Vou escrever-vos sobre uma peça de teatro que não devia ter importância. Ou sobre uma peça cuja importância devia ficar confinada ao tempo que retrata.
Caminho do Céu, de Juan Mayorga, é um relógio de repetição: mostra aquilo que a humanidade é capaz de fazer contra si própria, contra os princípios de respeito tantas vezes defendidos, ironicamente, por quem manda. Princípios que depressa são largados ao abandono, deixando facilmente de ser princípios. Ou provavelmente, são apenas princípios de uma continuidade desviante.
A peça marca a estreia da actriz Rita Cabaço como encenadora e reúne um elenco singular. A par de actores com formação, participam pessoas sem experiência de representação. Diz a encenadora que procurava nelas “uma estranheza específica, corpos que não se reconhecem naturalmente no palco e que, por isso, revelam uma presença marcada pela dúvida, pela ingenuidade e por uma ausência de familiaridade com o acto de representar”.

Essa escolha ganha força numa peça em que os prisioneiros são obrigados a representar uma vida que não têm. Não lhes basta decorar um papel: têm de convencer os visitantes de que a falsa normalidade à sua volta é real. Sente-se um certo automatismo nos movimentos, um evitar do olhar de frente, uma contenção muito apoiada pelo palco – um espaço propositadamente claustrofóbico.
Em Caminho do Céu, o relógio está parado numa hora aparentemente inocente. A densidade dos discursos contrasta com as palavras repetidas, ensaiadas para serem ditas perante quem vem observar.
Gostaria de destacar o desempenho do actor que representa o presidente da Câmara Municipal, pela densidade que dá à personagem. A contenção e o descontrolo alternam-se de uma forma perturbadoramente real.

Esta é uma peça sobre Terezín e sobre a vida fictícia que os nazis ali montaram para convencer o resto do mundo de que os prisioneiros eram tratados com respeito. Como sabemos, não eram. E ainda hoje há vidas que parecem valer menos do que outras: pessoas de primeira e de segunda, países importantes e países insignificantes, peças de xadrez a proteger e peões descartáveis.
Há dois anos estive em Praga, onde vi, no bairro judeu, uma exposição sobre pessoas que passaram por Terezín. Fora do palco onde eram forçadas a representar uma normalidade que não era a sua, exprimiam-se de verdade: em poemas de desespero e esperança, em desenhos infantis onde tantas vezes apareciam as cores do medo. Vi as suas malas, que não terão feito as viagens sonhadas.
Assistir a este espectáculo completa essa visão e adensa uma certa vergonha. As vergonhas humanas parecem, por vezes, também nossas. Como se nos pertencessem.

Olhamos para o tempo de Hitler como um tempo passado. Mas a crueldade que o tornou possível não se extinguiu com o fim do Holocausto.
Fora dos palcos do teatro, continuam a surgir actores que se credenciam a si próprios nas artes da encenação e da legitimação de uma crueldade de que não nos livramos.
Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐☆☆ (8/10)
FICHA TÉCNICA
Caminho do Céu
Autoria: Juan Mayorga
Direcção Artística e Encenação: Rita Cabaço
Interpretação: Nídia Roque, Paulo Pinto, Tânia Alves e Arminda Gonçalves, Brenno Borges, Cecília Graterol, Constança Ferreira, Eduardo Henriques, Emília Silva, Francisca Lopes, Guilherme Veloso, Idalina Martins, Luiz Rodrigues, Maria do Mar, Paulo Almeida, Rita Lopes e Romeu Castanheira
Apoio à criação: Sílvio Vieira
Cenografia e adereços: Ângela Rocha
Figurinos: Çal Pfungst
Desenho de luz: Teresa Antunes
Desenho de som e sonoplastia: Surma
Instrumentação: Constança Ferreira (saxofone), Guilherme Veloso (teclado) e Rita Lopes (violoncelo)
Apoio técnico e operação de som: Guilherme Gonçalves
Produção executiva: Daniela Leitão
Rigging: Frederico Canas Mendes
Desenho para o cartaz: Constança Villaverde Rosado
Produção: Teatro da Cidade
Coprodução: São Luiz Teatro Municipal, Cineteatro Louletano e Teatro Viriato
O espectáculo decorre no Teatro Municipal São Luiz, entre 30 de Setembro e 11 de Outubro – Quarta a Sábado, 19h30; Domingo, 16h
Próximas datas:
Teatro Viriato, 6 novembro 2026, 21h
Cineteatro Louletano, 12 dezembro 2026, 21h


































