José Gabriel Pereira Quaresma, jornalista da CNN Portugal, anunciou pessoalmente, na rede social LinkedIn, a intenção de lançar um negócio estruturado de formação executiva em comunicação, baseado na sua notoriedade acumulada ao longo de uma “carreira consolidada no jornalismo”. E diz mesmo, num texto publicada nesta quarta-feira, estar “a iniciar a fase de expansão da minha marca pessoal para o ecossistema de formação executiva digital”.
O anúncio do jornalista, com o objectivo de encontrar um parceiro comercial, “especializado em projetos de alta autoridade para a implementação de uma operação ‘chave-na-mão’”, visa criar e gerir acções de formação focadas “em Comunicação entre Pessoas e Comunicação para Liderança, direccionadas sobretudo ao “segmento de quadros superiores e executivos.

A iniciativa, que à primeira vista poderia ser enquadrada como uma actividade paralela legítima, levanta, porém, questões sérias à luz do Estatuto do Jornalista. Ou melhor, viola de forma directa e chocante o regime de incompatibilidades.
O artigo 3.º do Estatuto do Jornalista estabelece de forma inequívoca que o exercício da profissão é incompatível com funções remuneradas de marketing, relações públicas, assessoria de imprensa ou consultoria em comunicação e imagem, bem como com a definição e execução de estratégias comerciais — precisamente os domínios descritos no anúncio agora divulgado por Quaresma.
Porém, mais do que uma simples prestação ocasional de formação, o conteúdo publicado por José Gabriel Quaresma – que solicitou em Agosto do ano passado à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e ao Ministério Público o encerramento do PÁGINA UM, devido às notícias sobre as suas actividades comerciais – ancora a proposta na sua identidade profissional de jornalista, invocando expressamente a sua ligação à TVI/CNN como elemento de autoridade e diferenciação.

Esta utilização da notoriedade jornalística como alavanca para a promoção de serviços comerciais, sobretudo na área da comunicação, aproxima-se do conceito de actividade publicitária encapotada, igualmente vedada pelo Estatuto do Jornalista, mesmo quando não exista uma menção explícita a produtos ou marcas.
Com efeito, o Estatuto do Jornalista estabelece como “actividade publicitária incompatível com o exercício do jornalismo a participação em iniciativas que visem divulgar produtos, serviços ou entidades através da notoriedade pessoal ou institucional do jornalista, quando aquelas não sejam determinadas por critérios exclusivamente editoriais”.
Para estes casos de incompatibilidade, o diploma legal salienta que “a incompatibilidade vigora por um período mínimo de três meses sobre a data da última divulgação e só se considera cessada com a exibição de prova de que está extinta a relação contratual de cedência de imagem, voz ou nome do jornalista à entidade promotora ou beneficiária da publicitação”.
José Gabriel Quaresma tem vindo, sobretudo nos últimos anos, e à boleia do seu estatuto de pivot da CNN Portugal, a desenvolver actividade intensa de formação e de coaching na área da comunicação, sobretudo através da empresa que criou em 2023, a Sardine Conjugation. Tem, além disso, conhecidas ligações maçónicas, que lhe têm permitido absoluta impunidade nos meios políticos e jornalísticos que regulam a profissão. Ainda recentemente foi ‘apanhado’ num vídeo de um ritual da Maçonaria ao lado de António Pinto Pereira, antigo deputado do Chega e candidato à autarquia de Cascais pela Nova Direita.
Quaresma detém 70% do capital social da empresa, sendo também seu gerente. No objecto social da empresa publicado na base de dados do Instituto dos Registos e Notariado , escolhido por si, estão actividades incompatíveis com o Estatuto do Jornalista: “consultadoria em comunicação, formação, media training e consultadoria online”.
Além disso, no site da Sardine Conjugation, onde José Gabriel Quaresma se apresenta como “um especialista reconhecido, em comunicação, com experiência e capacidades técnicas e humanas que o posicionam como um guia essencial para quem procura aperfeiçoar as suas competências em comunicação”, há uma panóplia de serviços que colocam em causa a isenção de um jornalista – além da ilegalidade.

Com efeito, o pivot da CNN Portugal oferece, tanto no seu site como na rede LinkedIn, um vasto conjunto de serviços centrados na formação e consultoria em comunicação, dirigidos sobretudo ao meio corporativo e a perfis de liderança. A sua actividade inclui treino em comunicação e oratória, preparação para entrevistas, bem como consultoria de marca e estratégia de conteúdos. Abrange ainda consultoria educacional e gestão de projectos, complementadas por serviços de copywriting e até, pasme-se, autoria-fantasma – ou seja, pode ser ghost-writer – orientados para a construção e posicionamento de mensagens e identidade profissional. Os interessados são convidados a preencher um formulário para requisitar os serviços do jornalista. E vai mostrando os seus serviços, incluindo depoimentos de clientes.
O PÁGINA UM enviou um conjunto de questões à nova presidente da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ), Luísa Meireles, que tomou posse no passado dia 16 e acumula com a direccção da Agência Lusa, mas não obteve ainda qualquer resposta. Enviaram-se e-mails tanto para o endereço da secretária da direcção da Agência Lusa quer para a CCPJ, mas não houve formalmente qualquer resposta às questões. O e-mail enviado para Lusa foi mesmo apagado sem ser sequer lido. José Gabriel Quaresma pode assim continuar os seus negócios de media training ‘mercadejando’ a sua profissão de jornalista nas barbas da entidade de regula a profissão.









































