Categoria: Saúde

  • Dos 0 aos 109 anos: a biografia epidemiológica dos portugueses nos hospitais públicos — II. Da maternidade à doença crónica

    Dos 0 aos 109 anos: a biografia epidemiológica dos portugueses nos hospitais públicos — II. Da maternidade à doença crónica


    Continuação da investigação iniciada com o texto que aborda os internamentos até à idade pediátrica

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    CAPÍTULO IV — QUANDO O HOSPITAL DEIXA DE TRATAR DOENÇA PARA FAZER NASCER UMA GERAÇÃO

    Durante quase vinte anos, a principal actividade hospitalar já não resulta da patologia, mas da reprodução humana

    Existe uma ideia enraizada na forma como olhamos para os hospitais: imaginamo-los como lugares destinados a tratar doença. A imagem corresponde, em larga medida, à realidade, mas os dados analisados pelo PÁGINA UM No âmbito da plataforma CORPUS mostram uma fase da vida em que essa percepção deixa de ser inteiramente verdadeira.

    Entre o final da adolescência e o início da quarta década vida, a actividade hospitalar portuguesa passa a ser dominada não por uma patologia, mas por um fenómeno fisiológico que acompanha todas as sociedades desde o início da humanidade: a gravidez e o parto.

    woman lying down in a hospital bed
    Foto: Alexander Grey

    A mudança ocorre com ‘naturalidade’, ou seja, devida à biologia e, digamos assim, à sociologia comportamental. A apendicite, que durante cerca de dez anos dominara as estatísticas hospitalares, desaparece rapidamente do topo da tabela. E em seu lugar surgem diagnósticos que, à primeira vista, nem sequer parecem pertencer ao mesmo universo clínico: alterações do líquido amniótico, gravidez prolongada, parto, complicações obstétricas, cesarianas e diversas situações relacionadas com o puerpério.

    O hospital deixa assim, temporariamente, para estas idades e com pendor dominante nas jovens mulheres, de ser sobretudo o lugar onde se corrige uma doença para passar a acompanhar um dos acontecimentos fisiológicos mais importantes da vida humana.

    Os números ilustram bem a dimensão desta transformação. Atendendo aos dados dos internamentos hospitalares de 2024, que serviram para esta investigação do PÁGINA UM, aos 20 anos de idade registaram-se 2.914 episódios de internamento, envolvendo 2.496mulheres.

    woman inside laboratory

    Cinco anos mais tarde, em mulheres de 25 anos, a actividade hospitalar aproxima-se já dos cinco mil episódios. Aos 30 anos, ultrapassa os 7.400 internamentos e, por volta dos 32 anos, atinge o valor máximo desta fase da vida, rondando os 7.500 episódios anuais. Nenhuma epidemia explica esta evolução. Nenhum agravamento súbito do estado de saúde da população lhe está subjacente. Aquilo que cresce é simplesmente o número de gravidezes e de partos concentrados nestas idades.

    Esta constatação possui um significado que vai muito além da obstetrícia. Demonstra que a actividade hospitalar não acompanha apenas a doença, mas os grandes acontecimentos biológicos da vida. O primeiro contacto de quase todos os portugueses com um hospital acontece porque nasceram. Cerca de três décadas depois, muitos regressam para assistir ao nascimento dos seus próprios filhos.

    Vista desta forma, a estatística descreve um curioso movimento circular. Entramos na vida através de uma maternidade e, no caso das mulhres, regressam muitos anos mais tarde para abrir a porta à geração seguinte. Poucas instituições públicas acompanham de forma tão íntima este ciclo.

    a woman laying in a hospital bed with an iv in her hand

    Há, contudo, um aspecto ainda mais interessante. Enquanto os blocos de partos concentram uma parte muito significativa dos internamentos, outras doenças começam lentamente a instalar-se sem chamar a atenção. Permanecem ainda escondidas nas estatísticas pela enorme actividade obstétrica, mas já anunciam aquilo que dominará a segunda metade da vida. Entre elas destaca-se a doença renal crónica, que surge inicialmente de forma discreta entre os diagnósticos mais frequentes e vai ganhando importância ano após ano. A maternidade continua a ocupar o primeiro plano. Nos bastidores, porém, começa a formar-se uma realidade epidemiológica muito diferente.

    Também por essa razão seria um erro interpretar este aumento dos internamentos como um agravamento do estado de saúde da população jovem. A maioria destas admissões hospitalares corresponde a acontecimentos fisiológicos ou a situações clínicas directamente relacionadas com a gravidez. A intensidade da utilização hospitalar aumenta, mas a relação de cada pessoa com o hospital continua relativamente simples. Cada internado gera, em média, pouco mais de 1,17 episódios hospitalares, valor muito semelhante ao observado na adolescência. O hospital continua a acompanhar episódios delimitados no tempo e não percursos clínicos prolongados.

    Talvez esta seja uma das conclusões mais interessantes da investigação. Existe uma tendência para interpretar qualquer aumento da actividade hospitalar como sinónimo de maior doença. Os dados mostram que essa associação nem sempre existe. Em determinadas fases da vida, o crescimento dos internamentos constitui antes a expressão de fenómenos demográficos e biológicos

    person sitting while using laptop computer and green stethoscope near

    Mas esta realidade também não dura para sempre.

    Por volta dos 39 anos, os internamentos relacionados com a gravidez começam a perder importância relativa. Não desaparecem, mas deixam de definir o perfil da actividade hospitalar. Em seu lugar surge uma doença que permanecerá durante décadas no topo das estatísticas e que marcará uma mudança profunda na relação entre os portugueses e o Serviço Nacional de Saúde.

    A partir dos 39 anos, o hospital deixa definitivamente de acompanhar acontecimentos transitórios para começar a acompanhar doenças que, na maioria dos casos, acompanharão os doentes durante muitos anos. E essa mudança ajuda a compreender uma das maiores transformações da Medicina contemporânea: os hospitais tratam hoje menos episódios isolados e acompanham cada vez mais trajectórias de doença.

    CAPÍTULO V — A ENTRADA SILENCIOSA DA DOENÇA CRÓNICA

    Aos 39 anos muda o protagonista das estatísticas. Muda também a relação entre os portugueses e o hospital

    Nenhum médico dirá que os 39 anos constituem uma fronteira biológica. Também não existe qualquer acontecimento fisiológico que explique uma mudança súbita no estado de saúde da população ao entrar na quarta década da vida. Ainda assim, quando quase 900 mil internamentos são distribuídos idade a idade, surge um ponto de inflexão suficientemente nítido para merecer atenção.

    Depois de quase vinte anos em que a actividade hospitalar é dominada pela gravidez, pelo parto e pelo puerpério, aparece pela primeira vez no topo das estatísticas um diagnóstico que permanecerá durante várias décadas: a doença renal crónica, que geralmente acaba associada á hemodiálise.

    doctor holding red stethoscope

    A alteração possui um significado muito mais profundo do que uma simples troca de posições numa tabela. Durante toda a infância e adolescência, e mesmo ao longo da idade fértil, os hospitais responderam sobretudo a acontecimentos relativamente delimitados no tempo. Uma bronquiolite cura-se. Uma apendicite opera-se. Um parto termina com a alta clínica. Contudo, a doença renal crónica pertence a um universo muito diferente. Não representa um episódio, mas um percurso.

    A partir daqui, muitos dos doentes deixam de entrar uma única vez no hospital para resolver um problema concreto e passam a estabelecer com o hospital uma relação que poderá prolongar-se durante anos ou mesmo décadas.

    Os números ilustram essa mudança. Em pessoas com 39 anos registaram-se 6.392 internamentos, envolvendo 5.164 pessoas, das quais 405 tiveram como diagnóstico principal a doença renal crónica. Um ano depois, esse número aumenta para 526. Aos 41 anos, ultrapassa já os 650 episódios. Nos anos seguintes continua a crescer, consolidando uma liderança que atravessará praticamente toda a segunda metade da vida. Poucas patologias apresentam uma persistência semelhante ao longo de tantas idades consecutivas.

    a 3d image of the human body and the structure of the body

    Mas talvez a questão mais interessante seja outra. Porque razão a insuficiência renal consegue manter-se durante tanto tempo entre os principais motivos de internamento? A resposta dificilmente pode ser encontrada olhando apenas para os rins.

    A insuficiência renal representa, em muitos casos, o ponto de chegada de um processo iniciado muitos anos antes: diabetes mellitus, hipertensão arterial, doença cardiovascular, obesidade, alterações metabólicas ou doenças auto-imunes acabam frequentemente por convergir para a deterioração progressiva da função renal. Aquilo que surge registado na estatística como um diagnóstico principal constitui, muitas vezes, a consequência visível de um conjunto muito mais vasto de problemas de saúde.

    Na verdade, sobretudo a partir da quarta década de vida, os hospitais deixam progressivamente de tratar doenças isoladas e começam a acompanhar portadores de várias doenças em simultâneo. A medicina interna, a nefrologia, a cardiologia, a endocrinologia, a oncologia e muitas outras especialidades passam a cruzar-se no mesmo processo clínico. A doença deixa de ser um acontecimento e transforma-se numa condição.

    Foto: D.R.

    Também o indicador que distingue internamentos de internados começa finalmente a revelar toda a sua importância. Enquanto na infância cada criança internada originava pouco mais de um episódio hospitalar, a partir desta fase da vida o número médio de internamentos por pessoa inicia uma subida contínua.

    O crescimento pode parecer discreto quando observado ano a ano, mas torna-se impressionante quando analisado ao longo de três ou quatro décadas. Os hospitais deixam, de forma progressiva, de receber apenas novos doentes e passam cada vez mais a receber os mesmos doentes, sucessivamente, devido à evolução natural das doenças crónicas, às complicações terapêuticas ou à necessidade de tratamentos repetidos.

    Há aqui um aspecto que merece ser sublinhado porque nem sempre integra o debate sobre a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde. Costuma afirmar-se que os hospitais estão sob pressão porque a população envelhece. A afirmação é correcta, mas insuficiente.

    People waiting in a hallway with chairs and chairs

    A pressão não resulta apenas do aumento do número de idosos, mas do facto de cada doente consumir hoje muito mais cuidados hospitalares do que consumia há algumas décadas. E isso não se deve ao facto de a Medicina estar a fracassar, mas, em larga medida, e de modo aparentemente paradoxal, por ter sucesso. Pessoas que antes morreriam de insuficiência renal, enfarte agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral ou cancro ainda em idades precoces vivem hoje muitos mais anos. Essa sobrevivência prolongada traduz-se inevitavelmente em mais consultas, mais cirurgias, mais tratamentos e mais internamentos.

    Entretanto, outros diagnósticos começam a ganhar expressão a partir dos 40 anos. O cancro da mama surge de forma consistente entre as principais causas de internamento feminino, reflectindo não apenas a incidência da doença, mas também a crescente complexidade do tratamento oncológico moderno.

    As doenças das vias biliares mantêm uma presença constante, enquanto a osteoartrose começa discretamente a aparecer entre os diagnósticos mais frequentes. Nenhuma destas patologias domina, porém, de modo isolado, a actividade hospitalar. Em conjunto, anunciam uma mudança profunda: a diversidade clínica aumenta de forma contínua e o hospital deixa de poder ser definido por uma única especialidade dominante.

    woman wearing blue dress

    Talvez seja essa a maior diferença entre a primeira e a segunda metade da vida. Durante a infância, o pediatra consegue antecipar com relativa facilidade aquilo que encontrará nas enfermarias em cada Inverno. Depois dos 40 anos, essa previsibilidade desaparece. Cada cama hospitalar passa a contar uma história diferente. Cada processo clínico reúne doenças que se cruzam, se influenciam mutuamente e obrigam a decisões terapêuticas cada vez mais complexas.

    Mas nem esta transformação representa o ponto final da evolução epidemiológica. À medida que a população entra na sexta década de vida, a doença crónica deixa de ser apenas uma característica de muitos doentes para passar a constituir o retrato dominante de uma geração inteira. É nesse momento que o envelhecimento demográfico deixa de ser uma abstracção estatística e passa a tornar-se visível em praticamente todos os corredores dos hospitais portugueses. Mas isso ficará para a derradeira parte desta investigação do PÁGINA UM a publicar na próxima quarta-feira.

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    N.D. No final desta investigação será anexado o relatório final do CORPUS.


  • Dos 0 aos 109 anos: a biografia epidemiológica dos portugueses nos hospitais públicos — I. A idade pediátrica

    Dos 0 aos 109 anos: a biografia epidemiológica dos portugueses nos hospitais públicos — I. A idade pediátrica


    Existem inúmeras formas de descrever um país. Os Censos revelam quantos somos, as estatísticas económicas ajudam a compreender como vivemos, os resultados eleitorais mostram como votamos e os indicadores demográficos permitem acompanhar os nascimentos, a mortalidade e o envelhecimento.

    Muito menos habitual é observar uma sociedade através da forma como adoece. Mais raro ainda é fazê-lo não por grandes grupos etários, mas idade a idade, acompanhando a sucessão das doenças que marcam cada fase da existência e mostrando como a relação entre os portugueses e os hospitais se transforma continuamente ao longo da vida.

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    Foto: Stephen Andrews

    Foi esse o exercício realizado no âmbito da plataforma CORPUS – Observatório de Dados em Saúde, o novo projecto em preparação do PÁGINA UM, a partir da Base de Dados de Morbilidade Hospitalar da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), analisando todos os internamentos ocorridos nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde durante 2024.

    No total, registaram-se 883.479 episódios de internamento, envolvendo 620.093 doentes distintos, com idades compreendidas entre os zero e os 109 anos. Considerando a população residente em Portugal, fica a saber-se que, grosso modo, descontando turistas, cerca de 6% dos habitantes passaram pelo menos uma vez por um internamento hospitalar durante o ano. Isto equivale, em termos aproximados, a um internado em cada 17 portugueses.

    À primeira vista, estes números parecem limitar-se a medir a actividade dos hospitais. Porém, na realidade, o detalhe da base de dados – anonimizada, ou seja, não se sabe o nome nem outros elementos que identifiquem alguém – permitem responder a perguntas muito mais ambiciosas. Que doenças dominam cada etapa da vida? Em que idade começa a aumentar o risco de internamento? Quando deixa o hospital de tratar sobretudo episódios agudos para passar a acompanhar doenças crónicas? E existirá um momento em que o próprio perfil epidemiológico da população muda de forma suficientemente nítida para justificar uma leitura diferente da evolução da saúde em Portugal?

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    Foto: Ryoji Iwata

    Responder a estas perguntas obrigou também a abandonar uma das convenções mais enraizadas na produção estatística. Por norma, os dados são apresentados por grandes escalões etários — crianças, adultos, idosos — agrupando pessoas que, do ponto de vista clínico, podem apresentar realidades profundamente distintas.

    Um bebé de seis meses e uma criança prestes a entrar na adolescência pertencem frequentemente ao mesmo grupo estatístico. O mesmo sucede com um adulto de 45 anos e outro de 64, ou com um recém-reformado e um nonagenário. Essas agregações simplificam a leitura dos dados, mas escondem aquilo que mais interessa quando se pretende compreender a evolução das doenças: as mudanças que ocorrem quase de aniversário para aniversário.

    A opção metodológica seguida nesta investigação do PÁGINA UM foi, por isso, diferente. Todos os internamentos foram distribuídos idade simples a idade simples – ou seja, menos de 1 ano, 1 ano, 2 anos, 3 anos e assim sucessivamente –, conseguindo identificar, para cada ano de vida, o número de episódios hospitalares, o número de doentes distintos e os diagnósticos que motivaram o internamento. Esta abordagem não altera os dados, mas em vez de uma sucessão de grandes categorias etárias, emerge um percurso contínuo onde se acompanha assim a forma como cada fase da vida possui uma identidade epidemiológica própria.

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    Foto: Kristen Sheets

    Convém adiantar aqui um dado prévio relevante. Os hospitais registam episódios de internamento, não pessoas, embora seja possível acompanhar, de forma anónima, o percurso da mesma pessoa. Ou seja, saber se o doente X foi ou não reinternado posteriormente. Por isso, se sabe que, em 2024, houve 620.093 doentes internados mas que originaram 883.479 internamentos, correspondendo, por isso, a uma média de 1,42 episódios por pessoa internada.

    Longe de constituir um detalhe técnico, este indicador revela uma das transformações mais importantes da medicina contemporânea: uma parte crescente da actividade hospitalar já não resulta da entrada de novos doentes, mas do acompanhamento repetido daqueles que vivem durante muitos anos com doença crónica.

    Esta análise procurou, de igual modo, estimar a probabilidade de internamento em cada idade, recorrendo à população residente por idade simples disponibilizada pelo Instituto Nacional de Estatística como denominador. Houve, porém, uma excepção deliberada. Os recém-nascidos não foram incluídos nesse cálculo, porque a esmagadora maioria dos internamentos aos zero anos corresponde ao próprio nascimento e aos cuidados neonatais imediatos, não constituindo episódios de doença comparáveis aos observados nas restantes idades.

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    Foto: Olivia Anne Snyder.

    Acresce que uma parte dos nascimentos ocorre fora do Serviço Nacional de Saúde, pelo que a comparação directa entre internamentos neonatais do SNS e população residente produziria um indicador metodologicamente enviesado. O risco de internamento associado à doença começa, assim, de forma maioritária, apenas a partir do primeiro ano de vida.

    Deste modo, a análise do PÁGINA UM à base de dados, através da plataforma CORPUS, deixa de ser apenas um registo administrativo da actividade hospitalar, passando a funcionar como um retrato da evolução biológica da população portuguesa. Não acompanha as mesmas pessoas desde o nascimento até à velhice, mas a dimensão da amostra permite reconstruir, com elevado grau de robustez, aquilo que poderá designar-se por uma biografia epidemiológica dos portugueses.

    CAPÍTULO I — NASCER NÃO É ADOECER

    O primeiro internamento da vida raramente resulta de uma doença. Resulta, simplesmente, do facto de nascer

    Existe uma idade que desafia todas as leituras simplistas da actividade hospitalar: os zero anos. Qualquer observador que percorra rapidamente a base de dados concluirá que nenhum outro momento da vida concentra tantos internamentos. Em 2024, os hospitais do Serviço Nacional de Saúde registaram 77.133 episódios hospitalares, envolvendo 67.874 recém-nascidos, números muito superiores aos observados em qualquer outra idade simples. A conclusão intuitiva seria imediata: o primeiro ano de vida constitui o período de maior vulnerabilidade clínica, mesmo se a taxa de mortalidade infantil e agora de cerca de três óbitos por mil nados-vivos. Mas seria também profundamente errada.

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    Foto: Alex Hockett

    O aparente paradoxo desfaz-se logo que se observa aquilo que está a ser contado. Dos mais de 77 mil episódios hospitalares registados em 2024 nesta idade, 64.133 tiveram como diagnóstico principal o nascimento (“Liveborn”). Não representam doença, epidemias pediátricas nem qualquer agravamento do estado de saúde da população. Correspondem, simplesmente, ao facto de milhares de crianças começarem a vida num hospital público. Aquilo que a estatística contabiliza não é, portanto, uma explosão de patologia neonatal; contabiliza um dos acontecimentos mais universais da condição humana: nascer.

    Este aspecto merece alguma atenção porque ilustra uma limitação frequente das estatísticas administrativas. Os hospitais registam actividade clínica, pelo que um parto corresponde a um episódio de internamento, tal como corresponde uma pneumonia, uma fractura ou uma cirurgia cardíaca. A classificação é correcta do ponto de vista administrativo. Torna-se insuficiente quando o objectivo consiste em compreender a evolução da doença ao longo da vida. Misturar nascimentos com episódios patológicos produziria uma imagem profundamente distorcida da realidade epidemiológica.

    Foi por essa razão que os recém-nascidos ficaram excluídos do cálculo da probabilidade de internamento apresentado nesta investigação. Não faria sentido comparar o número de bebés internados com a população residente para estimar o risco de adoecer, quando a esmagadora maioria daqueles internamentos resulta apenas do nascimento.

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    Foto: Khoa Pham

    Acresce uma segunda razão metodológica. A base de dados utilizada integra exclusivamente a actividade dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde, enquanto uma parte dos nascimentos ocorre em unidades privadas. O denominador e o numerador deixariam, assim, de representar exactamente o mesmo universo estatístico. A solução mais rigorosa consistiu em separar aquilo que corresponde ao nascimento daquilo que corresponde à doença.

    Esta opção metodológica acaba também por revelar uma transformação silenciosa da própria sociedade portuguesa. Durante uma parte significativa do século XX, milhares de portugueses nasceram em casa, assistidos por parteiras ou por médicos chamados à última hora. O parto hospitalar era frequentemente reservado às situações mais difíceis ou às famílias que viviam nas grandes cidades. Hoje sucede o contrário.

    Nascer num hospital tornou-se a regra e o parto domiciliário uma realidade residual. Aquilo que surge registado na base de dados não documenta apenas actividade clínica, mostrando uma das mais profundas mudanças ocorridas na organização da saúde materna e infantil em Portugal ao longo das últimas décadas.

    Bébe
    Foto: Tim Bish.

    Nem todos os internamentos do primeiro ano de vida correspondem ao nascimento. Ultrapassados os primeiros dias, ou em alguns casos específicos, começam a surgir as primeiras doenças que acompanharão a infância.

    A bronquite aguda constitui o principal diagnóstico patológico em recém-nascidos, com 2.864 episódios, seguindo-se diversas afecções do período perinatal, complicações respiratórias e outras situações clínicas próprias dos primeiros meses de vida. São números ainda modestos quando comparados com o universo dos nascimentos, mas suficientemente expressivos para recordar que o sistema imunitário inicia aqui uma aprendizagem que prosseguirá durante vários anos. Cada infecção representa, em simultâneo, uma doença e um processo de maturação biológica.

    Também o número médio de internamentos ajuda a compreender esta realidade. Os 67.874 recém-nascidos originaram 77.133 episódios hospitalares, correspondendo a 1,14 internamentos por criança. Trata-se de um dos valores mais baixos observados ao longo de toda a vida. O significado deste indicador é simples: a esmagadora maioria dos bebés entra uma única vez no hospital, nasce e regressa depois a casa.

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    Foto: Ludo-Photos

    Nas décadas seguintes, a relação com o hospital mudará profundamente. Haverá menos pessoas internadas, mas aumentarão, de forma progressiva, os regressos dos mesmos doentes, até que, na velhice, a repetição dos internamentos se transforme numa das principais características da actividade hospitalar.

    Existe ainda uma curiosidade que ajuda a compreender toda a lógica desta investigação. Embora os recém-nascidos concentrem o maior número absoluto de internamentos, esta não é a idade em que a doença assume maior importância. Pelo contrário. A fase da vida que mais utiliza os hospitais é, simultaneamente, aquela em que a patologia tem menor peso relativo. Esta é uma inversão que obriga a olhar para os dados com alguma prudência e que mostra como as estatísticas, quando não são bem interpretadas, podem contar uma história muito diferente da realidade.

    Basta avançar um único aniversário para que os internamentos diminuam mais de 90%. A partir do início do segundo ano de vida – ou seja, quando se tem um ano, inicia-se então a verdadeira biografia epidemiológica dos portugueses. E o primeiro grande protagonista dessa história não será um órgão, nem uma especialidade médica, mas um conjunto de vírus e bactérias que, durante vários anos, farão do aparelho respiratório a principal porta de entrada das crianças nos hospitais públicos portugueses.

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    Foto: Izabelly Marques

    CAPÍTULO II — A INFÂNCIA RESPIRATÓRIA

    Durante quase uma década, o maior inimigo das crianças portuguesas entra pelo aparelho respiratório

    A partir do primeiro aniversário, a estatística hospitalar sofre uma transformação tão brusca que quase parece pertencer a outra base de dados. O número de internamentos desce de 77.133 para 4.898 episódios, uma redução superior a 93%, enquanto o número de crianças internadas cai de 67.874 para 4.020. Nenhuma outra idade apresenta uma alteração tão abrupta.

    Aquilo que surge a seguir dificilmente surpreenderá qualquer pediatra, mas talvez surpreenda muitos leitores – ou talvez não, tendo em conta que grande parte teve filhos. Durante toda a primeira infância, as doenças respiratórias dominam de forma quase absoluta a actividade hospitalar. A bronquite aguda ocupa o primeiro lugar aos um ano, com 521 internamentos, seguindo-se a pneumonia, com 453 episódios, e as infecções intestinais.

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    Foto: Michal Bar Haim.

    Aos dois anos, a pneumonia sobe à primeira posição. Nos anos seguintes alternam-se bronquiolites, bronquites, pneumonias e amigdalites, mas o padrão mantém-se praticamente inalterado: o aparelho respiratório transforma-se na principal porta de entrada das crianças nos hospitais portugueses.

    Seria tentador concluir que as crianças portuguesas adoecem mais do que os adultos. Os dados não permitem retirar essa conclusão. Aquilo que mostram é algo bastante diferente. Durante os primeiros anos de vida, o sistema imunitário encontra-se numa fase intensa de aprendizagem. Cada contacto com um vírus respiratório representa, ao mesmo tempo, uma infecção e um exercício de construção da memória imunológica.

    O organismo aprende a reconhecer agentes infecciosos que o acompanharão durante o resto da vida e aquilo que os hospitais registam corresponde apenas à pequena fracção dessas infecções que, pela sua gravidade ou pelas características da criança, acabam por justificar internamento.

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    Foto: Yuri Li.

    Também a própria organização da vida moderna contribui para esta realidade. A entrada precoce nas creches, nos jardins-de-infância e, pouco depois, na escola aumenta bastante o número de contactos entre crianças e facilita a circulação dos vírus respiratórios.

    Paradoxalmente, aquilo que constitui um importante factor de socialização representa também um dos principais mecanismos de transmissão das infecções típicas da infância. Os hospitais acabam por registar apenas a consequência mais visível de um fenómeno epidemiológico muito mais vasto, que todos os Invernos se repetem em quase todo o país.

    Importa também notar aquilo que não aparece nestes números. Apesar da elevada frequência das infecções respiratórias, a utilização do hospital continua a ser relativamente pouco intensa quando observada do ponto de vista individual. Aos um ano, os 4.020 doentes originaram 4.898 internamentos, correspondendo a cerca de 1,22 episódios por criança.

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    Foto: Mufid Majnun.

    Este valor mantém-se estável ao longo da infância e revela uma característica fundamental desta fase da vida: a maioria das crianças entra uma única vez no hospital, resolve o problema clínico e regressa à vida normal. Ainda estamos muito longe da realidade observada décadas mais tarde, quando os mesmos doentes passavam pelas enfermarias devido à evolução de doenças crónicas em idade pediátrica.

    Há, contudo, uma evolução que merece atenção. À medida que as crianças crescem, as pneumonias e as bronquiolites começam a perder protagonismo. Não desaparecem, mas deixam de dominar a actividade hospitalar com a mesma intensidade. Em contrapartida, ganham importância as amigdalites, que passam a surgir com frequência crescente entre os principais diagnósticos.

    Esta alteração possui também um significado clínico. Enquanto uma pneumonia conduz quase sempre a um internamento urgente, uma parte significativa das amigdalectomias resulta de actividade cirúrgica programada. O hospital deixa, assim, de responder apenas à urgência infecciosa e passa a corrigir problemas acumulados ao longo dos primeiros anos de vida.

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    Foto: Marisa Howenstine.

    Esta sucessão de pequenas mudanças ajuda igualmente a perceber as limitações dos tradicionais escalões etários. Quando se afirma que “as doenças respiratórias predominam na infância”, a afirmação é verdadeira, mas esconde quase tudo o que realmente acontece.

    Entre o primeiro e o oitavo aniversário mudam sucessivamente os diagnósticos mais frequentes, alteram-se as razões do internamento, cresce o peso da cirurgia programada e começam mesmo a aparecer os primeiros traumatismos associados às brincadeiras e à actividade física. A infância está longe de constituir um bloco homogéneo. Também ela possui uma cronologia epidemiológica própria.

    Talvez seja esta uma das primeiras lições da reportagem. As doenças não mudam apenas entre gerações. Mudam também dentro da própria infância. A transição faz-se lentamente, quase sem que alguém se aperceba, até que, por volta dos nove anos, um pequeno órgão abdominal assume inesperadamente o protagonismo das estatísticas hospitalares.

    E, durante quase uma década, nenhuma outra patologia conseguirá afastá-lo desse lugar.

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    Foto: Charlein Gracia.

    CAPÍTULO III — A DÉCADA DA APENDICITE

    Porque razão um órgão com poucos centímetros domina os hospitais durante quase dez anos?

    A epidemiologia raramente produz fronteiras definidas. O envelhecimento não acontece de um dia para o outro, tal como a infância não termina à meia-noite do dia anterior ao nono aniversário. Ainda assim, quando se analisam quase 900 mil internamentos distribuídos idade a idade, começam a surgir pontos de inflexão nítidos para que deixem de poder ser atribuídos ao acaso.

    Um desses momentos ocorre entre os oito e os nove anos. Depois de uma infância quase dominada pelas doenças respiratórias, um pequeno órgão abdominal passa a ocupar o primeiro lugar entre os motivos de internamento. A mudança é tão consistente que acaba por definir praticamente toda a adolescência hospitalar portuguesa.

    A partir dos nove anos, a apendicite aguda assume a liderança dos diagnósticos principais de internamento. Nos episódios do ano de 2024 para essa idade registaram-se 175 episódios; para as crianças de 10 anos contaram-se 136; de 11 foram 156; de 12 atingiram 145; de 13 contabilizaram-se 151; de 14 somaram-se 173; de 15 atingiram 190; de 16 diminuíram para 171; e de 17 anos fixaram-se em 169 internamentos.

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    Foto: Creative Christians.

    Poucas doenças apresentam uma permanência tão estável ao longo de um período tão alargado da vida. Não porque a apendicite seja especialmente frequente na população adolescente, mas porque nenhuma outra patologia consegue, durante quase uma década, ocupar de forma tão consistente o primeiro lugar entre as causas de hospitalização.

    A questão interessante não consiste, contudo, em saber quantas apendicites ocorreram. Consiste antes em perceber porque desaparecem as doenças que dominavam a infância. A resposta encontra-se menos na cirurgia do que na imunologia. Depois de vários anos de contacto contínuo com vírus respiratórios, o sistema imunitário adquiriu uma maturidade que reduz o risco das infecções que antes conduziam tantas crianças ao hospital.

    As pneumonias não desaparecem; simplesmente deixam de ser o principal problema clínico desta idade. Quando recuam, abrem espaço para outras patologias cuja frequência varia muito menos com a maturação do sistema imunitário.

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    Foto: Bermix Studio.

    Também a natureza da actividade hospitalar se altera de forma prfunda. Durante a infância, uma parte importante dos internamentos ocorria por infecções médicas tratadas com vigilância clínica e antibioterapia. A adolescência desloca, de forma progressiva, o centro de gravidade para a cirurgia de urgência. O diagnóstico deixa de depender sobretudo da evolução de uma infecção respiratória e passa pela rapidez com que se reconhece uma dor abdominal aguda. Muda o tipo de doente, muda a resposta clínica e muda até a organização dos serviços hospitalares envolvidos.

    Mas reduzir a adolescência à apendicite seria quase tão redutor como resumir a infância às bronquiolites. À medida que os adolescentes crescem, aumenta o peso dos traumatismos.

    As fracturas dos membros superiores e inferiores começam a surgir de forma recorrente entre os principais diagnósticos, acompanhando uma fase da vida marcada por maior autonomia, prática desportiva mais intensa, condução de velocípedes e motociclos, actividades recreativas de maior risco e um quotidiano diferente daquele que caracteriza uma criança de seis ou sete anos. A estatística acompanha, afinal, a própria transformação social da adolescência.

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    Foto: Tom Claes.

    Existe outro aspecto menos evidente, mas igualmente relevante. O número médio de internamentos por doente neste grupo etário mantém-se quase inalterado face à infância, situando-se em torno de 1,2 episódios por pessoa. Esta estabilidade possui um significado importante: o adolescente continua a relacionar-se com o hospital através de acontecimentos pontuais e quase sempre ‘acidentais’. Entra, é operado ou tratado e regressa à sua vida habitual. A doença crónica permanece quase ausente. O hospital continua a resolver episódios e ainda não acompanha trajectórias clínicas prolongadas.

    Também é no final desta fase da vida que surgem discretamente novos diagnósticos cuja importância ultrapassa a dimensão numérica. Entre os principais motivos de internamento começam a aparecer episódios relacionados com lesões auto-infligidas e intoxicações voluntárias, uma realidade quase inexistente na infância.

    Os números permanecem relativamente reduzidos quando comparados com a actividade cirúrgica ou traumatológica e não permitem retirar conclusões sobre tendências da saúde mental dos adolescentes portugueses. Ainda assim, possuem um significado que não deve ser ignorado. Pela primeira vez nesta viagem epidemiológica, o sofrimento psíquico adquire expressão suficiente para entrar entre os diagnósticos hospitalares mais frequentes. Não é ainda um fenómeno dominante, mas deixa de ser invisível.

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    Foto: Matthew Ball.

    Talvez a principal característica da adolescência seja, contudo, outra. Trata-se da última fase da vida em que a maioria dos internamentos continua associada a acontecimentos agudos, potencialmente resolvidos de forma definitiva. A insuficiência renal, a doença cardiovascular, as neoplasias, a osteoartrose ou a insuficiência cardíaca permanecem ainda muito distantes. O hospital continua a tratar problemas que começam e acabam. Poucos anos depois deixará progressivamente de ser assim.

    Porque a transição seguinte é, talvez, ou não, a mais surpreendente de toda esta investigação que continuaremos a publicar na próxima segunda-feira.

    ***

    N.D. No final desta investigação será anexado o relatório final do CORPUS.


  • PÁGINA UM mostra o que se passou nos hospitais na pior onda de calor deste século

    PÁGINA UM mostra o que se passou nos hospitais na pior onda de calor deste século


    Quando o termómetro sobe e as previsões, por vezes demasiado enfáticas, admitem a possibilidade de uma onda de calor, Portugal parece oscilar entre duas reacções de utilidade limitada: a dramatização imediata, que converte cada sucessão de dias quentes numa espécie de apocalipse meteorológico, e a indiferença resignada, que reduz o problema a uma recomendação genérica para beber água e evitar a exposição solar nas horas de maior calor.

    A realidade situa-se, contudo, num ponto menos confortável e mais exigente entre esses dois extremos. As ondas de calor não justificam o alarme permanente, mas também não podem ser tratadas como uma simples inconveniência sazonal, sobretudo num país envelhecido, com populações vulneráveis e serviços de saúde que, em períodos de maior pressão, revelam fragilidades conhecidas. A resposta mais sensata passa, por isso, não apenas pela prevenção individual — em especial entre os idosos, os doentes crónicos e as pessoas isoladas —, mas também por uma preparação efectiva das estruturas médicas e sociais chamadas a responder quando os efeitos do calor deixam de ser apenas meteorológicos.

    The thermometer shows a very hot temperature.
    Foto: Immo Wegmann.

    Daí a importância de olhar para trás e estudar os episódios mais críticos das últimas décadas. A experiência de 2003, associada à maior e mais intensa onda de calor desde que existem registos, aconselha uma terceira via: menos pânico, mais memória; menos retórica, mais preparação. A vaga que se prolongou entre 29 de Julho e 14 de Agosto desse ano — a mais longa registada em Portugal desde 1941, segundo o IPMA — deixou um rasto que os dados dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) ainda permitem reconstituir.

    Essa reconstrução não serve apenas para medir a dimensão de uma tragédia sanitária: permite perceber, sim, em que momentos e em que territórios a pressão assistencial se agravou, quais os grupos mais expostos e de que forma determinadas patologias responderam a temperaturas anormalmente elevadas. Num país em que o calor extremo tende a deixar de ser uma excepção estatística para se tornar uma contingência recorrente do Verão, conhecer esse passado constitui uma forma elementar de antecipar o que pode voltar a ocorrer — e de preparar melhor aquilo que, de outro modo, voltará a surpreender os mesmos serviços e a atingir as mesmas populações.

    Esta reconstituição de 2003 — e de muitos outros períodos — nunca foi estabelecida por nenhum Ministério da Saúde, mas pode agora ser executada através do Corpus — Observatório de Dados da Saúde do PÁGINA UM, uma plataforma construída a partir de cerca de 38,5 milhões de registos de internamentos no SNS entre 2000 e 2024. Esta extensa base de dados, obtida pelo PÁGINA UM após uma luta judicial de três anos no Tribunal Administrativo de Lisboa, permite cruzar hospital ou ULS, idade, sexo, local de residência, diagnósticos, procedimentos, duração dos episódios e destino clínico, incluindo a morte intra-hospitalar.

    Foto: PAV.

    O resultado agora divulgado pelo PÁGINA UM mais do que complementa aquilo que já se sabia desta vaga de calor de 2003, que terá causado, de acordo com um estudo posterior, cerca de dois mil óbitos em excesso entre 30 de Julho e 15 de Agosto, face à mortalidade esperada a partir das taxas verificadas no biénio 2000-2001. Alguns anos mais tarde, outro estudo apontou para quase 2.400 mortes em excesso, o equivalente a mais 58% do que seria expectável no período analisado.

    Mas a resposta hospitalar nunca foi analisada com detalhe. O único estudo conhecido foi publicado em 2011, tendo analisado a mortalidade de doentes internados antes do início da vaga de calor com base na presença ou ausência de ar condicionado nas enfermarias.

    Por isso, é neste aspecto que a análise do Corpus se destaca pela utilidade de permitir saber não apenas se, durante uma vaga de calor, aumentam as mortes nos hospitais, mas de que modo essa pressão se forma no interior do sistema: se resulta de uma afluência anormal de doentes, de uma degradação súbita do estado clínico de quem já se encontrava internado, de que patologias se agravam, em que idades se concentram os óbitos e com que intensidade se altera a mortalidade em cada grupo.

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    Foto: Ethan Rober.

    Nos 17 dias anteriores à onda de calor de 2003, entre 12 e 28 de Julho, os hospitais do SNS registaram 41.582 internamentos e 1.744 mortes intra-hospitalares. Durante os 17 dias da vaga, os internamentos subiram apenas 1,7%, para 42.305. O incremento é residual, mas as mortes, porém, passaram para valores muito significativos: 2.358 — mais 614, uma subida de 35,2%. A taxa de mortalidade hospitalar entre os dois períodos elevou-se de 4,19% para 5,57%.

    Não se conclui daqui que todos esses óbitos foram causados pelo calor, mas torna-se evidente que a vaga coincidiu com uma deterioração súbita da mortalidade hospitalar, sem um aumento comparável das admissões. Numa palavra, não entrou muito mais gente nos hospitais; quem lá estava, ou quem lá chegou, chegou em condições mais frágeis e descompensadas.

    Uma comparação com 2002 reforça o sinal, embora convenha dizer que este ‘confronto’ é apenas exploratório. O Corpus confrontou os 34 dias entre 12 de Julho e 14 de Agosto de 2003 com o mesmo período de 2002. Em 2003 houve 4.102 mortes intra-hospitalares; em 2002 contabilizaram-se 3.423. A diferença foi de 679 óbitos, ou 19,8%. Esse número não pode ser apresentado como “mortes causadas pela onda de calor”, porque inclui também os 17 dias anteriores ao seu início. Ainda assim, mostra que o período em que ocorreu a maior vaga de calor desde 1941 coincidiu com uma mortalidade hospitalar claramente superior à do mesmo calendário do ano anterior — e com um perfil de doença que dificilmente se explica por uma mera flutuação de verão.

    Os diagnósticos mais afectados, detectados pelo Corpus na base de dados dos internamentos hospitalares, também contam uma história fisiologicamente plausível. As perturbações de fluidos e electrólitos — que incluem casos de desidratação e desequilíbrios de sódio ou potássio — passaram de 160 para 399 internamentos, mais 149%; as mortes nessa categoria subiram de 13 para 50. A insuficiência renal aguda passou de 75 para 171 episódios, com as mortes a aumentar de 10 para 23. A pneumonia cresceu de 966 para 1.350 internamentos e de 196 para 359 mortes.

    Os episódios de perda acentuada de líquidos, clinicamente classificados como deplecção de volume, mais do que triplicaram, passando de 99 para 313 episódios, enquanto as mortes associadas subiram de nove para 48. O golpe de calor propriamente codificado apareceu apenas em 17 internamentos, mas isso não prova a sua raridade: nos registos clínicos, o calor surge, com frequência, escondido atrás do diagnóstico que precipitou — insuficiência renal, pneumonia, septicemia, febre ou perturbação electrolítica — e não como agente ambiental inscrito na primeira linha do processo.

    A idade dos internados ajuda, de igual modo, a perceber onde se concentra a vulnerabilidade em casos de onda de calor. Neste evento meteorológico de 2003, em comparação com o período homólogo anterior, no grupo etário entre os 65 e os 74 anos, as mortes hospitalares subiram de 390 para 516; entre os 75 e os 84, de 583 para 813; e, entre os maiores de 85 anos, de 347 para 546. A taxa de mortalidade intra-hospitalar por todas as causas neste último grupo passou de 18,99% para 23,04%.

    Este detalhe torna-se mais relevante porque Portugal de 2026 não é o Portugal de 2003. Há pouco mais de duas décadas, a população com 65 ou mais anos rondava 1,7 milhões de pessoas; em 2024, ultrapassava 2,6 milhões.

    As gerações que então integravam a faixa dos 65 aos 74 anos ocupam agora, em grande parte, as idades de maior vulnerabilidade. A próxima vaga de calor encontrará, portanto, uma população muito mais envelhecida, mais medicada, frequentemente mais isolada e, em muitos casos, dependente de habitações que retêm o calor durante a noite.

    Saliente-se que as ferramentas de análise do Corpus possibilita análises ainda mais finas sobre determinados eventos, tendo mesmo capacidade de obter informação ao nível de unidade local de saúde (ULS) e mesmo de residência do internamento, o que permitiria apurar as regiões e zonas que sofreram o maior impacte da onda de calor de 2003. A plataforma do Corpus será lançada pelo PÁGINA UM previsivelmente no início do mês de Julho.

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    Foto: Engin Akyurt

    Este tipo de análise pretende dar pistas para medidas preventivas, mas não pretende, pelo contrário, transformar cada Verão, como agora sucede em parte da comunicação social, numa campanha de medo. Exige que se saiba onde estão as pessoas mais vulneráveis antes de a temperatura subir: idosos que vivem sós, doentes renais, cardíacos ou respiratórios, pessoas polimedicadas, crianças muito pequenas, trabalhadores expostos e residentes em lares ou habitações sem capacidade de arrefecimento.

    Exige planos para reforçar a vigilância nos cuidados primários, nos lares e nos hospitais; listas de contacto actualizadas; verificação da hidratação e das condições de ventilação; revisão clínica de situações de risco; disponibilidade de transporte e resposta rápida quando surgem os primeiros sinais de descompensação. A prevenção séria não começa na conferência de imprensa que anuncia o alerta amarelo. Começa meses antes, nos serviços de saúde, nos municípios, nas instituições sociais e nas redes familiares.

    Consulte aqui o relatório-síntese do Corpus sobre o impacte da onda de calor de 2003.

  • Lisboa perdeu quase seis mil pessoas em 2025 por causa das novas políticas migratórias e do custo da habitação

    Lisboa perdeu quase seis mil pessoas em 2025 por causa das novas políticas migratórias e do custo da habitação


    A mudança de política do Governo de Luís Montenegro no controlo das fronteiras e na regularização de imigrantes, conjugada com o agravamento contínuo dos custos da habitação, já produziu em 2025 uma alteração abrupta da dinâmica migratória portuguesa e da capacidade de atracção de alguns concelhos urbanos, com Lisboa à cabeça.

    De acordo com os mais recentes dados revelados pelo Instituto Nacional de Estatística na semana passada, relativos a 2025, e cruzando-os com a informação desde 2021, o saldo migratório nacional está em queda acentuada: passou de 216.629 pessoas, em 2024, para 70.862 no ano passado. Ou seja, menos 145.767 residentes em termos líquidos, ou uma redução de 67,3%. Se se considerar o pico máximo, registado em 2022, com um saldo migratório de 371.277, a queda é de 81%.

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    Lisboa regressou a saldos migratórios negativos. Foto: João Reguengos

    Mas é na análise dos saldos migratórios por concelho que se notam as maiores surpresas, com Lisboa a revelar uma ruptura ainda mais severa. A capital portuguesa passou, num único ano, de um saldo positivo de 10.403 pessoas para um saldo negativo de 5.886, uma deterioração de 16.289 residentes e uma inversão completa do sinal migratório. Em 2021, o saldo migratório em Lisboa chegou a atingir valores positivos impressionantes da ordem dos 58.869 indivíduos. Em apenas cinco anos, a capital passou a ser o município que mais atraía pessoas para aquele que mais as afasta.

    O significado do saldo migratório por concelho exige, porém, uma nota de rigor informativo. Um saldo migratório negativo de 5.886 não quer dizer que Lisboa tenha perdido esse número de pessoas para o estrangeiro. Na escala de um concelho, o indicador do INE mede a diferença entre entradas e saídas por migração, internacional ou interna. Inclui, assim, quem deixa a cidade para viver noutro país, mas também quem se muda para Odivelas, Sintra, Almada, Mafra ou qualquer outro município português; e soma quem chega a Lisboa do exterior ou de outro ponto do território.

    Assim, o saldo migratório por município permite concluir apenas se saíram mais pessoas da cidade, enquanto residência habitual, do que aquelas que nela passaram a fixar-se. Ao contrário do total nacional, onde os movimentos entre concelhos se anulam, o indicador municipal capta, assim, também a perda de residentes para a periferia e para outras regiões.

    Lisboa pode estar, assim, a sofrer em simultâneo a redução das entradas internacionais líquidas, num contexto de restrição dos mecanismos de regularização, e a incapacidade crescente para reter habitantes perante rendas, preços de compra e custos quotidianos que afastam residentes para zonas mais baratas. A estatística não separa automaticamente cada uma destas componentes, nem identifica nacionalidades, profissões ou destinos. Mostra, no entanto, uma consequência material: a capital deixou de compensar as partidas com novas entradas.

    No entanto, apesar de ser o município com maior perda em termos de saldo migratório, não é o único da Grande Lisboa que passou, em 2025, para valores negativos. Esta sub-região registou +116.477, em 2021, passando depois a descer progressivamente para +100.914, em 2022, +77.319, em 2023, e +56.494, em 2024, antes de cair para –4.381 em 2025. Entre os dois últimos anos, a deterioração foi de 60.875 pessoas.

    Num só ano, um território que ainda ganhava mais de 56 mil residentes por via migratória passou a perder população líquida. A mudança não cabe, por isso, na explicação simples segundo a qual Lisboa apenas transferiu moradores para os concelhos vizinhos. Se assim fosse, a sub-região continuaria a conservar uma vantagem migratória robusta.

    Odivelas também registou saldo migratório negativo (-2.108) em 2025, depois de ter atingido valores largamente positivos nos anos anteriores, com +11.637 em 2021. Fonte: CMO.

    Os dados municipais na Grande Lisboa mostram que a contracção ultrapassou as fronteiras administrativas da capital portuguesa, pelo que haverá aqui um peso forte de pessoas que saíram para o estrangeiro sem serem compensadas por novos imigrantes. Por exemplo, Odivelas passou de um saldo migratório de +7.093, em 2024, para –2.108, em 2025, enquanto Cascais passou de +3.201 para –1.165.

    Mesmo o concelho de Sintra, apesar de manter ainda saldo positivo, caiu de +12.614 para +2.001, uma redução de 10.613 pessoas entre 2024 e 2025. A Amadora, por sua vez, desceu de +8.085 para apenas +120, enquanto Loures passou de +8.415 para +848. A quebra atinge, portanto, a cidade e a sua periferia imediata, ainda que com intensidades diferentes. Menor entrada directa do estrangeiro, redistribuição territorial, encarecimento habitacional e emprego menos estável são explicações que podem coexistir, em proporções diversas, em cada concelho.

    A tendência não se confina à área de Lisboa. No Algarve, Albufeira passou de +2.085 para –191 e Faro de +1.705 para –4; Odemira caiu de +302 para –786 e Aljezur de +238 para –42. No Norte, o Porto reduziu o saldo de +7.830 para apenas +415, Braga de +3.185 para +50 e Vila Nova de Gaia de +4.314 para +1.964.

    A amplitude territorial é clara: dos 308 concelhos, 225 já apresentaram em 2025 um saldo migratório inferior ao do ano anterior, enquanto o número de concelhos com saldo negativo aumentou de seis para 21. Em muitos destes territórios, sobretudo nos concelhos turísticos ou dependentes de trabalho sazonal, a dificuldade de acesso à habitação também funciona há muito como barreira à fixação.

    Seria imprudente atribuir, sem estudos mais concretos, um peso relativo definido à política migratória, às condições de emprego ou à crise da habitação. O saldo migratório não mede vistos emitidos, autorizações de residência, processos administrativos ou travessias de fronteira; também não permite determinar se a redução das entradas ou o aumento das saídas resultam da escassez e precariedade do emprego, da subida dos preços de aquisição das casas ou do agravamento das rendas. Contabiliza apenas a diferença entre os residentes que entraram e os que saíram do território de referência.

    Ainda assim, a coincidência entre uma orientação governamental mais restritiva no controlo das fronteiras e nos mecanismos de regularização, a queda de 67,3% do saldo migratório nacional e a passagem de Lisboa e da Grande Lisboa para valores negativos não pode ser ignorada.

    a couple of people walking across a street
    Foto: Samuel Regan-Asante

    Menos entradas, maior incerteza administrativa, emprego precário e uma habitação progressivamente inacessível. Certo é que Portugal não deixou ainda de ser um país de imigração líquida, fenómeno que se iniciou no final da década passada.

    Mas já deixou de viver, pelo menos por agora, o ciclo de expansão migratória dos anos anteriores, com o seu auge durante os governos de António Costa. E Lisboa, que durante esse ciclo funcionou como porta de entrada, local de passagem e espaço de fixação, tornou-se em 2025 o sinal estatístico mais claro de que a combinação entre a nova política migratória e a crise da habitação começou a cobrar um preço demográfico.

  • Renda mediana no litoral alentejano mais do que duplicou em cinco anos

    Renda mediana no litoral alentejano mais do que duplicou em cinco anos


    Entre 2020 e 2025, as rendas medianas dos novos contratos de arrendamento mais do que duplicaram em Sines, Grândola e Santiago do Cacém, os três municípios que constituem hoje o epicentro da pressão imobiliária do litoral alentejano. Os dados do ano passado, divulgados esta sexta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), confirmam um mercado do arrendamento a sofrer uma profunda transformação com aumentos muito acima da taxa de inflação.

    Num contexto nacional em que a renda mediana passou de 5,79 euros por metro quadrado (m²) em 2020 para 9,29 euros em 2025 – um crescimento de 60,4% em apenas cinco anos –, o município de Sines registou um aumento de 130% (5,63 euros para 12,95), Grândola de 123,3% (4,84 euros para 10,81) e Santiago do Cacém de 102%, valores muito superiores ao crescimento nacional, que se ficou pelos 60,4%.

    O concelho de Sines apresenta o maior crescimento relativo nos últimos cinco anos das rendas medianas dos novos contratos Foto: CMS.

    No entanto, em termos absolutos, e analisando ao nível das freguesias, a cidade de Lisboa está com valores de rendas medianas proibitivos para a maioria das bolsas. Com efeito, no top 20 com rendas medianas mais elevadas encontram-se 17 freguesias alfacinhas, lideradas por Santo António com um valor em 2025 de 20,94 euros/m². Ou seja, a mediana do arrendamento de um apartamento de 100 metros quadrados já ultrapassa os 2.000 euros por mês.

    Seguem-se Misericórdia, com 19,64 euros/m²; Estrela, com 19,24 euros/m²; Campo de Ourique, com 18,88 euros/m²; Santa Maria Maior, com 18,61 euros/m²; Ajuda, com 18,43 euros/m²; Parque das Nações, com 18,33 euros/m² e Campolide, com 18,28 euros/m². Apenas na nona posição surge uma freguesia fora da capital: a União das Freguesias de Cascais e Estoril, com 18,09 euros/m². O top 10 é fechado por outra freguesia lisboeta: São Vicente, com 17,88 euros/m².

    Seguem-se depois mais freguesias maioritariamente lisboetas: Avenidas Novas, com 17,86 euros/m²; Marvila, com 17,16 euros/m²; União das Freguesias de Carcavelos e Parede (concelho de Cascais), com 16,83 euros/m²; Alcântara, com 16,68 euros/m²; Carnide e Belém, ambas com 16,67 euros/m²; União das Freguesias de Oeiras e São Julião da Barra, Paço de Arcos e Caxias (concelho de Oeiras), com 16,57 euros/m²; Penha de França, com 16,44 euros/m²; Arroios, com 16,36 euros/m²; e Olivais e Beato, ambas com 16,00 euros/m².

    A chamada renda mediana corresponde ao valor que divide os novos contratos de arrendamento em duas metades iguais: metade dos contratos apresenta um valor inferior e a outra metade um valor superior. Ao contrário da média, a mediana não é distorcida por contratos excepcionalmente elevados, sendo por isso considerada o melhor indicador para medir a evolução efectiva dos preços praticados no mercado.

    Mas voltando para os maiores crescimentos relativos a nível concelhio, caso do litoral alentejano assume particular relevância porque dificilmente poderá ser explicado apenas pela dinâmica turística que marcou outras regiões do país. A instalação de grandes investimentos industriais e logísticos, o desenvolvimento do porto de Sines, a expansão dos projectos ligados ao hidrogénio verde, aos centros de dados e às infra-estruturas energéticas provocaram uma procura habitacional sem precedentes numa região cuja oferta de habitação permaneceu relativamente limitada.

    O resultado foi uma rápida escalada dos preços, afectando não apenas Sines mas também os concelhos vizinhos de Grândola e Santiago do Cacém, que passaram a funcionar como áreas residenciais de apoio a essa transformação económica.

    Freguesia de Santo António, em Lisboa, tem o valor mediano das rendas de novos contratos mais elevado de Portugal. Fonte: D.R.

    Depois destes três municípios surgem Miranda do Corvo (+107,6%), Calheta, na Madeira (+99,7%), Batalha (+93,9%), Óbidos (+93,6%), Bombarral (+91,2%), Santa Cruz, na Madeira (+90%), e Funchal (+87,8%), confirmando que a valorização do mercado do arrendamento resulta de fenómenos distintos conforme os territórios: pressão turística, expansão urbana, procura externa ou instalação de grandes investimentos.

    No extremo oposto encontram-se municípios onde o mercado praticamente estabilizou. Vila Viçosa (+14,3%), Vila Pouca de Aguiar (+17,4%), Borba (+18,2%), Mogadouro (+18,2%), Horta (+23,8%), Celorico da Beira (+24,5%), Serpa (+24,8%), Redondo (+25,6%), Ferreira do Alentejo (+28,8%) e Mirandela (+29,3%) apresentam os menores crescimentos relativos do país, revelando mercados imobiliários menos pressionados pela procura.

    Nas sedes de distrito observa-se igualmente uma geografia muito diferenciada. As maiores subidas verificaram-se em Santarém (+74,8%), Setúbal (+65,8%), Viana do Castelo (+61,6%), Viseu (+60,4%) e Guarda (+59,2%), enquanto Portalegre (+31,6%), Vila Real (+45,8%), Lisboa (+46,3%), Faro (+47,4%) e Bragança (+47,9%) registaram as menores variações relativas.

    Viola Viçosa é o concelho com menor crescimento relativo das rendas medianas entre 2020 e 2025. Fonte: CMVV.

    No entanto, convém relembrar que aumentos percentuais tendem naturalmente a ser menores quando a base inicial já é muito elevada. Por exemplo, o acréscimo relativo da renda mediana em Lisboa foi de 46,3% mas correspondeu um aumento de 5,34 euros por metro quadrado em cinco anos, enquanto o acréscimo relativo em Santarém foi de 74,8%, mas correspondeu a um aumento de 3,08 euros por metro quadrado.  

    A leitura territorial permite igualmente distinguir ‘dois países’. No litoral, onde se concentram população, emprego e investimento, a valorização das rendas foi, em regra, muito superior à registada na maioria dos concelhos do interior, onde a procura habitacional continua condicionada pelo envelhecimento demográfico, pela perda de população e pela menor dinâmica económica. Não se trata apenas de uma diferença de preços, mas da manifestação de um processo de concentração territorial que se vem acentuando há décadas.

    Essa realidade é particularmente visível nas áreas metropolitanas. Na Área Metropolitana de Lisboa, os maiores aumentos ocorreram na periferia da capital: Moita (+80,1%), Barreiro (+70,2%), Mafra (+69,5%), Palmela (+67,2%), Seixal (+66,8%) e Setúbal (+65,8%). O fenómeno evidencia um movimento de deslocação residencial para municípios onde, apesar da forte valorização recente, a habitação continua relativamente mais acessível do que na capital.

    A hand is pointing at a small pink house
    Foto: Jakub Żerdzicki

    Na Área Metropolitana do Porto verifica-se uma tendência semelhante. Santo Tirso (+82,5%), Espinho (+70,2%), Trofa (+68,3%), Santa Maria da Feira (+67,9%) e Oliveira de Azeméis (+67,6%) lideram os aumentos, enquanto o próprio Porto cresce 57,5%, igualmente abaixo da média de muitos municípios periféricos.

    A evolução do mercado do arrendamento acaba, assim, por reflectir transformações económicas e sociais mais profundas. O aumento do investimento estrangeiro, a recuperação do turismo, a imigração, a escassez persistente de oferta habitacional, a lentidão dos processos de licenciamento urbanístico e a crescente concentração da actividade económica nas grandes áreas urbanas criaram um contexto em que a procura passou a crescer muito mais rapidamente do que a oferta.

    Em consequência, o arrendamento deixou de ser apenas um problema das grandes cidades para se transformar numa realidade que se estende a territórios até há poucos anos considerados periféricos.

    Foto: D.R.

    Os dados do INE mostram, por isso, que a crise da habitação deixou há muito de poder ser interpretada apenas através dos preços de Lisboa e do Porto. O mapa das rendas está hoje em rápida mutação, impulsionado por novos pólos de desenvolvimento económico e por alterações profundas na distribuição territorial da população.

    O litoral alentejano constitui talvez o exemplo mais evidente dessa mudança: uma região tradicionalmente afastada das grandes pressões imobiliárias tornou-se, em apenas cinco anos, um dos territórios onde o mercado do arrendamento mais rapidamente se valorizou em todo o país.

  • Morte e nascimentos: Sintra e Lisboa estão nos extremos do saldo natural

    Morte e nascimentos: Sintra e Lisboa estão nos extremos do saldo natural


    É uma das faces, sendo a outra a política migratória, de um país com dificuldades em definir políticas demográficas. No ano passado registaram-se, segundo dados divulgados esta semana pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), mais 34.053 óbitos do que nascimentos, prolongando uma realidade demográfica que se arrasta praticamente desde o início da década de 1990 e que continua a comprometer a renovação geracional.

    Mas, por detrás deste saldo natural nacional muitíssimo negativo, escondem-se duas realidades municipais completamente opostas. De um lado, Sintra, que registou um saldo natural positivo de 1.305 pessoas, o mais elevado do país; do outro, Lisboa, com um saldo natural de -1.019, o pior resultado entre os 308 municípios portugueses. Nunca o contraste entre duas grandes realidades urbanas a poucos quilómetros de distância foi tão expressivo.

    Nascimentos muito continuam sem compensar os óbitos. Fito: D.R.

    Os dados divulgados pelo INE mostram que Sintra constitui hoje um verdadeiro caso excepcional no panorama demográfico português. Num país marcado há décadas por uma persistente incapacidade para assegurar a substituição de gerações, o município sintrense destaca-se como um autêntico contraciclo demográfico. O seu saldo natural positivo supera largamente o de qualquer outro concelho português e representa, por si só, quase quatro vezes o registado pelo segundo município da lista, o Seixal (+353).

    Esta realidade torna-se ainda mais evidente quando se observa o conjunto do território nacional. Dos 308 municípios portugueses, apenas 18 conseguiram registar mais nascimentos do que óbitos em 2025. E mesmo entre estes, 10 apresentam saldos naturais positivos absolutos residuais, inferiores a uma centena de pessoas, o que demonstra como a capacidade de crescimento natural da população se tornou um fenómeno raro e territorialmente muito concentrado.

    Depois de Sintra surgem bastante atrás Seixal (+353), Amadora (+316), Odivelas (+284), Vila Franca de Xira (+234) e Loures (+158), confirmando que a Área Metropolitana de Lisboa continua a concentrar praticamente todos os municípios com maior dinamismo demográfico. As principais excepções são Braga (+205), Albufeira (+82), Ribeira Grande (+54), Entroncamento (+49), Lousada (+38), Vizela (+30), Paços de Ferreira (+13), Lagoa, nos Açores (+12), Trofa (+7) e Câmara de Lobos (+1).

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    Apenas 18 municípios assistem a mais momentos de alegrias pelos nascimentos do que de tristeza pelas mortes. Foto: D.R.

    No extremo oposto encontra-se Lisboa, seguida do Porto, que também apresenta um dos saldos naturais mais negativos do País. Completam o grupo dos dez municípios com piores resultados Funchal, Matosinhos, Coimbra, Cascais, Vila Nova de Gaia, Gondomar, Figueira da Foz e Castelo Branco.

    Embora o envelhecimento demográfico constitua o principal factor explicativo destes resultados, a distribuição territorial dos saldos naturais revela igualmente o impacto crescente das condições socioeconómicas sobre a natalidade.

    Nas grandes áreas urbanas, sobretudo nos municípios centrais, o aumento continuado dos preços da habitação, a escassez de oferta acessível para compra ou arrendamento e a precariedade laboral que afecta uma parte significativa dos jovens adultos têm vindo a adiar a constituição de família e a decisão de ter filhos.

    Em muitos casos, os casais acabam por abandonar os centros urbanos, procurando municípios periféricos onde o custo da habitação é mais compatível com o rendimento disponível e onde conseguem encontrar melhores condições para iniciar um projecto familiar.

    Esta dinâmica ajuda a explicar porque razão vários municípios da Área Metropolitana de Lisboa apresentam hoje os saldos naturais mais favoráveis do País, enquanto Lisboa surge precisamente no extremo oposto da classificação. Não significa que a capital tenha deixado de atrair população; pelo contrário, continua a receber residentes nacionais e estrangeiros.

    Contudo, a sua estrutura etária tornou-se progressivamente mais envelhecida e menos propícia à natalidade, ao mesmo tempo que muitas famílias jovens se deslocaram para concelhos vizinhos como Sintra, Seixal, Odivelas, Loures ou Vila Franca de Xira.

    O resultado é uma geografia demográfica em que o crescimento natural da população tende a deslocar-se para as periferias metropolitanas, enquanto os centros urbanos enfrentam um défice persistente de nascimentos que dificilmente poderá ser invertido sem alterações profundas nas políticas de habitação, de apoio à família e de ordenamento do território.

    Foto: D.R.

    Importa, contudo, recordar que o saldo natural corresponde apenas à diferença entre nascimentos e óbitos. A evolução efectiva da população depende também do saldo migratório, isto é, da diferença entre entradas e saídas de residentes.

    A soma destas duas componentes determina o chamado saldo demográfico ou variação populacional. É precisamente graças ao saldo migratório positivo que Portugal continua a aumentar ligeiramente a sua população, apesar de registar, ano após ano, um défice muito significativo de nascimentos relativamente aos óbitos.

  • Registos oficiais mostram 924 quedas de doentes acamados nos hospitais do SNS em apenas cinco anos

    Registos oficiais mostram 924 quedas de doentes acamados nos hospitais do SNS em apenas cinco anos


    Entre 2020 e 2024 foram registados nos hospitais do SNS pelo menos 924 episódios de internamento em que existem indícios consistentes de queda da cama já ocorrida em contexto hospitalar. Em termos estatísticos representa 15 quedas graves em cada mês. Em 186 desses internamentos, o doente acabou por morrer antes da alta, o que corresponde a uma mortalidade intra-hospitalar de 20,1%. Ou seja, aproximadamente um em cada cinco casos.

    Embora estes números – que podem ser apenas a ponta do icebergue – não signifiquem que a queda tenha sido a causa directa da morte, revelam uma extrema fragilidade clínica de muitos dos doentes afectados e a gravidade de um evento adverso que deveria ser evitável.

    a man laying in a hospital bed next to a monitor
    Foto: D.R.

    A análise destes números integra o projecto CORPUS — Observatório de Dados da Saúde, uma plataforma desenvolvida pelo PÁGINA UM e a lançar no início de Julho. A plataforma assenta na base de dados, nunca divulgada, do Ministério da Saúde composta por cerca de 38,5 milhões de episódios clínicos entre 2000 e 2024, cada um caracterizado por 82 variáveis distintas, totalizando mais de 1,27 mil milhões de células de dados preenchidas.

    A este volume acrescem cerca de 250 milhões de registos adicionais nas tabelas de diagnósticos e procedimentos em formato longo. Recorde-se que o PÁGINA UM obteve esta base de dados após três anos de luta judicial que implicou a intervenção do Supremo Tribunal Administrativo, apenas concluída com uma ameaça de multa pecuniária aos directores da Administração Central do Sistema de Saúde.

    Nesta análise a um dos problemas mais escondidos do quotidiano hospitalar – muitas famílias de vítimas nem sequer são informados destes eventos –, o CORPUS procurou responder, através da consulta à base de dados dos registos de internamentos, a uma questão simples, mas metodologicamente exigente: quantos doentes internados caíram de uma cama dentro de um hospital do SNS?

    Foto: PAV.

    A dificuldade reside no facto de o mesmo código clínico poder registar uma queda que ocorreu em casa, num lar ou na via pública, levando depois o doente a ser internado. Para evitar essa confusão, a análise do PÁGINA UM excluiu os casos em que o doente entrou no hospital já com uma lesão traumática compatível com queda e sem indicação de que o acidente ocorrera dentro da unidade hospitalar. Foram também excluídos os episódios com código de residência privada como local da queda.

    O universo final foi assim obtido através do código ICD-10 W06, correspondente a “queda da cama”, quando registado como diagnóstico secundário do internamento. A identificação foi depois dividida em dois grupos.

    O primeiro inclui 428 episódios confirmados, nos quais consta expressamente que o local da ocorrência foi o hospital — quarto de doente, casa de banho, corredor ou outro espaço hospitalar. O segundo reúne 496 episódios considerados prováveis: não têm registo explícito do local, mas o doente fora internado por doença médica, e não por traumatismo, tendo-lhe sobrevindo uma queda durante uma permanência hospitalar em média superior a 17 dias. Esta combinação permite isolar, com um grau elevado de confiança, situações de queda ocorridas já depois da admissão.

    building hallway with lights
    Foto: Visualss.

    Os resultados mostram uma realidade estável, embora preocupante. Em 2020 foram registados 190 episódios; em 2021 contabilizaram-se 181; em 2022 subiram para 214 — o valor mais elevado da série —; em 2023 situaram-se nos 195; e em 2024 contaram-se 144. A quebra no último ano deve ser lida com prudência, pois poderá reflectir subcodificação ou dados ainda incompletos.

    A taxa de mortalidade associada a estes doentes variou entre 18,4% e 21% ao longo de todo o período, sem uma tendência de melhoria clara. Em 2023, a demora média de internamento dos doentes com este tipo de quedas atingiu 25,5 dias, mais do triplo da média habitual de internamentos no SNS, o que sugere situações clínicas de elevada complexidade ou permanências prolongadas após o evento.

    O perfil dos doentes confirma essa vulnerabilidade. A idade média foi de 78,7 anos, salientando-se que 78% dos casos ocorreram em pessoas com 65 ou mais anos. A distribuição entre homens e mulheres foi equilibrada: 451 homens e 473 mulheres. A mortalidade foi particularmente elevada entre os doentes dos 65 aos 74 anos, onde atingiu 25,9%, e nos maiores de 85 anos, com 21,9%. O resultado indica que as quedas não afectam apenas idosos muito frágeis: nos grupos etários relativamente mais jovens, a queda parece surgir com frequência em doentes internados por patologias especialmente graves.

    doctors doing surgery inside emergency room
    Foto: Natanael Melchor

    Os diagnósticos principais dos episódios que terminaram em óbito mostram esse padrão. Apesar de existir uma grande variedade de doenças graves associadas a estes internados, a COVID-19 aparece em 18 casos fatais, seguida de pneumonia não especificada, com 12 óbitos. Surgem ainda doença cardíaca hipertensiva com insuficiência cardíaca, pneumonite por aspiração, insuficiência renal aguda, sépsis, AVC e internamentos em cuidados paliativos.

    Em todo o caso, a base de dados não permite estabelecer uma cadeia causal directa, ou seja, que foi a queda a causar a morte. Mas permite concluir que a queda ocorreu durante internamentos de alto risco, acrescentando um evento adverso a doentes já afectados por doença respiratória, cardiovascular, infecciosa ou neurológica grave.

    A distribuição por unidades locais de saúde revela diferenças importantes, embora nenhuma possa ser lida de forma isolada como uma classificação de segurança hospitalar, porque pode suceder que muitas unidades escondem estes eventos dos seus registos. A Unidade Local de Saúde (ULS) de Trás-os-Montes e Alto Douro registou o maior número de episódios no quinquénio, com 51, seguida da ULS do Tâmega e Sousa, com 44, da ULS do Oeste, com 39, e das ULS de Coimbra e de Braga, ambas com 38.

    a woman sitting in a wheel chair in a hospital
    Foto: MRC Témiscamingue.

    Entre as unidades com pelo menos duas dezenas de episódios, a mortalidade intra-hospitalar variou de 10,7% na ULS do Médio Tejo a 33,3% na ULS do Alto Alentejo. A ULS de Coimbra apresentou 11 óbitos em 38 episódios, uma taxa de 28,9%; a ULS do Algarve registou nove óbitos em 29 episódios, equivalente a 31%.

    Estes números, embora preocupantes por revelarem uma realidade escondida, devem ser observados com prudência. Hospitais que recebem doentes mais graves, que concentram determinadas especialidades ou que possuem uma cultura de codificação mais rigorosa podem surgir com mais episódios e com maior mortalidade sem que isso demonstre, por si, uma pior qualidade de cuidados.

    A própria proporção de casos confirmados por código de local hospitalar varia muito entre unidades, o que denuncia diferenças relevantes na forma de registar as causas externas e o local da ocorrência. Uma unidade com mais registos pode estar, simplesmente, a notificar melhor.

    Foto: D.R.

    A principal conclusão é, por isso, dupla. Por um lado, as quedas da cama em meio hospitalar são um evento adverso real, registado quase um milhar de vezes em cinco anos e associado a internamentos longos, idosos frágeis e uma mortalidade hospitalar elevada.

    Por outro, a análise expõe uma fragilidade persistente na codificação clínica: apenas 46% dos episódios possuíam indicação explícita de que a queda ocorrera no hospital. Sem registos completos, torna-se mais difícil saber onde, quando e em que circunstâncias estes acidentes acontecem — e, portanto, mais difícil preveni-los.

    ***

    Consulte o relatório síntese do Corpus sobre esta análise.

  • Wuhan: documentos secretos revelam investigação que torna fuga laboratorial (cada vez) mais plausível

    Wuhan: documentos secretos revelam investigação que torna fuga laboratorial (cada vez) mais plausível


    A directora da Inteligência Nacional dos Estados Unidos, Tulsi Gabbard, divulgou ontem, antes de abandonar o cargo por motivos de saúde do marido, um vasto conjunto de documentos desclassificados relacionados com a provável origem da pandemia da covid-19. E reacendeu com novos dados um dos debates científicos e políticos mais controversos dos últimos anos: a origem do SARS-CoV-2, o vírus responsável por uma crise sanitária sem precedentes no século XXI, denunciando atitudes e mentiras de Anthony Fauci, o antigo Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID).

    A divulgação, composta por quatro grupos documentais distintos, inclui relatórios científicos, comunicações internas, avaliações da comunidade de informações norte-americana e documentação relacionada com projectos financiados pelo Governo dos Estados Unidos.

    Em conjunto, embora com expurgos em várias partes alegadamente por razões de confidencialidade, os documentos constituem uma das mais extensas revelações oficiais realizadas até hoje sobre a investigação desenvolvida no Instituto de Virologia de Wuhan, na China, e sobre o papel desempenhado por entidades norte-americanas no financiamento dessa investigação.

    A publicação dos documentos ocorre num momento em que a hipótese de fuga laboratorial volta a ganhar protagonismo nos Estados Unidos, independentemente das questões ideológicas que sempre se atravessaram neste tema. Nos últimos anos, várias agências governamentais norte-americanas passaram a admitir que uma origem laboratorial da pandemia constitui uma possibilidade bastante plausível, embora sem consenso dentro da própria comunidade científica e comunicacional.

    Durante muito tempo, o debate foi frequentemente apresentado como uma escolha entre duas hipóteses quase ideológicas. A primeira defendia que o vírus teria surgido, de forma natural, como salto zoonótico, através da transmissão de um coronavírus de morcegos para seres humanos, eventualmente através de um animal intermediário. A segunda sustentava que um vírus em estudo no laboratório de Wuhan, o epicentro da pandemia, poderia ter escapado por acidente e iniciado a pandemia.

    Wuhan Institute of Virology, China.

    Os documentos agora divulgados não resolvem definitivamente esta questão. Contudo, alteram significativamente o contexto factual em que ela é discutida. Com efeito, entre os documentos mais relevantes encontra-se o relatório final de um projecto financiado pelo Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID), então dirigido por Anthony Fauci.

    O projecto, intitulado “Understanding the Risk of Bat Coronavirus Emergence” (“Compreender o Risco de Emergência de Coronavírus de Morcegos”), foi executado pela organização norte-americana EcoHealth Alliance, liderada por Peter Daszak, em colaboração com diversas instituições chinesas, incluindo o Instituto de Virologia de Wuhan. O objectivo oficial consistia em identificar coronavírus existentes em populações de morcegos, avaliar o risco de transmissão para seres humanos e estudar os mecanismos biológicos que poderiam facilitar esse processo.

    Para esse efeito, os investigadores recolheram milhares de amostras biológicas de morcegos em diversas regiões da China, realizaram estudos epidemiológicos em populações humanas expostas a esses animais e procederam à caracterização genética dos vírus encontrados. O relatório refere também a existência de evidência serológica de transmissão de coronavírus de morcegos para seres humanos em comunidades rurais chinesas. Em linguagem simples, isto significa que foram detectados anticorpos em pessoas que sugeriam contacto prévio com determinados coronavírus de origem animal, mesmo sem terem desenvolvido doença grave.

    Anthony Fauci no centro da polémica. Foto: D.R.

    Os próprios autores estimaram que poderiam ocorrer anualmente centenas de milhares ou mesmo mais de um milhão de infecções humanas por coronavírus de morcegos no sul da China e no Sudeste Asiático sem serem detectadas pelos sistemas tradicionais de vigilância epidemiológica.

    Mas o aspecto politicamente mais sensível dos documentos encontra-se na descrição das experiências laboratoriais realizadas. O relatório descreve ensaios com diversos coronavírus semelhantes ao vírus SARS original, responsável pela epidemia de 2002-2003. Entre os vírus estudados encontravam-se variantes identificadas por designações como WIV1, SHC014, WIV16 e Rs4231.

    Os investigadores terão utilizado ratinhos geneticamente modificados para expressarem o receptor humano ACE2 (enzima conversora da angiotensina 2), uma proteína presente em diversas células humanas que funciona como porta de entrada para vários coronavírus, incluindo o SARS-CoV-2. Segundo o relatório, todos os quatro coronavírus estudados foram capazes de provocar infecções letais nesses modelos experimentais, embora tal não significasse que fossem letais em seres humanos.

    O relatório descreve também experiências envolvendo os chamados vírus quiméricos, construídos em laboratório através da combinação de componentes genéticos provenientes de vírus diferentes. Tal como a criatura mitológica grega Quimera era composta por partes de vários animais, um vírus quimérico resulta da junção artificial de elementos genéticos distintos para estudar o seu comportamento biológico.

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    Foto: Lucas Vasques

    No caso descrito no relatório, foram produzidos vírus experimentais baseados no coronavírus MERS que causou a Síndrome Respiratória do Médio Oriente, nos quais foram inseridos segmentos genéticos provenientes de coronavírus encontrados em morcegos.

    Segundo os investigadores, alguns desses vírus conseguiram infectar células humanas em laboratório e replicar-se eficientemente. A conclusão dos próprios autores era clara: determinados coronavírus encontrados em morcegos apresentavam potencial para ultrapassar barreiras entre espécies e infectar seres humanos.

    Grande parte da controvérsia dos últimos anos centrou-se na expressão inglesa “gain of function”, traduzida para português como ganho de função. Embora não exista uma definição universalmente aceite, o termo é, por norma, usado para designar experiências destinadas a aumentar, modificar ou avaliar determinadas capacidades biológicas de um agente patogénico, como a capacidade de infectar células, adaptar-se a novos hospedeiros ou aumentar a sua transmissibilidade.

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    Foto: Maxime

    Durante anos, Anthony Fauci e vários responsáveis federais defenderam que os projectos financiados pelo NIAID não se enquadravam formalmente nessa categoria. Contudo, muitos especialistas em biossegurança consideram que experiências envolvendo a modificação genética de coronavírus, a criação de vírus quiméricos e a avaliação da sua capacidade de infectar células humanas correspondem, na prática, ao tipo de investigação que o público habitualmente associa ao ganho de função.

    Os documentos agora divulgados não encerram essa disputa, mas mostram de forma inequívoca que estavam a ser realizadas em Wuhan experiências destinadas a compreender como determinados coronavírus poderiam adquirir ou demonstrar capacidade de infectar organismos humanos.

    Em suma, a importância destes documentos reside tanto no que revelam como no que não revelam. Por um lado, demonstram que existia uma colaboração científica estruturada entre a EcoHealth Alliance e o Instituto de Virologia de Wuhan, que verbas federais norte-americanas financiaram investigação sobre coronavírus de morcegos antes da pandemia e que essa investigação não se limitava à recolha de amostras na natureza.

    woman in black shirt wearing black sunglasses
    Foto: D.R.

    Na verdade, incluía a construção de vírus quiméricos, testes de infectividade em células humanas e experiências com modelos animais humanizados, precisamente para avaliar a capacidade desses vírus ultrapassarem barreiras entre espécies e infectarem seres humanos.

    Em todo o caso, os documentos não demonstram que o SARS-CoV-2 tenha sido criado em Wuhan, nem que tenha existido um acidente laboratorial específico. A chamada ‘arma fumegante’, que apanha o ‘criminoso’ continua ausente, mas também porque a colaboração das autoridades chinesas tem sido complexa desde 2019.

    Apesar dessas limitações, os documentos possuem um impacto significativo no debate. Durante anos, um dos principais argumentos utilizados contra a hipótese de fuga laboratorial, que era considerada conspiracionista, consistia em afirmar que não existia evidência relevante de investigação em Wuhan susceptível de originar um acidente com consequências globais. Essa posição tornou-se agora mais difícil de sustentar. Ou mesmo impossível.

    Foto: D.R.

    Os documentos agora divulgados não provam que a pandemia resultou de uma fuga laboratorial. Contudo, alteram significativamente o equilíbrio factual do debate. Se não permitem concluir que ocorreu um acidente em Wuhan, permitem afirmar que existia naquele laboratório exactamente o tipo de investigação que poderia, em teoria, dar origem a um evento dessa natureza.

    Por outras palavras, a hipótese de fuga laboratorial pode continuar por demonstrar, mas deixou de poder ser descartada como uma mera especulação sem fundamento documental. Mais de seis anos após o início da pandemia, a questão já não é saber se existia em Wuhan investigação susceptível de justificar essa suspeita. Os documentos agora divulgados mostram que existia. A questão que permanece sem resposta é outra: se foi ou não daí que saiu o vírus que mudou o mundo.

  • Pandemia desvendada: 4.518 pessoas morreram com covid-19 que ‘apanharam’ nos hospitais

    Pandemia desvendada: 4.518 pessoas morreram com covid-19 que ‘apanharam’ nos hospitais


    Durante anos foi um dos grandes tabus da pandemia. Quantos doentes apanharam COVID-19 dentro dos próprios hospitais? Quantos morreram depois de terem sido infectados numa enfermaria, num serviço de urgência ou numa unidade de internamento onde procuravam tratamento para outra doença? E qual foi, afinal, o peso das infecções nosocomiais na actividade hospitalar portuguesa durante a pandemia?

    Nem a Direcção-Geral da Saúde (DGS) nem o Ministério da Saúde quiseram responder a estas perguntas quando o PÁGINA UM as colocou durante a pandemia. Mais do que isso: quando este jornal tentou obter informação detalhada sobre as infecções hospitalares por SARS-CoV-2 através dos mecanismos legais de acesso à informação administrativa, a resposta foi negativa. Mais tarde, também os tribunais administrativos acabariam por considerar que a DGS e o Ministério da Saúde não estavam obrigados a fornecer esses elementos.

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    Foto: engin akyurt

    Seis anos depois do início da pandemia, os dados acabam por surgir por uma via inesperada: a Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), que a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) foi obrigada por disponibilizar ao PÁGINA UM depois de um litígio judicial de cerca de três anos, que incluiu uma ameaça de aplicação de multa diária aos gestores públicos. agora, através do tratamento desta base de dados, o PÁGINA UM conseguiu construir uma estimativa nacional do fenómeno de infecção por COVID-19 em doentes que estavam internados por outras causas e identificar aquilo que durante anos permaneceu oculto do debate público.

    Esta análise integra o projecto CORPUS — Observatório de Dados da Saúde, uma plataforma desenvolvida pelo PÁGINA UM com base em 38,5 milhões de episódios clínicos entre 2000 e 2024, cada um deles caracterizado por 82 variáveis distintas, totalizando mais de 1,27 mil milhões de células de dados preenchidas. A este volume acrescem ainda cerca de 250 milhões de registos adicionais nas tabelas de diagnósticos e procedimentos em formato longo.

    No seu conjunto, estes dados cobrem um quarto de século de actividade hospitalar do Serviço Nacional de Saúde, permitindo acompanhar a trajectória clínica de cerca de 8,35 milhões de doentes únicos identificados. O CORPUS será disponibilizado em breve e permitirá realizar análises avançadas sobre internamentos, mortalidade hospitalar, doenças e desempenho das unidades de saúde.

    Hospital de Santarém: dos 3.281 registos de internamento entre 2020 e 2024, 1.020 foram infeccções ocorridas dentro do hospital em doentes internados por outras causas. Fonte: D.R.

    Os resultados agora revelados – uma das primeiras análise em curso pelo PÁGINA UM – mostram que entre 2020 e 2024 ocorreram pelo menos 30.406 episódios de provável aquisição nosocomial de COVID-19 nas Unidades Locais de Saúde (ULS) do SNS, num universo de 142.530 internamentos em que foi registado o diagnóstico de COVID-19. Mais impressionante ainda é o número de mortes associadas a estes casos: 4.518 óbitos intra-hospitalares.

    Trata-se de um valor que, por si só, justifica uma reflexão retrospectiva sobre um dos aspectos menos escrutinados da gestão da pandemia. Enquanto nos anos da pandemia a atenção pública e mediática esteve concentrada nas medidas de confinamento, no uso de máscaras, na vacinação ou na evolução diária dos casos, praticamente nada foi divulgado sobre a capacidade efectiva dos hospitais para evitar a transmissão do vírus entre doentes internados.

    A metodologia utilizada pelo PÁGINA UM procurou minimizar o risco de sobrestimação. Pelo contrário. Com efeito, foram considerados apenas episódios em que o diagnóstico confirmado de COVID-19 (código ICD-10 U071) surgia como diagnóstico secundário e não como motivo principal de internamento, sendo ainda definido como critério que o doente permanecesse internado pelo menos oito dias antes da identificação da infecção.

    Foto: D.R.

    O objectivo foi, assim, excluir situações em que o doente já pudesse estar infectado com COVID-19 à entrada do hospital, antes de ser internado por outra causa. Embora a metodologia não corresponda a um sistema formal de vigilância epidemiológica, constitui uma aproximação adequada e robusta ao fenómeno das infecções nosocomiais.

    Os dados revelam também uma transformação profunda ao longo da pandemia. Em 2020 e 2021, a esmagadora maioria dos internamentos com COVID-19 correspondia a doentes admitidos por causa da doença causada pelo SARS-CoV-2. Nesses dois anos, os casos nosocomiais representavam apenas 10,5% e 11,9% do total dos internamentos COVID. Porém, em 2022 ocorreu uma mudança abrupta. A proporção de casos de provável aquisição hospitalar saltou para 30,3%, atingindo 32,9% em 2023 e mantendo-se acima dos 31% em 2024. Em termos práticos, cerca de um em cada três internamentos com diagnóstico de COVID-19 passou a corresponder a uma infecção adquirida durante o internamento.

    A explicação parece residir numa conjugação de factores. Por um lado, a variante Ómicron, preponderante a partir do início de 2022, revelou uma capacidade de transmissão muito superior às variantes anteriores, facilitando a disseminação em ambiente hospitalar. Por outro, a menor gravidade clínica da doença reduziu drasticamente os internamentos motivados directamente por COVID-19, fazendo aumentar o peso relativo dos casos detectados entre doentes internados por outras patologias.

    Internamentos por COVID-19 por tipo de infecção (internamento por covid-19 com diagnóstico principal e por covid-19 nosocomial) e ano. Fonte: Base de dados nacional de internamentos hospitalares (GDH). Análise: CORPUS – Observatório de Dados em Saúde.

    Curiosamente, a evolução da mortalidade seguiu uma trajectória distinta. Em 2020 e 2021, a letalidade dos casos nosocomiais situava-se em torno dos 22%, praticamente idêntica à observada nos doentes admitidos directamente por COVID-19. Já a partir de 2022, a letalidade dos casos nosocomiais caiu para valores entre 12% e 14%, acompanhando a menor severidade clínica das variantes em circulação. Ainda assim, continua a tratar-se de uma mortalidade muito elevada para uma infecção adquirida dentro de um hospital.

    Os dados analisados pelo PÁGINA UM através do CORPUS permitem igualmente comparar o desempenho das diferentes Unidades Locais de Saúde. A ULS da Lezíria, que integra o Hospital de Santarém, apresentou a proporção acumulada mais elevada de casos nosocomiais, com 31,1%, seguida da ULS de Almada/Seixal (29,9%) e da ULS do Oeste (26,1%), que integra os hospitais das Caldas da Rainha, Peniche e Torres Vedras. No extremo oposto surgem a ULS de Barcelos/Esposende (10,6%), a ULS da Póvoa de Varzim/Vila do Conde (13,4%) e a ULS do Baixo Mondego (13,8%), que integra o Hospital da Figueira da Foz.

    As diferenças são demasiado expressivas para serem ignoradas. Naturalmente, a comparação exige cautela, uma vez que os hospitais receberam populações distintas, apresentaram níveis diferentes de complexidade clínica e enfrentaram pressões assistenciais muito diversas ao longo da pandemia. Ainda assim, os resultados preliminares levantam uma questão incómoda: será que as unidades que proclamavam os protocolos mais rigorosos de controlo de infecção conseguiram melhores resultados? Ou terá existido uma discrepância entre o discurso institucional e a realidade observada nos internamentos?

    Proporção de internamentos por COVID-19 adquirida em meio hospitalar, por Unidade Local de Saúde (ULS), em Portugal (2020–2024). O gráfico apresenta a percentagem de episódios classificados como infecções nosocomiais no total dos internamentos com diagnóstico de COVID-19 em cada ULS. Fonte: Base de dados nacional de internamentos hospitalares (GDH). Análise: CORPUS – Observatório de Dados em Saúde.

    A resposta exigirá análises adicionais, algo que a plataforma do CORPUS permite, uma vez que se mostra possível analisar com detalhe mensal dentro das diversas ULS e cruzar também com outras doenças nosocomiais prevalecentes. E também por grupos etários.

    Mas uma conclusão parece, desde já, inevitável. Durante anos, os portugueses ouviram falar diariamente do número de casos, dos internamentos e dos óbitos por COVID-19. Mas nunca lhes foi dito que milhares de doentes contraíram a infecção precisamente nos locais onde procuravam tratamento e protecção. E que, segundo os dados agora apurados pelo PÁGINA UM, pelo menos 4.518 desses doentes acabaram por morrer.

  • Como a DGS ajuda a perfurar a confiança pública nas vacinas

    Como a DGS ajuda a perfurar a confiança pública nas vacinas


    A directora-geral da Saúde, Rita Sá Machado, afirmou esta semana no Parlamento que a desconfiança nas vacinas em algumas partes do mundo está a levar ao reaparecimento de doenças. Curioso alerta feito pela responsável máxima de uma entidade que, em Portugal, muito tem contribuído para a falta de transparência nas políticas de saúde.

    Portugal apresenta elevadas taxas de vacinação, mas as preocupações com um eventual aumento da chamada “hesitação vacinal” existem. O facto de no Parlamento se estar a debater sobre as vítimas das vacinas contra a covid é uma prova de que se alguns desconfiam das vacinas, vem da experiência. Como diz o ditado: “gato escaldado de água fria tem medo”.

    Crop unrecognizable person demonstrating red handmade parts of paper heart against white background
    Foto: D.R.

    A origem da “hesitação vacinal” não está apenas ligada a informação falsa na Internet. As autoridades responsáveis pela saúde pública também não têm ajudado ao reforço da confiança. Em Portugal, a opacidade das autoridades, nomeadamente da Direção-Geral da Saúde (DGS) e do Infarmed, relativamente às vacinas contra a covid-19, tem o potencial para abalar qualquer relação de confiança com a população.

    Por isso, não deixa de ser surpreendente escutar os comentários da directora-geral da Saúde sobre desconfiança face às vacinas em algumas partes do mundo. É que noutras partes do mundo, como em Portugal, a opacidade das autoridades na pandemia de covid-19 foi (e ainda é) gritante e inaceitável em democracia. Será preciso recordar a opacidade na própria DGS durante a pandemia de covid-19 (e ainda hoje)?

    No caso de Portugal, a DGS cometeu um pecado capital: esqueceu que existem adultos entre a população. E esses adultos não apreciaram saber, tardiamente, que a DGS lhes escondeu informação crucial para tomarem decisões informadas sobre vacinação contra a covid-19, em especial sobre vacinação das crianças e dos jovens.

    girl getting vaccine
    Foto: D.R.

    A DGS, então liderada por Graça Freitas, escondeu a existência de divergência de opiniões na comissão técnica de vacinação em relação à vacinação dos mais novos contra a covid-19. Só as revelou mais tarde e à força.

    Também se sabe agora, conforme revelou recentemente o jornal Nascer do Sol, que a DGS, com conhecimento do Ministério da Saúde, assinou a compra de vacinas para administração em adolescentes com cláusulas que admitiam o desconhecimento de efeitos adversos.

    Acresce que foram também metidos debaixo do tapete —, neste caso, pela Ordem dos Médicos — os pareceres do Colégio de Pediatria que desaconselhavam a vacinação generalizada de crianças e adolescentes saudáveis.

    Rita Sá Machado continua a seguir a linha da anterior directora-geral da DGS, de enfiar a cabeça na areia e fingir que a opacidade das autoridades de saúde não contribuem para a eventual desconfiança em relação às vacinas. / Foto: Captura de imagem do vídeo de audição no Parlamento | AR-TV

    Como se tal já não fosse grave, a DGS e o Governo decidiram também esconder também os contratos da compra das vacinas, e as suas particulares condições.

    E o que dizer dos relatórios de uma task force de Ciências Comportamentais criada pela DGS em que se defendia o uso deliberado do medo como instrumento de gestão pública da pandemia.

    Numa democracia madura, trata-se os cidadãos como adultos, com respeito, com a partilha de informação e reconhecendo que possam ter dúvidas legítimas e que as mesmas devem ser reconhecidas, debatidas e respondidas com clareza.

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    Foto: D.R.

    Forçar uma narrativa única, um falso consenso médico-científico e impor políticas de saúde com base no medo, pode funcionar no curto prazo para convencer boa parte dos cidadãos. Mas o preço a pagar no futuro em termos de confiança nas autoridades de saúde pública é muito alto.

    Hoje, alguns dos cidadãos que desconfiam da eficácia e segurança das vacinas, não é por rejeitarem a Ciência, mas porque sentem que falta informação e por sentirem que há dados que lhes poderão estar a ser escondidos. Depois, percebem que, se sofrerem reacções adversas, ficarão por sua conta e risco, ao abandono, doentes e sem qualquer apoio ou compensação. É isso que está a suceder com vítimas das reacções adversas às vacinas contra a covid-19: acabam ostracizadas e abandonadas.

    A DGS não é a única entidade com falta de transparência. Também o é o Ministério da Saúde. E também o Infarmed. A autoridade nacional do medicamento tem feito tudo o que podia fazer para alimentar a desconfiança dos cidadãos: esconde dados sobre reacções adversas das vacinas contra a covid-19; recusa fazer uma activa e adequada política de farmacovigilância no caso destas vacinas, como tem ficado patente com alguns dos casos vindos a público de vítimas das vacinas.

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    Foto: D.R.

    Em particular, as vítimas de reacções adversas alegam falta de apoio, falta de acompanhamento clínico estruturado, ausência de investigação aprofundada dos casos e dificuldades no reconhecimento oficial das ligações às vacinas dos danos na saúde.

    As autoridades de saúde pública esquecem que é possível reconhecer a utilidade das vacinas e, ao mesmo tempo, identificar falhas institucionais na comunicação, na gestão da informação e na monitorização de segurança e eficácia.

    E esqueceram que a confiança pública se constrói sobretudo através da transparência, da prestação de contas e da capacidade de admitir incertezas.

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    Foto: D.R.

    A lição principal talvez seja esta: em temas de saúde pública, a credibilidade não nasce da imposição de consenso, mas da abertura ao escrutínio. Quanto mais transparentes forem os processos de decisão, os contratos, os dados de segurança e os pareceres científicos divergentes, maior será a confiança social — mesmo entre quem mantém dúvidas legítimas.

    Mas é uma lição que Portugal recusa aprender. O que vemos hoje, da parte da DGS vai no sentido oposto. O dominó da confiança está em risco de tremer. Rita Sá Machado, ao invés de travar a queda, dá um empurrão.

    Em Portugal, uma solução crucial para reforçar a confiança seria legislar no sentido se compensar as vítimas das reacções adversas das vacinas contra a covid-19. Até porque as autoridades de saúde criaram um clima que levou empresas e instituições a impor a toma das vacinas aos seus trabalhadores. Também estudantes e atletas viram-se condicionados a serem vacinados, sentindo que não tinham opção. Foram, de certa forma, forçados a vacinarem-se.

    Marta Temido, ex-ministra da Saúde. / Foto: Captura de ecrã de vídeo de audição no Parlamento. | AR-TV

    A ex-ministra da Saúde, Marta Temido, admitiu esta semana no Parlamento a criação de um mecanismo para compensar os lesados das vacinas contra a covid-19. Mas a proposta divide os partidos, como noticiou hoje o jornal Nascer do Sol.

    Mas não deveria existir nenhuma divisão, se houvesse intenção real de reforçar a confiança da população nas vacinas e nas autoridades de saúde pública.

    Para já, as vítimas destas vacinas contarão com o apoio da recém criada AdverX19- Associação Portuguesa de Apoio às Pessoas com Reacções Adversas à Vacina Covid. Mas a erosão da confiança é um risco crescente enquanto não existir da parte do Governo e das autoridades de saúde pública uma demonstração clara e inequívoca de apoio a estas vítimas.

    Marta Gameiro, médica dentista, defensora da medicina baseada na evidência científica, fundou a AdverX19- Associação Portuguesa de Apoio às Pessoas com Reacções Adversas à Vacina Covid.
    / Foto: D.R.

    Dar um passo no sentido de reconhecer que as vítimas existem, sofrem e precisam de ajuda, é o mínimo que o Governo e a DGS deveriam fazer. Libertar todos os dados detidos pelo Infarmed sobre as reacções adversas e levar a cabo uma efectiva e competente campanha de farmacovigilância, com acompanhamento e seguimento sério e eficiente dos casos, seria outro passo importante.

    Sem vislumbre de que nenhuma destas autoridades pretenda fazer o que seria o correcto — e dar uma lição a outras partes do mundo —, resta a esperança de que a sociedade civil se organize e se mobilize, não só para que os que sofrem tenha acesso a apoios, mas também para exigir medidas reforçadas que impeçam que as autoridades de saúde pública escondam informação.