Categoria: O Quadrado

  • Mickey Rourke

    Mickey Rourke

    I. Sunset Boulevard, 18 de Março de 1988

    Mickey Rourke acordou às onze e vinte da manhã, com os estores mal fechados a riscarem a cara com luz. Tinha dormido em cima do sofá, vestido com umas calças de fato-de-treino encardidas e uma t-shirt com o logotipo do Barfly. O cão dormia enroscado na carpete. Uma garrafa vazia de Bourbon tombada ao lado, e uma sandes de atum esquecida em cima do piano compunham a pintura hiper-realista.

    Ficou ali, deitado, a olhar o tecto. Não pensava em nada. Ou, pelo menos, em nada que valesse a pena dizer em voz alta para si mesmo. Mickey falava sozinho muitas vezes com a sua voz calma e serena, igual à dos filmes. Sentia o corpo como um armário mal fechado e tinha a conta bancária cheia com trabalho de estúdio e capas de revista. Às vezes não sabia o que fazer ao dinheiro. Este dia guardara-o só para si. Iria ser calmo. Como gostava.

    Tinha um almoço com um produtor às treze horas — um dandy fora de época que usava camisas brancas com suspensórios e falava devagar, como se cada frase tivesse de ser escutada por fantasmas. O papel era num filme qualquer de acção, com tiros a mais e diálogos a menos sobre nada. Mickey disse que ia pensar, mas já sabia que ia dizer que não, embora não soubesse bem gerir a carreira – ou talvez a carreira não o soubesse gerir bem a ele.

    Gostava de argumentos com frases curtas e personagens estragadas, mas motivantes e idiossincráticas.

    Levantou-se, foi à casa de banho. Enxaguou a cara. Olhou-se ao espelho. Sorriu e decidiu deixar ficar a barba pela qual era conhecido. Uns dias antes, uma jornalista de uma revista qualquer escrevera que Mickey tinha a barba de três dias mais bela e sexy do planeta. E agora estava ele ali, na casa de banho, sozinho com a sua barba de três dias.

    Estava bonito de uma forma que começava já a parecer perigosa. O rosto ainda era o de um deus grego com olheiras, mas havia já pequenas fissuras na estátua, que só ele conhecia.

    Desceu para o Chateau Marmont. Pão tostado, ovos mexidos, e sumo de laranja deram-lhe algum ânimo.

    Leu a Variety. Havia uma nota pequena sobre um projecto novo do Coppola. Pensou em ligar-lhe.

    Mas não ligou.

    Encontrou-se com o produtor mas, como previsto, não aceitou a proposta. O projecto tinha tiros a mais e frases a menos. Que se foda o cinema.

    Às três da tarde, foi ter com o seu treinador de boxe no ginásio em Venice. Trinta minutos de corda, saco pesado, e um pouco de sombra com um cubano calado que batia como se o mundo lhe devesse explicações. Mickey adorava o som dos punhos no couro – era uma música mais sincera que os diálogos de qualquer filme.

    Ao sair, comprou cigarros e uma Coca-Cola. Um puto reconheceu-o:

    — Ei, tu és o gajo do Nove Semanas e Meia!

    Mickey fez um gesto com a cabeça. Sorriu. O sorriso de quem já sabe que está a ser visto em câmara lenta.

    Ao final da tarde, subiu a Mulholland Drive. Parou num miradouro qualquer. E um cigarro apareceu na sua boca como que por magia. O céu tinha aquela cor indecisa de um corpo a arrefecer. Pensou em escrever um guião. Pensou em chamar a mãe. Pensou em nada. Pensou em tudo. Pensou em Kim Basinger quando lhe chamava cinzeiro humano durante a rodagem de Nove Semanas e Meia.

    Voltou para casa no seu carro com o rádio a bombar Sonic Youth dos primeiros tempos. Passou pela loja de animais, comprou comida para o cão. Às oito da noite, encomendou comida chinesa. Jantou em silêncio, a ver o Raging Bull na televisão. Mas as coisas não andavam bem com De Niro desde Angel Heart.

    Sentia-se menosprezado por todos, mesmo que fosse capa da Variety. Na sua cabeça era tudo inexplicável. O que acharia o pai disto tudo?

    Às dez e vinte acendeu dois cigarros de uma vez. Pegou num caderno de capa preta. Escreveu uma frase só:

    “A câmara nunca mente, mas também nunca conta tudo.”

    Depois fechou o caderno. Foi até ao quarto. Tinha que acordar cedo na manhã seguinte.

    Antes de se deitar, abriu a gaveta da mesa-de-cabeceira. Lá dentro encontrava-se um bilhete dobrado, escrito por ele próprio, meses antes.

    Letra torta, lápis gasto. Um dia serás Napoleão. 

    Gostava de ler essa frase antes de dormir. Era uma mania.

    Voltou a dobrar e guardou o papel. Fumou mais um Lucky imitando-se a si mesmo e depois adormeceu com o cão aos pés da cama, como se isso bastasse para segurar o mundo no lugar.

    O cão chamava-se Napoleão.

    II. Downtown LA, 4 de Outubro de 1995

    Mickey Rourke acordou com frio. Estava mal vestido. Um casaco de cabedal coçado, umas calças de ganga velhas e uma t-shirt que dizia “Kill Your TV”. Dormira vestido numa espécie de apartamento que era também cozinha, armário e ginásio falhado. Não era pobre. Também já não era rico da maneira absurda como tinha sido. Tinha dinheiro suficiente para não pensar nele todos os dias e pouco, o suficiente para começar a pensar nele outra vez.

    Ficou sentado na cama algum tempo, a olhar para as mãos. As articulações doíam. O nariz já fora partido mais do que uma vez desde que voltara ao boxe. Os filmes não tinham parado exactamente, mas tinham ficado piores, com papéis mais pequenos, e cada vez menos gente dava por eles. Os amigos também se afastavam.

    Não eram bem amigos.

    Tinha um encontro às dez com um tipo que prometera apresentá-lo a um produtor russo. Um papel secundário num filme de gangsters que provavelmente acabaria directamente no mercado de vídeo, algures na Europa de Leste. Mickey disse que ia.

    Vestiu-se com outra roupa do mesmo estilo. Saiu para a rua. Ninguém o reconheceu. Uma mulher empurrou-lhe o ombro por acidente e pediu desculpa em espanhol. Mickey ainda disse, naquele sotaque de Hollywood em que só aparecem duas ou três palavras em espanhol no meio de outras tantas, parecendo sempre mais mexicano:

    — Tranquilo. Já não sou ninguém. E no ombro nunca me dói.

    Tomou um café num bar ao lado de uma lavandaria. Uma televisão no canto passava um episódio repetido de Baywatch. Pamela corria em câmara lenta naquele momento. Mickey olhou-a como quem olha um quadro antigo, já sem saber se gostou ou não.

    Foi até ao ponto de encontro. O russo não apareceu. O amigo que o ia apresentar disse que tinha sido um mal-entendido. Mickey não se zangou. Já aprendera que o ressentimento é um luxo ao qual não se iria entregar.

    Ao voltar para casa, passou por um cartaz de Pulp Fiction meio rasgado. Parou um segundo. Sabia que o papel tinha ido parar ao Bruce Willis. Tarantino tinha-o querido para aquele papel e Mickey recusara. Estava demasiado metido nos combates, ou demasiado fora de si. Já nem sabia. Só sabia que agora o filme estava em todas as esquinas — e ele, em nenhuma.

    Continuou a andar.

    Em casa, abriu o frigorífico. Havia cerveja, leite, meio limão, mostarda e uma caixa de comida chinesa com dois dias. Bebeu a cerveja de pé.

    Num armário encontrou uma cassete VHS sem caixa. Na etiqueta, escrita à mão, dizia apenas: RUMBLE.

    Meteu-a no vídeo.

    A imagem apareceu com riscos. Matt Dillon estava sentado numa mota. Dennis Hopper parecia já ter nascido cansado. Depois apareceu ele.

    Mickey aproximou-se da televisão e ficou a olhar para a própria cara durante alguns segundos. Andou para trás e carregou no play. Viu novamente. Recuou outra vez.

    À terceira desligou a televisão.

    Foi até ao canto da sala onde tinha pendurado um saco de boxe. Tirou o casaco, ficou de t-shirt e começou a bater.

    Devagar primeiro Esquerda. Direita. Esquerda. Depois mais depressa.

    O saco abanava sobre a sala enquanto o Mickey Rourke de 1983 permanecia congelado na sua mente. Como se a sua mente fosse um ecrã.

    Bateu durante quinze minutos. Talvez vinte. Parou quando começou a doer-lhe uma das mãos. Sentou-se no chão. O telefone tocou. Mickey deixou-o tocar.

    Voltou a tocar. Não atendeu. Devia ser a namorada.

    Ao fim da tarde saiu outra vez. Comprou cigarros, comida para levar e uma revista de cinema que folheou enquanto esperava. Havia actores novos que não conhecia. Um deles tinha vinte e poucos anos e alguém lhe chamava “o novo Mickey Rourke”. Mickey fechou a revista.

    — Boa sorte.

    Voltou para casa já de noite. Encontrou um postal de aniversário na caixa de correio. Estava quase três semanas atrasado. Era da mãe.

    Dizia: “A vida ainda te vai dar uma surpresa. Beijo.”

    Levou o postal para cima.

    Comeu em frente à televisão desligada. Depois pegou num velho guião do The Pope of Greenwich Village do qual nunca se desfizera e começou a ler uma cena. No verso de uma das páginas encontrou uma frase que escrevera à mão anos antes.

    A lápis, quase apagada:

    “Um homem pode perder tudo menos a sua última frase.” Sorriu.

    Dobrou o papel e pensou que aquilo podia não querer dizer nada. Gostava da ideia das frases tanto destilarem enigma como estupidez.

    Deitou-se no sofá a lembrar-se de quando foi Mickey Rourke. Já fora uma marca. Agora era uma anedota. Uma anedota com pouca piada.

    Do outro lado da rua, um cão vadio tinha parado junto à janela entreaberta. Ficou ali a olhar para dentro.

    Mickey olhou para ele. Durante alguns segundos nenhum dos dois se mexeu.

    O cão acabou por atravessar a rua e desapareceu.

    Mickey fechou os olhos.

    Fez-lhe lembrar o Napoleão.

    III. Nova Iorque, 23 de Fevereiro de 2009

    Mickey Rourke acordou num hotel de quatro estrelas em Manhattan. Na noite anterior tinha perdido o Óscar para Sean Penn. Depois de meses a ouvir falar do seu regresso, da ressurreição, do milagre, da segunda vida, acordava agora sem a estatueta em cima da mesa. Não era particularmente grave. Já tinha perdido coisas muito mais importantes. Cães, por exemplo.

    O telefone tocou. Era um jornalista inglês que queria confirmar uma entrevista para as 11h. Disse que sim, com a voz ainda meio mergulhada em álcool.

    Olhou-se ao espelho. A cara já não era a mesma. Havia ali um Frankenstein afectivo feito pelo bisturi, quedas, combates e noites mal dormidas. Mas os olhos ainda eram dele. Iguais aos do detective do Ano do Dragão. Iguais aos do chavalo de Miami que só queria salvar o irmão da prisão.

    Tomou banho. Vestiu-se com vagar. Jeans, camisa preta, botas velhas. Desceu. Café duplo, dois ovos cozidos, torradas secas. Um fã pediu-lhe um autógrafo com um DVD de Sin City. Outro tirou uma foto com ele no hall. Mickey posou sem sorrir. Nunca gostou de sorrir para máquinas, muito menos humanas.

    Às onze, fez a entrevista. Falou da infância. Do pai que o deixou. Do boxe. Do cão. Do cão novo. Do outro que morreu. E disse, a certa altura, quase em sussurro:

    — A fama destrói o que não consegues esconder. Sabias que um cão já me salvou do suicídio?  

    O jornalista não percebeu mas ele não corrigiu.

    À tarde, deu um salto ao ginásio. Dez minutos de bicicleta. Quatro séries leves. Suor discreto, mantinha-se em forma apesar de tudo. The Wrestler provava-o.

    Pensou que continuava a ter medo de morrer de repente, como um lutador que não ouve o sino. Ao sair, ligou a um velho amigo da altura do Rumble Fish.

    — Ainda estou aqui!

    Do outro lado, silêncio. Depois riram. Mais uma ou outra piada ocasional e desligaram. Mickey gostava de falar ao telefone com os amigos, mesmo que fosse para não dizer nada.

    À noite, jantou sozinho num italiano pequeno em Chelsea. Risotto de cogumelos e um copo de tinto. Um casal jovem olhava-o com curiosidade, mas não se aproximou. Mickey estava sereno. Já não precisava que o mundo lhe batesse à porta. Gostava de não ser reconhecido, mas isso era quase impossível, por tudo o que tinha sido a sua vida e até pela nomeação repentina ao Óscar.

    De regresso ao quarto, tirou os sapatos. Pegou num envelope antigo, guardado entre páginas de um livro de Faulkner. Dentro, um bilhete escrito por ele, talvez dez anos antes.

    Letra insegura, suja de gordura:

    “Se te voltarem a aplaudir, finge que não ouves. Só os cães é que voltam quando são assobiados.”

    Conseguiu rir. Dobrou novamente, acendeu um cigarro e apagou a luz com a leveza de quem já sabe que nunca se morre porque todas as mortes são inúteis.

    IV. Hollywood Forever, 17 de Maio de 2032

    Mickey Rourke foi enterrado numa segunda-feira cinzenta, sem escândalo, sem imprensa, sem discurso de celebridade e sem qualquer sinal de que o mundo, mesmo o pequeno mundo da indústria do entretenimento, tivesse dado por isso. Talvez fosse esse o desfecho mais justo para alguém que passou metade da vida a tentar sair da própria pele e a outra metade a tentar voltar para dentro dela.

    A cerimónia, se é que se pode chamar cerimónia ao que aconteceu, consistiu num funcionário do cemitério a confirmar os dados num tablet rachado, três palavras ditas por uma voz sintética com sotaque britânico e quatro pessoas que não se percebia bem se estavam ali por afecto, por culpa, por acaso, ou por erro de localização no Google Maps.

    O corpo tinha sido cremado duas horas antes numa unidade automatizada que processava vinte e dois cadáveres por dia, com temperatura regulada e opção de música ambiente – uma funcionalidade que, segundo o sistema, ele não activara, talvez por esquecimento, talvez por desinteresse, ou talvez por achar, com alguma razão, que qualquer música de fundo no momento da incineração era um insulto à sua última performance.

    Os presentes eram um ex-agente com casaco de napa, cabelo pintado com espuma e um relógio de pulso digital com ecrã partido que, ainda assim, vibrava de quinze em quinze minutos com alertas de reuniões inexistentes; uma mulher que dizia ter partilhado com ele um quarto de motel e um par de comprimidos numa noite dos anos noventa que ninguém registou; um actor falhado com cara de figurante permanente e um ficheiro PDF com as falas de Rourke num filme que nunca chegou a ser feito; e ainda um miúdo magro, com calças demasiado curtas e um iPhone nas mãos, provavelmente à procura de um título de artigo para o seu blog “Necropolítica Estética em Hollywood”.

    A voz sintética começou a falar às onze em ponto. Disse:

    “Michael Rourke, conhecido como Mickey, actor, lutador, símbolo de uma época em que o rosto ainda dizia mais do que os dados”.

    E depois houve uma falha no sistema. Já era habitual desde 2030.

    Repetiu-se a palavra “ícone” três vezes, como se até a máquina não soubesse bem o que ele foi, ou como nomeá-lo agora, que já não vendia nada.

    O ex-agente aproveitou para fazer scroll num feed de notícias falsas.

    A mulher olhava para a urna com as cinzas como quem olha para um móvel barato comprado à pressa.

    O actor encostou-se a uma árvore e disse para ninguém em particular que Mickey era “intratável, mas verdadeiro”. O miúdo abriu uma aplicação de notas e escreveu:

    “A última estrela analógica morreu num mundo que já não sabe distinguir um actor de um avatar.”

    Guardou o telemóvel. Não parecia triste. Parecia atento, clínico, quase aliviado por poder finalmente classificar Rourke como um artefacto.

    Depois disso não se passou mais nada. Não houve flores. Não houve palmas. Não houve drones com câmaras. A única coisa que apareceu foi uma notificação automática da conta verificada de Mickey Rourke no novo X, o Y, programada meses antes por um gestor de redes despedido entretanto, com a frase:

    “Continuo vivo nos vossos ecrãs. Vemo-nos na próxima sessão. Não desistam”.

    Teve 17 likes, 2 reposts e um comentário:

    “Já foste, champ.”

    O ex-agente disse:

    — É melhor irmos andando.

    A mulher acendeu um cigarro electrónico todo partido mas que ainda bombava nicotina e disse que tinha 8% de bateria no carro e alguma gasolina que andava bem cara, e se queria boleia para algum lado. 8% ainda dava para alguma coisa.

    O actor falhado não quis, foi a pé. O miúdo ficou mais um bocado, tirou uma foto da campa e perguntou à Siri em voz baixa:

    — Quem foi Mickey Rourke?

    E a Siri respondeu:

    — Mickey Rourke foi um actor norte-americano. Viveu entre 1952 e 2032. É conhecido por filmes como Nove Semanas e Meia, Rumble Fish, The Wrestler, Sin City. Queres que abra a Wikipedia?

    — Não.

    Guardou o telemóvel, cuspiu no chão e foi-se embora.

    Era um tempo em que não havia controlo sobre nada, embora as pessoas pensassem o contrario.

    Passados alguns segundos, sem que ninguém desse por isso, as cinzas soltaram-se da urna quase sem a acção do vento e esvoaçaram para um tempo que ainda há-de vir.

    Texto de Ruy Otero (artista media). Imagens: The Swimming Pool Project.

  • O futuro já foi

    O futuro já foi

    — Sabes como é que se chama ao futebol de rua em Veneza? Polo aquático. –respondeu de pronto o Miguel Cardinho, sem me deixar sequer pensar depois de me fazer a pergunta enquanto caminhávamos na zona industrial.

    Mas quem é esse com nome de coiso? Nome de quê? Cardinho?

    Ele nasceu em Marrazes, no distrito de Leiria, e antes de vir estudar para a E.S.A.D das Caldas da Rainha foi, com quinze anos, para o Porto, para a Escola Artística e Profissional Árvore. Tem para aí uns 30 anos, mais ou menos, e trabalho com ele há uns anos. Tenho de escrever isto.

    Tendo em conta a veracidade deste texto, devo começar por afirmar peremptoriamente que, se há coisa que tem poesia, são os objectos. Mesmo aqueles condenados ao abandono, porque haverá sempre alguém que olhe por eles.

    Há nomes que adjectivam o Universo, já que o Cardinho anda por aí, actor numa coreografia anónima em que os detalhes e os objectos sem dono dançam ao ritmo da sua imaginação, tornando a vida numa coisa com glamour… mas ao contrário, e cheia de groove.

    Tudo o que é sujo está ao contrário, tudo tem o seu ponto de retorno, todo o mais tem um menos. Por isso, a doença em que Eles Vivem* não é para aqui chamada.

    É a política do espectáculo invertida.

    O Cardinho parece saber disso com outras «palavras» mágicas. E é nessa sua velocidade e voragem imaginativa, em que o Ser e o Ter se tocam, que nasce a forma e a escultura para a vida eterna, que, numa linguagem mais prosaica, será o design interno.

    Porque, por vezes, o design tem a sua arte aplicada à poesia, a única verdade que vale a pena cultivar. Aquilo que ele faz desequilibra, garante-nos que há futuro ou, pelo menos, que temos tempo.

    Ter tempo… que arrogância.

    Há sempre alguém que sabe romper com aquilo que, para o bem e para o mal, é o cliché contemporâneo, ou não estaremos nós no mundo sinuoso da sustentabilidade?

    É que há mesmo quem o seja a sério, como um íman achado na rua, colado a todas as carrinhas com caixa aberta à imaginação.

    E num ápice tudo fica cómico até, e podemos sorrir à gargalhada, porque a criação e o Criador estão lá para entreter — não as vítimas, mas a própria vida, como se ela já fosse uma espectadora de si mesma.

    Isto só para falar da cabeça do Cardinho, que saberá sempre dar luz ao velho chapéu de feltro que a há de proteger do sol, para que a sua longa estrada imaginativa não arda no Inferno dos outros.

    Olho para o seu antílope e vejo um filme de fantasmas; uso a mochila e viajo com a transparência que as viagens mais misteriosas pedem, resolvendo e evidenciando o paradoxo do viajante. Vejo efectivamente futuro naquilo que já iluminou o tempo e agora sustém outros objectos que precisem de repouso, tal qual as pessoas, não sendo fácil de denominar, como se o tempo fosse só uma piada; e por isso sento-me na cadeira que já viu pedais a seus pés, para descansar, como se eu fosse um objecto — um objecto que é preciso preservar

    Certo dia, o Cardinho olhou para uma cadeira de ciclista e pensou se seria possível que alguém se sentasse naquela bela cadeira sem estar em movimento. Claro que não!!! Pelo contrário, diriam os populares, como a televisão gosta de chamar às pessoas-píxel.

    No mundo do Cardinho, as cadeiras voam e até fazem a Volta a França, como o Astérix fez à Gália sem sair do sítio e sem nunca passar pela casa de partida.

    Porque aqui o ladrão nunca volta ao local do crime.

    E é tudo verdade como num fado da Amália, e é tudo cómico e é tudo fado.

    Quando olhamos para uma fotografia de uma peça do rapaz, sentimos logo o cheiro do papel, ou o gelo do ecrã que, à sua maneira, também luta contra o vazio.

    No fundo, trata-se disso mesmo: de uma luta contra o vazio quando olhamos para um objecto que já fez o seu trabalho e que é abandonado, muitas vezes, sem pudor.

    O vazio do Cosmos, espelhado naquele momento numa velha secretária que obedeceu toda a vida às leis da física para acabar no cemitério do Cardinho, que acredita em mortos-vivos.

    Até os objectos precisam de uma ordem natural que os impeça de ter fim. Porque o fim não existe, existe a finalidade.

    E o Homem, onde está o Homem?

    Estará a lutar para não descer de divisão?

    Não, dirá o Cardinho, que, felizmente e sem pressa, anda por aí.

    E só de saber disso, fico feliz. Porque, se anjos houver que olhem para o corpo-lixo, eles hão de cuidar de nós no próximo espectro, no avatar seguinte — isto para usar o Glossário Gamer.

    Um dia, todas as cidades vão ter o Miguel que merecem.

    ____

    *Referência ao filme They Live, de John Carpenter, de 1988

    Texto de Ruy Otero (artista media).

  • Crash

    Crash

    “Não são os carros que se esmagam — somos nós.”

    (frase ouvida num sonho, à saída de uma sessão de Cronenberg)

    Lançado em 1996, Crash marca um ponto de inflexão na carreira de David Cronenberg: depois de mais de uma década a explorar a fusão entre corpo e tecnologia no registo do terror visceral (Scanners, Videodrome, The Fly), o realizador canadiano aprofunda aqui a sua deriva filosófica, estética e quase clínica sobre a mutação da carne na era da mediação total.

    Adaptado do romance homónimo de J.G. Ballard — autor com quem se liga através de   uma obsessão estrutural pela frieza do desejo e pelo erotismo da catástrofe — Crash é uma obra deliberadamente incómoda, que estreou em Cannes envolta em polémica, tendo ganho o Prémio Especial do Júri presidido por Coppola, mas tendo sido também violentamente atacada por sectores mais moralistas, incluindo a crítica britânica, que exigiu a sua censura. Como se o filme fosse um elogio à violência e não uma crítica deliberada à profusão do sexo e do descontrole numa sociedade sanguínea hiper-irrealista.

    A produção foi anglo-canadiana, com orçamento relativamente contido, e o elenco – liderado por James Spader, Holly Hunter, Elias Koteas e Deborah Kara Unger – entrega-se com uma contenção febril, encarnando personagens que não têm passado nem futuro, apenas um presente sensorial, como se existissem já numa cronologia fracturada.

    A relação com Videodrome é evidente: ambos são filmes sobre interfaces — de ecrã ou de metal — que alteram ontologicamente o corpo, que o reescrevem como hardware sensível, como superfície mutável onde o prazer, a dor, a identidade e a morte se tornam equivalentes.

    Mas se Videodrome ainda propunha um delírio tecnológico sobre o controlo mediático, Crash entrega-se ao literal: não há conspiração nem metafísica. Há impacto. Há sangue e sexo a vaguear por todos os fotógramas.

    Até o sentimos na pele como se fosse realidade virtual.  

    Crash, o filme de David Cronenberg é de um autor obcecado por feridas e fluídos — e é, na verdade, um tratado estético-filosófico sobre a mutação do corpo na era da aceleração terminal, uma meditação visual sobre o colapso da diferença entre desejo e destruição, em que o prazer se torna inseparável da violência, e a identidade se dissolve na fusão entre matéria orgânica e superfície industrial como condição concreta da sensibilidade contemporânea.

    É talvez um filme sobre um corpo que possivelmente já não deseje viver, mas deseje sentir — e sentir depressa, sentir muito, ou apenas sentir algo, mesmo que para isso seja necessário rasgar a pele com aço e misturar o orgasmo com o odor do plástico queimado.

    Qualquer semelhança com a actualidade é verdadeira demais para ser real.

    Quer a dor como estado meta – não como consequência da violência, mas como atmosfera afectiva constante.

    Cronenberg, seguindo e transformando a lógica visionária e patológica de J.G. Ballard, parece filmar mais sintomas do que personagens.

    Não propõe uma narrativa linear, ainda que pareça, mas sim uma anatomia disfuncional da pulsão humana depois do colapso das estruturas iconográficas e comportamentais tradicionais – amor, moral, futuro, redenção, hipocrisia, e o resto do património emocional . Fá-lo com a precisão de um cirurgião cine-emocional que sabe da inexistência de corpo por curar. Existem apenas superfícies por reorganizar, interfaces por reprogramar ou gestos que se repetem até à exaustão (do espectador e das personagens-espectadoras).

    Tudo isto numa dança ritualística em que o acidente automóvel funciona como o único acto ainda capaz de produzir verdade – porque ainda produz carne visível, dor quantificável, afectação sem linguagem. Um embate que nos obriga, ainda que brevemente, a recordar que somos matéria: carne, osso, tensão, medo – e não apenas espectros que deslizam por interfaces invisíveis.

    Num tempo em que a pornografia foi colonizada pela pedagogia emocional, em que o corpo é objecto de estudo e estatística permanente, e em que o prazer precisa de ser justificado, codificado, consentido por múltiplas camadas de enunciação ética, Crash aparece como um gesto herético – não celebrando a violência, mas recusando a sua mediação. A violência torna-se, não um acto gratuito, mas uma manifestação profundamente estética.

    À Cronenberg. Isso é evidente.

    Trata-se de um realizador que se sente ao longe.

    Eu adoro.

    O cineasta consegue ainda mostrar e compor cinematograficamente o corpo na sua crueza: sem ícones, sem transcendência, sem redenção – apenas contacto, fricção, ruído, uma espécie de mística do impacto na qual a carne se torna liturgia e o carro, um altar profano em que a fusão entre sujeito e máquina é consumada como o único erotismo possível num mundo saturado de representação.

    O que incomoda em Crash não é o sexo. Aliás, nunca o sexo foi tão pouco excitante, tão mecânico, tão ausente de catarse.. O que incomoda é a ausência de sentido, a recusa da narrativa psicológica, a total desarticulação entre gesto e justificação, como se Cronenberg nos dissesse, sem dizer, que já não é possível representar o desejo senão como repetição do dano, como reinscrição da ferida, como simulação de uma fusão impossível entre corpos que já não querem tocar-se, mas apenas colidir.

    O toque tornou-se trivial, terapêutico, normativo – e apenas o embate brutal, frio e insensato é ainda capaz de interromper o circuito fechado do corpo domesticado.

    O filme, assim, não se inscreve na tradição do erotismo cinematográfico, nem sequer no território da pornografia soft (ainda assim) no sentido tradicional, mas antes numa terceira via perversa, clínica, topográfica, em que cada plano funciona como um mapa de cicatrizes, no qual o corpo deixa de ser superfície de prazer para se tornar arquivo de acidentes, banco de dados sensoriais que só adquirem valor quando danificados — como se a integridade fosse, paradoxalmente, uma forma de invisibilidade.

    Por curiosidade e até por uma afinidade cinematográfica óbvia, gostaria de ver Paul Verhoven a tratar este tema.

    Aconselho a verem os primeiros filmes holandeses do realizador em parceria com Rutger Hauer. Ambos os realizadores não fazem juízos morais às personagens, tornando a ironia e o body-horror ainda mais visceral.

    O olhar de Cronenberg em Crash disseca ao invés de erotizar, e aí está o aspecto fundamental da obra-prima do cinema de metal.

    A sua câmara, em vez de procurar o prazer do espectador, instala-se num registo quase clínico, cirúrgico, como se cada plano fosse uma lâmina que abre o corpo para o privar dele, entrando como um guarda-lamas afiado pelo espectador adentro.

    É neste gesto que o filme se torna uma anti-pornografia: porque recusa o pacto visual da excitação, nega a gramática da antecipação, dissolvendo a promessa de catarse e tornando-se orgânico, matéria viva e sanguínea.

    O sexo, quando ocorre, é mecânico, desprovido de prelúdio ou consequência, desprovido até de tensão narrativa. É acto sem aura, sem fundo e sem justificação.

    O que vemos não é a celebração do corpo, mas a sua deterioração meticulosa, a sua exposição a um desejo que já não quer consumar-se, mas apenas repetir-se.

    A anti-pornografia de Crash não se opõe moralmente à pornografia; ela é a sua decomposição simbólica, o seu cadáver estudado em plano médio, iluminado a néon, em que a carne serve apenas para registar o impacto. E isso é absolutamente cinematográfico. A música ajuda a entrar lá para dentro. Tanto da tela como do corpo. O filme dói.

    Crash é um filme radicalmente contemporâneo – ou melhor, um filme profético sobre a contemporaneidade – porque antecipa o modo como o desejo se tornaria uma função da repetição, como o trauma se tornaria a nova linguagem afectiva, e como o corpo passaria a ser monetizado pelo que sofreu, ou como o dano se tornaria a única forma de verdade. E como o cinema, na sua essência, deixaria de contar histórias para apenas reproduzir lesões.

    É um filme-lesão.

    Ao ver Crash hoje, no tempo do streaming higiénico, da pornografia pós-ética, do corpo “veganizado” e da emoção curada, sentimos que o filme não envelheceu: pelo contrário, envelheceu melhor do que o próprio mundo e já lá vão quase trinta anos.  Como aliás uma boa parte da obra de Cronenberg.

    Recordo Videodrome, Existenz, The Fly, ou mesmo Dead Ringers.

    Ao recusar participar na estética do conforto emocional, ao rejeitar a moral terapêutica que tudo justifica, expondo o corpo como terreno de colapso, Cronenberg capturou — com a frieza de quem já sabia — o exacto momento em que deixámos de existir para começar a simular.

    Não é o cinema que morreu — somos nós, a fingir que ainda vemos.

    O que vale é que na vida real (ou realizada), a excepção parece ser plausível e a vida pode ser estar sempre para além do cinema.

    Sei que sim.

    Texto e imagens de Ruy Otero, artista media.

  • Sud-Express

    Sud-Express

    Viajo num comboio para Madrid que partiu de Lisboa. Sou um lisboeta e um madrileño que nasceu em Alfama.

    Sou do Benfica e do Real Madrid.

    Eu e um indivíduo de aspecto duvidoso, que parece castelhano pelo excesso de gel no cabelo e pelos Yumas que tem calçados – uma marca que só os espanhóis admiram  porque eram as Puma espanholas dos anos 70 – reparo que somos os mais despertos, já que os restantes passageiros parecem meio adormecidos ou meio acordados.

    O espanhol pisca-me o olho como se tivéssemos uma cumplicidade nocturna – se calhar temos. Ele tem a máscara no queixo e, pouco antes, tinha-a na testa, em jeito de provocação. Mas, como todos dormiam… por mim, tudo bem.

    Devido à minha profissão de médico, já estava vacinado com a Pfizer, algo de que me arrependo, e já tinha sido também um dos famosos assintomáticos covidianos, acredite-se ou não.

    Em espanhol, a este tipo de personagens chama-se gamberros, os excessivos, os mal-educados, os chungas. Por ser de Alfama e do bairro madrileno de Vallecas, já estava vacinado contra os chungas, embora fosse amigo de muitos. Tive uma infância ibérica difícil, em que fui inoculado contra muita coisa.

    Olho pelo vidro e só vejo o meu reflexo na escuridão.

    Entretanto, o comboio pára em Mangualde e ainda consigo dar três passas num Luckys, sozinho na estação e por entre o nevoeiro que ofusca por completo o fumo do meu cigarro.

    Penso em como a vida tem, de uma forma ou de outra, muito para oferecer e, se quisermos, os nossos cinco sentidos estarão sempre em apuros.

    Volto para a carruagem e deparo-me com uma imagem soberba: estavam todos a dormir, sem excepção, embora não fôssemos muitos a habitar aquele comboio-fantasma.

    Estavam todos de máscara na cara, incluindo o gamberro. Dormiam de máscara.

    Uma vez, num avião, aconteceu-me algo parecido: os passageiros dormiam todos com aquelas vendas anti-luz nos olhos. Qual delas a mais estranha. Numa não queriam luz; nesta não queriam vírus. Pensavam eles, enganados. Ajustava-se ao momento, ou mesmo à era de trevas que parecíamos estar a viver.

    Imaginava que estavam todos mortos e eu era o único morto-vivo do comboio em andamento.

    Volto à janela e, desta vez, para além do meu reflexo, vejo também o dos meus amigos mais próximos, como se fossem estetas da escuridão e fantasmas da minha alma — uma miragem verdadeira e pouco soturna.

    A nossa luz até pode ser escura, mas deve incendiar os mais incautos. Pensei nos meus amigos mais uma vez e nas suas expressões sorridentes. Vejo-os como uns heróis deste novo western, em que as pistolas foram substituídas pela boca e as balas são o oxigénio.

    Vou até ao bar analógico e invento um futuro em que o digital existe, mas só cabe num frame. Não estou num comboio; estou num filme-comboio a várias velocidades.

    Não há que ter medo do escuro!, penso novamente, e pergunto-me se não nos estamos a dirigir, a alta velocidade, para o abismo.

    Don Alonzo, o barman, como se tivesse ouvido a minha voz interior, responde-me que não, que o abismo não existe; o que existe é a escuridão, e isso não é o abismo.

    Don Alonzo, que eu já conhecia de outras viagens, gostava de filmes de terror e, nalgumas viagens, tinha um grande prazer em contar-me alguns momentos dos filmes de que gostava. Nunca dormia, dizia ele, mas eu não acreditava.

    Senti que estava naquele momento de The Shining em que Jack, o Nicholson de outrora, fala com o empregado de bar do Hotel Overlook, com a diferença de esse ser um fantasma e este não. Pelo menos, Don Alonzo, a sê-lo, seria um fantasma a sério.

    Falo do velho empregado de mesa e de balcão com admiração. Usando ainda um antiquado pano branco sobre o ombro, dá ao mundo uma lição de gentileza e de elegância. Através de mim ou para mim, disserta alegremente sobre o silêncio, enquanto árvores negras passam por nós a toda a velocidade.

    — Está a ver? É a escuridão que nos avassala — diz-me ele, olhando para o vidro, que só consegue projectar a sua imagem escurecida e fosca, mas de uma beleza desconcertante.

    O pano e a farda branca compunham, ainda no reflexo, uma bela forma na janela do bar-carruagem que, àquela hora, já devia estar fechado, segundo as regras. Mas Don Alonzo não gostava de regras e, como era exímio e esplêndido no seu trabalho, a gerência fechava os olhos à sua anarquia. Era, segundo ele, uma anarquia de confiança.

    Tudo é vida, e alguns sabem capturá-la na sua dimensão tosca e total, fúnebre e festiva, disléxica e matemática, onde naturalmente se inclui Don Alonzo, grande orador do fragmento e da dispersão, do concreto e do abstrato — enfim, da Vida sem medo da Vida.

    Passámos a noite a conversar por entre vodkas, martinis e filmes de zombies.

    Pouco antes de vermos os imensos arredores de Madrid, todos feitos em tijoleira, o misterioso e coordenado barman do comboio no qual me deslocava a cem à hora — o velho Lusitânia, que agora era também o Sud-Express — ainda me disse:

    — Continua a ir aos treinos, que estamos a construir silenciosamente o arco do futuro!

    E depois começou a dar os últimos toques no bar para ficar impecável, de forma a que o empregado do próximo turno não tivesse trabalho indevido.

    Despedimo-nos calorosamente.  A sua pose era estudada e cinematográfica. Depois de várias disserações nocturnas despojadas de ego, só a luz e a presença do bar nos iluminava. Ainda antes de um último gole no seu café con leche, acrescentou:

    — Vai e dá-lhes trabalho!

    Uma frase que roubara a João César Monteiro em Recordações da Casa Amarela, dita pelo louco, interpretado por Luís Miguel Cintra — para ele um filme de terror, já que o realizador lisboeta era igualzinho ao Nosferatu, o fantasma da noite.

    Acordo na velha e bela Atocha e sei que, quando sair, vou regressar à movida madrileña e aos seus excessos poéticos e criminosos de outrora.

    Não fiz uma viagem de comboio… fiz uma viagem no tempo, percebo agora, enquanto me sento na sala de espera do Hospital de Santa Maria. Não estou aqui nem como paciente nem como profissional de medicina. Espero pela Rute, uma enfermeira encantadora que fala bem espanhol e gosta de histórias.

    Texto e ilustrações de Ruy Otero (artista media).

  • Nouvelle Vague e a cinefilia

    Nouvelle Vague e a cinefilia

    Há uma diferença subtil, mas decisiva, entre adorar uma arte e adorar a comunidade que se formou em torno dela, e quanto mais tempo passo a observar certos festivais, revistas, certas entrevistas, mesas-redondas, retrospectivas e até certos ecossistemas culturais construídos em redor do cinema, mais me convenço de que uma parte significativa da energia intelectual anteriormente dedicada aos filmes passou a ser dedicada à preservação da própria cinefilia.

    Mas isso é comum a muitas áreas.

    É como se o objecto inicial da paixão tivesse sido lentamente substituído pela administração da sua memória, fenómeno que não é particularmente cinematográfico nem particularmente português, porque todas as comunidades construídas em torno de uma experiência intensa acabam por desenvolver mecanismos de reprodução que, mais cedo ou mais tarde, começam a adquirir uma importância comparável à da experiência que deveriam proteger.

    Deus escreve direito por linhas mortas.

    Durante grande parte do século XX, o cinema foi das principais máquinas de produção de realidade alguma vez inventadas, um dispositivo através do qual milhões de pessoas aprenderam a desejar, a vestir, a envelhecer, a fumar, a falar e até a morrer.

    Por esta razão as estrelas não eram apenas celebridades e, mesmo a partir de certa altura, os realizadores não eram apenas autores e os filmes não eram somente objectos culturais, funcionando antes como modelos antropológicos capazes de competir directamente com a experiência vivida.

    Vittorio de Sica exigia o pagamento ao dia para apostar nos casinos. Muitos eram viciados assumidos em álcool e drogas e até apoiantes de ditaduras, mas eram antes de tudo… Humanos.

    Uma parte considerável da imaginação colectiva era produzida por um número relativamente reduzido de cidades, estúdios e cineastas que exerciam uma influência cultural hoje difícil de conceber, embora não fosse só Hollywood que o fizesse.

    Até meados dos anos 80, os filmes europeus continuavam a ocupar um lugar central no imaginário de grande parte da Europa e não só.

    Mas de certa forma o monopólio do cinema paulatinamente foi desaparecendo.

    As imagens multiplicaram-se por um milhão começando pelo aparecimento da televisão e acabando na A.I.

    Escaparam dos ecrãs onde a cinefilia aprendeu a venerá-las e espalharam-se por plataformas, videojogos, redes sociais, sistemas algorítmicos, transmissões em directo e inteligências artificiais capazes de produzir representações sem necessidade de experiência, transformando uma parte da cultura cinematográfica numa situação semelhante à de certos impérios, continuando a imprimir mapas onde aparecem pintados com as cores da sua antiga grandeza, muito depois de terem perdido o controlo efectivo dos territórios.

    Um adolescente passa hoje mais tempo dentro de universos ficcionais produzidos por videojogos do que muitas gerações passaram dentro de salas de cinema.

    Um influenciador com um telemóvel molda mais comportamentos do que muitos realizadores premiados, e mesmo um algoritmo decide diariamente quais as imagens que merecem atenção e quais as que desaparecem.

    Milhões de pessoas aprendem a desejar, a consumir, a odiar e a interpretar o mundo através de formas audiovisuais que escapam quase completamente às categorias clássicas da cinefilia mas, sem elas, é óbvio que nunca se teria alcançado tal voragem.

    O cinema inventou muito e continua vivo mas já não governa. E eu não comparo séries com cinema. Porque até a um certo passado recente, o cinema de autor tinha lugar na cultura de massas.

    Talvez seja precisamente esta mudança que uma parte da cinefilia contemporânea ainda não conseguiu processar totalmente.

    A resposta ao declínio da centralidade foi a institucionalização.

    Organizaram-se festivais. Multiplicaram-se prémios. Criaram-se residências. Expandiram-se arquivos. Produziram-se catálogos. Fundaram-se programas e fundações. Construíram-se redes com Herzogs e companhia a apoiar e a facilitar. Porque não?

    Nem todos se chamam Lars von Trier.

    Nada disto é inútil. Pelo contrário. Sem estas estruturas, uma parte significativa do cinema que adoro nunca teria chegado até nós. Até porque viajar de avião foi ficando mais acessível e barato e os hotéis de 5 estrelas também gostam de celebridades.

    Como nota devo dizer que, não estando presente, fiquei a saber que ainda há pouco tempo De Niro e Whoopi Goldberg apareceram em Xabregas para falar no Tribeca festival. Foi um daqueles momentos em que a distância entre o imaginário cinematográfico e a realidade da produção cultural se tornou visível a olho nu. Durante alguns minutos parecia que Hollywood tinha sido recebida pelo departamento de audiovisuais de uma escola secundária particularmente empenhada. Quando o meu grande amigo e grande actor Simão Fumega me contou esse episódio, fê-lo a rir.

    Mas para lá destes episódios absurdos de passadeira vermelha rota e cheia de remendos, o problema surge quando a sobrevivência do sistema se torna mais visível do que a necessidade que originalmente o justificou.

    Talvez seja por isso que os festivais se tenham tornado tão importantes: porque se transformaram no local onde o cinema continua a existir como sistema de reconhecimento, forma de prestígio e comunidade internacional organizada. Uma espécie de seita benigna.

    Mas seita.

    Se durante grande parte do século XX um filme procurava espectadores, hoje uma parte significativa do cinema de autor procura festivais.

    Diferença aparentemente pequena mas capaz de alterar profundamente toda a ecologia da produção cultural, porque o espectador é imprevisível, irracional e frequentemente decepcionante, enquanto a instituição tende a reconhecer aquilo que consegue contextualizar, financiar, catalogar e discutir durante quarenta minutos numa mesa-redonda cujo tema já se encontrava implicitamente inscrito no formulário de candidatura.

    Pouco a pouco formou-se uma curiosa nação sem território, sem língua oficial e sem exército, mas com uma quantidade impressionante de acreditações, crachás, cocktails de abertura e fotografias diante de painéis institucionais, composta por programadores, críticos, realizadores, produtores, académicos, distribuidores, curadores e espectadores profissionais. Passam uma parte significativa da vida a deslocar-se entre aeroportos, hotéis e salas escuras, numa circulação permanente que lembra menos uma comunidade artística do que uma ordem religiosa de viajantes, cujo principal milagre consiste em conseguir assistir a quatro filmes por dia durante quinze anos sem que enlouqueçam completamente. Veneza é a Fátima dos cinéfilos. A diferença é que os milagres costumam acontecer fora da competição oficial.

    Existe sim uma correria de 100 metros que alimenta uma elite que desaprendeu definitivamente a correr a maratona.

    Um filme nasce numa periferia qualquer do planeta, estreia-se num festival desconhecido pela maioria da população, circula por mais meia dúzia de cidades onde encontra praticamente as mesmas pessoas, acumula prémios, debates, fotografias e textos elogiosos. Regressa finalmente ao seu ponto de partida sem nunca ter encontrado aquilo que antigamente se designava por público, palavra hoje algo desconfortável, como um parente embaraçoso que aparece inesperadamente numa reunião de família, recordando a todos que existe uma diferença entre reconhecimento institucional e experiência vivida. E se esse filme tiver vitalidade, pode sair dali desvitalizado, muito institucionalizado e catalogado.

    Por contraditório que pareça, o que aconteceu foi algo muito sofisticado: a profissionalização da paixão.

    Durante décadas a cinefilia lutou por reconhecimento institucional e conseguiu-o de forma tão completa que corre hoje o risco de sofrer da mesma doença que outrora identificava nas instituições.

    O amor transformou-se numa carreira e a obsessão transformou-se numa competência. Até a marginalidade se transformou numa profissão, e as profissões possuem uma característica curiosa: mais cedo ou mais tarde acabam sempre por produzir formulários, regulamentos, grupos de trabalho e pessoas capazes de discutir durante quarenta minutos a definição operacional de espontaneidade.

    Talvez a figura mais reveladora desta transformação seja precisamente o espectador profissional, personagem relativamente recente na história da cultura e cuja actividade consiste em ver filmes não para ser surpreendido, perturbado ou transformado, mas para os posicionar dentro de genealogias, geografias, tendências e mecanismos de legitimação, como um botânico tão especializado que já não consegue ver uma floresta sem a converter imediatamente numa taxonomia.

    Mas a verdade é que nunca como hoje o cinema esteve tão homogéneo. Os mesmos temas, a mesma afinidade, os mesmos slogans nas entrelinhas. Ficou chato.

    Lamento.

    É por isso que tantas conversas contemporâneas sobre cinema produzem uma sensação peculiar de clausura.

    Não porque lhes falte inteligência – antes pelo contrário – mas falta-lhes frequentemente ignorância.

    Falta-lhes mais politização e menos política.

    Tudo já foi contextualizado, enquadrado, historicizado, legitimado e colocado no lugar correcto.

    O filme chega muitas vezes acompanhado da sua interpretação preferencial, da sua biografia autorizada e do respectivo enquadramento político, social e estético, como se uma parte do sistema cultural tivesse decidido proteger os espectadores da perigosa possibilidade de descobrir algo por si próprios.

    Faz o que sempre fez a televisão. Essa é a parte cómica.

    Foi precisamente esta sensação que me acompanhou ao ver Nouvelle Vague, de Richard Linklater, filme que possui uma qualidade hoje surpreendentemente rara: diverte-se com aquilo que admira.

    Linklater compreende algo que uma parte significativa da cinefilia contemporânea parece ter esquecido, nomeadamente que a Nouvelle Vague não foi uma cerimónia de consagração mas uma rebelião quase juvenil, uma insurreição contra os guardiões do templo anterior e não o primeiro capítulo de um catecismo destinado a ser reproduzido por sucessivas gerações de funcionários da admiração. Ainda que na política dos autores até tenham sido eles a reconhecer muitos realizadores aparentemente menores.

    Ao observar aqueles jovens críticos transformados em realizadores, aqueles futuros insuspeitos da história do cinema reduzidos novamente à sua condição original de arrogantes, obsessivos, excessivamente confiantes e frequentemente ridículos, torna-se impossível não sentir uma certa perplexidade perante a forma como os seus herdeiros os tratam actualmente.

    Existe qualquer coisa de profundamente cómico na transformação de Godard numa figura perante a qual já ninguém ousa discordar e de Kiarostami ou Pedro Costa, que se tornaram numa espécie de santos padroeiros da película. 

    Fica uma espécie de património paisagístico da sensibilidade humana, como se cineastas que passaram décadas a destruir convenções tivessem trabalhado arduamente para acabar transformados em convenções.

    É ridículo. Através dos soldados actuais do cinema de autor, o cinema tornou-se um meio demasiado obediente.

    Godard não passou a vida inteira a desafiar espectadores, críticos, produtores e admiradores para acabar transformado numa disciplina opcional de mestrado.

    Kiarostami não dedicou décadas à produção de incerteza para terminar convertido numa reserva natural da delicadeza cinematográfica. Sobretudo ele, que fez um cinema cheio de pó.

    A vitalidade destes autores residia precisamente no facto de nunca estarem onde os seus admiradores desejavam que estivessem. Talvez a melhor homenagem que lhes possa ser prestada não consista em repetir interpretações correctas sobre as suas obras, mas em recuperar a coragem de voltar a produzir instabilidade.

    Mas exceptuando alguns entusiastas deslumbrados, ninguém gosta de descobrir que dedicou décadas a estudar uma geografia que já não organiza o mundo da mesma forma, sobretudo quando essa descoberta acontece numa sala confortável, após um debate interessante.

    No fundo, a questão decisiva talvez seja esta: a cinefilia contemporânea não enfrenta uma crise porque perdeu. Enfrenta uma crise porque venceu.

    Conquistou universidades, festivais, museus, centros de investigação, programas públicos, financiamentos internacionais, arquivos, plataformas e mecanismos de reprodução com um sucesso que qualquer vanguarda artística do século passado consideraria milagroso.

    O problema é que as instituições possuem uma tendência antiga para confundirem a sua própria sobrevivência com a sobrevivência daquilo que foram criadas para servir.

    Talvez por isso a imagem que melhor descreve uma parte da cinefilia contemporânea não seja a de uma conspiração nem a de uma decadência espectacular, mas a de uma comunidade inteligente, culta, apaixonada e sinceramente dedicada ao cinema que continua a organizar retrospectivas, congressos, encontros internacionais e celebrações da vitalidade cinematográfica. E faz tudo isto com uma dedicação admirável, sem reparar que, por vezes, toda essa actividade começa a assemelhar-se ao trabalho minucioso de uma equipa de conservadores encarregada de restaurar cuidadosamente uma estátua cujo modelo abandonou a cidade há muito tempo.

    Nada de mal por si. Mas cuidado com o discurso.

    Porque uma arte pode sobreviver sem mercados, pode sobreviver sem indústria, pode sobreviver sem crítica e pode até sobreviver durante algum tempo sem espectadores, mas dificilmente sobrevive quando a gestão da sua memória se torna mais importante do que a produção do seu futuro.

    Actualmente é difícil encontrar um filme com as características de vitalidade atrás anunciadas.

    Temos pena.

    Enfim, a administração do templo correu tão bem que quase ninguém reparou na sua ausência.

    E agora, olha.

    Texto e ilustrações de Ruy Otero (artista media).

  • Mesmo que não ligue, atende!

    Mesmo que não ligue, atende!

    Em teoria o António Pocinho já morreu. Já nos deixou como alguns dizem, ou já foi, como outros também dizem quando não dizem “já nos deixou”.

    Outros mais estranhos dizem que está a fazer tijolo. Outros dirão que já partiu. Mas partiu para onde?

    Tudo eufemismos da tanga. A verdade é que o Pocinho está bem vivo e talvez mais vivo que nunca. Vivo em mim. Vives em ti? Não era em Santa Marinha? Pergunto eu a mim mesmo fazendo de Pocinho.

    Mas para não ferir susceptibilidades vou referir-me a ele no passado.

    Não quero ofender o presente nem mesmo a morte por muito fictícia que seja. Hoje é fácil ter a morte a fazer queixinhas por tratá-la como vida, assim como as casas a ofenderem-se por serem chamadas de vivendas.

    Ai não se pode dizer nada!  Não sei quê, não sei que mais e não sei quê. Ai, ai que se ofende e blá, blá, blá. Um amigo meu diz buá, buá, buá porque não diz os “Ls”. quando quer dizer blá, blá, blá. Eu cá prefiro buá. E ninguém se ofende. É bué coiso. Não blé.

    Não ofendam por favor. Um “l” no sítio errado pode dar cabo de não sei quê, disse um dia o Pocinho não sei onde para não sei quem, não sei que mais.

    Aprendi muito com o Pocinho, embora ele achasse com frequência que só era bom em duas coisas — em guiar (guiava mal à brava, nunca lhe disse) e em fazer com que os outros desaprendessem (desaprendia bem à brava, nunca lhe disse).

    Para ele, aprender e desaprender queriam dizer o mesmo. Até aí tudo bem. O problema seria na condução de um veículo quando ele achava que virar à direita queria dizer à esquerda. O perigo estava sempre lá. Era adrenalina até ao pequeno-almoço. Adrenalina com torradas e iogurte.

    Para ser realista.

    O Pocinho quando olhava para o céu via a terra.

    Qual drone?

    Ou quando olhava para o mar via nitidamente mais marés que marinheiros. Chegava a dizer “olha ali estão 4 marés e apenas 2 marinheiros, estão a ver? Pelas minhas contas a famosa preposição verifica-se”.

    E acabava pondo a rimar barco com barcaça. Chegava mesmo a remar na linguagem se fosse preciso. Remava bem melhor que guiava veículos, mas só mesmo para rimar com cigarros e para chatear.

    O Pocinho era.

    Odiava que o amor rimasse com o que fosse porque para ele o amor era choninhas. Para ele o amor podia ser fodido mas o sexo não, escreveu no seu Elucidário Sexual que Deus e as livrarias têm.

    Frequentemente construía-nos com palavras rimando com a vida. Mesmo quando as vogais só apareciam consoante a paisagem. A sua paisagem que por vezes precisava de uma mãozinha dos bombeiros. Dos bombeiros involuntários de Lisboa. Por isso nunca apareciam a horas.

    Para ele muitas vezes uma palavra valia por mil imagens deixando isso explicito no livro Ilustre Máquina de Ramirez.

    O cérebro é a câmara mais escura que existe, dizia ele. Também dizia frequentemente outras coisas sobre taparueres, que agora não me lembro.

    Por isso adorava o mar. Digo eu. O mar é infotografável mas legendável se se tratar da caneta do Pocinho.

    Várias vezes fomos até à Ericeira comer amêijoas e livros de reclamações. Íamos também muitas vezes à Adraga onde – qual mago – me fazia ver alemãs nuas por entre o nevoeiro enquanto vomitava amêijoas e aforismos da sua engenharia interna. As vezes que avistei as louras nórdicas, pareceram sereias.

    Não eram alucinações. Não eram encenações à Andy Kaufman. Para ele uma mentira era apenas uma verdade ao contrário. A realidade era o seu hotel de 5 estrelas.

    Um dia disse-me através de uma tecnologia muito própria, nunca percebendo se se estava a referir a um telemóvel ou a um telefone fixo ao chão:

    “Se eu ou o teu irmão ligarmos gostava de ver se atendes.

    Posso não ligar como posso ligar, inclusive posso ligar só para ver se atendes.

    O mesmo poderá acontecer com o teu irmão.

    Mesmo que não ligue… atende o telefone. Se ligarmos por engano, aí podes não atender e continuares a falar com quem estiveres a falar.

    Se eu ou o Luis ligarmos para com quem estiveres a falar, atende tu. Fica o aviso.

    Concluindo: Só podes não atender se for por engano.

    Por outro lado, se apenas tocar três vezes, não atendas, pode ser outra pessoa com tédio.

    Se eu ligar e tu atenderes (o que parece ser uma probabilidade muito forte devido ao medo que tens em geral e em particular), não te queixes automaticamente do calor e dos 50 graus que podem estar a derreter Madrid”.

    E por ali ficou.

    Fiz o que me disse e por isso também não voltei mais a Madrid.

    Um dia, ao irmos a Santa Apolónia por Alfama à hora de jantar, ele fez-me ver que, se eu não quisesse perder pitada da novela da noite, ali nas ruelas de Alfama isso era possível. Podia muito bem ouvir a novela em contínuo, tal era a proximidade das casas com a rua e com a vizinhança. Frequentemente, depois dessa preciosa informação, íamos dar uma volta por Alfama sempre que fosse possível depois de jantar para ouvir a novela da RTP, por entre umas baforadas de cigarros. Ver as novelas era penoso.

    O Nicolau Breyer parecia sempre o Nicolau Breyer a fazer de Nicolau Breyer. Mas ouvir era outra coisa. Parecia rádio mas sem as penosas vozes de rádio armadas em vozes de rádio.

    Por isso nem eram gregos nem tiranos. Depois voltávamos de autocarro para cima, calados e pensativos, também entre baforadas de cigarros.

    O Pocinho nunca morrerá. E caso morra um dia, será sempre no de São Nunca… Mas de manhã.

    Mas não acreditamos!..

    Acreditem.

    ____________

    Livros publicados de António Pocinho

    “Rosto Pintado de Anjo no Cinema” (Fenda; 1981),

    “Metamorfoses do vídeo” (Alberto Pimenta, Filipe Liz, António Pocinho)

    “A Ilustre Máquina de Ramires (1ª edição)”, (Fenda ; 1988),

    “Elucidário Sexual” (Fenda; 1997),

    “A Ilustre Máquina de Ramires” (2ª edição; revista e aumentada) (Fenda; 1999),

    “Pés Frios Dentro da Cabeça” (Fenda; 1999)

    “Quanto Custa Criar uma Sardinha” (Fenda; 1999).

    “Os mistérios de Casimiro” (2002).

    Texto de Ruy Otero, artista media.

    Ilustrações: The Swimming Pool Project

  • Andy Kaufman. E se a morte for só uma piada?

    Andy Kaufman. E se a morte for só uma piada?

    Andy Kaufman é um acidente.

    Um erro de casting na espécie humana. Um heterónimo em corpo inteiro que rasgou o véu entre vida e representação, entre o que se é e o que se finge, mas sobretudo entre o que se diz e o que se sabota. Kaufman fazia uma espécie de ruído no sistema cultural americano. Rasgava.

    A sua obra, se assim se pode chamar à sucessão de actos desconcertantes que povoaram a televisão, o wrestling e os noticiários dos anos 70 e 80, é uma espécie de happening ontológico sem ponto final.

    Kaufman morreu em 1984, dizem.

    Mas como ter a certeza?

    Nascido em 1949 em Great Neck, Long Island — um subúrbio que bem poderia ter sido uma alegoria suburbana de Kafka —, Andy cresceu num contexto de pós-guerra conformista, entre brinquedos de plástico, moral católica e o tédio luminoso do sonho americano. Desde cedo compreendeu que a linguagem da cultura popular era sobretudo um meio de controlo.

    Não lhe bastava apenas querer “expressar-se”, mas sim desmontar os próprios mecanismos da expressão.

    Imagem: The Swimming Pool Project

    Onde os outros faziam piadas, ele construía incríveis emboscadas semânticas. Onde se esperava um punchline, ele oferecia uma pausa de desconforto, um silêncio táctico, um abismo no guião.

    Um anti-punchline…

    Tornou-se paulatinamente no cómico dos cómicos.

    Por isso é levado a sério.

    A sua performance em Saturday Night Live, onde apenas sincronizava os lábios com um disco de Mighty Mouse, permanece como um acto inaugural de resistência passiva à ditadura do riso imediato. Era um não-acto que expunha o próprio acto como artifício. Kaufman queria pôr o riso em xeque. Mas gostava de fazer rir.

    E ria-se.

    Roubava à comédia o seu contrato moral e devolvia ao público um espelho partido. Neste sentido, Kaufman é um descendente directo de Artaud, de Dada, de Beckett, e até do seu contemporâneo Lenny Bruce — mas também, paradoxalmente, de Walt Disney e já agora… de Fernando Pessoa, na arte de fingir a sério.

    Misturava a crueldade ritual com o espectáculo açucarado. Era um sabotador disfarçado de entertainer. Um pateta verdadeiro e falso ao mesmo tempo.

    Imagem: The Swimming Pool Project

    Clifton, o seu duplo grotesco, cantor lounge alcoolizado e arrogante, é o ponto de fusão entre performance, disfarce e esquizofrenia narrativa. Funcionava como um desvio. Era ele mesmo um casino, mas só com as partes sujas. A zona negra. O humor negro.

    A insistência em manter Clifton como entidade autónoma, com contratos próprios, entrevistas próprias, substitutos próprios, revela uma das teses fundamentais de Kaufman: não há actor, há apenas papel. Não há essência, apenas montagem. Não há ilusão, apenas realidade e tudo junto misturado traz um novo cocktail com sabores pouco familiares que tendem a desconfortar e baralhar a falsa harmonia construída e instalada. 

    Neste gesto, Kaufman antecipa a lógica pós-moderna de identidade como performance (Butler), o simulacro como regime ontológico (Baudrillard) e a desconstrução do sujeito como efeito teatral (Derrida em modo burlesco). Mas é muito mais interessante e incisivo que Derrida e as suas teorias muito só “em teoria”.

    Na série Taxi, onde interpretava o imigrante Latka Gravas — uma caricatura doce, ingénua e linguisticamente hesitante —, Kaufman operava o gesto contrário ao esperado: entregava-se à máquina industrial da televisão, mas sem nunca deixar de a sabotar a partir de dentro. Latka era uma bomba cómica envolta em caramelo: o idiota que disfarçava o estratega, o palhaço que escondia o crítico cultural. A sua recusa em repetir rotinas, a exigência de trazer Clifton como “condição” para aparecer no programa, e os frequentes despedimentos encenados, revelam um artista que queria fazer explodir a norma.

    Para nada.

    Isto tudo são factos, e se não fossem, neste texto absolutamente verdadeiro, passariam a ser.

    Mas é no wrestling que Kaufman atinge o sublime grotesco: autoproclamando-se “Campeão Intergénero de Wrestling”, desafiando mulheres do público a enfrentá-lo no ringue, e provocando escândalos e vaias televisivas em directo. Não se tratava de misoginia, como alguns sugeriram, aí seria muito mundano, mas como provocação: Andy insultava assim sobretudo o dispositivo do espectáculo. Criava tensão e sobretudo dissonância. Conhecia o inconsciente colectivo e sabia como prolongá-lo e estetizá-lo.

    O wrestling, por ser o território mais coreografado da violência americana, era o lugar perfeito para encenar a teatralidade do poder e a verdade do fingimento (não poderia não invocar Pessoa).

    A luta contra Jerry Lawler — falsa, mas violentamente vivida — culmina numa farsa de talk show onde Kaufman aparece de colar cervical a gritar obscenidades. A América olhava e não sabia se devia rir, chorar ou ligar para os serviços sociais.

    A sua morte, em 1984, de cancro do pulmão, é apenas mais uma camada narrativa. Kaufman nem fumava. Dizem que não.

    Tratou-se nas Filipinas com “cirurgias psíquicas”? Sim. Inventou a sua própria morte? Provavelmente.

    Ou talvez tenha sido apenas mais um gesto de fidelidade ao seu personagem-mundo: desaparecer no exacto momento em que poderia começar a ser compreendido numa época camuflada de cinismo e hipocrisia pós moderna como seriam os anos 80, em que tudo era possível. Até não-morrer.

    Provavelmente aspirava a ser um boato eterno.

    Mas um boato mutável e engenhoso que não acabasse numa simples biografia. Que desse origem a textos como este.

    Foi essa ambiguidade existencial que o filme Man on the Moon (1999), de Miloš Forman, conseguiu captar com uma precisão invulgar. Mais do que biopic, é um ritual necromântico que devolve Kaufman ao mundo como espectro vivo.

    Jim Carrey, num dos actos de possessão mais radicais da história do cinema, não interpreta Kaufman, isso é para meninos de coro, dissolve-se nele.

    Carrey, ele próprio uma criatura elástica entre a máscara e o abismo, reconheceu em Kaufman o seu duplo metafísico. O que acontece em Man on the Moon é estranhamente (ou não), uma reencarnação. Existe até um documentário na Netflix sobre isso.

    E Carey nunca mais voltou a ser Jim.

    Todos os actores deviam ver para aprenderem definitivamente a diferença entre ser e representar ou simular e actuar.

    Todo o dicionário está plasmado nesse documentário que chega a ser irritante de tão verdadeiro e falso ao mesmo tempo, e pior… Ao mesmo nível.

    O filme, longe de domesticá-lo, agrava o mistério. E se Carrey ficou preso ao papel durante meses, é porque compreendeu Kaufman. Há ecos dessa infecção na sua forma de estar no mundo.

    Kaufman foi a única personagem que Carrey não conseguiu descalçar.

    Kaufman não deixou sucessores mas deixou sequelas por todo o lado. Influenciou toda uma geração de performers, cómicos, conceptuais e agitadores da realidade. Mas ninguém chegou com o mesmo grau de fidelidade ao desconforto.

    Não poderia não falar do seu cúmplice mais fiel, e talvez o seu único verdadeiro amigo na arte de desestabilizar a realidade, Bob Zmuda — escritor, produtor e performer, nascido em 1949 em Chicago. Mas Zmuda não era apenas um amigo: era uma extensão conspirativa do próprio Kaufman. No filme Man on the Moon, ele surge como o braço direito do delírio, ora a tentar conter Andy, ora a amplificá-lo. Mas a sua participação mais perturbadora foi a de Tony Clifton, o alter ego grotesco que ambos encarnavam alternadamente para confundir o público, os colegas de trabalho e até os jornalistas. Enquanto Kaufman assumia a personagem em certos momentos, Zmuda tomava o lugar noutras ocasiões — criando uma duplicidade irreconciliável que dissolvia qualquer hipótese de autoria.

    A sua relação ia além da amizade: era um pacto artístico de sabotagem mútua, um contrato tácito de guerrilha às audiências ou ao que quer que fosse. Zmuda foi também o autor de Andy Kaufman Revealed!, um livro onde mistura revelações, mentiras, conspirações e homenagens — prolongando o jogo para além da morte, ou do desaparecimento, ou da performance terminal de Kaufman, seja lá o que tiver sido.

    Kaufman queria ser revivido como dúvida. Antecipou os trolls, os influencers, os boatos fabricados, a estética da pós-verdade — mas com elegância e crueldade filosófica. Ria-se do espectador e consigo mesmo, com a lucidez de quem sabe que a realidade é um número mal ensaiado. Imaginou o futuro e riu-se dele.

    E aqui estamos.

    A sua verdadeira obra foi a sua vida que muito pouca gente conhece.

    Kaufman viveu e morreu (?) como um boato que continua a rir-se de nós.

    E acima de tudo—não desconstruiu a realidade nem o mundo do espectáculo.

    Catapultou-os para uma zona quântica imortalizando a vida toda. Toda?

    Sim, toda. Qual é o problema?

    ***

    Texto de Ruy Otero (artista media)

    As imagens não identificadas são imagens de arquivo.

  • Arte com fronteiras

    Arte com fronteiras

    A Biennale di Venezia nasceu em 1895 como uma celebração internacional da arte moderna e depressa se tornou uma espécie de Jogos Olímpicos culturais: pavilhões nacionais, bandeiras, diplomacia, ministérios, curadores, coleccionadores, artistas e Estados a fingirem que estão apenas a falar de sensibilidade estética. A Bienal sempre foi política, mas dantes fingia melhor.

    A escolha dos artistas também nunca foi um milagre espiritual. Cada país selecciona os seus representantes através de estruturas públicas, concursos, convites, comissários, júris e decisões institucionais. Quando um artista chega a Veneza, traz às costas uma logística nacional,, mesmo quando diz que só leva uma instalação, três vídeos e um texto de parede sobre memória, território ou melancolia atmosférica.

    Curiosamente, durante o Estado Novo, vários artistas portugueses representaram oficialmente Portugal na Bienal de Veneza e noutras grandes exposições internacionais sem que isso tenha provocado campanhas internacionais de exclusão cultural semelhantes às actuais. Houve artistas próximos do regime, artistas ambíguos e artistas críticos que aceitaram representar o país apesar da ditadura. Alguns recusaram participar, outros navegaram pragmaticamente entre sobrevivência, visibilidade e convicções pessoais.

    O circuito artístico internacional da época ainda não funcionava segundo esta lógica contemporânea de total responsabilização moral do artista pelo Estado que o selecciona. Caso contrário, metade da história cultural europeia teria sido impossível.

    Este ano, a 61.ª Bienal abriu sob forte polémica devido à presença da Rússia e de Israel. A polémica agravou-se quando o júri internacional anunciou que não pretendia atribuir prémios a pavilhões de países cujas lideranças enfrentassem acusações ou mandados do Tribunal Penal Internacional, o que afectaria sobretudo a Rússia e Israel. A crise institucional acabou por conduzir à demissão colectiva do júri. Sem júri, os prémios tradicionais foram suspensos e a votação foi assumida pelos visitantes.

    Houve protestos, encerramentos temporários de alguns pavilhões e uma greve convocada pela Art Not Genocide Alliance contra a presença israelita. Apesar da forte visibilidade mediática dos protestos, a adesão não foi consensual dentro da Bienal. Enquanto alguns artistas e pavilhões aderiam a protestos, muitos outros continuavam simplesmente a inaugurar exposições, a circular entre cocktails curatoriais e a discutir instalações sonoras em antigos arsenais venezianos. A revolução estética contemporânea também parece gostar bastante do caviar institucional.

    O artista português Alexandre Estrela, representante de Portugal com o projecto RedSkyFalls, associou-se publicamente ao ambiente de contestação em torno da presença da Rússia e de Israel na Bienal, posicionando-se simbolicamente durante a inauguração do pavilhão português. A sua proximidade às posições defendidas pela Art Not Genocide Alliance foi interpretada como um gesto de coerência política no contexto da polémica internacional.

    O problema não é um artista ter uma posição política. O problema é a transformação de parte do meio artístico numa espécie de polícia moral internacional, selectiva e profundamente incoerente. Porque, se o critério passa a ser excluir países envolvidos em guerras, repressões, ocupações ou crimes de Estado, então a Bienal acabará reduzida a um parque de estacionamento vazio.

    Participam os Estados Unidos. Participa a China. Participam países aliados de guerras, regimes com historial de repressão, censura, violência policial e interesses militares globais. A indignação artística, porém, parece vibrar intensamente em certas direcções e adormecer noutras com uma serenidade curiosa.

    O paradoxo torna-se ainda mais evidente no caso português. Alexandre Estrela, não sendo conhecido por desenvolver uma obra marcadamente política, representa um país que mantém há décadas uma cumplicidade estratégica com os Estados Unidos através da Base das Lajes, nos Açores, ainda hoje integrada na arquitectura militar da NATO e em operações logísticas americanas de alcance global. Se o critério passa pela responsabilização absoluta dos artistas pelos Estados que representam, então a fronteira moral transforma-se rapidamente num labirinto impossível.

    A Espanha, por exemplo, apesar de igualmente integrada na arquitectura militar da NATO, não possui exactamente a mesma centralidade histórica da Base das Lajes na logística militar transatlântica americana. A pergunta deixa então de ser “quem deve ser excluído?” e passa a ser “onde termina a cumplicidade aceitável?”.

    Curiosamente, a Espanha, que assumiu posições públicas duríssimas em torno da participação israelita na Eurovisão, revelou uma prudência bastante maior perante a Bienal de Veneza. Talvez porque protestar contra um espectáculo pop televisivo produza capital moral imediato com risco institucional praticamente nulo, enquanto afrontar directamente Veneza implica tocar no coração da própria maquinaria internacional de legitimação artística.

    A diferença é reveladora: na Eurovisão, a dissidência funciona como performance mediática diante das massas; em Veneza, a moral precisa de aprender a circular com mais elegância entre fundações, ministérios, curadores, coleccionadores e convites para cocktails privados. A coragem cultural contemporânea parece variar bastante, conforme a proximidade do buffet e do financiamento.

    Alexandre Estrela pode, evidentemente, protestar. O que se pode perguntar é por que motivo certas tomadas de posição surgem apenas quando entram em sincronização perfeita com o consenso moral dominante do circuito artístico internacional. A coragem, quando vem com certificado curatorial, não é bem coragem.

    A ironia torna-se ainda mais evidente porque tudo isto acontece enquanto a Eurovisão atravessa polémicas semelhantes em torno da participação de Israel, ainda que num contexto bastante diferente e sem relação directa com a exclusão da Rússia, ausente desde 2022.

    A diferença é sobretudo estética: na Eurovisão protesta-se entre lantejoulas, máquinas de fumo e refrões de laboratório; em Veneza protesta-se entre textos de parede, silêncio performativo e copos de prosecco. No fundo, é o mesmo teatro moral, apenas com dress code diferente.  Ainda que existam diferenças substanciais noutros aspectos, tanto intelectuais como artísticos, evidentemente.

    A Bienal mostra que o paradigma da arte está a mudar. O artista contemporâneo já não quer apenas fazer obras. Quer administrar legitimidade, vigiar fronteiras, validar presenças e expulsar impurezas. Surge assim a figura do artista-alfândega, do curador-fronteira, do performer-vigilante. Gente que fala permanentemente contra muros enquanto aprende, com uma eficiência notável, a construí-los.

    A certa altura, muitos artistas contemporâneos parecem menos interessados em criar imagens do que em emitir autorizações éticas de circulação humana. O atelier aproxima-se do posto fronteiriço. O curador aproxima-se do funcionário aduaneiro. E a obra torna-se, cada vez mais, um documento de conformidade moral para acesso ao circuito internacional.

    A parte mais irónica é que tudo isto acontece em nome da abertura, da inclusão e da liberdade.

    Este texto é da autoria de Ruy Otero e de Bruno Cecílio.

    As ilustrações são da autoria de THE SWIMMING POOL PROJECT

  • O falsário alemão

    O falsário alemão

    A História da Arte é também uma história de espectros. Desde os ícones bizantinos replicados como actos de fé, passando pelas oficinas do Quattrocento – e apesar da grande mudança de paradigma ocorrida na representação – é notória a passagem totalizante do “olhar” a partir do texto sagrado para o olhar dos indivíduos; o mundo passa a ser representado pela forma como o homem o olha e se olha a si próprio (Alberti e Brunelleschi). A cópia, essencialmente realizada por artesãos, era exercício e produção, até ao final do século XVIII, quando o génio romântico desferiu o golpe decisivo à escola e consagrou a originalidade como fetiche moderno. Assim, os artefactos transformaram-se, em grande parte, repetição legitimada.

    Em Roma, reproduzir esculturas gregas não era só sinal de erudição, mas sobretudo de um novo entendimento – enquanto a cultura grega tinha o factor estético como ponto de partida para a representação do idiossincrático idealismo vigente, os romanos, ao apropriarem-se delas, vão enfatizar uma vertente, diríamos, mais pragmática: o realismo, a prática, a funcionalidade e, acima de tudo, o aspecto militar.

    Em Florença, Verrocchio produzia Madonas em série, todas elas cunhadas pelo seu ateliê, que era único, e ensinava os jovens aprendizes, encontrando-se entre eles um certo Leonardo, cuja autoria só mais tarde ganharia valor mercantil. Por essa altura, a distinção entre original e cópia tinha um peso muito menor: importava o impacto, não o criador.

    Com o romantismo, o autor foi canonizado. O século XIX transformou a autenticidade em fetiche moral. No século XX, passou a fetiche financeiro. O nome tornou-se código de acesso, a assinatura um acto notarial e o certificado uma arma de legitimação. A proveniência, essa espécie de ficção com selo, tornou-se mais valiosa do que a própria imagem.

    Quando a arte é subsumida à lógica do activo, a mentira torna-se ciência.

    Falsificadores houve muitos — Elmyr de Hory, Van Meegeren, Tom Keating — todos especialistas em seduzir o olhar treinado com a força da expectativa. Mas nenhum deles atingiu o grau de sofisticação conceptual, o virtuosismo técnico e a subtileza cínica de Wolfgang Beltracchi.

    A sua operação não se limitava à imitação: era um golpe cirúrgico na espinha dorsal do sistema artístico. Um espelho colocado com precisão para devolver à arte a encenação que ela sempre foi.

    É nesse teatro de imagens, em que a verdade é uma espécie de contrato e a aura mais um produto derivado, que Beltracchi entra em cena com um convite falsificado.

    Nascido em 1951, na então Alemanha Ocidental, numa Höxter em reconstrução e ainda anestesiada pelos escombros da guerra, Wolfgang Fischer cresceu entre imagens e vernizes.

    O pai, restaurador de igrejas e pintor de afrescos, ensinou-lhe desde cedo a linguagem dos pigmentos e a alquimia do tempo aplicado à matéria. O filho, precoce, copiava Picasso aos 14 anos por prazer. A escola de arte expulsou-o, diz ele que por excesso de competência. Um paradoxo pedagógico: sabia demasiado para pertencer à classe dos alunos e originalidade para copiar não lhe faltava.

    Nos anos 1990, embora a falsificação já tivesse começado décadas antes, a operação adquire forma e cúmplicidade. Conheceu entretanto Helene, mulher de uma frieza funcional e elegância conspirativa.

    Juntos criaram uma história credível e suficientemente comovente: a fictícia Colecção Flechtheim, atribuída ao avô de Helene, alegadamente composta por obras de artistas censurados pelo regime nazi e escondidas do mundo. Uma proveniência perfeita: trágica, plausível, historicamente blindada.

    Wolfgang fazia o resto: escolhia os artistas, estudava-lhes obsessivamente o percurso, comprava telas da época, reciclava chassis originais, misturava pigmentos com rigor anacrónico.

    Evitava copiar obras existentes: preferia criar peças “inéditas”, plausíveis, como se tivessem sido esquecidas pela história. A fidelidade ao estilo, à cronologia e à biografia do artista era tal que, ironicamente, as suas falsificações eram… originais.

    As obras infiltravam-se no mercado com fluidez. Passavam por leilões, eram autenticadas por peritos, catalogadas com entusiasmo. Entravam em museus, em colecções privadas, em salas em que se respirava dinheiro disfarçado de sensibilidade.

    Beltracchi enganou todos: historiadores, químicos forenses, galeristas, críticos, especialistas em papel e pigmento.

    Até que, em 2010, um erro microscópico derrubou o império: uma análise a um suposto Campendonk revelou vestígios de branco de titânio incompatível com a época da obra. A casa ruiu.

    Seguiu-se o julgamento em Colónia, mais encenado que jurídico. Wolfgang confessou, sem vergonha nem arrependimento. Expôs o método e explicou a lógica com vaidade, sem medo, e continuou a pintar. Condenado a seis anos, cumpriu pouco mais de três, com direito a atelier e saídas diárias.

    Imagem: The Swimming Pool Project

    A história não é apenas um escândalo. É um raio-X do sistema artístico. Levanta questões fundamentais: o que define uma obra? O gesto ou o nome? A técnica ou a proveniência? A emoção ou o selo? Como Danto assinalou, a arte deixou de ser definida pela forma e passou a sê-lo pelo contexto discursivo. Beltracchi levou essa lógica às suas últimas consequências.

    Embora seja difícil determinar o número exacto, é plausível que algumas das falsificações ainda estejam expostas em museus, muitas vezes sem o conhecimento das instituições. A sofisticação das obras e a complexidade do mercado contribuem para essa opacidade.

    No documentário Beltracchi: The Art of Forgery (2014), de Arne Birkenstock, é-nos oferecido um retrato desconcertante do casal: Wolfgang pinta com leveza, descrevendo fraudes ao pequeno-almoço; Helene gere a narrativa como uma CEO pós-romântica.

    Nenhum dos dois parece arrependido. Limitam-se a afirmar que forneceram ao mercado aquilo que ele mais desejava: raridade, narrativa e emoção. Apenas omitiram o nome. E isso, convenhamos, é um detalhe secundário.

    O mais perturbador, e cómico, é que provavelmente (não conhecemos os acordos) muitas, ou pelo menos algumas das obras continuam penduradas, sendo elogiadas e celebradas como relíquias legítimas. Wolfgang no documentário citado, regozija-se visitando museus e observando os seus próprios quadros atribuídos a mestres falecidos.

    Em alguns casos, sorri. Noutros, confidencia que levou três dias a pintar. E ninguém retira nada. Confirmar a fraude seria dinamitar milhões em activos. A mentira, transformada em capital, torna-se demasiado cara para ser desmentida.

    A história lembra o episódio grotesco de Livorno, 1984, quando três estudantes esculpiram falsas cabeças “à Modigliani”, atiraram-nas ao canal, e viram especialistas canonizá-las com entusiasmo.

    Quando a farsa foi revelada, os peritos recuaram em silêncio. A vergonha não apagou a glória temporária. Como Beltracchi, os falsários entraram no museu pela porta traseira com bilhete comprado pela crítica.

    Talvez seja essa a verdadeira obra de Beltracchi: uma mise en scène que obriga o sistema a encarar o seu próprio delírio. O embuste, quando eficaz, revela que a verdade é apenas a ficção que venceu no mercado.

    Orson Welles abre o seu filme fetiche F for Fake com um aviso encantado: durante a próxima hora, tudo o que disser será verdade. Uma hora depois, desaparece no seu próprio truque. O filme é um ensaio hipnótico disfarçado de documentário, um bailado sobre o olhar e a mentira. Magia pura.

    Imagem: The Swimming Pool Project

    Beltracchi parece uma personagem escrita para o guião de Welles: um homem que sabe que o mundo quer ser enganado e que oferece um engano mais belo do que a verdade.

    F for Fake (1973) ensina que o valor de uma obra não reside no que ela é, mas no que estamos dispostos a acreditar que ela seja. Beltracchi foi além: produziu obras que não existiam, mas que pareciam inevitáveis. Pintou fantasmas de artistas ausentes, como se tivesse invadido os seus sonhos.

    Ambos compreenderam o que o sistema jamais admitirá: a verdade é frágil, performativa e cara de manter. Admitir o embuste não é corrigir um erro, é perder o investimento emocional e financeiro na narrativa.

    Beltracchi, com pincéis e verniz, fez o mesmo. Pintou o mundo da arte como um cenário onde todos sabiam, no fundo, que estavam a comprar histórias plausíveis com moldura dourada.

    No fundo, a arte é também um pacto… Como tudo.

    Cada coleccionador torna-se num espectador que aplaude em silêncio porque prefere a beleza à verdade.

    A moral não é um obstáculo quando o lucro é elevado. O casal arrecadou entre 16 e 20 milhões de euros comprovados judicialmente, embora algumas estimativas mais especulativas apontem para valores muito superiores. Wolfgang afirmou que não pintava por dinheiro, mas “já que era preciso, fazia-o bem”.

    Imagem: The Swimming Pool Project

    Gastaram como burgueses tardios: casas em França e na Suíça, carros dispendiosos, festas com cheiro a Château e culpa de classe. Parte do dinheiro foi confiscado. O resto perdeu-se.

    Helene cumpriu pena suspensa de 21 meses. Wolfgang manteve-se produtivo.

    A ironia é que hoje Beltracchi vende obras com a sua assinatura, por valores altos. O mercado reincorporou o impostor como profeta.

    Num mundo obcecado por residências de artistas, talvez a mais eficaz tenha sido a prisão.

    Se Beltracchi nasceu fora de tempo, então o presente seria o seu paraíso. No mundo dos NFTs, a tinta é dispensável. A autenticidade tornou-se código. A aura é programável.

    O ensaio que escreveu com tintas tornou-se profético: antecipou um presente no qual a aparência já não precisa de corpo.

    Orson Welles disse que a arte é uma mentira que diz a verdade. Beltracchi viveu essa frase como programa.

    Beltracchi não destruiu o mundo da arte.

    Apenas o fotografou.

    É um herói?

    Ruy Otero é artista media. Este texto tem a colaboração de Pedro Cabral Santo.

  • The show must go on?

    The show must go on?

    O humor negro ocupou, durante muito tempo, um lugar de tensão dentro da cultura ocidental, não como género estabilizado nem como estilo identificável à primeira vista.

    Foi e é uma prática de fricção contínua, uma espécie de atrito entre linguagem e realidade, no qual aquilo que se diz começa a falhar precisamente no momento em que tenta dar conta da morte, da violência ou do absurdo, e é nesse falhanço — não antes, não depois — que o humor acontece.

    Funciona ao nível do precipício do inconsciente.

    Em Jonathan Swift (um dos seus expoentes máximos), essa operação é quase cirúrgica: a linguagem avança até ao ponto em que a sua própria lógica se torna obscena.

    Mais tarde, os Monty Python deslocam essa violência para o campo do absurdo performativo, em que a morte canta, dança e repete-se até passar a ser mecanismo; enquanto Woody Allen a traz para dentro, transformando-a numa espécie de ruído constante, uma ansiedade organizada, quase administrativa, em que morrer já não é um choque.

    O que estas formas partilham não é apenas o tema, mas a insistência em empurrar a linguagem até ao ponto em que ela deixa de proteger quem a usa.

    Durante décadas, o humor negro revelou. Não explicou nem resolveu, não moralizou nem se dogmatizou.

    Hoje, como sempre, tem na crise o seu lugar cativo. Há quem queira que rir seja por decreto.

    O humor negro foi absorvido, reciclado e devolvido como estilo, integrado nos circuitos mediáticos e digitais em que a transgressão é simultaneamente exigida e controlada, enquanto uma vigilância moral difusa, esse ecossistema meio histérico a que se chama cancelamento, redefine continuamente os limites do aceitável, transformando o risco numa performance calculada.

    O humor negro tornou-se reconhecível. E quando uma coisa se torna reconhecível, está meio morta. Neste cenário, aquilo que antes operava como ruptura passou a funcionar como convenção.

    E é precisamente a partir desse esgotamento que interessa olhar para certas práticas actuais. Em Portugal, fala-se de Rui Sinel de Cordes, o maior representante desse género de humor, com uma insistência curiosa que raramente coincide com aquilo que efectivamente está em causa. Entre entrevistas, peças de imprensa e reacções mais ou menos indignadas, construiu-se à sua volta um discurso contínuo, mas oco, no qual o humor aparece reduzido a conteúdo — aquilo que se diz — e não a operação — aquilo que acontece quando se diz.

    A conversa tende a fixar-se nos limites do aceitável, na gestão do escândalo, na previsibilidade da reacção.

    É copy paste e pouco mais.

    Discute-se se pode ou não pode, se se deve ou não deve, como se o problema estivesse na autorização e não na linguagem.

    E nesse deslocamento, o essencial escapa quase sempre.

    Mesmo quando o tom abranda e se aproxima de uma espécie de reconhecimento, esse reconhecimento surge desarmado, intuitivo, incapaz de se transformar em leitura.

    Como se houvesse a percepção de que algo ali não encaixa, mas sem ferramentas para o pensar. Um desconforto difuso que se resolve depressa demais em opinião.

    O resultado, andando pela net, é um arquivo vasto, mas estranhamente oco. Fala-se muito, mas quase sempre ao lado. Como se a linguagem, ali, voltasse a cumprir a sua função mais antiga: proteger quem fala daquilo que não consegue atravessar.

    Mas tudo muda quando se assiste ao vivo ao seu último espectáculo (Portugal, Amor Não Correspondido), que fala de morte.

    Mas morte à séria.

    O humor negro é para meninos de coro. Lá vão os tempos em que o humor, por ser negro, nos falava da vida obscura da linguagem. Não os tempos da literatura, mas os da cultura massificada.

    Foto: Ruben Costa

    O humor negro, feito por quem o conhece e o estuda, revela muito mais sobre quem não o reconhece. Rui Sinel de Cordes, neste seu último espectáculo (não vi os outros), vira o feitiço contra o próprio feiticeiro e é tal o efeito de ricochete que o vemos, paulatinamente, a ser um espectador atento do espectáculo de estar vivo (ou morto) em Portugal.

    Estamos, sem dúvida, assim para lá da linha comum que separa estar vivo de estar morto. E isso é metafísica.

    Sim. No seu último “coiso”, o cómico arrisca-se a aparecer num manual de filosofia, mas escrito por ninguém.

    E talvez seja esse ninguém que finalmente fala. Não o artista da linguagem do humor, não o provocador profissional, mas essa entidade intermédia que já não precisa de explicar-se para existir dentro de um palco que pode ser a vida.

    Há ali qualquer coisa que nem falha, nem deixa de falhar. Que já é mais que isso. Que levita na sua própria linguagem, quando o espectador se deixa transportar com e sem inocência.

    Que se ri de ser cómico, que faz poética com o tempo que se foi, mas que sabe, de certa maneira, que irá voltar, nem que seja através de si, naquele espaço em que à minha volta toda a gente se ria (também do tempo).

    Um riso cúmplice, como se fosse efectivamente a banda sonora do momento. Um riso inteligente, de quem lida com as mortes nas suas diferentes versões e dimensões.

    Foto: Ruben Costa

    Rui Sinel de Cordes deixa de operar no conforto do escândalo e começa a tropeçar numa espécie de vazio produtivo, em que rir não é o bónus dos 24€ que as pessoas pagam para assistir.

    Rir é já a essência.

    Uma sessão com menos tempo de psicanálise custa, no mínimo, o dobro.

    Rir continua a acontecer, mas já não serve para aliviar, nem para atacar. Fica ali, como um eco ligeiramente deslocado do corpo. Ainda que seja tudo muito cómico à maneira antiga, a clássica.

    O ritmo do homem-só-em-palco chega a parecer o dos melhores filmes dos irmãos Marx. Fá-lo de uma forma estruturada que deixa tempo para pensar e não pensar, para esquecer e lembrar, para, muitas vezes, sorrir à gargalhada.

    No momento em que prescinde da palavra para mimetizar situações do quotidiano, envolve o espectador numa zona de suspensão, justamente porque, entre palavras, há apenas corpo e sub-texto que chega a parecer não-texto. O absurdo funciona ao contrário. Porque o absurdo é precisamente a vida e não o acto de comentá-la.

    A sua energia, ritmo e pulsão estão ao nível do que melhor se faz, incluindo Ricky.

    Foto: Ruben Costa

    Gervais. Ambos projectam para além da linguagem do humor.

    Estão para lá da política do humor, mesmo quando parece o contrário.

    Alguém disse que rir era uma coisa muito séria. Talvez chorar seja uma coisa muito cómica.

    Aquilo que está em causa já não é o limite do aceitável, mas o limite do reconhecível.

    O que é que ainda reconhecemos quando alguém insiste em ir mais longe do que a própria linguagem aguenta?

    Não se sabe. Intui-se, não é racional. Senão seríamos todos desumanos insuflados pelo ódio aos cegos, aos gordos, aos paraplégicos, ao handicap, decretado pela estupidez de quem não sabe rir de si, do seu país, dos outros. De quem tenta racionalizar politicamente o inconsciente colectivo.

    Portugal é, definitivamente, um país sofisticado porque tem um anti-herói que está para além do epíteto.

    Os que gostam do cancelamento abusivo por nada, estão a ficar sem poder para cancelar. Esse desporto está a perder os seus ginásios. Os músculos, afinal, vinham carregados do ouro que pareciam demonizar.

    A caravana passa, mas o Sinel ficou.

    Ficou como presença que já não precisa de ser central para continuar a contaminar o espaço. Há ali uma espécie de persistência que não é resistência, nem sequer sobrevivência. É outra coisa mais banal, mais conceptual e mais estranha ao mesmo tempo.

    É estar vivo acima de tudo. É entrar pelo cemitério adentro com as pistolas carregadas. É tirar a vida aos mortos. Para voltar a dar. Como num bom jogo de poker. É não esquecer a memória de que somos feitos e ser cúmplice de uma língua que, por ser o Sinel a usar, está mais viva do que parece.

    É malcriada e foda-se, bem educada. É a língua portuguesa bem fodida. Mas bem rica quando quer. É uma língua filha-de-puta que joga à bola.

    É a língua do Alberto Pimenta.

    O humorista Sinel de Cordes começa a aproximar-se desse estado intermédio onde a relevância já não depende da novidade nem da transgressão. Já não há escândalo suficiente para o sustentar, mas também não há esquecimento suficiente para o apagar. Está no manual de instruções para crimes banais.

    E isso cria uma posição incómoda para a Joana Marques e companhia, que apenas estão em manuais para a própria banalidade.

    Ela e outros ajustaram-se a um território onde o humor funciona como extensão higienizada do comentário social. Tudo reconhecível, tudo validado à partida, tudo leve o suficiente para não deixar marcas. Há método, talvez ritmo, e eficácia sem dúvida. Funciona. É, no entanto, o riso choninhas FM da Renascença.

    Soa a Igreja.

    Trabalha sobre o óbvio com a perícia de quem sabe exactamente até onde pode ir sem perder o aplauso. E esse cálculo sente-se. Parece crítico, raramente se compromete. E dá dinheiro.

    O protagonista deste texto é precisamente o contrário.

    Na sua dimensão interna sensível, somos levados a olhar para alguém que continua ali sem cumprir exactamente nenhuma função clara. Nem disruptivo, nem integrado. Nem dentro, nem fora.

    Até arrisco falar de todas as pessoas que estavam a assistir, a medir silenciosamente o seu próprio limite de tolerância, de reconhecimento, de cansaço. Ir ver o Sinel não me parece que seja só por divertimento.

    Quem vai, já foi.

    Desde que se entra até que se sai, soa a festa. Há uma descontracção evidente, há luz, há música. Depois sai-se e há descontracção, há luz e há música com mais alguma voltagem.

    As pessoas parece que saíram de lá todas amigas umas das outras.

    Pedi um cigarro à porta e toda a gente ao redor me queria dar. A única coisa que não estava permitida era contar anedotas, nem que fosse para descontrair. Sentíamos que tínhamos acabado de ler um bom livro. Mas um livro disfarçado de Reader’s Digest.

    E tudo foi uma suspensão. Como se o próprio tempo tivesse ficado ali.

    Mesmo com o “Inferno” anunciado a pairar como um fantasma.

    Como se já não houvesse luz ao fundo do túnel mas soubéssemos onde está o lugar do interruptor.

    Ir ver o Sinel é acionar esse dispositivo.

    Texto e ilustrações de Ruy Otero (artista media).