Categoria: Suplemento

  • Fernando Pessoa, filósofo plural

    Fernando Pessoa, filósofo plural

    Na obra de Fernando Pessoa encontramos o desenvolvimento de uma filosofia da pluralidade. Com feito, o autor português não foi apenas poeta, escritor de ficções em prosa e crítico literário. Pessoa, pretendeu, para além disso, ser também filósofo e chegou a cumprir essa sua pretensão tanto com os escritos filosóficos póstumos que deixou inéditos na sua mítica arca – que constitui actualmente o Espólio de Fernando Pessoa conservado na Biblioteca Nacional de Portugal –, quanto com alguns textos de cariz filosofante que chegou a publicar em vida.

    Pessoa leu e estudou filosofia, nomeadamente entre 1906 e 1907, quando frequentou o Curso Superior de Letras, onde assistiu a uma cadeira de filosofia. Sobre esse período de dedicação à filosofia encontramos o seguinte testemunho numa carta de 1932, enviada por Fernando Pessoa a José Osório de Oliveira:

    No que posso chamar a minha terceira adolescência, passada aqui em Lisboa, vivi na atmosfera dos filósofos gregos e alemães, assim como na dos decadentes franceses, cuja acção me foi subitamente varrida do espírito pela ginástica sueca e pela leitura da Dégénérescence, de Nordau. (PESSOA, 1999, p. 279)

    O escritor português redigiu centenas de prosas filosóficas, inventou autores fictícios que eram filósofos, o que mostra o carácter plural da filosofia em Pessoa, a qual viria a ser concebida através da criação de textos filosóficos assinados por diferentes heterónimos e personalidades literárias, cada um com uma biografia, modo de pensar e visão do mundo inteiramente distintos dos outros eus pessoanos. Fernando Pessoa considerou-se «um poeta animado pela filosofia»(PESSOA, 2017, p. 30), por volta de 1910, e ainda um «poeta e pensador» (PESSOA, 2006, p. 208), em 1933.

    Além disso, é oportuno referir que vários filósofos se têm interessado pelo pensamento deste escritor, tanto em Portugal – como é o caso de José Marinho, Agostinho da Silva, Eduardo Lourenço, José Gil, Paulo Borges, entre muitos outros – quanto no estrangeiro, onde podemos referir nomes como Gilles Deleuze, Alain Badiou e Simon Critchley.

    Durante a adolescência e ainda na década de 1910, Pessoa produziu muitos textos filosóficos, escritos maioritariamente em inglês, na forma da prosa de raciocínio dedicada à análise e à explicitação racional de conceitos, teorias e sistemas metafísicos, estéticos, éticos, gnosiológicos, entre outros temas. É importante assinalar que os textos ingleses de Fernando Pessoa, entre os quais encontramos muitos dos seus textos filosóficos, são fruto da educação inglesa, que o autor teve na África do Sul, onde viveu entre 1896 e 1905, portanto, entre os 7 e os 17 anos de idade, tendo sido quase exclusivamente alfabetizado em inglês.  

    Está presente, portanto, em Pessoa, uma escrita filosófica enquanto produção de textos que manifestam um pensamento raciocinante acerca das questões tradicionalmente abordadas pela chamada filosofia ocidental.

    Para esse efeito, o poeta e pensador português desdobra-se numa multiplicidade de textos assinados por diferentes personalidades que escrevem sobretudo em inglês, e assumem assinaturas e pontos de vista filosóficos completamente diferentes e que inclusivamente teorizam a questão da pluralidade filosófica, como é o caso de Charles Robert Anon, Horace James Faber, Alexander Search, A. Moreira, Faustino Antunes, Frederick Wyatt. Num texto, datável de 1906, com o título “Plausibilidade de Todas as Filosofias” [“Plausibility of All Philosophies”] – assinado conjuntamente pelos pré-heterónimos Horace James Faber e Charles Robert Anon – lemos a seguinte afirmação que aponta para a possibilidade de uma pluralidade de formas de pensar filosóficas:

    (…) eu e vós, podemos de uma coisa tirar conclusões diferentes e da mesma maneira também. Assim, todas as filosofias são boas e todas são plausíveis como podemos constatar na nossa confusão moral. Todas as filosofias, teorias de sonhos através das nossas lentes, são possíveis.

    [(…) I and thou, we may from one thing draw different conclusions and in the same manner too. Thus all philosophies are good, and all are plausible as we in our moral confusion can find. All philosophies, dream-theories through our lens, are possible.] (PESSOA, 2023, pp. 59-60)

    Outro texto iluminador a respeito da questão da pluralidade filosófica em Fernando Pessoa, no período correspondente à sua produção juvenil, corresponde a um fragmento filosófico de Alexander Search, que nos fala sobre «milhares de filosofias» contraditórias entre si sobre o mundo, o homem e a metafísica:

    Milhares de teorias, grotescas, extraordinárias, profundas, sobre o mundo, sobre o homem, sobre todos os problemas que pertencem à metafísica passaram pela minha mente. Tive em mim milhares de filosofias, das quais nem mesmo duas — se fossem reais — concordariam. Todas as ideias que eu tive, se fossem escritas, teriam sido um grande estorvo para a posteridade; mas pelo carácter muito peculiar de minha mente, assim que a teoria, a ideia me atingia logo desaparecia, e, após eu ansiar senti-la, um momento depois não me lembrava de nada — de absolutamente nada do que poderia ter sido. Assim, a memória, tal como todas as minhas outras faculdades, predispõe-me a viver num sonho.

    [Thousands of theories, grotesque, extraordinary, profound, on the world, on man, on all problems that pertain to metaphysics have passed through my mind. I have had in me thousands of philosophies not any two of which — as if they were real — agreed. All the ideas I had if written down had been a great cheque on posterity; but by the very peculiar character of my mind, no sooner did the theory,the idea struck me than it disappeared, and after I ached to feel that one moment after I remembered nothing — absolutely nothing of what it might have been. Thus memory, as all my other faculties predisposed me to live in a dream.] (PESSOA, 2023, p. 61)

    Contudo, a ideia de filosofia em Pessoa não se esgota nem na ideia de raciocínio que identifica comummente o filósofo enquanto raciocinador por ele utilizar como estilo literário a prosa de raciocínio, nem nos textos filosóficos juvenis assinados por outros eus, escritos na sua maioria em inglês.

    No decurso da produção filosófica do poeta e pensador português, no contexto dos seus textos de maior maturidade, encontramos uma série de escritos filosóficos em torno das relações entre filosofia, metafísica e arte, na sequência de um debate iniciado na revista Athena, que teve cinco números publicados entre 1924 e 1925 e que foi dirigida por Fernando Pessoa e Ruy Vaz. No primeiro número dessa revista encontramos um ensaio filosófico assinado por Fernando Pessoa em seu próprio nome, com o mesmo título do nome da revista, onde encontramos a classificação da filosofia entre as artes superiores abstractas:

    As artes que por natureza ministram tal aperfeiçoamento são as artes superiores abstractas – a música e a literatura, e ainda a filosofia, que abusivamente se coloca entre as ciências, como se ela fora mais que o exercício do espírito em se figurar mundos impossíveis. (PESSOA, 2023, p. 78)

    No que respeita ao heterónimo Álvaro de Campos, existe um texto intitulado “O que é a metafísica?” (PESSOA, 2023, pp. 81-85), publicado em 1924 no número 2 da revista Athena, que se constitui como uma contra-resposta ao ensaio “Atena” (PESSOA, 2023, pp. 75-79), publicado pelo ortónimo no primeiro número dessa revista. Álvaro de Campos, no texto “O que é a metafísica?”, retoma a questão das relações entre filosofia, metafísica e arte, apresentando, porém, um posicionamento filosófico diferente do defendido pelo seu criador. No início de “O que é a metafísica?” de Álvaro de Campos lemos sobre a diferença entre o ponto de vista deste heterónimo e a perspectiva do seu criador:

    Na opinião de Fernando Pessoa, expressa no ensaio Atena, a filosofia – isto é, a metafísica – não é uma ciência, mas uma arte. Não creio que assim seja. Parece-me que Fernando Pessoa confunde o que a arte é com o que a ciência não é. Ora o que não é ciência, nem por isso é necessariamente arte: é simplesmente não-ciência. (PESSOA, 2023, p. 81)

    António Mora, uma personalidade que Pessoa faz dialogar com os restantes heterónimos, participa igualmente nessa discussão, como se pode verificar pelo conjunto de fragmentos destinados a um opúsculo intitulado “Introdução ao Estudo da Metafísica” (PESSOA, 2023, pp. 87-99), onde encontramos também a defesa da filosofia como arte:

    A filosofia entra na categoria da arte. – A filosofia foi primeiro uma “ciência”: tinha por fim descobrir a verdade para o fim utilitário de nos governarmos na vida; porque, se se julga que há uma vida futura, com castigos e recompensas, não é por certo pouco importante saber‑se o que se deve fazer para evitar uns e merecer outros. Hoje a filosofia deve passar a ser uma arte – a arte de construir sistemas do Universo, sem outro fim que o de entreter e distrair, publicando belos sistemas.

    […] Todos os sistemas filosóficos devem ser estudados como obras de arte. (Nenhuma arte é feita com o fim de entreter, mas é para isso que ela serve. O artista toma o seu papel mais a sério.) (PESSOA, 2023, p.  90)

    A discussão relativa às relações entre filosofia, metafísica e arte é sintetizada no seguinte fragmento de Ricardo Reis, que também participa no debate:

    Ricardo Reis. (cf. António Mora) — exemplo […] 

    Para Pessoa a filosofia é uma arte, para Campos é não uma arte, mas uma ciência virtual. Para mim nada é, ou, quando muito, é um simulacro de ciência, feita sem dados: — a tentativa de construir uma ciência original sem dados alguns. (Pessoa, 2023, p. 141)

    É importante assinalar que Pessoa considera que a obra filosófica não é tarefa apenas a cumprir pelo filósofo, mas também pelo poeta. A partir da sua estreia n’A Águia em 1912, com uma série de artigos sobre a nova poesia portuguesa, Pessoa define globalmente a filosofia como «conceito do universo e das coisas» (PESSOA, 2000, p. 39), não incluindo nesta abrangente definição o vínculo pelo qual o filosofar tem de ser unicamente, ou de forma privilegiada, uma tarefa por cumprir pelo filósofo – raciocinador ou através da escrita racionalista.

    No texto de A Nova Poesia Portuguesa no seu Aspecto Psicológico, o autor de Mensagem afirma explicitamente que: «É portanto a filosofia do poeta, e não a do filósofo, que representa a alma da raça a que ele pertence» (PESSOA, 2000, p. 61). De facto, na perspectiva pessoana, o poeta não é um mero esteta, ou seja, um contemplador da beleza, mas sim um artista enquanto criador de beleza, que admite na sua obra elementos intelectuais, metafísicos e morais, isto é, filosóficos, cuja presença diferencia a própria obra artística da obra do referido esteta. Parece-nos esta a reflexão principal que Pessoa expressa no ensaio «António Botto e o Ideal Estético Criador», publicado em 1932.

    Por isso, todo o artista, segundo Pessoa, tem como supremo objectivo o de manifestar uma ideia (diremos, uma filosofia) sintética e harmónica «do universo e das cousas». Só no vínculo com este ideal (filosófico) de síntese e equilíbrio é que a beleza da obra de arte poderá realizar a sua função de «aumentar a compreensão, ou a consciência» (PESSOA, 2000, p. 451) da humanidade. Só neste enquadramento é que o artista pode ser considerado a «forma mais alta do homem superior»(PESSOA, 2000, p. 450).

    Com efeito, segundo Pessoa, a poesia «obriga» o ser humano a «sentir conscientemente, a pensar, a comprehender, a sentir intelligentemente» (PESSOA, 2009, p. 134). Por isso, a poesia é capaz, segundo ele, de «[i]ntegrar, pois, a metaphysica na literatura, fazendo da construcção de mysterios philosophicos uma forma de arte»(PESSOA, 2009, p. 134). Trata-se evidentemente de uma poesia que, por um lado, tem uma patente função filo-sófica no alto e nobre sentido etimológico do termo enquanto amor à sabedoria; e que por outro lado incorpora a construção de sistemas filosóficos como uma das suas modalidades da expressão artístico-literária. Ambas estas vertentes, a nosso ver, contribuem para fundamentar a inclusão de Pessoa no campo da filosofia.

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    Texto da autoria de Nuno Ribeiro e de Fabrizio Boscaglia.

    O trabalho de Nuno Ribeiro, na qualidade de investigador auxiliar contratado do IELT, Universidade Nova de Lisboa – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia no âmbito do Concurso de Estímulo ao Emprego Científico Individual – 6ª Edição, com o DOI https://doi.org/10.54499/2023.08872.CEECIND/CP2836/CT0036 e a referência 2023.08872.CEECIND/CP2836/CT0036.

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    Nota à edição dos textos

    Os textos reunidos neste artigo foram transcritos directamente do espólio de Fernando Pessoa, que se encontra actualmente na Biblioteca Nacional de Portugal [BNP] sob a designação de Espólio 3 [E3]. Nesta transcrição, optámos por actualizar a ortografia (segundo o acordo ortográfico anterior a 1990) e excluir todos os segmentos riscados pelo próprio autor. Para efeitos de fixação do texto, sempre que Fernando Pessoa apresenta mais do que uma variante para uma palavra ou frase, transcrevemos a primeira versão do texto deixada pelo autor, tendo em conta o carácter opcional das demais versões.

    Para a transcrição dos textos utilizamos os seguintes símbolos:

    XXXXXX – sublinhado

    □ – espaço deixado em branco pelo autor  

    [BNP/E3, 22 – 9]

    The path of Philosophy is not from the Known to the Unknown, but from the Unknown in the Known to the Unknown in itself.

    [BNP/E3 – 22 – 9r: fac-símile]

    [BNP/E3, 15B3 – 12]

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    Thousands of theories, grotesque, extraordinary, profound, on the world, on man, on all problems that pertain to metaphysics have passed through my mind. I have had in me thousands of philosophies not any two of which — as if they were real — agreed. All the ideas I had if written down had been a great cheque on posterity; but by the very peculiar character of my mind, no sooner did the theory,the idea struck me than it disappeared, and after I ached to feel that one moment after I remembered nothing — absolutely nothing of what it might have been. Thus memory, as all my other faculties predisposed me to live in a dream.

    (Meant to go in “Door” but not; of small worth)

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    Fragment

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    Alexander Search

    [BNP/E3, 15B3 – 12r: fac-símile]

    [BNP/E3, 15B3 – 12v: fac-símile]

    [BNP/E3, 52A – 1]

    Ricardo Reis. (cf. António Mora) — exemplo

    A música é apenas a forma subtilizada das artes de comunicação social. A música é a forma abstracta de entreter.

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    Artes de comunicação social

    Artes de comunicação externa (escultura; música)

    Artes de comunicação interna — a prosa e o verso, que são modos inteiramente diferentes. O verso é mais abstracto que a prosa porque, em vez de discorrer, impõe. Exemplo

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    Para Pessoa a filosofia é uma arte, para Campos é não uma arte, mas uma ciência virtual. Para mim nada é, ou, quando muito, é um simulacro de ciência, feita sem dados: — a tentativa de construir uma ciência original sem dados alguns.

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    A prosa está para a poesia como a pintura para a escultura.

    _______

    Na escultura, que é o tipo da arte, servimo-nos da forma da vida e da matéria da não-vida.

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    Ricardo Reis

    Possivelmente: só duas artes: a escultura, que é a imposição da forma particular da vida à matéria material, e a poesia, que é a imposição da forma geral da vida à matéria mental. As outras artes são subtracções destas.

    (O resto, supra António Mora)

    [BNP/E3, 52A – 1r: fac-símile]

    [BNP/E3, 52A – 1v: fac-símile]

    [BNP/E3, 19 – 99]

    Friedrich Nietzsche

    1.

    O próprio Nietzsche asseverou que uma filosofia não é senão a expressão de um temperamento. Que □

    Não é assim, suficientemente. As teorias de um filósofo são a resultante do seu temperamento e da sua época. São o efeito intelectual da sua época sobre o seu temperamento. Outra coisa não podia suceder.

    Assim, pois, a filosofia de Friedrich Nietzsche é a resultante do seu temperamento e da sua época. O seu temperamento era o de um asceta e de louco. A sua época no seu país era de materialidade e de força. Resultou fatalmente uma teoria onde um ascetismo louco se casa com uma (involuntária que fosse) admiração pela força e pelo domínio. Resultou uma teoria onde se insiste na necessidade de um ascetismo e na definição desse ascetismo como um ascetismo de força e de domínio. Donde a assunção de atitude cristã da necessidade de dominar os seus instintos, tornada aqui — mercê de contribuição fornecida pela loucura do autor — a necessidade de dominar toda a espécie de instintos, incluindo os bons, torturando a própria alma, o próprio temperamento (noção delirante).

    [BNP/E3, 19 – 99r: fac-símile]

    Referências bibliográficas

    PESSOA, Fernando (1966). Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias. Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho. Lisboa: Edições Ática.

    PESSOA, Fernando (1968). Textos Filosóficos, Vols. I e II. Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho. Lisboa: Editorial Nova Ática.

    PESSOA, Fernando (1999). Correspondência – 1923-1935. Edição de Manuela Parreira da Silva. Lisboa: Assírio & Alvim.

    PESSOA, Fernando (2000). Crítica – Ensaios, artigos e entrevistas. Edição de Fernando Cabral Martins. Lisboa: Assírio & Alvim.

    PESSOA, Fernando (2002). Obras de António Mora. Edição de Luís Filipe Teixeira. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda.

    PESSOA, Fernando (Ricardo Reis) (2003). Prosa. Edição de Manuela Parreira da Silva. Lisboa: Assírio & Alvim.

    PESSOA, Fernando (2006). Poesia – 1931-1935 e não datada. Edição de Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas e Madalena Dine. Lisboa: Assírio & Alvim.

    PESSOA, Fernando (2009). Sensacionismo e outros ismos. Edição de Jerónimo Pizarro. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda.

    PESSOA, Fernando (2013a). Eu sou uma antologia: 136 autores fictícios. Edição de Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari. Lisboa: Tinta da China.

    PESSOA, Fernando (2013b). O Regressos dos Deuses e Outros Escritos de António Mora. Edição de Richard Zenith e Fernando Cabral Martins. Lisboa: Assírio & Alvim.

    PESSOA, Fernando (2016a). Charles Robert Anon: Escritos de uma personalidade pessoana. Edição, notas e introdução de Nuno Ribeiro & Cláudia Souza. Lisboa: Apenas Livros.

    PESSOA, Fernando (2016b). Obras Completas de Ricardo Reis. Edição de Jerónimo Pizarro e Jorge Uribe. Lisboa: Tinta-da-China.

    PESSOA, Fernando (2017). Prosa Íntima e de Autoconhecimento. Edição de Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim.

    PESSOA, Fernando (2023). Envelopes Filosóficos: Filosofia & Heteronímia. Coordenação científica, introdução, posfácio e selecção de Nuno Ribeiro, Cláudia Souza, Paulo Borges e Maria Celeste Natário. Porto: Instituto de Filosofia da Universidade do Porto/U.Porto Press.

  • A arte de esperar sentado, rebolando

    A arte de esperar sentado, rebolando

    O desespero mora ao lado da gargalhada, mas nem sempre se tratam como vizinhos.

    La (Des)espera ensina-nos a rir de nós próprios e do que administrativamente empanca a nossa vida. Exactamente isso.

    Três bailarinas vestidas com uma espécie de fato de macaco, não porque também sejam mecânicas de profissão, mas talvez porque tenham de usar muitos “mecanismos” para sobreviver aos malefícios de uma repartição pública.

    É um espectáculo de dança contemporânea e a Companhia El Desvio traz consigo conjuntos de cadeiras de plástico, as que vemos nos hospitais e nas salas públicas de espera. Aguardam a sua vez na sala de espera da Segurança Social, onde se sentam, esperam e desesperarão.

    Foto: Jordi Vital

    A chegada à sala de espera é calma e pacífica. À medida que o tempo passa, os corpos vão-se mexendo, tentando encontrar uma posição possível, um menor desconforto. Todos os utentes são tão desconhecidos como nós, que estamos sentados também diante da sala de espera, à espera do que acontece.

    Como recentemente vi um espectáculo de dança contemporânea em que as bailarinas apenas rastejavam, comecei a ganhar medo de não sobreviver ao espectáculo. Mas não. A espera nesta sala é dinâmica, os corpos movem-se, feitos de material aborrachado que vai parecendo humano, também. Um humano que desespera, uma luta para não deixar de ser “Eu”.

    Impressionou-me especialmente a preparação física das bailarinas. Devem ter estado uns 15 minutos num treino intensivo, com uma voz de fundo que as encorajava: “Vamos, vamos, adelante…” Acho que era a voz remota de uma personal trainer, que as ia preparando para a espera, porque a resistência, mais do que tudo, é necessária. Foi um treino de onde as bailarinas não arredaram, mas cansou imenso quem olhava para o espectáculo. Uma espécie de solidariedade espontânea: compreendendo que nem dois minutos aguentaríamos de um esforço físico assim, cansámo-nos por elas.

    Foto: Jordi Vital

    Muitas vezes, os corpos entrelaçavam-se nas cadeiras, como se entretanto deixassem de pertencer a pessoas para se transformarem em parte da matéria das próprias cadeiras. Uma forma incrível de representar a pessoa que, pela espera, se alheia de si própria, do seu dia, das suas rotinas, da sua família. Tem a sua sobrevivência para resolver. Abandonar a espera é inaceitável, inimaginável. As bailarinas persistem. Todas diferentes. Todas com movimentos diferentes, unidas pela igualdade dos seus fatos de operacionais.

    Mas não falam, não aproveitam o tempo para contar a sua vida, os seus problemas, os seus receios? Não. Ainda não.

    Ouvimos subitamente uma voz que dá instruções. É necessário o preenchimento de um formulário.

    Foto: Jordi Vital

    Nesse momento, os corpos fundem-se como uma massa única, rebolam-se pelo chão como uma bola de carne, grande e disforme, feita de todos os corpos que estão nesta salmoura da espera. As bailarinas formam uma bola despersonalizada. Os contribuintes, os utilizadores do sistema público, os que não podem agora trabalhar, os que precisam de repente que o Estado os ajude a manter uma vida digna, estão agora a desfilar chão afora. São apenas um, e hão-de ser capazes de preencher o formulário.

    As bailarinas festejam cada formulário submetido com sucesso, não o resultado. Talvez mais uma espera longa por uma resposta. Mas requerer é já uma vitória, … sobretudo para os que não dominam as artes digitais.

    Falam apenas num momento. Quando nos lêem a burocracia que atravessaram para que o seu próprio espectáculo pudesse ser pago pela Câmara Municipal.

    Um espectáculo impressionante, que terá certamente passado pelas suas tropelias  até chegar ao Palácio do Sobralinho.

    Mas valeu a pena ir ao Palácio. Para percebermos que a arte nasce até a propósito de temas estranhos, mas que nos ferem a existência. De repente, daria tudo para que os génios que pensam o sistema administrativo vissem este espectáculo. Gostaria de ver as suas caras, como um outro espectáculo.

    A arte, na sua génese, nem sempre é bonita. Mas é enorme. Porque nos toca.

    Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐

    FICHA TÉCNICA

    La (Des)espera

    Direcção e Coreografia: Iris Claramunt, Sílvia Cepero e Claudia Auzinger

    Bailarinas: Iris Claramunt, Sílvia Cepero e Claudia Auzinger

    Desenho de Luz: Álvaro Castillo

    Desenho de Som: Delia Domínguez Rojo e Ola Witalisz

    Figurinos: El Desvio

    Material Audiovisual: Enric Barba Solé, Sílvia Cepero e Irina Warner

    Design Gráfico: Iris Claramunt

    Fotografia: Jordi Vital

    Texto: Unai Casola

    Espectáculo inserido no  8º Festival de Dança Invisível   https://inestetica.com/danca-invisivel/

  • O enorme problema dos consensuais

    O enorme problema dos consensuais

    E eu, que não crio problemas e até os evito

    Eu, que detesto toda a desordem demasiado ordenada

    e toda a violência de qualquer espécie

    Eu, que tento frequentar espaços que não estejam repletos de homens

    Eu, que mudo de canal, sempre que ouço políticos a falar,

    ou economistas ou notícias de crimes horrendos,

    o que considero tudo a mesma coisa

    Dou por mim a pensar que não passo de um consensual

    E isto afecta-me, porque não gosto de consensos,

    nunca gostei, principalmente quando não estou de acordo

    E isto constitui para mim um problema,

    que preferia evitar mantendo sempre a consensualidade do início deste tratado,

    porque o grande problema dos consensuais são os consensos

    E isto apenas para começar, porque é um dos seus maiores defeitos

    É um defeito tão grande, que chega a ser consensual,

    não fosse a consensualidade estragar esse efeito

    Mas um defeito não se estraga, não se anula assim

    Um defeito deve ser estimado, como a qualidade o é, sem ser consensual

    Porque a consensualidade anula a diferença, a cor, a palavra e a virtude

    Aceita qualquer um nos seus braços, desde que seja consensual

    É uma espécie de bar aberto da mediocridade procrastinada,

    um livre-trânsito para o esquecimento,

    um lugar marcado numa vala comum,

    uma reunião partidária à qual vais dar sempre o teu aval

    É o voto em branco que dás a todos, na tua disciplina ou preguiça

    É um pouco de ti que ofereces aos outros,

    reduzindo-te até te desvaneceres e (quase) desapareceres

    Porque seres consensual passa a ser uma consensualidade

    Numa promiscuidade tão grande, num acordo absoluto

    Que nega o rasgo, o espontâneo, o grito, o murro na mesa

    Mas o maior problema dos consensuais, o maior de todos, consensualmente assumido,

    é que, apesar de a consensualidade conter a palavra sensualidade,

    Isso é tudo o que um consensual não pode ser

    ***

    Luís Serra Santos é poeta lisboeta e pugilista nos tempos livres.

  • Cerimónia

    Cerimónia


    ***

    Paulo Vero é homem dos sete ofícios

    Todos os direitos reservados, tanto do texto como da imagem.

  • Andy Kaufman. E se a morte for só uma piada?

    Andy Kaufman. E se a morte for só uma piada?

    Andy Kaufman é um acidente.

    Um erro de casting na espécie humana. Um heterónimo em corpo inteiro que rasgou o véu entre vida e representação, entre o que se é e o que se finge, mas sobretudo entre o que se diz e o que se sabota. Kaufman fazia uma espécie de ruído no sistema cultural americano. Rasgava.

    A sua obra, se assim se pode chamar à sucessão de actos desconcertantes que povoaram a televisão, o wrestling e os noticiários dos anos 70 e 80, é uma espécie de happening ontológico sem ponto final.

    Kaufman morreu em 1984, dizem.

    Mas como ter a certeza?

    Nascido em 1949 em Great Neck, Long Island — um subúrbio que bem poderia ter sido uma alegoria suburbana de Kafka —, Andy cresceu num contexto de pós-guerra conformista, entre brinquedos de plástico, moral católica e o tédio luminoso do sonho americano. Desde cedo compreendeu que a linguagem da cultura popular era sobretudo um meio de controlo.

    Não lhe bastava apenas querer “expressar-se”, mas sim desmontar os próprios mecanismos da expressão.

    Imagem: The Swimming Pool Project

    Onde os outros faziam piadas, ele construía incríveis emboscadas semânticas. Onde se esperava um punchline, ele oferecia uma pausa de desconforto, um silêncio táctico, um abismo no guião.

    Um anti-punchline…

    Tornou-se paulatinamente no cómico dos cómicos.

    Por isso é levado a sério.

    A sua performance em Saturday Night Live, onde apenas sincronizava os lábios com um disco de Mighty Mouse, permanece como um acto inaugural de resistência passiva à ditadura do riso imediato. Era um não-acto que expunha o próprio acto como artifício. Kaufman queria pôr o riso em xeque. Mas gostava de fazer rir.

    E ria-se.

    Roubava à comédia o seu contrato moral e devolvia ao público um espelho partido. Neste sentido, Kaufman é um descendente directo de Artaud, de Dada, de Beckett, e até do seu contemporâneo Lenny Bruce — mas também, paradoxalmente, de Walt Disney e já agora… de Fernando Pessoa, na arte de fingir a sério.

    Misturava a crueldade ritual com o espectáculo açucarado. Era um sabotador disfarçado de entertainer. Um pateta verdadeiro e falso ao mesmo tempo.

    Imagem: The Swimming Pool Project

    Clifton, o seu duplo grotesco, cantor lounge alcoolizado e arrogante, é o ponto de fusão entre performance, disfarce e esquizofrenia narrativa. Funcionava como um desvio. Era ele mesmo um casino, mas só com as partes sujas. A zona negra. O humor negro.

    A insistência em manter Clifton como entidade autónoma, com contratos próprios, entrevistas próprias, substitutos próprios, revela uma das teses fundamentais de Kaufman: não há actor, há apenas papel. Não há essência, apenas montagem. Não há ilusão, apenas realidade e tudo junto misturado traz um novo cocktail com sabores pouco familiares que tendem a desconfortar e baralhar a falsa harmonia construída e instalada. 

    Neste gesto, Kaufman antecipa a lógica pós-moderna de identidade como performance (Butler), o simulacro como regime ontológico (Baudrillard) e a desconstrução do sujeito como efeito teatral (Derrida em modo burlesco). Mas é muito mais interessante e incisivo que Derrida e as suas teorias muito só “em teoria”.

    Na série Taxi, onde interpretava o imigrante Latka Gravas — uma caricatura doce, ingénua e linguisticamente hesitante —, Kaufman operava o gesto contrário ao esperado: entregava-se à máquina industrial da televisão, mas sem nunca deixar de a sabotar a partir de dentro. Latka era uma bomba cómica envolta em caramelo: o idiota que disfarçava o estratega, o palhaço que escondia o crítico cultural. A sua recusa em repetir rotinas, a exigência de trazer Clifton como “condição” para aparecer no programa, e os frequentes despedimentos encenados, revelam um artista que queria fazer explodir a norma.

    Para nada.

    Isto tudo são factos, e se não fossem, neste texto absolutamente verdadeiro, passariam a ser.

    Mas é no wrestling que Kaufman atinge o sublime grotesco: autoproclamando-se “Campeão Intergénero de Wrestling”, desafiando mulheres do público a enfrentá-lo no ringue, e provocando escândalos e vaias televisivas em directo. Não se tratava de misoginia, como alguns sugeriram, aí seria muito mundano, mas como provocação: Andy insultava assim sobretudo o dispositivo do espectáculo. Criava tensão e sobretudo dissonância. Conhecia o inconsciente colectivo e sabia como prolongá-lo e estetizá-lo.

    O wrestling, por ser o território mais coreografado da violência americana, era o lugar perfeito para encenar a teatralidade do poder e a verdade do fingimento (não poderia não invocar Pessoa).

    A luta contra Jerry Lawler — falsa, mas violentamente vivida — culmina numa farsa de talk show onde Kaufman aparece de colar cervical a gritar obscenidades. A América olhava e não sabia se devia rir, chorar ou ligar para os serviços sociais.

    A sua morte, em 1984, de cancro do pulmão, é apenas mais uma camada narrativa. Kaufman nem fumava. Dizem que não.

    Tratou-se nas Filipinas com “cirurgias psíquicas”? Sim. Inventou a sua própria morte? Provavelmente.

    Ou talvez tenha sido apenas mais um gesto de fidelidade ao seu personagem-mundo: desaparecer no exacto momento em que poderia começar a ser compreendido numa época camuflada de cinismo e hipocrisia pós moderna como seriam os anos 80, em que tudo era possível. Até não-morrer.

    Provavelmente aspirava a ser um boato eterno.

    Mas um boato mutável e engenhoso que não acabasse numa simples biografia. Que desse origem a textos como este.

    Foi essa ambiguidade existencial que o filme Man on the Moon (1999), de Miloš Forman, conseguiu captar com uma precisão invulgar. Mais do que biopic, é um ritual necromântico que devolve Kaufman ao mundo como espectro vivo.

    Jim Carrey, num dos actos de possessão mais radicais da história do cinema, não interpreta Kaufman, isso é para meninos de coro, dissolve-se nele.

    Carrey, ele próprio uma criatura elástica entre a máscara e o abismo, reconheceu em Kaufman o seu duplo metafísico. O que acontece em Man on the Moon é estranhamente (ou não), uma reencarnação. Existe até um documentário na Netflix sobre isso.

    E Carey nunca mais voltou a ser Jim.

    Todos os actores deviam ver para aprenderem definitivamente a diferença entre ser e representar ou simular e actuar.

    Todo o dicionário está plasmado nesse documentário que chega a ser irritante de tão verdadeiro e falso ao mesmo tempo, e pior… Ao mesmo nível.

    O filme, longe de domesticá-lo, agrava o mistério. E se Carrey ficou preso ao papel durante meses, é porque compreendeu Kaufman. Há ecos dessa infecção na sua forma de estar no mundo.

    Kaufman foi a única personagem que Carrey não conseguiu descalçar.

    Kaufman não deixou sucessores mas deixou sequelas por todo o lado. Influenciou toda uma geração de performers, cómicos, conceptuais e agitadores da realidade. Mas ninguém chegou com o mesmo grau de fidelidade ao desconforto.

    Não poderia não falar do seu cúmplice mais fiel, e talvez o seu único verdadeiro amigo na arte de desestabilizar a realidade, Bob Zmuda — escritor, produtor e performer, nascido em 1949 em Chicago. Mas Zmuda não era apenas um amigo: era uma extensão conspirativa do próprio Kaufman. No filme Man on the Moon, ele surge como o braço direito do delírio, ora a tentar conter Andy, ora a amplificá-lo. Mas a sua participação mais perturbadora foi a de Tony Clifton, o alter ego grotesco que ambos encarnavam alternadamente para confundir o público, os colegas de trabalho e até os jornalistas. Enquanto Kaufman assumia a personagem em certos momentos, Zmuda tomava o lugar noutras ocasiões — criando uma duplicidade irreconciliável que dissolvia qualquer hipótese de autoria.

    A sua relação ia além da amizade: era um pacto artístico de sabotagem mútua, um contrato tácito de guerrilha às audiências ou ao que quer que fosse. Zmuda foi também o autor de Andy Kaufman Revealed!, um livro onde mistura revelações, mentiras, conspirações e homenagens — prolongando o jogo para além da morte, ou do desaparecimento, ou da performance terminal de Kaufman, seja lá o que tiver sido.

    Kaufman queria ser revivido como dúvida. Antecipou os trolls, os influencers, os boatos fabricados, a estética da pós-verdade — mas com elegância e crueldade filosófica. Ria-se do espectador e consigo mesmo, com a lucidez de quem sabe que a realidade é um número mal ensaiado. Imaginou o futuro e riu-se dele.

    E aqui estamos.

    A sua verdadeira obra foi a sua vida que muito pouca gente conhece.

    Kaufman viveu e morreu (?) como um boato que continua a rir-se de nós.

    E acima de tudo—não desconstruiu a realidade nem o mundo do espectáculo.

    Catapultou-os para uma zona quântica imortalizando a vida toda. Toda?

    Sim, toda. Qual é o problema?

    ***

    Texto de Ruy Otero (artista media)

    As imagens não identificadas são imagens de arquivo.

  • Os 700: parte dois

    Os 700: parte dois

    15.

    Ao invés, Pedro Sexto contrariava-me a cada passo. Não era uma bravata fútil, mas produto da convicção profunda de que devia desprezar a autoridade em qualquer forma que lhe aparecesse, não importando quão desinteressada e benigna fosse. Acresce que se divertia quando via frustrarem-se os meus planos o que, no meio daquela babélica balbúrdia, não era, de todo, difícil.

    «Onde estamos?», perguntava, interrompendo os meus pensamentos, os meus intentos, a minha serenidade. Ou inquiria, «vamos às cegas por este lugar? Qual o sítio de onde partimos?» ou, finalmente, «não, não é este o caminho».

    Sexto, no entanto, não era de carácter impulsivo ou desordenado. Tinha a sua suavidade, o fácil manejo de muitas formas e estruturas mentais e, ao mesmo tempo, um espírito sincero, mas aquela propensão para o desacordo, talvez para o conflito que albergava no mais fundo da alma, ditava-lhe a compulsão para um dissenso perturbador. Era, porventura, mais forte que ele, uma capacidade inaudita, afinal, para ver e sentir o outro lado das coisas, mesmo que fizesse tabula rasa dos mais elementares ditames de uma razoável razão.

    Mas se nada daquilo era de interesse para o que me propunha, também não me surpreendia ou tão pouco me indignava e embora, na realidade, não conhecesse aquele homem não podia, de facto, julgá-lo injusto ou imbecil, pois a maioria das gentes poderia ter as mesmas ideias ou, pelo menos, algo semelhante às suas posições em relação ao que eu queria e tanto tentava fazer. Não ignoro que qualquer decisão para o bem comum admite quase infinitas variações e Pedro Sexto era a voz de toda a alternativa, possibilidades que eu nem sempre levava em conta e, por isso, apesar da contrariedade, estava-lhe, secretamente, agradecido.

    16.

    Pois bem, nem quereis imaginar o que é organizar o transporte de setecentas almas, com os seus pertences, na noite cerrada, cada uma com as suas necessidades e urgências, ou porque têm fome ou porque têm sede ou porque estão cansadas ou porque têm sono ou porque estão doentes ou porque não podem andar ou porque estão impacientes, e o diabo do Sexto sempre a promover a confusão onde já o caos campeia à solta. Irrito-me, exaspero-me, ameaça-o, grito com ele e recebo um riso miúdo, escarninho, irresponsável e perverso, um gozo só, ao ver o naufrágio iminente da nossa constante e perpétua viagem, não entendendo que é, como em tudo o mais da nossa vida, questão de vida ou de morte, por pouco nos salvamos, por pouco nos perderemos. Não é necessário o diabrete para precipitar a queda. E ademais perecerá connosco caso um dia as coisas se desagreguem de vez, que ninguém nos acudirá ou terá pena.

    Quando ainda não me tinha perdido de mim, perguntava-me como é que se conseguia viver, ao saber que o destino é cruel e desigual, com o seu aprazado, inconcebível e inevitável fim que sobre todos impende. Por que não éramos mais felizes e contentes, por que o nosso Mundo aventuroso nunca era mais que o nosso Inferno? Por que vivemos e não morremos — o que nos fazia estar vivos? — por que no lado oposto da noite nos esperava, amiúde, uma jornada atroz? Por quê, se todas as vidas são as mesmas, sem sentido, sem um caminho sereno, e no entanto todos se apegam à sobrevivência? E, ainda, conseguem reunir energia para tanta festa, numa euforia muitas vezes estéril, é certo, mas também catártica ou, até, saudável pois tinha o condão não só de espantar os pesadelos, internos a cada um, como também o de exorcizar o mal-estar e os atropelos desta vida em comum. Excepto Sexto, esse teimoso, sempre coerente na discórdia.

    17.

    E quando se porfia na arte da sobrevivência, o mínimo escolho é estrepitoso drama. Não temos luxos e muito menos o luxo de poder descontrair e gozar a vida e esquecer todos os perigos que esta breve multidão tem de ultrapassar, se quiser sobreviver num Mundo cruel e impiedoso que nos não recebe nem quer, que nos não tolera ou aceita, que nos não entende e se não compraz com a nossa alegria álacre, o agitar das águas daquelas terras paradas para onde vamos, quase defuntas de pacatez podre, que há muito perderam, por pobreza e pela sangria da seiva jovem e vital, o alento da vida, cujas comunidades depauperadas perderam a esperança de uma existência mais plena e real, perdidas que estão na estagnação do seu próprio desalento. Esses desgraçados, quase como mortos que só sobrevivem por hábito atávico de agitar o pulmão, em vez de ficarem felizes com o hálito forte da nossa ferocidade, rejeitam-nos com ódio e, amiúde, com violência e rancor, como se o incómodo fosse um crime, o que é estrangeiro um escândalo que fere de pecado sem remissão, uma ofensa às leis divinas e humanas que nem a morte e a hecatombe poderão alguma vez compensar tamanho opróbrio.

    Esta a nossa existência, tão difícil, sempre lutando em fútil, mas permanente combate, vinte e quatro horas por dia, sem descanso, sem escola, sem pausa, sem deveres outros que uma precária subsistência.

    18.

    É, por isso, incompreensível que Sexto, mesmo com os mencionados efeitos salutares da sua atitude, tenha o afã de perturbar qualquer delicado equilíbrio, assim como todos os outros aspectos da nossa vida em comum, a não ser como veniaga pessoal contra mim, caso apesar de tudo improvável porque os laços de afecto entre todos são sinceros e profundos ou, então, porfia nessa atitude por arredio feitio aziago a todo o mando, e assim predisposto a propor obstáculo onde o não devia haver & nesta vida fechada que levamos o ensejo é estarmos juntos e o que tem à-não é impedir a paz no que é de casa, e são estas domésticas operações o que tem por ordem e rotina. Por isso também vos disse que Sexto é, para mim, como um estranho. Há, na realidade, um abismo mútuo de incompreensão e só não lutámos até à morte porque sempre há este peculiar afecto genésico e porque somos ambos de índole pacífica, incapazes de violência, mesmo que esse fosse o único e mais expedito modo de resolver, de uma vez por todas, a nossa eterna disputa.

    19.

    De qualquer modo, sempre que o fosso entre eu e Sexto parece intransponível e estou no fim da minha paciência, Júlia Vinte intervém, sempre calma, sempre delicada, sempre tentando promover a concórdia, com os seus modos suaves e gentis, e com um pensamento tão rápido e uma intuição tão certeira que consegue antecipar os conflitos e procurar uma certa tranquilidade com a eficiência de uma diplomata natural. É ela que, in extremis, salva a situação e permite um módico de paz até à próxima crise.

    Não fora ela e temo que nos tivéssemos afogado num banho de sangue, sociedade de fratricidas insanos já que não medem a gravidade do crime e estão dispostos a saltar para o abismo sempre que a serenidade lhes falta.

    Não imaginam, pois, como é difícil planear, coordenar e depois guiar toda esta turba para que, no dia e na hora marcados, nos façamos ao caminho e que não existam alguns tresmalhados, uns quantos distraídos, outros renitentes, aqueles que se perdem ou até que se recusem a ir. É muita gente, todos têm as suas ideias e ninguém me elegeu, nem tenho nenhum real ascendente sobre os demais. Sou, apenas, o mais velho. Preocupo-me. Estou habituado. É só. Ainda assim, contra todas as expectativas, o milagre acontece e lá adentramos na noite, tentando não nos perdermos uns dos outros na escuridão, à procura de um alojamento que acomode setecentos corpos cansados e com frio e com fome e com sede e com tantas ganas de viver que, como se adivinha, nem todos os edifícios sabem ou podem suportar o estrépito de terramoto dos nossos pés. E se no meio desta rotineira transferência de perpétua, mas necessária, diáspora, alguns se perderem, ou quiserem desertar por exaustão da mudança ou porque, se encontram, por esta ou aquela razão, demasiado frágeis para a viagem ou porque teimam em ficar, haverá, por certo, em pouco tempo, ainda mais, muitos mais da nossa estirpe que ainda se não encontrou fim, medida ou razão para a prodigiosa fecundidade destes nossos pais que, tendo já gerado sete centenas, ainda uns quantos nascem se alguns perecem ou tresmalham. O número é, porém, surpreendentemente estável, apenas mudando os indivíduos porque, se por abscôndito comando, só nascem uns quando outros morrem ou por aí se dispersam, dir-se-ia que só assim é para que tudo se mantenha igual, pelo menos, enquanto durarem os progenitores desta família máxima.

    20.

    E foi assim que naquele terrível Inverno, por certo o mais duro de que haveria memória, tivemos de fugir de uma multidão, enraivecida pelos nossos desmandos. Tinham toda a razão, pois havíamos esgotado os magros suprimentos que os habitantes daquela pequena cidade dispunham para enfrentar o rigor daquele frio. Finda a paciência viraram-se contra nós com uma determinação tão assustadora que não duvidei, ainda que por um instante, que nos matassem a todos e quis fugir de imediato só para enfrentar a letargia da família, enregelada e quezilenta, pouco interessada em empreender a viagem por um vale pedregoso e cheio de perigos. Sexto, delirava de júbilo ao ver-me, finalmente, derrotado, incapaz de mover sequer um dos setecentos irmãos. Só quando começou o susto do tiroteio e sentiu a morte de perto é que a imensa mole humana acordou do torpor, num pânico esponjoso e confuso e todos começaram a correr na direcção que eu lhes tinha indicado. Perdemos tudo nesse dia. Houve desespero e mais fome e gangrena de membros perdidos para o gelo, numa caminhada lúgubre que pareceu interminável em direcção ao Inferno. Escorraçados do abrigo, tivemos de enfrentar os elementos sem agasalhos, sem água, sem comida e sem a serenidade de um propósito, movidos apenas pela vontade de escapar aos nossos perseguidores e de nos protegermos daquela vastidão desoladora cujas temperaturas eram tão baixas que só o calor dos corpos, abraçados como amantes, impediu que se gelasse até à morte.

    21.

    Infelizmente, o inverso também nos aconteceu: fomos escorraçados de outro povoado e tivemos de fugir atravessando a meseta inóspita sob um calor tão abrasador que se derretiam as solas dos sapatos e o corpo se desidratava mais depressa do que se conseguia repor a água perdida. Água que, aliás, apesar de racionada com escrúpulo era, constantemente, escassa e razão de amargas disputas. Esta miséria durou semanas de sede e delírios e pó e ventanias tenazes. Para avançarmos tínhamos de rastejar sob a vergasta das rajadas do vento e durante vários dias andámos às voltas até percebermos que o acampamento deserto que acabáramos de encontrar era o nosso e que só pela desorientação e desvario dela completamos um vasto círculo perseguindo o próprio rasto. O desespero venceu e muitos rezaram por um maná que nunca chegou até que, por um puro acaso que foi confundido com a graça divina por esta multitude de incréus, se topou com um fio de água, na verdade, um riacho lamacento de águas estagnadas, mas que foi o suficiente para retemperar as forças, ganhar alento e procurar refúgio dos implacáveis siroccos que nos flagelavam. Estávamos salvos, porém não seria tão depressa que iríamos esquecer mais esta provação. Houve quem se radicalizasse a favor dos partidários da facção mais violenta. Da próxima vez, defendiam, ir-se-ia lutar antes de optar pela fuga. Era o que queriam os irmãos mais jovens que então chegavam à maioridade e tinham um espírito afoito e guerreiro, rebelde e propenso à violência, enquanto os mais velhos tendiam para a conciliação. Em vão tentava explicar-lhes que o Mundo exterior, o Mundo dos homens, era infinitamente mais forte, infinitamente mais vasto e infinitamente mais cruel e que se resistíssemos só iríamos acordar o espírito vingativo que é quando a humanidade verdadeiramente se une numa família universal e nós, afinal, meros setecentos, à mercê desse Mar de gente sanguinária, disposta a tudo, somos menos que uma gota no Oceano.

    22.

    Ver-se-á se o confronto é a melhor estratégia ou se compensa ser-se discreto, pelo menos, tão discreto quanto o podem ser setecentas criaturas desgrenhadas e orgulhosas, povo que transporta o seu Adão, senil patriarca que vê o Mundo como criança e que ama a sua Eva na distância da alienação em que ela própria caiu, mas ainda reconhecendo os filhos, embora não sabendo em que ano está, onde se encontra e o que almoçou naquele dia. De resto é um delírio contínuo. Julga-se nova, prestes a casar e tece perpétuos planos para uns esponsais sumptuosos e complicados. Deu em tecer, com suas próprias mãos, um vestido de noiva intrincado e fora-de-moda sem saber que costurava, primorosamente, ao invés, a sua própria mortalha.

    Os nossos passos fazem-se no ar do seu desvario, a ventania levanta-se e a correnteza que nos arrasta parece brotar da terra. Não era a primeira vez que via essa maré que emanava do delírio da sua senilidade, nem, com certeza seria a última, quando eu próprio fosse levado, pelos maus ventos da idade, a esse lado reverso da lucidez.

    23.

    De resto, a vida prosseguia como sempre nos foi destinada, uma imensa mole de gente que vagueava ao sabor do acaso e das circunstâncias, sem conhecer o dia de amanhã, como todos os que habitam neste orbe debaixo do Sol, excepto sabendo que a estirpe se acabará nesta única e proliferante geração pois toda ela é estéril e não só nenhum de nós teve filhos como já ninguém acredita que alguma vez os venha a ter. Podemos ser pródigos em muitas artes e todos os dias alguém revela uma qualquer habilidade até aí desconhecida e que se não conseguiu antever, mas todos sabem que não está em nosso poder gerar descendência pois dessa nossa cornucópia de dons exclui-se aquele da fecundidade ou não tenha sido esta família vítima da maldição ou duplo sortilégio da excessiva prole dos pais e da secura da semente dos filhos.

    A verdadeira razão por trás do fim da existência de toda a prole humana talvez não seja como muitos acreditam ser, uma expiação por qualquer arbitrário decreto divino. Os deuses e deusas não teriam condenado os homens ao exílio se não houvesse uma história, trágica e universal, com princípio, meio e fim, e nós desta absurda família, porventura, mais não somos que um microcosmo, uma experiência dessas divindades laboriosas para aferirem qual o passo seguinte em toda esta desdita humana. Pelo menos, é nisso em que acredito ou que, durante muito tempo, julguei acreditar, até perceber que nada na vida tem sentido. Que se vive ou morre sem que haja um propósito para além da sobrevivência quotidiana, arrancada a todas as vicissitude possíveis, algumas que desafiam a imaginação ou as faculdades terrenas de prever e prevenir o malogro

    24.

    Disse-vos já que por muita zanga e fúria e bravata que haja entre nós, às vezes quase chegando à violência de um punho erguido, irmão contra irmão, gritaria e objectos pelo ar, arremessos a esmo ou, se pontaria houver, uma cabeça rachada e sangue que jorra, mantemo-nos unidos, atravessando juntos as catástrofes diárias, hecatombes caseiras e domésticas que é de tremer o chão a algazarra de tanta boca esfomeada e não há só a fome de pão, pois, na verdade, nascemos juntos, do mesmo pai, da mesma mãe, juntos brincámos e juntos crescemos, juntos sofremos e colectiva é a nossa alegria e juntos queremos morrer, rodeados de nossos iguais, pois quem nos olha e um vê é como se visse todos e cada um, e qualquer de nós sendo diferente dos demais — com ressalva, claro, dos gémeos que aqui também os há, iguais, espelhos perfeitos macaqueando-se continuamente, ora invertendo-se como num vero espéculo ora duplicando-se, simétricos — tem traços tão comuns que se percebe logo que somos irmãos. Isso topa-se à distância e é evidente pelos olhos muito negros, pelo sorriso triste, nariz adunco, elas, loiras como a Mãe, eles, morenos como o Pai mas, todos, esguios. Os homens são enérgicos e estouvados, as mulheres têm um sentido prático incomum mas, por vezes, são vulneráveis à melancolia e às armadilhas da nostalgia caindo, as pobres, num torpor tão fundo que ficam perdidas para a vida. Catatónicas, no estado terminal de toda essa tristeza, transportamo-las como uma peça de mobiliário de indispensável estima e várias delas se deixaram consumir em incêndios até que, no meio do pânico geral, alguém se lembrasse de lhes apagar as chamas, pois ardiam sem um queixume. As que sobreviveram continuam, ainda hoje, entre nós como uma relíquia, estátuas antigas e chamuscadas que não se diria viverem a não ser pelos olhos brilhantes, perscrutadores, intensos.

    25.

    Apesar da nossa união, por certo, uma vez houve em que quase se chegou a um cisma, uma irremediável cisão entre dois grupos opostos e se tivesse acontecido seria para nunca mais. Isso foi quando a geração dos duzentos chegou à maioridade e queria imprimir ao grupo uma outra vitalidade e os mais velhos, sempre aconselhando prudência, consideravam, não sem alguma razão, que era a cautela, pelo menos aquela pouca de que éramos capazes, a única conduta possível. Ora, os jovens não estavam com meias medidas e queriam mudança imediata, queriam o poder de decidir por si o destino de todos e, como estavam no seu apogeu físico e passional, foi difícil convencê-los. A sua propensão belicosa depressa tornou a situação explosiva. Eu bem tentei arbitrar a disputa, mas com isso só consegui construir certas inimizades de ambos os lados pois foi demasiado tarde que percebi que não só atraí, com a minha atitude conciliadora, os rancores de todos como ela contribuiu para o clima de tensão surda que se agudizou até ao momento em que Paulo Duocentésimo Vigésimo Sétimo, o líder dos jovens, foi assassinado. Nunca se chegou a apurar quem praticou o crime, mas foi um sinal de aviso. A partir de então os ânimos serenaram e as nossa breves tradições prevaleceram. Por mim, compreendi que não devo interceder excessivamente nas disputas. Se consigo conduzir toda esta gente é porque, no geral, concedem que desempenho um papel inevitável, cumprindo as exigências de uma necessidade colectiva sem ceder às tentações de demonstrar uma opinião própria e pessoal, uma individualidade que pode degenerar numa tirania e se há coisa que, instintivamente, aqui se proíbe é qualquer tipo de repressão, por alguma razão vivemos apartados da demais humanidade, entregues aos nossos recursos e engenho e ao que nos dá na gana.

    26.

    Por mais que me esforçasse nunca consegui convencer nenhum dos meus irmãos a trabalharem um dia que fosse. Enquanto via o nosso número crescer, imaginava que seria possível obter um pedaço de terra e cultivá-la. Não nos faltariam braços. Ou construir uma pequena indústria ou mercar toda a sorte de géneros. Nada seria impossível, não há é vontade. Ou por um arreigado hábito de indolência ou por convicção que trabalhar é contribuir para a prosperidade do Mundo, o que é o mais provável, porque quem nasceu selvagem prefere sofrer a miséria a sujeitar-se a qualquer sorte de regras ou disciplina. É-lhe, por natural inerência, impossível o compromisso e a paciência para suportar um horário, uma ordem e um objectivo comum, as rotinas proletárias ou burguesas, como é uso dizer-se, que tanto podem significar conforto ou dolorosa subjugação, consoante o carácter de quem viva sob tal sina, a perspectiva que adopte e o sucesso do seu empreendimento. Esta errância, incerta como seja, cheia de perigos, angústias e privações, sempre é um modo de sermos livres. Ademais, esta funesta fama precede-nos e há, por isso, uma animosidade natural contra a nossa trupe o que nos levou a cerrar fileiras e somos, na íntegra, auto-suficientes, por reflexo defensivo e orgulho, ainda que isso signifique a penúria. Mas as dificuldades não nos assustam, fazem parte desta identidade que, como se de um líquido Proteu colectivo, está sempre em plena mutação, consequência inevitável de sermos livres e sermos tantos.

    27.

    Em boa verdade se diga que não necessitamos do Mundo. Hugo Trezentos e Um tem uma voz de encanto e nas noites cálidas de Estio delicia-nos, acompanhado por uma multiplicidade de instrumentos pois, entre nós, há muitos prodígios musicais e bailarinas deslumbrantes que dançam à roda de uma fogueira altíssima ao compasso das labaredas e assim se passam as horas até que a alba de róseos dedos desponta a Nascente. Só então nos vamos deitar, muito depois de a própria Lua se ter recolhido e já o Sol espreitar, curioso com a nossa festa e a fogueira ser um grande monte de carvão incandescente que levará um dia inteiro a apagar-se por completo. E assim cantamos e dançamos e somos felizes, cantigas e danças que inventámos longe da demais gente, ignorantes e imunes aos seus divertimentos e costumes, aos seus teatros e cinematógrafos e óperas e sinfonias e à radiotelefonia sem fios, perdidos, é certo, no nosso pequeno canto, mas satisfeitos com a nossa independência e porque nunca experimentámos o tédio. Com setecentas almas em permanente ebulição, o aborrecimento é, para nós, uma impossibilidade prática. Todas as outras emoções humanas estão à flor-da-pele, o terror, a angústia, o ódio e a ternura, a solidão colectiva de um povo exíguo, mas não o tédio, nunca o tédio.

    28.

    Em geral, evitamos as grandes cidades. Só uma vez cometemos o erro de nos derramarmos pelo dédalo de uma urbe desmesurada que nos maltratou como se fôramos um corpo estranho que ousasse perturbar a regular desorganização do seu funcionamento. Os comerciantes não se deixaram furtar, chamando logo a polícia e passado pouco tempo a fome apertava e nem conseguimos sítio onde pernoitar, à excepção de um prédio tão infestado de baratas que tínhamos de lhes disputar cada naco de pão que lográssemos trazer para alimentar aquelas setecentas almas aturdidas pela azáfama dessa ingrata terra. Estava frio e chovia ininterruptamente. Muitos tinham medo de se perderem no emaranhado confuso das ruas e os mais turbulentos estragavam-se em brigas nos bares do submundo, em prostíbulos de má fama ou caiam eles próprios vítimas de ladrões muito mais espertos, perigosos e ferozes do que eles. A situação logo se tornou insustentável, era hora de partir e só o não fizemos antes porque reinava tal confusão que ninguém atinava com o caminho de regresso daquele pesadelo, afinal tinha sido fácil entrar, mas não era tão fácil sair. Percebia-se, ainda que de modo incipiente, no meio de tanto pânico e letargia, o poder centrípeto das urbes, a sua fascinação doentia, onde tanto se perde um homem como se perdem setecentos e onde um ou sete centenas são ambos uma gota de água num Mar-alto de gente diversa. Ali, éramos poucos, pequenos e frágeis, perdíamos a força do grupo, diluídos na multidão anónima e cruel dos habitantes, frios e duros, habituados à sobrevivência na aridez da pedra e do cimento. Este não era o nosso elemento, mas como em tudo na vida, há que experimentar as coisas e uma cidade tão grande parecia poder oferecer conforto e protecção. Talvez em outras circunstâncias, com outra preparação, se tivéssemos a capacidade de nos organizarmos de outro modo «tu farás isto, e tu aquilo, e todos juntos havemos de conquistar uma prosperidade até agora nunca sonhada, e com ela o luxo de podermos parar, construir outra vida, com refeições certas, um tecto garantido, não mais o calor e o frio desses campos, as caminhadas nocturnas, seremos um clã de gente feliz, aqui ficamos». Mas isso não aconteceu como não poderia ter acontecido porque, se o nosso destino é errante, a nossa irreversível liberdade implica pagar o preço em desconforto e cuidados.

    ***

    João Pereira de Matos é escritor e investigador no CHAM – Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa.

  • Um prazer que tangencia a obscenidade

    Um prazer que tangencia a obscenidade

    – O senhor vai ser rápido?

    – Vou lhe tomar, quando muito, quinze, vinte minutinhos.

    – Vá em frente!

    – Começo dizendo que não posso exigir da senhora que acredite em mim. Sou apegado à verdade, embora às vezes não seja plenamente sincero. Não minto, mas nem sempre digo o que deve ser dito…

    – O senhor admite que nem sempre é sincero, mas, mesmo assim, quer ser escutado. Entendi bem?

    – Exato. Tento ser totalmente verdadeiro, mas a linguagem tem nuances. Digo que não sou sincero porque jamais enuncio a verdade última. Por quê? Em primeiro lugar porque a verdade resplandece como o sol sobre o deserto. Não conseguimos olhar para ela sem ficarmos cegos, ainda que momentaneamente. Além disso, sou excessivamente gentil e delicado. Detenho-me muito antes de ingressar no âmago dolorido dos fatos.

    – O senhor não me parece muito modesto.

    – A senhora promotora tem razão. Não se pode asseverar que eu seja uma pessoa que pratica fanaticamente a humildade, não. A senhora certamente prestou atenção no modo como eu a abordei. Fui respeitoso, porém altivo. Aprendi com meu pai, que me dizia: “nunca se engrandeça, mas jamais se diminua”. Não me vergo abjetamente como a maioria das pessoas que procuram o socorro de uma autoridade.

    – O senhor não teria um documento explicando o que deseja?

    – Não. Trago sucintas anotações que fiz, hoje, ao amanhecer. Atravessei parte da noite refletindo sobre o que dizer à senhora… Esses breves apontamentos constituem a coluna dorsal da minha fala.

    – Por favor!

    – Bem, aqui está o primeiro registro. Generosidade! Quero, de pronto, confessar-lhe esse pecadilho. Não sou uma pessoa magnânima. Não me refiro a bens materiais, evidentemente. Todo mendigo que bate à minha porta é contemplado com um naco de pão. A minha falta de generosidade é apenas no que se refere às coisas do espírito. Generoso é aquele que traz a palavra certa na hora da atribulação. Generoso é o que pratica a amizade desinteressada…

    – O senhor é um egoísta?

    – Não. Na verdade, sou o oposto do egocêntrico. Eu não me valorizo. Não me julgo um homem importante, bom ou decente. Se alguém quiser me definir, que diga: “trata-se de um homem destituído de qualidades”. Ora, nada tendo na alma, nada possuo para compartilhar com os demais seres humanos.

    – Talvez eu não esteja…

    – Tentarei ser mais claro. Não se espere de mim, em instante algum, que eu possa conceder uma palavra de incentivo a alguém. Não sou um fã ardoroso deste mundo e essa lamentável lacuna espiritual me impede de ser entusiástico quando se trata de injetar otimismo nos que me cercam.

    – Compreendi. Vamos em frente.

    – Permita-me, senhora promotora, que eu me transfira à anotação seguinte. Solidariedade. Eis aqui uma virtude das mais louváveis, tendo em vista que se localiza no cerne da ética religiosa. Ser solidário é, dizem os dicionários, partilhar o destino dos nossos irmãos, sofrer com os que penam e exaltar-se com os que são surpreendidos pela errática flecha da felicidade. Infelizmente, também não posso adentrar esse terreno. Entristeço-me com a melancolia dos outros, mas não tenho condições de comungá-la. Meus ombros estreitos não suportariam um quinhão adicional de tristeza. Há anos arrasto carga excessiva.

    – Mesmo ainda não percebendo a que ponto o senhor quer chegar, pergunto: já procurou antes outra autoridade?

    – Sim. Tempos atrás, eu me dirigi ao juiz titular desta comarca. Talvez por ser muito atarefado, o senhor magistrado mostrou-se ríspido comigo. Não permitiu que eu me sentasse, como o fez a senhora. Mal dei início à minha peroração, ordenou-me que deixasse a sala. Fez-me entender, recorrendo a expressões do jargão jurídico, que se debruçaria sobre o meu caso e que me convocaria em breve. Não foi, porém, o que se deu. Por mais de ano aguardei, em vão, o chamado do nobre meritíssimo.

    – O senhor está querendo insinuar que o juiz…

    – Não! De modo algum! Sei como são intrincadas e vagarosas as tramitações judiciais. Continuo aguardando, esperançoso, pela convocação do senhor magistrado, mas resolvi ampliar o meu leque de contatos. Então decidi vir até aqui solicitar a sua intervenção, senhora promotora. Assim, portanto, estou apenas dando mais um passo nessa minha incansável peregrinação em busca de Justiça.

    – Prossiga!

    – Passo à terceira acusação. Integridade. Não sou, também, um homem íntegro. Recorramos ao dicionário. O que seria uma pessoa íntegra? Numa linguagem rasteira se poderia dizer que íntegro é todo aquele que não se deixa corromper. O mundo das ideias, porém, é bem mais sutil. Lá não são admitidas sentenças definitivas. Eu nunca aceitei um centavo a mais que me fosse dado por um bilheteiro desatento. No plano da alma, porém, não posso alegar integridade porque cedo a qualquer investida desonesta…

    – Dê um exemplo!

    – Se me gabam a humildade e a generosidade, eu não rechaço de imediato essas afirmações errôneas. Eu me calo e gozo em segredo o elogio. Ora, eu deveria repelir de pronto, e vigorosamente, todo e qualquer encômio. Esses curtos segundos de iníqua indecisão provam, de modo cabal, que não sou íntegro.

    – Não seja excessivamente duro consigo mesmo! Pelo que entendi, o senhor quer que eu abra um processo criminal contra o senhor. É isso mesmo?

    – Exato. Recorri à senhora porque advogados que militam neste fórum foram unânimes em elogiar a sua competência.

    – O senhor poderia resumir o seu pleito?

    – Sim. Eu gostaria de ser acusado de desumanidade… Não, não ria. É exatamente isso que almejo. Não pertenço ao que se chama humanidade. Não sou um homem. Ou, dito de outra forma, sou um cidadão desprovido desse nobre sentimento. Por essa, digamos, deformação moral quero sofrer processo, julgamento e condenação. Se estivéssemos em outro tempo, mais impiedoso, eu gostaria inclusive de ser supliciado e morto com crueldade. Talvez queimado em pira ou garroteado… O que dizem os dicionários a respeito da palavra humanidade? Sentimento de clemência de um homem para com outro. Não carrego comigo esse sentimento. Por quê? No fundo, creio que ninguém é inocente e que, portanto, ninguém merece piedade. Todos deveriam ser condenados. E eu, para dar o exemplo, deveria ser o primeiro.

    – O senhor não está de todo errado…

    – Vejo que a senhora sorri. Diverte-se. Entende a minha solicitação apenas pelo seu lado histriônico, que é notável, reconheço. Mas eu continuo… Humanidade quer dizer, em suma, benevolência. Essa é uma virtude que me falta. Não obstante, não chego a ser malévolo. Sou apenas indiferente às atribulações do ser humano. Humanista é a doutrina que consagra o homem como o centro do universo. Não me filio a essa corrente. Tenho fortes e fundamentadas dúvidas sobre o propalado valor da pessoa humana.

    – Pensando bem…

    – Hoje cedo, ao nascer do dia, ainda deitado, eu organizava mentalmente a argumentação que apresentaria à senhora quando, de repente, meus pensamentos foram tragados pela cantoria dos passarinhos nas árvores do pátio. Comovido, fui empurrado às lágrimas pela beleza daquele canto.

    – O que tem a ver o pipilar dos passarinhos com sua pretensa desumanidade?

    – Tudo. O que mais prezo neste mundo é o som da voz humana. Nada me parece mais interessante do que a conversa entre duas pessoas. Seja a algaravia de duas crianças que balbuciam as primeiras palavras, seja uma conversação sarcástica entre dois intelectuais. Mas, mesmo admirando a voz dos homens, conclui, hoje, que mais linda ainda é uma conversação entre pássaros.

    – Entendi. Acato seu pleito. Vou processá-lo. Mas, para que a ação seja iniciada, quero que o senhor se submeta a um teste psicológico.

    – Uma avaliação psiquiátrica antes de dar início ao processo? Compreendo, é procedimento rotineiro na Justiça. No entanto, devo adverti-la que fui aprovado no teste que fiz ao renovar recentemente minha carteira de motorista. Ficou comprovado que sou mentalmente equilibrado.

    – Qual é a sua profissão?

    – Bacharel em Ciências Contábeis. Sou proprietário de um escritório que conta com três empregados e vinte e sete clientes, pequenos e microempresários.

    – O senhor tem algum passatempo?

    – Sim. Eu poderia dizer que sou lexicógrafo amador. Pratico essa arte discretíssima à noite e nos finais de semana. Sempre que tenho um tempo livre, leio loucamente os glossários em busca das mais belas palavras. Devo confessar à senhora que esse passatempo me proporciona um prazer que tangencia a obscenidade.

    – Foi garimpando em dicionários que o senhor descobriu que era desumano?

    – Exato! Belíssima essa metáfora pincelada pela senhora doutora! O garimpeiro dos vocábulos! Sim, enterro a enxada ao lado das palavras e a puxo com força. As palavras me surgem agarradas às próprias raízes. Cuidadosamente, eu as livro da terra escura…

    – Voltemos aos fatos.

    – Bem, fazia eu uma pesquisa linguística sobre os polissílabos morais. Sinceridade. Humildade. Generosidade. Solidariedade. Humanidade. Saiba a senhora que nada é mais tenebroso do que a lavra acurada dos vocábulos de quatro sílabas ou mais. Então, certa noite, de súbito, me veio a iluminação. Sou um ser abjeto, um criminoso. Sou um vivente destituído de humanidade!

    – Compreendo. Mas me mate uma curiosidade: por acaso, o senhor examinou a palavra felicidade?

    – Não. A felicidade não nos suscita indagações morais profundas. Cada um se sente feliz de um modo diverso.

    – O senhor diria que sou uma mulher feliz?

    – A senhora, inegavelmente, é possuidora de um sorriso aberto. Baseado apenas nos traços de seu rosto, franco e alegre, belo e jovem, eu diria que a senhora é feliz. Mas, como sou adorador da incerteza, nunca coloco as minhas fichas todas numa só hipótese. Pode ser que, no fundo do seu coração, a senhora carregue um pouco de amargura.

    – Está bem: denunciarei o senhor. Mas, antes de sair, me responda a uma última pergunta. Sobre a verdade, o que o senhor teria a dizer?

    – Nada. Não é um polissílabo.

    Lourenço Cazarré é escritor

    (*) Do livro Kzar Alexander, o louco de Pelotas

  • Um teatro que assiste ao espectáculo que nós somos

    Um teatro que assiste ao espectáculo que nós somos

    Pode acontecer irmos ao teatro para que os actores nos vejam.

    Ou também isso.

    Foi a sensação que tive assim que entrei na sala Mário Viegas – os actores já lá estavam, sentados nos seus sofás, à conversa. E olhavam para nós enquanto íamos entrando, trocando impressões entre si.

    Foi assim que, ao princípio, o palco éramos nós. Uma desmistificação directa e com provas evidentes, de que o teatro, antes de começar, exige rituais, silêncios e concentração. Em Da Boca Pra Fora isso não existe: podemos até ter a sensação estranha e boa de a representação fazer tanto parte da vida dos actores como comer ou dormir – naquele momento encontraram-se ali, para representar para um público, como parte do percurso possível nas 24 horas de um dia.

    Foto: Zuraida Guedes

    Gostei disso. Não se trata da banalização do teatro, mas da vulgarização da arte nas nossas vidas, o culto do sentimento através desta partilha entre público e actores. Nunca tinha entrado numa sala de teatro e encontrado os actores a olharem para nós. Foi um bom começo: perturbador, mas bom, porque a luz estava acesa e os actores podiam absorver facilmente a nossa imagem, … liam-nos os pensamentos?, éramos fonte de inspiração?

    Achamos sempre que os actores estiveram bem ou mal por sua inteira responsabilidade. Nunca pensamos que nós interferimos no momento, com a forma como nos apresentamos e estamos. É mais fácil assumirmos a nossa influência na experiência colectiva num concerto do que num espectáculo de teatro. Mas os actores, quando estão em cena, sentem imenso o seu público e a forma como ele trata as personagens que são dadas à luz.

    Foto: Pedro Rosário Nunes

    Ter-nos-á já passado pela cabeça que o mundo do espectáculo, tantas vezes comprometido pelos apoios económicos manifestamente insuficientes, também padece, de repente, de mal-estar existencial, à falta de um público que seja capaz de existir em comunhão?

    Da Boca Pra Fora é uma peça sobre relações humanas, usando o pretexto do mundo artístico.  

    O medo da inteligência artificial, pela forma como pode substituir tarefas habitualmente remuneradas e desempenhadas pelos seres humanos, mas também a ilusão perfeita, capaz de misturar-se com a realidade sem artifícios, ao ponto de nos tornarmos incapazes de distinguir o real do construído. E, à medida que a miscelânea dos dois mundos se apura como uma única dimensão, forte e coesa, pode até deixar de fazer sentido o apuramento da verdade, não tanto pela elevação da ficção, mas por nos tornarmos incapazes de reconhecer diferentes dimensões. Mas a inteligência artificial foi criada pelos humanos. Se um dia deixarmos de a suportar, talvez seja porque nela reconhecemos demasiado de nós próprios.

    Foto: Pedro Rosário Nunes

    Na peça, pegando-se na ficção que os homens ainda são capazes de assumir, há a representação do sexo virtual. A forma como o assunto é abordado, sendo vissíveis as expressões dos actores durante a gravação das vozes, provoca uma gargalhada geral. O sexo virtual, com o extraordinário desenvolvimento da tecnologia ao serviço do prazer e do anonimato, parece ser uma “solução” ao serviço do homem moderno, protegendo-o das perdas de tempo e de perigos diversos. E esta parece ser a forma possível de a líbido se passear livremente, formosa e segura, por caminhos fantásticos e reservados.

    A peça aborda também a amizade, apresentando-a com vestes de sinceridade e fidelidade, mas nem sempre se senta à mesa com a virtude. Se o segredo servir interesses económicos, a amizade pode esperar. Bem como os ideais – a defesa de valores é muitas vezes incompatível com a parte prática da vida. A peça empurra-nos para interrogações duras: valerá a pena o sacrifício de uma côdea por um ideal? Quanto vale uma convicção, se a vida estiver à beira de descambar materialmente?

    Foto: Pedro Rosário Nunes

    Quando Da Boca Pra Fora aborda o processo de criação, vemos reflectidas as nossas suspeitas. Nem sempre a criação tem lugar cativo, mas devia ser inquestionável, a preservação desse espaço, como espaço próprio do actor. Mas o processo criativo é construído ao sabor dos pareceres nem sempre especializados de quem detém o poder. E quem obedece, mais do que competência, terá de abastecer-se de paciência para encaixar tanta ordem, tanta opinião, tanta liderança tantas vezes patética.

    Há uma certa nostalgia que atravessa Da Boca Pra Fora, com a execução ao vivo de músicas interpretadas por grandes nomes da música portuguesa. É o teatro a dar as mãos aos nossos cantores, teimando para que não os esqueçamos, Cada música pode ser um pretexto para falarmos da nossa vida, sobretudo do nosso passado. Não nos custa nada ilustrarmos o que somos com sons de vinil mas, quando o dia é subitamente duro e cruel, podemos não encontrar música que nos descreva.

    Foto: Pedro Rosário Nunes

    Desta vez vale a pena ir ao teatro. Para pensarmos sobre nós connosco. E para olharmos, com mais ou menos cegueira, para o patamar onde nos avistamos com os outros.

    Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐

    FICHA TÉCNICA

    Da Boca Pra Fora

    Elenco: André Leitão, Diogo Martins, João Cabral, Mata Gil, Rui Rebelo, Sara Barradas
    Texto: Jonathan Lewis e Miranda Foster

    Encenação: Flávio Gil

    Tradução / Assistência de Encenação:  João Soares dos Reis

    Adaptação: Flávio Gil e João Soares dos Reis

    Cenografia: Flávio Gil

    Desenho de Luz: Paulo Santos

    Fotografias / Design Gráfico: André Piçarra

    Figurinos: Dino Alves

    Produção Executiva: André Camilo

    Apoios: Love is in The Hair

    Agradecimentos:   Marco Mercier, Teatro da Trindade INATEL e Apoiante – Casa do Artista

    Coprodução: Camarote Produções e São Luiz Teatro Municipal

    Datas: de 3 a 14 de Junho, de quarta a Sábado – 19h30m; Domingo – 16h
    Local: Teatro São Luiz (Lisboa) / Sala Mário Viegas

  • A menina de cristal

    A menina de cristal

    Guardaria como primeira memória o cheiro da maresia. E, como primeira sensação, a da água fresca da ria a tocar-lhe os pés. Nascera na ilha e ali crescera, com o sal a tatuar-lhe a pele e o vento do mar a entranhar-se-lhe na alma.

    Na escola, viria a descobrir o amor pelas letras. Lia tudo o que a professora lhe punha diante dos olhos. A pequena estante a que chamava biblioteca era um tesouro. Mas estudar era privilégio de rapazes e, concluída a quarta classe, foi posta a aprender costura.

    Resignada, cosia e bordava sem grande jeito, e com menos vontade ainda. Pontos, pespontos, caseados, alinhavos, franzidos e pregas. O enxoval foi-se formando, e ela fez-se mulher curvada naquela cadeira, entre linhas, panos e tédio. Quando se apercebeu disso, o pai apressou-se a casá-la.

    Casou-a bem, diziam. Com o dono de uns viveiros. Um homem feito, trabalhador, honesto, capaz de lhe dar uma vida segura.

    A união celebrou-se com três dias de festa de arromba, em pleno mês de agosto. A ilha apareceu em peso. Vieram convidados da vila, parentes afastados de Lisboa e até os padrinhos, há muito emigrados, vieram da França. Houve mesas fartas, música e bailarico pela noite fora, cantou-se à desgarrada, e o cheiro a mar misturava-se com o das ostras e do vinho derramado nas toalhas.

    Não tardou a nascer a primeira filha. As vizinhas diziam que não a tinha dado à luz, que a tinha dado ao mar. A criança parecia feita de água e claridade: pele translúcida, olhos azuis, cabelos leves, ondulados como as marés. Passava os dias na praia, entre as conchas e a espuma. E nem assim o sol lhe dourava a pele.

    Na ilha, começaram a chamar-lhe a menina de cristal.

    Já dentro de quatro paredes, o brilho desvanecia. O pai era um homem duro, um homem de negócios. Nunca deixou que faltasse nada em casa, à exceção de afeto. Mas pior do que ser distante e frio, era ser um bruto nas palavras e nos gestos.

    A mãe, como a filha, era uma alma clara e delicada, mas triste. Foi ela quem insistiu para que a menina estudasse. Se fizesse o Magistério, podia ser professora na escola da ilha.

    O pai acabou por ceder.

    A mãe, apesar da felicidade que sentia pela filha, começou a desaparecer devagarinho. Sem ela por perto, foi-se tornando mais transparente a cada dia que passava. Um dia, fez-se invisível.

    Órfã de luz, órfã de amor, órfã de um lar, a menina de cristal prosseguiu estudos. Foi para longe. Tão longe quanto possível daquela ausência.

    Por muito que amasse a ilha, por muito que pertencesse àquele mar, sabia que não tinha escolha. Só a distância a salvaria.

    Estudou, trabalhou, encontrando sempre pretextos para não voltar. Até que a velhice do pai impôs o regresso. Instalou-se na vila, nas ruas que conhecia tão bem, entre rostos familiares e memórias que evitara.

    Para eles, era a menina de cristal de sempre: bela, delicada, brilhante. Iluminava tudo e todos à sua volta.

    E, no entanto, sem que ninguém percebesse, foi ficando transparente. Já quase não se via.

    Percebeu ela, e fez-se invisível.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

  • Segredos

    Segredos

    Bruno Rama é ilustrador editorial (©Direitos reservados)

    Texto de Pedro Almeida Vieira (©Direitos reservados)