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  • Ex-dono da Visão acumula acções de execução de mais 2,3 milhões de euros em seis meses

    Ex-dono da Visão acumula acções de execução de mais 2,3 milhões de euros em seis meses


    A revista Visão começou este ano com a esperança de vir a ser “salva” por um comprador no processo de venda que ocorrerá em breve — sendo que os jornalistas da revista estão na corrida à compra da publicação. Mas a venda da Visão e dos restantes activos da insolvente Trust in News (TIN)não acabam com as dores de cabeça de Luís Delgado, sócio único e fundador da empresa de media.

    Depois de ter sido condenado a uma pena suspensa de cinco anos pelo crime de abuso de confiança fiscal na forma agravada por dívidas contraídas ao Fisco nos primeiros anos de actividade da TIN, o comentador e empresário caído em desgraça acumula acções de execução em Tribunal.

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    Foto: D.R.

    Só nos últimos seis meses, Delgado foi visado em sete acções de execução no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa, somando um valor global de 2.310.020,74 euros.

    Quatro dos processos, que deram entrada na Justiça em Outubro e Novembro últimos, partiram do BCP e são relativos a dívidas de 1. 439.473,04 euros. Num dos processos, o BCP executou também uma empresa de Delgado, a Regula e Acerta Unipessoal, como o PÁGINA UM noticiou.

    Também o Banco BPI avançou, no dia 29 de Outubro, com uma acção de execução contra Delgado no valor de  415.023,49 euros, sendo que neste processo também é alvo de execução uma outra empresa de Delgado, a Mtduq – Gestão Imobiliária, Lda, a qual não apresenta contas desde 2021.

    Luís Delgado. / Foto: D.R.

    A mais recente acção de execução, deu entrada no Tribunal no passado dia 1 de Janeiro. Neste processo, a empresa  Rubis Energia Portugal executa Delgado por uma dívida de 1.545,59 euros.

    Recorde-se que, no final de Julho passado, também a Taguspark – Sociedade de Promoção e Desenvolvimento do Parque de Ciência e Tecnologia de Lisboa avançou com um processo de execução contra o gestor, por rendas devidas da TIN no valor de 453.978,62 euros.

    A empresa foi alvo de despejo, no ano passado, e alguns dos seus bens foram já vendidos em leilão na sequência do processo de insolvência, depois de a TIN ter acumulado estranhamente dívidas superiores a 30 milhões de euros, sendo o Estado o maior credor. Apesar da gigantesca dívida ao Fisco e à Segurança Social, a empresa conseguiu sempre continuar a laborar e os seus gerentes mantiveram-se na gestão da sociedade até à insolvência, em 2025.

    Revista Visão. / Foto: PÁGINA UM

    O certo é que, para Delgado, o acumular de acções de execução vem já de trás. Aliás, Delgado avançou, no passado dia 10 de Dezembro, com uma acção junto do Tribunal Administrativo e Fiscal de Sintra para tentar travar um processo de execução de que foi alvo por parte do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social (IGFSS) no montante de 9.424.107,39 euros.

    Mas não é só Delgado quem está em maus lençóis. A outra gerente da TIN que se manteve ao leme da empresa, Cláudia Serra Campos, está a tentar travar na Justiça as acções de execução de que foi alvo por parte da Segurança Social no valor de 1.020.951,06 euros.

    No passado dia 15 de Janeiro, a gestora avançou com uma acção junto do Tribunal Tributário de Lisboa para travar uma acção no valor de 290.542,96 euros da parte do IGFSS. Antes, a 30 de Dezembro, tinha dado entrada de um processo de reclamação junto do mesmo Tribunal no âmbito de um processo de execução do IGFSS no montante de 730.408,10 euros. 

    Captura de imagem do Portal Citius. / Foto: D.R.

    Serra Campos e o ex-gerente da TIN, Luís Filipe Passadouro, têm vindo a ser alvo de processos de execução e também foram condenados a cumprir uma pena suspensa de cinco anos pelo crime de abuso de confiança fiscal na forma agravada.

    Os três gestores envolvidos na gerência da TIN nos últimos anos, desde a sua fundação em 2017, arriscam novas condenações, incorrendo no risco de terem cumprir pena efectiva em futuras sentenças na Justiça.

    Por outro lado, numa altura em que o principal título da TIN, a Visão, se prepara para mudar de mãos, muitas perguntas continuam por responder na derrocada da empresa de Luís Delgado, que comprou em 2018 um portfólio de publicações tóxicas à Impresa, com respaldo financeiro do Novo Banco.

    Luís Delgado e o Francisco Pedro Balsemão, presidente-executivo da Impresa, na assinatura do acordo de venda do portfólio de publicações à Trust in News, em Janeiro de 2018.O negócio “salvou” a dona da SIC e do Expresso, que se encontrava numa situação difícil. / Foto: D.R.

    Não se sabe como a empresa conseguiu continuar a laborar acumulando uma gigantesca dívida ao Estado. Aliás, a crise na TIN só foi tornada pública graças ao PÁGINA UM, que noticiou em primeira mão, em meados de 2023, a dívida ao Estado que a empresa estava a esconder.

    Também se ignora como, passados anos, Delgado e os outros dois gerentes da TIN, apenas tenham uma condenação (conhecida), e com pena suspensa, por dívidas fiscais, sendo que também acumularam dívidas à Segurança Social.

    Acresce que há dúvidas acerca da contabilidade da TIN ao longo dos anos, designadamente sobre a existência de cerca de 14 milhões de euros em activos que Luís Delgado atribuiria a receitas futuras.

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    Foto: D.R.

    Esse montante está registado na rubrica “Outras contas a receber”, que nem sequer são registadas com factura emitida, subsistindo dúvidas quanto à sua correspondência a um activo real, ou seja, que possa efectivamente ser convertido em receitas — e, em última instância, em dinheiro.

    A empresa, que passou a ser gerida pelo administrador de insolvência, André Correia Pais, não apresentou as contas de 2024 até hoje. Fica assim a dúvida sobre se algum dia se vai saber a verdade sobre a contabilidade da empresa e se vão ser apuradas responsabilidades para a sua insolvência.

    O “buraco” que ficará nos bolsos dos contribuintes, esse já é certo e rondará os 17 milhões de euros.

    Sede da ERC, em Lisboa. / Foto: D.R.

    Sobre a Visão também subsistem dúvidas, designadamente se vai ser feita uma venda “à medida” para entregar o título ao grupo de jornalistas que se têm mantido a elaborar a revista, quando o que estava previsto anteriormente era o procedimento regular, com a realização de um leilão electrónico para maximizar os ganhos para os credores, nomeadamente o Estado.

    Também não se sabe se entidades ou “mecenas” têm estado a financiar a publicação da revista [ainda que como credores ou suportando determinados custos], pois nenhuma informação foi divulgada sobre como se tem mantido em banca, criando opacidade em torno da publicação e de eventuais interesses que teriam de estar publicados no Portal da Transparência da Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

  • Impresa: CMVM ‘censura’ 12 das 18 páginas do relatório sobre suspeitas de ‘insider trading’

    Impresa: CMVM ‘censura’ 12 das 18 páginas do relatório sobre suspeitas de ‘insider trading’


    São 18 as páginas do relatório da acção de supervisão da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) destinado a apurar se houve compras suspeitas de acções da Impresa antes do anúncio do interesse dos italianos da MFE no grupo de media fundado por Pinto Balsemão.

    Contudo, o documento é praticamente ininteligível: as partes mais relevantes surgem extensamente rasuradas — abrangendo 12 das 18 páginas —, impedindo a identificação das análises que sustentariam a conclusão de que existiu apenas um dia “anómalo” (11 de Setembro) e ocultando volumes, padrões de negociação e outros indicadores essenciais para confirmar ou afastar a hipótese de insider trading, isto é, o abuso de informação privilegiada nos mercados financeiros.

    Sede da Impresa. / Foto: D.R.

    Face a esta opacidade, o PÁGINA UM vai remeter o caso para o Tribunal Administrativo de Lisboa, com o objectivo de obrigar a CMVM a disponibilizar integralmente a informação, sem quaisquer rasuras. Está em causa saber se a regulação dos mercados financeiros serve efectivamente para proteger os investidores e assegurar a integridade do mercado ou se, pelo contrário, acaba por pactuar com práticas potencialmente desonestas ao subtrair ao escrutínio público os elementos determinantes da sua própria actuação.

    Segundo o próprio regulador, apenas no dia 11 de Setembro do ano passado — antes de ser noticiada a possível entrada da MFE na Impresa — se terão registado movimentos anormais em Bolsa, com dois investidores a concentrarem 84,9% das compras de acções da dona da SIC e do Expresso, numa sessão que terminou com uma valorização de 9,1%, para os 0,12 euros.

    Ainda assim, na análise enviada ao PÁGINA UM, com passagens decisivas rasuradas, a CMVM limita-se a afirmar que não encontrou ligações entre esses compradores e a Impresa ou a MFE, afastando a suspeita de insider trading — crime de abuso de informação privilegiada previsto no artigo 378.º do Código dos Valores Mobiliários e punido com pena de prisão até cinco anos ou multa — sem expor os dados, critérios e cruzamentos que permitiriam verificar a solidez dessa conclusão.

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    Este artigo refere expressamente que “quem com base nessa informação [privilegiada], negoceie ou aconselhe alguém a negociar em valores mobiliários ou outros instrumentos financeiros ou ordene a sua subscrição, aquisição, venda ou troca, direta ou indiretamente, para si ou para outrem”.     

    A investigação da CMVM às transacções em torno das acções da Impresa surgiu na sequência de uma análise do PÁGINA UM que detectou movimentos anormais envolvendo aqueles títulos. Após um pedido de esclarecimentos enviado à CMVM, o regulador iniciou uma acção de supervisão (SUP/510/2025/SUM/DSM) por “suspeita de abuso de informação privilegiada com transações de ações da Impresa”.

    Na sua análise, a CMVM concluiu, porém, que apenas “para a sessão de 11 de Setembro é activado um alerta de movimento anormal de preço” das acções da Impresa. Nesta sessão, dois investidores chamaram a atenção do regulador: um com uma quota compradora de 48,5% e uma variação de 7,17% no preço médio de compra face ao preço de fecho da sessão precedente; e outro com uma quota compradora de 36,4%. Nesse dia 11 foram negociadas 412.648 acões, quase 10 vezes mais do que no dia anterior.

    Francisco Pedro Balsemão, CEO da Impresa.

    Ambos os nomes dos investidores estão rasurados na análise efectuada pela CMVM e enviada ao PÁGINA UM. Um dos investidores foi “responsável pela maior variação do preço”, mas o nome está ocultado. Saliente-se que, do ponto de vista estatístico, o PÁGINA UM detectara quatro dias com movimentos anómalos (3, 10, 11 e 15 de Setembro), mas a CMVM desvalorizou três desses dias, embora apagando os critérios que usou, alegando que o seu conhecimento poderia ajudar quem quisesse contornar a supervisão.

    Assim, sem fundamentar, o regulador afirma que, no caso de um dos investidores, “exibe um padrão de negociação que não é compatível com uma situação óbvia de insider trading, porquanto entre 1/set/25 e 26/set/25 (antes da suspensão) apenas comprou [RASURADO] ações e entre 29/set e 7/out (após a suspensão) continuou a comprar ações”. E justifica que “se tivesse tido acesso a informação privilegiada seria expectável que vendesse as ações após o levantamento da suspensão, para realizar as mais-valias decorrentes da elevada valorização das ações no dia 29/set, o que não aconteceu”.

    Esta justificação apresentada pelo regulador para afastar a suspeita de insider trading não resiste a uma análise minimamente rigorosa, e mostra até uma estranha ingenuidade, assentando numa caricatura do comportamento económico que nem sequer surge demonstrada nem fundamentada. Ao afirmar que o investidor não teria agido com base em informação privilegiada porque não vendeu as acções após a suspensão, a CMVM parte de um pressuposto arbitrário — o de que um insider racional realiza sempre automaticamente mais-valias imediatas —, ignorando que a retenção de posições é, precisamente, uma estratégia comum para evitar padrões detectáveis, diferir impostos ou antecipar valorizações adicionais.

    Excerto da deliberação sobre a acção de supervisão efectuada pela CMVM por suspeita de abuso de informação privilegiada com transações de ações da Impresa.

    Com efeito, a ausência de venda não prova coisa alguma, tal como o reduzido volume de compras, isoladamente considerado, não afasta a existência de vantagem informacional. Em vez de uma análise técnica baseada em timing, padrões históricos de negociação, comparação com outros investidores ou correlação com eventos internos relevantes, a análise da CMVM limita-se a invocar o que “seria expectável”, substituindo prova por especulação psicológica e confundindo a inexistência de evidência ostensiva com evidência de inexistência.

    No caso do outro investidor, a CMVM afirma que “no seu padrão de negociação apenas constam compras de ações da Impresa entre 1/set e 7/out/25”. E aqui o regulador é tão opaco que, na verdade, com tantas rasuras no relatório disponibilizado ao PÁGINA UM acaba por aumentar ainda mais as dúvidas: “Com efeito, no dia 11/set comprou [RASURADO] ações, no dia 12/set também comprou [RASURADO] ações, no dia 15/set comprou [RASURADO] ações e, após o levantamento da suspensão, comprou mais [RASURADO] acções no dia 29/set”, adiantando ainda que “estas compras totalizam uma quantidade de [RASURADO] de ações e um valor transaccionado de [RASURADO]”.

    Para a CMVM, “este padrão [que com tantas rasuras é impossível saber qual é] não configura uma situação óbvia de insider trading”, embora não adiante quais as acções que levou a cabo para chegar a esta conclusão. “Além disso, não encontrámos quaisquer relações entre este comitente e a Impresa”, refere, sem também indicar como efectuou a análise. Neste caso, o relatório como não identifica quem foram os comitentes nem que pesquisas se fizeram para encontrar eventuais relações com a Impresa impede que qualquer outra entidade, incluindo o PÁGINA UM, as possa encontrar.

    Exemplo de uma página do relatório da CMVM onde o negro compete com o branco da página, impossibilitando avaliar o rigor da regulação.

    Recorde-se que no dia 26 de Setembro, o jornal italiano II Messaggero publicou uma noticia sobre as negociações entre o grupo italiano MFE (MediaForEurope, controlado pela família Berlusconi) e o grupo português lmpresa, para a compra de uma participação relevante no capital do grupo de media português.

    A CMVM deliberou a suspensão da negociação das ações da Impresa nesse mesmo dia. A Impresa acabou por confirmar as negociações com a MFE e a normal atividade das suas acções na bolsa foi retomada a partir das 10H00 de 29 de Setembro, tendo fechado a sessão a disparar de 0,126 euros para 0,248 euros, com volumes negociados elevados.

    A conclusão da entrada dos italianos no grupo Impresa está nas mãos da CMVM, já que a operação de concentração só avança se o polícia da Bolsa aceitar que não tenha de ser lançada uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre a Impresa. O que é certo é que a Impreger e a MFE irão controlar conjuntamente a Impresa e terão ainda um acordo parassocial.

    A entrada da MFE na dona da SIC depende de a CMVM aceitar que os italianos e a Impreger controlem a Impresa sem ter de haver o lançamento de uma oferta pública de aquisição (OPA). / Foto: PÁGINA UM

    Assim, segundo o comunicado da Impresa de 26 de Novembro último, no “Acordo de Investimento, a MFE compromete-se a subscrever novas ações da Impresa a emitir em aumento de capital social no montante de até 17.325.000 euros […] a um preço por ação de 0,21 euros, valor que corresponde ao preço médio ponderado pelo volume verificado nos seis meses anteriores ao dia 15 de outubro de 2025”. Os italianos ficarão com 32,9% do grupo dono da SIC. A Impreger, controlada pelos herdeiros de Francisco Pinto Balsemão, irá reduzir a sua posição na Impresa para 33,738%.

    O Acordo de Investimento “prevê ainda a celebração de um acordo parassocial entre a MFE e a Impreger relativamente ao futuro governo da Impresa e que atribui direitos à MFE em linha com a sua participação e prevê a continuidade de controlo por parte da Impreger”.

    Contudo, tendo em conta a actuação estratégica da MFE noutras operações do género, nomeadamente na Alemanha, é esperado por analistas do mercado que os italianos venham, numa fase posterior, a passar a ser os únicos donos do principal negócio da Impresa, ficando com toda a operação de TV do grupo português.

    Em todo o caso, mesmo que a CMVM feche aos olhos ao controlo conjunto da Impresa pela Impreger e os italianos e não obrigue a MFE a lançar uma OPA sobre a Impresa, a concretização da operação de concentração só poderá ocorrer em Fevereiro deste ano. Isto porque, no passado dia 9 de Janeiro, a Impresa anunciou que nesse dia foi celebrado um aditamento ao acordo de investimento com a MFE para acomodar a realização da assembleia-geral de obrigacionistas do empréstimo de 48 milhões de euros da SIC – “Obrigações Ligadas a Sustentabilidade SIC 2024-2028”.

    A entrada da MFE na Impresa “representaria uma situação de possível reembolso antecipado” daquelas obrigações. Os subscritores dos títulos terão de dizer numa assembleia geral em 6 de Fevereiro (ou no dia 23 desse mês se não houver quórum na primeira convocatória) se concordam com uma alteração das condições do empréstimo obrigacionista da SIC.

       

  • Leilão: futuro dono da revista Visão só será conhecido em Fevereiro

    Leilão: futuro dono da revista Visão só será conhecido em Fevereiro


    Será nos primeiros meses de 2026, previsivelmente em Fevereiro, que deverá ocorrer o leilão para a venda em definitivo da revista Visão e restantes títulos da Trust in News (TIN), empresa unipessoal do empresário e comentador Luís Delgado, que se encontra em irreversível processo de insolvência.

    Esta é a previsão do administrador de insolvência da empresa, André Correia Pais. De resto, as marcas do grupo já foram apreendidas no mês de Novembro, sendo que o registo das mais recentes foram publicadas no boletim oficial do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) do dia 2 de Dezembro. Neste momento, formalmente as marcas pertencem à massa insolvente da TIN Unipessoal.

    Revista Visão (Foto: PÁGINA UM)

    Saliente-se que este registo de apreensão é um passo obrigatório no âmbito do processo de encerramento e liquidação da empresa, aprovado pelos credores no início de Outubro. O objectivo é fazer o máximo dinheiro possível de qualquer activo para pagar aos credores, sabendo-se que muita dívida jamais será paga.

    O passo seguinte será a avaliação dos títulos, incluindo a Visão, a revista Exame e o Jornal de Letras, uma imposição dos dois maiores credores da TIN, a Segurança Social e a Autoridade Tributária — procedimento que levará cerca de “três semanas a um mês” a concluir.

    A empresa que avaliará os títulos, isto é, o preço base do leilão será escolhida pelo administrador de insolvência, André Correia Pais. Isto porque a assembleia de credores da TIN, que integra ainda, designadamente, o Novo Banco, a Impresa e representantes dos trabalhadores, não respondeu dentro do prazo ao administrador judicial sobre qual a empresa a contratar para proceder à avaliação.

    Luís Delgado, proprietário da Trust in News (à esquerda na foto), e Francisco Pedro Balsemão, presidente da Impresa, em Janeiro de 2018, na assinatura do acordo de venda do portfólio de publicações que permitiu aliviar a crise financeira na empresa dona do Expresso e da SIC. / Foto: D.R.

    A opção de venda através de leilão é certa, porque existem já vários interessados em fazer propostas de compra, pelo menos no caso da revista Visão. Entre os interessados estão colaboradores da revista que pretendem fazer uma angariação de fundos (crowdfunding) para tentar adquirir a publicação. A revista tem continuado a ser publicada por uma dúzia de jornalistas em regime de teletrabalho.

    Entretanto, já se procedeu à venda em leilão de equipamento e material da empresa que já tinha sido despejada das suas instalações no Tagus Park, o que rendeu pouco mais de 19 mil euros.

    A liquidação da TIN irá colocar um ponto final no calvário de um grupo de media que nasceu “torto”. Recorde-se que Luís Delgado criou a empresa em 2017 para adquirir à Impresa um conjunto de publicações que se revelaram “tóxicas”. Desde cedo que a TIN acumulou dívidas ao Fisco e à Segurança Social, sendo as suas principais marcas penhoradas em 2020 pelo Estado.

    No INPI, as marcas da Trust in News já foram registadas em nome da Massa Insolvente da empresa.
    / Foto: Captura de ecrã do portal de marcas registadas no INPI

    Para já, é certo que o Estado — que misteriosamente permitiu que a TIN acumulasse milhões de euros em dívidas ao longo de anos — ficará “a arder” em dezenas de milhões de euros. O mesmo se aplica à Impresa e ao Novo Banco — que também misteriosamente emprestou milhões a Luís Delgado sem quaisquer garantias sólidas.

    Mas a liquidação da empresa não vai significar o fim das dores de cabeça para Luís Delgado e os restantes antigos gerentes da TIN que se encontram a cumprir uma pena suspensa de cinco anos pelo crime de abuso de confiança fiscal na forma agravada por dívidas contraídas ao Fisco nos primeiros anos de actividade da TIN. Se não pagarem o montante em dívida, de 828 mil euros, arriscam ir para a prisão. Por outro lado, correm na Justiça outros processos de execução sobre os gerentes da TIN, os quais envolvem penas de prisão.

    Depois, falta apurar se houve insolvência dolosa, o que poderá acarretar mais consequências para a gerência da TIN. Para a gerência da TIN ser processada por insolvência dolosa, punida com uma pena até cinco anos de prisão, será necessário previamente que o Tribunal considere que houve uma “insolvência culposa”.

    Alguns dos bens da TIN que foram vendidos em leilão. / Foto: D.R.

    Ora, a juíza do processo de insolvência concedeu, em meados de Maio, mais seis meses para serem apresentadas provas que indiciem culpa dos gerentes no descalabro financeiro do grupo que detém mais de uma dezena e meia de títulos de media.

    Por fim, uma ponta solta são as contas de 2024 da empresa que ainda não foram fechadas, inexplicavelmente. Aguarda-se por saber, por exemplo, se irá ser feita uma ‘limpeza’ contabilística e alterada uma rubrica misteriosa que permitiu a Luís Delgado evitar o registo de prejuízos ao longo de anos e esconder a real situação da empresa perante os trabalhadores, os credores e a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC).

    Uma das várias dúvidas financeiras que paira sobre a contabilidade da TIN prende-se com a existência de cerca de 14 milhões de euros em activos que Luís Delgado atribuiria a receitas futuras. Esse montante está registado na rubrica “Outras contas a receber”, que nem sequer são registadas com factura emitida, subsistindo dúvidas quanto à sua correspondência a um activo real, ou seja, que possa efectivamente ser convertido em receitas — e, em última instância, em dinheiro.

    Luís Delgado. / Foto: D.R.

    Para já, a liquidação está em andamento e marcará o fim de linha da empresa, depois de ter falhado o avanço do plano de insolvência apresentado por Delgado, que era a sua derradeira ’tábua de salvação’ perante diversas acções de execução em curso por parte de credores de TIN.

    Por saber, fica a dúvida sobre como é que uma empresa com um capital social de apenas 10 mil euros acumulou, estranhamente, dívidas superiores a 30 milhões de euros sobretudo junto do Estado, mas também junto do Novo Banco e da Impresa. Um mistério que provavelmente nunca ficará resolvido.

  • Jornal de Notícias e TSF também caminham para o completo desastre financeiro

    Jornal de Notícias e TSF também caminham para o completo desastre financeiro


    No ano passado, após uma convulsão no grupo de media Global Notícias — no decurso de uma atribulada tentativa de controlo por um obscuro fundo de investimentos das Bahamas —, o anúncio da separação do Jornal de Notícias e da TSF foi “vendido” como uma manobra de ressurreição.

    Criou-se então a Notícias Ilimitadas — dinamizada pelo ex-jornalista Domingos de Andrade com um conjunto de empresários nortenhos — apresentada como a estrutura que permitiria salvar dois órgãos de comunicação social supostamente “lucrativos”, libertando-os da pesada âncora financeira deixada pela Global Notícias.

    Prometeram estabilidade, foco editorial e uma nova fase para títulos históricos. Era, afinal, apenas retórica. A divulgação — tardia e ainda incompleta — dos números financeiros relativos a 2024, só agora feita no Portal da Transparência dos Media, após semanas de insistência do PÁGINA UM, expõe uma realidade totalmente distinta: não houve salvação alguma, apenas a transferência de um problema. E o colapso económico e financeiro está iminente.

    De acordo com os dados divulgados agora no Portal da Transparência dos Media, gerido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) — que necessitam de ser confirmados com os depósitos da Informação Empresarial Simplificada (IES) na Base de Dados das Contas Anuais (BDCA) —, a Notícias Ilimitadas terminou o exercício de 2024 já com um prejuízo líquido de 1,2 milhões de euros e um resultado operacional negativo de 1,4 milhões.

    Os rendimentos totais mal ultrapassam os 7,4 milhões, valor assombrosamente baixo para uma empresa que concentra um dos maiores diários do país, o Jornal de Notícias, e títulos da imprensa ainda vendida em banca como a Evasões, JN História, O Jogo e Volta ao Mundo, detendo também, apenas no online, os sites Delas e Notícias TV.

    Domingos de Andrade foi o grande dinamizador da cisão do Jornal de Notícias e TSF para a Notícias Ilimitadas, na qual detém 10%.da accionista Versos Imaculados.

    A narrativa oficial, que sempre insistiu que ambas as marcas permaneciam “rentáveis”, desfaz-se assim ao primeiro sopro de números verdadeiros. O capital próprio da Notícias Ilimitadas é um dos mistérios contabilísticos que se adensa nos dados agora revelados.

    Com efeito, a empresa tinha no final do ano passado apenas um capital social de 71.430 euros, mas surge com um capital próprio de quase 4,3 milhões de euros, desconhecendo-se a sua proveniência, porque os dados do balanço são desconhecidos. Certo é que, mesmo sendo investimentos dos accionistas — sobretudo da empresa Versos Imaculados, controlada pela Parsoc, uma holding da Guarda detida pelo empresário José Manuel Rogeira de Jesus —, ignora-se o peso de cada um.

    Em todo o caso, para uma empresa de media recente com títulos relevantes, causa espanto a estrutura de custos que não encontra correspondência nas receitas. Com efeito, o passivo da Notícias Ilimitadas atinge já os 12,6 milhões de euros – ou seja, quase três vezes mais do que o capital próprio dos accionistas –, o que coloca a empresa num limiar vulnerável: basta repetir um resultado semelhante mais um ou dois anos para que caia na falência técnica.

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    Se a casa-mãe das marcas parece já instável, a situação da Rádio Notícias — a subsidiária que suporta a TSF — é ainda mais alarmante. Os seus resultados financeiros de 2024 não enganam: 1,12 milhões de euros de prejuízo líquido, fruto de receitas totais de 3,7 milhões, estando agora com um capital próprio de apenas 214 mil euros. Com um passivo acima dos 3,9 milhões, a empresa está tecnicamente à beira de colapso. Não se trata de mera turbulência conjuntural, mas de uma incapacidade estrutural de gerar receitas mínimas para cobrir custos operacionais. Ou seja, cada dia de emissão é dia de prejuízo.

    Contudo, o caso mais surpreendente — ou talvez não — é constatar que o negócio entre a Global Notícias e a Notícias Ilimitadas foi um fiasco completo, porque nenhum dos órgãos de comunicação social está melhor do que em 2023, e nessa altura estavam já muito mal.

    Em 2023, antes do surgimento da Notícias Ilimitadas – e da saída do JN, TSF e O Jogo –, a Global Notícias, que tem Marco Galinha como accionista de referência, apresentava capitais próprios positivos de 7,1 milhões de euros. Doze meses depois, no final de 2024, já sem o controlo dos títulos da Notícias Ilimitadas, o cenário transformou-se num desastre absoluto: capital próprio negativo de 19,3 milhões, passivo de 40,8 milhões, activos reduzidos a 21,4 milhões e um prejuízo líquido de 26,4 milhões.

    Marco Galinha (segundo a contar da direita) é o accionista de referência da Global Notícias e o ‘padrinho’ da cisão de títulos que levaram à saída do JN e TSF para a esfera da Notícias Ilimitadas. O negócio não revela qualquer sinal positivo para as duas empresas de media.

    Esta destruição patrimonial — superior a 26 milhões num único exercício — constitui um dos mais severos colapsos empresariais recentes no sector da imprensa portuguesa. A Global Notícias encontra-se em falência técnica inequívoca, e a questão que se coloca já não é “se” poderá recuperar, mas sim “quando” deixará de ter viabilidade formal para continuar a operar, apesar dos anúncios histéricos de sucesso por parte da direcção editorial do Diário de Notícias.

    Aliás, sintomático de uma crise estrutural tanto dos títulos ainda controlados pela Global Notícias como pela Notícias Ilimitadas está no facto de já nem serem divulgadas as vendas em banca de diários icónicos como o Diário de Notícias e do Jornal de Notícias pela Associação Portuguesa para o Controlo da Tiragem e Circulação (APCT). Para ambos os títulos, não foram revelados dados do segundo trimestre de 2025.

    A gravidade do caso da Global Notícias adensa-se porque a empresa não depositou ainda as contas na BDCA, impedindo qualquer escrutínio sobre dívidas fiscais e contributivas, incumprimentos perante entidades públicas ou eventuais passivos ocultos.

    Esta omissão — que, por si só, coloca a empresa em incumprimento legal — ocorre ao mesmo tempo que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social escamoteia o acordo parassocial que atribui à Global Notícias 30% dos direitos económicos da Notícias Ilimitadas, recusando-se a publicá-lo apesar de uma intimação favorável ao PÁGINA UM. Ou seja, a ERC, cuja missão passa pela transparência dos media, é hoje parte activa da obscuridade que envolve estes grupos empresariais.

    Helena Sousa, presidente da ERC: regulador dos media não quer mostrar acordo parassocial entre Global Notícias e Notícias Ilimitadas.

    A leitura conjunta destes dados permite extrair também uma conclusão que dificilmente deixará alguém surpreendido: a separação do JN e da TSF não teve como objectivo salvar dois títulos, mas sim isolar prejuízos, redistribuir riscos e preparar, longe da vista pública, uma reconfiguração societária que continua sem explicação clara.

    A operação não travou a degradação das contas; pelo contrário, expôs a fragilidade de todas as peças do tabuleiro. A Notícias Ilimitadas está debilitada, a Rádio Notícias está agonizante e a Global Notícias está financeiramente reduzida a um remanescente sem capital, sem liquidez e sem futuro discernível.

    N.D. 20h50 de 24/11/2025 – Por lapso, escreveu-se originalmente que houve um acordo parassocial que atribuiu à Cofina 30% dos direitos económicos da Notícias Ilimitadas. Obviamente, o acordo foi feito entre a Global Notícias (que antes detinha 100% do Jornal de Notícias e da TSF) e a Notícias Ilimitadas.

    Este artigo originou um direito de resposta de Norberto Moreira que pode ser lido aqui.

  • Entrada de Berlusconi na dona da SIC depende da ‘boa vontade’ dos reguladores

    Entrada de Berlusconi na dona da SIC depende da ‘boa vontade’ dos reguladores


    Não vai ser fácil o grupo MediaforEurope (MFE), da família Berlusconi, copiar em Portugal, com a Impresa, o mesmo modelo de controlo – por fases -, que aplicou na ProSiebenSat.1, uma empresa germânica cotada na Bolsa de Valores de Frankfurt. E por duas razões muito simples.

    Por um lado, a legislação portuguesa exige um apertado controlo sobre a titularidade dos grupos de media, exigindo o conhecimento de acordos parassociais, que geralmente incluem compromissos de gestão e de aquisição futura. E sucede que se mostra evidente existir já uma concertação entre a MFE e a Impreger (controlada pela família Balsemão), até porque, conforme um comunicado aos investidores, a Impresa assume que o grupo italiano não ultrapassará os 33% de participação, através de um aumento de capital.

    Foto: D.R.

    Por outro lado, havendo essa concertação – escrita ou não -, a CMVM pode considerar que estão preenchidos os pressupostos para a obrigatoriedade de um lançamento de um oferta pública de aquisição (OPA), por existir uma alteração substancial de controlo ou da estrutura accionista, exigindo assim um investimento imediato mais avultado por parte da MFE..

    Na Alemanha, o controlo da MFE na ProSiebenSat.1 iniciou-se de uma forma mais discreta em 2019 com uma posição minoritária e houve assim tempo para ‘analisar’ a empresa germânica antes da ‘tomada de assalto’ já este ano. Em Março passado, quando a MFE possuía perto de 30% na empresa alemã decidiu lançar então uma OPA para aumentar a sua posição e garantir o controlo efectivo, Com isso, em Agosto a MFE já detinha quase 44% da empresa alemã, agora já têm mais de 75%. No entanto, para tal, viu-se obrigada a ir reforçando o prémio para os investidores lhes venderem acções.

    Tal como na Alemanha, em Portugal a MFE começará com a aquisição de uma posição minoritária na dona da SIC, e será previsível que a família Berlusconi jamais queira manter uma posição desta natureza sem se imiscuir na gestão quotidiana, ainda mais face à ausência de dividendos e elevado endividamento da Impresa sob omnipresente e omnipotente gestão da família Balsemão. O único mistério é saber quando a família Balsemão será ‘chutada’ do controlo efectivo da dona da SIC e Expresso, ou se Francisco Pedro Balsemão não passará apenas de um CEO decorativo. Ora, isso pode ficar expresso num acordo parassocial, que por regra é secreto, excepto se se tratar de uma empresa cotada e sobretudo de uma empresa do sector da comunicação social.

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    Por isso, em Portugal todas as fases da operação terão de passar pelo regulador dos media (ERC) e também pelo polícia da Bolsa (CMVM). A família Balsemão, que neste momento controla a Impresa através da Impreger (que detém 50,3% do grupo de media) terá de convencer sobretudo a CMVM de que não existe ainda um cenário de concertação para evitar o lançamento de uma OPA.

    Em todo o caso, o adeus da família Balsemão à Impresa fica, para já, em standby, enquanto a MFE procurará ‘limpar’ o grupo do peso insustentável da dívida e dos encargos e prepará-lo para a fase seguinte, em que a SIC passará a receber ordens em italiano.

    A Impresa anunciou na passada quarta-feira que, “apesar de os termos finais do acordo estarem ainda em discussão [com a MFE], esclarece-se que o objeto das negociações se limita, neste momento, à subscrição de uma participação minoritária, não superior a 33% do capital social, por entidade do grupo MFE, através de aumento de capital na Impresa”.

    No mesmo comunicado feito aos investidores, a Impresa frisou que a concretização da operação estará dependente da análise da CMVM “de que a mesma não gera dever de lançamento de oferta pública de aquisição”.

    Pier Silvio Berlusconi, presidente-executivo da MediaforEurope. O grupo deverá replicar em Portugal o mesmo ‘modus operandi’ observado na Alemanha, onde tomou inicialmente uma posição minoritária na ProSiebenSat.1 mas acabou por lançar uma oferta pública de aquisição sobre a empresa em Março deste ano. / Foto: D.R.

    Este comunicado surgiu depois de a CMVM ter decidido suspender a negociação em Bolsa das acções da Impresa, na passada sexta-feira, 31 de Outubro, a aguardar a divulgação pela Impresa de informação relevante. Mas a “informação relevante” saiu na imprensa económica na segunda-feira, antes do comunicado oficial divulgado no site do polícia da Bolsa. Segundo as notícias, a entrada da MFE na Impresa passará por um investimento de 20 a 40 milhões de euros, através de um aumento de capital. Mas numa segunda fase a MFE irá tomar o controlo da dona da SIC e do Expresso.

    Já no comunicado que a Impresa fez em 28 de Setembro, referiu que nas negociações com a MFE não se encontrava “afastada a possibilidade da aquisição por este de uma participação relevante (direta ou indireta) para efeitos de controlo na Impresa”.

    Ora, acontece que qualquer nova participação directa ou indirecta em grupos de comunicação social tem também de ser comunicada à ERC, mais concretamente no Portal da Transparência dos media, juntamente com os acordos parassociais.

    Francisco Pedro Balsemão, presidente-executivo da Impresa está a prazo no cargo, até à segunda fase de investimento da MFE na Impresa, que resultará na perda do controlo do grupo de media por parte da Impreger, controlada pela família Balsemão. / Foto: D.R.

    A preparação da mudança de mãos da Impresa, com família Balsemão a perder o controlo do seu grupo, surge num contexto de fortes dificuldades financeiras que a dona da SIC atravessa. Recorde-se que o grupo falhou a venda do seu edifício-sede ao grupo BPI, em Julho passado.

    Este negócio, anunciado em Junho, previa a entrada de 37 milhões de euros nos cofres da Impresa, que iriam aliviar os problemas de tesouraria do grupo. Uma parte desse montante, no valor de 14,9 milhões de euros, teria de ser usado na amortização antecipada do empréstimo contraído junto do Novo Banco, que foi contratado no final de 2022, quando a Impresa readquiriu o edifício-sede em segredo.

    Com um prejuízo recorde de 66,2 milhões de euros em 2024 e um passivo global de 250 milhões — dos quais 150 milhões são empréstimos bancários —, a Impresa vive sob o peso de juros que ultrapassam um milhão de euros por mês. O seu negócio principal — a comunicação social — tem sustentado a estrutura financeira do grupo. Mas foi no imobiliário que tentou encontrar um inesperado maná: o edifício-sede, construído de raiz para alojar os canais da SIC e a redacção do Expresso, converteu-se numa fonte de lucros improváveis, através de três transacções consecutivas, num vaivém de vendas e recompras.

    Foto: D.R.

    Os problemas do grupo estão, não no seu negócio ‘core’, mas ao nível da holding. A família Balsemão perdeu 90% do seu património mediático em 15 anos, segundo uma análise do PÁGINA UM. Mas a cúpula da família Balsemão não se tem saído mal em termos de vencimentos obtidos na Impresa: só na última década, contabilizam-se quase 6,6 milhões de euros apenas em salários e complemento de pensão do fundador do grupo, Francisco Pinto Balsemão, recentemente falecido. De fora, estão outros benefícios eventuais, incluindo viaturas e despesas diversas pagas pela Impresa. 

    Agora, há que aguardar pela chegada de informação concreta à CMVM para analisar a entrada da MFE na Impresa e dar assim o pontapé de saída para a mudança de controlo do grupo de media. Para já, a CMVM mantém-se ocupada com outros assuntos, até porque o regulador está a investigar as transacções realizadas na Euronext Lisboa em Setembro passado com acções da Impresa, antes da divulgação do interesse formal da MFE no grupo.

  • Questões a Gouveia e Melo: ERC acusa Sandra Felgueiras de promover estigmatização e discriminação

    Questões a Gouveia e Melo: ERC acusa Sandra Felgueiras de promover estigmatização e discriminação


    A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) acusa a reconhecida jornalista Sandra Felgueiras de ter feito perguntas “susceptíveis de favorecer juízos estigmatizantes e discriminatórios relativamente a alguns grupos sociais” durante a entrevista na TVI e CNN Portugal realizada ao almirante Henrique Gouveia e Melo no início de Junho.

    A deliberação hoje divulgada, mas aprovada a 29 de Outubro, reacende o debate sobre os limites da intervenção do regulador, que tem querido imiscuir-se até na condução e no estilo jornalístico, mesmo em entrevistas políticas. Recorde-se que, em Agosto do ano passado, o regulador agora liderado por Helena Sousa – uma ex-jornalista do Jornal de Notícias sem passado relevante, actualmente professora e investigadora na área dos media na Universidade do Minho – já tinha dado dois ‘puxões de orelhas’ a José Rodrigues dos Santos nos últimos dois anos.

    Sandra Felgueiras

    No caso da entrevista de Sandra Felgueiras ao antigo chefe do Estado-Maior da Armada, então recém-declarado candidato presidencial, a ERC não apreciou algumas perguntas. Por exemplo, a jornalista questionou Gouveia e Melo sobre a eventual ligação entre imigração e criminalidade, evocando “episódios como os do Martim Moniz” e referindo “comunidades culturalmente diferentes, como a indiana e a paquistanesa”. A ERC entendeu que essas formulações “carecem de sustentação factual” e podem “contribuir para a formação de juízos discriminatórios”. Também foi considerada problemática uma outra questão em que a jornalista da TVI e da CNN Portugal caracterizou as aulas de Cidadania como “tão polémicas hoje em dia pelo pendor ideológico que têm vindo a assumir”.

    Embora o regulador reconheça que o entrevistado teve oportunidade para “desconstruir as perguntas e afirmar com clareza a sua perspetiva” – o que não deixa de ser uma análise absurda num contexto de entrevista, porque o entrevistador não está a expor necessariamente os seus pontos de vista –, nesta polémica deliberação a ERC entende que a TVI e a CNN Portugal, através de perguntas de Sandra Felgueiras, se afastaram dos deveres de rigor e isenção previstos na Lei da Televisão e no Estatuto do Jornalista. Na parte final da decisão, a ERC até chega a instar a TVI e a CNN Portugal a assegurarem “o pluralismo, o rigor e a isenção”, bem como a respeitarem e assegurarem “uma cultura de tolerância, não discriminação e inclusão”. Ou seja, assume que Sandra Felgueiras, com perguntas, desrespeitou tudo isto.

    A ERC também ignorou os argumentos de defesa do director de informação da TVI e da CNN Portugal, Nuno Santos, que defendeu que a entrevista a Gouveia e Melo se inscrevia na mais pura tradição de escrutínio político e que Sandra Felgueiras “utilizou, de acordo com o seu estilo próprio, os recursos de linguagem e argumentação necessários para obter respostas esclarecedoras”. Argumentou ainda que “não houve qualquer incitação à violência ou ao ódio” e que as questões visavam apenas “impedir respostas ensaiadas ou inconclusivas”.

    Entrevista de Sandra Felgueiras a Gouveia e Melo realizou-se em 2 de Junho.

    Esta deliberação da ERC é mais uma de uma longa série de intervenções polémicas do Conselho Regulador sobre entrevistas televisivas, onde o regulador se substitui à crítica pública e entra na apreciação do estilo e da formulação das perguntas. Os precedentes mais notórios ocorreram com José Rodrigues dos Santos, alvo de deliberações semelhantes após entrevistas a Marta Temido, no ano passado, e ao líder do PCP, Paulo Raimundo, em Março passado — casos em que a ERC também censuraram o tom e o estilo do jornalista da RTP.

    Nos últimos meses têm-se sucedido decisões do regulador vistas como uma tentativa de normatizar a retórica jornalística, impondo uma espécie de “código de conduta de tom”, em que a fronteira entre a ética e o controlo da linguagem se torna difusa. Neste novo episódio, o órgão presidido por Helena Sousa e composto por Pedro Correia Gonçalves, Telmo Gonçalves, Carla Martins e Rita Rola reconhece que a entrevista contribuiu para o pluralismo e a liberdade de expressão — mas, paradoxalmente, mantém uma censura parcial à conduta da jornalista, sublinhando que “algumas perguntas carecem de sustentação factual”.

    Esta deliberação do regulador dos media, mesmo sendo juridicamente inócua – não pode sequer ser contestada em tribunal administrativo –, acaba por ser politicamente significativa, porque os visados ficam com um trunfo que mancha a reputação dos jornalistas. Aliás, a ERC tem usado as deliberações para, por exemplo, menorizar diversas investigações do PÁGINA UM, não por quaisquer erros, mas por questões de estilo de escrita ou, por vezes, excedendo as suas competências (quando, por exemplo, questiona o rigor científico sem possuir técnicos dessa área).

    Helena Sousa, presidente do Conselho Regulador da ERC: a antiga jornalista quer agora determinar até o estilo das perguntas nas entrevistas.

    Em suma, no caso das entrevistas, há também uma questão fundamental: quem deve definir os limites da interrogação jornalística — o entrevistador, o público ou o Estado? Ao sugerir que certas perguntas “favorecem juízos estigmatizantes”, a ERC entra num terreno escorregadio, onde a interpretação política das palavras ameaça sobrepor-se à liberdade de expressão.

    Num país que se orgulha de ter uma comunicação social livre, a deliberação contra Sandra Felgueiras surge, assim, como mais um capítulo na história recente da regulação paternalista da ERC, que ora reprime o sarcasmo de José Rodrigues dos Santos, ora julga o estilo combativo de uma entrevista presidencial. E levanta, de novo, uma questão central: numa democracia, até que ponto pode o regulador tutelar até a forma como um jornalista faz perguntas?

  • CNE abre processo à Ordem dos Engenheiros pelo pagamento de debates autárquicos

    CNE abre processo à Ordem dos Engenheiros pelo pagamento de debates autárquicos


    A Comissão Nacional de Eleições (CNE) abriu um processo contra a Ordem dos Engenheiros após a sua  secção regional do Norte ter patrocinado um conjunto de debates autárquicos promovidos pelo Jornal de Notícias (JN). Em causa está a violação do dever de neutralidade e imparcialidade exigido a entidades públicas, que também integra as ordens profissionais, em períodos eleitorais, um crime punido com pena de prisão até dois anos ou pena de multa até 120 dias.

    A CNE também decidiu remeter o caso para a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) para eventual punição da Notícias Ilimitadas, a empresa proprietária do JN, por eventual violação das “normas próprias da actividade da comunicação social”. Isto porque foi a Ordem dos Engenheiros que indicou os dois temas a tratar – habitação e mobilidade -, o que configura uma ingerência editorial.

    Debate eleitoral no Porto dinamizado pelo Jornal de Notícias e pago pela Ordem dos Engenheiros. Presidente da secção regional do Norte, Bento Aires, teve direito a foto de conjunto no meio dos candidatos. / Foto: D.R.

    A decisão da CNE foi enviada esta quinta-feira ao PÁGINA UM em resposta a questões colocadas pelo jornal sobre o conjunto de debates patrocinados que teve lugar ao longo de duas semanas, entre os dias 25 de Setembro e 1 de Outubro, em plena campanha eleitoral.

    Na origem deste caso está a realização de quatro debates autárquicos promovidos pelo JN com o patrocínio da secção regional do Norte da Ordem dos Engenheiros, através do pagamento de cerca de 25 mil euros (com IVA). Os debates abrangiam candidatos às presidências das Câmaras Municipais do Porto, Braga, Viana do Castelo e Bragança, mas o contrato de patrocínio excluía alguns dos partidos concorrentes. Os candidatos, apurou o PÁGINA UM, desconheciam a existência de contrapartidas financeiras entre a Ordem dos Engenheiros e a empresa do Jornal de Notícias, que tinham combinado os dois únicos temas do debate: habitação e mobilidade.

    A iniciativa decorreu ao longo das últimas duas semanas, em plena campanha eleitoral, sendo que os debates foram centrados sobretudo em dois temas escolhidos pela Ordem dos Engenheiros – Região Norte (OERN): habitação e mobilidade.

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    Foto: D.R.

    Apresentada como uma série de “debates com Engenharia”, o JN acabou por publicar os conteúdos do evento em formato informativo, tendo ainda envolvido a participação de jornalistas, o que constitui uma incompatibilidade legal, já que estes não podem participar em eventos de índole comercial.

    A CNE sublinhou, na resposta enviada ao PÁGINA UM, que “a Ordem dos Engenheiros, na sua qualidade de entidade pública, encontrava-se, a partir da data da marcação das eleições autárquicas, sujeita àqueles especiais deveres de neutralidade e imparcialidade”.

    Também recordou que “as entidades públicas e os titulares dos respetivos órgãos estão obrigados a especiais deveres de neutralidade e de imparcialidade no decurso dos processos eleitorais, i.e., a partir da marcação da data da eleição”.

    Deste modo, é-lhes “vedado que pratiquem actos que de algum modo favoreçam ou prejudiquem uma candidatura ou uma entidade proponente em detrimento ou vantagem de outras, sob pena de violação dos deveres previstos no artigo 41.º da Lei Eleitoral dos Órgãos das Autarquias Locais (LEOAL) e, consequentemente, da prática do crime punido nos termos do artigo 172.º da mesma Lei”.

    Debate eleitoral em Braga pago pela secção do Norte da Ordem dos Engenheiros, liderada por Bento Aires. / Foto: D.R.

    A decisão da CNE foi tomada na reunião plenária na passada terça-feira, onde se decidiu pela “abertura de processo e a notificação do visado para se pronunciar, no que toca à matéria da neutralidade e imparcialidade imposta pela lei eleitoral, bem ainda a remessa à ERC, quanto à matéria da atividade da comunicação social”.

    Saliente-se que este é um precedente grave, apenas detectável porque o contrato, sendo público, consta do Portal Base. Ora, se os órgãos de comunicação social perderem a ética podem vir a receber verbas de entidades privadas para, através de debates ou conferências com políticos e governantes, passarem a criar agendas temáticas com contrapartidas comerciais directas.

  • Negócios de Cristiano Ronaldo rendem (por agora) menos do que um depósito a prazo

    Negócios de Cristiano Ronaldo rendem (por agora) menos do que um depósito a prazo


    Na entrevista feita esta semana por Piers Morgan, Cristiano Ronaldo falou da sua carreira – que já o coloca no Olimpo do futebol, a ‘escassas’ dezenas de golos para ultrapassar a barreira dos mil –, mas também da sua vida pessoal e dos seus negócios. Mas se dentro de campo, CR7 desafia os limites e o tempo, convenhamos que fora dele, no mundo dos negócios, o génio madeirense ainda aguarda um toque de mestre para transformar o seu já ‘império empresarial’ num colosso de rentabilidade.

    O mais recente relatório e contas da sua holding, a CR7, referente ao exercício de 2024, mostra uma estrutura societária em grande crescimento e diversificação, mas com resultados financeiros ainda longe do brilho desportivo.

    Sediada na Torre II das Amoreiras, em Lisboa, a CR7 já não é uma empresa pequena, embora seja considerada uma microempresa, por ser uma holding com poucos empregados. Tem activos de quase 148 milhões de euros, quase tudo (138,7 milhões) indexados às participações financeiras em 29 empresas espalhadas por Portugal, Espanha, Reino Unido, Países Baixos, Alemanha, Chipre, Luxemburgo e Emirados Árabes Unidos.

    Digamos que se trata de um império de amplitude global, mas o retorno económico é, para já bastante modesto: em 2024, a CR7 registou lucros líquidos de apenas 724.977 euros, o que representa uma rentabilidade de 0,5% sobre o activo — um número que, ironicamente, fica abaixo do juro médio de um simples depósito a prazo.

    A leitura detalhada das contas permite perceber porquê. A esmagadora maioria das empresas do grupo ainda não gera lucros significativos nem dividendos. O desempenho consolidado da holding assenta sobretudo em dividendos de apenas três das 29 subsidiárias do grupo, além de rendimentos financeiros, com 245.650 euros obtidos em juros de aplicações bancárias, provavelmente devidos aos quase nove milhões de euros do activo em depósitos bancários. Este será um sinal de liquidez folgada, mas também de subaproveitamento financeiro.

    De acordo com a análise do PÁGINA UM, no ano passado os investimentos da CR7 resultaram num retorno por via de dividendos de 1.220.046 euros. A Insparya, clínica de transplante capilar e medicina estética, contribuiu com 200.040 euros; a Insparya National, que gere a rede portuguesa do mesmo grupo, pagou-lhe 300.006 euros; e a Medialivre, através da Expressão Livre distribuiu 720.000 euros. Uma suprema ironia: para já, a empresa mais lucrativa de Cristiano Ronaldo é a que publica o Correio da Manhã e é dona da CMTV, que durante anos infernizou a vida do futebolista com ‘escândalos’ e fofocas. O cenário mudou quando há dois anos Cristiano Ronaldo entrou com 30% no capital do grupo de media.

    Todas as restantes subsidiárias – num total de 26 – apresentaram resultados negativos ou optaram por reter lucros para reinvestimento. A conclusão é inequívoca: Cristiano Ronaldo está, sem dúvida, a construiu uma constelação empresarial vasta, mas o brilho financeiro e económico ainda é ténue.

    O grupo mantém, contudo, uma solidez estrutural invejável. A CR7, S.A. apresenta capitais próprios de 20,9 milhões de euros, face a um endividamento de 126,9 milhões, mas que é essencialmente composto por financiamentos de longo prazo, internos e externos. No entanto, os custos operacionais são elevados para uma estrutura desta natureza: em fornecimentos e serviços externos a CR7 gastou quase 477 mil euros e em gastos com pessoal (apenas cinco pessoas) 167 mil euros.

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    Pela análise do balanço e da demonstração de resultados, o passivo será suportado pelo próprio Cristiano Ronaldo – e não por empréstimos bancários ou dívidas a terceiros, porque o pagamento de juros é praticamente zero. A estrutura de capital é robusta, a tesouraria é confortável e as contas revelam disciplina. Falta, porém, o essencial: o lucro operacional que justifique a magnitude do império.

    O portefólio empresarial de Cristiano Ronaldo é hoje, de facto, uma das mais complexas estruturas privadas detidas por uma figura pública portuguesa. Com 29 empresas identificadas — 19 em Portugal e 10 no estrangeiro —, o universo CR7 constitui um verdadeiro conglomerado transnacional que se estende do turismo à biotecnologia, da tecnologia digital ao imobiliário de luxo, do entretenimento desportivo à saúde personalizada.

    Acrescem outras que ainda não estão integradas na holding, como a CR7 Sports Investments e a CR7 Lifestyle. Em todo o caso, é um império onde o nome próprio é o activo mais valioso e a diversificação a estratégia dominante, mesmo que, por agora, a rentabilidade continue modesta.

    Em Portugal, concentram-se as empresas mais activas e operacionais. A CR7 Footwear é a mais antiga e mantém a exploração da marca de calçado e acessórios, um dos primeiros projectos de licenciamento da imagem de Ronaldo. A 7EGEND, fundada em 2017, tornou-se o núcleo tecnológico e criativo do grupo, responsável pela comunicação digital, conteúdos e inovação associada à marca. No sector do turismo, a Category Challenge, em parceria com o grupo Pestana através da Pestana CR7 Holding, S.A., gere os hotéis CR7 em Lisboa, Madrid, Funchal e Marraquexe, consolidando a vertente de hospitalidade e lazer do império.

    Na vertente da saúde e bem-estar, destacam-se a Insparya, clínica de transplante capilar e dermatologia de referência, e a Insparya National, que centraliza a gestão da rede portuguesa. Ambas foram responsáveis por dividendos no último exercício, sinal de vitalidade empresarial. A este núcleo soma-se a Erakulis, dedicada à nutrição e desempenho físico, e a Green Fit Recovery, centrada na reabilitação e performance desportiva.

    No imobiliário e na gestão patrimonial, a Domum Septem e Ponta de Lança, gere activos de luxo e investimentos residenciais, enquanto a Maravilha Décimal comercializa água alcalina. Na comunicação, o seu principal activo é a participação na MediaLivre e mais recentemente a CR7 Media, por agora dedicada à coordenação mediática e digital do jogador.

    Outras sociedades portuguesas ocupam nichos estratégicos: a Footlabworld, que explora a combinação entre futebol e tecnologia em experiências imersivas; a Celestialaxis, de consultoria e gestão de participações; a Smooth Odyssey, vocacionada para inovação tecnológica; a Vista Alegre Atlântica, que liga o universo CR7 ao sector do luxo e design português; e a Lisboa Racket Centre, centrada no desporto e lazer. Juntas, estas empresas representam o corpo operativo nacional do império, a partir do qual se articulam investimentos e participações externas.

    No plano internacional, o grupo assume um perfil mais sofisticado e disperso. Em Espanha, Cristiano Ronaldo participa na Global Leisure Partners, dedicada à consultoria em lazer e entretenimento, na Xcell Medical Solutions, focada em medicina regenerativa, e na Dutton Invest, que gere activos e aeronaves. A sua presença ibérica completa-se com a VA Vista Alegre España, responsável pela distribuição da marca de porcelana e cristal em território espanhol.

    Nos Países Baixos, Ronaldo é investidor na Catapult Therapeutics, uma start-up de biotecnologia que desenvolve terapias com anticorpos monoclonais aplicados a doenças hematológicas. No Reino Unido, detém uma posição na BQ Holding Limited (Bioniq), empresa de health-tech especializada em nutrição personalizada. Já em Chipre, através da XTEN Limited, controla uma holding de investimento tecnológico. No Luxemburgo, é accionista da Fresh-52 SARL, dedicada ao retalho alimentar e produtos de bem-estar, mas que tem um projecto planeado para Almeirim de cultura de cenouras.

    O mapa empresarial completa-se com duas estruturas mais recentes e estratégicas: a CR7 Middle East, com sede nos Emirados Árabes Unidos, que gere a expansão comercial e o licenciamento da marca CR7 no Golfo; e a MPN Marketplace Holdings Ltd., ligada à operação alemã de comércio digital.

    Este mosaico de 29 empresas – onde a CR7 apenas controla (mais de 50% do capital) uma dezena, sendo que as restantes acabam por ser mero investimento – traduz uma ambição global de Cristiano Ronaldo, mas também gostos e interesses pessoas: criar um império diversificado e de investimento de longo prazo que sobreviva ao jogador e transforme a marca pessoal numa holding internacional de luxo, saúde e performance.

  • Impresa: CMVM avalia indícios de crime de ‘insider trading’

    Impresa: CMVM avalia indícios de crime de ‘insider trading’


    A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) está a investigar as transacções realizadas na Euronext Lisboa em Setembro passado com acções da Impresa, antes da divulgação do interesse formal da MediaForEurope (MFE) — grupo controlado pela família Berlusconi — em assumir o controlo do grupo de media fundado por Francisco Pinto Balsemão, recentemente falecido.

    A investigação, sob a forma de análise preliminar, pretende verificar se houve ‘insider trading’, foi hoje confirmada pelo Departamento de Supervisão de Mercado do regulador, no seguimento de uma notícia do PÁGINA UM que revelara, em 30 de Setembro, movimentos anómalos e volumes incompatíveis com a normal actividade desta cotada nas duas semanas que antecederam o anúncio público do interesse da MFE. Após o anúncio oficial desse interesse, registou-se na Euronext uma duplicação do valor das acções no mercado.

    Luís Laginnha de Sousa, presidente da CMVM. Foto: DR

    A análise estatística então efectuada pelo PÁGINA UM, com base nas séries históricas da Euronext Lisboa, mostrou que entre 11 e 26 de Setembro se registara uma média diária de 442 transacções e 383.155 acções negociadas — valores mais de seis e quatro vezes superiores, respectivamente, às médias dos 22 meses anteriores, quando a actividade era modesta: 67 negócios e 91.172 acções por dia.

    A discrepância mostrava-se suspeita, evidenciando eventuais ‘insider trading’. Enquanto a média semanal de transacções acumuladas era de 313 desde Janeiro, na semana de 15 a 19 de Setembro ocorreram 1.958 operações, e na semana seguinte — 22 a 26 de Setembro — mais 3.078. Este padrão indiciam a eventualidade de as conversações entre a Impresa e a MFE já terem saído dos corredores para os terminais de negociação, antecipando o comunicado divulgado apenas no fim-de-semana seguinte, beneficiando assim quem adquirira antecipadamente com informação privilegiada.

    Num emitente cuja capitalização bolsista rondava, antes do interesse da MFE, apenas 21 milhões de euros — longe dos 514 milhões de 2007 — mesmo movimentos discretos, mas consistentes bastam para deslocar preços. E deslocaram. A 30 de Setembro, a Impresa incendiou os ecrãs: 3.617 negócios, 33,1 milhões de acções trocadas e uma valorização acumulada de 105% face à sexta-feira anterior.

    Número de transacções acumuladas por semana dos títulos da Imprensa na Bolsa de Valores de Lisboa. A vermelho estão as semanas de 15 a 19 e de 22 a 26 de Setembro, antes dos comunicados da empresa cotada na CMVM. Fonte: Euronext. Análise: PÁGINA UM.

    Nessa sessão, o preço intradiário chegou aos 0,334 euros (+165%), antes de corrigir 23%. Actualmente, a sua cotação está fixada em 0,275 euros, estando a negociação suspensa desde 15h36 de sexta-feira aguardando nova comunicação ao mercado de factos relevantes. Nas últimas semanas, o comportamento dúbio da Impresa, através da Impreger (que detém 50,1% do grupo de media), tem sido bastante criticada por falta de transparência.

    Em Portugal, o abuso de informação privilegiada está tipificado no artigo 378.º do Código dos Valores Mobiliários, punível com pena de prisão até cinco anos ou multa, aplicável a quem detenha informação relevante e não pública e a use para negociar, transmitir a terceiros ou influenciar o mercado.

    Segundo a definição legal, considera-se informação privilegiada “toda a informação não tornada pública que, sendo precisa e dizendo respeito directa ou indirectamente a qualquer emitente, seria idónea, se fosse divulgada, para influenciar de modo sensível o preço do título”. Assim, se um investidor tivesse comprado 80.000 acções da Impresa a 0,125 euros antes do comunicado sobre a intenção de entrada da MFE e as tivesse vendido a 0,25 ou 0,33 euros, teria obtido um ganho bruto entre 100% e 165% — o que, caso sustentado por informação reservada, configura crime.

    Francisco Pedro Balsemão, actual CEO da Impresa.

    Além das consequências criminais, a CMVM pode aplicar coimas até cinco milhões de euros, perda dos lucros obtidos e proibição temporária de exercer funções de gestão.

    O PÁGINA UM questionara formalmente a CMVM, presidida por Luís Laginha de Sousa, sobre se foram activados alertas internos de vigilância, se havia reconstrução do “tape” (registos completos de ordens e transacções), e se teria sido pedida à Euronext e à Impresa a identificação dos beneficiários finais das contas que mais negociaram nas semanas anteriores ao anúncio do interesse da MFE.

    Saliente-se que as dúvidas levantadas pelo PÁGINA UM se basearam na análise estatística das negociações dos títulos da Impresa com aplicação de um modelo de análise de janelas móveis de sete dias úteis, calculando z-scores de volume e retorno e um Índice de Anomalia Composta. O resultado revelou vários dias de acumulação típica de informação privilegiada, com aumentos de volume antecedendo valorizações — um padrão clássico de “acumulação informada”.

    Pier Silvio Berlusconi, CEO da MFE: negociações foram oficialmente comunicadas no sábado passado, mas movimentações na Bolsa de Lisboa evidenciam que havia informação privilegiada a ser usada.

    Estes indícios não provam o crime, mas obrigam o regulador a verificar. Em praças pequenas e pouco líquidas como Lisboa, qualquer fuga de informação amplifica o impacto e cria oportunidades ilícitas. “Negociar antes de o mercado saber” é, na prática, usar vantagem informacional contra os restantes investidores, e a isso chama-se abuso de mercado.

    A tecnologia para detectar, em tempo real, estas ocorrências existe — cruzamento de ordens, perfis de conta, padrões de cancelamento e eventuais wash trades (operações simuladas). Este caso da Impresa é assim um teste de credibilidade à polícia da bolsa portuguesa. Se o regulador confirmar que houve negociação informada antes do anúncio, poderá estar em causa uma das mais graves violações de transparência no mercado nacional dos últimos anos.

  • Diário de Notícias já tem credores à perna

    Diário de Notícias já tem credores à perna


    Depois de apresentar prejuízos de 26,5 milhões de euros em 2024, a proprietária do Diário de Notícias está a ter dificuldades em pagar as suas contas. Este mês de Outubro, já são cinco os processos que deram entrada no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa contra a Global Notícias, três dos quais de execução.

    Mas, desde Maio, contam-se já 12 acções apenas nos tribunais de Lisboa e Porto contra a Global Notícias, que também detém 30% da Notícias Ilimitadas —proprietária do Jornal de Notícias e da TSF —, por dívidas superiores a 571 mil euros a ex-colaboradores e fornecedores.

    Um logótipo do Diário de Notícias nas traseiras da antiga sede do jornal, na Avenida da Liberdade, recordando os tempos áureos do jornal. / Foto: PÁGINA UM

    Este mês, o primeiro processo, deu entrada a 7 de Outubro, e é relativo a uma dívida no valor de 9.921,24 euros da Global Notícias a João Manuel Rodrigues da Silva, que foi designer na empresa entre Novembro de 1996 e Maio de 2024.

    Seguiu-se uma outra acção executiva, a 11 de Outubro, interposta pela empresa Reload – Consultoria Informática Unipessoal por uma dívida de 137.367,57 euros.

    No dia 22 de Outubro, foi a vez da empresa AR Telecom-Acessos e Redes de Telecomunicações, dar entrada com um processo executivo, para tentar recuperar um valor de 16 524,13 euros que está em dívida.

    Luís Figueiredo Trindade, presidente-executivo da Global Media e presidente da Global Notícias desde Maio deste ano. / Foto: Captura de imagem de vídeo do evento Mobi Summit

    Os outros dois processos visando a Global Notícias, que entraram na capital este mês por haver valores em dívida, incluem um da autoria da empresa de viagens Diplomata por causa de 21.627,94 euros. O outro processo foi colocado pela Evolok Limited, por uma verba de 47.449,39 euros.

    Em 20 de Setembro, já tinha dado entrada no mesmo tribunal uma acção executiva contra a Global Notícias, interposta por Ana Sofia Esteves, que foi gestora de clientes da Global Media entre Novembro de 2008 e Maio deste ano, por uma dívida de 16.609,11 euros.

    Antes, no dia 30 de Maio, o jornalista Jorge Flores (CP 8346), ex-editor da Motor 24, colocou a Global Notícias em tribunal para exigir o pagamento de um montante de 85.870,75 euros.

    Processos que deram entrada desde Maio no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa. / Foto: Captura de imagem do Portal Citius

    No Tribunal Judicial da Comarca do Porto acumulam-se, desde Maio, cinco processos judiciais relacionados com dívidas de particulares e empresas. No mesmo dia, 15 de Maio, deram entrada três acções distintas movidas por antigos colaboradores: Mário Gomes, que reclama 9.504 euros; outra apresentada por Manuel Mota de Queirós, no valor de 15.200 euros; e uma terceira, da jornalista Carina Fonseca, que exige o pagamento de 147.630 euros.

    Algumas semanas depois, a 18 de Junho, surgiu um novo processo intentado pela agência de comunicação Wonderlevel Partners, pertencente a Luís Bernardo, no montante de 45.463 euros, e, por fim, a 23 de Junho, a jornalista Isabel Peixoto avançou igualmente com uma acção judicial para recuperar 18.585 euros.

    Processos que deram entrada desde Maio no Tribunal Judicial da Comarca do Porto. / Foto: Captura de imagem do Portal Citius

    Estes 12 processos contra a Global Notícias, que deram entrada na Justiça (Lisboa e Porto) desde Maio, superam os 571 mil euros euros: 225.885 euros relativos a acções de execução; e 345.865 referentes a acções comuns.

    Recorde-se que a Global Notícias ainda não cumpriu a sua obrigação legal de entrega das contas anuais através da Informação Empresarial Simplificada (IES) ao Instituto dos Registos e do Notariado, cujo prazo, já prorrogado por 10 dias, terminou a 25 de Julho. A empresa, que tem Marco Galinha como accionista de referência, revelou informação no Portal da Transparência dos Media sobre as suas contas, mas sem sequer serem confirmadas em documentos oficiais, embora a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) tenha ‘fechado os olhos’.

    Em Março do ano passado, a Global Media anunciou um despedimento colectivo que incluiu a direcção do Diário de Notícias e são frequentes os relatos de atrasos nos pagamentos a colaboradores externos.

    Marco Galinha (segundo à direita) na companhia da direcção editorial do Diário de Notícias (Filipe Alves, Valentina Marcelino e Nuno Vinha). / Foto: DR

    Segundo os dados do Portal da Transparência da ERC, em 2024, a Global Notícias fechou o exercício com um passivo superior a 40,8 milhões de euros e capitais próprios negativos em 19,3 milhões de euros.

    A Global Notícias resultou da cisão do grupo Global Media e é detentora dos títulos Diário de Notícias, Dinheiro Vivo, Motor 24, Men’s Health e Women’s Health. A empresa é detida em 41,5% pela Páginas Civilizadas, em 29,35% pela KNJ SGPS, de Kevin Ho, em 20,4% por José Pedro Soeiro e em 8,74% pela Grandes Notícias. O seu principal título, o Diário de Notícias, vendeu no primeiro trimestre deste ano apenas 966 exemplares por dia e contava então com 723 assinaturas digitais. Ao contrário da generalidade dos jornais e revistas, o mais antigo diário do Continente ainda não revelou dados de vendas para o segundo trimestre de 2025.