Categoria: Suplemento

  • Viagem fantástica

    Viagem fantástica

    Se abrires um livro, arriscarás que cada página te desfaça o mundo e te empurre, em silêncio alado, para um lugar sem tempo nem memória.

    Bruno Rama é ilustrador editorial (©Direitos reservados)

    Texto de Pedro Almeida Vieira (©Direitos reservados)

  • The show must go on?

    The show must go on?

    O humor negro ocupou, durante muito tempo, um lugar de tensão dentro da cultura ocidental, não como género estabilizado nem como estilo identificável à primeira vista.

    Foi e é uma prática de fricção contínua, uma espécie de atrito entre linguagem e realidade, no qual aquilo que se diz começa a falhar precisamente no momento em que tenta dar conta da morte, da violência ou do absurdo, e é nesse falhanço — não antes, não depois — que o humor acontece.

    Funciona ao nível do precipício do inconsciente.

    Em Jonathan Swift (um dos seus expoentes máximos), essa operação é quase cirúrgica: a linguagem avança até ao ponto em que a sua própria lógica se torna obscena.

    Mais tarde, os Monty Python deslocam essa violência para o campo do absurdo performativo, em que a morte canta, dança e repete-se até passar a ser mecanismo; enquanto Woody Allen a traz para dentro, transformando-a numa espécie de ruído constante, uma ansiedade organizada, quase administrativa, em que morrer já não é um choque.

    O que estas formas partilham não é apenas o tema, mas a insistência em empurrar a linguagem até ao ponto em que ela deixa de proteger quem a usa.

    Durante décadas, o humor negro revelou. Não explicou nem resolveu, não moralizou nem se dogmatizou.

    Hoje, como sempre, tem na crise o seu lugar cativo. Há quem queira que rir seja por decreto.

    O humor negro foi absorvido, reciclado e devolvido como estilo, integrado nos circuitos mediáticos e digitais em que a transgressão é simultaneamente exigida e controlada, enquanto uma vigilância moral difusa, esse ecossistema meio histérico a que se chama cancelamento, redefine continuamente os limites do aceitável, transformando o risco numa performance calculada.

    O humor negro tornou-se reconhecível. E quando uma coisa se torna reconhecível, está meio morta. Neste cenário, aquilo que antes operava como ruptura passou a funcionar como convenção.

    E é precisamente a partir desse esgotamento que interessa olhar para certas práticas actuais. Em Portugal, fala-se de Rui Sinel de Cordes, o maior representante desse género de humor, com uma insistência curiosa que raramente coincide com aquilo que efectivamente está em causa. Entre entrevistas, peças de imprensa e reacções mais ou menos indignadas, construiu-se à sua volta um discurso contínuo, mas oco, no qual o humor aparece reduzido a conteúdo — aquilo que se diz — e não a operação — aquilo que acontece quando se diz.

    A conversa tende a fixar-se nos limites do aceitável, na gestão do escândalo, na previsibilidade da reacção.

    É copy paste e pouco mais.

    Discute-se se pode ou não pode, se se deve ou não deve, como se o problema estivesse na autorização e não na linguagem.

    E nesse deslocamento, o essencial escapa quase sempre.

    Mesmo quando o tom abranda e se aproxima de uma espécie de reconhecimento, esse reconhecimento surge desarmado, intuitivo, incapaz de se transformar em leitura.

    Como se houvesse a percepção de que algo ali não encaixa, mas sem ferramentas para o pensar. Um desconforto difuso que se resolve depressa demais em opinião.

    O resultado, andando pela net, é um arquivo vasto, mas estranhamente oco. Fala-se muito, mas quase sempre ao lado. Como se a linguagem, ali, voltasse a cumprir a sua função mais antiga: proteger quem fala daquilo que não consegue atravessar.

    Mas tudo muda quando se assiste ao vivo ao seu último espectáculo (Portugal, Amor Não Correspondido), que fala de morte.

    Mas morte à séria.

    O humor negro é para meninos de coro. Lá vão os tempos em que o humor, por ser negro, nos falava da vida obscura da linguagem. Não os tempos da literatura, mas os da cultura massificada.

    Foto: Ruben Costa

    O humor negro, feito por quem o conhece e o estuda, revela muito mais sobre quem não o reconhece. Rui Sinel de Cordes, neste seu último espectáculo (não vi os outros), vira o feitiço contra o próprio feiticeiro e é tal o efeito de ricochete que o vemos, paulatinamente, a ser um espectador atento do espectáculo de estar vivo (ou morto) em Portugal.

    Estamos, sem dúvida, assim para lá da linha comum que separa estar vivo de estar morto. E isso é metafísica.

    Sim. No seu último “coiso”, o cómico arrisca-se a aparecer num manual de filosofia, mas escrito por ninguém.

    E talvez seja esse ninguém que finalmente fala. Não o artista da linguagem do humor, não o provocador profissional, mas essa entidade intermédia que já não precisa de explicar-se para existir dentro de um palco que pode ser a vida.

    Há ali qualquer coisa que nem falha, nem deixa de falhar. Que já é mais que isso. Que levita na sua própria linguagem, quando o espectador se deixa transportar com e sem inocência.

    Que se ri de ser cómico, que faz poética com o tempo que se foi, mas que sabe, de certa maneira, que irá voltar, nem que seja através de si, naquele espaço em que à minha volta toda a gente se ria (também do tempo).

    Um riso cúmplice, como se fosse efectivamente a banda sonora do momento. Um riso inteligente, de quem lida com as mortes nas suas diferentes versões e dimensões.

    Foto: Ruben Costa

    Rui Sinel de Cordes deixa de operar no conforto do escândalo e começa a tropeçar numa espécie de vazio produtivo, em que rir não é o bónus dos 24€ que as pessoas pagam para assistir.

    Rir é já a essência.

    Uma sessão com menos tempo de psicanálise custa, no mínimo, o dobro.

    Rir continua a acontecer, mas já não serve para aliviar, nem para atacar. Fica ali, como um eco ligeiramente deslocado do corpo. Ainda que seja tudo muito cómico à maneira antiga, a clássica.

    O ritmo do homem-só-em-palco chega a parecer o dos melhores filmes dos irmãos Marx. Fá-lo de uma forma estruturada que deixa tempo para pensar e não pensar, para esquecer e lembrar, para, muitas vezes, sorrir à gargalhada.

    No momento em que prescinde da palavra para mimetizar situações do quotidiano, envolve o espectador numa zona de suspensão, justamente porque, entre palavras, há apenas corpo e sub-texto que chega a parecer não-texto. O absurdo funciona ao contrário. Porque o absurdo é precisamente a vida e não o acto de comentá-la.

    A sua energia, ritmo e pulsão estão ao nível do que melhor se faz, incluindo Ricky.

    Foto: Ruben Costa

    Gervais. Ambos projectam para além da linguagem do humor.

    Estão para lá da política do humor, mesmo quando parece o contrário.

    Alguém disse que rir era uma coisa muito séria. Talvez chorar seja uma coisa muito cómica.

    Aquilo que está em causa já não é o limite do aceitável, mas o limite do reconhecível.

    O que é que ainda reconhecemos quando alguém insiste em ir mais longe do que a própria linguagem aguenta?

    Não se sabe. Intui-se, não é racional. Senão seríamos todos desumanos insuflados pelo ódio aos cegos, aos gordos, aos paraplégicos, ao handicap, decretado pela estupidez de quem não sabe rir de si, do seu país, dos outros. De quem tenta racionalizar politicamente o inconsciente colectivo.

    Portugal é, definitivamente, um país sofisticado porque tem um anti-herói que está para além do epíteto.

    Os que gostam do cancelamento abusivo por nada, estão a ficar sem poder para cancelar. Esse desporto está a perder os seus ginásios. Os músculos, afinal, vinham carregados do ouro que pareciam demonizar.

    A caravana passa, mas o Sinel ficou.

    Ficou como presença que já não precisa de ser central para continuar a contaminar o espaço. Há ali uma espécie de persistência que não é resistência, nem sequer sobrevivência. É outra coisa mais banal, mais conceptual e mais estranha ao mesmo tempo.

    É estar vivo acima de tudo. É entrar pelo cemitério adentro com as pistolas carregadas. É tirar a vida aos mortos. Para voltar a dar. Como num bom jogo de poker. É não esquecer a memória de que somos feitos e ser cúmplice de uma língua que, por ser o Sinel a usar, está mais viva do que parece.

    É malcriada e foda-se, bem educada. É a língua portuguesa bem fodida. Mas bem rica quando quer. É uma língua filha-de-puta que joga à bola.

    É a língua do Alberto Pimenta.

    O humorista Sinel de Cordes começa a aproximar-se desse estado intermédio onde a relevância já não depende da novidade nem da transgressão. Já não há escândalo suficiente para o sustentar, mas também não há esquecimento suficiente para o apagar. Está no manual de instruções para crimes banais.

    E isso cria uma posição incómoda para a Joana Marques e companhia, que apenas estão em manuais para a própria banalidade.

    Ela e outros ajustaram-se a um território onde o humor funciona como extensão higienizada do comentário social. Tudo reconhecível, tudo validado à partida, tudo leve o suficiente para não deixar marcas. Há método, talvez ritmo, e eficácia sem dúvida. Funciona. É, no entanto, o riso choninhas FM da Renascença.

    Soa a Igreja.

    Trabalha sobre o óbvio com a perícia de quem sabe exactamente até onde pode ir sem perder o aplauso. E esse cálculo sente-se. Parece crítico, raramente se compromete. E dá dinheiro.

    O protagonista deste texto é precisamente o contrário.

    Na sua dimensão interna sensível, somos levados a olhar para alguém que continua ali sem cumprir exactamente nenhuma função clara. Nem disruptivo, nem integrado. Nem dentro, nem fora.

    Até arrisco falar de todas as pessoas que estavam a assistir, a medir silenciosamente o seu próprio limite de tolerância, de reconhecimento, de cansaço. Ir ver o Sinel não me parece que seja só por divertimento.

    Quem vai, já foi.

    Desde que se entra até que se sai, soa a festa. Há uma descontracção evidente, há luz, há música. Depois sai-se e há descontracção, há luz e há música com mais alguma voltagem.

    As pessoas parece que saíram de lá todas amigas umas das outras.

    Pedi um cigarro à porta e toda a gente ao redor me queria dar. A única coisa que não estava permitida era contar anedotas, nem que fosse para descontrair. Sentíamos que tínhamos acabado de ler um bom livro. Mas um livro disfarçado de Reader’s Digest.

    E tudo foi uma suspensão. Como se o próprio tempo tivesse ficado ali.

    Mesmo com o “Inferno” anunciado a pairar como um fantasma.

    Como se já não houvesse luz ao fundo do túnel mas soubéssemos onde está o lugar do interruptor.

    Ir ver o Sinel é acionar esse dispositivo.

    Texto e ilustrações de Ruy Otero (artista media).

  • Verbos espancados diariamente

    Verbos espancados diariamente

    Havia dois pessegueiros na ilha… ou haviam dois? Trata-se de erros frequentes…. ou tratam-se de erros frequentes? Sabendo a regra, deixará de errar e poderá explicá-la ao Outro.

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    Na rubrica do PÁGINA UM ‘Língua na Cama’, Manuel (Matos) Monteiro – escritor e um dos melhores cultores da Língua Portuguesa, além de formador da Escola da Língua – escalpeliza, de forma caseira e descontraída, erros frequentes do nosso idioma, curiosidades linguísticas, maravilhas idiomáticas. Aprenda e divirta-se.

    ‘Língua na Cama’ é serviço público de qualidade para os leitores do PÁGINA UM.

  • Leitura livre com ideias vigiadas

    Leitura livre com ideias vigiadas

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    Acreditamos viver num tempo de leitura livre. Qualquer livro pode, em teoria, ser aberto sem mediação, sem tutela, sem índices de proibição a pairar sobre a estante. Mas bastam alguns sinais discretos para perceber que essa liberdade, embora formalmente intacta, está longe de ser absoluta.

    Esta reflexão surgiu-me a propósito da chegada às minhas mãos, por via das minhas deambulações por leilões online — com saudades confessas dos leilões presenciais, de raquete na mão, onde se saía satisfeito, derrotado ou ligeiramente culpado por um lance a mais —, de um pequeno opúsculo de 1876 que decidi retratar no “Observatório da Literatura”.

    Imagem usada para o anúncio de suplemento de cultura

    Não o procurei; encontrei-o. E, como tantas vezes acontece, foi o acaso que me entregou um objecto mais eloquente do que muitos livros deliberadamente escolhidos. Trata-se de Considerações sobre as boas e más leituras, do padre Crispim Caetano Ferreira Tavares.

    Este é m livrinho de noventa páginas que, à primeira vista, deve ser lido como uma curiosidade anacrónica: um sacerdote preocupado com os perigos da leitura num século que começava a abrir fissuras no edifício da autoridade religiosa. Mas não está ali apenas doutrina, mas sim inquietação: o registo de um momento em que a Igreja percebe que o livro já não lhe pertence.

    Há cento e cinquenta anos, a questão colocava-se de forma directa: o que deve ser lido e o que deve ser evitado? A resposta vinha acompanhada de listas, de advertências e de classificações morais. Havia boas leituras — edificantes, conformes e seguras — e más leituras — perigosas, corrosivas e subversivas. O leitor era visto como terreno vulnerável, exposto a influências que poderiam desviar não apenas o seu pensamento, mas a sua própria conduta.

    Hoje, no mundo ocidental, não existe censura formal da leitura. Não existem índices oficiais, não há livros proibidos por decreto e não há autoridades que determinem, de forma explícita, o que deve ou não circular. Mas isso não significa que a questão tenha desaparecido. Mudou apenas de forma.

    A censura deslocou-se, entretanto, do objecto para o ambiente. Já não se proíbe o livro; apenas se condiciona a sua recepção. Já não se interdita a leitura; enquadra-se antes o leitor. A pressão não é jurídica, mas social. Não se manifesta em listas oficiais, mas em consensos difusos, em expectativas implícitas e em penalizações simbólicas.

    Vivemos num tempo em que a polarização substituiu o debate e em que o espaço para a ambiguidade — condição essencial da leitura — se tem vindo a estreitar. Certos livros não são proibidos, mas tornam-se impronunciáveis em determinados contextos. Certas ideias não são interditas, mas passam a ser classificadas, rotuladas e até desqualificadas. O leitor, que nos tempos do padre Crispim era visto como alguém a proteger, passa agora a ser alguém a vigiar — e, com mais frequência, alguém que se auto-vigia.

    O padre Crispim talvez reconhecesse este mecanismo, ainda que não o aceitasse. A sua preocupação era sobretudo o efeito na mente do leitor, havendo aí alguma ‘bondade’. Nesse sentido, o seu erro — se assim lhe quisermos chamar — não estava na percepção do problema, mas na solução proposta: controlar o acesso, definir previamente o que era legítimo ler.

    Mudou o cenário, não desapareceu a tensão. Onde antes havia listas e proibições explícitas, hoje prevalecem mecanismos mais subtis de validação e exclusão. Não se impede a leitura, mas molda-se o enquadramento. Já não é o acesso ao livro que está em causa, mas o custo de certas interpretações.

    O pequeno opúsculo que entrou na minha biblioteca serve, por isso, menos como objecto de análise e mais como instrumento de contraste. Não pela actualidade do seu conteúdo, mas pela clareza do seu gesto: delimitar, classificar e advertir. O nosso tempo prefere fazê-lo de forma menos visível, mas não necessariamente menos eficaz.

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    Foto: D.R.

    Talvez a questão não esteja, afinal, na liberdade de abrir um livro, mas na margem de autonomia que resta depois de o fechar. Nesse intervalo — entre o que se lê e o que se pode dizer sobre o que se leu — mede-se, com mais rigor, a saúde intelectual de uma época.

    Também por isso, comprar livros sem grande critério, que não o da liberdade de concordar e discordar, passa a ser um acto de cidadania. Porque, de vez em quando, um título improvável não acrescenta apenas uma peça à nossa estante: desloca o nosso olhar. E isso, em matéria de leitura e de sabedoria, continua a ser o essencial.

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  • O coração

    O coração

    Inês soluçava, deitada de bruços, sobre a almofada manchada de rímel e base.

    Um desgosto de amor. Mais um.

    Desta vez, fora um rapaz da universidade que, terminado o curso, regressara à sua cidade.

    Clara ficou ao lado da prima, a segurar-lhe a mão, a dizer o que dizia sempre:
    que ia passar, que ele não era suficientemente bom para ela, que haveria outro, melhor.
    Dizia-o com cuidado, com doçura, e com uma inveja silenciosa, quase culpada.

    Invejava-a.

    Aquela capacidade de se perder de amores. De se entregar por completo. Até de sofrer.

    Ansiava por saber como era sentir o coração a descompassar-se no peito, as borboletas a despertarem no estômago, a luz súbita que acende por dentro só por avistar, ao fundo de uma rua, o rosto de alguém.

    Sabia-se bonita. Sabia-se desejada.

    Mas nunca se apaixonara. Nunca.

    Ah, Inês, se soubesses a sorte que tens… – pensava.

    Inês adormeceu por fim, exausta, com o corpo ainda trémulo de choro.

    Clara deitou-se ao seu lado e, sem dar por isso, deixou-se cair no mesmo sono pesado.

    Foi então que a mãe se sentou na beira da cama.

    Não fez ruído. Nunca fazia.

    Trazia o cabelo solto e o vestido de verão da última fotografia.

    Olhou-a longamente. Havia no seu rosto um cansaço, uma tristeza que não morrera com o corpo.

    Passou-lhe a mão translúcida pelo cabelo, devagar.

    Depois desceu-a até ao peito. E pousou-a ali.

    Clara suspirou suavemente.

    O coração, que até então batia sereno, abrandou ainda mais.

    A mãe fechou os olhos. No seu rosto, desenhou-se um sorriso leve.

    Naquela noite, como em todas as outras, viera subtrair-lhe o excesso, o ímpeto, a vertigem. Deixar-lhe apenas o necessário para viver. Nunca o suficiente para amar.

    Para que nunca ardesse. Para que nunca se perdesse. Para que nunca morresse como ela morrera. De amor.

    Manteve  a mão firme, pousada sobre o peito da filha.

    E Clara dormia, tranquila como a noite lá fora. Sem saber que, todas as noites, alguém lhe acalmava o peito e lhe levava, devagar, o coração.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

  • O maior filho de puta

    O maior filho de puta

    Ele era o maior filho de puta que já tinha nascido

    Matava crianças, homens e mulheres, sem distinção

    Com mais facilidade do que acendia um cigarro

    Sabendo perfeitamente que fumar faz mal e matar não

    Matava, roubava e violava sem nunca se deixar apanhar

    Enrabava mulheres e homens, um a um, uma a uma, por desporto

    E cuspia-lhes em cima depois, ficando com todos os seus pertences

    Gostava de esquartejar as suas vítimas e ouvir as suas súplicas

    Desde tenra idade que não se contentava em arrancar as asas das moscas

    Esmagava-as com os dedos e, com paus afiados, vazava os olhos dos porcos

    Era desprovido de remorsos e considerava todas as pessoas insossas

    Imaginava cada estrela como sendo sua e cada homem seu peão 

    Não entendia o significado das palavras «escrúpulo», «compaixão» e «perdão»

    Ia à missa com a mesma solenidade e displicência com que se masturbava

    Tinha mais estima pelos seus cães do que pelos seus filhos

    Era um homem importante e bem instalado 

    Era o maior filho de puta que já tinha existido 

    E matava e roubava e violava e torturava e enganava e magoava 

    sem nunca se deixar apanhar

    Ele era, é e continuará a ser o maior filho de puta

    ***

    Luís Serra Santos é poeta lisboeta e pugilista nos tempos livres.

  • A Cultura é de primeira página

    A Cultura é de primeira página

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    O jornalismo começa quase sempre antes da primeira linha escrita — e, não raras vezes, começa também antes da própria notícia. Começa no olhar, na curiosidade, na inquietação intelectual que leva alguém a perguntar não apenas “o que aconteceu?”, mas “porquê?” e “o que significa?”. Foi nesse território mais amplo, onde a informação se cruza com a interpretação e onde o facto se abre à reflexão, que o jornalismo se encontrou com a cultura — não como ornamento, mas como substância.

    Desde o século XIX, em Portugal, essa relação foi não apenas fecunda, mas fundadora. Basta recordar que grande parte da nossa tradição literária se fez nas páginas dos jornais. Eça de Queirós publicou crónicas e textos que hoje reconhecemos como literatura maior, mas que nasceram no ritmo e na urgência da imprensa. Ramalho Ortigão, em parceria com Eça, criou em As Farpas uma das mais vigorosas experiências de crítica social alguma vez produzidas em língua portuguesa — um exercício de jornalismo cultural que era, ao mesmo tempo, literatura, sátira e intervenção cívica. Oliveira Martins escreveu em jornais com a mesma densidade com que escreveu livros, enquanto Antero de Quental e Teófilo Braga cruzaram pensamento, política e imprensa numa época em que escrever era sempre um acto de cidadania.

    Ardina em Lisboa. Foto: Joshua Benoliel (1873–1932).

    Essa tradição prolongou-se pelo século XX, com nomes como José Régio, Miguel Torga ou José Saramago, todos eles, em momentos distintos, profundamente ligados ao espaço jornalístico. Não se tratou apenas de publicar textos: tratava-se de pensar o mundo em tempo real, de submeter a realidade a um crivo crítico que não dispensava a sensibilidade literária nem a densidade cultural. O jornal era, então, um lugar de pensamento — e não apenas de registo.

    Essa dimensão foi-se, em parte, diluindo. A aceleração dos ciclos noticiosos, a pressão do imediato e a fragmentação da atenção contribuíram para reduzir o espaço da reflexão. Mas não o eliminaram — e talvez nunca o consigam eliminar por completo, porque há uma exigência humana que persiste: a de compreender, de contextualizar, de dar sentido.

    No entanto, a cultura mostra-se indispensável ao jornalismo. Não pode ser apenas um suplemento nem um complemento, mas uma condição para um jornalismo mais exigente, mais profundo e mais livre.

    Eça de Queirós. Foto: D.R.

    A cultura nunca deve ser apenas um conjunto de manifestações artísticas ou literárias, mas, antes de mais, uma forma de inteligência do mundo. Torna-nos leitores mais atentos, cidadãos mais informados, e por isso mais exigentes — não apenas com os outros, mas connosco próprios. Dá-nos instrumentos para desconfiar, para questionar e para interpretar. E, talvez mais importante do que tudo isso, torna-nos mais empáticos: permite-nos compreender o outro, reconhecer a complexidade das experiências humanas e resistir à simplificação que tantas vezes domina o discurso público.

    O PÁGINA UM nasceu, em larga medida, de uma inquietação: a percepção de que, apesar da consolidação formal da democracia, se instalava um certo adormecimento do espírito crítico, uma tendência para aceitar, sem grande resistência, versões oficiais, narrativas dominantes e simplificações convenientes.

    Um enfraquecimento, em suma, daquela energia cívica que exige, questiona e não se contenta com respostas fáceis. Desde o início, mesmo com recursos limitados, procurámos contrariar essa tendência — com persistência documental, com rigor analítico e com uma convicção simples: o jornalismo não serve apenas para informar, serve para escrutinar.

    Não foi, por isso, por acaso que a cultura esteve sempre presente, ainda que de forma por vezes discreta, no percurso do PÁGINA UM. Abrimos espaço a vozes diversas, a iniciativas independentes, a reflexões que não cabiam na lógica estritamente noticiosa. Fomos, de algum modo, construindo — com os meios possíveis — um pequeno território onde a informação e a cultura podiam coexistir sem hierarquias artificiais.

    É nesse percurso que nasce agora o suplemento cultural do PÁGINA UM, com periodicidade semanal. Não será uma ruptura nem um adorno, mas uma continuidade e um aprofundamento. Reunimos um conjunto de colaboradores que partilham uma mesma ‘exigência’: a de pensar, provocar, escrever e questionar com rigor, liberdade e responsabilidade. Um núcleo que é, ao mesmo tempo, pequeno e ambicioso — pequeno nos meios, mas grande na intenção.

    Aqui, procuraremos dar a conhecer novas reflexões, novas leituras, novas formas de olhar o mundo. Haverá espaço para a literatura, para a crítica, para o ensaio, para a análise cultural em sentido amplo. Mas haverá, sobretudo, uma ambição transversal: a de contribuir para um debate público mais informado, mais sofisticado e mais livre.

    Num tempo em que a informação é abundante, embora escassa a compreensão, insistir na cultura é, talvez, uma forma de resistência – resistência à superficialidade, à pressa e à simplificação. E, ao mesmo tempo, uma afirmação: a de que o jornalismo, para cumprir em pleno a sua função, necessita de se reencontrar com essa dimensão mais exigente, mais lenta e mais profunda do pensamento.

    Este suplemento nasce, assim, com uma convicção simples: um jornal não pode limitar-se a relatar o mundo — deve também ajudar a pensá-lo. E que, para isso, a cultura não é um luxo — é um elemento essencial.

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  • ‘A Enfermagem Religiosa’, de Miguel Bombarda

    ‘A Enfermagem Religiosa’, de Miguel Bombarda


    Para um bibliófilo, nem sempre os pequenos (e grandes) tesouros são obras de autores consagrados, mas sim aquelas que são discretas no formato, mas carregadas de significado histórico. Um opúsculo de apenas 37 páginas, publicado em Lisboa em 1910 pela Junta Liberal, com um título tão simples quanto revelador, A Enfermagem Religiosa, é um desses casos, porque da autoria do médico Miguel Bombarda.

    O seu nome continua hoje inscrito na geografia da cidade. Durante décadas, o antigo Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa — hoje abandonado como diariamente vejo da janela do meu gabinete do PÁGINA UM — recordou aquele que foi um dos mais influentes psiquiatras e intelectuais portugueses do final da monarquia.

    Miguel Mombarda (1851-1910)

    Republicano convicto, Bombarda foi uma figura central do movimento científico e laicista português. Ou mesmo anticlerical.  A sua vida terminou, porém, de forma dramática e injusta: em 4 de Outubro de 1910, na véspera da implantação da República, foi assassinado por um doente mental no hospital onde trabalhava. A morte transformou-o numa espécie de mártir da causa republicana.

    Esta pequena obra surge nesse contexto. A Enfermagem Religiosa reúne textos anteriormente publicados na revista Medicina Contemporânea, ampliados e editados em forma de folheto. A publicação foi promovida pela Junta Liberal, organização ligada aos círculos republicanos e anticlericais no ano da sua morte, embora se ignore se antes ou depois do fatídico dia 4 de Outubro.

    O tema central da obra reflecte uma das grandes polémicas da época: o papel das congregações religiosas nos hospitais portugueses. No início do século XX, grande parte da assistência hospitalar dependia de freiras que exerciam funções de enfermagem. Para Bombarda, essa situação representava um atraso na modernização científica da medicina.

    Logo nas primeiras páginas, o autor reage a um artigo do Jornal do Commercio que defendia a colaboração das chamadas “santas irmãzinhas” na assistência hospitalar. Bombarda considera essa posição injusta para com as enfermeiras laicas e recorda que os hospitais de Lisboa já contavam com profissionais dedicadas e competentes.

    Como escreve: “Os hospitais de Lisboa estão servidos por larga população de enfermeiras, às quais nada mais se pode exigir além do que já dão em zelo, dedicação e nítida apreensão dos seus deveres.”

    Ao longo do texto, Bombarda procura desmontar a ideia de que a enfermagem religiosa possuiria uma superioridade moral ou espiritual. Para ele, o verdadeiro critério deve ser outro: formação técnica, disciplina científica e organização profissional.

    Nesse sentido, defende a criação de escolas de enfermagem semelhantes às que já existiam em países europeus como França. A assistência hospitalar, sustenta, não deve depender da caridade religiosa, mas sim de uma profissão devidamente estruturada.

    Enfermeiras ‘civis’ só surgiram em Portugal no início do século XX. Foto: D.R.

    O opúsculo oferece também um retrato impressionante das condições de trabalho das enfermeiras portuguesas no início do século XX, descrevendo jornadas extenuantes, salários miseráveis e uma dedicação frequentemente heroica: “Vigílias nocturnas de uma noite inteira, alternando apenas com uma noite de repouso; uma remuneração parcimoniosa até à miséria; uma alimentação mesquinha até à meia inanição crónica.”

    Apesar dessas condições, sublinha o autor, as enfermeiras nunca recusam assistir os doentes, mesmo perante doenças altamente contagiosas como varíola, tifo ou tuberculose.

    A parte final da obra apresenta um curioso resumo programático, onde Bombarda enumera as condições mínimas que, do ponto de vista médico, tornariam aceitável a presença de religiosas na enfermagem hospitalar. Entre essas condições estão a frequência de cursos técnicos de enfermagem, regras rigorosas de higiene e a completa subordinação à autoridade médica.

    Aspeto da multidão assistindo ao cortejo dos funerais de Miguel Bombarda e Carlos Cândido dos Reis em 16 de Outubro de 1910, na Praça do Município, em Lisboa. Foto: J.P. Cardoso // © Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

    Algumas passagens revelam bem a preocupação sanitária do autor — e o seu estilo polémico. Criticando os hábitos e vestuários das congregações, escreve: “Se o hábito não faz o monge, realiza farta infecção e farto imundismo.”

    Defende ainda uniformes simples e higiénicos, recomendando que o vestuário das enfermeiras fosse reduzido a uma bata branca de brim ou cutim, considerada “o único vestuário tecnicamente aceitável numa enfermaria”.

    Lido hoje, A Enfermagem Religiosa é simultaneamente um documento médico, um texto político e um retrato do clima intelectual que antecedeu a implantação da República. O tom é combativo, mas também revelador de uma preocupação genuína com a modernização da assistência hospitalar.

    Trecho do opúsculo A Enfermagem Religiosa.

    Pequeno no formato, este folheto oferece assim uma janela para um debate fundamental da época: a tensão entre caridade religiosa e profissionalização científica da medicina.

    Mais de um século depois, continua a lembrar-nos que muitos dos princípios hoje considerados evidentes — formação técnica, higiene hospitalar, organização profissional da enfermagem — foram, em tempos, temas de acesa controvérsia.

  • Filho de ou da p*ta

    Filho de ou da p*ta

    Conheça a grande p*ta parideira do nosso idioma. Um episódio com muitos turpilóquios.

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    Na rubrica do PÁGINA UM ‘Língua na Cama’, Manuel (Matos) Monteiro – escritor e um dos melhores cultores da Língua Portuguesa, além de formador da Escola da Língua – escalpeliza, de forma caseira e descontraída, erros frequentes do nosso idioma, curiosidades linguísticas, maravilhas idiomáticas. Aprenda e divirta-se.

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  • Os irmãos Marx

    Os irmãos Marx

    A história dos Marx começa no gesto fundacional de Minnie Schoenberg, filha de imigrantes alemães judeus, embora já nascida nos Estados Unidos, e que decidiu que os filhos não serviam para a fábrica nem para a guerra, mas para o palco.

    É ela a verdadeira arquitecta do absurdo, a primeira empresária e, ao mesmo tempo, a força motriz, a primeira encenadora involuntária, já que treinava os rapazes como se ensaiasse soldados de uma tropa que só iria combater com charutos, buzinas e sotaques ridículos.

    Quando se fala dos Marx Brothers, deveria invocar-se sempre esta figura que é central, porque sem a ambição dela — e sem a sua paciência para carregar pianolas em comboios miseráveis, sem a sua astúcia para convencer empresários de vaudeville a aceitar cinco filhos irrequietos — não haveria Groucho, Harpo, Chico, Gummo ou Zeppo.

    Ilustração de Filipe Martins S.

    Minnie Schoenberg, muito citada por Groucho na sua autobiografia, é a génese silenciosa do disparate, a verdadeira produtora executiva do caos.

    Ao início os filhos eram músicos, artistas de variedades, miúdos a saltar de palco em palco no circuito do vaudeville americano, para sobreviver, como era comum em tantas famílias pobres na Nova Iorque do início do século XX.

    Mas a pobreza é também um treino de comicidade: não é por não haver dinheiro que não se pode ter timing, e, quando não há futuro seguro, pode inventar-se uma gargalhada para pagar o jantar.

    Toda a gente gosta.

    Foi desse improviso que nasceram as personagens: Groucho com o bigode pintado e a boca mais rápida que o raciocínio humano; Harpo, o anjo demente que transformava o silêncio em fúria e benevolência; Chico, que disfarçava a própria insegurança com um sotaque que não se parecia com nada; Gummo, que se retirou cedo, percebendo que havia vida além do riso; e ainda Zeppo, que foi condenado pelos produtores ao papel do normal, esse lugar ingrato numa família onde ter humor era a regra e ser normal era absurdo.

    Chico foi o primeiro a perceber que o riso era também uma forma de sobrevivência financeira, embora a ironia da sua vida fosse nunca ter sobrevivido ao jogo, perdendo sempre mais do que ganhava, como se a sua existência tivesse sido um prolongamento das mãos a correr no piano: rápidas, virtuosas, mas sempre prestes a escorregar na tecla errada… ou mesmo nas cartas de póquer erradas.

    Morreu em 1961 de arteriosclerose. O corpo transformou em pedra a fluidez que o definira.

    Non-sense… Claro!

    Harpo, por sua vez, construiu-se como paradoxo vivo: o mudo mais eloquente da história, o palhaço mais angelical de uma trupe feita de sarcasmo, um vagabundo de cabelos de fogo que parecia fugido de um quadro de Bosch, mas que, na intimidade, foi o mais equilibrado de todos, pai adoptivo de quatro filhos, marido fiel, artesão do silêncio. Neste contexto, ser tão normal é surrealista. Salvador Dalí, diz o mito que o invejava.

    Quando morreu em 1964, após uma cirurgia cardíaca, parecia ter completado a metáfora: o coração que sempre expusera no gesto, no olhar, no som da harpa, cedeu no exacto órgão que o definia.

    Nonsense… Claro!

    Groucho é outra história: talvez a mais séria dentro do disparate. O charuto, o supercílio pintado, o andar enviesado com os joelhos dobrados e aquela torrente de frases que não eram apenas cómicas, mas filosóficas. Groucho elevou o sarcasmo ao nível de sistema de pensamento, transformou o insulto em poesia e a contradição numa espécie de método, senão mesmo de mapa.

    Foi o “verdadeiro” pai do “rock and roll” sem guitarra, se quisermos ser não-absurdos.

    Poderíamos invocar também Buster Keaton para esse epíteto. Mas o uso da palavra aqui para este campeonato não dá chances a mais ninguém no capítulo da desobediência.

    Viveu o suficiente para ver o seu humor tornar-se património universal e morreu em 1977 de pneumonia, três dias depois de Elvis Presley, o que é talvez a mais perfeita coincidência da história cultural americana: o rei do “rock” eclipsado pelo rei do rock, como se a América tivesse de escolher entre a gargalhada inteligente e o gemido enfático, e tivesse escolhido, claro, o segundo. O mundo sempre gostou mais das aparências.

    Não há antologia de frases inteligentes que não traga algumas de Groucho, como aquela do clube ou a outra dos princípios.

    Gummo, o irmão esquecido, é quase uma personagem beckettiana: não participou nos filmes, não deixou máscara, abandonou o palco cedo, tornou-se agente teatral, como se tivesse intuído que alguém precisava de gerir os bastidores do disparate. Morreu também em 1977, meses antes de Groucho.

    Zeppo, o mais novo, foi o sacrifício: a prova de que nem todos podem ser excêntricos. Era ele quem interpretava os papéis “românticos”, quem segurava a ilusão de normalidade para que os outros pudessem explodir em desvario.

    Tinha ar de galã e acusaram-no de não ter graça, mas talvez fosse esse o maior talento — dar corpo ao vazio, encenar o senso comum, ser o intervalo humano entre tempestades cómicas.

    Depois da sua participação nalguns filmes, inventou peças de engenharia, ganhou dinheiro, viveu no deserto ensolarado de Palm Springs e morreu em 1979 de cancro do pulmão. Certamente ser o último Marx Brother vivo foi estranho. Foi uma piada.

    O percurso biográfico dos Marx é também a parábola da América: filhos de imigrantes pobres que subiram pela escada do vaudeville até ao palácio de Hollywood, conquistando não só a indústria do cinema, mas também o imaginário do século XX, deixando filmes como Duck Soup (1933), uma sátira política demolidora; A Night at the Opera (1935), no qual o caos invade a alta cultura; ou Animal Crackers (1930), em que a lógica é assassinada e o absurdo surrealista reina como forma de pensamento quase totalitário.

    E muito mais, para além dos livros de Groucho.

    Quem hoje veja esses filmes percebe que o riso pode ser um meio para filosofar, para (des)compreender a existência e que a desordem é, por vezes, mais matemática do que a ordem.

    E, contudo, as mortes dos irmãos são a última anedota: sem glória, ou tragédia, e mesmo sem holofote. Nenhum tombou no palco, nenhum morreu de forma cinematográfica; foram morrendo discretamente, de doenças banais, em camas americanas, como cidadãos comuns. É precisamente isso que torna o desfecho tão marxiano: a vida e a morte como continuidade da mesma piada, uma piada em que o público nunca sabe se já acabou ou se vai começar de novo.

    Os Marx Brothers ensinaram que o humor ou a paródia refinada e inteligente pode ser uma forma de clarividência; que a comicidade não é apenas evasão, podendo ser uma forma de resistência; que rir de ministros, aristocratas ou magnatas é um acto tão sério como qualquer tratado político… Mas, ao contrário, e é aí que está o humor, eles não atacavam o poder em si, jamais, faziam muito pior: atacavam a sua génese meio absurda, meio anacrónica.

    E lembraram também que, por trás de cada gargalhada, havia o trabalho invisível de uma mãe imigrante que os empurrou para o palco, sabendo que o mundo não tem piedade dos pobres, mesmo sendo composto na sua maioria por eles, mas que, por vezes, dependendo do “timing”, as coisas podem mudar e subir pela montanha da dignidade e do bom senso (non sense).
    E isso é já por si a razão deste texto.

    Ver os filmes hoje — Duck Soup, A Night at the Opera, Horse Feathers, Go West — é assistir a um manual vivo de como a inteligência pode disfarçar-se de disparate, ou como a crueldade pode mascarar-se de gag, e como a vida, em última instância, não passa de uma série de entradas e saídas disparatadas, até que o pano cai e já ninguém sabe quem riu de quem.

    Quem não conhece, quem nem sequer ouviu falar, quem já conhece e não se lembra e mesmo quem adora, aconselho humildemente a que veja e reveja sempre os principais filmes dos irmãos Marx.

    Sai-se sempre mesmo bem disposto.

    Percebe que o mundo não passa de uma anedota que pode tornar tudo mais leve.

    Bem mais leve.

    Os irmãos Marx têm selo de garantia. A sua vida e morte provam-no. Morte?

    Como o mundo ficou nonsense, tendemos a esquecê-los, mas virá por aí um dia uma mãe que nos ponha na ordem e nos mande definitivamente para cima de um palco para nunca mais de lá sairmos.

    Aí então abriremos os olhos e certamente veremos os irmãos sentados na plateia, a aplaudir os actores num vaudeville eterno em que o divertimento fará parte do menu principal para sempre.