Continuação da investigação iniciada com o texto que aborda os internamentos até à idade pediátrica
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CAPÍTULO IV — QUANDO O HOSPITAL DEIXA DE TRATAR DOENÇA PARA FAZER NASCER UMA GERAÇÃO
Durante quase vinte anos, a principal actividade hospitalar já não resulta da patologia, mas da reprodução humana
Existe uma ideia enraizada na forma como olhamos para os hospitais: imaginamo-los como lugares destinados a tratar doença. A imagem corresponde, em larga medida, à realidade, mas os dados analisados pelo PÁGINA UM No âmbito da plataforma CORPUS mostram uma fase da vida em que essa percepção deixa de ser inteiramente verdadeira.
Entre o final da adolescência e o início da quarta década vida, a actividade hospitalar portuguesa passa a ser dominada não por uma patologia, mas por um fenómeno fisiológico que acompanha todas as sociedades desde o início da humanidade: a gravidez e o parto.

A mudança ocorre com ‘naturalidade’, ou seja, devida à biologia e, digamos assim, à sociologia comportamental. A apendicite, que durante cerca de dez anos dominara as estatísticas hospitalares, desaparece rapidamente do topo da tabela. E em seu lugar surgem diagnósticos que, à primeira vista, nem sequer parecem pertencer ao mesmo universo clínico: alterações do líquido amniótico, gravidez prolongada, parto, complicações obstétricas, cesarianas e diversas situações relacionadas com o puerpério.
O hospital deixa assim, temporariamente, para estas idades e com pendor dominante nas jovens mulheres, de ser sobretudo o lugar onde se corrige uma doença para passar a acompanhar um dos acontecimentos fisiológicos mais importantes da vida humana.
Os números ilustram bem a dimensão desta transformação. Atendendo aos dados dos internamentos hospitalares de 2024, que serviram para esta investigação do PÁGINA UM, aos 20 anos de idade registaram-se 2.914 episódios de internamento, envolvendo 2.496mulheres.

Cinco anos mais tarde, em mulheres de 25 anos, a actividade hospitalar aproxima-se já dos cinco mil episódios. Aos 30 anos, ultrapassa os 7.400 internamentos e, por volta dos 32 anos, atinge o valor máximo desta fase da vida, rondando os 7.500 episódios anuais. Nenhuma epidemia explica esta evolução. Nenhum agravamento súbito do estado de saúde da população lhe está subjacente. Aquilo que cresce é simplesmente o número de gravidezes e de partos concentrados nestas idades.
Esta constatação possui um significado que vai muito além da obstetrícia. Demonstra que a actividade hospitalar não acompanha apenas a doença, mas os grandes acontecimentos biológicos da vida. O primeiro contacto de quase todos os portugueses com um hospital acontece porque nasceram. Cerca de três décadas depois, muitos regressam para assistir ao nascimento dos seus próprios filhos.
Vista desta forma, a estatística descreve um curioso movimento circular. Entramos na vida através de uma maternidade e, no caso das mulhres, regressam muitos anos mais tarde para abrir a porta à geração seguinte. Poucas instituições públicas acompanham de forma tão íntima este ciclo.

Há, contudo, um aspecto ainda mais interessante. Enquanto os blocos de partos concentram uma parte muito significativa dos internamentos, outras doenças começam lentamente a instalar-se sem chamar a atenção. Permanecem ainda escondidas nas estatísticas pela enorme actividade obstétrica, mas já anunciam aquilo que dominará a segunda metade da vida. Entre elas destaca-se a doença renal crónica, que surge inicialmente de forma discreta entre os diagnósticos mais frequentes e vai ganhando importância ano após ano. A maternidade continua a ocupar o primeiro plano. Nos bastidores, porém, começa a formar-se uma realidade epidemiológica muito diferente.
Também por essa razão seria um erro interpretar este aumento dos internamentos como um agravamento do estado de saúde da população jovem. A maioria destas admissões hospitalares corresponde a acontecimentos fisiológicos ou a situações clínicas directamente relacionadas com a gravidez. A intensidade da utilização hospitalar aumenta, mas a relação de cada pessoa com o hospital continua relativamente simples. Cada internado gera, em média, pouco mais de 1,17 episódios hospitalares, valor muito semelhante ao observado na adolescência. O hospital continua a acompanhar episódios delimitados no tempo e não percursos clínicos prolongados.
Talvez esta seja uma das conclusões mais interessantes da investigação. Existe uma tendência para interpretar qualquer aumento da actividade hospitalar como sinónimo de maior doença. Os dados mostram que essa associação nem sempre existe. Em determinadas fases da vida, o crescimento dos internamentos constitui antes a expressão de fenómenos demográficos e biológicos

Mas esta realidade também não dura para sempre.
Por volta dos 39 anos, os internamentos relacionados com a gravidez começam a perder importância relativa. Não desaparecem, mas deixam de definir o perfil da actividade hospitalar. Em seu lugar surge uma doença que permanecerá durante décadas no topo das estatísticas e que marcará uma mudança profunda na relação entre os portugueses e o Serviço Nacional de Saúde.
A partir dos 39 anos, o hospital deixa definitivamente de acompanhar acontecimentos transitórios para começar a acompanhar doenças que, na maioria dos casos, acompanharão os doentes durante muitos anos. E essa mudança ajuda a compreender uma das maiores transformações da Medicina contemporânea: os hospitais tratam hoje menos episódios isolados e acompanham cada vez mais trajectórias de doença.
CAPÍTULO V — A ENTRADA SILENCIOSA DA DOENÇA CRÓNICA
Aos 39 anos muda o protagonista das estatísticas. Muda também a relação entre os portugueses e o hospital
Nenhum médico dirá que os 39 anos constituem uma fronteira biológica. Também não existe qualquer acontecimento fisiológico que explique uma mudança súbita no estado de saúde da população ao entrar na quarta década da vida. Ainda assim, quando quase 900 mil internamentos são distribuídos idade a idade, surge um ponto de inflexão suficientemente nítido para merecer atenção.
Depois de quase vinte anos em que a actividade hospitalar é dominada pela gravidez, pelo parto e pelo puerpério, aparece pela primeira vez no topo das estatísticas um diagnóstico que permanecerá durante várias décadas: a doença renal crónica, que geralmente acaba associada á hemodiálise.

A alteração possui um significado muito mais profundo do que uma simples troca de posições numa tabela. Durante toda a infância e adolescência, e mesmo ao longo da idade fértil, os hospitais responderam sobretudo a acontecimentos relativamente delimitados no tempo. Uma bronquiolite cura-se. Uma apendicite opera-se. Um parto termina com a alta clínica. Contudo, a doença renal crónica pertence a um universo muito diferente. Não representa um episódio, mas um percurso.
A partir daqui, muitos dos doentes deixam de entrar uma única vez no hospital para resolver um problema concreto e passam a estabelecer com o hospital uma relação que poderá prolongar-se durante anos ou mesmo décadas.
Os números ilustram essa mudança. Em pessoas com 39 anos registaram-se 6.392 internamentos, envolvendo 5.164 pessoas, das quais 405 tiveram como diagnóstico principal a doença renal crónica. Um ano depois, esse número aumenta para 526. Aos 41 anos, ultrapassa já os 650 episódios. Nos anos seguintes continua a crescer, consolidando uma liderança que atravessará praticamente toda a segunda metade da vida. Poucas patologias apresentam uma persistência semelhante ao longo de tantas idades consecutivas.

Mas talvez a questão mais interessante seja outra. Porque razão a insuficiência renal consegue manter-se durante tanto tempo entre os principais motivos de internamento? A resposta dificilmente pode ser encontrada olhando apenas para os rins.
A insuficiência renal representa, em muitos casos, o ponto de chegada de um processo iniciado muitos anos antes: diabetes mellitus, hipertensão arterial, doença cardiovascular, obesidade, alterações metabólicas ou doenças auto-imunes acabam frequentemente por convergir para a deterioração progressiva da função renal. Aquilo que surge registado na estatística como um diagnóstico principal constitui, muitas vezes, a consequência visível de um conjunto muito mais vasto de problemas de saúde.
Na verdade, sobretudo a partir da quarta década de vida, os hospitais deixam progressivamente de tratar doenças isoladas e começam a acompanhar portadores de várias doenças em simultâneo. A medicina interna, a nefrologia, a cardiologia, a endocrinologia, a oncologia e muitas outras especialidades passam a cruzar-se no mesmo processo clínico. A doença deixa de ser um acontecimento e transforma-se numa condição.

Também o indicador que distingue internamentos de internados começa finalmente a revelar toda a sua importância. Enquanto na infância cada criança internada originava pouco mais de um episódio hospitalar, a partir desta fase da vida o número médio de internamentos por pessoa inicia uma subida contínua.
O crescimento pode parecer discreto quando observado ano a ano, mas torna-se impressionante quando analisado ao longo de três ou quatro décadas. Os hospitais deixam, de forma progressiva, de receber apenas novos doentes e passam cada vez mais a receber os mesmos doentes, sucessivamente, devido à evolução natural das doenças crónicas, às complicações terapêuticas ou à necessidade de tratamentos repetidos.
Há aqui um aspecto que merece ser sublinhado porque nem sempre integra o debate sobre a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde. Costuma afirmar-se que os hospitais estão sob pressão porque a população envelhece. A afirmação é correcta, mas insuficiente.

A pressão não resulta apenas do aumento do número de idosos, mas do facto de cada doente consumir hoje muito mais cuidados hospitalares do que consumia há algumas décadas. E isso não se deve ao facto de a Medicina estar a fracassar, mas, em larga medida, e de modo aparentemente paradoxal, por ter sucesso. Pessoas que antes morreriam de insuficiência renal, enfarte agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral ou cancro ainda em idades precoces vivem hoje muitos mais anos. Essa sobrevivência prolongada traduz-se inevitavelmente em mais consultas, mais cirurgias, mais tratamentos e mais internamentos.
Entretanto, outros diagnósticos começam a ganhar expressão a partir dos 40 anos. O cancro da mama surge de forma consistente entre as principais causas de internamento feminino, reflectindo não apenas a incidência da doença, mas também a crescente complexidade do tratamento oncológico moderno.
As doenças das vias biliares mantêm uma presença constante, enquanto a osteoartrose começa discretamente a aparecer entre os diagnósticos mais frequentes. Nenhuma destas patologias domina, porém, de modo isolado, a actividade hospitalar. Em conjunto, anunciam uma mudança profunda: a diversidade clínica aumenta de forma contínua e o hospital deixa de poder ser definido por uma única especialidade dominante.

Talvez seja essa a maior diferença entre a primeira e a segunda metade da vida. Durante a infância, o pediatra consegue antecipar com relativa facilidade aquilo que encontrará nas enfermarias em cada Inverno. Depois dos 40 anos, essa previsibilidade desaparece. Cada cama hospitalar passa a contar uma história diferente. Cada processo clínico reúne doenças que se cruzam, se influenciam mutuamente e obrigam a decisões terapêuticas cada vez mais complexas.
Mas nem esta transformação representa o ponto final da evolução epidemiológica. À medida que a população entra na sexta década de vida, a doença crónica deixa de ser apenas uma característica de muitos doentes para passar a constituir o retrato dominante de uma geração inteira. É nesse momento que o envelhecimento demográfico deixa de ser uma abstracção estatística e passa a tornar-se visível em praticamente todos os corredores dos hospitais portugueses. Mas isso ficará para a derradeira parte desta investigação do PÁGINA UM a publicar na próxima quarta-feira.
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N.D. No final desta investigação será anexado o relatório final do CORPUS.































































