O humor negro ocupou, durante muito tempo, um lugar de tensão dentro da cultura ocidental, não como género estabilizado nem como estilo identificável à primeira vista.
Foi e é uma prática de fricção contínua, uma espécie de atrito entre linguagem e realidade, no qual aquilo que se diz começa a falhar precisamente no momento em que tenta dar conta da morte, da violência ou do absurdo, e é nesse falhanço — não antes, não depois — que o humor acontece.
Funciona ao nível do precipício do inconsciente.
Em Jonathan Swift (um dos seus expoentes máximos), essa operação é quase cirúrgica: a linguagem avança até ao ponto em que a sua própria lógica se torna obscena.
Mais tarde, os Monty Python deslocam essa violência para o campo do absurdo performativo, em que a morte canta, dança e repete-se até passar a ser mecanismo; enquanto Woody Allen a traz para dentro, transformando-a numa espécie de ruído constante, uma ansiedade organizada, quase administrativa, em que morrer já não é um choque.

O que estas formas partilham não é apenas o tema, mas a insistência em empurrar a linguagem até ao ponto em que ela deixa de proteger quem a usa.
Durante décadas, o humor negro revelou. Não explicou nem resolveu, não moralizou nem se dogmatizou.
Hoje, como sempre, tem na crise o seu lugar cativo. Há quem queira que rir seja por decreto.
O humor negro foi absorvido, reciclado e devolvido como estilo, integrado nos circuitos mediáticos e digitais em que a transgressão é simultaneamente exigida e controlada, enquanto uma vigilância moral difusa, esse ecossistema meio histérico a que se chama cancelamento, redefine continuamente os limites do aceitável, transformando o risco numa performance calculada.
O humor negro tornou-se reconhecível. E quando uma coisa se torna reconhecível, está meio morta. Neste cenário, aquilo que antes operava como ruptura passou a funcionar como convenção.
E é precisamente a partir desse esgotamento que interessa olhar para certas práticas actuais. Em Portugal, fala-se de Rui Sinel de Cordes, o maior representante desse género de humor, com uma insistência curiosa que raramente coincide com aquilo que efectivamente está em causa. Entre entrevistas, peças de imprensa e reacções mais ou menos indignadas, construiu-se à sua volta um discurso contínuo, mas oco, no qual o humor aparece reduzido a conteúdo — aquilo que se diz — e não a operação — aquilo que acontece quando se diz.

A conversa tende a fixar-se nos limites do aceitável, na gestão do escândalo, na previsibilidade da reacção.
É copy paste e pouco mais.
Discute-se se pode ou não pode, se se deve ou não deve, como se o problema estivesse na autorização e não na linguagem.
E nesse deslocamento, o essencial escapa quase sempre.
Mesmo quando o tom abranda e se aproxima de uma espécie de reconhecimento, esse reconhecimento surge desarmado, intuitivo, incapaz de se transformar em leitura.
Como se houvesse a percepção de que algo ali não encaixa, mas sem ferramentas para o pensar. Um desconforto difuso que se resolve depressa demais em opinião.
O resultado, andando pela net, é um arquivo vasto, mas estranhamente oco. Fala-se muito, mas quase sempre ao lado. Como se a linguagem, ali, voltasse a cumprir a sua função mais antiga: proteger quem fala daquilo que não consegue atravessar.
Mas tudo muda quando se assiste ao vivo ao seu último espectáculo (Portugal, Amor Não Correspondido), que fala de morte.
Mas morte à séria.
O humor negro é para meninos de coro. Lá vão os tempos em que o humor, por ser negro, nos falava da vida obscura da linguagem. Não os tempos da literatura, mas os da cultura massificada.

O humor negro, feito por quem o conhece e o estuda, revela muito mais sobre quem não o reconhece. Rui Sinel de Cordes, neste seu último espectáculo (não vi os outros), vira o feitiço contra o próprio feiticeiro e é tal o efeito de ricochete que o vemos, paulatinamente, a ser um espectador atento do espectáculo de estar vivo (ou morto) em Portugal.
Estamos, sem dúvida, assim para lá da linha comum que separa estar vivo de estar morto. E isso é metafísica.
Sim. No seu último “coiso”, o cómico arrisca-se a aparecer num manual de filosofia, mas escrito por ninguém.
E talvez seja esse ninguém que finalmente fala. Não o artista da linguagem do humor, não o provocador profissional, mas essa entidade intermédia que já não precisa de explicar-se para existir dentro de um palco que pode ser a vida.
Há ali qualquer coisa que nem falha, nem deixa de falhar. Que já é mais que isso. Que levita na sua própria linguagem, quando o espectador se deixa transportar com e sem inocência.
Que se ri de ser cómico, que faz poética com o tempo que se foi, mas que sabe, de certa maneira, que irá voltar, nem que seja através de si, naquele espaço em que à minha volta toda a gente se ria (também do tempo).
Um riso cúmplice, como se fosse efectivamente a banda sonora do momento. Um riso inteligente, de quem lida com as mortes nas suas diferentes versões e dimensões.

Rui Sinel de Cordes deixa de operar no conforto do escândalo e começa a tropeçar numa espécie de vazio produtivo, em que rir não é o bónus dos 24€ que as pessoas pagam para assistir.
Rir é já a essência.
Uma sessão com menos tempo de psicanálise custa, no mínimo, o dobro.
Rir continua a acontecer, mas já não serve para aliviar, nem para atacar. Fica ali, como um eco ligeiramente deslocado do corpo. Ainda que seja tudo muito cómico à maneira antiga, a clássica.
O ritmo do homem-só-em-palco chega a parecer o dos melhores filmes dos irmãos Marx. Fá-lo de uma forma estruturada que deixa tempo para pensar e não pensar, para esquecer e lembrar, para, muitas vezes, sorrir à gargalhada.
No momento em que prescinde da palavra para mimetizar situações do quotidiano, envolve o espectador numa zona de suspensão, justamente porque, entre palavras, há apenas corpo e sub-texto que chega a parecer não-texto. O absurdo funciona ao contrário. Porque o absurdo é precisamente a vida e não o acto de comentá-la.
A sua energia, ritmo e pulsão estão ao nível do que melhor se faz, incluindo Ricky.

Gervais. Ambos projectam para além da linguagem do humor.
Estão para lá da política do humor, mesmo quando parece o contrário.
Alguém disse que rir era uma coisa muito séria. Talvez chorar seja uma coisa muito cómica.
Aquilo que está em causa já não é o limite do aceitável, mas o limite do reconhecível.
O que é que ainda reconhecemos quando alguém insiste em ir mais longe do que a própria linguagem aguenta?
Não se sabe. Intui-se, não é racional. Senão seríamos todos desumanos insuflados pelo ódio aos cegos, aos gordos, aos paraplégicos, ao handicap, decretado pela estupidez de quem não sabe rir de si, do seu país, dos outros. De quem tenta racionalizar politicamente o inconsciente colectivo.
Portugal é, definitivamente, um país sofisticado porque tem um anti-herói que está para além do epíteto.
Os que gostam do cancelamento abusivo por nada, estão a ficar sem poder para cancelar. Esse desporto está a perder os seus ginásios. Os músculos, afinal, vinham carregados do ouro que pareciam demonizar.
A caravana passa, mas o Sinel ficou.
Ficou como presença que já não precisa de ser central para continuar a contaminar o espaço. Há ali uma espécie de persistência que não é resistência, nem sequer sobrevivência. É outra coisa mais banal, mais conceptual e mais estranha ao mesmo tempo.

É estar vivo acima de tudo. É entrar pelo cemitério adentro com as pistolas carregadas. É tirar a vida aos mortos. Para voltar a dar. Como num bom jogo de poker. É não esquecer a memória de que somos feitos e ser cúmplice de uma língua que, por ser o Sinel a usar, está mais viva do que parece.
É malcriada e foda-se, bem educada. É a língua portuguesa bem fodida. Mas bem rica quando quer. É uma língua filha-de-puta que joga à bola.
É a língua do Alberto Pimenta.
O humorista Sinel de Cordes começa a aproximar-se desse estado intermédio onde a relevância já não depende da novidade nem da transgressão. Já não há escândalo suficiente para o sustentar, mas também não há esquecimento suficiente para o apagar. Está no manual de instruções para crimes banais.
E isso cria uma posição incómoda para a Joana Marques e companhia, que apenas estão em manuais para a própria banalidade.
Ela e outros ajustaram-se a um território onde o humor funciona como extensão higienizada do comentário social. Tudo reconhecível, tudo validado à partida, tudo leve o suficiente para não deixar marcas. Há método, talvez ritmo, e eficácia sem dúvida. Funciona. É, no entanto, o riso choninhas FM da Renascença.
Soa a Igreja.

Trabalha sobre o óbvio com a perícia de quem sabe exactamente até onde pode ir sem perder o aplauso. E esse cálculo sente-se. Parece crítico, raramente se compromete. E dá dinheiro.
O protagonista deste texto é precisamente o contrário.
Na sua dimensão interna sensível, somos levados a olhar para alguém que continua ali sem cumprir exactamente nenhuma função clara. Nem disruptivo, nem integrado. Nem dentro, nem fora.
Até arrisco falar de todas as pessoas que estavam a assistir, a medir silenciosamente o seu próprio limite de tolerância, de reconhecimento, de cansaço. Ir ver o Sinel não me parece que seja só por divertimento.
Quem vai, já foi.
Desde que se entra até que se sai, soa a festa. Há uma descontracção evidente, há luz, há música. Depois sai-se e há descontracção, há luz e há música com mais alguma voltagem.
As pessoas parece que saíram de lá todas amigas umas das outras.
Pedi um cigarro à porta e toda a gente ao redor me queria dar. A única coisa que não estava permitida era contar anedotas, nem que fosse para descontrair. Sentíamos que tínhamos acabado de ler um bom livro. Mas um livro disfarçado de Reader’s Digest.
E tudo foi uma suspensão. Como se o próprio tempo tivesse ficado ali.
Mesmo com o “Inferno” anunciado a pairar como um fantasma.
Como se já não houvesse luz ao fundo do túnel mas soubéssemos onde está o lugar do interruptor.
Ir ver o Sinel é acionar esse dispositivo.
Texto e ilustrações de Ruy Otero (artista media).

































