Durante anos, a promiscuidade era um altar, o laxismo foi regra, a fiscalização escassa e a renovação de títulos profissionais na imprensa parecia, para algumas referências do jornalismo português, um detalhe burocrático dispensável. Esse tempo poderá estar a chegar ao fim. A Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ) está a intensificar a actuação contra o exercício da profissão sem habilitação legal, atingindo já nomes mediáticos e órgãos de comunicação social de referência.
Depois de Maria João Avillez ter sido condenada ao pagamento de uma coima de 1.000 euros por ter feito uma entrevista na SIC ao primeiro-ministro Luís Montenegro — decisão entretanto objecto de tentativa de impugnação judicial —, o foco recai agora sobre Ana Sá Lopes, histórica jornalista do Público, cujo processo individual ainda não está formalmente concluído, mas cujo desfecho parece, à luz dos factos já conhecidos, altamente previsível.

Isto porque, conforme confirmou o PÁGINA UM junto da própria CCPJ, o processo relativo à jornalista ainda corre termos, mas o processo paralelo contra a empresa onde exerce funções há mais de duas décadas já foi decidido: o Público – Comunicação Social, empresa do grupo Sonae, foi condenado numa coima de 2.500 euros, precisamente por manter Ana Sá Lopes ao seu serviço, como jornalista profissional, sem que estivesse devidamente habilitada. E a empresa até já pagou, o que significa que o próprio Público assumiu que a sua antiga directora-adjunta, e agora redactora-principal, estava em situação ilegal.
A base legal é inequívoca, mesmo se entretanto Ana Sá Lopes regularizou a situação. O Estatuto do Jornalista prevê que empresas com actividade de comunicação social que admitam ou mantenham ao seu serviço, como jornalista profissional ou equiparado, indivíduo sem habilitação legal, incorrem em contra-ordenação punível com coima entre 2.500 e 15.000 euros. Já para os profissionais, o exercício sem carteira válida pode implicar coimas entre 1.000 e 7.500 euros.
Os casos de Ana Sá Lopes e de Maria João Avillez não são episódios isolados. Nos últimos anos, profissionais como José Rodrigues dos Santos ou José Alberto Carvalho ‘passearam-se’ pelas redacções sem incómodo algum da CCPJ, apesar de não constarem da base de dados de jornalistas credenciados. Mas desde 2024, sobretudo a partir de alguns artigos do PÁGINA UM sobre jornalistas sem carteira ou que exerciam funções incompatíveis, designadamente marketing, relações públicas e media training, a CCPJ mostra, aparentemente, que quer pôr cobro a este faroeste.

Os números ajudam a perceber a dimensão do fenómeno. Só por intervenções iniciadas em 2024, a CCPJ concluiu 28 processos de contra-ordenação. Destes, 12 resultaram em sanções, incluindo seis coimas e seis admoestações. Houve ainda 10 arquivamentos por pagamento voluntário — ou seja, os jornalistas assumiram as falhas —, seis arquivamentos simples, três impugnações judiciais e duas execuções de coima. A CCPJ terá ainda algumas dezenas de processos em tramitação, visto que o processo concluído com numeração mais elevada identificado até ao momento é o n.º 55.
Neste lote de 2024 encontra-se o caso revelado pelo PÁGINA UM relativo a Reginaldo Rodrigues de Almeida, que, em simultâneo com o programa Falar Global, na CMTV, assinava contratos de financiamento, através da sua empresa Kind of Magic, com destaque para um assinado com a Câmara Municipal de Oeiras para “aquisição de conteúdos publicitários de divulgação da marca ‘Oeiras Valley’” naquele programa. Aquele empresário é também professor da Universidade Autónoma de Lisboa, sendo membro dos Conselhos Científico e Pedagógico. Decidiu assumir a promiscuidade e melhorar o ambiente da imprensa entregando a carteira profissional de jornalista.
Em processos abertos em 2025, apenas estão concluídos três, sabendo o PÁGINA UM que existirão algumas dezenas. Dois deles serão os relativos a dois casos mediáticos revelados pelo PÁGINA UM.

O primeiro caso é o do jornalista André Carvalho Ramos, que, em 2024, integrou uma equipa de media training da consultora GCI em acções de formação. Apesar das evidências documentais e da divulgação pública da participação — assumida pelo próprio jornalista na sua rede LinkedIn e ainda promovida pela própria GCI na imprensa —, o pivot da CNN Portugal logrou ainda obter censura ao PÁGINA UM por parte do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas e da ERC, sob o argumento de alegada falta de contraditório, como se os factos publicamente exibidos carecessem de confirmação suplementar para demonstrar uma incompatibilidade ostensiva.
O segundo caso revela-se ainda mais sensível, tanto pela natureza reiterada das alegadas incompatibilidades como por envolver outro pivot da CNN Portugal: José Gabriel Quaresma. Além da realização de acções de media training — actividade que continua a manter —, Quaresma surge igualmente como gerente da empresa Sardine Conjugation, que tem como objecto social a “consultadoria em comunicação, formação, media training e consultadoria online“.
Também neste caso, o jornalista logrou o curioso prodígio de obter um parecer censório do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas contra o PÁGINA UM, sustentado na tese de alegada falta de contraditório, apesar de existirem registos vídeo que documentam precisamente o contrário.

Mas aqui o problema é mais delicado. Desde Março, a situação da carteira profissional de José Gabriel Quaresma encontra-se sob escrutínio da CCPJ devido às incompatibilidades em causa. Contactada repetidamente pelo PÁGINA UM, a Comissão tem respondido sempre no mesmo registo burocrático. A mais recente resposta, datada de 19 deste mês, refere que continuam a ser efectuadas “diligências” e que estas “ainda aguardam resposta, pelo que o processo permanece pendente”.
Traduzido para linguagem corrente: um processo de renovação de carteira que, em condições normais, se resolve em poucos dias e cujo enquadramento legal aponta para um prazo máximo de um mês, arrasta-se há já cerca de três meses. Se a CCPJ concluir pela manutenção das actividades de media training e pela incompatibilidade decorrente da gerência empresarial, o desfecho mais plausível poderá ser a recusa de renovação ou mesmo a cassação do título profissional.
Certo é que estes casos mostram, numa profissão que vive da reputação e credibilidade, um mosaico revelador da precariedade — e por vezes informalidade — que continua a marcar partes do sector dos media. Surgem processos por exercício da profissão sem título profissional, por incompatibilidades legais ligadas a publicidade, marketing ou contratos de prestação de serviços, e até contra empresas que mantinham profissionais sem habilitação formal.

Para esta intervenção mais musculada da CCPJ não será também indiferente a sua situação financeira. Como revelou o PÁGINA UM na passada semana, a entidade que regula e disciplina a profissão jornalística está perigosamente próxima da falência técnica.
Após prejuízos acumulados de 252 mil euros em três anos, a CCPJ fechou 2025 com apenas 94.751 euros de fundos patrimoniais e pouco mais de 100 mil euros em caixa. Mantido o actual ritmo de perdas herdado do mandato de Licínia Girão, o organismo agora presidido por Luísa Meireles, que acumula com a direcção editorial da Lusa, poderá entrar em capitais próprios negativos este ano. E ter mesmo dificuldades em pagar salários aos funcionários.









































