Categoria: Cultura

  • Aos 79 anos, o rock ainda rola

    Aos 79 anos, o rock ainda rola

    Alguns concertos vivem da nostalgia, enquanto outros conseguem escapar-lhe. A diferença, julgo, estará na forma como tratam o passado: como peça de museu ou como matéria ainda viva.

    Aos 79 anos, Ronnie Wood, sem estar ao lado de Mick Jagger e Keith Richards, poderia limitar-se a percorrer clássicos, distribuir histórias e recolher aplausos de reconhecimento. Esta tournée, que passou esta segunda-feira, dia 14, pelo Coliseu dos Recreios, escolheu outro caminho. Em vez de conservar o rock & roll numa redoma, volta a pô-lo em circulação.

    Ronnie Wood, aos 79 anos a guitarra não lhe pesa. Foto: Tiago Cortez / Everything is New.

    Para quem, como eu, veio sobretudo pela curiosidade, sem particular devoção pelos velhinhos Rolling Stones, a expectativa não ia muito além de uma noite de rock à antiga, com muita guitarra e algum exercício de memória.

    Ninguém me tinha avisado, porém, de que isto não era apenas Ronnie Wood — excelente guitarrista desde aqueles tempos em que, para se ser guitarrista, ainda era preciso ter unhas — a passear o nome por uma tournée comemorativa de 60 anos de palcos.

    O espectáculo vai muito para além dos Stones e, em certos momentos, quase se esquece que estamos perante um dos seus históricos membros.

    Imelda May. Foto: Tiago Cortez / Everything is New.

    Wood montou uma celebração larga da música que o formou e da música que ajudou a formar: blues, soul, country, rhythm & blues, rock’n’roll, Faces e, claro, Stones, tudo misturado sem cerimónia excessiva. A noite teve qualquer coisa de rock & roll antigo no sentido mais literal da expressão: tudo rolou.

    Rolou a guitarra, rolou a bateria solta e precisa de Andy Newmark — que gravou com ‘senhores’ como John Lennon e Roger Waters —, rolou a voz gasta (e limitada) de Wood, que até ganha mais força quando se aproxima do blues e do country, e rolaram sobretudo as canções, sem obsessão pela perfeição clínica.

    A generosidade cénica de Ronnie Wood também ajuda a explicar o resultado. Esta tournée não foi construída para o manter no centro a cada minuto — e isso mostra uma grande generosidade musical e pessoal. Wood sabe quando avançar, mas sabe também quando recuar meio passo e entregar o palco.

    Chanel Haynes. Foto: Tiago Cortez / Everything is New.

    E entrega-o a duas cantoras extraordinárias — e metam extraordinário nisso. Chanel Haynes — que já colaborou com os Stones — transformou River Deep, Mountain High e sobretudo Flying em dois grandes momentos da noite e tem potência suficiente para arrastar uma sala inteira. Já Imelda May surge noutro registo, mais sensual, mais jazzístico, e faz de Remember (Walking in the Sand) um momento inteiramente seu.

    O segredo desta tournée talvez esteja aí. Wood não tenta fingir que tem 30 anos, nem precisa de provar aquilo que já demonstrou durante seis décadas. Toca com a segurança de quem conhece o terreno e já nem sente necessidade de o reivindicar. Essa liberdade deixa a banda respirar, dá espaço a outras vozes e afasta o espectáculo da lógica do ego.

    No fim, esta tournée — e este concerto em Lisboa, com a casa a meio-gás, talvez porque até o rock & roll descobriu os preços exorbitantes — poderia ter-se resumido a uma celebração de carreira, com direito a romaria de fiéis e relíquias servidas à mesa. Acabou por transformar-se numa pequena lição sobre a arte de envelhecer no rock.

    Foto: Tiago Cortez / Everything is New.

    Ronnie Wood não sobe ao palco para representar a juventude, nem parece interessado em embalsamá-la. Mostra, antes, que o rock & roll pode envelhecer sem ficar velho.

    Aos 79 anos, quando o sex já não exige demonstrações e o drugs deixou há muito de ser recomendável, sobra o melhor da velha trilogia: o rock & roll. E, para uma noite quase perfeita, nada como partilhá-lo com duas vozes de excepção: Chanel Haynes e Imelda May.

  • As duas rentrées

    As duas rentrées


    Com Setembro, chega também a rentrée. O regresso. No caso da cultura, reabrem os teatros, começam as novas temporadas, anunciam-se exposições, publicam-se livros, apresentam-se ciclos de cinema, regressam os concertos às grandes salas. Do Centro Cultural de Belém, à Gulbenkian, passando pelos grandes teatros e museus, é tempo de abrir portas para novas temporadas, exposições. E para o público.

    Isto da rentrée é como se a cultura também tivesse férias.

    Foto: D.R.

    Durante o Verão, porém, muito aconteceu. E aconteceu em todo o país. Uma outra rentrée que começa anualmente entre Maio e Junho e que agora acaba.

    Houve festivais, festas, feiras, romarias, arraiais, concertos em praças e largos, bandas, música popular, procissões, marchas, fogo de artifício, largadas de touros, tasquinhas, sardinhas, cerveja e bailaricos pela noite dentro.

    Houve Tonys Carreiras e Toys. Houve municípios a pagar espectáculos para animar populações e emigrantes regressados. Houve aldeias e vilas cheias de gente, os avecs de férias, as famílias reunidas, os carros com matrículas estrangeiras, os filhos e netos que voltam por algumas semanas. Tudo agora misturado com o destino de turismo de massas em que o país se tornou, com toda a “estrangeirada” que vem em busca de sol e cerveja barata. A que se juntam ainda as prósperas comunidades de imigrantes que, vindos de países como o Brasil e o Bangladesh, aderem às festividades sazonais, inclusive para facturar.

    Tony Carreira. / Foto: D.R. | Tony Carreira (Oficial)

    E tudo isto também é cultura.

    Talvez alguns não lhe chamem assim.

    Existe, em Portugal, uma espécie de fronteira bem visível entre duas culturas. Uma é apresentada como Cultura, com maiúscula. A outra é aquilo que se faz no Verão.

    Uma tem temporadas. A outra tem festas.

    Uma tem programação. A outra tem cartazes.

    Uma acontece em salas desenhadas por arquitectos. A outra acontece em largos, campos, praças, jardins, baldios e recintos improvisados.

    Uma tem curadores, programadores, críticos e catálogos. A outra tem comissões de festas, associações recreativas, juntas de freguesia e câmaras municipais.

    Orquestra Gulbenkian. / Foto: D.R. | Gulbenkian

    Uma merece reflexão. A outra merece divertimento.

    E talvez esta distinção diga mais sobre nós do que sobre a qualidade das manifestações culturais que produzimos.

    Porque a cultura de Verão não é necessariamente uma cultura menor. É apenas uma cultura diferente. Uma cultura mais comunitária, mais popular, mais ligada à memória e ao território. Uma cultura que não precisa de silêncio para existir. Que pode ser ruidosa, excessiva, repetitiva, sentimental e até kitsch. Mas que cumpre uma função essencial: junta pessoas e cria memórias.

    Uma procissão não é apenas uma procissão. Uma romaria não é apenas uma romaria. Uma feira não é apenas uma feira. Uma festa popular é também memória colectiva, ritual, pertença, transmissão de costumes e ocupação do espaço público. É uma maneira de dizer: estamos aqui, somos daqui, voltámos, encontrámo-nos.

    E há qualquer coisa de profundamente cultural nesse gesto.

    Foto: PÁGINA UM

    Até a figura do emigrante que regressa todos os Verões faz parte desta cultura. O português que vive em França, na Suíça, no Luxemburgo ou em outro país e que regressa à “terra” durante algumas semanas. Não regressa apenas à família. Regressa a uma paisagem cultural. À festa da aldeia, ao santo padroeiro, ao concerto, ao café, à praça, à procissão, ao amigo de infância. Regressa a uma parte de si próprio.

    Depois chega Setembro.

    E muda o cenário.

    Os bailaricos são substituídos por concertos de orquestra no jardim, à noite. As salas reabrem. Os teatros recebem público. Os museus apresentam exposições. Os livros chegam às livrarias. As instituições “culturais” – de dito prestígio – voltam a ocupar o centro da conversa.

    É a cultura da rentrée.

    É também uma cultura menos estridente, sem cheiro a fartura. Mais institucional, mais urbana e, muitas vezes, mais elitista. Não necessariamente porque queira ser elitista, mas porque exige códigos de acesso que nem todos possuem. Saber quem é o artista, conhecer o compositor, perceber a linguagem de uma exposição, ter disponibilidade (e orçamento) para comprar um bilhete…

    Foto: D.R.

    No Verão, ninguém precisa de “perceber” realmente de música para dançar.

    Na Gulbenkian, talvez seja preciso saber alguma coisa de música para não se sentir completamente perdido.

    Nenhuma das duas experiências é mais humana do que a outra.

    E talvez a questão esteja precisamente em parecer que tem de se escolher.

    Pode apreciar-se um concerto de música clássica e mesmo assim não resistir a um baile de aldeia. Pode-se visitar um museu e, no dia seguinte, ir a uma romaria. Pode-se ler um grande romance e também saber de cor uma canção popular. Pode-se debater sobre cinema de autor e, algumas horas depois, ouvir uma música sentimental e lamechas numa festa de Verão.

    Portugal é feito destas sobreposições. Do barroco das igrejas e do plástico das festas populares. Da poesia e do karaoke. Do museu e da feira. Do CCB e do largo da aldeia. De Bach e da música popular. Do intelectual que procura uma exposição e da avó que leva o neto à procissão.

    A brown wooden violin with black fittings on a light wood surface
    Foto: D.R.

    Há uma cultura que representa os portugueses perante o mundo.

    E não é apenas a urbana, elitista, nem apenas a que acontece durante o Verão. Juntas, representam a memória de quem somos (e fomos). Portugal é ambas as ‘culturas’. A do Verão, das terras e aldeias, e a do resto do ano, mais urbana.

    A rentrée urbana está a chegar. É bom que os teatros reabram, que os museus convidem a pensar, que as salas de concerto voltem a encher-se, que os livros se abram mais durante os meses frios.

    Mas talvez não se deva olhar para trás, para o Verão, como quem regressa de uma espécie de intervalo cultural. Uma espécie de “férias em Ibiza” da cultura, em que a diversão é “permitida” e a tolice autorizada.

    a group of people reaching out their hands
    Foto: D.R.

    Porque mesmo em Agosto, Portugal esteve a produzir cultura e a viver cultura. E não apenas jazz no jardim. Nem workshop no museu.

    Talvez uma sociedade culturalmente madura e de bem consigo mesma seja aquela que consegue reconhecer a cultura que desafia a pensar e a cultura que ensina a pertencer.

    E não é preciso escolher uma ou outra.

    Porque há muitas maneiras de uma sociedade contar a sua história.

    Algumas acontecem num palco.

    Outras acontecem numa praça.

    As duas rentrées culturais atendem, afinal, ao mesmo fim: a necessidade dos humanos de  criar, de se expressar e celebrar. E de estar juntos.

  • A vida não volta atrás, mas a Marliese por cá anda

    A vida não volta atrás, mas a Marliese por cá anda

    A Marliese de 2026 já não é a Marliese de 1981. No Coliseu dos Recreios, a canção que encerrou o concerto dos Fischer-Z chegou com outro corpo, outra espessura, outro peso. A secura nervosa da gravação original, aquela guitarra e aquele ritmo que pareciam correr sobre fios eléctricos, deram lugar a uma sonoridade mais cheia, mais musculada e menos inquieta.

    John Watts já não tem 26 anos – vai a caminho dos 72. Quem estava na plateia também não. Talvez tenha sido essa a matéria mais interessante da noite: não verificar quanto envelheceu uma banda, mas perceber que quarenta e cinco anos podem caber dentro de três ou quatro minutos.

    A música possui uma crueldade que a fotografia não tem. A fotografia mostra quem fomos – uma canção pode convencer-nos de que continuamos lá, mas sem a mesma compleição física. Porém, com o mesmo espírito, mesmo se nostálgico. So Long, Berlin ou Marliese não remetem apenas para discos. Levam consigo quartos, ruas, escolas, bares, caras desaparecidas, primeiras paixões e uma noção de futuro que desconhecia quase tudo sobre o futuro.

    Ao ouvi-las agora numa sala onde muitos dos espectadores eram, nos anos 80, aquilo a que hoje se chama jovens, instala-se uma sensação estranha: recuarmos quatro décadas parece uma outra vida, embora a vida não tenha feito qualquer corte. Continuou. A adolescência não ficou num compartimento fechado. Acabou transportada, em silêncio, até ao Coliseu.

    Os Fischer-Z nasceram em 1976, no refluxo imediato do punk britânico, e chegaram ao disco em 1979 com Word Salad. John Watts, que estudara psicologia clínica e trabalhara numa instituição psiquiátrica, trouxe uma combinação rara: urgência pós-punk, uma voz nasal quase em permanente sobressalto, melodias acessíveis e letras que observavam o mundo com ironia e inquietação política. Chamaram a isto new wave.

    Going Deaf for a Living, de 1980, deu-lhes So Long. Já Red Skies Over Paradise, no ano seguinte, concentrou o auge, com Marliese, Berlin, Cruise Missiles e a faixa-título. Mais do que uma banda sonora da new wave, os Fischer-Z tornaram-se a banda sonora de uma Europa que crescia com o Muro de Berlim, os mísseis nucleares e a impressão de que o fim do mundo podia caber numa notícia de televisão.

    Quatro décadas e meia depois, a ironia histórica dos últimos anos de Putin ofereceu matéria a Watts: Remember Russia continua no alinhamento e Cruise Missiles deixou de soar a arqueologia política.

    No Coliseu, o concerto abriu com quatro temas de Word SaladPretty Paracetamol, Wax Dolls, Remember Russia e The Worker — e avançou por várias idades da banda e da carreira a solo de Watts até desembocar em Red Skies Over Paradise, Cruise Missiles, Berlin e, no encore, Marliese. Os encores, já se sabe, fazem já parte do alinhamento – e seria ‘crime de lesa-majestade’ se os Fischer-Z se ‘esquecessem’ de a tocar.

    Durante uma hora e cinquenta minutos, ninguém precisou de fingir que estávamos em 1981. Não estávamos. Ainda bem, porque a pior coisa que uma banda com cinquenta anos pode fazer é transformar-se na sua própria banda de tributo.

    Watts percebeu isso. O novo álbum, X-Ray Serenade, saiu no próprio dia do concerto e inclui quatro clássicos regravados e “reimaginados”, entre eles So Long e Marliese. A mudança de sonoridade que se ouviu em Lisboa não resulta apenas da idade, da troca de músicos ou das diferenças de execução: corresponde a uma escolha.

    O Fischer-Z de 2026 prefere reler o passado a embalsamá-lo. Nem sempre ganha. Em Marliese, sobretudo, perde-se parte da tensão magra e febril do original; o som actual surge mais redondo, mais seguro, por vezes confortável em excesso. Mas ganha-se outra coisa: a prova de que aquelas canções ainda podem ser tocadas por músicos vivos, e não por jovens num karaoke num bar qualquer.

    O centro continua a ser John Watts. Dos Fischer-Z originais resta ele, e nele se reconhece a identidade da banda: na voz peculiar, agora mais gasta mas ainda cortante, na forma de declamar certas frases, no humor seco, na capacidade de fazer uma canção pop carregar uma pequena narrativa social.

    O concerto do Coliseu valeu, por isso, menos como celebração de longevidade do que como confronto com algo mais desconfortável: o tempo não passa apenas pelos músicos que se vêem no palco. Passa também pela plateia. So Long já não soa como em 1980 porque os Fischer-Z mudaram, mas também porque mudou quem a escuta. A canção conserva a duração, mas tudo o que aconteceu entre duas audições tornou-se imenso.

    Por tudo isto, quando Marliese chegou, por fim, o ano de 1981 não regressou, nem alguém recuperou a idade que tinha quando a ouviu pela primeira vez. Regressou outra coisa, talvez mais perturbadora: a percepção de que aquela pessoa ainda existe algures dentro da actual. Não se sai de um concerto destes mais novo. Sai-se, sim, com a prova de que se foi jovem — e de que certas canções ainda sabem onde essa juventude ficou.

    Fotografias: PAV

  • Há penas e penas

    Há penas e penas

    Nos últimos tempos tenho sofrido muito. A minha cabeça não pára e o coração também não. Por um lado, isso é bom, claro. Significa que não estou em morte cerebral nem em morte total. Por enquanto.

    É que aconteceu-me uma grande desgraça. Ou vai acontecer. Depende do fuso horário em que cada um vive. E na verdade nem foi bem uma desgraça que me aconteceu, fui mais eu que aconteci à desgraça. Sempre que estou bem arranjo inevitavelmente uma maneira de me meter mal. Cheguei à vida inapta para a tranquilidade. Mas desta vez nem foi de prepósito. A sério. Desta vez não fui estúpida nem tentei contrariar nada.

    Já tinha ouvido falar sobre o assunto, sim, muito vagamente, mas simplesmente pensei: ah, isto não vai fazer assim tanto mal. E fiz, fiz o que não devia ter feito. Mas foi sem querer, juro. É que foi mais forte do que eu. Agora ando com medo das consequências disso e até me custa pronunciar o acto que cometi. Foi em plena luz do dia, o que revela que não pensei muito.

    Se é para contar a minha versão dos factos, devo começar pelo início da história. É muito simples. Estava com fome e apetecia-me comer pão. Sempre gostei de comer pão seco. Nem o meu palato é de gostos extravagantes, o que se adequa ao resto do meu ser. É um orgulho provar a minha coerência. Enche-me muito mais a barriga do que certas coisas que se servem para aí. Entrei numa padaria e comprei um saco com cinco carcaças. Na altura não prestei grande atenção ao que estavam a meter dentro do saco, estava distraída com um cão que se estava a sacudir para cima das queijadas.

    Quando ia já a descer a rua tirei uma carcaça para fora e assim que a vi fiquei muito irritada. Estava mal cozida. Olhei para as outras e estavam igualmente esbranquiçadas. Detesto pão mal cozido. Os apressadinhos que tiram o pão do forno antes de tempo não devem ter amor ao que fazem. Mas quase ninguém tem, não é?

    A produção em massa e a rotatividade das fornadas deve exigir que cada pão tenha cada vez menos tempo para ir ao forno. Qualquer dia inventam pão líquido num daqueles pacotes de  plástico que depois é para voltarem não sei para onde. Devem ter família para quem voltar. É, deve ser isso.

    No caminho, sentei-me num banco de jardim. Estava fraca, mal-humorada e continuava com fome. Mas não queria comer o pão mal cozido. Foi quando tudo aconteceu e de uma forma muito rápida. Primeiro, apareceu um. Tinha um andar esquisito, mas não estava a olhar para mim. Depois veio o segundo, que era menos esquisito, mas ainda assim era esquisito. Entretanto, chegou o terceiro. O terceiro era bonito e começou a olhar para mim. Eu também olhei para ele. A minha mão direita estava pousada no saco das carcaças. Esse terceiro fez um som a olhar para o saco e os outros dois também começaram a olhar. Comecei a sentir alguma pressão naquele momento. Até que pensei: ah, já que não vou comer e eles são só três…

    E eis que se dá o crime. Começo a dar pão aos pombos. Eu gosto de pombos. Quando era pequena vi os Bravos do Pombal, que conta a história de um grupo de pombos que vão salvar um pássaro mensageiro que é preso por falcões nazis. Fiquei com a ideia de que os pombos são revolucionários, fiquei com uma boa impressão deles. Porque é que não havia de lhes dar pão? O problema foi quando aqueles três resolveram chamar os outros cem. E o problema maior foi quando as pessoas começaram a dizer que era proibido alimentar os pombos, que eles transmitem doenças e que agora quem estava naquele jardim podia morrer.

    Pergunto-me se já alguém que tenha feito a pergunta “mas morreu de quê?” tenha ouvido a resposta “morreu de pombice. Estava perto de um pombo, e olha, quinou”.

    Naquele momento eu estava entre cento e três pombos revoltados porque o pão tinha acabado e muitas pessoas revoltadas pela assembleia de pombos que juntei no jardim. Alguém acabou por fazer uma denuncia e é por isso que tenho dormido mal.

    Vivo neste momento numa cela com cento e três pombos. Estamos em quarentena. Tenho dormido mal porque ainda não me habituei a dormir só em cima de uma perna. É assim que eles dormem, mas eu não consigo. E fazem muito barulho. Às vezes até acasalam. Eu não sei se deva olhar ou não. Sinto que estou a invadir a privacidade deles. Mas eles também estão a invadir a minha. Somos colegas de cela. Eles não deviam estar a fazer aquilo à minha frente. Tem sido esquisito. Eles estão sempre a olhar para mim e cagam-me em cima.

    No filme que vi quando era pequena eles tinham ideias fantásticas para fugir, mas estes aqui ainda não disseram uma palavra. Se calhar ainda não confiam em mim. Vou dar-lhes tempo. Quando cumprirmos a pena toda, eles vão ser expulsos da cidade. Nunca mais podem voltar a Lisboa. No meu caso, fui acusada de traição à pátria. Supostamente coloquei a vida de muita gente em perigo. Estou à beira da deportação e quem sabe não se esteja neste momento a discutir a possibilidade de se voltar a instaurar a pena de morte. É triste. Eu só queria comer pão.

    Texto e imagens de Diana Canha (artista media).

  • Mickey Rourke

    Mickey Rourke

    I. Sunset Boulevard, 18 de Março de 1988

    Mickey Rourke acordou às onze e vinte da manhã, com os estores mal fechados a riscarem a cara com luz. Tinha dormido em cima do sofá, vestido com umas calças de fato-de-treino encardidas e uma t-shirt com o logotipo do Barfly. O cão dormia enroscado na carpete. Uma garrafa vazia de Bourbon tombada ao lado, e uma sandes de atum esquecida em cima do piano compunham a pintura hiper-realista.

    Ficou ali, deitado, a olhar o tecto. Não pensava em nada. Ou, pelo menos, em nada que valesse a pena dizer em voz alta para si mesmo. Mickey falava sozinho muitas vezes com a sua voz calma e serena, igual à dos filmes. Sentia o corpo como um armário mal fechado e tinha a conta bancária cheia com trabalho de estúdio e capas de revista. Às vezes não sabia o que fazer ao dinheiro. Este dia guardara-o só para si. Iria ser calmo. Como gostava.

    Tinha um almoço com um produtor às treze horas — um dandy fora de época que usava camisas brancas com suspensórios e falava devagar, como se cada frase tivesse de ser escutada por fantasmas. O papel era num filme qualquer de acção, com tiros a mais e diálogos a menos sobre nada. Mickey disse que ia pensar, mas já sabia que ia dizer que não, embora não soubesse bem gerir a carreira – ou talvez a carreira não o soubesse gerir bem a ele.

    Gostava de argumentos com frases curtas e personagens estragadas, mas motivantes e idiossincráticas.

    Levantou-se, foi à casa de banho. Enxaguou a cara. Olhou-se ao espelho. Sorriu e decidiu deixar ficar a barba pela qual era conhecido. Uns dias antes, uma jornalista de uma revista qualquer escrevera que Mickey tinha a barba de três dias mais bela e sexy do planeta. E agora estava ele ali, na casa de banho, sozinho com a sua barba de três dias.

    Estava bonito de uma forma que começava já a parecer perigosa. O rosto ainda era o de um deus grego com olheiras, mas havia já pequenas fissuras na estátua, que só ele conhecia.

    Desceu para o Chateau Marmont. Pão tostado, ovos mexidos, e sumo de laranja deram-lhe algum ânimo.

    Leu a Variety. Havia uma nota pequena sobre um projecto novo do Coppola. Pensou em ligar-lhe.

    Mas não ligou.

    Encontrou-se com o produtor mas, como previsto, não aceitou a proposta. O projecto tinha tiros a mais e frases a menos. Que se foda o cinema.

    Às três da tarde, foi ter com o seu treinador de boxe no ginásio em Venice. Trinta minutos de corda, saco pesado, e um pouco de sombra com um cubano calado que batia como se o mundo lhe devesse explicações. Mickey adorava o som dos punhos no couro – era uma música mais sincera que os diálogos de qualquer filme.

    Ao sair, comprou cigarros e uma Coca-Cola. Um puto reconheceu-o:

    — Ei, tu és o gajo do Nove Semanas e Meia!

    Mickey fez um gesto com a cabeça. Sorriu. O sorriso de quem já sabe que está a ser visto em câmara lenta.

    Ao final da tarde, subiu a Mulholland Drive. Parou num miradouro qualquer. E um cigarro apareceu na sua boca como que por magia. O céu tinha aquela cor indecisa de um corpo a arrefecer. Pensou em escrever um guião. Pensou em chamar a mãe. Pensou em nada. Pensou em tudo. Pensou em Kim Basinger quando lhe chamava cinzeiro humano durante a rodagem de Nove Semanas e Meia.

    Voltou para casa no seu carro com o rádio a bombar Sonic Youth dos primeiros tempos. Passou pela loja de animais, comprou comida para o cão. Às oito da noite, encomendou comida chinesa. Jantou em silêncio, a ver o Raging Bull na televisão. Mas as coisas não andavam bem com De Niro desde Angel Heart.

    Sentia-se menosprezado por todos, mesmo que fosse capa da Variety. Na sua cabeça era tudo inexplicável. O que acharia o pai disto tudo?

    Às dez e vinte acendeu dois cigarros de uma vez. Pegou num caderno de capa preta. Escreveu uma frase só:

    “A câmara nunca mente, mas também nunca conta tudo.”

    Depois fechou o caderno. Foi até ao quarto. Tinha que acordar cedo na manhã seguinte.

    Antes de se deitar, abriu a gaveta da mesa-de-cabeceira. Lá dentro encontrava-se um bilhete dobrado, escrito por ele próprio, meses antes.

    Letra torta, lápis gasto. Um dia serás Napoleão. 

    Gostava de ler essa frase antes de dormir. Era uma mania.

    Voltou a dobrar e guardou o papel. Fumou mais um Lucky imitando-se a si mesmo e depois adormeceu com o cão aos pés da cama, como se isso bastasse para segurar o mundo no lugar.

    O cão chamava-se Napoleão.

    II. Downtown LA, 4 de Outubro de 1995

    Mickey Rourke acordou com frio. Estava mal vestido. Um casaco de cabedal coçado, umas calças de ganga velhas e uma t-shirt que dizia “Kill Your TV”. Dormira vestido numa espécie de apartamento que era também cozinha, armário e ginásio falhado. Não era pobre. Também já não era rico da maneira absurda como tinha sido. Tinha dinheiro suficiente para não pensar nele todos os dias e pouco, o suficiente para começar a pensar nele outra vez.

    Ficou sentado na cama algum tempo, a olhar para as mãos. As articulações doíam. O nariz já fora partido mais do que uma vez desde que voltara ao boxe. Os filmes não tinham parado exactamente, mas tinham ficado piores, com papéis mais pequenos, e cada vez menos gente dava por eles. Os amigos também se afastavam.

    Não eram bem amigos.

    Tinha um encontro às dez com um tipo que prometera apresentá-lo a um produtor russo. Um papel secundário num filme de gangsters que provavelmente acabaria directamente no mercado de vídeo, algures na Europa de Leste. Mickey disse que ia.

    Vestiu-se com outra roupa do mesmo estilo. Saiu para a rua. Ninguém o reconheceu. Uma mulher empurrou-lhe o ombro por acidente e pediu desculpa em espanhol. Mickey ainda disse, naquele sotaque de Hollywood em que só aparecem duas ou três palavras em espanhol no meio de outras tantas, parecendo sempre mais mexicano:

    — Tranquilo. Já não sou ninguém. E no ombro nunca me dói.

    Tomou um café num bar ao lado de uma lavandaria. Uma televisão no canto passava um episódio repetido de Baywatch. Pamela corria em câmara lenta naquele momento. Mickey olhou-a como quem olha um quadro antigo, já sem saber se gostou ou não.

    Foi até ao ponto de encontro. O russo não apareceu. O amigo que o ia apresentar disse que tinha sido um mal-entendido. Mickey não se zangou. Já aprendera que o ressentimento é um luxo ao qual não se iria entregar.

    Ao voltar para casa, passou por um cartaz de Pulp Fiction meio rasgado. Parou um segundo. Sabia que o papel tinha ido parar ao Bruce Willis. Tarantino tinha-o querido para aquele papel e Mickey recusara. Estava demasiado metido nos combates, ou demasiado fora de si. Já nem sabia. Só sabia que agora o filme estava em todas as esquinas — e ele, em nenhuma.

    Continuou a andar.

    Em casa, abriu o frigorífico. Havia cerveja, leite, meio limão, mostarda e uma caixa de comida chinesa com dois dias. Bebeu a cerveja de pé.

    Num armário encontrou uma cassete VHS sem caixa. Na etiqueta, escrita à mão, dizia apenas: RUMBLE.

    Meteu-a no vídeo.

    A imagem apareceu com riscos. Matt Dillon estava sentado numa mota. Dennis Hopper parecia já ter nascido cansado. Depois apareceu ele.

    Mickey aproximou-se da televisão e ficou a olhar para a própria cara durante alguns segundos. Andou para trás e carregou no play. Viu novamente. Recuou outra vez.

    À terceira desligou a televisão.

    Foi até ao canto da sala onde tinha pendurado um saco de boxe. Tirou o casaco, ficou de t-shirt e começou a bater.

    Devagar primeiro Esquerda. Direita. Esquerda. Depois mais depressa.

    O saco abanava sobre a sala enquanto o Mickey Rourke de 1983 permanecia congelado na sua mente. Como se a sua mente fosse um ecrã.

    Bateu durante quinze minutos. Talvez vinte. Parou quando começou a doer-lhe uma das mãos. Sentou-se no chão. O telefone tocou. Mickey deixou-o tocar.

    Voltou a tocar. Não atendeu. Devia ser a namorada.

    Ao fim da tarde saiu outra vez. Comprou cigarros, comida para levar e uma revista de cinema que folheou enquanto esperava. Havia actores novos que não conhecia. Um deles tinha vinte e poucos anos e alguém lhe chamava “o novo Mickey Rourke”. Mickey fechou a revista.

    — Boa sorte.

    Voltou para casa já de noite. Encontrou um postal de aniversário na caixa de correio. Estava quase três semanas atrasado. Era da mãe.

    Dizia: “A vida ainda te vai dar uma surpresa. Beijo.”

    Levou o postal para cima.

    Comeu em frente à televisão desligada. Depois pegou num velho guião do The Pope of Greenwich Village do qual nunca se desfizera e começou a ler uma cena. No verso de uma das páginas encontrou uma frase que escrevera à mão anos antes.

    A lápis, quase apagada:

    “Um homem pode perder tudo menos a sua última frase.” Sorriu.

    Dobrou o papel e pensou que aquilo podia não querer dizer nada. Gostava da ideia das frases tanto destilarem enigma como estupidez.

    Deitou-se no sofá a lembrar-se de quando foi Mickey Rourke. Já fora uma marca. Agora era uma anedota. Uma anedota com pouca piada.

    Do outro lado da rua, um cão vadio tinha parado junto à janela entreaberta. Ficou ali a olhar para dentro.

    Mickey olhou para ele. Durante alguns segundos nenhum dos dois se mexeu.

    O cão acabou por atravessar a rua e desapareceu.

    Mickey fechou os olhos.

    Fez-lhe lembrar o Napoleão.

    III. Nova Iorque, 23 de Fevereiro de 2009

    Mickey Rourke acordou num hotel de quatro estrelas em Manhattan. Na noite anterior tinha perdido o Óscar para Sean Penn. Depois de meses a ouvir falar do seu regresso, da ressurreição, do milagre, da segunda vida, acordava agora sem a estatueta em cima da mesa. Não era particularmente grave. Já tinha perdido coisas muito mais importantes. Cães, por exemplo.

    O telefone tocou. Era um jornalista inglês que queria confirmar uma entrevista para as 11h. Disse que sim, com a voz ainda meio mergulhada em álcool.

    Olhou-se ao espelho. A cara já não era a mesma. Havia ali um Frankenstein afectivo feito pelo bisturi, quedas, combates e noites mal dormidas. Mas os olhos ainda eram dele. Iguais aos do detective do Ano do Dragão. Iguais aos do chavalo de Miami que só queria salvar o irmão da prisão.

    Tomou banho. Vestiu-se com vagar. Jeans, camisa preta, botas velhas. Desceu. Café duplo, dois ovos cozidos, torradas secas. Um fã pediu-lhe um autógrafo com um DVD de Sin City. Outro tirou uma foto com ele no hall. Mickey posou sem sorrir. Nunca gostou de sorrir para máquinas, muito menos humanas.

    Às onze, fez a entrevista. Falou da infância. Do pai que o deixou. Do boxe. Do cão. Do cão novo. Do outro que morreu. E disse, a certa altura, quase em sussurro:

    — A fama destrói o que não consegues esconder. Sabias que um cão já me salvou do suicídio?  

    O jornalista não percebeu mas ele não corrigiu.

    À tarde, deu um salto ao ginásio. Dez minutos de bicicleta. Quatro séries leves. Suor discreto, mantinha-se em forma apesar de tudo. The Wrestler provava-o.

    Pensou que continuava a ter medo de morrer de repente, como um lutador que não ouve o sino. Ao sair, ligou a um velho amigo da altura do Rumble Fish.

    — Ainda estou aqui!

    Do outro lado, silêncio. Depois riram. Mais uma ou outra piada ocasional e desligaram. Mickey gostava de falar ao telefone com os amigos, mesmo que fosse para não dizer nada.

    À noite, jantou sozinho num italiano pequeno em Chelsea. Risotto de cogumelos e um copo de tinto. Um casal jovem olhava-o com curiosidade, mas não se aproximou. Mickey estava sereno. Já não precisava que o mundo lhe batesse à porta. Gostava de não ser reconhecido, mas isso era quase impossível, por tudo o que tinha sido a sua vida e até pela nomeação repentina ao Óscar.

    De regresso ao quarto, tirou os sapatos. Pegou num envelope antigo, guardado entre páginas de um livro de Faulkner. Dentro, um bilhete escrito por ele, talvez dez anos antes.

    Letra insegura, suja de gordura:

    “Se te voltarem a aplaudir, finge que não ouves. Só os cães é que voltam quando são assobiados.”

    Conseguiu rir. Dobrou novamente, acendeu um cigarro e apagou a luz com a leveza de quem já sabe que nunca se morre porque todas as mortes são inúteis.

    IV. Hollywood Forever, 17 de Maio de 2032

    Mickey Rourke foi enterrado numa segunda-feira cinzenta, sem escândalo, sem imprensa, sem discurso de celebridade e sem qualquer sinal de que o mundo, mesmo o pequeno mundo da indústria do entretenimento, tivesse dado por isso. Talvez fosse esse o desfecho mais justo para alguém que passou metade da vida a tentar sair da própria pele e a outra metade a tentar voltar para dentro dela.

    A cerimónia, se é que se pode chamar cerimónia ao que aconteceu, consistiu num funcionário do cemitério a confirmar os dados num tablet rachado, três palavras ditas por uma voz sintética com sotaque britânico e quatro pessoas que não se percebia bem se estavam ali por afecto, por culpa, por acaso, ou por erro de localização no Google Maps.

    O corpo tinha sido cremado duas horas antes numa unidade automatizada que processava vinte e dois cadáveres por dia, com temperatura regulada e opção de música ambiente – uma funcionalidade que, segundo o sistema, ele não activara, talvez por esquecimento, talvez por desinteresse, ou talvez por achar, com alguma razão, que qualquer música de fundo no momento da incineração era um insulto à sua última performance.

    Os presentes eram um ex-agente com casaco de napa, cabelo pintado com espuma e um relógio de pulso digital com ecrã partido que, ainda assim, vibrava de quinze em quinze minutos com alertas de reuniões inexistentes; uma mulher que dizia ter partilhado com ele um quarto de motel e um par de comprimidos numa noite dos anos noventa que ninguém registou; um actor falhado com cara de figurante permanente e um ficheiro PDF com as falas de Rourke num filme que nunca chegou a ser feito; e ainda um miúdo magro, com calças demasiado curtas e um iPhone nas mãos, provavelmente à procura de um título de artigo para o seu blog “Necropolítica Estética em Hollywood”.

    A voz sintética começou a falar às onze em ponto. Disse:

    “Michael Rourke, conhecido como Mickey, actor, lutador, símbolo de uma época em que o rosto ainda dizia mais do que os dados”.

    E depois houve uma falha no sistema. Já era habitual desde 2030.

    Repetiu-se a palavra “ícone” três vezes, como se até a máquina não soubesse bem o que ele foi, ou como nomeá-lo agora, que já não vendia nada.

    O ex-agente aproveitou para fazer scroll num feed de notícias falsas.

    A mulher olhava para a urna com as cinzas como quem olha para um móvel barato comprado à pressa.

    O actor encostou-se a uma árvore e disse para ninguém em particular que Mickey era “intratável, mas verdadeiro”. O miúdo abriu uma aplicação de notas e escreveu:

    “A última estrela analógica morreu num mundo que já não sabe distinguir um actor de um avatar.”

    Guardou o telemóvel. Não parecia triste. Parecia atento, clínico, quase aliviado por poder finalmente classificar Rourke como um artefacto.

    Depois disso não se passou mais nada. Não houve flores. Não houve palmas. Não houve drones com câmaras. A única coisa que apareceu foi uma notificação automática da conta verificada de Mickey Rourke no novo X, o Y, programada meses antes por um gestor de redes despedido entretanto, com a frase:

    “Continuo vivo nos vossos ecrãs. Vemo-nos na próxima sessão. Não desistam”.

    Teve 17 likes, 2 reposts e um comentário:

    “Já foste, champ.”

    O ex-agente disse:

    — É melhor irmos andando.

    A mulher acendeu um cigarro electrónico todo partido mas que ainda bombava nicotina e disse que tinha 8% de bateria no carro e alguma gasolina que andava bem cara, e se queria boleia para algum lado. 8% ainda dava para alguma coisa.

    O actor falhado não quis, foi a pé. O miúdo ficou mais um bocado, tirou uma foto da campa e perguntou à Siri em voz baixa:

    — Quem foi Mickey Rourke?

    E a Siri respondeu:

    — Mickey Rourke foi um actor norte-americano. Viveu entre 1952 e 2032. É conhecido por filmes como Nove Semanas e Meia, Rumble Fish, The Wrestler, Sin City. Queres que abra a Wikipedia?

    — Não.

    Guardou o telemóvel, cuspiu no chão e foi-se embora.

    Era um tempo em que não havia controlo sobre nada, embora as pessoas pensassem o contrario.

    Passados alguns segundos, sem que ninguém desse por isso, as cinzas soltaram-se da urna quase sem a acção do vento e esvoaçaram para um tempo que ainda há-de vir.

    Texto de Ruy Otero (artista media). Imagens: The Swimming Pool Project.

  • Longe de ti

    Longe de ti

    Seis minutos e meio de uma canção particularmente melodiosa, com os instrumentos, o ritmo e a tessitura das notas e da voz em perfeita harmonia com uma letra e um refrão que devem figurar no cânone das melhores músicas românticas portuguesas do primeiro quartel deste século.

    A música à distância de um click:

    Música de Bruno Rama(©Direitos reservados). 

    Texto de Manuel Monteiro.

  • Para que não te sintas muito só

    Para que não te sintas muito só

    Imagina uma mulher solitária que tenha perdido sua única amiga. Pois bem, sou eu.

    Morreu Lolita, minha cachorrinha. Faleceu, coitada, aos oito anos. Dizem que doze meses na vida de um cão correspondem a sete anos humanos. Portanto, se fosse gente, estaria com 56 anos.

    Compramos Lolita quando eu ainda integrava o mundo insosso das mulheres casadas.

    Estávamos – era um dia esplendoroso de verão – num bar de praia quando passou por nós uma velha encarquilhada arrastando pela coleira um minúsculo cachorrinho marrom. Ele correu até ela, pediu-lhe que parasse por um instante e ajoelhou-se para afagar o cãozinho. Havia tido um da mesma raça e cor, quando menino. Quis saber onde poderia comprar um igual.

    A bruxa deu a ele um cartão com o endereço do negociante de cães.

    Naquela época eu não era tão gorda e a gente ainda mantinha aquilo que se convencionou chamar vida amorosa. No papel de esposo, ele condescendia em transar uma vez por semana comigo, então uma fogosa senhora de trinta e nove anos.

    Como não tínhamos filhos, eu achava que devíamos gastar toda nossa energia em causas nobres: grandes comilanças e fornicação frequente, por exemplo. Ele não pensava o mesmo. Era então um melancólico sujeito de quarenta e oito anos e nessa idade, como sabemos nós, as mulheres, todos eles estão liquidados.

    Nos dias seguintes, ele insistiu muito. Precisava comprar um cachorrinho, de qualquer jeito. Queria voltar ao passado, à infância perdida. Num desabafo que me deixou magoadíssima, disse que necessitava dar vazão ao seu instinto paternal, que meu útero improdutivo insistia em cercear.

    Um dia, cedi, mas com uma condição.

    – Nunca na puta da minha vida eu cato cocô. Um só que seja. Mesmo que sequinho, desidratado, sem cheiro, cocô de ração.

    Sou daquelas mulheres que não têm papas na língua. Meu pai era policial e foi com ele que adquiri um vocabulário truculento que, adulta, aperfeiçoei nas muitas redações de jornais pelas quais passei.

    Dois anos depois da chegada de Lolita o casamento ruiu.

    Numa noite, ao retornar de uma viagem de trabalho, não achei uma só peça de roupa dele no guarda-roupa. O cretino levara também todos os discos e livros de que mais gostava. Deixou para mim todo o rebotalho. Mais a cadelinha, com um bilhete amarrado na cauda.

    “Lolita fica, para que não te sintas muito só.”

    Então, chorei.

    Desde pequena, cultivei um mito: eu não chorava, nunca. Como toda gordinha, eu vivia rindo. Ria de mim, mas também e principalmente dos outros. Herdei a risada escancarada e escandalosa do meu pai.

    Naquela noite, desmontei. Caí de joelhos, berrando como uma condenada. Eu sabia que ele não gostava mais de mim, mas, como era um covarde, julguei que jamais teria coragem de me abandonar. Depois me estendi no chão e me arrastei como lesma.

    “Lolita fica, para que não te sintas muito só.”

    As pessoas simplórias podem ser terrivelmente cruéis. Ele não tinha discernimento suficiente para perceber a tremenda humilhação embutida naquelas palavras e, especialmente, no fato de ter amarrado o bilhete naquele lugar.

    Quando uma mulher inteligente se reúne a um homem de condição intelectual inferior a relação é sempre particularmente dolorosa.

    Meu choro avançou noite a fora. Eu descontava com aquele pranto sentido os muitos anos de risos tolos. Chorei por todas as vezes em que, precisando chorar, me contentei com uma risadinha cínica.

    Os gordos são assim: vão além do limite até que, um dia, explodem.

    Muitas horas depois, quando o dia já se anunciava na janela aberta, adormeci. Tinha chorado até mais do que o necessário. Estava seca para todo o sempre.

    Pois bem, nesta madrugada, seis anos depois da fuga do dono, morre a cadela do bilhete desonroso e aviltante.

    Não fui vê-la. Acho que a morte passa muito bem sem a minha presença.

    Odeio cemitérios e hospitais. Amo os bares, que são a negação da morte e da doença. Mas sei também que os bares são o refúgio da alegria e que toda a alegria é vã e vazia. Mas nós, os gordos, somos intrinsecamente superficiais.
    Eu soube da morte de Lolita pela empregada. Ela me disse a seguir que ia pedir ao porteiro do edifício que se desfizesse do corpo.
    Quando o porteiro chegou, eu quis saber dele como daria sumiço na cachorrinha. O velhote sacudiu os ombros, espetou os beiços e disse que ao sair do serviço, à noite, jogaria o corpo dentro da primeira lata de lixo que encontrasse.
    Não gostei da solução. E nem queria que a morta passasse o dia estatelada na minha área de serviço. Peguei o telefone e chamei um veterinário.
    Há muitos veterinários aqui no bairro. Hoje a maioria das pessoas sabe que é melhor ter um papagaio ou um iguana do que um filho. Não se desperdiça dinheiro com escola ruim e o carinho que se tem depois é maior.

    O veterinário era um jovem risonho e falante.

    – Qual é a religião da senhora? – perguntou-me, à queima-roupa.

    – Fui católica – respondi. – Frequentei missa até completar catorze anos, mas não gostava da confissão, da hóstia colada no céu da minha boca e do bafo de cebola do padre.

    – Para animais católicos, temos um cemitério exclusivo. É lindo, com túmulos de excelente qualidade, enfeitados com cruzes e anjos. Fica num morro pedregoso, a vinte quilômetros daqui. É um terreno muito seco. Ali, os animais não se desintegram facilmente, mas, se a senhora quiser reforçar, podemos embalsamar…

    – Quero que Lolita se funda com a terra. Quero que morra inteiramente.

    Por um instante, ele ficou suspenso. Aquela minha ideia de uma morte irrestrita, integral, o desnorteou um pouco.

    – E quanto aos rituais?

    – Como assim? – perguntei.

    – A senhora quer que rezemos por ela? Orações, missa?

    – Missa por uma cadela? Tu estás me gozando?

    Uma ruga aprofundou-se no meio da testa dele. Não, não estava gostando do meu jeito. Encarou-me, francamente contrariado. Todos eles odeiam mulheres que fazem muitas perguntas.

    Suspirou fundo e piscou os olhos. Isso pareceu acalmá-lo.

    – Mentimos para o sacristão. Como o contrato é feito por telefone, se inventa uma biografia para ela. Será, por exemplo, Maria da Paz Barqueiro, vinte anos, estudante, que morreu atropelada na saída da universidade. Se a gente paga as taxas direitinho, eles não fazem perguntas…

    – Não quero missa – cortei, ríspida.

    – Cânticos, leitura de salmos?

    – Nada! Era uma cadela agnóstica, como eu.

    O rosto do jovem veterinário assumiu uma expressão profissional de tristeza. Havia concluído que eu estava psicologicamente abalada pela morte do meu animalzinho de estimação.

    – A senhora não gostaria de cremá-la?

    – Como assim? – perguntei ao mesmo tempo em que saltava da cadeira.

    Meu movimento brusco o assustou. Ele não imaginava que eu, gorda como sou, fosse tão ágil.

    – Não se ofenda! A senhora disse que gostaria que ela desaparecesse totalmente. Então resolvi sugerir que…

    Parei diante dele. Lentamente, o rapaz afundava no sofá, ruborizado. Tinha belos olhos negros, francos, leais.

    – Gosta de ler, meu jovem? – perguntei.

    – Sim.

    – Que tipo de coisa?

    – Leio obras sobre a minha profissão.

    – Sei. Hoje em dia todos só leem jornais e revistas especializadas. Precisam avançar na profissão. Todos querem ganhar o rico dinheirinho. Mas eu só leio livros. Livros de contos! Sabe o que é isso?

    – Sim, faz uns dois anos, li um. Não me recordo do nome do autor, mas uma história me impressionou. Era sobre um pai que batia no filho quando ele não tirava notas boas nas provas. Lembrei do meu pai. Ele me puxava pelas orelhas quando eu me saia mal… Mas, quanto ao caixão para a falecida, temos urnas funerárias para todos gostos e orçamentos.

    – Até mesmo para os bichos que são cremados?

    – Naturalmente são produtos menos dispendiosos – ágil, ele sacou um livrão do interior da sua pasta.

    Era o mostruário de caixões.

    – Vamos fazer o seguinte – eu o impedi de abrir o livro. – Enterra Lolita num lugar que seja úmido. Mulheres e cadelas sentem muita sede. Prefiro que ela fique perto de um arroio. Quanto ao caixão, enfie ela dentro de um decente. Que não seja nem muito vagabundo nem muito caro.

    – A senhora gostaria de visitá-la mais tarde?

    – Não. O que realmente interessa de um ser que morre são as imagens que ele nos deixa. Essa é a minha religião. A religião das imagens que ficam na memória dos sobreviventes.

    – Respeito todas as religiões. Se um muçulmano ou um judeu vier até a minha empresa, atendo na hora. E rezo as orações que pedem, só não garanto que minha pronúncia de árabe ou de hebraico será boa.

    Encarei-o.

    Não, ele não estava debochando de mim. Era um desses jovens profissionais competentes e íntegros. É deles que a nação precisa. Um dia eles serão a maioria e então nosso país afundará na mediocridade satisfeita em que vegetam as nações que têm população educada.

    – A imagem de Lolita ficará para sempre aos meus pés – eu disse. – Quando eu me sentar diante da televisão, ela vai se estender no tapete: a carinha entre as patas dianteiras, as narinas inquietas, os olhinhos piscando. Dormirá em seguida. Mas, de quando em quando, será sacudida por um pesadelo. Cadelas sonham muito.

    – Posso, então, recolher o animalzinho? – disse ele e se pôs de pé, ansioso por sair de perto de mim.

    – Mercedita! – gritei. – A moça vai levar o senhor.

    A moça parece uma velha. Tem trinta e três anos, mas aparenta setenta. Vê-la ao despertar faz um bem enorme ao meu ego.

    Mercedes cuida do meu apartamento de mulher sem homem e faz a comida que, sem prazer, engulo em grandes quantidades. Se um dia ela se for, como Lolita, este apartamento vira uma tapera.

    – Mercedita, por favor, conduza o doutor até o local onde está a falecida.

    Mercedes pesa mais de cem quilos e mede apenas um metro e meio. Caminha como um lutador de sumô. Faz chocalhar copos e taças na cristaleira. Sempre que olho para ela, sinto-me um manequim. Afinal, peso noventa quilos, mas meço um metro e setenta.

    Quando chegaram à área de serviço, escutei a voz esganiçada de Mercedes.

    – Doutor, a patroa lhe disse se vai comprar outro cachorro?

    O veterinário não respondeu.

    Pouco depois, a voz dela soou mais alta, mais esganiçada, enfurecida.

    – Eu já não aguentava mais juntar tanta bosta!

    Quando escutei a batida da porta de área de serviço, por onde saíra o cadáver daquela que fora minha companheira por longos anos, falei à imaginária cachorrinha que se acomodou junto aos meus pés.

    – Feitas as contas, Lolita, saíste no lucro. Tiveste vida mansa numa casa de mulheres gordas. Comeste até ficar uma bola. Dormias o tempo todo. E o melhor: não conheceste varão. Eras uma cadela sadia e tiveste uma boa morte, fulminante. Foi melhor que morresses tu. Eu tenho a quem recorrer. No trabalho, falo com as idiotas que me cercam. São estúpidas, mas são numerosas. Fico variando de uma para outra e isso as torna suportáveis. Mas tu só tinhas a mim. Quando gemias, eu nem prestava atenção em ti. Então, eu te pergunto: se eu morresse antes, quem cuidaria de ti? Mercedita? Nunca! Ela costuraria o teu cuzinho.

    Lourenço Cazarré é escritor.

    Publicado originalmente no livro livro Exercícios espirituais para insônia e incerteza, 2022, Insular Editora (Florianópolis).

  • Flor da pele

    Flor da pele

    Paulo Vero é homem dos sete ofícios.

    ©Direitos reservados

  • A doçura dos limões em Cinema Paradiso

    A doçura dos limões em Cinema Paradiso

    As primeiras imagens que surgem na tela quando começa o filme Cinema Paradiso de Giuseppe Tornatore, de 1988, são um vaso com uma pequenina planta brotando da terra, num beiral com vista para o mar, que se vai afastando, num travelling, até ser exibida uma taça com limões. Já vi o filme variadas vezes, até porque creio ser aquele que prefiro ver e rever sem me cansar, e, de todas essas vezes, fica-me a taça de limões na memória, desdobrando significados para lá da imagem.

    Cinema Paradiso é um filme sobre o amor, o cinema e o amor ao cinema, com música de Ennio e Andrea Morricone. Narra a história de Salvatore e de como se apaixonou, enquanto acompanha a sua infância e crescimento numa sala de projecção de filmes, criando uma amizade duradoura com Alfredo, o projectista. Salvatore afasta-se, a dado momento, da família e da vila onde vivia, na Sicília, por saber ser essa a melhor forma de vingar no mundo do cinema. O filme decorre por meio de uma analepse, sendo que são breves os momentos nos quais assistimos ao tempo presente de Salvatore, que recorda a sua infância na vila e na sala de cinema após receber uma triste notícia.

    Sabemos que o limão é um fruto cítrico, amargo, com múltiplos usos alimentares e domésticos. No filme, as primeiras imagens são, por isso, reveladoras da sua essência: para lá de todas as fugas e evasões, do sonho e do cinema, há um travo amargo que fica na idade adulta quando deparamos com a perda e com aquilo que poderia ter acontecido. O raciocínio hipotético, accionado por meio da imaginação e da evocação, adquire um peso sombrio no meio de todas as memórias – memórias felizes, de um menino que cresceu rodeado de filmes e de histórias de amor.

    Há um pormenor peculiar no enredo: a acção decorre no tempo de Mussolini, quando, nos filmes, tudo aquilo que era considerado inapropriado ou desajustado dos costumes e valores que se pretendiam difundir era censurado. Era o caso dos beijos no cinema. Aliás, antes de exibir qualquer filme, Alfredo tinha de chamar o pároco da vila a vê-lo antes de todos os outros, para que este pudesse certificar que o filme era adequado ao público, e solicitar, se fosse caso disso, a censura e recorte da fita das tais cenas consideradas inapropriadas. Assim, os beijos eram recortados.

    Este pormenor associa-se, simbolicamente, aos limões, porquanto fora um vestígio amargo de um tempo obscuro, um tempo que silenciava e omitia tudo o que fosse contrário ao regime. Mas há uma outra leitura que podemos fazer da taça com limões, exibida depois do pequeno rebento na terra. Para tal, revisitemos a história da mitologia grega dos pomos de ouro do Jardim das Hespérides, presente de núpcias que Gaia oferecera a Hera por ocasião da sua união matrimonial com Zeus. Embora as teorias apontem, maioritariamente, para maçãs douradas, há estudiosos que indicam que os pomos de ouro (literalmente, frutos de ouro) poderiam ser marmelos, cidras ou limões. A ser verdade (será difícil, visto que os limões terão chegado à Grécia muito depois de Hesíodo ter composto a sua Teogonia), o limão seria assim o fruto simbólico do amor duradouro, da fecundidade e da família. Coincidentemente ou não, em redor da mesa onde está a taça com limões do filme Cinema Paradiso estão sentadas a mãe e a irmã de Salvatore, que o procuram e pensam sobre ele.

    Teorias à parte, Cinema Paradiso é um grandioso filme. Merece ser visto e revisto (e escutado! A música é sublime!), quando mais não seja para descobrir a doçura que pode haver num limão.

    Eduarda Gil Barata é poetisa e doutorada em Estudos Literários Comparados pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

  • Vende-se armazém

    Vende-se armazém

    Guardo ressentimentos.

    Guardo tristeza e ciúme.

    Arrumo meticulosamente a inveja

    A raiva, o ódio e o desdém.

    Arranjo sempre espaço para o azedume

    Chego ao ponto de ordenar a ordem

    E todas as coisas muito correctas

    Gosto de todas elas bem alinhadas e no seu sítio

    E nomeio-as, em prateleiras distintas

    Tenho esse armazém dentro de mim.

    É meu. Herdeio-o, nem sei bem. Mas é meu.

    Não pago renda, mas pago o IMI

    E custa-me.

    Podem imaginar o preço do infinito..

    Custa-me pagar para guardar o que não quero.

    Quero ser livre, quero ser mais leve

    Na magreza do corpo, contrasto no peso do ser

    Por isso, vendo a bom preço este imóvel

    Localizado na baixa da Alma

    Para o remover de mim, de vez.

    O recheio está incluído.

    Luís Serra Santos é poeta lisboeta e pugilista nos tempos livres