazê-lo para a aventura na Lusitânia.

    A propósito de outras caricaturas que surgem na aventura portuguesa, há uma que não tem qualquer relação com o País, mas que se trata de um centurião romano que caricatura o cómico inglês Ricky Gervais. Conrad confirmou ao Página Um ser um pedido especial do editor francês “que é um grande fá do comediante inglês”, acrescentando que, por outro lado, o governador romano na Lusitânia, Pluvalus (Interesseirus em português), não corresponde à caricatura de ninguém em real. Fabcaro sorri, pois na sua descrição estava uma pessoa semelhante a… Donald Trump. Acontece que Didier Conrad vive nos EUA, no Texas, é decidiu que não seria boa ideia. Esse tipo de censura é algo que também transparece na fala do pirata africano que, de repente, já diz os “r”.    

    Outra questão que levantou alguma estranheza entre os leitores portugueses é facto de os personagens portugueses estarem sempre a dizer “ó pá”. Isso surge de forma que, podemos mesmo considerar, ser exagerada. Não era preciso usar isso sempre em todas as falas dos lusitanos. Menos seria mais. Aliás, o editor português da ASA, Vítor Silva Mota, sentiu mesmo a necessidade de explicar essa opção perante a plateia que encheu uma das salas de cinema do UCI no El Corte Inglés onde decorreu uma apresentação pública. Disse ele que foi uma opção para brincar com o original onde os personagens lusitanos trocam a terminação francesa de palavras terminadas em “ion” por “ção”. Fabcaro disse mesmo ao Página Um que recebeu mensagens de amigos franceses com “félicitação” em vez de “félicitation”.

    Outro dos desafios da tradução tem a ver com uma referência ao nosso 25 de Abril. Na versão francesa, os autores colocam um prisioneiro a gritar “oyez, oyez”, como “ouçam, ouçam”. Um outro prisioneiro diz que se trata “de mais um jovem idealista que julga que se pode fazer a revolução com oyez”, sendo que esta última palavra soa a cravos em francês, os “oillets”. Na versão portuguesa o prisioneiro diz que “o povo jamais será vencido” e o companheiro explica que ele é o prisioneiro número MCMLXXIV (1974), e pede para que não lhe liguem, pois tem a cabeça cheia de ideias revolucionárias.

    Astérix e Obélix, num momento raro, mas não inédito, disfarçam-se de locais, pintando o cabelo de escuro, o que dá um efeito cómico também único a esta aventura, e ainda participam numa cimeira internacional a bordo da galera “Davos”, que Fabcaro explicou fazer sentido decorrer em Lisboa, pois é uma cidade que deu início à globalização. E essa é ainda uma referência que surge com uma personagem feminina lusitana chamada Gama, que tem um tasco chamado Vasco – que em francês é o Le Vase Clos –, onde há sempre belas descobertas.

    Outras descobertas deste álbum é a citação do poema de Voltaire sobre o terramoto de Lisboa, que surge a explicar a nostalgia portuguesa, com a tradução de Vasco Graça Moura: “Bem será tudo um dia, é essa a nossa esp’rança; Hoje tudo está bem, é essa a ilusão”. Também Fernando Pessoa é lembrado, embora apenas na versão portuguesa, quando um soldado romano diz que não é nada, mas tem em si todos os sonhos do mundo.

    Cada leitor teria feito uma aventura diferente, mas esta é a que agora temos. E, fatalmente como destino, vamos ter de gostar dela como está e para sempre.

    Frederico Duarte Carvalho, jornalista e escritor, colaborador regular do Página Um, assina este texto porque também é um especialista em banda desenhada tendo, inclusive, editado recentemente, nas edições Polvo, o livro “As Aventuras de Goscinny e Uderzo entre os Lusitanos”, onde explica a evolução das aventuras da dupla gaulesa até chegar à história na Lusitânia. Uma obra que conta com documentos inéditos do Institut René Goscinny, cedidos especialmente para esse trabalho.

  • Arouca 5.0

    Arouca 5.0


    Há quem diga que a vida é feita de grandes eventos. Que a História avança em sobressaltos, de batalha em revolução, de tratado em catástrofe. Os manuais de filosofia, porém, já nos ensinaram — e com razão — que o essencial raramente se veste de pompa. Assim se explica que, entre guerras no Médio Oriente e na Ucrânia, crises políticas e abalos financeiros, o evento deste fim-de-semana de maior relevância — para a pátria lusa e suas diásporas — seja, sem margem para dúvida metafísica, as eleições do Sport Lisboa e Benfica.

    Rezam as crónicas, e confirmam as estatísticas (que, como Deus, às vezes também jogam pelo Benfica), que se bateu o recorde de votos, e logo mundial, eleições num clube de, ou com, futebol. Acreditemos, porque isto é uma crónica – e não uma notícia. Estaremos assim um feito democrático digno da Ágora ateniense, se a Ágora tivesse ecrãs gigantes, cerveja sem álcool e a habitual romaria de camisolas vermelhas. Ou não tanto, porque aqui a democracia mede-se pela antiguidade: se eu tivesse votado – o que não fiz por preguiça de ir para a quilométrica fila indiana –, teria valido 50 votos, uma vez que este ano perfiz 25 anos de sócio.

    Dir-me-ão que exagero na Ágora ateniense. E eu responderei com a serenidade dos cronistas que observam o mundo do alto da varanda — e da Luz. Quando 83 mil almas atravessam a cidade para sufragar um presidente de clube, é porque a política morreu e a paixão tomou o poder. A polis, no seu estado puro, já não se reúne em parlamento, mas em estádio.

    Em todo o caso, para os adeptos benfiquistas, o evento do dia acabou por ser a inesperada conjugação dos astros: um jogo descansado, com ritmo, uma mão-cheia de gotos e um hat-trick de Pavlidi. A multidão vibrou, os telemóveis filmaram, as redes sociais inflamaram-se. Não foi ainda o 15 a zero sempre pedido pelo Ricardo Araújo Pereira, mas há muito não se viam, tantos golos desta varanda. No fundo, foi a versão moderna do milagre das rosas: o público pediu um golo, e vieram cinco. Não há mística maior.

    Para o árbitro Hélder Carvalho, a relevância do evento foi outra: a existência do VAR, que teve o condão de o livrar do odioso de não marcar dois penáltis em menos de um quarto de hora (aos 5 e aos 18 minutos de jogo) tão claros como a luz que dá nome ao estádio. A tecnologia, que noutros campos ameaça a humanidade, aqui redimiu os seus pecados. O árbitro viu-se absolvido pela máquina. Santo VAR, rogai por vós!

    Já para o meu amigo Lourenço Cazarré, escritor do Rio Grande do Sul, vivente em Brasília e observador da alma humana, a tarde foi de deslumbramento etnográfico. Vindo do Brasil, onde o futebol é religião politeísta, encontrou no Estádio da Luz uma liturgia diferente: menos samba, mais coreografia; menos improviso, mais espetáculo.

    Disse-me ele — ou estarei já a inventar — que o futebol português é o único teatro em que o público paga para sofrer, e agradece quando sofre menos. Lá o levei, pois, entre bifanas, coiratos e cervejas – esta parte é mentira – , a ver a águia Vitória, majestosa, sobrevoar o estádio. E o homem, habituado a pássaros tropicais, emocionou-se: “Isto é civilização, Pedro. Um país que ensina uma águia a cumprir o hino é um país que ainda acredita em símbolos.”

    Enfim, também aqui estou a ficcionar – mas ficaria sempre bem ele ter dito isso. Na verdade, ele viu o jogo na bancada central, um pouco mais abaixo Da Varanda da Luz, para onde levei o seu premiado livro ‘Breve memória de Simeão Boa Morte e Outros Contos Poéticos’, com o qual venceu justamente o Prémio Imprensa Nacional Ferreira de Castro.

    Para mim, confesso, o evento foi especial por simplicidade. Não sou dado a epifanias, mas há momentos em que um cronista, cansado de descrer, reencontra a simplicidade do espanto. Ora, para este jogo, cheguei cedo — anormalmente cedo, que é como quem diz sem o habitual atraso filosófico — e consegui assistir àquilo que há muito me escapava: o voo completo da Vitória. Um círculo perfeito sobre o estádio, o bater lento das asas, o mergulho gracioso até ao emblema. Nenhum drone, por mais caro, conseguiria tamanha elegância.

    Depois veio o espectáculo de luzes — porque até os deuses modernos precisam de LEDs —, e finalmente, pasme-se, vi todos os golos. Nenhum à distância, nenhum repetido em ecrã. Todos ali, em carne, relva e suor. Acontecimento raro, e portanto memorável – basta confirmar nas minhas múltiplas crónicas mais recentes.

    Mas a relevância dos eventos, aprendi, não se mede pela sua magnitude exterior. Mede-se pela coincidência feliz entre o tempo, o olhar e a alma. Um jogo de futebol pode ser banal para quem apenas lê o resultado – e este foi –, mas para quem o viveu, pode ser a pequena eternidade de um sábado à noite. Enquanto a multidão gritava, eu pensei no filósofo Heraclito: “Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio.” Pois também ninguém vê duas vezes o mesmo jogo, ainda mais um 5-0 — nem mesmo quando o adversário é o Arouca.

    E contudo, há em tudo isto uma moral discreta, que se impõe ao cronista com a força da evidência: a vida é uma sucessão de eventos de que só percebemos a importância quando já passaram. Assim como a águia que voa e volta ao seu posto, também nós giramos em torno dos nossos rituais, convencidos de que controlamos o tempo, quando apenas o acompanhamos.

    Enfim, a relevância de um evento não está na sua escala, mas no seu significado. Para uns, um jogo; para outros, uma eleição; para mim, a certeza de que, por uma vez, nada falhou — nem o VAR, nem a águia, nem o relógio. Vi tudo os golos de uma vitória – e isso basta-me.

    E, se querem que vos diga, talvez seja essa a suprema ironia da vida moderna: precisamos de um estádio cheio para perceber que o que realmente importa é chegar a horas. Chegar a tempo de ver a águia voar, o primeiro golo entrar, e o amigo Cazarré satisfeito. Tudo o resto — as eleições, os recordes, os comunicados — são apenas VARs existenciais: correcções tardias de decisões já tomadas.

    Moral da história: a relevância de um evento não depende do mundo o reconhecer, mas de nós o termos vivido antes que passasse o prolongamento. E, já agora, se puder ser com cinco golos e sem penáltis por marcar, tanto melhor.

    Ou, de forma mais prosaica, talvez seja essa a verdadeira lição deste Da Varanda da Luz, onde cada vez se fala menos de futebol: que a felicidade raramente se programa, apenas acontece — no instante exacto em que o cronista levanta o olhar e percebe que, por uma vez, o mundo inteiro está em ordem: a bola entra, a águia pousa, o estádio vibra, e a crónica escreve-se (quase) sozinha.

  • Uma despedida que tardava: parte 1

    Uma despedida que tardava: parte 1


    Outrora esta coluna ergueu-se, muito brevemente, de forma esburacada e sob cerco, com o título Arquitectura do Silêncio.

    Ia ser assim, por ser coisa também antiga no meu caminho, mas fomos advertidos que a frase já estava reivindicada por quem de mais direito, e pronta e humildemente corrigi-a. Era, de qualquer modo, apenas uma dissertaçãozita, daquelas de Bolonha, como a massa, encheu.

    Podia ter sido sobre arquitectura prisional, campos de concentração, campos de refugiados, arquitectura forense, urbanismo reduzido a cinzas (o pó da demolição), mas era sobre um mosteiro. O mosteiro de S. João d’Arga, em Caminha, só porque o avistei ao serpentear a estrada acima dele e, de imediato, me apaixonei. Coisas de amores silenciosos, que são irracionais e, porquanto o são, para animal da minha estirpe propensa a chiliques e anseios, houve certa pressa em passar os dois anos seguintes a fundamentar furiosamente o porquê desse amor, sem nunca falar de amor, não fosse eu ser acusada de histeria.

    Mas também e então, sobre o que podia e não pôde, porque deverão amor ou silêncio ser adjectivados? Deverá o silêncio ser bom, expectante, pensativo, sereno, cúmplice, conivente, calculista, estratégico, culpado, ou mau? Será vitimizado? Será abusivo? Será um tratamento, uma agressão, ou respeito?

    E deverão também ser as vozes tão altas, seja em harmonia de coro perfeitamente sincronizado, ou troadas desafinadas de quem berra mais que o seu vizinho? Haverá ego, em tudo isto? Estar activo e activista é uma profissão que consome quem canta, uma selva canora que enrouquece a alma até que não se ouça a si própria, pés de megafone, roufenha.

    (Mas, na falta de música, até o rádio de bolso que rugia, preto, metálico, o fio fraco de som que tentava entrar pela antena que magicamente esticava e encolhia, era mel, mesmo na altura do silêncio da infância.)

    Estranho mundo que temos vivido, tão urgente se tornou que façamos parte da partitura, e, ao mesmo tempo, tão terrível se questionamos os maestros, tão terrível se paramos de cantar. De vírus a inoculações, de máscaras a invasões, de ideologias a eleições — que nem nossas são —, de sofrimentos que só ecoam na caverna retroiluminada. Mas não queimam a pele, não sugam o estômago até à cavidade, não nos paralisam a segurar uma criança assassinada, não nos entorpecem o olhar vítreo na explosão (o som), no pó (a cor), no cheiro de morte que não entra em casa e, mesmo assim, está a esgaçar laços entre amigos e irmãos, de tão gordo e enorme que é quando entra pelas narinas, que até imaginado se torna intolerável.

    Estranho mundo em que, em cada um destes momentos, desatam todos a rabear, a correr para o seu cantinho, a ver o que o seu cantinho lhes diz, a pegar na bandeira ou, se preferirem (ninguém prefere), a ficar no triste limbo de descobrir que o que sentem nos ossos não lhes permite continuar naquele sítio, naquele cantinho, porque a turma disse que não.

    Mas para quê continuar críptica e hesitante na censura que vivemos? Passei sete anos em tratamento de silêncio, passei uma vida a respirar baixinho.

    A gestão sanitária foi um teste de autoridade às massas democráticas ocidentais. E falhámos. As inoculações foram um descarado aproveitamento do pânico para lucro de mafiosos. E deixámos. Os cavalos de batalha ideológicos das sereias de esquerda dão uma tirania espampanante que alavanca a ascensão da tirania boçal de homúnculos de direita. E escolhemos. A Rússia invadiu a Ucrânia, porque a Ucrânia devorava o seu próprio leste a favor do pôr do sol. E pusemos.

    E agora, e sem saber se, mesmo agora, é o final desta saga interminável, o mundo vê o eléctrico a dirigir-se a uma bifurcação e, sem travões, e sem ajuda, supostamente havendo uma última possibilidade decisora para quem observa a cena (porque quem conduz nos conduz a essa quimera), dão-nos a alavanca que matará muitos ou matará poucos, num golpe final de asa moral, que nos ascenda a todos ao paraíso com o regozijo da soberba do samaritanismo.

    A Palestina é o desgraçado sacrifício amarrado nos carris, segundo o condutor do eléctrico (é um genocídio), poderemos ter de decidir, aqui mesmo a esta distância e com a alavanca na mão, se em silêncio permitimos o seu arrasamento, ou se em gritos clamamos por um exército global, das nações todas, que esse sim vai nos salvar a todos.

    Não acham?

    Não são os exércitos conhecidos por nos salvar a todos? Entram pelas nossas casas e não nos levam os filhos mas lavam-nos a roupa e até deixam o lixo no contentor à saída. Atiram beijos e cravos dos canos das armas, sorriem e não passam por cima da lentidão dos velhos e das crianças, com as suas disciplinas, e as suas botas, e os seus deveres, e as suas obediências, e o rasto da lama, da lama, da lama.

    E, vejam bem (que não há só gaivotas em terra), somos nós, o povo, o impotente povo, que novamente podemos clamar,

    Inoculem-nos!

    Fechem-nos!

    Protejam-nos!

    Defendam!

    Ataquem!

    Certamente em cada decisão seremos novamente ouvidos naquelas mesas, e assembleias, e cadeirinhas com espacinho para a canetinha e o caderninho, das pessoas pensantes e decisoras e representantes e activas e activistas que têm profissões.

    Certamente se um dia tivermos filhos em exércitos globais que o povo clamou que existissem e, por isso, é legítimo, elevado, superior a todos os outros, tanto que, certamente, será tão grande a honra e o privilégio de os receber em caixas já sem um sopro de ar no peito deles.

    Não acham?

    Mariana Santos Martins é arquitecta


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

  • A Arte de amar

    A Arte de amar


    MANIF DO AMOR I O meu Deus ex Machina é o Cupido de caracóis. O archeiro do Amor, de seta apontada a todos os pontos erógenos, que é como quem diz, ao coração de onde tudo pulsa. Nada como desferir um tiro de besta (um arco retesado) em cheio numa generosa reentrância ou ser engolido e mastigado com o vagar de quem sobe por um molusco aprazível, natureza viva e sã. Tudo consentido e sem ponta de abuso. Imaginemos, pois, um mundo de humanos e tudo o que mexe em cópulas doces ou mais intempestivas, em concílio e devoção de todos os envolvidos que serão todos até ao esgotamento das horas, coitos apenas interrompidos para comer maçãs bravo esmolfe e beber água de riachos e ribeiros onde não cai o mijo (vá, e dar um mergulho para remover os odores numa enseada amena). Todos de lombos nus derramados em solo fértil à luz do sol manso e tépido, ora derreados pela interminável dança dos ventres, ora rejuvenescidos por simbioses de riso e ocitoxinas. Alguém se lembraria de agarrar na G3 ou na ponta e mola, no canhão ou cerrar o punho da ideologia? Façamos uma ode aos gritos de prazer. Sem o empecilho da luxúria e do desempenho. Façai eco contra as desgraças. E se não puderes levantar o membro, ponde o dedo no cu.

    Nota: isto é para levar quase a sério. Ninguém é forçado a aderir e orgulhosamente sós também resulta.

    MEDICINA I Quando as crianças brincam aos índios e cóbois ou aos polícias e ladrões, melhor seria que os pais lhes dissessem para brincar aos médicos e enfermeiros. O mundo precisa é de curativos, de Avicenas e Gandhis, de paz e prosperidade e harmonia, de entendimento da diversidade, não de dicotomias e narrativas extremadas. És um ingénuo, um romântico, um idealista. Pois então que seja. Se brincar aos índios e cóbois faço de Touro Sentado ou de Gerónimo. Se for aos polícias e ladrões visto o fato de Pancho Villa. Ah, não. Esperem. Esse foi um guerreiro. Faço de Jesse James ou John Dillinger, ou de Robin dos Bosques. O Ernesto foi um assassino movido pelo ardor da paixão antimperialista, porém, fez o mesmo caminho de Aquiles. E o Nixon ou o bom Bush Jr, foram o quê, a não ser defensores do modelo de virtudes americano? Por essa ordem de ideias o Viriato, esse grande guerrilheiro que fez a vida negra aos justos romanos exterminadores de etnias e culturas, foi um terrorista inimigo da Pax Romana. Guerra e Paz, andamos nisto, dificilmente sairemos disto, enquanto houver quatro pés à face da terra e muita estupidez e ignorância. Basta uma acendalha, uma chispa, um insulto, para atear o fogo da emoção. Basta uma crítica depreciativa, um comentário atirado da tresloucada leitura apressada, para criar um novo inimigo. O bloqueio é o equivalente à declaração de guerra.

    Posto isto, não significa baixar os braços ou alinhar por um rebanho em fúria. Um partido, um clube ou uma seita.

    Se nos matarem ou violarem e torturarem um filho ou ente querido, o mais natural é respondermos na mesma moeda. É a condição humana.

    TRINCHEIRAS I Os animais fazem tocas para se esconderem dos predadores. Os animais humanos cavam trincheiras. Armam-se, ferram o dente, disparam, matam sem ser por meras contingências da alimentação. Há gente má como as cobras. Mas também há gente do Bem, digamos assim. Ou seja, seres humanos. Capazes de sair do seu ego e das suas palas até para escutar o suposto inimigo. Não se trata de ter pobrezinhos de estimação para ornar como aves de gaiola. Trata-se de ir à raiz ou raízes do mal que aflige. Há quem faça da escrita um laboratório para o Mal (a vingança), como outros escrevem alimentados pela esperança.

    P.S. um palavrão bem metido sabe bem, tal como há limites para a tolerância. Agora, não se alcança a paz a fomentar a guerra.

    MOBILIZAÇÃO I Gostava de ver o nobre povo e a nação valente mobilizado para questões que matam na sua própria terra. A morte em vida é terrível. As nações também morrem. A falta de instrução e de educação espiritual, por exemplo, mata que eu sei lá, só com um dedo. Os baixos salários. A exploração do patronato. A corrupção endémica. Todo o tipo de abuso e injustiça, como o benefício que leva à exclusão. A mentira política e a desonestidade intelectual. A xenofobia e a misoginia e o feminismo esdrúxulo. A falta de saúde, sobretudo mental e do aparelho digestivo. A construção de um raciocínio sistemático (antes de dar ao dedo ou ao gatilho) com princípios, meios e um fim capaz de unificar. É claro que haverá sempre obstáculos, a começar pelas capacidades de cada um. As crenças são terríveis. Informação não é sabedoria. A mim, irão ter-me sempre do lado dos inocentes e das minorias, dos Davids. Há vítimas em todos os cantos do mundo. Eu vi.

    Nota: Os bravos Templários, as Ordens Militares Religiosas, eram movidos por altos ideais mas havia um inimigo a abater. O bastardo de Avis matou pelo seu próprio punho. Admito admiração por William Wallace ou José Doroteo Arango Arámbula, todos os que estão do lado dos sem terras. Foram necessários combatentes para repor a justiça. Exércitos de Soldados da Paz, é o que faz falta.

    FORMAS I As formas de levar bolos ao forno têm formas variadas. A variedade é salutar. Imagine-se Lisboa plana e sem colinas, toda igual de habitação e salário, elevado já agora. Lá se ia pelo cano o negócio dos tuks e as sociedades de investimento. Os gostos discutem-se. Discutir não é berrar ou acabar tudo à porrada, de naifa entre as costelas ou tiro nos miolos.
    Vou dizer o seguinte à vossa sana consideração: posso gostar de escritores Israelenses como o falecido Meier Shalev ou um compositor judeu? Um Espinosa, uns Camondo, um Simão Sólis? Tal como apreciar um Ibn-Arabi, um Tagore, um Ali, um Gore Vidal, Norman Mailer, Truman Capote, Henry Miller, um zé não sei das quantas que dorme na Figueira porque veio aqui parar iludido com os euros europeus e precisa mas é de ajuda? O jornalismo ensinou-me a escutar ambas as partes e as terceiras. É tão radical quem está à esquerda ou à direita. A virtude do centro (não comercial) é a de quem calça os sapatos dos outros. Quando cito Emma Goldman ou Etienne de la Boétie, Montaigne ou Nestor Makhno, elejo quem considero virtuoso na defesa da individualidade, vulgo, Liberdade de pensar e agir. Alguns recorreram às armas para lutar pelo seu ideal. Se nos invadirem, atacarem, tentarem submeter, é justo. Ainda não descobri nenhum mais avisado do que o acrata teósofo Jiddu Krishnamurti.

    Lede esta frase.

    “A vida exige acção extraordinária, criadora, revolucionária. Só no despertar dessa inteligência criadora há possibilidade de se viver num mundo pacífico e feliz”.

    É o meu santo e senha de todos os dias, enquanto faço pela Vida.

    ESPERANÇA DE VIDA I Se tudo correr bem, daqui a 40 anos e picos ainda estaremos por cá a contar a História. Uns talvez partam em breve, ainda jovens ou já carcomidos. Quem sabe o dia do adeus, a não ser os suicidas? Os portugueses são peritos no suicídio. Unamuno dixit. Cada um de vós, tal como eu, tem uma ou duas estórias para contar, façanhuda ou cabotina, de maldade ou bondade. O somatório é a História da Humanidade. Há muito de desumano nessa História. É a selecção natural, dirão os cínicos e os clínicos. Se formos a ver bem, o que leva ao extermínio de uns e outros é a mania da superioridade. A reboque dessa mania vêm os deuses ou a fobia dos ateus profanos que odeiam os adoradores de templos. É como nos clubes de futebol ou hóquei. Também se mata por isso. Os tempos nunca foram pacíficos. Viver custa a todos, mais ou menos abonados pelas circunstâncias. O que fazer quando tudo arde?

    Em primeiro lugar ajudar e apoiar filhos e pais, além do amor conjugal se o houver. A família é muito importante. Seja lá onde for, abrir os braços ao estrangeiro e ao desconhecido que é o que somos todos em qualquer parte. Aprender línguas, ler os humanistas cujas obras e vidas se entrelaçaram. De todos os quadrantes e hemisférios para lograr a mundividência. Evitar a cegueira das paixões (políticas, religiosas e clubísticas), e também no domínio das relações conjugais. O ciúme e a inveja matam. Cooperar no lugar de competir. Aceitar a diferença e até os pólos opostos. Nem todos sabem o que fazem, ou mesmo o que fazer.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)

  • Em louvor dos bons exemplos

    Em louvor dos bons exemplos


    Tendo agarrado pelos cabelos a cabeça de Golias, que acabava de cortar com a sua própria espada, verdadeiramente mais pesada do que uma montanha, comecei a alimentar-me desse manjar raríssimo que é a glória.

    Carlo Coccioli

    MÉMOIRES DU ROI DAVID



    Tenho um filho lindo que é um verdadeiro marginal, fugido à Justiça sabe-se lá por onde. Não deixei de ser[L1] mãe dele, gosto imenso dele,[L2]  continuo a comover-me de cada vez que vejo aparecer no meu monitor a sua carinha linda de criança, mas vamos lá com calma – este menino já tem mais de trinta anos e não deixa de ser um verdadeiro marginal, fugido à justiça sabe-se lá por onde. Se voltasse a entrar em Portugal ia preso. Por isso sobrevive por aí, como todos os marginais, sem visto de residência nem autorização de trabalho. Faz biscates para o submundo e partilha quartos com as outras pessoas que o povoam. Eu nunca sei onde, nem quero saber. O que vou sabendo, porque são truques que ele não para de magicar, são os seus planos para ficar livre, sobretudo aqueles em que a minha ajuda é importante. Este último era um desses. O meu filho lindo estava tão entusiasmado com a possibilidade de juntarmos as nossas forças para o libertarmos do estigma de viver escondido para sempre que me deu cabo do coração.


    Já tinha raiado o sol de um dia que viria certamente a ser muito quente, porque estávamos à época em pleno Verão. O Sebastião sai às seis para a sua volta matinal pelas padarias e tascos[1] de Estremoz onde o pessoal há muito que cede ao seu charme e lhe dá qualquer coisa bastante melhor do que a ração. Eu ponho-me minimamente visível para sair um bocado depois, tomar um café, dar dois dedos de conversa, tomar outro café e finalmente acordar mesmo, às vezes comprar uma coisa ou duas para trazer para casa, por isso hão de ser aí umas sete horas, e ainda sopra o ventinho fresco da manhã, quando descarrego a minha carga na mesa da cozinha e oiço tocar a chamada do Messenger.

    O meu marginal está sentado numa estação de metro, enfiado numa das suas habituais hoodies escuras muito largas, com a mão cheia de tatuagens a segurar um resto de pizza que deve ser o fim do seu pequeno-almoço, num dia que se entrevê cheio de nuvens, debaixo de um relógio que indica precisamente uma hora a mais do que a nossa. Faz-me o seu sorriso lindo assim que me vê, mas já não diz “então kota?”, como dizia sempre antes de fazer a grandessíssima parvoíce que agora o impede de voltar para casa ou de se gozar dos privilégios da União Europeia. Agora diz, com grande dignidade, “olá mãe”. Houve muita coisa que mudou no comportamento dele. Talvez já tenha passado tempo que chegue para o meu menino perceber que foi muito, muito estúpido[2].

    Isto pensava eu, só de ouvir aquele “olá mãe” tão sério e sóbrio, poderíamos mesmo dizer – tão adulto.

    Mãe,” continua o meu menino, que, entretanto, já engoliu o resto da pizza e acabou de chupar um refrigerante qualquer de uma palhinha e deitou tudo não sei para onde e se sente mais livre para se animar. “Mãe, fiquei a saber que ainda posso fazer uma coisa para ficar livre… mas mãe, eu precisava da tua ajuda.

    Da minha ajuda, filho?

    Pois, mãe, não conheço mais ninguém que possa ajudar-me.

    Meu querido, eu já te disse que te amo muito, mas que, depois da última parvoíce que fizeste, escusavas de voltar a tentar contar com a minha ajuda. E não te atrevas a tentar pedir ajuda ao teu pai porque…

    Ele já fez zapping.

    Mas mãe, eu ia defender-me sozinho. Só que esta defesa só funciona se tiver muita cobertura dos jornalistas, e quem conhece os jornalistas és tu.

    Queres um salvo-conduto para vires a Portugal contar uma versão falsa da tua história a um bando de jornalistas, como se isso fosse possível, e como se achasses que a mãe te ajudava numa coisa dessas?

    Não, mãe, eu vou contar a verdade. Mas, mesmo tendo cometido erros…

    Erros? Filho, tu cometeste um erro monumental quando estavas quase a ser posto em liberdade e acabavam-se os erros todos, palerma!

    Está bem, mãe, mas foi por amor[3]. E posso ser defendido em tribunal e ter uma pena já muito atenuada, desde que as pessoas estejam dispostas a ouvir-me. Não vou a Portugal, mãe. Posso ser julgado num país europeu que defenda os meus direitos de cidadão europeu. Eu agora estou em Inglaterra, mãe, e eles aqui têm esses tribunais e julgam casos desses, e portanto se os jornalistas portugueses prestassem atenção ao meu julgamento…

    Filho…Alguém te vendeu essa história e te pediu dinheiro em troca? Ou foste tu que inventaste isso tudo sozinho para a seguir pedires não-sei-o-quê ao teu pai?

    Não, mãe, é a sério. Há tribunais ingleses que fazem isto.

    E tu achas que a tua mãe ia convencer todos os jornalistas portugueses que conhece a voarem para Inglaterra por causa de um malandro que fugiu da prisão?”

    “Ó mãe não foi bem isso.”

    “Porreiro, filho, combina com o teu advogado inglês como é que vão chamar ao que tu fizeste. Eu entretanto vou falar com alguns amigos jornalistas para ver se percebo melhor que raio de história é essa dos tribunais europeus que deliberam à luz de direitos europeus de que eu nunca ouvi falar.

    O miúdo percebeu que era melhor não dizer mais nada, e já estava em pé.

    Tenho de apanhar o metro, mãe.

    Adeus, querido.”

    O que se seguiu foi inacreditável[4], e claro que já não precisei de falar com ninguém.

    Quando desliguei do meu marginal passava das sete e meia, fui tomar mais um café, arrumei na cozinha o que trouxe da rua e o que estava ainda em caos desde a noite anterior, tomei duche, e depois, por mero hábito, sentei-me a ver as notícias das oito.

    Foi nesse dia que o Engenheiro Sócrates saiu todo arrogante[5] de dentro do Tribunal para dizer a uma multidão de jornalistas, microfones, e câmaras de televisão, que todo aquele processo era, de qualquer maneira, absolutamente irrelevante, pois que ele tencionava recorrer da forma como fora tratado durante todos estes anos para um tribunal da Europa alheio à União Europeia, mais precisamente em Inglaterra, invocando os seus direitos enquanto cidadão da Europa. E esse processo entraria em marcha assim que considerado necessário. Que eu saiba, esta foi a primeira refutação absurda que o primeiro grande governante corrupto da nossa democracia apresentou logo no início do seu julgamento, e eu nem queria acreditar.

    Mas será que os marginais, de antípoda a antípoda, estão todos a seguir os males do mundo agarrados aos seus Smart Phones topo da gama[6], o que fez com que qualquer fora-da-lei da Austrália acordasse o meu filho a meio da noite com a grande notícia dos tribunais europeus que ilibavam os bandidos à luz das leis europeias? Basta acreditar que esta rede existe para o mundo ficar ainda um bocadinho mais horrível. E o meu filho acreditou na conversa com a mesma seriedade com que começou por experimentou começar por dizer-me que fez a sua incrível estupidez “por amor” antes de ver a minha raiva, que é uma coisa que ele não está habituado a ver.

    O meu querido marginal tem lá dentro um ladrão formidável que aos treze anos já sabia desmontar fechaduras de alta segurança, entrar pela janela aberta de um terceiro andar, e executar outras proezas afins; mas, tirando isso, sempre foi de uma ingenuidade assustadora. Aos vinte anos acreditava mesmo que no futuro seria o Rei dos Bandidos, impossível de prender por estar no topo de uma pirâmide em que presos iam os outros, todos aqueles que lhe obedeciam e o protegiam à custa do seu próprio coiro.

    Da última vez que o vi em pessoa estava a pedir-me a chave da casa para me fazer um jantar especial, dado que era o primeiro dia do meu novo emprego e eu ia chegar muito tarde e muito cansada. Acho que lha passei para a mão porque às sete da manhã já estava cansadíssima e atrasadíssima e houve ali um minuto em que deixei de pensar e o tratei como se ele fosse uma pessoa normal.

    Ao princípio da tarde, sem qualquer espécie de embaraço, voltou a aparecer na rua e parou diante do meu prédio, num Volkswagen carocha descapotável e todo artilhado, obviamente roubado de propósito para a operação em vista, com a putéfia ao volante. Explicou aos vizinhos que ia ter com o irmão a Londres onde já estava à sua espera um bom emprego como segurança[7]. Assim sendo, ia vender todas as suas posses electrónicas, que não teriam qualquer utilidade em Inglaterra. Dito isto, e contando até com a ajuda bem-intencionada de alguns vizinhos que andavam por ali e nem hesitaram em ajudar o filho da Clarinha que todos eles conheciam perfeitamente, tratou de limpar tudo o que lá havia em casa – plasma gigante, o meu PC topo da gama cheio de trabalho original que no entanto estava escondido no meu quarto e o meu quarto estava trancado, aparelhagem, máquina Nespresso que na altura ainda era um verdadeiro investimento, enfim: não consigo lembrar-me da lista toda, mas lembro-me do ridículo de até o meu secador de cabelo, daqueles pequeninos, de viagem, ter ido na voragem. Só escapou a varinha mágica, porque estava dentro de uma gaveta e o meu ladrão nem se deve ter lembrado de que isso existia.

    Não está em causa se me partiu ou não o coração. Está em causa a ingenuidade do ladrão audacioso que dá uma golpada destas depois de uma longa acumulação de processos em tribunal, e acredita mesmo que não vai acontecer-lhe nada.

    O Engenheiro Sócrates também deve ter passado toda a sua governação de roubos e favores acreditando mesmo que não ia acontecer-lhe nada.

    Parte do que o meu filho levou era minha, de facto[8]. Mas a outra parte, na mesma medida, era do senhorio. Telefonei-lhe imediatamente, e ele veio imediatamente, e fez imediatamente o inventário de tudo o que faltava, tanto do que era dele como do que era meu e estava ao serviço da casa. Ouviu atentamente as descrições dos vizinhos que tinham visto o dito cujo carocha descapotável todo artilhado, e certamente roubado, com uma gaja feia como cornos ao volante, tomou nota das horas, raciocinando que alguém havia de apresentar queixa pelo roubo do carro e depois seria tudo uma questão de cruzar dados. Convidou-me para ir com ele à polícia formalizar a queixa, eu declinei porque o que podia fazer já tinha feito, mas alguns espontâneos que tinham visto ou mesmo ajudado no roubo por engano juntaram-se a ele, e lá foram todos para a sua Batalha da Alfarrobeira pessoal.

    Dada a quantidade de casas que aluga naquele bairro, e a enorme rotação de pessoas que habitam essas casas, o senhorio tem uma relação privilegiada com a polícia.

    Qualquer polícia gosta de protagonizar a conclusão inevitável de uma história tão bem contada, praticada por um indivíduo cujo nome consta em tantos processos.

    Na manhã seguinte, quando o meu ladrão foi com a putéfia vender os seus despojos da batalha ao Cash Converters, fez soar o alerta e já nem sequer conseguiu voltar a sair de lá de dentro.

    Ela fugiu com o carocha e deixou-o abandonado num baldio qualquer.

    Ele, depois de tudo baralhado e voltado a dar, apanhou uma pena não comutável de oito anos de prisão.

    Há já uma eternidade que eu lhe dizia que era isto mesmo que acabaria por acontecer ao Rei dos Bandidos.

    Não que esta justiça poética me faça feliz.

    Agora o meu Rei dos Bandidos, que pelos vistos ainda acredita no Pai Natal, inspira-se num Rei dos Bandidos de outra índole para tentar adquirir o direito a não passar mais tempo na prisão. Só que o Rei dos Bandidos também conhecido como O Único Primeiro-Ministro Português Que Foi Preso Até À Data pela prática de 31 crimes tem uma rede impressionante de facínoras a trabalhar para ele desde que assumiu as rédeas do seu primeiro governo absoluto em 2005.  E, pelos vistos, sobram-lhe a título de escudo humano suficientes restos dessa rede, ou porque entretanto também já foram presos e precisam de protecção, ou porque entretanto já se criaram também suspeitas contra eles e precisam de ajuda para não virem a ser presos. A verdade, meu filho, é que, ao todo, esta tropa-fandanga incluía 28 pessoas, com um total de 189 crimes distribuídos entre elas. E eram todas, todas, todas – autarcas, banqueiros, administradores de grandes empresas públicas ou privadas, estes membros da Rede Sócrates, que foram sendo presos um por um para estupefação crescente dos portugueses, eram todos, de facto, verdadeiros bandidos.

    Sabes, amor, a tua mãe às vezes interrogava-se. Por exemplo, via seis autoestradas, todas paralelas, rasgar de alto a baixo o Norte do país. O Norte do país não precisa de seis autoestradas paralelas. O lobby do betão tinha pago a alguém, mas a quem? Pela rapidez com que aquilo aconteceu, até parecia que tinham pago directamente ao Primeiro Ministro. Ainda por cima, ele tinha antecedentes. Os jornais já tinham exposto a ligação da sua família à construção do FREEPORT[9] em plena zona protegida do estuário do Tejo. Claro que ele disse que eram só calúnias. Tinha a seu favor ainda ser cedo no primeiro mandato. Eu, pelo menos, não gosto de pensar mal de ninguém. E devem ter existido, nessa altura, milhares e milhares de outros portugueses como eu.

    Mas depois via o Primeiro-Ministro a passar férias com os filhos e com a namorada, o que ao todo faz quatro pessoas, durante quinze dias na Quinta do Lago. E pensava, mas que estranho, a Quinta do Lago é um dos resorts mais caros e exclusivos de todo o Algarve, onde é que ele vai buscar o dinheiro? É que os primeiros-ministros, enquanto estão nessas funções, não podem ser mais do que empregados do Estado ao serviço do Estado. E um funcionário público que é primeiro-ministro pode ser mais bem pago do que outro que é médico num Centro de Saúde, mas não é propriamente tão bem pago que possa assim instalar-se à vontadinha durante quinze dias na Quinta do Lago, sempre a frequentar restaurantes e outros locais a pagantes conforme constava das fotos que iam aparecendo nos jornais.

    E dava ideia de que os seus rendimentos eram cada vez maiores, porque os seus comportamentos eram cada vez mais dignos do parolo a quem saiu o euromilhões. Ao fim de três anos do seu segundo governo, já em plena “gestão da crise”, quando o pessoal cada vez tinha menos dinheiro mas não conseguia perceber nem como nem porquê, nem os bancos nos davam grandes explicações[10], o Engenheiro Sócrates convocou a Troika para gerir as finanças portuguesas, invocou a sua eterna cláusula de estarem todos a faltar-lhe ao respeito, e apresentou a demissão. Logo a seguir fez o que disse ser o seu dever fazer para não deixar o povo português entregue às más línguas: partiu para Paris, onde foi fazer um Mestrado em Engenharia na Sorbonne.

    Estas más-línguas nem sequer eram assim muito más. Foram antes um murmúrio de estupefacção quando se soube de onde vinha o título de engenheiro de José Sócrates: tirara-o numa universidade privada sem historial de cursos de engenharia, com aulas dadas aos domingos propositadamente para si, e créditos baseados sobretudo no seu trabalho político, incluindo a introdução no país dos carros eléctricos, que ainda estava em curso aquando desta investigação. Mas bom, vá: já que os grandes intelectuais portugueses tinham suspeitado gravemente das suas credenciais, ele agora ia mostrar a todo o seu país o que valia com um Mestrado tirado numa das melhores universidades da Europa.

    Tudo bem, mas – uma vez mais, tudo aquilo era muito estranho. A Sorbonne aceitava sem hesitações um candidato com aquela licenciatura duvidosa, vinda de um candidato que nunca ninguém ouviu falar francês e cujo inglês, até, era medíocre? Tinha dinheiro para viver calmamente numa cidade tão cara como Paris, e ainda por cima naquele apartamento de luxo num bairro de luxo?

    Eu acho que não fui só eu. Acho que foram todos os portugueses que, a partir daí, descreram cada vez mais da honestidade daquele indivíduo, que ainda por cima depois disso nem pareceu estar a estudar nem se mostrou muito dado a por os pés em Portugal.

    O primeiro-ministro sem vergonha em quem tu te inspiraste para seres ouvido num “tribunal europeu” foi preso no Aeroporto da Portela quando regressava de Paris, a 21 de Novembro de 2014. Juntamente com ele, começaram logo a ser presos os outros suspeitos que lhe eram mais chegados. A situação foi-se revelando de tal forma séria que, mesmo quando foi libertado, a 16 de Outubro de 2015, ficou proibido de voltar a falar com todos os outros arguidos no processo, que não paravam de crescer em número.

    Os portugueses nem sabiam o que é que haviam de pensar.

    Em Maio de 2018, quando o Engenheiro abandonou o Partido Socialista, os portugueses sentiram-se ainda mais incomodados.

    E aqui aparece o último personagem sem vergonha que se descobre ter entrado em conluio com o Engenheiro, quando ele já ia nesse seu tal segundo mandato e estava a ver toda a Europa social-democrata à sua volta a caminhar lentamente para o desastre financeiro – e não devia ser nada disso que queria para a sua vida pessoal.

    Este novo amigo secreto era o banqueiro Ricardo Salgado, director do antigo Banco Espírito Santo, que ensinava carinhosamente aos colegas mais novos que é importante ter sempre um Xanax no bolso de dentro do casaco, para ir rapidamente dar-lhe uso à casa de banho em caso de crise de pânico durante as reuniões mais difíceis[11]. Os outros banqueiros chamavam-lhe o DDT[12].

    Ora bem, a certa altura, por volta desse ano fatídico de 2014, este Ricardo Salgado transferiu quase dois mil milhões de euros para contas em nome da mulher e dos filhos. Cinco meses mais tarde, declarou o colapso financeiro do seu próprio banco. Isto devorou, logo ali, num segundo, todos os investimentos, grandes e pequenos, que dois mil portugueses tinham feito ao longo da vida. Estas pessoas tornadas subitamente pobres, que agora tinham apenas um rótulo taxonómico digno de uma tabela de Excel, passaram a chamar-se “os lesados do BES” e tem sido impossível recompensá-las até hoje. Só à sua conta, Ricardo Salgado fizera entretanto desaparecer duzentos mil euros num offshore de Singapura onde o Governo português não tem maneira de chegar. Depois foi proibido de sair do país e começou a ser visto em grandes passeios ali pelo Estoril na companhia dos seus dois guarda-costas, que se não eram agentes da MOSSAD imitavam muito bem.

    Finalmente, em Janeiro de 2017, também este indivíduo simpático foi condenado no mesmo processo que envolvia o Engenheiro José Sócrates[13]. E, em Março, foi também condenado o administrador da Quinta do Lago, pelo que ao menos ficámos a saber de onde é que vinham aquelas férias em família de bizarro luxo.

    Os portugueses, que pensavam que já tinham visto tudo, e que tinham tudo isto subtraído das suas contas bancárias, nem queriam acreditar na porcaria do filme que estavam a obrigá-los a ver.

    Querido filho, se por acaso estiveres mesmo a ler isto, como a mãe te pediu, lembra-te por favor de uma coisa: o ex-primeiro-ministro que está a ser julgado e se saiu com essa conversa do “tribunal europeu” em Inglaterra é tão desavergonhado que consegue mentir mais vezes seguidas do que tu. Tu podes ter feito muito mal à tua mãe, bastante mal ao teu pai, e, agora para o fim, um mal a que eu chamaria imperdoável ao teu irmão mais velho. Mas aquele senhor conseguiu fazer muito pior, porque fez mal a todos os portugueses. Fez-lhes o pior mal que se pode fazer a um povo: tirou-lhe o chão de debaixo dos pés.

    Esquece o gajo, que ele não podia ser mais tóxico.

    Eu ainda me lembro de Portugal ser uma nação feliz, onde nós tínhamos de ser fortes e resilientes e segurar a barra das nossas próprias ideias quando as levávamos para o trabalho ou para a educação dos nossos filhos, mas desde que a segurássemos com força conseguíamos todos ter vidas bonitas, com amigos porreiros iguais a nós que eram pais de filhos da idade dos nossos, e seguir viagem com alegria porque essas viagens eram possíveis desde que lhes planeássemos bem os custos à partida. Portugal nunca foi um país de ricos, mas era um país onde as pessoas da classe média como nós podiam encher os carrinhos dos supermercados até eles ficarem a deitar por fora, mandar entregar aquilo tudo em casa sem pensar mais do assunto, e sair logo dali rumo a qualquer outra coisa mais interessante porque nessa altura, nesse tempo, havia imensas coisas interessantes e era possível viver assim. Se isso agora se tornou tudo tão inacessível que já nem pensamos em fazê-lo com os nossos netos, hás de ter ouvido dizer muitas coisas sobre de quem foi a culpa. Foi do Euro. Foi da União Europeia. Foi do Passos Coelho. Foi da Troika.

    Não, meu amor. A culpa foi deste senhor em quem tu te inspiras para tentar apagar as faltas do teu passado,

    Sabes, filho, por alguma razão este senhor que te deu o exemplo há de ter passado 288 dias de prisão preventiva em Évora, e depois mais 42 dias de prisão domiciliária. Passada a fase do “Tribunal Europeu”, a sua estratégia é tão repetitiva que já toda a gente a percebeu e já absolutamente ninguém lhe liga: vai para os julgamentos empatar, empatar, empatar, à espera que a maioria dos seus processos prescrevam.

    O mal que ele fez aos portugueses, tornando-os tristes e cansados, tão paralisados pela falta de fundos que ainda conseguem juntar-se para beber uns copos mas já não viajam juntos nem sonham acordados, incapazes de acreditar nos políticos e na política, e por regra mais absentistas do que outra coisa – esse mal, infelizmente, não é passível de prescrever. Foi com este senhor que dez milhões de nós perceberam, com sincero horror, que um primeiro-ministro pode ser uma ave de rapina voraz, que todos os dias abate mais uma presa para seu proveito próprio e de mais ninguém. Isto, e mais tudo o que se seguiu como se a culpa fosse nossa – ah, meu filho, isto quebra mesmo a espinha às pessoas, e se ainda não lhes roubou tudo agora rouba-lhes o orgulho. E tu podes andar por aí a vida inteira a roubar aquelas cenas que tu sabes roubar tão bem que nunca haverá forma de chegares a Rei dos Bandidos – nem fora nem dentro da prisão, como viste.

    Um beijo de muita saudade,

    da Mãe.

    Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora



    [1] E mesmo casas de pessoas que se levantam cedo e apreciam os olhos meigos da sua visita feliz. É um total desavergonhado, o meu cão.

    [2] Não podia mesmo ter sido mais estupidamente cretino. A sorte dele foi eu não poder esbofeteá-lo. Ao fim de seis anos, quando basicamente estava quase a cumprir os oito anos estipulados pelo Tribunal e muitíssimo bem merecidos, aproveitou o seu primeiro fim de semana em liberdade para fugir da prisão “porque eu morro de saudades do meu amor, ó mãe”. Mentiu ao Pai para conseguir sacar-lhe os cobres ingénuos do costume, obrigou o irmão a acolhê-lo na sua casa perto de Londres onde já vivem o casal e quatro filhos, e o tio a dormir na sala e todo o dia a fumar ganzas e a ver filmes de porrada não é bom exemplo para ninguém, mas não era o irmão mais velho que ia denunciar fosse a quem fosse o que realmente se passava na vida do irmão mais novo, eu ainda não tinha conseguido falar com ele mas percebi logo a história toda graças ao Engenheiro Sócrates, e tive de ser o corvo enorme das más notícias. Ainda por cima há aqui uma chatice acrescida, que é que o meu rapaz marginal adora o Primeiro-Ministro Marginal, porque houve um dia dourado na sua vida, aos oito anos, em que todos nós menos o Dick corremos a meia-maratona de Lisboa, passámos sobre a Ponte 25 de Abril, o meu menino adorável e lindo, que tinha andado a treinar, fez um sprint de todo o tamanho e ultrapassou o Sócrates. Um dos Guarda-Costas até o pôs aos ombros, toda a gente lhe bateu palmas, e eu até escrevi uma crónica a dizer que democracia é quando um puto de oito anos ultrapassa um primeiro-ministro. Só mo vieram entregar à noite e ele estava nas nuvens. E não se fala mais nisso.

    [3] De certeza que ele viu a minha cara quando invocou o amor, porque deixou logo cair o argumento. A mulher a quem o meu filho chama o seu amor é uma putéfia feia como cornos, mas em contrapartida bastante sábia na arte da ladroagem, que tem o rapaz estranhamente hipnotizado há mais de dez anos.

    [4] Para mim, claro.

    [5] Passe a redundância.

    [6] A facilidade com que este rapaz deita as unhas aos melhores gadgets dos outros é digna do Flash e corta mesmo o fôlego. Há muito, muito tempo, teria ele uns doze anos e uma voz mais de criança do que de adulto, andava eu às voltas na Rotunda dos Três Pastorinhos a praguejar cada vez mais alto no meio do trânsito espesso do Natal. Tínhamos encontro marcado na aldeia dos nossos Avós, e eu queria ir lá ter pela estrada antiga, aquela por onde os nossos Avós nos levavam de férias para a Nazaré. Sabia que tinha de escolher ali mesmo uma daquelas imensas saídas, mas o mundo tinha mudado ferozmente desde a minha infância e eu não conseguia encontrar-lhe nem o rasto. De repente oiço aquela vozinha inconfundível lá de trás: “Ó Mãe, mas como é que se chama a nossa aldeia?” – “Então filho, chama-se Tremês, não é? Porquê?” – “É que o meu telemóvel tem GPS”. Pôs-nos no caminho certo num segundo, e eu achei melhor nunca lhe perguntar de onde é que vinha aquele Smart Phone com GPS, que na altura ainda era uma raridade. Não foi nenhum de nós que lho deu, e a semanada nunca chegaria para a aquisição de semelhante estravagância. Os putos estavam todos tão maravilhados por verem casas verdadeiras com pessoas verdadeiras, e até um cavalo estranho que eu tive de esclarecer que era uma mula e explicar como é que se obtinha e para quê, que deixei o ladrão de doze anos ter o seu momento de glória. O irmão mais velho também não é melhor, foi o que eu pensei para me calar. Ainda não estava refeita do desaparecimento do meu maravilhoso zipo dourado, e esse levou caminho numa altura em que o mais novo estava comigo em Tavira a participar numas filmagens para o Cunha Telles, em que lhe assistia o privilégio de chamar puta à Marisa Cruz, e depois levar um beijinho dela. Só o mais velho é que ficou em casa.

    [7] Era o emprego do irmão naquela altura.

    [8] Agora lembrei-me de outro farrapo igualmente ridículo, que foi a minha escova de dentes eléctrica já muito velhinha. Dada a penúria, passou-se bastante tempo até conseguir comprar outra.

    [9] Lembro-me muito bem do que os meus filhos gostavam de ir ao FREEPORT quando era preciso fazer compras por atacado, tipo meias e sapatos para o início do ano escolar naquelas idades em que eles não param de crescer e de rasgar as calças todas nos joelhos a jogar futebol no recreio. Decrépito como o outlet está agora, duvido que lhes parecesse muito apelativo. Em troca de uns cobres a família Sócrates terraplanou uma área vastíssima do estuário, e acabou por criar um elefante branco.

    [10] Era mais que nos incitavam a comprarmos a segunda casa sem termos ainda acabado de pagar a primeira. Parece que tinham combinado o golpe com o primeiro-ministro em pessoa.

    [11] As coisas que eu sei, estão a ver? E, na altura, ninguém sonhava, sequer, com o que este mestre seria capaz de fazer mais tarde.

    [12] Dono Disto Tudo era um epíteto negativo muito em voga entre a estudantada do esquerdalho durante os dias agitados do PREC. “E depois chega a gaja, a arrastar as botas, completamente DDT”, indicava que quem estava a falar detestava a dita gaja, que devia estar no poder de qualquer coisa, nem que fosse, simbolicamente, de um coro, ou de uma comissão de moradores. O termo pareceu extinguir-se com o tempo, para ser surpreendentemente reacendido pelos outros banqueiros quando inicialmente questionados sobre a seriedade de Ricardo Salgado. Não deixou de estar em uso desde então.

    [13] E pouco depois apresentou-se ao grande público com um caso crescente de doença de Alzheimer, igual àquela que a tua Avó teve, lembras-te? Aquela que te fez deslocar-me a omoplata porque podia ser Natal à vontade mas tu não ias visitá-la ao Hospital nem morto? São brutalidades destas que dão origem a ordens de restrição, eu é que me fiz de mula e olhei para o outro lado quando voltei da UMass porque tinha muitas saudades tuas. Agora, no caso no Ricardo Salgado, que estava dolorosamente mais decadente quando eu voltei, claro que aquele Alzheimer até pode ser uma mentira muito bem arquitectada, mas enfim, convenhamos: dá imenso jeito.

  • A caminho de lado nenhum

    A caminho de lado nenhum


    LIS BOA I Parte dos meus dias são passados nas ruas de Lisboa. Nas ruas cheira a mijo e cáca. As fachadas, se lhes passar o dedo, trarão uns gramas valentes de bedum. Os donos (as sociedades de investidores) estão nas Maldivas, a chupar berbigões de putas finas. Nas condutas de ar do Metro os párias dormem ao relento, esquálidos, macerados, cagados e a feder. Os turistas detêm o olhar por instantes. Seguem viagem. Um ou outro agarrado já é nosso conhecido e pede uma moedinha para a buxa. Passam as velhas e os aleijadinhos romenos com as latas de badalo a dar e dar. Os carteiristas reconhecem-se à distância. Arrecadam, entram e saem do xilindró. Deito-me num banco da praça a observar os pássaros nas acácias. Caem moedas do céu. É o Carlos, o edil. Veio ver.

    EVOLUÇÃO I Todos os dias faço o balanço (das ancas). Enquanto dou ao cóccix é inevitável pensar, nem que seja na morte da bezerra, um excelente objectivo da meditação. Penso rápido ou mais devagar. Escrevo uma frase ou outra, uma vez por outra. Uma expressão recorrente entre seres sencientes é “anda meio mundo a enganar outro meio”. Este axioma leva a seguir a máxima de Santo Agostinho de confiar, desconfiando. Como viver relações limpas? Quem me quer bem, eu sei porque sinto. Sinto, logo existo. Gostava e vou continuar a gostar à brava do Luís Fernando Veríssimo ou do Cervantes, do Beco das Pichas Murchas ou da rua Triste-Feia, como tantas. Gosto de todos os partidários do riso justo. O resto, os calhordas, os do rei na barriga, os sôfregos de chegar a todo o lado e a lado nenhum, é lá com eles. A não ser que me queiram governar. Aí saco da BIC.

    TENDÊNCIAS I Quem vota no Chega acha estar ali a solução para os seus problemas. Sucede o mesmo em qualquer escolha, de qualquer partido, ideologia ou clubite. É o preço da Democracia apática. Enquanto os candidatos a donos disto tudo esfregam as mãos por serem empoderados, os votantes e simpatizantes delegam a sua responsabilidade com servidão voluntária. Acatam os ataques à sua liberdade e esperam que alguém resolva o que lhes cabe solucionar. O direito à igualdade. Neste momento quem é senhorio, proprietário ou societário está feliz e contente por haver turistas e emigrados que paguem o preço do livre mercado. Querem lá saber se os bairros estão imundos e descaracterizados. Se quem governa, governa em favor do seu umbigo. Desde que não lhes faltem os pagamentos, ou os acossem com taxas e taxinhas. Posso dizer o mesmo dos atentados à livre circulação de veículos motorizados para fins de animação turística. Só com imaginação e persistência se consegue mostrar uma cidade autêntica. Uma autêntica farsa, um embuste, se não se denunciar o que se faz por aqui. Contar as verdades da História com todos os seus podres e glórias, bem como levar os interessados a ver o que resta, para além do luzeiro dos miradouros. Falar de quem fez pouco e esbulhou, para além do Bonaparte e do Maneta. Exortar os artistas e os combatentes que muito fizeram para que nunca se tivesse chegado aqui, a esta lástima.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)

    As ilustrações foram elaboradas com recurso a inteligência artificial.

  • Gil Vicente 2.1

    Gil Vicente 2.1


    Há quem me acuse, e com razão, de sofrer de um problema crónico de pontualidade. Admito-o sem resistência, embora com um pequeno pedido de contexto: eu, que tantas vezes chego tarde, nunca falho uma promessa. Se digo que vou, vou. E é aí que nasce o meu outro problema — o da assiduidade. Porque, sendo pontualmente atrasado, sou assiduamente presente. E, assim, como uma pescadinha de rabo na boca, lá vou eu: presente mas atrasado, assíduo mas em cima do apito. Só que, ultimamente, nem isso. A minha pontualidade, já de si vacilante, entrou em colapso existencial.

    A verdade é que, nesta época, o atraso ganhou corpo, fôlego e até uma certa dimensão metafísica. Tenho chegado tão tarde que já nunca assisto ao ritual aéreo da Glória — ou da Vitória, ou da Luz, já me baralho entre as águias — nem tão-pouco me cruzo com uma delas no elevador, como acontecia noutros tempos em que o atraso era ainda um luxo de minutos. Agora, é uma eternidade.

    Entre o excesso de trabalho, o excesso de jogos e a crónica pressa de quem quer fazer tudo e acaba por fazer quase nada a tempo, os meus atrasos tornaram-se sistemáticos. E esta época já são mais os golos do Benfica que perdi do que os que vi, sobretudo porque até tem havido golos iniciais, e depois minga tudo. Um número triste, quase estatístico.

    O caso mais doloroso foi, talvez, o jogo com o Qarabag. Um desastre desportivo – e para mim muito pior: não vi um único golo do Benfica. Quando finalmente subi as escadas e alcancei a bancada — aos 15 minutos —, já o marcador registava 2-0 a favor do Benfica. Depois, foi o que se viu — e eu vi. Um duplo (ou triplo) murro no estômago. Não há timing que resista a isto.

    Desde então, parece que o destino decidiu ensinar-me que, quanto mais corro para chegar a tempo, mais o tempo foge. Porque, desde essa partida, o que tenho visto é só desgraça, mesmo com o José Mourinho, mostrando que até eu arriscaria a não fazer pior.

    E assim sucedeu mais um atraso com o jogo do Gil Vicente – e mais uma desgraça, apesar da sorte de um resultado de 2-1 a favor do Benfica, muito lisonjeiro face ao desempenho. Tinha regressado do Porto na tarde anterior, exausto, depois de um julgamento tão bizarro que só a tragicomédia portuguesa o poderia engendrar. Ainda tive de passar por um concerto – menos mau, ou muitíssimo bom, para ser sincero.

    Esta sexta-feira, o corpo pedia repouso, a mente clamava por pausa, mas a agenda — essa entidade diabólica — já tinha decidido por mim. Enfim, os dias atropelam-se, as horas evaporam-se e o relógio parece conspirar. Há um momento, aliás, em que dou por mim a pensar — com um certo temor — que o trabalho mata. Mata o descanso, mata o tempo livre e, sobretudo, mata a capacidade de chegar antes do minuto quinze.

    Mas a pior parte nem foi essa. Ao chegar ao estádio, com mais de meia hora decorrida da primeira parte, e o resultado (sem eu o saber então) já feito (o Gil Vicente adiantou-se aos 11 minutos e o PAVlidis deu a reviravolta aos 18 e 26 minutos), soube que uma agência de comunicação — a JLMA — me boicotara uma cacha sobre a Impresa. Uma irritação monumental. O corpo cansado, a cabeça a latejar, o jogo correr e, ainda assim, havia notícia.

    Respirei fundo e decidi: havia matéria para se escrever — e nãopodia ficar para a amanhã. Afinal, a Impresa tinha de comunicar à CMVM as negociações com os italianos da MFE — os herdeiros de Berlusconi, antigo dono do AC Milan — por se tratar de informação privilegiada.

    Entre o som do público e o rumor de fundo das teclas, falei com a Elisabete e lá fomos redigindo o artigo, a meias — eu sentado na Varanda da Luz, com o portátil perto do famoso farnel do Benfica, metendo de vez em quando um olho no relvado, outro no ecrã, e um terceiro (imaginário) no relógio.

    E foram nesses instantes, no meio desta fusão absurda entre futebol jogado pessimamente, jornalismo e cansaço, que me veio à mente uma das frases mais sombrias da História da Humanidade: Arbeit macht frei — “O trabalho liberta.”

    A expressão, hoje impregnada de horror, nasceu num contexto muitíssimo menos macabro do que aquele que a imortalizou. Surgiu na Alemanha do século XIX, num tempo em que o trabalho começava a ser exaltado como instrumento de regeneração moral e de ascensão social.

    O lema foi popularizado pelo escritor Lorenz Diefenbach, num romance publicado em 1873, intitulado precisamente Arbeit macht frei: Erzählung von Lorenz Diefenbach. Nele, o autor apresentava o labor como antídoto contra o vício e a degradação, um caminho para a virtude — a ideia de que o esforço dignifica e redime. Adoptada por movimentos culturais e associações laborais, a expressão ganhou o estatuto de máxima edificante: uma versão germânica do “pelo trabalho se vence”.

    Foi, no entanto, essa mesma frase, esvaziada do seu sentido moral e apropriada pelo nazismo, que viria a adornar os portões de Auschwitz, Dachau e outros campos de concentração. Aí, transformou-se na mais cruel das ironias: aquilo que prometia dignidade passou a anunciar aniquilação. O trabalho já não libertava o espírito — esmagava o corpo; já não regenerava — exterminava. Tornou-se símbolo da perversão total da linguagem, prova de que até as palavras podem ser escravizadas.

    Essa metamorfose semântica — da virtude à infâmia — mostra como as palavras têm destino, e como um ideal moral pode ser capturado e deturpado por uma ideologia que faz da mentira o seu alicerce.

    Enfim, ali sentado na bancada, de portátil aberto e olhos divididos entre o relvado e a notícia sobre a Impresa, dei por mim — perante as contingências de mais um jogo deplorável, mesmo com Herr Mourinho nas redes — a cometer uma pequena heresia semântica: a paráfrase. Sim, arrisco dizê-lo — e que me perdoem os deuses da semântica e da História —, o trabalho liberta.

    Mas liberta-nos de quê? No meu caso, libertou-me de ver um jogo confrangedor. Libertou-me da angústia dos passes errados, dos cruzamentos para o nada, dos remates à figura e das expressões perdidas de quem já não sabe o que fazer à bola. Aliás, nem sequer vi em directo o jogo anulado ao Gil Vicente por seis centímetros – uma dimensão completamente obtusa como escrevi em tempos.

    Portanto, o trabalho libertou-me… de sofrer mais do que o necessário. Se não estivesse a escrever sobre a Impresa, teria sido tortura em directo. E assim, decidi que esta época vou passar a levar sempre um tema noticioso para a Varanda da Luz — um colete de salvação emocional. Se o Benfica tropeçar em campo, eu refugio-me no texto e poupo-me à agonia. Será a minha nova estratégia defensiva — mais eficaz do que qualquer lateral esquerdo improvisado.

    E se algum dia conseguir convencer os benfiquistas a seguir este método, trabalhando para se anestesiarem do que se passa no relvado, acredito que o PIB nacional vai subir em flecha, invertendo o mito de que a Economia portuguesa se expande quando o Benfica é campeão.

  • Rio Ave 1.1

    Rio Ave 1.1


    Há uma diferença subtil mas devastadora entre o desencanto e a desilusão. O desencanto é um abatimento da alma, uma espécie de resignação melancólica perante aquilo que já sabíamos, no íntimo, não poder ser muito diferente – é o fumo que se dissipa depois da chama, sem surpresa.

    A desilusão, pelo contrário, é mais cruel: exige que antes tenha havido uma ilusão, uma crença, uma esperança pintada com as cores da vitória, um engano a que nos entregámos de boa vontade. A desilusão é, pois, um duplo golpe: não só perdemos o que desejávamos, como ainda descobrimos que fomos ingénuos ao acreditar.

    No futebol, como na vida, raramente temos o luxo de escolher entre um e outro. Mas se pudesse escolher, preferiria o desencanto, porque é menos corrosivo: dói, mas não humilha. A desilusão, essa sim, traz consigo a vergonha íntima de termos acreditado demasiado cedo, de termos caído na armadilha do entusiasmo. E o Benfica, por estes dias, parece especializado em fabricar ilusões com validade curtíssima — como aquelas promoções de supermercado que enchem o saco por instantes e, quando chegamos a casa, percebemos que o que levámos não serve para a refeição que queríamos cozinhar.

    Foi mais ou menos isso o que se passou com a entrada de José Mourinho. À saída de Bruno Lage, a alma benfiquista respirou como quem larga um fardo. E ao ver chegar Mourinho, mesmo já sem a aura de ‘Special One’, ainda se acendeu a ilusão de que os pergaminhos de glórias passadas poderiam obrar uma reviravolta numa equipa de milhões. Acreditou-se — ou melhor, iludiu-se — que o nome por si só poderia impor disciplina, intensidade e génio, como se a simples presença fosse suficiente para pôr os jogadores a correr e a pensar como outrora.

    A vitória por 3-0 na Vila das Aves, contra o AVS, ainda que com mais eficácia do que futebol, funcionou como tónico ilusório. Afinal, as chicotadas psicológicas pareciam existir mesmo. Quem não se deixou embalar pela doce narrativa de que o problema estava resolvido, que o feitiço Mourinho começava a operar, que em breve voltaríamos a ver uma equipa competitiva? Pois bem: pura ilusão. E como toda a ilusão, cedo ou tarde, veio a fatura: a desilusão.

    Esta terça-feira esperava-se fogo, intensidade, soluções. Mas o que se viu foi cinza: novamente, uma equipa sem chama, repetindo erros, sem clareza de ideias. Os adeptos, mesmo na sua ingenuidade, foram mantendo-se iludidos. Eu incluído. “Ainda vem aí o raspanete ao intervalo”, pensei, como se Mourinho fosse capaz, em dez ou quinze minutos de palavras, de converter o chumbo em ouro.

    Nada disso. Mesma lógica, mesmo arrastamento, até que um golo fortuito pareceu cair do céu. Mas a suspeita do VAR, como um dedo que puxa a manta e revela a nudez da realidade, devolveu-nos à verdade.

    Quando Sudakov marcou aos 87 minutos, in extremis, já não se tratava de ilusão, mas de sobrevivência: uma réstia de esperança sustentada mais pelo hábito de acreditar do que pela convicção no que se via em campo.

    E eis que vieram os sete minutos de descontos, o momento em que se podia sonhar com o Benfica de outros tempos, o que sabia transformar a ansiedade em triunfo. Mas também aí o real se impôs: como contra o Santa Clara, um contra-ataque fatal e o empate do Rio Ave, uma equipa de tostões a arrancar aos milhões encarnados a prova irrefutável de que, afinal, não era desencanto o que se instalava, mas a desilusão em toda a sua crueza.

    Desencanto seria, enfim, nada esperar e, por isso, não sofrer nada. Desencanto seria ver o Benfica empatar e pensar: “Era previsível, é esta a nossa medida, já nem espero melhor.” Mas o que houve foi mais doloroso: houve um acreditar prévio, uma ilusão cultivada pela vitória anterior, pelo nome do treinador, pela aura ainda reluzente das memórias passadas. Houve um entregar-se ao engano. E por isso o golpe dói mais: não é apenas a perda de dois pontos, é a consciência de que fui cúmplice do autoengano.

    E aqui percebo claramente a diferença entre viver no desencanto e viver da desilusão. O desencanto é um estado quase filosófico, de aceitação amarga, mas serena.

    A desilusão é um lamento jocoso: rimo-nos da nossa ingenuidade, mas por dentro ficamos a sangrar. E o Benfica desta época não nos deixa viver no desencanto, o que seria até suportável — insiste em nos iludir primeiro, para depois nos desiludir com maior estrondo.

    A moral da história é que, no futebol como na vida, é preciso aprender a desconfiar das ilusões fáceis. Mourinho não é mais o ‘Special One’, e receio que não será em semanas que transformará uma equipa instável numa máquina de vencer. Talvez traga ordem, talvez traga resultados, mas não trará milagres. E cada vez que acreditarmos em milagres, pagaremos com a moeda da desilusão.

  • Entre o eco da Palestina e o silêncio dos bahá’ís

    Entre o eco da Palestina e o silêncio dos bahá’ís


    Há quem pense que o jornalismo é apenas a busca incessante de desvios e de injustiças, uma espécie de lupa moral colocada sobre as falhas da sociedade para as corrigir; há quem o entenda como uma engrenagem destinada a manter os cidadãos bem informados, dotados da consciência crítica para escolher com liberdade; e há ainda quem acredite que o jornalismo é sobretudo investigação, o farejar da pista oculta, o gesto destemido de arrancar véus ao poder.

    Tudo isto é verdade, mas também é incompleto. O jornalismo tem, no seu âmago, uma dimensão de acaso e de oportunidade que se abre num corredor — ou, neste caso, na porta da Assembleia da República, ou no hall de entrada. Em suma, tanto nas investigações jornalísticas mais aprofundadas como nos mais banais relatos de um assunto — ou, para diminuir a exigência, numa crónica deste género — não basta ter faro: é preciso deixar-se conduzir pelo imprevisto, porque é nesse espaço da surpresa que muitas vezes reside a matéria-prima da narrativa.

    Por exemplo, nesta terça-feira, na minha agenda desenhava-se apenas um almoço no ISEG, com o seu presidente João Duque — e espero não estar a comprometê-lo — para trocar meras impressões e, sobretudo, para me entregar ao orgulho de ver finalmente impresso o livro que assinala os 111 anos dessa instituição, onde tenho a honra de deixar um pequeno e singelo depoimento. Já não era pouco: há vaidades que, mesmo bem disfarçadas, merecem o seu quinhão de celebração.

    Mas, dado o almoço ter lugar ali pelos Quelhas, pensei: porque não aproveitar a proximidade e espreitar o que se passa em São Bento? Afinal, tinha de alimentar a promessa — esse compromisso que fui deixando em surdina com duas edições — de escrever com regularidade umas Crónicas do Hemiciclo.

    Por isso, sem plenário, dei comigo, perto das 15 horas e de barriga cheia, a folhear a carta do dia no ‘restaurante de São Bento’. A ementa era farta e variada, servida em simultâneo em várias salas, como convém a uma casa que se diz democrática. À entrada, logo a Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias oferecia uma degustação de proprietários — primeiro a associação portuguesa, depois a lisbonense —, como quem começa o banquete lembrando que a terra e as casas continuam a ser assunto de Estado.

    Seguia-se, em travessa mais singela, a Comissão de Ambiente e Energia, que punha à mesa a Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR), tempero insípido mas inevitável para a digestão do país.

    Já a Comissão de Educação e Ciência apresentava um cardápio completo, bem apimentado de polémica há umas poucas semanas pelo Expresso: o reitor da Universidade do Porto como entrada fria, o director da Faculdade de Medicina como prato de substância e, para sobremesa, o presidente da Federação Académica do Porto, adoçando a boca aos que ainda acreditam na juventude estudantil.

    A Comissão de Economia e Coesão Territorial servia uma petição de doentes bariátricos, enquanto a Comissão de Agricultura e Pescas vinha guarnecida pela Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), um guisado de cinzas que nunca falta na estival mesa portuguesa. Com certeza.

    Na sala ao lado, a Comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública servia especialidades da casa: da Comissão de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública (CReSAP) ao Instituto de Proteção e Assistência na Doença (ADSE), prato a prato, como quem exibe a maquinaria digestiva do Estado.

    E havia ainda mais: a Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas, que punha sobre a toalha o eterno prato da Palestina; a Comissão de Saúde, onde a ministra Ana Paula Martins se apresentava como chef convidada; e a Comissão de Infraestruturas, Mobilidade e Habitação, prato inevitável de Transtejo e Soflusa, guarnecidos com o saboroso protesto dos utentes do Seixal. Para completar o banquete, um Grupo de Trabalho de Peticionários, condimentado pelo ministro Manuel Castro Almeida.

    Confesso que, perante tal banquete, hesitei como conviva em mesa farta: se escolhesse os proprietários, perderia o Seixal; se me deixasse tentar pela sobremesa académica, perderia a Palestina. O Parlamento, ao contrário de certos restaurantes, não admite meias-doses, e por isso o cronista é forçado a escolher — ainda que, no fundo, todos os pratos deixem no paladar o mesmo travo burocrático.

    A princípio, a minha curiosidade empurrava-me para a Sala do Senado, ainda por cima no mesmo dia em que, noutra sala, decorria a primeira reunião da comissão de inquérito ao INEM. Não pela ministra, mas pela majestade da sala, carregada de história e simbolismo: não é todos os dias que se pisa aquele espaço amplo, outrora palco da câmara alta da Monarquia Constitucional, com as suas galerias austeras e a memória impregnada de nomes maiores e menores da política.

    Cartão de acesso ao pescoço, já me preparava para entrar quando reparei num pequeno grupo em pose fotográfica à entrada. Enfim, o típico retrato para memória futura, esse ritual de prova de presença que se pratica. Identifiquei logo duas conhecidas figuras — Sampaio da Nóvoa e Ricardo Sá Fernandes —, mas o que me fez parar foi uma gargalhada: Ana Maria Pereirinha, minha amiga e antiga editora, agora excelentíssima tradutora.

    “A que vens?”, perguntei, de rompante. “À Comissão de Negócios Estrangeiros. Viemos apresentar a petição pela Palestina”, respondeu-me, com a serenidade de quem cumpre um dever cívico. Pronto, pensei, e disse-lhe logo: “então vou ver”. Nada como trocar de ementa antes mesmo de pedir: se a Saúde me prometia interrogações mais previsíveis, a Palestina oferecia-me, pelo menos, o sabor da actualidade — embora já temperada com um travo de inutilidade: apesar das 12 mil assinaturas que a sustentavam, a petição de Julho caiu agora em terreno já decidido, porque entretanto o Governo português reconheceu politicamente o Estado palestiniano, antecipando-se ao desejo popular.

    A sala, porém, não se esgotaria nesse tema — havia mais de uma vintena de assuntos, alguns adiados por pirraças dos grupos parlamentares, incluindo um sobre Charlie Kirk. Enquanto aguardava, entabulei conversa com um jovem que também estava interessado num dos tópicos em votação: Rafael Matos, rapaz simpático, de fala clara e modos cordiais, desses que ainda nos fazem acreditar na bondade da juventude. Vinha, não em nome próprio, mas em representação de uma comunidade mais do que invisível: os bahá’ís.

    Não tive coragem de lhe confessar a minha ignorância — que aqui confesso, porque tive de ir pesquisar entretanto: os bahá’ís são seguidores da Fé Bahá’í, religião monoteísta nascida na Pérsia no século XIX pelas mãos de Bahá’u’lláh, que proclama a unidade de Deus, da humanidade e das religiões. Defendem a paz mundial, a igualdade entre homens e mulheres e a conciliação entre ciência e fé. Estão presentes em mais de 200 países, haverá cerca de dois mil em Portugal — o Ricardo e a sua família, embora bem lusitanos, sem ligação à Pérsia, integram-na há quatro gerações — e têm a sede mundial na cidade de Haifa, na região norte de Israel, mas continuam a ser alvo de forte perseguição no Irão, onde a religião nasceu.

    Visto está que não possui a mesma projecção mediática da causa palestiniana, presumo que nunca haverá manifestações no Terreiro do Paço nem flotilhas até ao Golfo Pérsico. Porém, ali estava ele, sozinho, pela primeira vez na Assembleia da República, esperançoso pelo projecto de resolução n.º 194/XVII/1.ª da Iniciativa Liberal, a pedir um sopro de atenção para uma minoria religiosa cujo sofrimento se perde na vastidão indiferente do mundo.

    É nestes instantes que o verdadeiro jornalismo deve relativizar o número de assinaturas de uma petição. E deve inflacionar a voz daquilo que não tem eco, traduzir em palavras o sofrimento de quem não encontra plateia. A Palestina tem já muito por quem fale — mas os bahá’ís no Irão, não. É fácil encher páginas com a palavra “Palestina”: arrasta paixões, mobiliza ideologias, convoca solidariedades. Mas quem se lembra de escrever sobre uma comunidade religiosa longínqua, tão remota que quase parece exótica, e que por isso mesmo é ainda mais vulnerável ao esquecimento?

    Rafael Matos na sala da Comissão Parlamentar dos Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas.

    Ao falar com o Rafael Matos percebe-se bem que há uma imensa grandeza mesmo em gestos aparentemente inglórios, em lutar por aqueles que não têm voz. E há também qualquer coisa de jornalismo puro nesse levantar de mão tímida, nesse acto de interceder por quem não tem plateia. De facto, um jornalismo não se limita a combater a injustiça que já todos reconhecem, mas também a revelar a injustiça que ninguém vê.

    Saí de São Bento com a sensação de que a crónica — que esteve para ser sobre a Saúde e mudou para a Palestina, e depois para a persistência de uma petição tornada (felizmente) obsoleta — seria dedicada sobretudo à coragem digna e silenciosa de um jovem que, sem microfones nem câmaras, ousou ser o único representante de uma pequena comunidade perseguida, embora todas as comunidades perseguidas sejam, humanamente, grandiosas.

  • Santa Clara 1.1

    Santa Clara 1.1


    Cheguei atrasado mais uma vez, confesso. Não foi, como alguns poderiam suspeitar, por desleixo, mas antes por uma espécie de cálculo tácito: há jogos para os quais se vai com espírito de peregrinação, há jogos que exigem pontualidade de relógio suíço, há jogos em que se chega cedo para beber o ambiente, como se o estádio fosse templo e o aquecimento liturgia. E depois há estes jogos, os burocráticos, que mais parecem formulários do campeonato: é preciso preenchê-los, carimbar e entregar, mas sem alma.

    Este Benfica-Santa Clara, empurrado no calendário para uma sexta-feira pela avidez das competições europeias, tinha precisamente esse ar de expediente, de nota de rodapé. Entrei, portanto, tarde e resignado, sem a vertigem das noites grandes, convencido de que seriam noventa minutos mornos, um resultado previsível, apenas a decidir a margem da vitória.

    E o jogo, generoso na sua mediania, confirmou as expectativas. O Benfica rodava a bola como quem lava-loiça ao fim do jantar: movimentos repetidos, gestos mecânicos, nenhum prazer. O Santa Clara, obediente até à caricatura, defendia-se com disciplina açoriana, fechado como quem enfrenta um temporal no canal da ilha. Uns ossos de jogada aqui, uma tentativa ali, mas sem chama.

    Parecia um treino puxado, desses em que os músculos sofrem mais do que o coração vibra. Até que, no meio da pasmaceira, um gesto desastrado trouxe a primeira variação: o lateral esquerdo do Santa Clara, Paulo Victor, tão certinho na postura, acertou certeiro na cara de Tomás Araújo. Amarelo, revisão do VAR, cartão vermelho, onze contra dez.

    A monotonia parecia abrir-se para a lógica inevitável: mais de uma hora para transformar a superioridade numérica em golo. A Luz suspirou, convencida de que a vitória estava sendo inscrita nas estrelas, mas afinal estava apenas rabiscada no acaso.

    Mas o futebol, esse grande mestre de ironias, não se deixa domesticar por estatísticas nem por aritméticas simplórias. Chegou o intervalo e nada. E a segunda parte prolongou a mesma ladainha: passes falhados, cruzamentos sem nexo, remates desinspirados, circulação de bola digna de um colóquio sobre burocracia.

    O Santa Clara, em inferioridade, parecia até mais inteiro do que antes, como se o vermelho o tivesse purificado. Só num canto o destino se dignou aparecer: Otamendi, num rasgo de autoridade, cabeceou com violência; o guarda-redes defendeu para a frente; Pavlidis, carniceiro de área, empurrou para dentro. A Luz respirou, aliviada. A ordem natural parecia restaurada.

    Só que, como sempre, a ordem natural do Benfica é o caos. Vieram minutos de posse inócua, de ataques em piloto automático, de remates que não lembram a ninguém. A sensação era a de que o jogo caminhava para a vitória magra, daquelas que envergonham pouco sem inspiram ninguém.

    E foi então que se cumpriu a lição amarga. Noventa minutos no relógio, mais quatro de compensação, e muitos já a levantar-se para fugir ao trânsito e regressar às suas vidas. É nesse instante de confiança, nesse segundo de abandono, que o futebol escolhe cravar a sua punhalada.

    Numa bola para a frente, Otamendi, em vez de pontapear a bola para onde calhasse, decidiu ser artista: quis recuar de cabeça para Trubin, gesto de elegância que o destino tratou de ridicularizar. Falhou o cálculo, ofereceu o presente, e um avançado do Santa Clara, do qual não quero aqui perpetuar o nome – e com a frieza de quem sabe que é nos instantes roubados que se fazem as grandes memórias – empatou.

    Um a um. Silêncio. Um estádio gelado, reduzido a murmúrios. E depois a aumentar em assobios quando o árbitro deu o apito final. Um banho de água fria que nos lembra que a confiança, quando excessiva, é arrogância. O colapso da certeza é sempre repentino.

    Há quem insista que isto é apenas futebol. Mas basta estar na Luz, nesse instante, para perceber que não é. Quando estas fífias surgem não se sente apenas a perda de dois pontos – é um reencontro com a fragilidade, com a precariedade das coisas humanas. É a pedagogia cruel de certos jogos do Benfica que mostra que nada é inevitável, que o destino não se cumpre por decreto, que até a superioridade numérica é apenas uma ilusão.

    No fundo, um golo contra o Benfica nos momentos finais, aqui na Luz, nunca e apenas azar, mas também aselhice. . E, nestes momentos, resta-nos a amarga resignação.

    número três t