A directora-geral da Saúde, Rita Sá Machado, afirmou esta semana no Parlamento que a desconfiança nas vacinas em algumas partes do mundo está a levar ao reaparecimento de doenças. Curioso alerta feito pela responsável máxima de uma entidade que, em Portugal, muito tem contribuído para a falta de transparência nas políticas de saúde.
Portugal apresenta elevadas taxas de vacinação, mas as preocupações com um eventual aumento da chamada “hesitação vacinal” existem. O facto de no Parlamento se estar a debater sobre as vítimas das vacinas contra a covid é uma prova de que se alguns desconfiam das vacinas, vem da experiência. Como diz o ditado: “gato escaldado de água fria tem medo”.

A origem da “hesitação vacinal” não está apenas ligada a informação falsa na Internet. As autoridades responsáveis pela saúde pública também não têm ajudado ao reforço da confiança. Em Portugal, a opacidade das autoridades, nomeadamente da Direção-Geral da Saúde (DGS) e do Infarmed, relativamente às vacinas contra a covid-19, tem o potencial para abalar qualquer relação de confiança com a população.
Por isso, não deixa de ser surpreendente escutar os comentários da directora-geral da Saúde sobre desconfiança face às vacinas em algumas partes do mundo. É que noutras partes do mundo, como em Portugal, a opacidade das autoridades na pandemia de covid-19 foi (e ainda é) gritante e inaceitável em democracia. Será preciso recordar a opacidade na própria DGS durante a pandemia de covid-19 (e ainda hoje)?
No caso de Portugal, a DGS cometeu um pecado capital: esqueceu que existem adultos entre a população. E esses adultos não apreciaram saber, tardiamente, que a DGS lhes escondeu informação crucial para tomarem decisões informadas sobre vacinação contra a covid-19, em especial sobre vacinação das crianças e dos jovens.

A DGS, então liderada por Graça Freitas, escondeu a existência de divergência de opiniões na comissão técnica de vacinação em relação à vacinação dos mais novos contra a covid-19. Só as revelou mais tarde e à força.
Também se sabe agora, conforme revelou recentemente o jornal Nascer do Sol, que a DGS, com conhecimento do Ministério da Saúde, assinou a compra de vacinas para administração em adolescentes com cláusulas que admitiam o desconhecimento de efeitos adversos.
Acresce que foram também metidos debaixo do tapete —, neste caso, pela Ordem dos Médicos — os pareceres do Colégio de Pediatria que desaconselhavam a vacinação generalizada de crianças e adolescentes saudáveis.

Como se tal já não fosse grave, a DGS e o Governo decidiram também esconder também os contratos da compra das vacinas, e as suas particulares condições.
E o que dizer dos relatórios de uma task force de Ciências Comportamentais criada pela DGS em que se defendia o uso deliberado do medo como instrumento de gestão pública da pandemia.
Numa democracia madura, trata-se os cidadãos como adultos, com respeito, com a partilha de informação e reconhecendo que possam ter dúvidas legítimas e que as mesmas devem ser reconhecidas, debatidas e respondidas com clareza.

Forçar uma narrativa única, um falso consenso médico-científico e impor políticas de saúde com base no medo, pode funcionar no curto prazo para convencer boa parte dos cidadãos. Mas o preço a pagar no futuro em termos de confiança nas autoridades de saúde pública é muito alto.
Hoje, alguns dos cidadãos que desconfiam da eficácia e segurança das vacinas, não é por rejeitarem a Ciência, mas porque sentem que falta informação e por sentirem que há dados que lhes poderão estar a ser escondidos. Depois, percebem que, se sofrerem reacções adversas, ficarão por sua conta e risco, ao abandono, doentes e sem qualquer apoio ou compensação. É isso que está a suceder com vítimas das reacções adversas às vacinas contra a covid-19: acabam ostracizadas e abandonadas.
A DGS não é a única entidade com falta de transparência. Também o é o Ministério da Saúde. E também o Infarmed. A autoridade nacional do medicamento tem feito tudo o que podia fazer para alimentar a desconfiança dos cidadãos: esconde dados sobre reacções adversas das vacinas contra a covid-19; recusa fazer uma activa e adequada política de farmacovigilância no caso destas vacinas, como tem ficado patente com alguns dos casos vindos a público de vítimas das vacinas.

Em particular, as vítimas de reacções adversas alegam falta de apoio, falta de acompanhamento clínico estruturado, ausência de investigação aprofundada dos casos e dificuldades no reconhecimento oficial das ligações às vacinas dos danos na saúde.
As autoridades de saúde pública esquecem que é possível reconhecer a utilidade das vacinas e, ao mesmo tempo, identificar falhas institucionais na comunicação, na gestão da informação e na monitorização de segurança e eficácia.
E esqueceram que a confiança pública se constrói sobretudo através da transparência, da prestação de contas e da capacidade de admitir incertezas.

A lição principal talvez seja esta: em temas de saúde pública, a credibilidade não nasce da imposição de consenso, mas da abertura ao escrutínio. Quanto mais transparentes forem os processos de decisão, os contratos, os dados de segurança e os pareceres científicos divergentes, maior será a confiança social — mesmo entre quem mantém dúvidas legítimas.
Mas é uma lição que Portugal recusa aprender. O que vemos hoje, da parte da DGS vai no sentido oposto. O dominó da confiança está em risco de tremer. Rita Sá Machado, ao invés de travar a queda, dá um empurrão.
Em Portugal, uma solução crucial para reforçar a confiança seria legislar no sentido se compensar as vítimas das reacções adversas das vacinas contra a covid-19. Até porque as autoridades de saúde criaram um clima que levou empresas e instituições a impor a toma das vacinas aos seus trabalhadores. Também estudantes e atletas viram-se condicionados a serem vacinados, sentindo que não tinham opção. Foram, de certa forma, forçados a vacinarem-se.

A ex-ministra da Saúde, Marta Temido, admitiu esta semana no Parlamento a criação de um mecanismo para compensar os lesados das vacinas contra a covid-19. Mas a proposta divide os partidos, como noticiou hoje o jornal Nascer do Sol.
Mas não deveria existir nenhuma divisão, se houvesse intenção real de reforçar a confiança da população nas vacinas e nas autoridades de saúde pública.
Para já, as vítimas destas vacinas contarão com o apoio da recém criada AdverX19- Associação Portuguesa de Apoio às Pessoas com Reacções Adversas à Vacina Covid. Mas a erosão da confiança é um risco crescente enquanto não existir da parte do Governo e das autoridades de saúde pública uma demonstração clara e inequívoca de apoio a estas vítimas.

/ Foto: D.R.
Dar um passo no sentido de reconhecer que as vítimas existem, sofrem e precisam de ajuda, é o mínimo que o Governo e a DGS deveriam fazer. Libertar todos os dados detidos pelo Infarmed sobre as reacções adversas e levar a cabo uma efectiva e competente campanha de farmacovigilância, com acompanhamento e seguimento sério e eficiente dos casos, seria outro passo importante.
Sem vislumbre de que nenhuma destas autoridades pretenda fazer o que seria o correcto — e dar uma lição a outras partes do mundo —, resta a esperança de que a sociedade civil se organize e se mobilize, não só para que os que sofrem tenha acesso a apoios, mas também para exigir medidas reforçadas que impeçam que as autoridades de saúde pública escondam informação.








































