2850 mortes foram registadas em Portugal associadas a problemas de qualidade da água, saneamento deficiente e condições de higiene degradadas entre 2019 e 2024, segundo dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística (INE).
São cerca de 40 mortes por mês, valores próximos da mortalidade rodoviária. Com efeito, no mesmo período, a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, reportou 3.601 vítimas mortais em acidentes, mas em 2024 os números mais trágicos da sinistralidade são já muito similares às do mau saneamento.

Com efeito, os números mais recentes, divulgados ontem pelo INE, revelam um agravamento significativo e sustentado da taxa de mortalidade associada “a fontes de água insalubre e a condições de saneamento e higiene deficientes ou inexistentes”, atingindo em 2024 o valor mais elevado desde que existe a actual série estatística.
De acordo com o INE, a taxa de mortalidade em 2024 fixou-se em 5,6 óbitos por 100 mil habitantes, o que corresponde a 602 mortes no conjunto do ano, apenas menos 16 do que os causados por acidentes rodoviários. Trata-se do valor mais alto desde 2019, ano em que morreram 445 pessoas nestas circunstâncias. Em 2020, registaram-se 417 mortes, descendo para 395 em 2021.
A partir daí, a tendência inverteu-se de forma clara: 470 mortes em 2022, 521 em 2023 e agora 602 em 2024. O número absoluto de mortos foi obtido pelo PÁGINA UM através do cruzamento das taxas de mortalidade associada a fontes de água insalubre e a condições de saneamento e higiene deficientes ou inexistentes com a população residente em cada ano (e por grupo etário), informação oficial compilada pelo INE.
A evolução recente revela um crescimento acelerado e consistente nos últimos três anos, sem que seja conhecida qualquer explicação pública estruturada por parte das autoridades. Os dados do INE permitem ainda identificar um forte impacto nos grupos etários mais vulneráveis.

Em 2024, das 602 mortes registadas, 343 ocorreram em pessoas com mais de 85 anos, enquanto 158 diziam respeito a indivíduos entre os 75 e os 84 anos. Ainda assim, registaram-se 101 mortes em pessoas com menos de 75 anos, observando-se um agravamento a partir dos 55 anos, o que evidencia que este fenómeno não se limita exclusivamente à população mais idosa.
Segundo a classificação internacional de doenças (CID-10) utilizada nos certificados de óbito, estas mortes estão associadas a um conjunto alargado de patologias tipicamente relacionadas com água contaminada, ausência de saneamento adequado e condições de higiene precárias. Entre estas incluem-se doenças infecciosas intestinais como cólera, febres tifóides e paratifóides, shigelose (disenteria bacilar), infecções intestinais por vírus ou protozoários, gastroenterites de origem infecciosa presumível, parasitoses intestinais (como helmintíases), bem como deficiências nutricionais frequentemente associadas a contextos de insalubridade.
Em termos substantivos, trata-se de doenças que, em países com sistemas de saneamento eficazes e controlo rigoroso da qualidade da água, são largamente evitáveis. O agravamento destes indicadores ocorre num contexto em que Portugal integra a União Europeia e dispõe, em teoria, de infraestruturas de abastecimento e saneamento universalizadas. Ainda assim, os números agora divulgados levantam dúvidas sérias sobre a existência de bolsas persistentes de exclusão sanitária, degradação de condições habitacionais ou falhas na monitorização e intervenção em determinadas zonas do território.

O PÁGINA UM já havia alertado, em 2024, para esta tendência. Perante a actualização dos dados — agora ainda mais preocupantes —, o jornal procurou perceber se existiam estudos epidemiológicos actualizados, capazes de identificar as causas concretas deste aumento, as regiões mais afectadas ou eventuais falhas estruturais nos sistemas de água e saneamento.
O Ministério do Ambiente remeteu esclarecimentos para o Ministério da Saúde. Do lado da tutela da saúde, não houve qualquer resposta. Foram enviadas questões directamente à ministra da Saúde, Ana Paula Martins, designadamente sobre a existência de estudos de prevalência, identificação de focos geográficos e eventuais medidas de mitigação. Os pedidos foram remetidos para duas assessoras de imprensa — Dulce Salcedas e Ana Sofia Santos —, tendo esta última aberto a mensagem. Nenhuma resposta foi enviada. Nem sequer um sinal de recepção.
Este silêncio institucional ocorre perante um fenómeno que, pela sua natureza, remete para padrões sanitários que se julgavam ultrapassados. O aumento consistente de mortes associadas a água contaminada, falta de saneamento e condições básicas de higiene não é apenas um indicador estatístico: é um sinal de falha estrutural em políticas públicas essenciais.

Num país que discute transições digitais, inteligência artificial e inovação tecnológica, os dados agora revelados expõem uma realidade paralela — mais silenciosa, mas profundamente reveladora —, onde centenas de pessoas continuam a sofrer e a morrer, todos os anos, por causas evitáveis ligadas a condições básicas de vida inaceitáveis em países de regiões mais pobres.
Sem diagnóstico público, sem explicação oficial e sem resposta política conhecida, os números do INE deixam uma pergunta incontornável: onde está o problema — e porque é que ninguém o quer explicar? Para o ano, o INE divulgará novos números…







































