Aos 50 anos, Joaquim Braga estocava no guarda-roupa 20 ternos, oito deles italianos, comprados todos nos últimos cinco anos, período em que se mantivera, sem esforço, nos 80 quilos. Usava camisas italianas de linho, gravatas francesas de seda e sóbrios sapatos britânicos.
Diretor do escritório em Brasília de uma grande agência de publicidade, Braga recebia um polpudo salário mais o aluguel de uma casa de quinhentos metros no Lago Sul. Gastava muito com seguros, impostos e combustíveis dos cinco carros da família. Todos do ano. Nas férias, sempre em julho, botava a mulher embaixo do sovaco e se mandava para a Europa ou para os Estados Unidos. Nos demais gastos, era comedido. Aliás, o dinheiro não estava no centro das suas cogitações. Filho de família modesta, tinha clara noção do elevado padrão de vida que levava. Não almejava muito mais, mas não gostaria de voltar a viver em um apartamento.
Quando ia a mansões de clientes da agência, parecia-lhe por instantes que o casarão em que morava era apenas confortável. Penalizava-se com a miséria que o cercava nos semáforos, nos estacionamentos e nas calçadas, mas como não tinha a fórmula mágica para acabar com tantos mendigos suplicantes dava de ombros. Nunca se interessara por política. Jamais se questionou se haveria a possibilidade, mesmo remota, de um mundo onde todos, quase todos ou a maioria, pudessem viver com dignidade.
Joaquim Braga, ressalto, era um cidadão muito tranquilo.
Não era religioso, mas me apresso em dizer que não era nem ateu nem agnóstico. Parecia-lhe uma operação excessivamente complicada pensar sobre a existência ou não de um Deus. Reconhecia que há nos homens uma tendência à espiritualidade, que se exacerba nos momentos de solidão e desespero. Mas jamais se sentira desesperado ou solitário. Às vezes, antes de dormir, nas noites em que exagerava no uísque, o que só ocorria raramente, tentava reencontrar as frases do Pai Nosso, que recitava quando menino.
Homem de ação, Braga adorava viajar. Vibrava já ao preparar as malas. Antegozava na ida de táxi ao aeroporto o prazer da decolagem. Sentia que seu coração se acelerava ao pisar a escada do avião. Amava hotéis, sentia-se em casa neles. Gostava de observar a variada fauna que se reunia nos amplos saguões. Respirava deliciado aquele ar de enganação e falsidade que ronda tudo que é cosmopolita. Fazia longos passeios pelas cidades que não conhecia para ver rostos exóticos e ouvir sotaques estranhos.
Durante anos fora um repórter talentoso, embora sem a arrogância, a inconseqüência e o cabotinismo que levam um jornalista a se destacar entre os de sua geração. Em dois jornais e em uma revista construiu em 20 anos o que se poderia chamar de uma sólida carreira. Com um pouco mais de quarenta anos, quando chefiava a redação de um grande jornal, Joaquim Braga percebeu que havia chegado o momento de trocar de ramo.
Certo dia, observando rapazes e moças recém saídos da universidade engalfinhados com os terminais de computador, entendeu que aquela era uma profissão que exigia acima de tudo juventude. Ou ingenuidade. Parecia-lhe indecoroso o fato de passear seus cabelos já grisalhos e sua fleugma por entre a eletricidade de tantos corações acelerados que queriam salvar a humanidade, derrubar o governo e reformar a sociedade.
Joaquim Braga, que passara sua vida trabalhando sempre até muito tarde, sonhava em desfrutar os mais inocentes prazeres da noite. Desejava, acima de tudo, entronizar-se numa poltrona para, rodeado por mulher e filhos, cervejinha no copo, bacia de pipoca no colo, assistir a um bom jogo de futebol pela televisão. Gostaria também de poder caminhar de mãos dadas com Glória, sem pressa, num shopping center.
Um dia, imaginando que finalmente poderia realizar essas modestas aspirações, aceitou, não sem antes vacilar muito, o convite para dirigir o escritório brasiliense de uma grande agência de publicidade.
Num coquetel, Braga conheceu o dono da agência, protagonista da mais meteórica entre as meteóricas carreiras publicitárias. O Chefão, como gostava de ser chamado, começara a trabalhar no ramo aos 14 anos, como contínuo da filial de uma empresa americana. Em 10 anos, chegou ao topo: foi indicado diretor-presidente, o primeiro nascido no Brasil. Pouco depois abriu sua própria agência que logo se colocou entre as primeiras do ranking.
Para engrandecer-se, o Chefão dizia que sofrera dois infartos: o primeiro aos 23 e o segundo aos 28 anos. Seus muitos inimigos diziam que ele tivera apenas taquicardias alcoólicas.
O Chefão vestia ternos das cores mais incríveis, camisas berrantes e gravatas carnavalescas. Calçava os tênis mais caros, sem meias, e fumava charutos cubanos de cinquenta dólares.
– Você gosta de jogo, de mulheres ou apenas de dinheiro? – perguntou o Chefão.
– Algum pecado a gente sempre acaba cometendo – desconversou Braga, sorrindo.
O dono da agência gargalhou por trás da baforada, voltou-se para o seu diretor financeiro e disse:
– Compre este homem para nós. Gostei do formato dele.
Aproveitando o ensejo, Braga pediu o dobro do salário que pretendia inicialmente.
Jornalista experimentado, ele sabia o valor de palavras bem colocadas. Uma abertura bem escrita salva uma reportagem ruim, costumava dizer.
Braga divertia-se com frases maliciosas e dúbias. Como a que dera em resposta ao dono da agência, a frase que assegurara sua contratação. Uma frase mentirosa, claro.
Joaquim Braga odiava qualquer tipo de jogo. Achava, por exemplo, que a inteligência humana jamais conseguirá inventar algo mais cacete do que uma partida de pôquer.
Casado há mais duas décadas, era homem de uma só mulher. Certa vez, quando se encontrava ligeiramente embriagado, confidenciou a um amigo, com indisfarçável orgulho:
– Jamais mijei fora do penico.
No dia seguinte, arrependeu-se da metáfora grosseira.
O único dos três pecados citados pelo Chefão que o atingia, mesmo que de raspão, era o do dinheiro. Braga não era ganancioso, mas gostava de viver com certa folga.
– Não me divirto escolhendo o sabonete mais barato – costumava dizer ele à esposa, quando discutiam o orçamento doméstico.
Meses depois de ter sido contratado, Braga veio a descobrir o sentido daquela frase do Chefão: “Gostei do formato dele”.
Foi num restaurante, à noite. Depois de esvaziar uma garrafa de uísque, em comemoração ao fechamento de um polpudo contrato com um Ministério, o Chefão disse:
– Foi amor à primeira vista, Braga. Eu me apaixonei pelo seu formato. Quadrado. Nunca vi um sujeito com tanto jeito de bundão. Esta sua fachada de homem sério e digno vale muito. Mesmo o bandido mais safado acaba se dando mal com você. Eu, por exemplo. Você exigiu um salário acima da média, e eu topei. Por quê? Porque qualquer um se entrega quando você abre este seu sorriso de Gioconda. Você vale ouro, Braga. Você é a face honesta da nossa agência.
O Chefão era aloprado. Certa vez, entrou apressado na sala de Braga pediu um espelho de bolso e uma esferográfica comum. Atendido, abriu um pacotinho minúsculo e despejou o pó branco que havia nele sobre o espelho. Com mãos trêmulas, retirou a carga da caneta. Por fim, debruçando-se sobre a mesa, aspirou o pó.
A tudo isso, Braga assistiu calado, inquieto, pálido, chocado, mas principalmente pesaroso. Não sabia que seu patrão era viciado em cocaína.
Nos dias seguintes, sua grande preocupação passou a ser livrar o Chefão do vício. Pelo telefone, discretamente, falou do episódio com os diretores da empresa em São Paulo.
Os sujeitos desligavam o aparelho e rolavam pelos tapetes, rindo. O pó aspirado nas barbas de Braga não passava de polvilho. Fora apenas uma brincadeirinha do Chefão com o bem-comportado diretor de Brasília.
– Eu gosto dele demais da conta – dizia o Chefão. – É o último idiota gentil neste universo de merda. Garanto que, se um dia um cliente mijar na cabeça dele, o Braga seca o pinto do indivíduo com o seu lenço.
A história de falsa cocaína correu entre os publicitários do país. Quando o Chefão, ligou para Braga a fim de pedir desculpas, ouviu apenas:
– Fico feliz que tudo não tenha passado de uma brincadeira. Eu estava realmente preocupado. Mas preciso reconhecer que foi uma pegadinha muito bem bolada.
Em São Paulo, o Chefão baixou o telefone e foi visto com lágrimas nos olhos pela secretária.
Meses depois, em outro telefonema, Braga notou que a voz do chefe estava mais pastosa que o corriqueiro:
– Estou mandando uma garota para você. Ela tem 23 anos e é a menina mais linda e inteligente que eu já conheci. Apaixonou-se por mim, mas eu sou um deus e deuses não podem se unir a humanas, mesmo que belíssimas. Há mulheres em demasia no mundo, Braga, e eu não poderei conhecê-las, biblicamente, a todas elas. Por isso, dou umas poucas oportunidades para cada uma. A garota que estou mandando a você é excepcional. Trabalha há seis meses na agência. Namorei com ela durante duas semanas inteiras. Isso é o máximo que concedo a uma mulher. Como ela viu a face de deus, eu temo que, agora, desprezada, tente o suicídio. Por isso, vou passá-la para você. Ela será sua funcionária, aí em Brasília. Deixe que faça o que bem quiser. O importante é que fique por aí, que não venha me aporrinhar aqui. Se você não fosse tão bundinha, Braga, eu lhe pediria que tivesse um caso com ela… Bem, basta que você arranje um garotão para ela. Salve-me dela, Braga! Se você falhar, terei de contratar um pistoleiro em Pernambuco.
Braga recebeu a moça no aeroporto, fez questão de carregar-lhe a mala. De início, sentiu-se um pouco constrangido em caminhar ao lado de uma jovem tão bonita, mas, aos poucos, percebendo os olhares invejosos dos homens, animou-se.
A garota fechou-se no hotel e só saiu de lá quatro dias depois para ir à agência. Chegou pelo meio da manhã, de mau humor, fazendo escarcéu. Interrompeu uma reunião de Braga com um cliente importante e, em voz alta, soltou palavrões cabeludos. Para completar, sentou-se de pernas abertas, mesmo vestindo uma saia curta.
Nos dias seguintes, repetiram-se cenas constrangedoras.
A garota tinha os olhos permanentemente raiados de vermelho, os lábios secos e bocejava escandalosamente. O que mais fazia era ficar horas no telefone xingando os funcionários da agência em São Paulo.
Braga percebeu que por trás das máscaras que ela usava, rebeldia, agressividade, grosseria, havia uma jovenzinha como qualquer uma outra. Uma tolinha, como sua própria filha de 20 anos. Por isso, resolveu ajudá-la a esquecer o Chefão. Matava dois coelhos de uma só paulada: livrava seu patrão de uma amante indesejada e restituía alegria àquele rosto de capa de revista.
Num fim de tarde, numa sexta-feira, Braga entregou à garota uma dose generosa de uísque. Estavam apenas os dois na agência. Olhando a noite que descia sobre os edifícios, ele disse:
– Você é muito jovem e muito bonita, Mônica. Mas não falo da sua beleza física, que é inquestionável. Falo de uma outra beleza, interior. Você é uma garota deslumbrante. Inteligente e sedutora. Um tantinho agressiva, claro. Mas isso faz parte do seu exotismo.
A garota soltou o copo sobre a mesa, sem ter tomado um só gole:
– Eu sei que o Chefão é um canalha, Braga. Sei que ele encarregou você do serviço sujo. Mas o que eu não poderia imaginar é que você, uma pessoa decente, se prestasse para repetir diante de mim as ridículas frases melosas que ele escreveu.
– Pelo amor de Deus! Isso, nunca!
Enfaticamente, Braga negou. Disse que estava apenas falando o que realmente sentia. Jurou que as frases eram dele mesmo. Eram palavras de amigo, consolo de pai. Queria mesmo vê-la feliz.
Mas ela continuou no ataque:
– Agora entendo a sua delicadeza, Braga. Pura obrigação funcional. Eu ficava realmente feliz quando você abria a porta para mim e puxava a cadeira nas reuniões. Eu achava que você era o último romântico. Um cavalheiro. Mas dei com os burros n´água. Você é como todos os outros, feito do mesmo barro sujo.
E saiu batendo a porta.
Uma semana depois Braga a convidou para jantar.
– Aceito. Desde que eu possa escolher o restaurante. Não aguento mais frequentar os antros de negociatas desta cidade vagabunda que é meca mundial da roubalheira.
Foram a um discreto restaurante do final da Asa Norte.
– Pouca luz e música suave – disse Braga, quando entravam.
Na penumbra do restaurante, ele divisou quatro ou cinco jovens casais abraçados.
– Que pensa você disso tudo? – perguntou ela, depois que se sentaram.
– Tudo o quê?
– Dessa bosta toda, a vida.
– A vida? Como assim? Você podia ser mais explícita?
– O que você pensa da sua vida, Braga? O que você fez da porca da sua vida até hoje? Está satisfeito com o resultado, o mundinho sem graça no qual vive mergulhado até o pescoço? No trabalho, você é obrigado a conviver com a nata da vigarice e em casa vive cercado pela sua mulher gorda e pelos seus filhos babacas.
Braga respirou fundo antes de responder, com voz sumida:
– Não sei exatamente onde você quer chegar, Mônica, mas eu diria que fiz alguma coisa. Construí uma família, e isso não é pouco.
– Isso toda gente faz, Braga. Você é apenas mais um animal no meio do rebanho. Um bicho maior, mais valioso, mas castrado.
Jantaram em silêncio.
Braga estava muito contrariado com aquelas expressões: mundinho sem graça, animal no meio do rebanho. Mônica era, sem dúvida, mal agradecida. Fizera todo o possível para que se sentisse bem em Brasília, mas ela era quase intratável.
Entre uma garfada e outra, Braga lançava olhares enviesados para Mônica, que comia com os olhos fixos no prato. Sim, ela era bela, belíssima, ainda mais deslumbrante na meia-luz do restaurante.
No carro, calado, Braga ainda remoía as frases raivosas dela. Não, não, palavras duras não o fariam mudar. Continuaria o mesmo Braga de sempre, cordial e generoso.
Na despedida, quando Braga beijou a mão de Mônica, ela o convidou para subir até o bar do hotel.
– Obrigado pelo convite, mas não posso aceitar. Está muito tarde e eu preciso ir para casa.
Mônica permaneceu de pé diante da portaria do hotel, vendo-o afastar-se. Lágrimas discretas brilharam nos negros olhos dela.
Como quase todos os homens, Braga era um cara desatento para as coisas do amor. Era tão desligado que nem percebeu que, depois daquela noite, o rosto virginal de Mônica ganhou a corrupção da maquiagem. Não notou que ela trocou suas desbotadas calças de jeans por saias bem-comportadas. Não viu que ela abandonou os tênis desbeiçados em favor de delicados sapatos de salto. Em suma, não percebeu nem mesmo que o cabelo dela recebeu o brilho de uns falsos fios brancos.
Joaquim Braga não percebeu esses e outros incontáveis sinais até aquele outro entardecer de sexta-feira, quando Mônica surgiu de surpresa na sala dele, vestindo um lindo vestido de seda, muito decotado, e disse:
– Sirva-me um uísque, Braga. É só o aperitivo. Hoje eu vou comer você.
Lourenço Cazarré é escritor
Todas as gerações (O conto brasiliense contemporâneo), LGE Editora, 2006.
Nestas crónicas quero dizer tudo e porque as determinações do Mundo, sós, não bastam, apela-se ao êxtase da supra-sensível fantasia. mirabilia, portanto, na sua codificação de teratologias, de voos outros, além da evidência da matéria. Pois as fantasmáticas figuras, todo o precipitado de tanta literatura e cultura, são elas próprias metáfora da urdidura do todo, na sua quotidiana faina que, aliás, se não ousa, por inteiro, desfiar.
E convém relembrar, em primeiro lugar, que o mais insondável elenco, mirífico e incrível é esse conjunto de vinte e poucos sons e símbolos os quais, mais diversos que a forma de Proteu, compõem a enunciação de toda a criatura, viva e respirante ou, tão-só, pensada em ideal.
2.
Imagino, no entanto, um texto infinito — a crónica inesgotável. Que conte toda a circunvolução do orbe, onde o ínfimo pormenor e a grande pincelada de azul, que predomina. Todas as conversas de imemorial resíduo, os sonhos e dissabores de quanta humana criatura penou sob o Sol. E as infinitas, cambiantes, fulgurações, as imagens em completa série dos pluriformes espelhos que, virtualmente, multiplicam a face da realidade.
Suprimido, assim, o silêncio, poder-se-ia extinguir o planeta que esse arrazoado, autopulsado, moto perpétuo de coisa nenhuma faria, com vantagem, a tão necessária companhia aos anjos. Único sustentáculo, se bem que cifrado, na tessitura da vida, deste ingrato mundaréu. Teriam esses albialados, afinal, o seu Deus. Pois, se eles respiram palavra pura que anelo melhor que um perpétuo texto para sua consolação?
Julgais que deliro? Decerto, julgais. Mas, não vos ocorreu já, que não existindo essa absurda ideia de uma todo-sapiente divindade, outras entidades, por força, teriam de ser, para que o drama prosseguisse, sobrevivesse ao cansaço que a todos tolhe com a força do pó? Guardiões, no seu eterno autismo, da palavra, que não mesmo da luz.
Mas, doutra banda, toda a imagem é divina porque toda a alegria é passageira e, assim, há que transfixar o momento da perene contemplação.
Ora, isso é mor de deuses e esses, que nem chegam a ser, estão em tudo: no mais breve sonido, na víscera das coisas que são e, do mesmo modo, na fantástica imaginária, da cornucópia celeste e terrena que, pura e perfeita se abstém da consabida corrupção.
3.
Por isso o texto inaugural destas crónicas só poderá ser a crónica das crónicas do porvir.
Defina-se, a paleta de cores irreais para que nada fique, virtualmente, de fora excepto o por dentro das coisas, já que se tenta a duvidosa edificação de uma ciência vaga, talvez nula, mas no que haja no flutuar na orla do sentido.
E, é por mor de leveza, para distração do leitor, que se procura o lar de um fantástico breve, esse o que é próprio do que de luminoso houver na vária cultura: um lugar, um tempo, um modo e um género de dizer, mas que cative, pois se verta a escrita em enamoramento pela forma, pelo ritmo ou pelo tom de um texto que, em toada própria, desdobre o mote em estrofes ou, de um refrão, as variações de cançoneta. E, ainda, o que não é pouco, se verta um quantum de alegria no texto, e alegria na leitura, porque é nesse labor que se encontra a fugaz-elusiva ventura de nos cumprirmos em escrita e se tal alor contagiar o leitor, então ter-se-á por meritório o esforço.
Introduzir, por fim, a variedade de tema e motivo, saltando mesmo de assunto em assunto com a liberdade própria de outro tempo, o da nostalgia de uma era heróica, ainda que não acontecida.
4.
Assim, os autores obsidiantes, aqueles livros obscuros mas fecundos, que carecem de ser relembrados ou trazidos à luz, as anedotas filosóficas que, à margem das filosofias estabelecidas, são signo e repositório de alguma verdade, até a ficção, ainda que em tom de alguma ruminação. Mas também a música e o cinema ou toda e qualquer expressão de uma angústia, uma esperança. Enfim, de quanta marginália nos lembremos ao fluir da pena: as realidades um pouco esquecidas ou todas novas e actuais, mas que mereçam um tanto de reflexão. Sim, o devir do tempo que pode ser circular ou contínuo, o fragmento que, sendo a forma que hoje se impõe, permite infinita arrumação, umas vezes sequencial, outras, remissiva.
Ter o fantástico — não só na literatura ou o que assim é denominado — presente em texto ou em acto-de-escrita; o bizarro, ínsito no dia-a-dia, assim como naquele instante irreal, único e irrepetível, em que se dá a inversão, a distorção das regras comuns ao ser-do-mundo, mas como signo-sinal do que reste conforme e assim estas breves crónicas poderão — quem sabe? — em quas’alquímico precipitado, conter um Cosmo.
5.
Como vos disse, nestas crónicas quisera dizer tudo, mas como tal é impossível, propõe-se, então, explorar o conceito de mirabilia, que significa «milagre» ou, mais especificamente, o que de maravilhoso, bizarro, obscuro, exótico e esotérico nos foi legado na tradição cultural do Ocidente.
João Pereira de Matos é escritor e investigador no CHAM – Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa.