Categoria: Suplemento

  • De relógio parado, a crueldade avança

    De relógio parado, a crueldade avança

    Vou escrever-vos sobre uma peça de teatro que não devia ter importância. Ou sobre uma peça cuja importância devia ficar confinada ao tempo que retrata.

    Caminho do Céu, de Juan Mayorga, é um relógio de repetição: mostra aquilo que a humanidade é capaz de fazer contra si própria, contra os princípios de respeito tantas vezes defendidos, ironicamente, por quem manda. Princípios que depressa são largados ao abandono, deixando facilmente de ser princípios. Ou provavelmente, são apenas princípios de uma continuidade desviante.

    A peça marca a estreia da actriz Rita Cabaço como encenadora e reúne um elenco singular. A par de actores com formação, participam pessoas sem experiência de representação. Diz a encenadora que procurava nelas “uma estranheza específica, corpos que não se reconhecem naturalmente no palco e que, por isso, revelam uma presença marcada pela dúvida, pela ingenuidade e por uma ausência de familiaridade com o acto de representar”.

    Foto: D.R.

    Essa escolha ganha força numa peça em que os prisioneiros são obrigados a representar uma vida que não têm. Não lhes basta decorar um papel: têm de convencer os visitantes de que a falsa normalidade à sua volta é real. Sente-se um certo automatismo nos movimentos, um evitar do olhar de frente, uma contenção muito apoiada pelo palco – um espaço propositadamente claustrofóbico.

    Em Caminho do Céu, o relógio está parado numa hora aparentemente inocente. A densidade dos discursos contrasta com as palavras repetidas, ensaiadas para serem ditas perante quem vem observar.

    Gostaria de destacar o desempenho do actor que representa o presidente da Câmara Municipal, pela densidade que dá à personagem. A contenção e o descontrolo alternam-se de uma forma perturbadoramente real.

    Foto: D.R.

    Esta é uma peça sobre Terezín e sobre a vida fictícia que os nazis ali montaram para convencer o resto do mundo de que os prisioneiros eram tratados com respeito. Como sabemos, não eram. E ainda hoje há vidas que parecem valer menos do que outras: pessoas de primeira e de segunda, países importantes e países insignificantes, peças de xadrez a proteger e peões descartáveis.

    Há dois anos estive em Praga, onde vi, no bairro judeu, uma exposição sobre pessoas que passaram por Terezín. Fora do palco onde eram forçadas a representar uma normalidade que não era a sua, exprimiam-se de verdade: em poemas de desespero e esperança, em desenhos infantis onde tantas vezes apareciam as cores do medo. Vi as suas malas, que não terão feito as viagens sonhadas.

    Assistir a este espectáculo completa essa visão e adensa uma certa vergonha. As vergonhas humanas parecem, por vezes, também nossas. Como se nos pertencessem.

    Foto: D.R.

    Olhamos para o tempo de Hitler como um tempo passado. Mas a crueldade que o tornou possível não se extinguiu com o fim do Holocausto.

    Fora dos palcos do teatro, continuam a surgir actores que se credenciam a si próprios nas artes da encenação e da legitimação de uma crueldade de que não nos livramos.

    Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐☆☆ (8/10) 

    FICHA TÉCNICA

    Caminho do Céu

    Autoria: Juan Mayorga

    Direcção Artística e Encenação: Rita Cabaço

    Interpretação: Nídia Roque, Paulo Pinto, Tânia Alves e Arminda Gonçalves, Brenno Borges, Cecília Graterol, Constança Ferreira, Eduardo Henriques, Emília Silva, Francisca Lopes, Guilherme Veloso, Idalina Martins, Luiz Rodrigues, Maria do Mar, Paulo Almeida, Rita Lopes e Romeu Castanheira

    Apoio à criação: Sílvio Vieira

    Cenografia e adereços: Ângela Rocha

    Figurinos: Çal Pfungst

    Desenho de luz: Teresa Antunes

    Desenho de som e sonoplastia: Surma

    Instrumentação: Constança Ferreira (saxofone), Guilherme Veloso (teclado) e Rita Lopes (violoncelo)

    Apoio técnico e operação de som: Guilherme Gonçalves

    Produção executiva: Daniela Leitão

    Rigging: Frederico Canas Mendes

    Desenho para o cartaz: Constança Villaverde Rosado

    Produção: Teatro da Cidade

    Coprodução: São Luiz Teatro Municipal, Cineteatro Louletano e Teatro Viriato

    O espectáculo decorre no Teatro Municipal São Luiz, entre 30 de Setembro e 11 de Outubro – Quarta a Sábado, 19h30; Domingo, 16h

    Próximas datas:

    Teatro Viriato, 6 novembro 2026, 21h

    Cineteatro Louletano, 12 dezembro 2026, 21h

  • Raios partam o velho

    Raios partam o velho

    O raio do velho fartava-se de tossir

    E escarrava bem alto, sem cuspir

    O estafermo insultava toda a gente

    Escarneava das mulheres finas e das gordas também

    Esse ser ignóbil ria-se dos pobres e dos ricos

    E fazia frente a homens feitos e feios também

    Sem se importar com o seu desdém, ou de levar um murro

    Ameaçava-os com a bengala, apesar de ser coxo e quase cego

    O raio do velho tinha pinta!

    Essa criatura de cabelos brancos era a consciência do meu bairro

    Confrontava todos com um espelho

    Mostrava-lhes a imagem daquilo que não queriam ser

    Representava na sua idade a velhice da razão

    E num destes dias desapareceu, e a taberna ficou mais só

    Ficou sem alma, sem voz, sem verdade, em silêncio

    E o croquete e o rissol de camarão já não me sabem assim tão bem

    Nem a conversa de futebol, nem a água-pé que ainda tomo

    Levou consigo o insulto, a injúria, a verdade necessária

    O mundo inteiro ficou um pouco mais aborrecido

    Raios partam o velho que me disse das boas!

    Tenho saudade dele e da sua bengala

    Insistiu em levá-la com ele no caixão, para a cova

    Para meter ordem no CÉU e passear com os amigos no INFERNO.

    Luís Serra Santos é poeta lisboeta e pugilista nos tempos livres

  • Desenhos mirabólicos: Chama Gémea

    Desenhos mirabólicos: Chama Gémea

    João Pereira de Matos, Lisboa, é escritor e investigador no CHAM – Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa.

  • Um Red Bull com asas de bacalhau

    Um Red Bull com asas de bacalhau

    Sair de Come From Away, pensar em escrever uma crítica e vir-me à ideia este título… até eu desconfio do que aí vem.

    Antes de começar, senti alguma tensão. O ambiente sonoro, com sucessivas chamadas de passageiros para as portas de embarque, remeteu-me para o 11 de Setembro. Sabendo que a peça tem como ponto de partida o dia em que as Torres Gémeas foram destruídas, voltei aí. E, nesse voltar, pensei por momentos que os homens parecem números de lotaria: a morte é sorteada segundo uma ordem que nos parece aleatória.

    Passaram já 25 anos desde o 11 de Setembro. Foi um acontecimento que mexeu com o mundo, mas talvez a peça não tivesse o mesmo impacto se não tivesse deixado passar todo este tempo. O mundo, entretanto, foi-se “destraumatizando”, permitindo-se encontrar manifestações felizes em tempo de desorientação.

    Foto: Filipe Ferreira

    Entrámos em voo e 12 actores irrequietos, acompanhados por músicos muito versáteis, tomaram conta do público. É uma peça sobre a natureza humana, a propósito de uma catástrofe. Come From Away mostra-nos que é sobretudo nos momentos maus que temos a possibilidade de pôr à prova a nossa capacidade de nos alhearmos de nós próprios e de nos centrarmos em quem mais precisa de atenção.

    Na sequência do 11 de Setembro, muitos voos foram desviados por razões de segurança. Gander, no Canadá, uma cidade que tinha menos de 10 mil habitantes, recebeu 38 aviões e mais de 6600 pessoas cujas viagens ficaram suspensas. Em poucas horas, a sua população aumentou em mais de dois terços. O acolhimento começou por ser institucional e rapidamente se tornou pessoal, com gente a convidar os viajantes para a intimidade das suas casas. Não porque os conhecesse, mas porque se deixou tocar por eles.

    Os 12 actores em cena foram-se desdobrando em muitas personagens. Não havia grandes mudanças de caracterização: um adereço aqui, outro ali, e aquele homem já era outra pessoa. A situação atingiu o auge da comicidade quando um comandante muito macho, de voz sedutora e blusão de farda aberto a exibir o peito diante de uma jovem mulher, se transformou em gay, caprichando até nos tiques e salamaleques.

    Foto: Filipe Ferreira

    A peça vale muito pela aparente simplicidade, mas não é nada simples de executar. Legendada em Português e Inglês, basta um deslize de um actor para comprometer, de forma visível para a assistência, o desenrolar da ação. Há muito poucos adereços, todos móveis e com diversas funções. Também essa mobilidade exige muito dos actores nas marcações.

    As personagens estão sempre em acção, cantando, dançando, construindo um espectáculo harmonioso, não tanto pela identidade das personagens, mas muitas vezes pelo acentuar das diferenças; não tanto pelas concordâncias, mas pelo respeito pelo espaço onde reside a diferença; não tanto pela algazarra constante, mas pela capacidade de saber parar e escutar quando o momento o exige. Uma cidade que, sem qualquer intenção de o fazer — porque se limita a ser —, dá uma lição de respeito e de humanidade.

    O espetáculo socorre-se também de imagens projectadas nas laterais do palco, criando a ilusão de movimento, de mudança de espaço e mostra em TV as notícias a que assistimos em directo. Creio que este recurso funcionará melhor para quem está mais longe do palco. Quem se senta muito perto tem a visão mais limitada e, se tentar concentrar-se nas imagens laterais, pode perder o centro da acção. Ainda assim, o recurso é interessante: ajuda-nos a perceber onde estamos à medida que o espetáculo avança.

    Foto: Filipe Ferreira

    Ao fundo do palco, há uma decoração sem pretensões de decoração: tiras de madeira cuja cor oscila por efeito da luz. Pareceram-me servir também de abrigo discreto aos músicos, pouco visíveis, mas fundamentais neste espetáculo.

    Opto por não contar demasiado do enredo, por respeito pela companhia, que quererá surpreender o seu público, e porque eu própria gosto de ser surpreendida, enquanto espectadora.

    Direi apenas, em jeito de remate e para espevitar vontades, que um chapéu amarelo, mais do que um abrigo contra tempestades, pode acrescentar — e muito — à nossa identidade.

    Foto: Filipe Ferreira

    E um bacalhau, mais do que uma peça fundamental em muitas mesas natalícias, é um animal beijável. Nesse beijo, dá-nos outra energia.

    Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐☆ (9/10)

    FICHA TÉCNICA

    Come From Away

    Texto: Irene Sankoff e David Hein

    Encenação: Pedro Pernas

    Actores: André Lourenço, Catarina Jubilot Leão, Helena Montez, João Marques, Madalena Pepolino, Mari Ribeiro, Marta Lys, Paulo Duarte Ribeiro, Paulo Oom, Pedro Paz, Ricardo Monteiro, Teresa Macedo

    Direcção Musical: Nuno de Sá

    Coreografia e Movimentação: Laura Póvoa

    Cenografia e Figurinos: Ana Paula Rocha

    Assistentes de Cenografia e Figurinos: Madalena Cáceres e Marta Andrade

    Caracterização: Lis Areia

    Luz: Paulo Santos

    Produção: Margarida Carlos e Pedro Bello

    Comunicação: Dolores Fernandes

    Redes Sociais: Constança Cardoso

    Design Gráfico: Blank Design

    Data: 26 de Setembro de 2026

    Em exibição em Lisboa, no Teatro Capitólio, entre 10 de Setembro e 4 de Outubro

    De Quinta-feira a Sábado: 21 horas

    Sábado e Domingo: 16 horas (existem duas sessões ao Sábado)

  • Assuntos

    Assuntos

    Paulo Vero é homem dos sete ofícios.

    ©Direitos reservados

  • Guerras dos homens

    Guerras dos homens

    “Encheram a terra de fronteiras,
    Carregaram o céu de bandeiras,
    Mas só há duas nações:
    A dos vivos e dos mortos.”
    Mia Couto

    Bruno Rama é ilustrador editorial (©Direitos reservados) 

  • A barata Gigi saltou do livro de Tiago Salazar e passeou-se entre nós

    A barata Gigi saltou do livro de Tiago Salazar e passeou-se entre nós

    “Para que as luzes do outro sejam percebidas por mim, devo por bem apagar as minhas, no sentido de me tornar disponível para o outro.”

    Mia Couto

    No dia 11 de Setembro, Tiago Salazar apresentou A Barata Gigi na Rua do Benformoso na Livraria Buchholz. A Gigi também apareceu e aceitou conversar connosco. Falou de chinelos, de fronteiras, da fama e da difícil arte de viver com os outros.

    Barata Gigi. Foto: Zuraida Guedes

    Gigi, quando é que uma barata descobre que tem de se tornar activista?

    Uma barata descobre que tem de se tornar activista no momento em que toma consciência de que o chinelo vai sempre cair do mesmo lado, no lado dos mais fracos ou dos considerados mais fracos. Nós, baratas, passamos a vida a limpar as migalhas que os humanos deixam cair. E o que é que recebemos em troca? Insecticidas, insecticidas, insecticidas, para nos exterminar e matar. O que importa se podemos sobreviver a uma guerra nuclear, se não nos respeitam e não consideram a nossa diferença? Afinal, nós não fazemos mal a ninguém.

    Uma barata torna-se activista quando observa o profundo desequilíbrio social, onde vê ostentação e a miséria ao virar da esquina. O equilíbrio é fundamental. É fundamental para a vida e ser activista também é uma questão de sobrevivência.

    Descobri que ser cascuda não adianta nada e não chega para aguentar o peso do mundo. Viver pode ser uma experiência muito interessante e bonita se olharmos uns para os outros com compaixão, onde a igualdade de oportunidades possa ser justa e, sobretudo, um acto de respeito.

    Agora, como me tornei uma influencer, decidi influenciar todos os que olham para dentro a partir deste lugar introspectivo e que entrem — espero que entrem — em comunhão com a prática do não preconceito, do não julgamento, através da verdadeira descoberta da potencialidade humana.

    Há quem diga que as baratas deviam regressar ao lugar de onde vieram. O que diz sobre isto?

    Nós, as baratas, já cá estamos nas frestas deste planeta há milhares de anos. Vimos muitas espécies a desaparecerem. Se fôssemos mesmo regressar ao lugar de onde vimos, tínhamos de expulsar os humanos do planeta.

    Ai, este discurso que ouço constantemente: “Voltem para a vossa terra! Volta para a tua terra, fala barata”, é uma desculpa esfarrapada para quem sente medo da nossa adaptação.

    Todos sabem perfeitamente que, se nos empurrarem para o esgoto, nós subimos pelo cano e estamos sempre, sempre, sempre prontas para a revolução.

    Há baratas de esquerda e baratas de direita, ou quando aparece um chinelo acaba a polarização?

    — Ai, esta pergunta é deveras interessante, porque leva-me a questões de sobrevivência e, perante um incidente de vida ou de morte, claro que o meu instinto de barata é fugir. E, como sou ágil a espalmar e a escapar, consigo evitar o ataque.

    Claro que aqui a esquerda e a direita é o sentido para onde vou escapar. A invenção da polarização serve para que o conflito continue a existir.

    Bem, como sou canhota, escapo sempre para o lado esquerdo. Não sei o que é que isto quer dizer, ou talvez saiba e não queira dizer agora.

    Se pudesse apresentar uma única reivindicação à Assembleia da República, em nome das baratas, qual seria?

    A reivindicação que eu gostava de apresentar na Assembleia é de respeitar a Constituição. E na Constituição estão os direitos humanos, e que a mesma se estendesse para todos os que vivem.

    Gostava que o manifesto dos cascudos se cruzasse com a realidade social humana. Por exemplo, onde o estatuto falha na habitação digna para os humanos, as baratas entram no seu palácio. Isto também não é justo.

    Como já falei anteriormente, o importante é o equilíbrio. Nós, baratas, não queremos viver à custa da infelicidade dos humanos, mas também não queremos que os humanos nos exterminem sem saberem quem nós somos.

    Ai, para terminar esta pergunta, vou lançar uma reflexão: os humanos usam-nos como um insulto, mas nós limpamos o lixo que os humanos produzem. Penso que isto é um pouco incongruente.

    Entre uma casa muito limpa e uma sociedade muito tolerante, onde prefere viver?

    Ai, esta pergunta é muito interessante. Eu, para mim, acho que uma sociedade tolerante é deveras importante, porque na tolerância existe espaço para a aceitação do que é diferente, ou do que é considerado diferente. E também acho que quanto melhor as pessoas se conhecerem a si próprias, melhor aceitam os outros.

    Viver na Rua do Benformoso ensina-me uma verdadeira riqueza nesta mistura de culturas. E, para nós percebermos a cultura do outro, temos primeiramente de estar ligados à nossa cultura e percebermos quem somos para podermos olhar para o outro com empatia.

    Como lida com a fama? Já não pode entrar numa cozinha sem ser reconhecida?

    Bem, a fama… a fama é algo que é um pouco contraditório, porque, por exemplo, os humanos, quando falam de fama, com os outros, aplaudem, pronto, pode ser só exterior, mas aplaudem imenso, pedem autógrafos.

    A minha fama, posso dizer que se traduz em gritos, berros. Quando entro numa cozinha, atraída pela promessa de partilhar o pão e a igualdade, em vez de me receberem com aplausos, recebem-me com gritos e ameaças.

    Então eu lido com a fama com resiliência, de quem sabe que a incompreensão é uma premissa na minha vida e que este é o meu preço de ser barata pioneira neste lugar de luta pela igualdade.

    Eu também acho que não procuro os holofotes para assustar ninguém. Eu procuro, antes de mais, comida e calor, que deviam ser um direito universal.

    Posso dizer que, neste momento, sou alguém que… uma barata famosa e incompreendida e que isto tudo parece-me absurdo. Mas continuo com as minhas antenas erguidas a lutar para um mundo melhor.

    E neste mundo melhor que eu sonho e que ajo, quero construí-lo a partir da partilha, da consciência das pequenas acções diárias que todos podemos fazer para que o mundo seja mais bonito para todos.

    E, para terminar, se pudesse dizer uma coisa a uma criança que, ao vê-la, só pensa em esmagá-la, o que lhe diria?

    O que é que eu diria a uma criança que, ao ver-me, me quer esmagar? Em primeiro lugar, iria logo ao mundo dessa criança e começava por dizer: “Não percebo porque chamam nomes feios às baratas. Olha bem para mim! Não vês que eu sou linda, maravilhosa, fantástica e super divertida? Podes tocar nas minhas antenas ou então dar-lhes piparotes, apertá-las um bocadinho. Vá, eu não mordo. Sou amiga.

    Só porque tenho estes olhos grandes e tortos, as pessoas ficam assustadas. As rãs têm olhos muito maiores e nem por isso as acham menos simpáticas. Até as recolhem em aquários e chamam-lhes nomes lindos, como Celinha ou Pipinha.”

    Isto para que a criança possa ver a minha essência, porque os adultos perderam esse lugar. Crescem e esqueceram-se de quando olhavam para os outros com pureza.

    Foto: Zuraida Guedes

    A conversa acabou, mas a Gigi ainda tinha uma coisa a dizer. Deixou-nos um manifesto, que passamos a publicar:

    Manifesto da Barata Gigi

    Eu, Gigi Maria do Campo, declaro todo aquele que me quer exterminar sem ler as minhas aventuras, ou comer umas migalhas comigo, um grande parvo.

    Tal como não me importo se me chamam de nojenta, horrível ou coisas piores, para mim tudo é digno de ser estudado.

    MANIFESTO assim a minha indignação por todos os que acham os estrangeiros repugnantes. Afinal, só somos estrangeiros em qualquer lugar que não seja o nosso planeta.

    Manifesto a minha indignação por quem não tem a capacidade de olhar para si e para os outros.

    Manifesto a minha indignação por haver baratas e outros bichos, incluindo os humanos, que não tenham uma casa bonita e a um preço acessível, que não tenham uma boa educação, o acesso a uma boa saúde e um trabalho de que gostem e pelo qual recebam o justo valor.

    Manifesto a minha indignação por todas as crianças que não podem ser crianças e por todos os adultos excluídos pela sua diferença, seja ela qual for.

    Manifesto a minha indignação por quem tem muito e não reparte o que tem com quem pouco ou nada tem.

    Manifesto a minha indignação por haver pessoas que roubam, perseguem e mal tratam quem não pode ou não sabe defender-se.

    Manifesto o meu apoio a todos os que vivem e deixam viver e já agora a todos os que gostam de ler.

  • A única imperfeição foram as palmas

    A única imperfeição foram as palmas

    Tinham passado poucos compassos de Blóðberg – ou tomilho silvestre islandês, traduzindo-se – quando se tornou para mim evidente que a única coisa verdadeiramente imperfeita, talvez mesmo feia, naquela noite seriam as palmas. Merecidas, evidentemente. Entusiásticas, justíssimas, inevitáveis. Mas desnecessárias. Quase violentas.

    Previ logo que cada aplauso interromperia uma matéria sonora que jamais deveria acabar no último acorde de uma composição, mas continuar no silêncio seguinte. Desejava que os Sigur Rós tivessem conseguido convencer o público de que até o vazio entre duas músicas fazia parte da música.

    Sigur Rós encantaram um Campo Pequeno com a sua grandiosidade. Tiago Cortez / Everything is New.

    Em todo o caso, a disposição do palco – e até a distância à primeira fila, passando pela “imposição” de os fotógrafos dos media ficarem remetidos ao fundo da sala – já continha uma espécie de declaração estética. Jón Þór Birgisson – ou Jónsi –, Georg Hólm e Kjartan Sveinsson não se impuseram diante de uma orquestra transformada em adereço luxuoso para uma banda de rock. Quase se dissolviam nela.

    Os músicos ocupavam o palco como partes de um mesmo organismo, e os três Sigur Rós, disseminados entre essa pequena multidão instrumental, pareciam recusar o privilégio visual que habitualmente se concede à estrela. Esta distância física, porém, acabaria por ser apropriada. Tudo naquele concerto deveria parecer próximo e remotíssimo ao mesmo tempo.

    Também a voz de Jónsi. Há vozes belas porque parecem humanas em excesso; aquela, a deste islandês já com 51 anos, possui uma beleza distinta, fundada numa certa distância da condição humana.

    Jónsi, à direita, e Kjartan Sveinsson, ao piano, durante o concerto dos Sigur Rós em Bilbao, no passado dia 15. Foto: Sigur Rós.

    O seu falsete agudo, por vezes quase sem sexo, quase sem idade, ascende sobre as cordas sem parecer disputar-lhes espaço. Não se projecta como quem quer dominar uma sala. Flutua. Aproxima-se e afasta-se, ganha corpo e torna-se subitamente espectral, regressa a uma fragilidade quase infantil e, quando sobe outra vez, deixa de parecer uma voz emitida por uma laringe para adquirir qualquer coisa de incorpóreo.

    E tudo isto sem se entender patavina. Acompanho os Sigur Rós há anos com uma fidelidade que, reconheço agora, nunca chegou ao excesso de se informar: não fixei títulos, muito menos me dei ao trabalho de lhes conhecer o significado. Para descobrir que Blóðberg queria dizer alguma coisa – e qual – tive de recorrer a um tradutor. E, para escrever o que se segue, métier oblige, vi-me finalmente constrangido a fazer aquilo que tantos anos de encantamento tinham tornado dispensável: trabalho de casa.

    Dito assim, pode parecer uma limitação de quem escuta não entender o que se escuta – e apenas sentir. Nos Sigur Rós, isso constitui um princípio estético. Jónsi canta grande parte do repertório nesse linguajar hermético chamado islandês – essa língua germânica setentrional de feição fortemente arcaizante –, mas vai mais longe: os dois temas retirados de ( ) – sim, é esse o título do álbum de 2002 –, com que abriram a segunda parte, não possuem uma única letra propriamente dita. Jónsi canta integralmente em Vonlenska, ou Hopelandic, uma linguagem fonética por si inventada, sem vocabulário nem sintaxe, na qual as sílabas funcionam como material musical e cada ouvinte fica livre de lhes atribuir o seu próprio significado.

    Jónsi, durante o concerto em Barcelona, no passado dia 11. Foto: Sigur Rós.

    Como já fazia antes dele a veterana Lisa Gerrard, vocalista dos Dead Can Dance, Jónsi sabe que uma voz não precisa de palavras inteligíveis para dizer alguma coisa; por vezes, é quando a língua abdica do significado que começa a falar mais fundo.

    Ora, talvez esteja aqui uma das razões para a proximidade quase religiosa da música dos Sigur Rós. A teologia apofática procurava aproximar-se do divino não descrevendo Deus, mas reconhecendo a incapacidade das palavras para o descrever. Jónsi faz, por outra via e sem pretensão teológica, qualquer coisa de semelhante: retira à linguagem a obrigação de significar para que a voz possa significar mais.

    A palavra deixa de ser veículo e passa a matéria. As vogais alongam-se, as consoantes evaporam-se – permita-se aqui a licença poética – e sílabas sem definição lexical adquirem uma extraordinária precisão emotiva. Não se sabe o que foi dito e, no entanto, reconhecem-se tristeza, consolo, assombro, perda ou esperança. Talvez seja esta uma das raras ocasiões em que a ignorância linguística acrescenta, em vez de subtrair, porque aquilo que se perde em significado ganha-se em sensação.

    Foto: PAV.

    Mesmo quando existem palavras, os Sigur Rós parecem preferir a imagem à narrativa. Starálfur, uma das preciosidades de Ágætis byrjun, move-se naquele território entre o sono e a vigília, onde um pequeno elfo observa alguém recolhido na cama e as paredes parecem perder consistência. Hoppípolla, pelo contrário, significa literalmente “saltar em poças de água”: uma evocação jubilosa e quase pueril, palavra aqui usada sem qualquer sentido depreciativo, da infância recuperada pelo gesto elementar de se molhar sem pedir desculpa por isso. A própria banda sempre a descreveu como uma canção feliz, cheia de vida. E entre esses dois pólos – o sonho e a infância, o recolhimento e o êxtase – cabe boa parte do universo dos Sigur Rós.

    Em Ekki múkk, logo a seguir a Blóðberg, começou a perceber-se em plenitude aquilo que aquela formação orquestral permitia. Não se tratava de colocar cordas atrás de uma banda e chamar-lhe versão sinfónica, expediente que tantas vezes apenas acrescenta volume e respeitabilidade a músicas que não ganharam profundidade alguma.

    Fljótavík prolongou essa delicadeza, 8 deu-lhe amplitude e Von recuperou a origem remota do grupo. Em Andvari e, sobretudo, em Starálfur, a música começou a adquirir a estranha qualidade que haveria de dominar o concerto: não avançava de A para B; expandia-se. Os Sigur Rós raramente constroem crescendos como quem sobe uma escada. Fazem-nos como quem enche, com lentidão, uma sala de água. Primeiro nada parece acontecer. Depois percebe-se que os pés já não tocam no chão.

    Foto: PAV.

    A acústica do Campo Pequeno não ofereceu sempre a mesma cumplicidade. Nas passagens de maior densidade orquestral, a reverberação própria de uma arena daquela dimensão engrossou por vezes o som, retirando definição a alguns planos intermédios e misturando frequências que mereciam mais espaço. Houve instantes de menor nitidez e algum excesso de massa sonora.

    Temi pior, muito pior, considerando as características do recinto e a delicadeza de uma música que vive tanto das pequenas diferenças de dinâmica. Nada disso comprometeu o concerto. Apenas recordou que nem toda a arquitectura construída para receber multidões foi concebida para receber o silêncio. E o silêncio, nesta noite, tinha importância musical. Por isso custavam tanto as palmas.

    O segundo acto mostrou-o ainda melhor do que o primeiro. Vaka e Samskeyti, ambas oriundas de ( ), dispensam significados lexicais e quase dispensariam títulos. O piano de Kjartan Sveinsson forneceu a ossatura, as cordas da Orquestra Sinfonieta de Lisboa respiravam à volta e Jónsi fazia da voz um outro instrumento. Ylur e Skel, de ÁTTA, trouxeram de novo essa escrita tardia dos Sigur Rós, mais despojada, menos interessada na explosão fácil. Em Álafoss reapareceu a lentidão tectónica, como se a composição se movesse em escalas de tempo maiores do que aquelas a que o ouvido pop foi habituado.

    Foto: PAV.

    Depois chegou Sé lest e alguma coisa mudou. A música ganhou movimento, as teclas, a percussão melódica e os sopros introduziram uma ligeireza quase dançante, um breve mecanismo de brinquedo no interior de uma cerimónia solene.

    O verdadeiro crescendo do concerto ficou reservado para os três últimos grandes momentos. Ára bátur constitui, já na sua forma original, uma monstruosa delicadeza. Quando foi gravada em 2008, os Sigur Rós juntaram, numa única tomada em Abbey Road, a London Sinfonietta e o coro da London Oratory School: 90 pessoas a tocar e cantar simultaneamente, naquilo que a própria banda classificou como o maior empreendimento musical que até então empreendera.

    No Campo Pequeno, percebeu-se porquê. A composição começa quase pedindo licença, piano e voz em recolhimento, e cresce sem denunciar a dimensão do edifício que está a construir. O Coro Ricercare entrou e o espaço alterou-se. As cordas engrossaram, os sopros acrescentaram gravidade, a voz subiu, e aquilo que começara como uma canção aproximou-se de uma peça litúrgica sem religião determinada. Não será preciso acreditar em Deus para perceber por que motivo certas arquitecturas sonoras foram inventadas dentro de igrejas.

    Sigur Rós em Lisboa. Foto: D.R.

    E então chegou Hoppípolla. E aí, depois de mais de duas horas de contenção, melancolia e beleza rarefeita, a alegria mostrou-se finalmente sem pedir licença. A orquestra e o coro elevaram uma música já em si luminosa até uma dimensão quase física. Não se tratou apenas de ouvir mais instrumentos: parecia existir mais ar dentro da música. Aquilo que ao longo da noite fora contemplação tornou-se júbilo, e aquilo que fora quase privado tornou-se comunhão.

    Depois, parou-se, no clímax. Jónsi agradeceu, os Sigur Rós abandonaram o primeiro plano e Avalon ficou entregue aos músicos, numa espécie de pós-escrito instrumental. Depois de tocar o céu, o concerto não procurou subir mais um andar. Desceu. Devagar.

    Na verdade, durante mais de duas horas no Campo Pequeno, a distância entre a terra e o céu pareceu sempre bastante menor do que a distância regulamentar entre os fotógrafos e Jónsi.

    E depois disto, até eu bati palmas. Merecidíssimas.

  • Uma noite de melancolia sem banda e quase sem autor

    Uma noite de melancolia sem banda e quase sem autor

    Sempre se mostrou um desafio fascinante pegar numa obra concebida dentro de uma determinada linguagem artística e obrigá-la a sobreviver noutra. A literatura conhece bem estes saltos mortais.

    Um romance pode acabar esmagado pelo cinema que o adapta, mas também pode ganhar uma segunda vida, como sucedeu com O Nome da Rosa, quando Jean-Jacques Annaud conseguiu transformar a complexa construção literária de Umberto Eco num filme que não procurava imitar o livro nem o resumir à pressa. Conservava-lhe o espírito enquanto aceitava que cinema e literatura falam línguas diferentes.

    Na música, o risco não será menor. O rock tem uma longa história de namoro, umas vezes feliz, outras embaraçoso, com a música sinfónica. Os Deep Purple foram dos primeiros a levá-lo a sério, quando Jon Lord escreveu, em 1969, o Concerto for Group and Orchestra, estreado no Royal Albert Hall. Décadas depois, os Metallica construíram com Michael Kamen e a San Francisco Symphony o monumental S&M.

    Em 2011, Peter Gabriel decidiu retirar guitarra, baixo e bateria das suas próprias canções em New Blood. Também Pete Townshend entregou Quadrophenia a uma orquestra, coro e vozes líricas, deixando Alfie Boe ocupar o centro vocal de uma obra que pertencera aos The Who. Entre estes exemplos cabem muitos outros e cabem, sobretudo, duas filosofias: acrescentar uma orquestra ao rock ou desmontar o rock para descobrir se a composição consegue sobreviver sem ele.

    Billy Corgan escolheu a segunda, que é também a mais perigosa. Trinta anos depois de Mellon Collie and the Infinite Sadness, disco duplo de 1995 que condensou como poucos aquela mistura de melancolia adolescente, grandiosidade, fúria e paredes de guitarras que fizeram dos Smashing Pumpkins uma das bandas essenciais da década, Corgan decidiu retirar quase tudo aquilo que o tornou reconhecível.

    Tiago Cortez / Everything is New.

    Em A Night of Mellon Collie and Infinite Sadness, apresentado na passada terça-feira num Coliseu dos Recreios esgotado com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa, as canções deixam de pertencer a uma banda de rock e são entregues a uma orquestra, a um coro e a quatro cantores de formação lírica.

    O duplo álbum de 1995 dos Smashing Pumpkins nunca se apresentou, portanto, como um título modesto, nem o disco procurou esconder a ambição de transformar as inquietações da juventude numa espécie de universo emocional completo. Nesse sentido, entregá-lo três décadas depois a uma orquestra, a um coro e a vozes líricas não constitui uma traição: a grandiosidade já lá estava. A questão essencial seria perceber se ampliá-la ainda mais aprofunda a melancolia ou apenas aumenta a pompa.

    O espectáculo nasceu em Chicago, com novos arranjos de Corgan e do maestro James Lowe, e não pretendeu limitar-se a colocar uma orquestra atrás dos Smashing Pumpkins, mas antes experimentar o que restaria da sua música depois de lhe retirar os próprios Smashing Pumpkins.

    Tiago Cortez / Everything is New.

    A resposta a esta questão, durante quase duas horas, com intervalo pelo meio, tanto pode fascinar como desconcertar. “Tonight, Tonight”, desde logo, parece ter esperado trinta anos por esta oportunidade. A composição original já continha uma vocação sinfónica evidente e cresce sem esforço quando ganha a dimensão de uma orquestra e de um coro.

    Noutros momentos, sobretudo quando a melodia e a melancolia constituem a matéria-prima das canções, a transformação descobre pequenas riquezas que a massa eléctrica do disco escondia. “Thru the Eyes of Ruby” beneficia dessa ampliação, “By Starlight” encontra novas cores e “1979”, talvez por ser uma das canções que menos depende da violência instrumental dos Pumpkins, atravessa a fronteira quase sem pagar alfândega.

    O problema começa quando a experiência tenta provar que toda a matéria-prima de Mellon Collie possui a mesma elasticidade. Não possui. “Zero”, “X.Y.U.” ou “Bullet With Butterfly Wings” nasceram também do atrito, do peso físico da guitarra, da bateria de Jimmy Chamberlin, daquela sensação de que a canção podia a qualquer instante desabar sobre quem a escutava.

    Tiago Cortez / Everything is New.

    Uma orquestra consegue produzir volume, tensão e violência, mas produz uma violência de outra natureza. Quando a fricção eléctrica é substituída por expansão harmónica e pela dimensão colectiva das cordas, metais e coro, algumas canções ganham espaço e complexidade, mas perdem compressão e nervo.

    A grandiosidade não resolve tudo. Em certos momentos, a música parece crescer para fora quando aquilo de que precisava era continuar a avançar para dentro, conservar a urgência, a aspereza e aquela sensação de perigo que fazia parte da identidade dos Pumpkins.

    A opção pelas quatro vozes líricas intensifica essa estranheza. Não se organizam em redor de Billy Corgan nem funcionam como mero prolongamento da sua voz: ocupam um plano próprio e, durante largos períodos, transportam sozinhas as canções. Soprano, mezzo-soprano, tenor e barítono alteram-lhes a gravidade, a dicção e até o sexo da voz que a memória lhes associou.

    Em certos temas, essa deslocação revela a força da escrita; noutros, cria uma distância excessiva entre a canção e a emoção que lhe conhecíamos. O tenor pode cantar com impecável técnica uma frase que Corgan lançava como se tivesse acabado de sair de um quarto depois de partir metade da mobília, mas o mesmo conjunto de palavras muda de temperatura quando passa por um aparelho vocal construído para outro tipo de expressão.

    Tiago Cortez / Everything is New.

    A composição continua reconhecível; aquilo que a tornava emocionalmente incómoda nem sempre atravessa a transformação com a mesma força.

    Mais desconcertante ainda acaba por ser a presença — ou antes, a ausência — do homem cujo nome aparece no cartaz. O título do concerto, convém reconhecer, é escrupuloso: A Night of Mellon Collie and Infinite Sadness Featuring Billy Corgan. “Featuring”, portanto. Não “Billy Corgan interpreta”. Não “Billy Corgan com orquestra”. E Corgan surge de facto apenas num punhado de temas, atravessando o espectáculo como uma presença intermitente, chamada de tempos a tempos para devolver àquelas canções a voz que durante trinta anos lhes serviu de assinatura.

    Quando entra, o Coliseu reconhece-o num instante; quando canta, reconhece-se também aquela nasalidade que durante décadas tornou impossível confundi-lo com qualquer outra pessoa. Mas já a chegar aos 60 anos, a sua voz perdeu parte da agilidade e da juventude que lhe davam aquele carácter simultaneamente frágil e insolente, e nem sempre parece confortável dentro das próprias orquestrações.

    Daqui nasce o paradoxo mais interessante da noite: quanto melhor funciona o conceito, menos necessário Billy Corgan se torna. A intenção talvez fosse essa. Corgan quis demonstrar que as suas canções não dependem da guitarra de Corgan, da voz de Corgan ou sequer dos Smashing Pumpkins. Quer reclamar para Mellon Collie o estatuto de obra, não apenas de disco de rock, permitindo-lhe aquilo que se permite a uma composição clássica: mudar de intérpretes, de instrumentação e de época sem perder a identidade.

    Tiago Cortez / Everything is New.

    O gesto contém, por isso, uma saudável dose de ambição e talvez outra de vaidade — afinal, poucos compositores resistiriam à tentação de ouvir dezenas de músicos e cantores provar que aquilo que escreveram aos vinte e poucos ou trinta anos já merece tratamento de repertório.

    Porém, nem sempre a demonstração convence. O espectáculo possui beleza, inteligência e momentos de grande poder, mas também passagens em que a sofisticação alarga tanto a moldura que acaba por enfraquecer aquilo que estava no centro.

    Não chega a constituir um acto falhado, porque várias das experiências justificam por inteiro a tentativa e porque seria absurdo avaliar uma reinvenção pela sua fidelidade ao original. Mas também não alcança a unidade que permitiria esquecer o álbum de 1995 e aceitar esta nova criatura como uma obra com existência própria.

    Foto; PAV.

    No final, talvez o maior mérito de A Night of Mellon Collie and Infinite Sadness resida nesse incómodo. Corgan pegou num dos grandes discos do rock dos anos 90, desmontou-o, retirou-lhe a banda, grande parte das guitarras e da pulsação rock e, por largos períodos, retirou-se a si próprio. Algumas canções saíram da operação rejuvenescidas, mas outras parecem ter ganho uma dimensão que não compensou inteiramente aquilo que perderam em tensão e carácter.

    Com tudo isto, Billy Corgan conseguiu, assim, uma proeza artística tão ambiciosa quanto estranha: construir em torno da sua própria obra um espectáculo em que a presença do autor deixa, durante boa parte da noite, de ser uma necessidade para passar a ser apenas uma possibilidade.

  • Aos 79 anos, o rock ainda rola

    Aos 79 anos, o rock ainda rola

    Alguns concertos vivem da nostalgia, enquanto outros conseguem escapar-lhe. A diferença, julgo, estará na forma como tratam o passado: como peça de museu ou como matéria ainda viva.

    Aos 79 anos, Ronnie Wood, sem estar ao lado de Mick Jagger e Keith Richards, poderia limitar-se a percorrer clássicos, distribuir histórias e recolher aplausos de reconhecimento. Esta tournée, que passou esta segunda-feira, dia 14, pelo Coliseu dos Recreios, escolheu outro caminho. Em vez de conservar o rock & roll numa redoma, volta a pô-lo em circulação.

    Ronnie Wood, aos 79 anos a guitarra não lhe pesa. Foto: Tiago Cortez / Everything is New.

    Para quem, como eu, veio sobretudo pela curiosidade, sem particular devoção pelos velhinhos Rolling Stones, a expectativa não ia muito além de uma noite de rock à antiga, com muita guitarra e algum exercício de memória.

    Ninguém me tinha avisado, porém, de que isto não era apenas Ronnie Wood — excelente guitarrista desde aqueles tempos em que, para se ser guitarrista, ainda era preciso ter unhas — a passear o nome por uma tournée comemorativa de 60 anos de palcos.

    O espectáculo vai muito para além dos Stones e, em certos momentos, quase se esquece que estamos perante um dos seus históricos membros.

    Imelda May. Foto: Tiago Cortez / Everything is New.

    Wood montou uma celebração larga da música que o formou e da música que ajudou a formar: blues, soul, country, rhythm & blues, rock’n’roll, Faces e, claro, Stones, tudo misturado sem cerimónia excessiva. A noite teve qualquer coisa de rock & roll antigo no sentido mais literal da expressão: tudo rolou.

    Rolou a guitarra, rolou a bateria solta e precisa de Andy Newmark — que gravou com ‘senhores’ como John Lennon e Roger Waters —, rolou a voz gasta (e limitada) de Wood, que até ganha mais força quando se aproxima do blues e do country, e rolaram sobretudo as canções, sem obsessão pela perfeição clínica.

    A generosidade cénica de Ronnie Wood também ajuda a explicar o resultado. Esta tournée não foi construída para o manter no centro a cada minuto — e isso mostra uma grande generosidade musical e pessoal. Wood sabe quando avançar, mas sabe também quando recuar meio passo e entregar o palco.

    Chanel Haynes. Foto: Tiago Cortez / Everything is New.

    E entrega-o a duas cantoras extraordinárias — e metam extraordinário nisso. Chanel Haynes — que já colaborou com os Stones — transformou River Deep, Mountain High e sobretudo Flying em dois grandes momentos da noite e tem potência suficiente para arrastar uma sala inteira. Já Imelda May surge noutro registo, mais sensual, mais jazzístico, e faz de Remember (Walking in the Sand) um momento inteiramente seu.

    O segredo desta tournée talvez esteja aí. Wood não tenta fingir que tem 30 anos, nem precisa de provar aquilo que já demonstrou durante seis décadas. Toca com a segurança de quem conhece o terreno e já nem sente necessidade de o reivindicar. Essa liberdade deixa a banda respirar, dá espaço a outras vozes e afasta o espectáculo da lógica do ego.

    No fim, esta tournée — e este concerto em Lisboa, com a casa a meio-gás, talvez porque até o rock & roll descobriu os preços exorbitantes — poderia ter-se resumido a uma celebração de carreira, com direito a romaria de fiéis e relíquias servidas à mesa. Acabou por transformar-se numa pequena lição sobre a arte de envelhecer no rock.

    Foto: Tiago Cortez / Everything is New.

    Ronnie Wood não sobe ao palco para representar a juventude, nem parece interessado em embalsamá-la. Mostra, antes, que o rock & roll pode envelhecer sem ficar velho.

    Aos 79 anos, quando o sex já não exige demonstrações e o drugs deixou há muito de ser recomendável, sobra o melhor da velha trilogia: o rock & roll. E, para uma noite quase perfeita, nada como partilhá-lo com duas vozes de excepção: Chanel Haynes e Imelda May.