Categoria: Suplemento

  • ‘A minha música foi feita para um público mais maduro’

    ‘A minha música foi feita para um público mais maduro’

    Manuel Monteiro conversou com Bruno Rama (nome musical: Ramma), que, além de músico, vocalista e letrista, é também ilustrador do PÁGINA UM. Motivo: o seu recente álbum, Ramma.

    Fala-nos do teu percurso na música, do que fizeste até teres o teu álbum cá fora. 

    Tive aulas de canto durante muitos anos. Estudei no Conservatório Nacional de Música de Lisboa e numa Academia de Música, a Academia Sigfredo em Madrid. Participei em agrupamentos de canto que representavam peças de ópera e musicais. Depois de ter decidido abandonar os agrupamentos, comecei a compor a minha discografia e, em 2023, voltei a ter aulas de canto com o professor catedrático Vincenzo Spatola. Serviu-me para preparar as gravações deste álbum.

    Em muito pouco tempo, os teus vídeos e canções tiveram um salto considerável em visualizações e audições, designadamente o teu primeiro videoclipe. Surpreendeu-te?

    A surpresa foi enorme, porque sou um artista independente e desconhecido.

    Ter comentários de pessoas do México, da Alemanha, Espanha, França, Portugal, Síria, Estados Unidos nos meus videoclipes é algo que nunca pensei ser possível.

    A forma como as coisas chegam a qualquer lado nos dias de hoje é algo fenomenal. Passados poucos meses, tenho cerca de 3800 visualizações do meu primeiro videoclipe no YouTube, o canal tem cerca de 15 mil visitas, e nove canções têm mais de mil audições. A recepção em Espanha tem sido magnífica, algo que eu verdadeiramente não esperava, porque o álbum está composto quase na sua totalidade em língua portuguesa, mas as pessoas abraçaram bem o projecto em Espanha.

    O teu nome artístico tem a letra m duplicada por alguma razão?

    Rama é o meu apelido verdadeiro, mas decidi adicionar mais um m para distanciar o artista da pessoa e também para que não houvesse conotações com outras culturas. No hinduísmo, o Deus Rama existe e até tem o seu templo em Ayodhya. Na Tailândia, toda a dinastia se chama Rama, o actual rei é Rama X, de modo que procurei afastar o artista de todo este tipo de coisas.

    Que música deste álbum te diz mais e porquê?

    Sem a menor dúvida, O Inferno arde em mim. Foi a primeira canção que compus em português e que marcou o início de toda esta viagem. Passei uma temporada muito atribulada na minha vida e, numa viagem de comboio do Peso da Régua ao Porto, senti pela primeira vez a necessidade de escrever em português. Essa canção foi composta nessa viagem, tanto a letra como a melodia, e depois mais tarde trabalhada com o Paco Cinta, um músico multi-instrumentista que actuou com vários nomes conhecidos da música espanhola como Barei, Los Pecos, Tamara. Foi a primeira canção a ser composta, a ser gravada, produzida em estúdio e foi também a canção do primeiro videoclipe de Ramma. Tudo começou com essa canção.

    Vou dizer algo que já deves ter ouvido dezenas ou centenas de vezes: «tens uma voz singular». Que fazes para a trabalhar e para a proteger?

    Nisso coincidimos, porque eu costumo dizer que não sou o melhor cantor, mas tenho a sorte de ter uma voz que ninguém tem. Aprendi, com os anos e através de muitos erros, a forma de a proteger. Cantar na tua tessitura é crucial, tal como ter aulas para aprender a dominar mais a voz e a ajudar a compreender como ela funciona, para uma melhor utilização.

    Se te perguntassem a quem se assemelha, saberias responder?

    Verdadeiramente, não sei de algum cantor que tenha as mesmas características de voz que eu na sua totalidade, mas acho que teria de dizer o estado-unidense Howard Keel, que tem uma voz que se assemelha bastante à minha. Também podemos falar em Till Lindemann dos Rammstein, que tem características similares, porque tem uma voz grave e com muitos harmónicos, algo que no canto lírico é conhecido como voz metálica.

    Qual o músico vivo com o qual gostarias de colaborar? Consegues escolher um nacional e um estrangeiro?

    O artista nacional com quem eu gostaria de colaborar seria o Paulo Bragança. Possui uma voz singular de contratenor, que é uma maravilha, para não falar no seu aspecto artístico, que eu adoro. Quanto ao artista estrangeiro, há inúmeras possibilidades, mas eu dou muita importância aos guitarristas, pelo que teria de ser Slash dos Guns NꞋ Roses. Adoraria que ele um dia criasse um solo de guitarra para uma das minhas canções, ou até compor um tema com ele. Sonhar é grátis.
    Em todo o caso, fica muita gente de fora, tanto nacional como estrangeira.

    Gostarias de viver apenas da tua música? Que obstáculos vês nos dias de hoje a essa aspiração?

    Isso é algo por que todo o músico anseia, mas é uma visão cada vez mais utópica devido à saturação do mercado. Actualmente, há muita gente relacionada com a música, e para piorar as coisas agora juntaram-se as IA, que têm muita gente a aproveitar-se delas. Ainda que se tente banir este tipo de coisas, há outros que vêem nisto uma fonte de lucro, e, como nada está legislado, esta situação está fora de controlo. Há empresas da indústria musical a criar personagens de IA e a tentar fazer que elas pareçam reais para as pessoas consumirem o produto, e assim o dinheiro ficar em casa. Hoje em dia, é quase um milagre viver da música, e também dificulta muito se esta é de qualidade. Mas os milagres acontecem. É esperar para ver.

    Parece-me que a tua música vai buscar um conjunto vasto de influências. Estou errado?

    É uma grande verdade, especialmente neste primeiro álbum. Fiz este álbum a pensar numa demonstração do que vai ser a carreira de Ramma, e tal como podes ouvir, há muita diversidade nos temas que o compõem, tal como haverá durante a carreira de Ramma. Acho que, com tanta beleza que tem a música, é errado que um artista se encerre num estilo, porque isso geralmente leva a que uma carreira seja monótona no plano musical. Eu gosto de poder explorar vários estilos musicais, mas tento sempre manter a identidade de Ramma. Neste álbum, temos uma canção sinfónica, um swing, um tango, rock, mas sempre tentando manter a atmosfera e as características do meu som. Gosto de viajar por vários géneros musicais para poder trazer riqueza ao meu som e evitar a monotonia na minha carreira.

    Como letrista exclusivo das tuas músicas, já te aconteceu escreveres uma canção e depois, quando a gravaste, sentires que era difícil encaixar algumas palavras ou que, de algum modo, elas não se adequavam à música?

    Isso ocorre muitas vezes. Por vezes, as palavras na métrica da canção são difíceis de pronunciar ou não entram nessa métrica, e aí há sempre que fazer mudanças. Na canção Recordações, tive de fazer isso com uma palavra, e isso aconteceu durante a sessão de gravação. É normal que surjam este tipo de situações.

    Que importância atribuis às letras quando ouves músicas de outros?

    Se não tiver uma boa música por trás, uma grande letra não vai funcionar, e o contrário também não. O importante em tudo é o conjunto. A música funciona como um todo, nem a letra é mais importante do que a música, nem a voz é mais importante do que os instrumentos. O conjunto faz a beleza da canção, mas as letras também têm de contar uma história e de ter um significado. Já ouvi bastantes grupos que escrevem letras que parecem ser muito bonitas, e depois vês que estiveram ali a falar sobre nada e que não entendeste nada do que te quiseram contar. A música é e será sempre melhor se for composta de forma que favoreça a canção.

    Tens ideia de qual é a ‘fisionomia’ do teu público-alvo? Quando produzes a tua música, tens em conta esse público-alvo, ou decides fazer apenas aquilo que sentes ser artisticamente melhor e mais verdadeiro?

    Eu tenho um público-alvo, mas, em nenhum momento, tenho esse dado em conta na altura de compor uma canção. Na verdade, eu faço o que bem entendo com as minhas canções e a minha arte. É um dos lados muito positivos que ser um artista independente tem. Acho que a minha música foi feita para um público mais maduro, um público com uma certa experiência de vida que consiga adaptar as canções a ocorrências vividas.

    Que projectos musicais tens em mãos?  

    Ultimamente, estou a estudar árias de ópera de baixo e, assim que aprenda alguns papéis de baixo, acho que tentarei fazer alguma coisa com isso. De resto, continuo a compor os próximos álbuns de Ramma. Neste momento, estou a uma canção de acabar de compor o terceiro álbum. Depois de o terminar, farei uma pequena paragem, até começar a compor o quarto álbum, que é o único que falta compor. Todos os outros já estão compostos, pelo que posso dizer que já tenho o trabalho bem adiantado.

    Hiperligações para seguir Ramma

    facebook.com/profile.php?id=615820106.

    https://open.spotify.com/intl-pt/artist/1MrAVeyxwvS7Klp.

    music.apple.com/artist/1845033624

    deezer.com/us/artist/350634462

    www.youtube.com/@RammaArtista


  • Um festim de trompetes

    Um festim de trompetes

    Toda a música deveria ser tão transparente e límpida nas suas intenções quanto foi Ibrahim Maalouf neste concerto em torno de Trumpets of Michel-Ange. Transparente e límpida — entenda-se — não no sentido da simplicidade, mas naquele outro, mais subtil, em que a música parece saber aquilo que quer ser e, talvez por isso mesmo, se entrega inteira a essa convicção. E, ao vivo, no Coliseu dos Recreios, essa transparência e limpidez não diminuíram: amplificaram-se.

    Ibrahim Maalouf não é um trompetista qualquer — e isso, ao contrário do que tantas vezes se escreve por inércia crítica, não é uma hipérbole. É um facto perceptível nos primeiros minutos, mesmo para quem entra na sala sem mapa nem bússola musical. Da minha parte, só comecei verdadeiramente a interessar-me por este trompetista franco-libanês há sensivelmente um ano. A sua linguagem é, em simultâneo, vasta, coesa e multifacetada: jazz, pop, influências orientais, ecos de música festiva e até um certo dramatismo quase cinematográfico, tudo fundido numa identidade que não soa a colagem, mas a síntese. Pelo menos para mim, que, como leigo, não sou purista.

    Foto: Ben Do Rosário.

    E foi essa síntese que dominou o Coliseu. Maalouf trouxe consigo um ensemble que foi, mais do que uma secção, um verdadeiro corpo vivo: seis trompetistas a respirar em conjunto, acompanhados por um saxofonista, duas guitarristas e um baterista, expandindo o som até preencher o espaço com uma energia que oscilava entre a celebração e a contemplação. Tudo profundamente físico, impondo-se como presença.

    O concerto foi pensado — e encenado — como narrativa: um arco emocional que acompanhava uma história de amor (do próprio Maalouf), do entusiasmo inicial à maturidade e à despedida. Essa ideia, que poderia resvalar para o conceito fácil, foi executada com uma inteligência musical rara.

    As composições sucederam-se com fluidez, alternando momentos de exuberância quase festiva — onde o público foi convidado, e aceitou, entrar no ritmo — com passagens de maior delicadeza, onde a trompete, sobretudo na sua versão microtonal, revelou uma expressividade que escapa às categorias habituais da música ocidental.

    Foto: Ben Do Rosário.

    E é aqui que Maalouf se distingue: na capacidade de fazer da trompete um instrumento que não apenas emite som, mas articula nuance. A chamada trompette arabe, com o seu sistema de quartos de tom, introduz uma dimensão de subtileza que, uma vez apreendida pelo ouvido, abre um campo expressivo extraordinário. Em peças como “Zajal”, essa linguagem torna-se quase vocal — inflexões, deslizes, pequenas tensões melódicas que evocam a tradição árabe, mas que aqui surgem integradas num contexto contemporâneo, acessível sem ser banal.

    Mas o concerto não se esgotou nesses momentos mais evidentes. Houve peças como “The Proposal”, que abriu o alinhamento com uma delicadeza quase cerimonial, insinuando desde logo o fio narrativo do espectáculo; “Love Anthem”, onde os jogos rítmicos e as mudanças de tempo criaram uma tensão lúdica e contagiante; ou ainda “Capitals”, verdadeiro hino festivo, com um vigor quase carnavalesco que levou a sala a um estado de entusiasmo colectivo. “The Smile of Rita” trouxe um registo mais íntimo, quase contemplativo, enquanto “Au Revoir”, já na fase final, introduziu uma nota de despedida que evitou o sentimentalismo fácil, optando antes por uma melancolia contida e elegante.

    Há, além disso, momentos em que o ensemble funciona como uma autêntica fanfarra sofisticada, evocando tanto o jazz de New Orleans como tradições mediterrânicas e do Médio Oriente, sem nunca cair na caricatura. Essa capacidade de atravessar geografias musicais sem perder coerência é, talvez, uma das maiores forças de Maalouf.

    Há, além disso, uma dimensão de comunhão: Maalouf não actua para o público; actua com o público. A energia que parte do palco, em constante diálogo, regressa multiplicada, criando uma atmosfera que, em certos momentos, roça o ritual. Não surpreende que o próprio músico fale frequentemente de união, de ligação humana, de partilha — são palavras que tantas vezes soam ocas, mas que aqui encontram tradução concreta.

    Nem tudo, porém, merece aplauso — e uso a palavra com intenção dupla. Existe hoje um vício quase mecânico na relação do público com o espectáculo ao vivo: a necessidade de pontuar cada momento com palmas, mesmo quando a música pediria silêncio, suspensão, escuta.

    No Coliseu, houve instantes — alguns particularmente belos, outros francamente dançáveis (e dançou-se, e saltou-se muito) — em que a continuidade emocional foi interrompida por aplausos intempestivos. Para mim, as palmas servem para agradecer entre peças e para celebrar no fim. Não estou ali para ouvir palmas — estou ali para ouvir música. E, em certos momentos, a música merecia dança, mas não o ruído constante de mãos a bater por tudo e por nada.

    Dito isto, seria mesquinho reduzir a experiência a esse detalhe. O que se passou no Coliseu foi, no essencial, um concerto de elevadíssimo nível — irrepreensível, musicalmente rico e profundamente envolvente. Maalouf domina o instrumento, domina a linguagem e, sobretudo, domina o espaço — e fá-lo acompanhado por músicos de excelência.

    No fim, fica uma impressão clara: estamos perante um músico virtuoso, que justifica plenamente as duas nomeações para os Grammy Awards, bem como os múltiplos Victoires de la Musique, e que, aos 45 anos, continua a expandir o seu universo artístico com uma vitalidade rara. Há ainda muito para explorar — e, felizmente, muito para ouvir.

    Nota: 4,5 (em 5)

  • Aston Martin

    Aston Martin

    Agora, que sinto e sei tudo aquilo que sou,

    Digo-vos, meus amigos, 

    Que tudo o que sempre quis

    Foi ter um Aston Martin

    Nem precisava de ser um grande Aston Martin

    Embora saiba de antemão que não existam pequenos Astons Martins

    Mas queria um para dar umas voltinhas, ir até ao Cais, ao Lux, ou ao Incógnito 

    Quem sabe até Cascais, ou ao Estoril, ou pontualmente até ao Algarve 

    Ou, apenas, para estacionar em frente da mercearia e ir até à padaria comprar pão

    E pagar com gosto e gozo a multa, por estacionar num lugar proibido
    Gostava de te ir buscar a casa 

    Abrir-te a porta

    E deixar-te no meu quarto

    Queria ser olhado e idolatrado por todos os que me vissem em tal carro,

    Despenteado para me poder pentear no excesso de velocidade e de brisa

    E olhar-me ao espelho e dizer:

     — És um digno dono de um Aston Martin.

    Mas como nada disto aconteceu,

    Digo-vos resignadamente «boa noite»,

    Pois tenho mesmo de dormir

    Encontrar-nos-emos no autocarro amanhã, 

    Caso não façais greve ao trabalho

    E juntos, todos juntos, continuaremos na labuta

    Para comprar um Aston Martin 

    Não para nós que nos esforçamos, não para nós que sonhamos

    Mas para o nosso chefe, o nosso patrão, para quem trabalhamos

    A luta continua

    ***

    Luís Serra Santos é poeta lisboeta e pugilista nos tempos livres.

  • O tranquilo Senhor Braga

    O tranquilo Senhor Braga

    Aos 50 anos, Joaquim Braga estocava no guarda-roupa 20 ternos, oito deles italianos, comprados todos nos últimos cinco anos, período em que se mantivera, sem esforço, nos 80 quilos. Usava camisas italianas de linho, gravatas francesas de seda e sóbrios sapatos britânicos.

    Diretor do escritório em Brasília de uma grande agência de publicidade, Braga recebia um polpudo salário mais o aluguel de uma casa de quinhentos metros no Lago Sul. Gastava muito com seguros, impostos e combustíveis dos cinco carros da família. Todos do ano. Nas férias, sempre em julho, botava a mulher embaixo do sovaco e se mandava para a Europa ou para os Estados Unidos. Nos demais gastos, era comedido. Aliás, o dinheiro não estava no centro das suas cogitações. Filho de família modesta, tinha clara noção do elevado padrão de vida que levava. Não almejava muito mais, mas não gostaria de voltar a viver em um apartamento.

    Quando ia a mansões de clientes da agência, parecia-lhe por instantes que o casarão em que morava era apenas confortável. Penalizava-se com a miséria que o cercava nos semáforos, nos estacionamentos e nas calçadas, mas como não tinha a fórmula mágica para acabar com tantos mendigos suplicantes dava de ombros. Nunca se interessara por política. Jamais se questionou se haveria a possibilidade, mesmo remota, de um mundo onde todos, quase todos ou a maioria, pudessem viver com dignidade.

    Joaquim Braga, ressalto, era um cidadão muito tranquilo.

    Não era religioso, mas me apresso em dizer que não era nem ateu nem agnóstico. Parecia-lhe uma operação excessivamente complicada pensar sobre a existência ou não de um Deus. Reconhecia que há nos homens uma tendência à espiritualidade, que se exacerba nos momentos de solidão e desespero. Mas jamais se sentira desesperado ou solitário. Às vezes, antes de dormir, nas noites em que exagerava no uísque, o que só ocorria raramente, tentava reencontrar as frases do Pai Nosso, que recitava quando menino.

    Homem de ação, Braga adorava viajar. Vibrava já ao preparar as malas. Antegozava na ida de táxi ao aeroporto o prazer da decolagem. Sentia que seu coração se acelerava ao pisar a escada do avião. Amava hotéis, sentia-se em casa neles. Gostava de observar a variada fauna que se reunia nos amplos saguões. Respirava deliciado aquele ar de enganação e falsidade que ronda tudo que é cosmopolita. Fazia longos passeios pelas cidades que não conhecia para ver rostos exóticos e ouvir sotaques estranhos.

    Durante anos fora um repórter talentoso, embora sem a arrogância, a inconseqüência e o cabotinismo que levam um jornalista a se destacar entre os de sua geração. Em dois jornais e em uma revista construiu em 20 anos o que se poderia chamar de uma sólida carreira. Com um pouco mais de quarenta anos, quando chefiava a redação de um grande jornal, Joaquim Braga percebeu que havia chegado o momento de trocar de ramo.

    Certo dia, observando rapazes e moças recém saídos da universidade engalfinhados com os terminais de computador, entendeu que aquela era uma profissão que exigia acima de tudo juventude. Ou ingenuidade. Parecia-lhe indecoroso o fato de passear seus cabelos já grisalhos e sua fleugma por entre a eletricidade de tantos corações acelerados que queriam salvar a humanidade, derrubar o governo e reformar a sociedade.

    Joaquim Braga, que passara sua vida trabalhando sempre até muito tarde, sonhava em desfrutar os mais inocentes prazeres da noite. Desejava, acima de tudo, entronizar-se numa poltrona para, rodeado por mulher e filhos, cervejinha no copo, bacia de pipoca no colo, assistir a um bom jogo de futebol pela televisão. Gostaria também de poder caminhar de mãos dadas com Glória, sem pressa, num shopping center.

    Um dia, imaginando que finalmente poderia realizar essas modestas aspirações, aceitou, não sem antes vacilar muito, o convite para dirigir o escritório brasiliense de uma grande agência de publicidade.

    Num coquetel, Braga conheceu o dono da agência, protagonista da mais meteórica entre as meteóricas carreiras publicitárias. O Chefão, como gostava de ser chamado, começara a trabalhar no ramo aos 14 anos, como contínuo da filial de uma empresa americana. Em 10 anos, chegou ao topo: foi indicado diretor-presidente, o primeiro nascido no Brasil. Pouco depois abriu sua própria agência que logo se colocou entre as primeiras do ranking.

    Para engrandecer-se, o Chefão dizia que sofrera dois infartos: o primeiro aos 23 e o segundo aos 28 anos. Seus muitos inimigos diziam que ele tivera apenas taquicardias alcoólicas.

    O Chefão vestia ternos das cores mais incríveis, camisas berrantes e gravatas carnavalescas. Calçava os tênis mais caros, sem meias, e fumava charutos cubanos de cinquenta dólares.

    – Você gosta de jogo, de mulheres ou apenas de dinheiro? – perguntou o Chefão.

    – Algum pecado a gente sempre acaba cometendo – desconversou Braga, sorrindo.

    O dono da agência gargalhou por trás da baforada, voltou-se para o seu diretor financeiro e disse:

    – Compre este homem para nós. Gostei do formato dele.

    Aproveitando o ensejo, Braga pediu o dobro do salário que pretendia inicialmente.

    Jornalista experimentado, ele sabia o valor de palavras bem colocadas. Uma abertura bem escrita salva uma reportagem ruim, costumava dizer.

    Braga divertia-se com frases maliciosas e dúbias. Como a que dera em resposta ao dono da agência, a frase que assegurara sua contratação. Uma frase mentirosa, claro.

    Joaquim Braga odiava qualquer tipo de jogo. Achava, por exemplo, que a inteligência humana jamais conseguirá inventar algo mais cacete do que uma partida de pôquer.

    Casado há mais duas décadas, era homem de uma só mulher. Certa vez, quando se encontrava ligeiramente embriagado, confidenciou a um amigo, com indisfarçável orgulho:

    – Jamais mijei fora do penico.

    No dia seguinte, arrependeu-se da metáfora grosseira.

    O único dos três pecados citados pelo Chefão que o atingia, mesmo que de raspão, era o do dinheiro. Braga não era ganancioso, mas gostava de viver com certa folga.

    – Não me divirto escolhendo o sabonete mais barato – costumava dizer ele à esposa, quando discutiam o orçamento doméstico.

    Meses depois de ter sido contratado, Braga veio a descobrir o sentido daquela frase do Chefão: “Gostei do formato dele”.

    Foi num restaurante, à noite. Depois de esvaziar uma garrafa de uísque, em comemoração ao fechamento de um polpudo contrato com um Ministério, o Chefão disse:

    – Foi amor à primeira vista, Braga. Eu me apaixonei pelo seu formato. Quadrado. Nunca vi um sujeito com tanto jeito de bundão. Esta sua fachada de homem sério e digno vale muito. Mesmo o bandido mais safado acaba se dando mal com você. Eu, por exemplo. Você exigiu um salário acima da média, e eu topei. Por quê? Porque qualquer um se entrega quando você abre este seu sorriso de Gioconda. Você vale ouro, Braga. Você é a face honesta da nossa agência.

    O Chefão era aloprado. Certa vez, entrou apressado na sala de Braga pediu um espelho de bolso e uma esferográfica comum. Atendido, abriu um pacotinho minúsculo e despejou o pó branco que havia nele sobre o espelho. Com mãos trêmulas, retirou a carga da caneta. Por fim, debruçando-se sobre a mesa, aspirou o pó.

    A tudo isso, Braga assistiu calado, inquieto, pálido, chocado, mas principalmente pesaroso. Não sabia que seu patrão era viciado em cocaína.

    Nos dias seguintes, sua grande preocupação passou a ser livrar o Chefão do vício. Pelo telefone, discretamente, falou do episódio com os diretores da empresa em São Paulo.

    Os sujeitos desligavam o aparelho e rolavam pelos tapetes, rindo. O pó aspirado nas barbas de Braga não passava de polvilho. Fora apenas uma brincadeirinha do Chefão com o bem-comportado diretor de Brasília.

    – Eu gosto dele demais da conta – dizia o Chefão. – É o último idiota gentil neste universo de merda. Garanto que, se um dia um cliente mijar na cabeça dele, o Braga seca o pinto do indivíduo com o seu lenço.

    A história de falsa cocaína correu entre os publicitários do país. Quando o Chefão, ligou para Braga a fim de pedir desculpas, ouviu apenas:

    – Fico feliz que tudo não tenha passado de uma brincadeira. Eu estava realmente preocupado. Mas preciso reconhecer que foi uma pegadinha muito bem bolada.

    Em São Paulo, o Chefão baixou o telefone e foi visto com lágrimas nos olhos pela secretária.

    Meses depois, em outro telefonema, Braga notou que a voz do chefe estava mais pastosa que o corriqueiro:

    – Estou mandando uma garota para você. Ela tem 23 anos e é a menina mais linda e inteligente que eu já conheci. Apaixonou-se por mim, mas eu sou um deus e deuses não podem se unir a humanas, mesmo que belíssimas. Há mulheres em demasia no mundo, Braga, e eu não poderei conhecê-las, biblicamente, a todas elas. Por isso, dou umas poucas oportunidades para cada uma. A garota que estou mandando a você é excepcional. Trabalha há seis meses na agência. Namorei com ela durante duas semanas inteiras. Isso é o máximo que concedo a uma mulher. Como ela viu a face de deus, eu temo que, agora, desprezada, tente o suicídio. Por isso, vou passá-la para você. Ela será sua funcionária, aí em Brasília. Deixe que faça o que bem quiser. O importante é que fique por aí, que não venha me aporrinhar aqui. Se você não fosse tão bundinha, Braga, eu lhe pediria que tivesse um caso com ela… Bem, basta que você arranje um garotão para ela. Salve-me dela, Braga! Se você falhar, terei de contratar um pistoleiro em Pernambuco.

    Braga recebeu a moça no aeroporto, fez questão de carregar-lhe a mala. De início, sentiu-se um pouco constrangido em caminhar ao lado de uma jovem tão bonita, mas, aos poucos, percebendo os olhares invejosos dos homens, animou-se.

    A garota fechou-se no hotel e só saiu de lá quatro dias depois para ir à agência. Chegou pelo meio da manhã, de mau humor, fazendo escarcéu. Interrompeu uma reunião de Braga com um cliente importante e, em voz alta, soltou palavrões cabeludos. Para completar, sentou-se de pernas abertas, mesmo vestindo uma saia curta.

    Nos dias seguintes, repetiram-se cenas constrangedoras.

    A garota tinha os olhos permanentemente raiados de vermelho, os lábios secos e bocejava escandalosamente. O que mais fazia era ficar horas no telefone xingando os funcionários da agência em São Paulo.

    Braga percebeu que por trás das máscaras que ela usava, rebeldia, agressividade, grosseria, havia uma jovenzinha como qualquer uma outra. Uma tolinha, como sua própria filha de 20 anos. Por isso, resolveu ajudá-la a esquecer o Chefão. Matava dois coelhos de uma só paulada: livrava seu patrão de uma amante indesejada e restituía alegria àquele rosto de capa de revista.

    Num fim de tarde, numa sexta-feira, Braga entregou à garota uma dose generosa de uísque. Estavam apenas os dois na agência. Olhando a noite que descia sobre os edifícios, ele disse:

    – Você é muito jovem e muito bonita, Mônica. Mas não falo da sua beleza física, que é inquestionável. Falo de uma outra beleza, interior. Você é uma garota deslumbrante. Inteligente e sedutora. Um tantinho agressiva, claro. Mas isso faz parte do seu exotismo.

    A garota soltou o copo sobre a mesa, sem ter tomado um só gole:

    – Eu sei que o Chefão é um canalha, Braga. Sei que ele encarregou você do serviço sujo. Mas o que eu não poderia imaginar é que você, uma pessoa decente, se prestasse para repetir diante de mim as ridículas frases melosas que ele escreveu.

    – Pelo amor de Deus! Isso, nunca!

    Enfaticamente, Braga negou. Disse que estava apenas falando o que realmente sentia. Jurou que as frases eram dele mesmo. Eram palavras de amigo, consolo de pai. Queria mesmo vê-la feliz.

    Mas ela continuou no ataque:

    – Agora entendo a sua delicadeza, Braga. Pura obrigação funcional. Eu ficava realmente feliz quando você abria a porta para mim e puxava a cadeira nas reuniões. Eu achava que você era o último romântico. Um cavalheiro. Mas dei com os burros n´água. Você é como todos os outros, feito do mesmo barro sujo.

    E saiu batendo a porta.

    Uma semana depois Braga a convidou para jantar.

    – Aceito. Desde que eu possa escolher o restaurante. Não aguento mais frequentar os antros de negociatas desta cidade vagabunda que é meca mundial da roubalheira.

    Foram a um discreto restaurante do final da Asa Norte.

    – Pouca luz e música suave – disse Braga, quando entravam.

    Na penumbra do restaurante, ele divisou quatro ou cinco jovens casais abraçados.

    – Que pensa você disso tudo? – perguntou ela, depois que se sentaram.

    – Tudo o quê?

    – Dessa bosta toda, a vida.

    – A vida? Como assim? Você podia ser mais explícita?

    – O que você pensa da sua vida, Braga? O que você fez da porca da sua vida até hoje? Está satisfeito com o resultado, o mundinho sem graça no qual vive mergulhado até o pescoço? No trabalho, você é obrigado a conviver com a nata da vigarice e em casa vive cercado pela sua mulher gorda e pelos seus filhos babacas.

    Braga respirou fundo antes de responder, com voz sumida:

     – Não sei exatamente onde você quer chegar, Mônica, mas eu diria que fiz alguma coisa. Construí uma família, e isso não é pouco.

    – Isso toda gente faz, Braga. Você é apenas mais um animal no meio do rebanho. Um bicho maior, mais valioso, mas castrado.

    Jantaram em silêncio.

    Braga estava muito contrariado com aquelas expressões: mundinho sem graça, animal no meio do rebanho. Mônica era, sem dúvida, mal agradecida. Fizera todo o possível para que se sentisse bem em Brasília, mas ela era quase intratável.

    Entre uma garfada e outra, Braga lançava olhares enviesados para Mônica, que comia com os olhos fixos no prato. Sim, ela era bela, belíssima, ainda mais deslumbrante na meia-luz do restaurante.

    No carro, calado, Braga ainda remoía as frases raivosas dela. Não, não, palavras duras não o fariam mudar. Continuaria o mesmo Braga de sempre, cordial e generoso.

    Na despedida, quando Braga beijou a mão de Mônica, ela o convidou para subir até o bar do hotel.

    – Obrigado pelo convite, mas não posso aceitar. Está muito tarde e eu preciso ir para casa.

    Mônica permaneceu de pé diante da portaria do hotel, vendo-o afastar-se. Lágrimas discretas brilharam nos negros olhos dela.

    Como quase todos os homens, Braga era um cara desatento para as coisas do amor. Era tão desligado que nem percebeu que, depois daquela noite, o rosto virginal de Mônica ganhou a corrupção da maquiagem. Não notou que ela trocou suas desbotadas calças de jeans por saias bem-comportadas. Não viu que ela abandonou os tênis desbeiçados em favor de delicados sapatos de salto. Em suma, não percebeu nem mesmo que o cabelo dela recebeu o brilho de uns falsos fios brancos.

    Joaquim Braga não percebeu esses e outros incontáveis sinais até aquele outro entardecer de sexta-feira, quando Mônica surgiu de surpresa na sala dele, vestindo um lindo vestido de seda, muito decotado, e disse:

    – Sirva-me um uísque, Braga. É só o aperitivo. Hoje eu vou comer você.

    Lourenço Cazarré é escritor

    Todas as gerações (O conto brasiliense contemporâneo), LGE Editora, 2006.

  • Mirabilia

    Mirabilia

    1.

    Nestas crónicas quero dizer tudo e porque as determinações do Mundo, sós, não bastam, apela-se ao êxtase da supra-sensível fantasia. mirabilia, portanto, na sua codificação de teratologias, de voos outros, além da evidência da matéria. Pois as fantasmáticas figuras, todo o precipitado de tanta literatura e cultura, são elas próprias metáfora da urdidura do todo, na sua quotidiana faina que, aliás, se não ousa, por inteiro, desfiar.

    E convém relembrar, em primeiro lugar, que o mais insondável elenco, mirífico e incrível é esse conjunto de vinte e poucos sons e símbolos os quais, mais diversos que a forma de Proteu, compõem a enunciação de toda a criatura, viva e respirante ou, tão-só, pensada em ideal.

    2.

    Imagino, no entanto, um texto infinito — a crónica inesgotável. Que conte toda a circunvolução do orbe, onde o ínfimo pormenor e a grande pincelada de azul, que predomina. Todas as conversas de imemorial resíduo, os sonhos e dissabores de quanta humana criatura penou sob o Sol. E as infinitas, cambiantes, fulgurações, as imagens em completa série dos pluriformes espelhos que, virtualmente, multiplicam a face da realidade.

    Suprimido, assim, o silêncio, poder-se-ia extinguir o planeta que esse arrazoado, autopulsado, moto perpétuo de coisa nenhuma faria, com vantagem, a tão necessária companhia aos anjos. Único sustentáculo, se bem que cifrado, na tessitura da vida, deste ingrato mundaréu. Teriam esses albialados, afinal, o seu Deus. Pois, se eles respiram palavra pura que anelo melhor que um perpétuo texto para sua consolação?

    Julgais que deliro? Decerto, julgais. Mas, não vos ocorreu já, que não existindo essa absurda ideia de uma todo-sapiente divindade, outras entidades, por força, teriam de ser, para que o drama prosseguisse, sobrevivesse ao cansaço que a todos tolhe com a força do pó? Guardiões, no seu eterno autismo, da palavra, que não mesmo da luz.

    Mas, doutra banda, toda a imagem é divina porque toda a alegria é passageira e, assim, há que transfixar o momento da perene contemplação.

    Ora, isso é mor de deuses e esses, que nem chegam a ser, estão em tudo: no mais breve sonido, na víscera das coisas que são e, do mesmo modo, na fantástica imaginária, da cornucópia celeste e terrena que, pura e perfeita se abstém da consabida corrupção.

    3.

    Por isso o texto inaugural destas crónicas só poderá ser a crónica das crónicas do porvir.

    Defina-se, a paleta de cores irreais para que nada fique, virtualmente, de fora excepto o por dentro das coisas, já que se tenta a duvidosa edificação de uma ciência vaga, talvez nula, mas no que haja no flutuar na orla do sentido.

    E, é por mor de leveza, para distração do leitor, que se procura o lar de um fantástico breve, esse o que é próprio do que de luminoso houver na vária cultura: um lugar, um tempo, um modo e um género de dizer, mas que cative, pois se verta a escrita em enamoramento pela forma, pelo ritmo ou pelo tom de um texto que, em toada própria, desdobre o mote em estrofes ou, de um refrão, as variações de cançoneta. E, ainda, o que não é pouco, se verta um quantum de alegria no texto, e alegria na leitura, porque é nesse labor que se encontra a fugaz-elusiva ventura de nos cumprirmos em escrita e se tal alor contagiar o leitor, então ter-se-á por meritório o esforço.

    Introduzir, por fim, a variedade de tema e motivo, saltando mesmo de assunto em assunto com a liberdade própria de outro tempo, o da nostalgia de uma era heróica, ainda que não acontecida.

    4.

    Assim, os autores obsidiantes, aqueles livros obscuros mas fecundos, que carecem de ser relembrados ou trazidos à luz, as anedotas filosóficas que, à margem das filosofias estabelecidas, são signo e repositório de alguma verdade, até a ficção, ainda que em tom de alguma ruminação. Mas também a música e o cinema ou toda e qualquer expressão de uma angústia, uma esperança. Enfim, de quanta marginália nos lembremos ao fluir da pena: as realidades um pouco esquecidas ou todas novas e actuais, mas que mereçam um tanto de reflexão. Sim, o devir do tempo que pode ser circular ou contínuo, o fragmento que, sendo a forma que hoje se impõe, permite infinita arrumação, umas vezes sequencial, outras, remissiva.

    Ter o fantástico — não só na literatura ou o que assim é denominado — presente em texto ou em acto-de-escrita; o bizarro, ínsito no dia-a-dia, assim como naquele instante irreal, único e irrepetível, em que se dá a inversão, a distorção das regras comuns ao ser-do-mundo, mas como signo-sinal do que reste conforme e assim estas breves crónicas poderão — quem sabe? — em quas’alquímico precipitado, conter um Cosmo.

    5.

    Como vos disse, nestas crónicas quisera dizer tudo, mas como tal é impossível, propõe-se, então, explorar o conceito de mirabilia, que significa «milagre» ou, mais especificamente, o que de maravilhoso, bizarro, obscuro, exótico e esotérico nos foi legado na tradição cultural do Ocidente.

    João Pereira de Matos é escritor e investigador no CHAM – Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa.