Categoria: Saúde

  • 60 receitas tradicionais portuguesas disputaram um ‘campeonato’ onde o júri foi a ciência

    60 receitas tradicionais portuguesas disputaram um ‘campeonato’ onde o júri foi a ciência


    Concursos gastronómicos há para todos os gostos e paladares. Júris que avaliam o sabor, a textura, o ponto de cozedura, o empratamento, a originalidade ou a fidelidade à receita da avó — que, nestas matérias, costuma valer mais do que qualquer estrela Michelin.

    Desta vez, porém, o campeonato foi outro. Publicado este sábado na revista Nutrients, um discreto estudo substituiu o paladar pela calculadora nutricional. Ninguém provou uma colherada de caldo verde, espetou o garfo numa patanisca ou discutiu se o arroz-doce devia levar mais ou menos canela. Em vez disso, entraram em competição as calorias, as proteínas, os hidratos de carbono, os açúcares, a fibra, a gordura, os ácidos gordos saturados e o sódio.

    Foto: D.R.

    O inusitado “torneio nutricional” foi organizado por Mariana Lourenço, Paula Pereira, Marta Neves, Manuel Bicho e Ana Valente, investigadores ligados à Escola Superior de Saúde Egas Moniz, à Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, ao Instituto de Investigação Científica Bento da Rocha Cabral e à consultora Nutrialma.

    O trabalho colocou frente a frente 60 receitas tradicionais de Portugal continental — 20 do Norte, 20 do Centro e 20 do Sul —, distribuídas por seis primeiros pratos (incluindo duas sopas), oito pratos principais e seis sobremesas em cada região. O objetivo não era escolher a receita mais saborosa, mas comparar, prato a prato e região a região, o respetivo perfil nutricional.

    A intenção dos investigadores não foi, portanto, um concurso de pratos tradicionais portugueses, mas a liberdade editorial do PÁGINA UM, mesmo mantendo o rigor, pode transformar este interessante estudo científico numa peleja gastronómica. E houve muitos pratos para tal. O Norte entrou em campo com folar transmontano, bolinhos de bacalhau, bola de carne, rancho e sopa seca à moda do Minho; com rojões, arroz de pato à moda de Braga, papas de sarrabulho, bacalhau à Gomes de Sá, bacalhau à Zé do Pipo, arroz de lampreia e polvo assado; e, para fechar a refeição, sarrabulho doce, rosquilhas, pastéis de Santa Clara, pão de ló, toucinho-do-céu e jesuítas.

    O Centro ‘respondeu’ com sopa de entulho, salada de feijão-frade, peixinhos da horta, pipis, sopa da pedra e pataniscas; seguiu-se a feijoada à portuguesa, o cabrito assado, o bife à café, o cozido, o bacalhau à Brás, o bacalhau com broa, a lampreia caseira e a caldeirada rica. Na doçaria, apresentou arroz-doce saloio, farófias, areias, tigeladas, ovos-moles de Aveiro e carólos.

    O Sul ‘levou a concurso’ gaspacho, sopa de cação, sopa de lingueirão, choquinhos fritos com tinta, conquilhas à algarvia e espargos bravos com ovos. Nos pratos principais, alinharam carne de porco com amêijoas, ovos escalfados com ervilhas, pezinhos de porco de coentrada, entrecosto frito com migas, bifes de atum de cebolada, carapaus alimados, lulas cheias e arroz de berbigão. Na mesa dos doces ficaram pudim de água, morgado de figo, tarte de claras, bolo mimoso, bolos de D. Rodrigo e queijinhos de amêndoa.

    As receitas foram recolhidas sobretudo em duas fontes: a Cozinha Tradicional Portuguesa, de Maria de Lourdes Modesto, e a revista Teleculinária. Os investigadores converteram as quantidades dos ingredientes para gramas e calcularam a composição nutricional com recurso a programas e bases de dados alimentares, principalmente a Tabela da Composição de Alimentos portuguesa.

    Não houve, por isso, uma brigada de cientistas a cozinhar 60 pratos em laboratório, nem análises químicas a cada travessa. Foram usadas receitas padronizadas e valores nutricionais de referência, o que permite comparar os pratos, mas não determinar exactamente o que está no prato servido por cada restaurante ou por cada família.

    Entradas: o Norte ganha nas calorias e arrasa no sal

    A ‘primeira eliminatória’ produziu o confronto regional mais claro. Em média, os primeiros pratos do Norte apresentaram 202 quilocalorias por 100 gramas, muito acima das 126 do Centro e das 133 do Sul.

    O Norte ficou também à frente nos hidratos de carbono e no sódio. O Sul venceu nas proteínas, enquanto o Centro conquistou a fibra — embora também tenha apresentado, em média, mais gordura total do que as restantes regiões, em boa medida por causa dos fritos.

    No pódio individual das calorias, o ouro foi para o folar transmontano, com 305 quilocalorias por 100 gramas. A prata ficou com as pataniscas de bacalhau, com 229, e o bronze com os choquinhos fritos com tinta, com 204. Na extremidade oposta da tabela, o prato mais leve foi a sopa de entulho, com apenas 41 quilocalorias. Seguiram-se as conquilhas à algarvia, com 79, e os pipis, com 100.

    O folar transmontano também venceu nos hidratos de carbono, com 27 gramas por cada 100, à frente das pataniscas, com 26, e do gaspacho, com 20. Já entre os pratos com menos hidratos, os choquinhos fritos surgiram com zero, enquanto pipis, espargos bravos com ovos e outros pratos centrados em carne, peixe ou ovos ficaram perto de um grama.

    Nas proteínas, o Sul respondeu com força. Os choquinhos fritos com tinta e a bola de carne partilharam o primeiro lugar, com 16 gramas por 100. A sopa de cação, com 15, ficou logo atrás, seguindo-se a sopa seca à moda do Minho, com 14, e as conquilhas à algarvia, com 13. No fundo da classificação ficaram a sopa de entulho, com dois gramas, o gaspacho e os peixinhos da horta, com três.

    Na gordura, o folar transmontano regressou ao primeiro lugar, com 17 gramas, seguido dos choquinhos fritos, com 16, e dos bolinhos de bacalhau e dos espargos com ovos, ambos com 13. A sopa de entulho, com apenas um grama, foi a mais magra. Gaspacho, sopa de cação e conquilhas ficaram nos dois gramas.

    Mas foi no sódio que a diferença se transformou em goleada. A sopa seca à moda do Minho atingiu 912 miligramas por 100 gramas, quase o dobro da bola de carne, segunda classificada, com 518. O folar transmontano ficou em terceiro, com 457. O prato menos salgado foi, segundo os cálculos do estudo, a conquilha à algarvia, com um valor residual apresentado como zero; os pipis surgiram com três miligramas e os peixinhos da horta com 15.

    Em média, os primeiros pratos do Norte apresentaram 482 miligramas de sódio por 100 gramas, contra 137 no Centro e 136 no Sul. Foi uma das poucas diferenças regionais que alcançaram significado estatístico. O Norte ficou também significativamente acima do Centro em energia; o Centro, por sua vez, superou o Sul em fibra.

    Pratos principais: arroz de lampreia vence nas calorias

    Nos pratos principais, o Norte manteve a dianteira calórica, embora sem diferenças estatisticamente significativas entre regiões. A média foi de 207 quilocalorias por 100 gramas no Norte, 179 no Sul e 173 no Centro.

    O prato mais calórico de todo este grupo foi o arroz de lampreia do Norte, com 312 quilocalorias. O entrecosto frito com migas à alentejana, com 275, ficou em segundo, e os pezinhos de porco de coentrada, com 271, em terceiro. Logo depois apareceu o lombo de porco assado, com 265, e a lampreia caseira do Centro, com 263.

    Na zona mais leve da classificação, a vitória coube à caldeirada rica, com 74 quilocalorias por 100 gramas. O bacalhau à Gomes de Sá ficou nos 120 e a carne de porco com amêijoas nos 121. O bife à café, com 125, e os bifes de atum de cebolada, com 130, também se situaram entre os pratos menos calóricos.

    Em proteínas, os pezinhos de porco de coentrada foram campeões absolutos, com 28 gramas por 100. O lombo de porco assado alcançou 20 e o arroz de pato à moda de Braga chegou aos 18. No extremo contrário, o bacalhau à Zé do Pipo apresentou quatro gramas e os carapaus alimados cinco.

    Na gordura total, voltou a vencer o arroz de lampreia, com 24 gramas. O lombo de porco assado apareceu com 19; papas de sarrabulho, feijoada à portuguesa e lampreia caseira chegaram aos 18. A caldeirada rica ficou novamente no lugar mais ligeiro, com dois gramas de gordura.

    No sódio, porém, o Centro levou o troféu. A feijoada à portuguesa atingiu 516 miligramas por 100 gramas. Os pezinhos de porco de coentrada vieram depois, com 486, e o bacalhau à Brás com 475. O arroz de pato, com 446, ficou também perto do topo. O valor mais baixo surgiu nos rojões à moda do Minho, com 93 miligramas, seguido do bacalhau à Zé do Pipo, com 110, e dos carapaus alimados, com 129.

    Em termos médios, os pratos principais das três regiões ficaram bastante próximos. O Norte apresentou mais calorias e gordura; o Sul ligeiramente mais proteína; e o Centro um pouco mais de sódio. Mas, estatisticamente, nenhum desses confrontos permitiu declarar um verdadeiro vencedor regional.

    Sobremesas: farófias arrasam a concorrência

    Na sobremesa, as farófias protagonizaram a maior surpresa do campeonato. Consideradas por muitos um doce relativamente leve, ficaram em primeiro lugar nas calorias, com 638 quilocalorias por 100 gramas, e também na gordura total, com 63 gramas. O resultado decorre, naturalmente, da receita concreta utilizada no estudo e das quantidades nela inscritas.

    No pódio calórico, as farófias ficaram muito à frente do arroz-doce saloio, com 505 quilocalorias, e dos jesuítas, com 475. Os queijinhos de amêndoa, com 448, e as areias, com 441, vieram logo a seguir. Na parte inferior da classificação, as tigeladas, com 144 quilocalorias, bateram os carólos, com 148. A tarte de claras, com 244, foi a terceira menos calórica.

    O campeonato do açúcar foi vencido pelo pudim de água, com 85 gramas por 100, seguido das areias, com 74, e dos bolos de D. Rodrigo, com 70. Toucinho-do-céu e ovos-moles ficaram nos 45 e 48 gramas, respectivamente. O doce com menos açúcar calculado foi o jesuíta, com 12 gramas, seguido das farófias, com 15, das rosquilhas, com 16, e dos carólos, com 17.

    Nas gorduras saturadas, os jesuítas destacaram-se com 17 gramas, quase o dobro das farófias, que ficaram com nove. Pastéis de Santa Clara, arroz-doce saloio e areias apresentaram seis gramas. No extremo contrário, a tarte de claras apareceu com zero; tigeladas, carólos e pudim de água ficaram por um grama.

    A região Sul venceu, de forma contundente, nas proteínas das sobremesas. Os queijinhos de amêndoa atingiram 29 gramas e a tarte de claras 25. O sarrabulho doce ficou em terceiro, com 11. O pudim de água e as areias apresentaram apenas dois gramas.

    Regionalmente, o Norte teve a média calórica mais elevada, com 385 quilocalorias por 100 gramas, mas Centro e Sul ficaram muito perto, com 374 e 375. O Centro apresentou a maior média de gordura total; o Norte liderou na gordura saturada; e o Sul destacou-se nas proteínas, nos hidratos e no açúcar. Nenhuma destas diferenças, contudo, foi estatisticamente significativa.

    No campeonato dos menus, o Centro serve o almoço mais calórico

    Depois de avaliarem os pratos de forma isolada, os investigadores montaram seis menus teóricos: dois por região, juntando a entrada, o prato principal e a sobremesa menos calóricos e, depois, os três mais calóricos.

    A regra é importante: cada menu resulta da soma de 100 gramas de um primeiro prato, 100 gramas de um prato principal e 100 gramas de uma sobremesa. Não corresponde necessariamente a uma refeição real, porque uma tigela de sopa pode pesar muito mais de 100 gramas e uma sobremesa individual muito menos. Trata-se apenas de uma grelha comparativa, não de uma fotografia exacta do que uma pessoa come ao almoço.

    O menu menos calórico do Norte reuniu caldo verde, bacalhau à Gomes de Sá e sarrabulho doce, atingindo 580 quilocalorias. O menu mais pesado juntou folar transmontano, arroz de lampreia e jesuítas: 1.092 quilocalorias.

    No Centro, a combinação mais leve — sopa de entulho, caldeirada rica e tigeladas — ficou em apenas 259 quilocalorias. A mais pesada juntou pataniscas, lampreia caseira e farófias e chegou às 1.130 quilocalorias, o valor mais alto de todos os menus.

    No Sul, a refeição menos calórica reuniu conquilhas à algarvia, carne de porco com amêijoas e tarte de claras, num total de 444 quilocalorias. A mais energética, composta por choquinhos fritos, pezinhos de porco de coentrada e queijinhos de amêndoa, alcançou 923.

    Comparados com o valor de referência de 600 quilocalorias definido para uma refeição, os três menus mais pesados ultrapassaram largamente o limite. O menu do Centro chegou a 188% da energia de referência, o do Norte a 182% e o do Sul a 154%.

    O Norte venceu, pela negativa, na gordura saturada: o seu menu mais calórico atingiu 419% do valor de referência. Também chegou a 360% da gordura total e a 149% do sódio. O Sul conquistou o campeonato das proteínas, com o seu menu mais pesado a alcançar 324% do valor de referência. Já o Centro ficou com o título de refeição mais energética, graças sobretudo às farófias.

    Em matéria de fibra, não houve campeões: todos os menus ficaram abaixo do valor considerado adequado. Mesmo a combinação que mais se aproximou da referência, o menu menos calórico do Norte, atingiu apenas 67%. O menu mais leve do Sul ficou em 13%.

    No final, o estudo publicado na revista Nutrients não proclama uma gastronomia regional vencedora. Em todo o caso, o Norte apresenta pratos mais densos em energia, gordura e sódio, sobretudo nas entradas; o Centro oscila entre opções muito leves e outras extremamente pesadas; o Sul beneficia do peixe, do marisco e do azeite, mas também consegue produzir menus altamente proteicos e gordos quando combina carne, peixe, ovos e sobremesa.

    Farófias. Fonte: D.R.

    A conclusão pode não agradar aos defensores mais aguerridos de cada cozinha regional: quando a mesa portuguesa junta entrada, prato principal e sobremesa, quase ninguém sai completamente ileso. O Norte traz o sal e os enchidos, o Centro oferece os fritos e umas farófias capazes de desarrumar qualquer tabela, e o Sul, apesar da aura mediterrânica, também sabe exceder-se.

    Em compensação, todos ficam unidos na mesma carência: falta fibra no prato e sobram frequentemente calorias, gordura ou sódio. Mas, quando se aprecia uma boa mesa, o bem que sabe faz, muitas vezes, por esquecer o mal que faz…

  • Antes das trincheiras, há sofrimento: 73 menores entre o corpo recusado e a vontade de morrer

    Antes das trincheiras, há sofrimento: 73 menores entre o corpo recusado e a vontade de morrer


    A transexualidade tornou-se matéria de trincheira política. De um lado, acumulam-se palavras de ordem, acusações de intolerância e a convicção de que qualquer reserva representa uma agressão. Do outro, crescem a reacção, a suspeita e a tentação de reduzir experiências humanas complexas a uma moda ideológica. Pelo meio — quase sempre fora do enquadramento — ficam crianças, adolescentes e famílias para quem o assunto não constitui uma guerra cultural, mas uma dor concreta.

    Nos hospitais, essa dor chega sem bandeiras. Surge em adolescentes que cortaram a pele, ingeriram comprimidos, verbalizaram a vontade de morrer ou acabaram internados porque o sofrimento já não cabia dentro de casa. Chega também através de pais à procura de respostas e de médicos confrontados com problemas clínicos, éticos e científicos que não desaparecem porque o debate público exige certezas.

    Woman sitting on floor, covering face with hands.

    A plataforma CORPUS permite agora levantar a ponta do véu dos bastidores hospitalares públicos desses dramas. A análise percorreu os internamentos e cirurgias de ambulatório do Serviço Nacional de Saúde entre 2007 e 2024 nos quais foram registados diagnósticos de “transexualismo” ou “perturbação de identidade de género”, segundo as classificações usadas ao longo do período. A base não abrange a generalidade das consultas externas nem capta sistematicamente a hormonoterapia, mostrando apenas a parte hospitalar de percursos clínicos mais extensos.

    Nestes 18 anos analisados, o SNS registou 719 utentes únicos com aqueles diagnósticos, dos quais 253 foram submetidos a pelo menos uma cirurgia. Os novos casos cresceram quase dez vezes, conforme relatou o PÁGINA UM em uma primeira abordagem a esta temática no passado dia 24 de Julho. Mas é entre os menores que os dados assumem maior gravidade. Entre 2007 e 2024, foram identificados 88 utentes com menos de 18 anos. Embora nenhum tenha sido submetido a cirurgia de reatribuição sexual no SNS, os casos de internamento revelam aspectos de sofrimento que estão para além do debate ideológico – são questões humanas.

    Antes de 2020, surgiam normalmente dois ou três novos menores por ano; entre 2021 e 2023 passaram a ser entre 13 e 24. A predominância feminina é acentuada: 71 raparigas e 17 rapazes. Na faixa dos 12 aos 14 anos foram identificados 32 menores, 28 do sexo feminino; entre os 15 e os 17 anos surgem 56, dos quais 43 raparigas.

    O sinal mais inquietante encontra-se nos internamentos associados a tentativas de suicídio e auto-lesão. Entre 2007 e 2024, o SNS registou 310 episódios em 131 utentes distintos. A idade mediana era de apenas 19 anos. Na realidade, dos 131 utentes listados (sem identificação na base de dados), 73 eram menores — 55,7% — e quase todos eram raparigas.

    Não se trata de 73 mortes por suicídio, mas de crianças ou adolescentes que chegaram aos hospitais depois de tentativas, de auto-lesões ou, pelo menos, crises suicidas de grande gravidade. A base também não permite concluir que a disforia de género tenha sido a causa única de cada episódio, mas revela, isso sim, uma associação muito forte entre estes diagnósticos e sofrimento psiquiátrico grave. E que aparentemente atenua-se no grupo daqueles que, na maioridade, é sujeito a cirurgias.  

    A pedopsiquiatra Ana Vasconcelos diz ao PÁGINA UM que os números não a surpreendem, “porque é uma situação que causa imenso sofrimento”. Na sua experiência clínica, muitos adolescentes chegam à convicção de que a mudança de sexo fará desaparecer uma dor existencial sentida como insuportável. “O adolescente, o jovem, sente que esse sofrimento vai acabar se mudar [de sexo]. O acto alivia a dor porque o jovem se vai apaziguando ao sentir que está a ser bem cuidado”, explica.

    Para Ana Vasconcelos, esse apaziguamento não resulta apenas da perspectiva de transformação física. Pode nascer também da confiança depositada nos adultos que finalmente escutam o jovem — sejam os pais, o pedopsiquiatra ou o endocrinologista “Tem mais a ver com o sentirem-se cuidados no seu sofrimento”, afirma. Por detrás de muitos adolescentes em crise poderá existir o sentimento de não disporem de adultos capazes de os compreender e ajudar. Quando essa atenção surge, a angústia pode diminuir porque o jovem sente, enfim, que alguém reconheceu a sua dor e assumiu o dever de cuidar dele.

    A médica considera, por isso, redutor que todas as reservas clínicas sejam classificadas como transfobia. “Há muitas situações que levantam problemas junto dos médicos, seja problemas de consciência moral, pessoal ou de evidência científica”, sustenta. Trata-se de uma área recente, sobretudo quando envolve menores, e que exige uma avaliação individual dos riscos, benefícios, maturidade e qualidade da evidência científica.

    A forte presença de raparigas no grupo dos menores que apresentam crises mentais associadas à disforia merece também atenção. Segundo Ana Vasconcelos, as adolescentes tendem a recorrer mais ao corte da pele ou à ingestão de comprimidos numa tentativa imediata de interromper a dor. A pedopsiquiatra admite que possam existir diferenças na forma de vinculação e de reacção ao sofrimento, mas recusa transformar hipóteses em certezas.

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    Foto: Stephen Andrews.

    E, de facto, os dados estatísticos dos internamentos confirmam esse pedrão, embora, como salienta Ana Vasconcelos, “não dê respostas”. Com efeito, os diagnósticos principais dos 310 episódios confirmam a complexidade clínica: perturbações de personalidade, incluindo borderline, em 79 episódios; depressão ou perturbação bipolar em 68; intoxicação medicamentosa intencional em 54; e ideação suicida em 41. Em sete episódios, o diagnóstico ligado à identidade de género surgiu como motivo principal do internamento por crise suicida.

    A comparação com as cirurgias impressiona, embora exija prudência. Dos 310 episódios, 308 ocorreram antes de qualquer cirurgia ou em utentes que nunca chegaram a ser operados; apenas dois foram registados depois, em dois utentes.

    O contraste não prova que uma cirurgia elimine o risco, porque os grupos têm dimensões, percursos e tempos de acompanhamento diferentes. Mostra, contudo, que quase todo o sofrimento suicidário captado pelos hospitais se concentrou antes da cirurgia ou fora de um percurso cirúrgico.

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    Foto: Kyle.

    Os números globais ajudam a medir o fenómeno, mas são os 88 menores que lhe dão rosto. Nenhum foi operado no SNS entre 2007 e 2024. Ainda assim, 73 surgem entre os utentes com tentativas de suicídio ou auto-lesão. Antes de serem argumentos numa guerra cultural, são crianças e adolescentes que chegaram ao hospital porque a dor se tornara maior do que a capacidade de a suportar.

    Por detrás de cada código clínico e de cada número existe alguém que pediu ajuda — por vezes da única forma que conseguiu.

  • De 14 para 135 por ano: disparam novos utentes com diagnóstico de transexualismo no SNS

    De 14 para 135 por ano: disparam novos utentes com diagnóstico de transexualismo no SNS


    Entre 2007 e 2024, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) registou 719 utentes únicos com diagnóstico de identidade de género ou transexualismo em pelo menos um episódio de internamento hospitalar ou de cirurgia de ambulatório. Destes, contudo, apenas 253 foram submetidos a pelo menos uma intervenção cirúrgica associada ao transexualismo — todos maiores de idade —, enquanto o número anual de novos utentes identificados passou de uma média de apenas 14 na primeira década da série para 135 em 2023 e outros 135 em 2024.

    No caso das cirurgias, como alguns procedimentos exigem várias fases, os 253 utentes operados originaram, ao longo dos 18 anos analisados, 318 intervenções cirúrgicas hospitalares relacionadas com a transição de género.

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    Foto: Justin Luca Krause.

    Estes números, com um grau de detalhe nunca revelado, resultam de uma investigação do CORPUS — Observatório de Dados em Saúde, plataforma de jornalismo de dados do PÁGINA UM —, realizada a partir da Base de Dados de Morbilidade Hospitalar da Administração Central do Sistema de Saúde — a BDMH/ACSS, também conhecida no uso corrente como base dos Grupos de Diagnósticos Homogéneos (GDH). Estes registos, na posse do PÁGINA UM após uma luta judicial de mais de três anos, reúnem os episódios de internamento e de cirurgia de ambulatório dos hospitais públicos entre 2000 e 2024.

    A utilização de identificadores pseudoanonimizados permitiu, assim, seguir cada pessoa ao longo dos 18 anos analisados, em vez de somar episódios que poderiam pertencer ao mesmo utente. Essa pseudoanonimização impossibilita identificar o nome e a origem da pessoa. Esta análise também não abrange de forma sistemática as pessoas acompanhadas exclusivamente em consulta externa ou nos cuidados de saúde primários, incluindo aquelas cuja hormonoterapia decorreu apenas nesses contextos.

    Um dos aspectos mais reveladores desta análise é a mudança de escala deste tipo de intervenções, não se observando um crescimento regular. Com efeito, entre 2007 e 2016, a análise do PÁGINA UM a partir do CORPUS — que pode ser subscrito para efeitos de interacção com a base de dados — registou uma média de cerca de 14 novos utentes por ano. Mas em 2017 foram já identificados 51, mais do dobro do ano anterior, seguindo-se 33 em 2018, 42 em 2019 e 28 em 2020, ano marcado pela redução da actividade hospitalar durante a pandemia.

    A segunda aceleração começou em 2021, com 73 novos utentes. O número subiu para 107 em 2022 e para 135 em cada um dos dois anos seguintes. Para efeitos desta investigação, “novo utente” significa a primeira aparição de uma pessoa na BDMH com um dos diagnósticos seleccionados, e não necessariamente o início do seu percurso clínico ou a data em que o diagnóstico foi originalmente estabelecido, uma vez que existe um vasto percurso de acompanhamento clínico e terapia hormonal.

    Dos 719 utentes identificados, 631 tinham 18 ou mais anos no primeiro episódio hospitalar e 88 eram menores. A maior concentração encontra-se nos adultos jovens: 230 tinham entre 18 e 24 anos e 226 entre 25 e 34 anos. No conjunto, estas duas faixas reúnem 456 pessoas, correspondentes a 63% de todos os utentes. Entre os adultos, a mediana de idade no primeiro registo hospitalar foi de 27 anos.

    A distribuição por sexo registado revela, porém, perfis muito diferentes consoante a idade. A soma das várias faixas etárias mostra que, no primeiro episódio, 392 utentes estavam registados como sendo do sexo masculino e 327 como sendo do sexo feminino.

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    Foto: Piron Guillaume.

    Entre os 12 e os 17 anos — grupo etário que será analisado com maior detalhe num próximo artigo —, a relação inverte-se de forma clara: 71 utentes tinham sexo feminino registado e 17 sexo masculino, numa proporção superior a quatro para um. Nenhum destes casos corresponde a uma intervenção cirúrgica. Já entre os 18 e os 34 anos predominavam os registos masculinos, com 298 utentes, contra 158 femininos. Na faixa dos 35 aos 44 anos verificava-se uma divisão exacta, com 44 utentes de cada sexo; a partir dos 45 anos voltavam a predominar os registos femininos, com 54 utentes, contra 33 masculinos.

    A aceleração mais recente também não seguiu uma divisão constante entre os dois sexos registados. Em 2021 entraram 43 novos utentes com registo feminino e 30 com registo masculino. Em 2022, a relação foi de 37 para 70; em 2023 verificou-se praticamente uma igualdade, com 68 e 67; e, em 2024, foram contabilizados 58 novos registos femininos e 77 masculinos.

    Estes números obrigam, contudo, a uma salvaguarda essencial. O campo “sexo” da BDMH corresponde ao sexo ou género legal registado no momento de cada episódio hospitalar, e não ao sexo de nascimento. Como uma pessoa pode alterar o registo civil antes de qualquer operação, a base pode mostrar, por exemplo, um utente com sexo masculino registado submetido a uma histerectomia ou um utente com sexo feminino registado submetido a uma penectomia.

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    Foto: Kyle.

    Não se trata, portanto, de um erro de codificação. Isto significa apenas que os dados não permitem determinar com rigor a direcção da transição — de masculino para feminino ou de feminino para masculino. Permitem descrever o sexo que se encontrava registado em cada episódio ou, no caso das tabelas etárias, no primeiro episódio identificado.

    Como já destacado, a cirurgia foi identificada em apenas 253 dos 719 utentes, ou 35,2% do total. Os restantes 466 não apresentavam, na BDMH, qualquer procedimento cirúrgico confirmado num episódio em que também constasse o diagnóstico analisado.

    A histerectomia, correspondente à remoção do útero, foi, por larga margem, a intervenção mais frequente, realizada em 140 pessoas. Seguiram-se a penectomia, que consiste na remoção do pénis, e a mastectomia subcutânea, destinada à remoção do tecido mamário, ambas identificadas em 39 utentes. As cirurgias reconstrutivas genitais foram menos frequentes, mas estão em crescimento. A faloplastia, destinada à construção cirúrgica de um pénis, foi já realizada em 25 utentes; a vaginoplastia, que cria uma neovagina, em 17. Foram ainda identificados seis utentes com implante mamário feminizante e quatro com orquiectomia isolada, correspondente à remoção dos testículos.

    Estes números não podem ser simplesmente somados para se obter um total de operados, uma vez que uma mesma pessoa pode ter sido submetida a mais do que um tipo de procedimento. Também o número de episódios cirúrgicos não equivale necessariamente ao número de utentes. A diferença é especialmente visível na faloplastia. Os 25 utentes submetidos a esta operação originaram 53 episódios cirúrgicos, porque o procedimento é frequentemente executado em vários tempos, que podem incluir a criação do retalho, a reconstrução da uretra e, numa fase posterior, a colocação de um implante eréctil.

    A distância entre o primeiro registo hospitalar e a conclusão do percurso cirúrgico ajuda também a compreender por que razão os novos registos de um determinado ano não se traduzem imediatamente num número equivalente de operações. Como referência aproximada — e não como calendário obrigatório aplicável a todos os utentes —, a avaliação psicológica ou psiquiátrica pode ocupar entre seis meses e um ano. A fase de hormonoterapia anterior à cirurgia, nos protocolos e percursos em que esteja indicada ou seja exigida, pode prolongar-se por 12 a 24 meses.

    Num percurso de transição de feminino para masculino, a realização de mastectomia e histerectomia pode distribuir-se por um a três anos. Quando o plano inclui uma faloplastia, a sucessão de operações e intervalos de recuperação pode acrescentar dois a cinco anos. Num percurso de masculino para feminino com vaginoplastia completa, a fase cirúrgica pode decorrer durante um a três anos.

    Foto: D.R.

    Assim, entre a avaliação inicial e a última intervenção, um processo que percorra todas estas fases pode prolongar-se por três a sete anos, dependendo dos procedimentos escolhidos, da resposta clínica, dos intervalos necessários entre operações e da capacidade de resposta dos serviços. Estas designações — feminino para masculino e masculino para feminino — servem apenas para explicar os percursos clínicos típicos, não para classificar os 719 utentes da investigação, uma vez que a BDMH não permite determinar o sexo de nascimento.

    Os intervalos são indicativos e não constituem uma regra clínica internacional única. Os actuais Standards of Care da World Professional Association for Transgender Health recomendam uma avaliação individualizada e admitem que algumas cirurgias sejam realizadas sem hormonoterapia prévia quando esta não é desejada, não é clinicamente indicada ou não é necessária para alcançar o resultado cirúrgico. Para algumas intervenções com remoção das gónadas, as orientações apontam para a consideração de pelo menos seis meses de hormonoterapia, podendo o período ser superior quando a anatomia exigida para a operação depende dos efeitos do tratamento.

    Ainda assim, a maioria dos operados em Portugal teve um percurso cirúrgico mais curto. Dos 253 utentes, 215, ou 85%, registaram apenas uma intervenção hospitalar; 25 tiveram duas e 13 tiveram três ou mais. O caso com maior número de registos envolveu sete internamentos cirúrgicos associados a uma faloplastia realizada por fases.

    A actividade cirúrgica encontra-se concentrada num número reduzido de centros. A actual ULS de Coimbra reuniu 55,5% de todas as cirurgias identificadas e foi a única unidade onde surgiram os sete tipos de procedimentos considerados na análise. Realizou 77 das 140 histerectomias, 35 das 39 penectomias e nove das 25 faloplastias. Nesta última intervenção, porém, o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, apresentou o maior número, com 14 utentes submetidos a faloplastia, contra nove em Coimbra. As unidades de Gaia/Espinho e de Santo António, no Porto, concentraram a sua actividade nas histerectomias e mastectomias subcutâneas, sem registos de cirurgia genital de reatribuição na base analisada.

    A concentração cirúrgica em Coimbra contrasta com a residência dos utentes. Lisboa foi o distrito mais representado, com 204 pessoas, seguindo-se o Porto, com 165, e Setúbal, com 75. Lisboa e Setúbal reuniram, em conjunto, 39% do universo nacional, embora o principal centro cirúrgico se encontre em Coimbra — um padrão que aponta para a deslocação de parte dos doentes entre a região onde residem e o hospital onde são operados.

  • ‘A nova plataforma CORPUS tem dados que o Estado não gosta de mostrar’

    ‘A nova plataforma CORPUS tem dados que o Estado não gosta de mostrar’


    O jornal PÁGINA UM deu um passo histórico esta semana, com o lançamento do Observatório de dados sobre Saúde, CORPUS. O projecto agora lançado disponibiliza uma Plataforma com uma base de dados composta por mais de 38 milhões de registos hospitalares anonimizados nunca tornados públicos até agora.

    Nesta conversa conduzida pela jornalista Elisabete Tavares, o director do PÁGINA UM , Pedro Almeida Vieira, apresenta o CORPUS e fornece os detalhes sobre o funcionamento da nova Plataforma que permite traçar o raio-X da saúde dos portugueses nos últimos 25 anos.

    O lançamento do CORPUS é um marco histórico para o PÁGINA UM, mas também marca um momento decisivo para a transparência pública em Portugal.

    Nesta conversa, Pedro Almeida Vieira explicou como surgiu o CORPUS, os seus objectivos e como os utilizadores podem usar a Plataforma inteligente e interactiva para obter o retrato da saúde dos portugueses nos últimos 25 anos.

    Pedro Almeida Vieira começou por explicar que o CORPUS é a materialização da missão fundamental do jornal já que “este projecto corporiza aquilo que é uma espécie de DNA do PÁGINA UM“, sendo o resultado de um longo percurso de “insistência e de luta para obter dados oficiais [de saúde] da administração pública”.

    Plataforma Corpus / Foto: PLÁGINA UM

    A génese do projecto remonta a 2022, quando o jornal detectou a retirada da Internet de bases de dados públicas que permitiam escrutinar a situação hospitalar.

    O que se seguiu foi uma batalha judicial de quatro anos contra a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS). Mesmo após três vitórias em tribunal — incluindo no Supremo Tribunal Administrativo —, a ACSS resistiu, enviando inicialmente dados “mutilados” e “gozando com o pagode”, numa tentativa de ocultar o desempenho de unidades de saúde específicas e a residência dos utentes. A entrega total dos dados só ocorreu após a ameaça de aplicação de multas diárias por incumprimento.

    Os dados agora disponíveis no CORPUS permitem também desafiar narrativas oficiais, e talvez por isso os dados estivessem a ser escondidos.

    Plataforma Corpus / Foto: PÁGINA UM

    Por exemplo, contrariando a percepção pública de um colapso generalizado dos hospitais na pandemia de covid-19, “os anos 2020 e em plena pandemia [os hospitais] tinham menos internamentos hospitalares na sua totalidade do que os anos anteriores”. Embora houvesse pressão extrema na pneumologia, o CORPUS revela que outros sectores tinham camas vazias, o que resultou numa menor actividade hospitalar em diagnósticos e tratamentos de outras doenças. “Aquele caos hospitalar que se referia era um caos inventado. Havia, de facto, uma pressão muito grande em determinados sectores… nos outros não”, sublinhou Pedro Almeida Vieira.

    O CORPUS permite também, por exemplo, comparar a eficácia dos hospitais. É possível analisar a probabilidade de sobrevivência a um enfarte em diferentes Unidades Locais de Saúde (ULS), revelando assimetrias que o Estado tende a ocultar: “esta base de dados permite dar essa informação. Por isso mesmo é que nós lutamos para ter uma base de dados que tivesse a identificação da ULS… o Estado não gosta de mostrar”.

    O CORPUS distingue-se, em termos técnicos, pela utilização de inteligência artificial para democratizar o acesso a dados complexos.

    dextrose hanging on stainless steel IV stand
    Foto: D.R.

    Através de um “chat”, os utilizadores podem fazer perguntas em linguagem natural, que o sistema converte automaticamente em código de programação (SQL ou Structured Query Language) para consultar a base de dados. Esta funcionalidade permite desde consultas simples sobre doenças comuns até à geração de relatórios detalhados sobre temas específicos, como a interrupção voluntária da gravidez ou taxas de letalidade por grupo etário.

    Um dos aspectos mais marcantes do projecto foi a sua concretização sem qualquer apoio financeiro público ou de comunitário. Após a rejeição opaca por parte da Universidade Nova de Lisboa de uma candidatura a uma linha de fundos europeus, o PÁGINA UM decidiu avançar sozinho.

    Esta experiência levou Pedro Almeida Vieira a reflectir, citando o economista Nuno Palma, sobre o “vício dos fundos europeus”, que muitas vezes obstaculiza a iniciativa em vez de a dinamizar. “A questão aqui é: será que tinham que vir fundos comunitários para avançar o projeto, mesmo que o projecto depois possa morrer?”, questionou. A conclusão é que não eram necessários fundos europeus.

    clear medical hose
    Foto: D.R.

    Sendo um projecto que acarreta custos elevados de processamento — cada pergunta feita à inteligência artificial tem um custo real para o jornal —, o CORPUS adopta um modelo híbrido de acesso. Existe uma versão de acesso livre para doenças comuns, mas o acesso total e a geração de relatórios detalhados requerem uma subscrição ou o uso de créditos.

    No entanto, Pedro Almeida Vieira assegurou que a lógica não é comercial no sentido tradicional: “o objectivo não é ganhar dinheiro com os dados públicos, é fazer crescer a plataforma para adicionar mais bases de dados ou mais informação… sempre em prol da transparência e conhecimento daquilo que é a realidade da Saúde” em Portugal. A subscrição para acesso total aos dados da Plataforma tem um valor mensal de 19 euros.

    O futuro do CORPUS depende agora da adesão dos cidadãos, médicos e investigadores, com o objectivo de se tornar uma ferramenta indispensável para o sector da saúde em Portugal.

    woman wears green face mask
    Foto: D.R.

    Para já, apesar do seu recente lançamento, o CORPUS conta com cerca de duas centenas de utilizadores e serviu já de base para a produção, pelo PÁGINA UM, de várias notícias sobre a saúde dos portugueses. Entre as notícias já publicadas, conta-se o dossier de três artigos da investigação do PÁGINA UM, baseada na análise do CORPUS, a quase 900 mil internamentos nos hospitais públicos em 2024. A notícia mais recente dá conta que, em Portugal, a interrupção voluntária da gravidez atingiu um máximo histórico em 2024, na sequência de um aumento de 30% registado desde o ano de 2021.

    Para os médicos, investigadores e demais interessados em elaborar pesquisas a partir da Plataforma CORPUS, muitos outros temas e dados poderão ser explorados e analisados, bastando para isso proceder apenas ao respectivo registo e subscrição, os quais são necessários para cobrir os custos tecnológicos envolvidos.

  • Taxa de interrupção da gravidez atinge máximo histórico em 2024 após subida de quase 30% desde 2021

    Taxa de interrupção da gravidez atinge máximo histórico em 2024 após subida de quase 30% desde 2021


    Durante uma década, os números pareciam apontar numa direcção clara. Depois do máximo alcançado em 2011 — estabilizando a ‘novidade’ do regime legal de despenalização aprovado em 2007 —, as interrupções da gravidez diminuíram quase continuamente em Portugal, tanto em valores absolutos como quando ponderadas pelo número de mulheres em idade fértil.

    Mas essa trajectória terminou em 2021 e os três anos seguintes foram de completa inversão da tendência e com uma intensidade suficiente para transformar 2024 no ano com a maior incidência desde que existem registos comparáveis a partir de 2008.

    a pregnant woman with her hands on her belly
    Foto: Brian J. Tromp.

    Segundo os dados mais recentes divulgados pela Direcção-Geral da Saúde relativos a 2024 foram registadas, nesse ano, 18.601 interrupções da gravidez, mais cerca de 5% do que no ano anterior. Destas, 18.079, correspondentes a 97,2% do total, ocorreram por opção da mulher nas primeiras dez semanas de gravidez.

    O número absoluto continua abaixo do máximo de 20.505 interrupções observado em 2011, mas essa comparação, isoladamente, esconde a alteração demográfica entretanto ocorrida. Portugal tem hoje menos mulheres entre os 15 e os 49 anos, razão pela qual a taxa por 100 mil mulheres em idade fértil constitui o indicador mais adequado para avaliar a evolução real do fenómeno.

    Em 2024, essa taxa atingiu 830 interrupções por 100 mil mulheres, ultrapassando o anterior máximo, de 814, registado em 2011. A Direcção-Geral da Saúde calcula que o aumento em relação a 2023 tenha sido de cerca de 4%.

    A diferença entre os dois momentos é estatisticamente relevante: em 2011 ocorreram mais interrupções em números absolutos, mas existia também uma população feminina em idade fértil bastante superior. Em 2024, apesar de o total de casos permanecer abaixo daquele pico, a incidência proporcional nunca tinha sido tão elevada.

    Uma descida de dez anos anulada em apenas três

    A evolução desde 2021 é ainda mais expressiva. Depois do máximo de 2011, a taxa de interrupções da gravidez iniciou uma descida prolongada, atingindo em 2021 o valor mínimo da série, com cerca de 644 interrupções por 100 mil mulheres em idade fértil. A partir daí, o movimento foi sempre no sentido contrário: subiu para 749 em 2022, para 796 em 2023 e para 830 em 2024.

    Entre 2021 e 2024, a taxa aumentou, assim, 28,9%. Em apenas três anos foi anulada toda a redução acumulada durante a década anterior e ultrapassado o máximo observado no início da série. Esta inversão nota-se também nos números absolutos. Em 2021 foram registadas cerca de 14.500 interrupções da gravidez; em 2024, o total alcançou 18.601. Trata-se de um acréscimo de cerca de quatro mil casos num período de apenas três anos.

    Não se está, portanto, perante uma variação pontual de um único ano. Os dados revelam uma ruptura estatística nítida: 2021 assinalou o ponto mais baixo da série, seguindo-se já três aumentos consecutivos, tanto em valores absolutos como na taxa por mulheres em idade fértil.

    Crescimento concentrou-se entre os 20 e os 39 anos

    O retrato por grupos etários mostra, contudo, que o aumento das interrupções voluntárias da gravidez não tem sido homogéneo. Pelo contrário, concentrou-se quase em exclusivo nas mulheres entre os 20 e os 39 anos, enquanto as adolescentes e as mulheres com 40 ou mais anos mantiveram níveis relativamente estáveis.

    Entre as jovens dos 15 aos 19 anos, a evolução é particularmente esclarecedora. Depois de se ter atingido o máximo da série em 2011, com 2.249 interrupções, este grupo registou uma descida quase contínua até 2021, quando se verificou o valor mínimo de 1.163 casos — uma redução de 48,3% em relação ao pico de 2011.

    anti pregnancy pills and condoms
    Foto: Reproductive Health Supplies Coalition.

    Desde então observou-se uma ligeira recuperação, mas em 2024 contabilizaram-se 1.324 interrupções. O valor continua muito abaixo do registado no início da década passada e não revela, pelo menos até agora, uma inversão estrutural comparável à observada nos grupos etários seguintes.

    Foi entre as mulheres dos 20 aos 24 anos que ocorreu o aumento mais expressivo. Em 2021 registaram-se 3.269 interrupções, correspondentes a uma taxa de 1.192 por 100 mil mulheres. Três anos depois, o número subiu para 4.583, um crescimento de 40,2%, enquanto a taxa alcançou 1.633 por 100 mil mulheres, o valor mais elevado de toda a série e também a incidência mais elevada entre os diversos grupos etários em 2024. A DGS confirma que foi nesta faixa que se registou a taxa mais elevada.

    Também entre os 25 e os 29 anos se verificou uma alteração significativa. O anterior máximo absoluto remontava a 2011, com 4.338 interrupções e uma taxa de 1.323 por 100 mil mulheres. Depois de vários anos de relativa estabilização, os números voltaram a crescer rapidamente após 2021. Em 2024 contabilizaram-se 4.527 interrupções, superando o máximo absoluto anterior, enquanto a taxa atingiu o recorde de 1.591 por 100 mil mulheres.

    Mulheres
    Foto: Priscilla Du Preez.

    Nas mulheres entre os 30 e os 34 anos, a inversão é igualmente clara. Em 2021 registaram-se 2.729 interrupções, equivalentes a 990 por 100 mil mulheres. Em 2024, o total aumentou para 3.723 casos, mais 36,4%, e a taxa ascendeu a 1.246 por 100 mil mulheres, também o valor mais elevado da série.

    A faixa dos 35 aos 39 anos seguiu o mesmo padrão. Em 2021 ocorreram 2.054 interrupções, praticamente o valor mais baixo desde 2008, correspondentes a uma taxa de 653 por 100 mil mulheres. Em 2024, o número subiu para 2.619, um crescimento de 27,5%, enquanto a taxa aumentou para 827 por 100 mil mulheres.

    Já entre as mulheres dos 40 aos 49 anos, a evolução foi muito mais moderada. O número de interrupções passou de 1.148 em 2021 para 1.258 em 2024, um aumento inferior a 10%, enquanto a taxa subiu apenas de 143 para 157 por 100 mil mulheres. Foi, de resto, neste grupo que a DGS registou a menor taxa em 2024.

    Em síntese, o crescimento recente não decorre de uma subida generalizada em todas as idades. A maior parte do aumento concentrou-se nas mulheres entre os 20 e os 39 anos, precisamente os grupos onde se registaram os maiores acréscimos, quer em números absolutos, quer nas taxas por 100 mil mulheres. Nas adolescentes e nas mulheres com 40 ou mais anos, pelo contrário, os indicadores permaneceram relativamente estáveis.

    pregnant woman surrounded by plants
    Foto: Josh Bean.

    Já existem 22 interrupções por cada 100 nascimentos

    A inversão é também visível quando se compara o número de interrupções da gravidez com o número de nados-vivos. Em 2024 registaram-se aproximadamente 220 interrupções por cada mil nados-vivos, o equivalente a 22 interrupções por cada 100 nascimentos. Este indicador aumentou cerca de 6% num só ano.

    Este é o segundo valor mais elevado da série, apenas ligeiramente abaixo do máximo observado em 2013, quando a razão rondou as 221 a 222 interrupções por mil nados-vivos.

    Saliente-se que esta relação não significa que 22% de todas as gravidezes tenham terminado numa interrupção, uma vez que compara dois acontecimentos estatísticos distintos e não inclui, por exemplo, os abortos espontâneos. Ainda assim, permite medir o peso das interrupções relativamente à natalidade, que também se encontra condicionada pela redução da população feminina em idade fértil.

    Opção da mulher representa mais de 97% dos casos

    A distribuição pelos fundamentos legais mantém-se praticamente inalterada. Das 18.601 interrupções registadas em 2024, 18.079 foram realizadas por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, correspondendo a 97,2% do total. A taxa específica destas interrupções atingiu cerca de 806 por 100 mil mulheres em idade fértil, mais 5% do que em 2023.

    Os restantes fundamentos apresentam valores muito inferiores. Em 2024 foram registadas 433 interrupções devido a doença grave ou malformação congénita do nascituro, 69 para evitar perigo de morte ou lesão grave e duradoura para a grávida, sete quando a interrupção constituía o único meio de remover esse perigo e 13 em gravidezes resultantes de crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual.

    As situações relacionadas com doença grave ou malformação do nascituro têm oscilado, ao longo dos últimos anos, entre cerca de 400 e 600 casos anuais. Os restantes fundamentos mantêm-se residuais e relativamente estáveis, sendo o crescimento global explicado quase integralmente pelo aumento das interrupções realizadas por opção da mulher.

    Mulher
    Foto: Sasun Bughdaryan.

    Sector privado concentra quase um terço das interrupções

    A maioria das interrupções por opção da mulher foi realizada em estabelecimentos públicos, que representaram 67,6% do total. Ainda assim, 5.860 procedimentos, correspondentes a 32,4%, foram registados num único estabelecimento privado, a Clínica dos Arcos, em Lisboa. Destes, 2.225 foram encaminhados por hospitais públicos.

    A região de Lisboa e Vale do Tejo continuou a concentrar a maioria dos casos: 55,2% das mulheres que realizaram uma interrupção residiam nesta região e 57,7% dos procedimentos foram aí efectuados. Nos Açores, todas as mulheres tiveram de se deslocar para outra região, enquanto no Alentejo essa proporção atingiu 69%.

    Quanto ao método, 77,5% das interrupções por opção da mulher foram realizadas por via medicamentosa. Nos estabelecimentos públicos, essa proporção alcançou 97,7%. No sector privado, pelo contrário, 64,7% dos procedimentos continuaram a ser cirúrgicos, embora esta tenha sido a percentagem mais baixa desde o início dos registos.

    Flores tristeza
    Foto: Claire Kelly.

    Um cruzamento com os dados do CORPUS, a plataforma de saúde do PÁGINA UM, mostra que o número de intervenções cirúrgicas, registadas na Base de Dados da Morbilidade Hospitalar, foi bastante reduzido em 2024, cifrando-se em 1.109 episódios.

    Os dados relativos aos hospitais públicos, através de uma análise na plataforma CORPUS, mostram, aliás, uma redução muito acentuada dos episódios associados à interrupção da gravidez e a outras categorias de aborto ao longo das últimas duas décadas. O total passou de 12.648 episódios em 2000 para 3.219 em 2024, uma queda de 74,6%. A descida foi sobretudo sustentada até 2021, ano em que se atingiu o mínimo da série, com 3.030 episódios, destacando-se a forte redução dos abortos espontâneos e dos abortos retidos, que em 2024 registaram, respectivamente, 1.063 e 775 episódios.

    Nos anos mais recentes, porém, essa trajectória descendente deixou também de se aprofundar. Entre 2021 e 2024, o total de episódios aumentou 6,2%, passando de 3.030 para 3.219. A subida é moderada, mas consistente, com crescimentos sucessivos em 2022, 2023 e 2024. Importa, contudo, não confundir estes episódios hospitalares com o número administrativo total de interrupções voluntárias da gravidez: o CORPUS reflecte apenas os internamentos e episódios codificados no SNS, estando ainda sujeito a quebras de série decorrentes da transição entre ICD-9 e ICD-10 e do aparecimento de novas categorias de codificação a partir de 2016 e 2017.

    Em suma, os dados da DGS relativos a 2024 sobre as interrupções da gravidez não traduzem um aumento pontual, antes parecem confirmar a ruptura de uma tendência de decréscimo que se prolongara durante cerca de uma década. Em seu lugar surgiu um crescimento rápido, consecutivo e particularmente concentrado nas mulheres entre os 20 e os 39 anos. Em números absolutos, Portugal regressou para valores próximos dos observados no início da década passada; em termos relativos, tendo em conta a diminuição da população feminina em idade fértil, já os ultrapassou.

    Mais do que uma questão estatística, esta evolução deve suscitar perguntas sobre a existência de falhas, descontinuidades ou insuficiências nas estratégias de planeamento familiar e nas políticas de contracepção. A interrupção da gravidez constitui sempre uma decisão complexa para a mulher e permanece socialmente fracturante. Por isso, o aumento sustentado dos últimos anos não deveria ser lido apenas como mais um indicador de saúde pública, mas como um sinal de que poderão estar a falhar mecanismos de prevenção capazes de reduzir gravidezes não planeadas e de evitar que tantas mulheres sejam colocadas perante uma escolha pessoal sempre difícil e potencialmente traumatizante.

  • Nasceu o CORPUS: está aberta a caixa-negra dos hospitais públicos portugueses

    Nasceu o CORPUS: está aberta a caixa-negra dos hospitais públicos portugueses


    Durante décadas, uma parte substancial do conhecimento sobre a saúde dos portugueses permaneceu encerrada em arquivos de papel, em servidores, ficheiros administrativos e bases de dados inacessíveis ao escrutínio público. Todos os dias, hospitais registavam diagnósticos, cirurgias, internamentos, altas, óbitos e complicações clínicas. Todos os anos, milhões de episódios eram acrescentados a um património informacional extraordinário. Contudo, para a generalidade dos cidadãos, dos jornalistas, dos investigadores independentes e até de muitos profissionais de saúde, essa informação permanecia invisível.

    O CORPUS nasce para mudar essa realidade.

    Mas o CORPUS não nasceu num gabinete ministerial nem resultou de um programa governamental de modernização administrativa nem de apoios do PPR. Também não é fruto de uma adjudicação pública ou de um financiamento estatal. O CORPUS nasceu de uma investigação jornalística e de uma longa batalha pelo acesso à informação administrativa encetada pelo PÁGINA UM desde 2022.

    A base de dados que suporta esta plataforma foi obtida pelo PÁGINA UM após mais de três anos de disputa jurídica com a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), entidade do Ministério da Saúde que recusou sucessivamente disponibilizar informação administrativa de inequívoco interesse público. O litígio percorreu várias instâncias judiciais, chegou ao Supremo Tribunal Administrativo e culminou na possibilidade de aplicação de sanções pecuniárias aos dirigentes da ACSS pelo incumprimento das decisões judiciais que determinavam a entrega dos dados.

    Aquilo que hoje surge como uma ferramenta de análise e conhecimento começou, portanto, por ser uma questão de transparência democrática.

    O princípio defendido pelo PÁGINA UM foi simples: dados produzidos por entidades públicas, financiados pelos contribuintes e devidamente anonimizados devem poder ser utilizados para investigação, jornalismo, escrutínio público e produção de conhecimento científico. Foi essa convicção que permitiu recuperar e organizar uma das mais extensas bases de dados sobre a actividade hospitalar portuguesa alguma vez colocadas ao serviço da sociedade civil.

    Assente na Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), que reúne os episódios hospitalares ocorridos entre 2000 e 2024 nos hospitais públicos portugueses, o CORPUS constitui uma nova plataforma de análise, exploração e interpretação de dados de saúde baseada em inteligência artificial e métodos estatísticos avançados.

    A dimensão desta base de dados não tem paralelo no jornalismo de dados em Portugal. A BDMH contém 38,5 milhões de episódios clínicos, cada um deles caracterizado por 82 variáveis distintas, totalizando mais de 1,27 mil milhões de células de dados preenchidas. A este volume acrescem ainda cerca de 250 milhões de registos adicionais nas tabelas de diagnósticos e procedimentos em formato longo.

    No seu conjunto, estes dados cobrem um quarto de século de actividade hospitalar do Serviço Nacional de Saúde, permitindo acompanhar a trajectória clínica de cerca de 8,35 milhões de doentes únicos identificados. Poucas bases de dados administrativas portuguesas possuem semelhante profundidade temporal, abrangência populacional e riqueza analítica.

    a woman laying in a hospital bed with an iv in her hand
    Foto: Stephen Andrews

    Mas o CORPUS não é apenas uma base de dados. Nem é apenas uma ferramenta tecnológica. Na verdade, é uma nova forma de interrogar a realidade.

    O utilizador formula a pesquisa em linguagem natural, e a plataforma converte automaticamente essa pergunta em instruções SQL, tornando possível interrogar milhões de registos sem conhecimentos especializados de informática, programação ou Estatística.

    Embora essa instruções possam ser visualizadas e conferidas, esta simplificação da componente técnica permite obter informação detalhada, comparável e metodologicamente robusta, embora o rigor das conclusões continue dependente da qualidade dos dados, da formulação da pergunta e da adequada interpretação dos resultados.

    Foto: D.R.

    Assim, pela primeira vez, torna-se possível colocar perguntas complexas em linguagem natural e obter respostas fundamentadas em milhões de registos clínicos anonimizados. Questões que anteriormente exigiriam semanas ou meses de trabalho estatístico podem agora ser exploradas em minutos com a elaboração de relatórios.

    Qual foi a evolução dos internamentos por enfarte agudo do miocárdio nas últimas duas décadas? Em que regiões se concentram determinadas doenças? Que grupos etários apresentam maior risco de hospitalização? Como evoluiu a mortalidade hospitalar por acidente vascular cerebral? Quais os hospitais com maior volume de determinadas intervenções cirúrgicas? Que padrões de sazonalidade caracterizam as doenças respiratórias?

    O CORPUS permite responder a estas e a milhares de outras questões.

    A plataforma integra informação relativa a diagnósticos, procedimentos clínicos, características demográficas dos doentes, tempos de internamento, mortalidade hospitalar, gravidade clínica, comorbilidades e grupos de diagnóstico homogéneos. A granularidade dos dados permite análises epidemiológicas, geográficas, temporais e institucionais de uma profundidade sem precedentes no contexto português.

    O potencial científico é igualmente extraordinário.

    Área pessoal de relatórios do CORPUS, onde ficam arquivadas as análises e os estudos produzidos pelo utilizador, privados por defeito, mas passíveis de edição, partilha ou publicação.

    Durante anos, muitos debates sobre políticas públicas de saúde foram conduzidos com base em percepções, estudos parcelares ou indicadores agregados. O CORPUS permite regressar à evidência observável. Em vez de opiniões, oferecemos séries temporais. Em vez de conjecturas, apresentamos distribuições estatísticas. Em vez de impressões, revelamos milhões de observações empíricas.

    Isso não significa que os dados falem por si. Nenhuma base de dados produz conhecimento de forma automática. Os dados exigem interpretação, contextualização e sentido crítico. Contudo, sem dados robustos, o debate público torna-se inevitavelmente mais vulnerável a narrativas, preconceitos e simplificações.

    O CORPUS foi concebido para reduzir essa distância entre informação e compreensão.

    Os utilizadores podem obter respostas imediatas através do chat, gerar tabelas e indicadores, explorar tendências temporais, comparar hospitais, analisar padrões de mortalidade ou solicitar relatórios aprofundados acompanhados por gráficos, métricas e interpretação automática dos resultados.

    Explorador de diagnósticos do CORPUS, que permite acompanhar a evolução anual de diferentes indicadores clínicos, comparar resultados por sexo e consultar as respectivas notas metodológicas e quebras de série.

    O desenvolvimento do CORPUS representa, contudo, um exemplo das dificuldades que frequentemente acompanham projectos independentes de inovação científica e jornalística.

    Numa fase inicial, o PÁGINA UM procurou obter apoio através de um programa europeu de financiamento. Foi apresentada uma candidatura a um programa gerido pelo  Journalism Science Alliance, um organismo com a participação da Universidade Nova de Lisboa enquanto entidade promotora académica do projecto.

    Apesar da relevância científica, tecnológica e jornalística do CORPUS, a candidatura acabou por ser rejeitada por razões que continuam por esclarecer, porque nunca foram reveladas as avaliações das diversas candidaturas. Por razões de transparência na gestão de fundos comunitários, este caso será alvo de uma intimação junto do Tribunal Administrativo de Lisboa se a Universidade Nova de Lisboa mantiver a recusa nos esclarecimentos devidos.

    Interface de pesquisa em linguagem natural do CORPUS, que converte automaticamente a pergunta do utilizador em instruções SQL, valida as entidades existentes na base de dados e executa a análise sem exigir conhecimentos de programação.

    A impossibilidade de obtenção de fundos, obrigou o PÁGINA UM a encontrar um modelo alternativo de sustentabilidade desta plataforma.

    Por essa razão, embora o CORPUS disponibilize funcionalidades abertas e acessíveis a todos os utilizadores, algumas das análises mais exigentes, relatórios aprofundados, estudos personalizados, ferramentas avançadas de exploração estatística e funcionalidades intensivas de inteligência artificial dependerão de subscrições pagas.

    Não se trata apenas de ter de pagar servidores, armazenamento e modelos de inteligência artificial, que comportam custos fixos e variáveis bastante relevantes para um jornal como o PÁGINA UM com parcos recursos financeiros. Trata-se sobretudo de garantir a independência de um projecto construído fora das estruturas do Estado, sem financiamento público e sem dependência de interesses comerciais externos.

    Resultado da pesquisa no CORPUS, apresentando os diagnósticos principais com maior número de internamentos e de doentes únicos na ULS de Matosinhos, com filtros e critérios metodológicos explicitados.

    Cada subscrição contribuirá directamente para assegurar a manutenção, expansão e aperfeiçoamento contínuo desta plataforma, permitindo acrescentar novos conjuntos de dados, desenvolver novos modelos analíticos e criar ferramentas cada vez mais sofisticadas de exploração da realidade sanitária portuguesa.

    Ao mesmo tempo, a plataforma pretende servir públicos muito distintos: investigadores, jornalistas, profissionais de saúde, estudantes, decisores políticos e cidadãos interessados em compreender melhor a realidade sanitária portuguesa.

    A saúde constitui uma das áreas mais importantes da vida colectiva, mobilizando recursos públicos gigantescos, influenciando a qualidade de vida de milhões de pessoas e condicionando decisões políticas de enorme relevância. Apesar disso, grande parte do conhecimento produzido diariamente pelo próprio sistema de saúde continua inacessível ou subutilizado.

    O CORPUS pretende contribuir para inverter essa situação.

    Exemplo de notas de leitura geradas pelo CORPUS, que contextualizam os resultados, identificam padrões relevantes, assinalam limitações da consulta e sugerem aprofundamentos antes da produção do relatório final.

    Não substitui investigadores. Não substitui médicos. Não substitui epidemiologistas. Não substitui jornalistas. Mas oferece algo que durante demasiado tempo esteve ausente: a possibilidade de explorar, de forma transparente e acessível, uma das maiores colecções de informação sobre a saúde dos portugueses alguma vez reunidas.

    Num tempo em que a abundância de opiniões frequentemente supera a abundância de evidência, o CORPUS parte de um princípio simples.

    Antes de discutir a realidade, convém conhecê-la.

    E a melhor forma de a conhecer continua a ser através dos dados.

  • A prevenção não tem lobby

    A prevenção não tem lobby

    Porque a actividade física prescrita devia ser tratada com a mesma seriedade que uma receita médica

    Durante anos tratámos a actividade física como conselho de bom senso: caminhe mais, suba escadas, mexa-se, perca peso, faça exercício. O problema é que aquilo que o Estado continua a apresentar como recomendação informal já é, no plano constitucional e legal, muito mais do que isso. É direito.

    A Constituição da República Portuguesa reconhece, no artigo 79.º, que todos têm direito à cultura física e ao desporto. Mas a atividade física não vive apenas nesse artigo, vive também no artigo 64.º, quando a Constituição liga o direito à protecção da saúde à promoção de práticas de vida saudável. A Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto reforça esta leitura logo no seu nome e no seu objecto, não é apenas uma lei do desporto, é uma lei da actividade física e do desporto, e o seu artigo 2.º afirma expressamente que todos têm direito à actividade física e desportiva.

    A pergunta, por isso, deixou de ser apenas médica, social ou comportamental. Passou a ser também jurídica. Que consequências tira o Estado de reconhecer um direito que depois trata como se fosse apenas um conselho?

    man on staircase
    Foto:Marc Kleen

    Esta distinção não é um  preciosismo de jurista, é política pública, é orçamento, é SNS. É vida concreta das pessoas. Se a atividade física é um direito e se a sua função principal, fora do contexto competitivo, é prevenir doença, melhorar a qualidade de vida e proteger a saúde, então a sua tutela estratégica deve pertencer ao Ministério da Saúde.

    Não se trata de retirar competências ao desporto federado, nem de negar a importância dos clubes, das federações ou da prática desportiva organizada. Trata-se de chamar as coisas pelo nome. A caminhada prescrita ao hipertenso, o treino de força recomendado ao idoso frágil, a hidroginástica indicada ao doente com limitação funcional, o exercício orientado ao diabético ou a actividade física acompanhada em contexto de depressão, não são manifestações menores do desporto, são instrumentos de saúde pública.

    E a saúde pública não se defende apenas nos hospitais, defende-se antes dos hospitais.

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    Foto: Trung Nhan Tran

    Portugal discute o Serviço Nacional de Saúde quase sempre a partir da urgência,  tempos de espera, falta de médicos, encerramento de serviços, camas insuficientes, pressão assistencial. Tudo isso é real. Mas nenhum país conseguirá salvar o seu sistema de saúde olhando apenas para a porta de entrada das urgências. A médio e longo prazo, aliviar hospitais também significa impedir que milhares de pessoas cheguem lá por doenças, quedas, fragilidade, perda de autonomia e agravamentos clínicos que poderiam ter sido prevenidos ou retardados.

    A inactividade física está associada a doença cardiovascular, diabetes tipo 2, obesidade, alguns tipos de cancro, depressão, perda de autonomia, fragilidade, quedas, isolamento e maior consumo de cuidados de saúde. A Organização Mundial da Saúde estima que quase um terço da população adulta mundial, cerca de 1,8 mil milhões de adultos, não cumpre as recomendações mínimas de actividade física. Entre adolescentes, a situação é ainda mais expressiva: 81% não cumprem as recomendações da OMS.

    Na Europa, a OCDE e a OMS estimam que mais de um em cada três adultos não cumpre as recomendações mínimas de actividade física e que 45% dizem nunca fazer exercício ou praticar desporto. Entre adolescentes, menos de um em cada cinco rapazes e menos de uma em cada dez raparigas atingem os níveis recomendados.

    a black and white photo of a street sign
    Foto: Federico Tonini

    Os custos desta omissão são enormes. A OMS estima que, se os níveis de inactividade física não forem reduzidos, o custo global para os sistemas públicos de saúde poderá atingir cerca de 300 mil milhões de dólares entre 2020 e 2030, aproximadamente 27 mil milhões de dólares por ano, e a OMS/OCDE estimam que aumentar a actividade física para os níveis recomendados poderia evitar milhares de mortes prematuras por ano na União Europeia e poupar milhares de milhões em despesa de saúde.

    Perante estes dados, a pergunta já não é se o Estado deve recomendar actividade física. A pergunta é se o Estado pode continuar a recomendá-la sem a organizar, sem a prescrever, sem a acompanhar e sem a financiar.

    Portugal não teria, aliás, de começar do zero.

    Na Suécia, a actividade física prescrita existe há mais de duas décadas no sistema de saúde. O modelo sueco, conhecido como Physical Activity on Prescription, foi escolhido pela Comissão Europeia como boa prática e serviu de base ao projecto europeu EUPAP, coordenado pela Agência de Saúde Pública da Suécia, precisamente para apoiar a sua implementação noutros Estados-Membros. A lógica é simples e profundamente diferente da mera recomendação genérica: aconselhamento individualizado, prescrição escrita, adaptação à condição clínica do doente, articulação com entidades da comunidade e acompanhamento posterior. A própria Agência sueca sublinha que a actividade física pode ser prescrita como prevenção, como primeira linha de tratamento ou como complemento de medicamentos e reabilitação.

    Doctor talks with an elderly patient on a couch.
    Foto: Vitaly Gariev

    Na Finlândia, a Physical Activity Prescription foi implementada num programa nacional especialmente orientado para os cuidados de saúde primários. O instrumento foi pensado para permitir ao médico iniciar a conversa clínica sobre actividade física e encaminhar o utente para profissionais de saúde ou de exercício capazes de elaborar um plano mais detalhado e assegurar acompanhamento. Mais relevante ainda, a prescrição de actividade física foi aceite no sistema nacional de registo de saúde e codificada como tal, ou seja, deixou de ser apenas conselho verbal e passou a ter existência clínica e administrativa.

    Na Alemanha, a experiência é mais fragmentada, mas também elucidativa: o chamado Rezept für Bewegung, ou receita para o movimento, tem enquadramento desenvolvido por entidades médicas e desportivas, embora a implementação varie entre os Estados federados. O modelo alemão deixa uma advertência útil para Portugal: prescrever actividade física sem garantir financiamento suficiente é reconhecer o problema sem assumir plenamente a solução.

    Isto confirma precisamente o ponto essencial deste artigo: a prescrição sem financiamento corre o risco de ficar a meio caminho.

    Investment Scrabble text
    Foto: Precondo CA

    No Reino Unido, a resposta tem seguido sobretudo pela via da prescrição social, integrada no NHS. O modelo não se limita ao exercício físico, mas liga utentes a actividades, grupos e serviços da comunidade que respondam a necessidades sociais, emocionais e de saúde. O NHS assumiu esta abordagem como parte da personalização dos cuidados, com trabalhadores de ligação nos cuidados primários e encaminhamento para respostas comunitárias, incluindo actividades físicas, contacto com natureza e grupos locais. Não é ainda o mesmo que comparticipar actividade física prescrita como uma prestação terapêutica autónoma, mas revela uma tendência clara – a saúde começa a sair da receita exclusivamente farmacológica e a entrar no território da comunidade, da prevenção e do acompanhamento de hábitos.

    Estes exemplos não devem ser aplicados cegamente. Cada país tem o seu sistema de saúde, a sua organização administrativa e a sua cultura clínica, mas todos mostram a mesma direção. A actividade física pode deixar de ser mera recomendação e passar a ser instrumento formal de política de saúde. A diferença está no grau de ambição. Portugal pode limitar-se a aconselhar os cidadãos a mexerem-se mais, ou pode assumir aquilo que a Constituição e a Lei de Bases já permitem: transformar a actividade física numa verdadeira prestação preventiva de saúde, com prescrição, acompanhamento, certificação e comparticipação escalonada.

    Men exercising outdoors with an ab roller wheel.
    Foto: Yishen Ji

    Dir-se-á que Suécia, Finlândia, Alemanha ou Reino Unido são países mais ricos, com outra capacidade financeira e administrativa. É verdade. Mas essa constatação não deve servir de desculpa para Portugal fazer menos; deve servir de razão para pensar melhor. Um país com menos recursos não se pode dar ao luxo de gastar eternamente mal. Se continuarmos a tratar a prevenção como ornamento e a doença como destino, continuaremos presos ao mesmo ciclo: pouca prevenção, muita doença instalada, mais medicamentos, mais urgências, mais internamentos e uma factura pública cada vez mais pesada.

    É aqui que o discurso muda de plano. O direito à actividade física não pode continuar a ser tratado como uma proclamação bonita da Lei de Bases, sem orçamento e sem consequência administrativa – direitos que não saem do papel servem pouco; direitos que não entram no orçamento, servem ainda menos.

    A actividade física prescrita deve entrar no SNS com a mesma seriedade institucional com que entra uma receita médica: indicação, dose, frequência, progressão, acompanhamento e avaliação de resultados. Naturalmente, não substitui medicamentos quando estes são necessários. Mas também não pode continuar a ser tratada como conselho de corredor, entregue à força de vontade do utente e sem consequência clínica.

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    Foto: Marek Studzinski

    Naturalmente, esta mudança encontraria resistências. Não vale a pena fingir o contrário. O sistema de saúde moderno está profundamente organizado em torno da resposta medicamentosa, da consulta, do exame, da receita e da terapêutica farmacológica. A indústria farmacêutica tem um peso económico, institucional e científico evidente, incluindo na formação contínua, na investigação, nos congressos e na própria cultura clínica. Isso não significa desvalorizar os medicamentos, nem lançar suspeitas generalizadas sobre os médicos. Seria injusto e intelectualmente pobre, a medicina farmacológica salva vidas todos os dias.

    Mas também seria ingénuo ignorar que qualquer política pública que deslocasse parte da resposta do medicamento para a prevenção activa, prescrita e acompanhada, mexeria com hábitos instalados, interesses económicos e rotinas profissionais. A actividade física não tem delegado comercial, não patrocina congressos com a mesma força, não chega ao consultório em embalagem, não tem marca, não tem campanha promocional e não se prescreve com a facilidade administrativa de uma caixa de comprimidos.

    A prevenção não tem o mesmo lobby da doença.

     Talvez por isso continue a ser tratada como recomendação, quando já devia ser política pública financiada.

    a stack of 20 euro bills next to a pack of 20 pills
    Foto: Marek Studzinski

    Ainda assim, essa resistência não pode servir de desculpa. O Estado não existe para proteger comodidades institucionais, mas para organizar o interesse público e, a médio e longo prazo, uma política séria de actividade física prescrita e comparticipada tenderia a ser menos dispendiosa do que continuar a financiar, quase exclusivamente, a doença depois de instalada.

    Prevenir quedas, obesidade, diabetes descompensada, hipertensão mal controlada, fragilidade, depressão, perda de autonomia e internamentos evitáveis é incomparavelmente mais racional do que pagar, anos depois, a fatura hospitalar, medicamentosa e social dessa omissão.

    O médico que prescreve um comprimido para a tensão, para a diabetes, para o colesterol ou depressão, sabe que a dose, a adesão, a duração e a monitorização importam. O mesmo raciocínio deve valer para a actividade física. Não basta dizer a um doente sedentário, obeso, hipertenso, diabético, ansioso ou idoso para “andar mais”– é necessário avaliar o ponto de partida, definir objectivos, indicar intensidade, frequência e progressão, articular com profissionais qualificados e acompanhar resultados.

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    Foto: Mitchell Luo

    A prescrição de actividade física deve ser integrada nos cuidados de saúde primários. Deve constar do processo clínico, deve ser avaliada, deve ser acompanhada, deve permitir referenciação para programas certificados, e deve envolver médicos, enfermeiros, fisiologistas do exercício, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas, autarquias, unidades locais de saúde, piscinas municipais, clubes, associações e espaços devidamente certificados.

    Mas levar este direito a sério implica mais do que prescrevê-lo.

    Implica comparticipá-lo.

    Se o Estado comparticipa medicamentos para controlar a hipertensão, a diabetes, o colesterol, a ansiedade, a depressão ou a dor crónica, deve pelo menos discutir-se por que razão não comparticipa programas certificados de actividade física prescrita que actuem precisamente sobre muitos desses mesmos factores de risco.

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    Foto: Towfiqu barbhuiya

    A actividade física clinicamente prescrita não deve ser tratada como uma mensalidade de ginásio; essa caricatura seria demasiado fácil e demasiado pobre. Não se trata de pagar ginásios indiscriminadamente à população, trata-se de comparticipar intervenção preventiva de saúde, quando clinicamente indicada, integrada num plano terapêutico, acompanhada por profissionais habilitados e sujeita a avaliação periódica.

    O modelo poderia começar de forma prudente, projectos-piloto nos cuidados de saúde primários, prioridade para grupos de risco, programas certificados, prescrição clínica, acompanhamento regular e avaliação de resultados. Idosos frágeis, pessoas com obesidade, diabetes, hipertensão, doença cardiovascular, depressão, limitação funcional, risco de queda ou vulnerabilidade económica deveriam estar na primeira linha.

    O Estado não teria de criar tudo de raiz, teria de organizar, certificar e financiar uma rede que já existe de forma dispersa – autarquias, piscinas municipais, clubes, associações, unidades de saúde, profissionais do exercício, fisioterapeutas e programas comunitários. O que falta não é apenas oferta. Falta transformar essa oferta em política pública de saúde, juridicamente enquadrada, clinicamente prescrita e financeiramente acessível.

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    Foto: Alexey Demidov

    A comparticipação pública da actividade física prescrita seria a consequência natural de a tratar como verdadeira prestação preventiva de saúde, e não como mero conselho de estilo de vida. Se uma caminhada orientada, um programa de treino de força, exercício adaptado, hidroginástica terapêutica ou actividade física supervisionada podem evitar agravamento clínico, internamentos, aumento de medicação, quedas, dependência ou perda de autonomia, então a comparticipação não deve ser vista como despesa desportiva, mas como investimento em saúde.

    É aqui que a tutela do Ministério da Saúde se torna essencial: a actividade física não pode continuar a ser uma política lateral, dependente de campanhas simpáticas, cartazes ocasionais ou slogans de vida saudável. Deve ser uma política permanente de prevenção, com orçamento, metas, indicadores, responsabilidade pública e avaliação de impacto.

    O Ministério da Saúde deveria assumir a actividade física como eixo estratégico do SNS – rastrear sedentarismo, formar profissionais para prescrição de exercício, criar protocolos clínicos, certificar programas, financiar respostas, articular com autarquias e medir resultados. Tal como se mede tensão arterial, glicemia, peso, colesterol ou risco cardiovascular, deve medir-se capacidade funcional, força, mobilidade, risco de queda, nível de actividade física e adesão ao plano prescrito.

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    Foto: National Cancer Institute (EUA)

    A médio prazo, esta política poderia aliviar a pressão sobre hospitais, não por milagre administrativo, mas por prevenção acumulada: menos diabetes descompensada, menos doença cardiovascular, menos obesidade grave, menos quedas em idosos, menos perda precoce de autonomia, melhor saúde mental e maior capacidade funcional significam menos procura futura de cuidados hospitalares evitáveis.

    O Estado não pode continuar a comparticipar a doença com rigor farmacológico e a tratar a prevenção como conselho informal, de corredor.

    A verdadeira questão é esta – se a Constituição reconhece o direito à cultura física e ao desporto, se a Lei de Bases afirma o direito à actividade física e desportiva, se a ciência demonstra o impacto da inactividade na doença e se o SNS vive sob pressão permanente, por que razão a actividade física continua a ser tratada como recomendação secundária e não como prestação preventiva essencial?

    Talvez esteja na altura de levarmos a sério aquilo que a lei já diz.

    person wearing black work boots
    Foto: Henry Xu

    O direito à actividade física não pode continuar a ser apenas o direito abstrato de cada um se mexer se puder, quando puder e se tiver dinheiro para isso; tem de passar a ser o direito concreto a condições públicas que tornem essa prática possível, prescrita, acompanhada e, quando clinicamente justificado, comparticipada.

    Porque, no fim, a pergunta é simples: se o Estado comparticipa medicamentos para tratar a doença, por que razão não há de comparticipar actividade física prescrita para evitar que parte dessa doença exista?

    Bruno dos Santos Pereira é advogado e sócio na sociedade SPASS e possui uma pós-graduação em Direito do Desporto.

  • Dos 0 aos 109 anos: a biografia epidemiológica dos portugueses nos hospitais públicos — III. Da doença crónica à fragilidade

    Dos 0 aos 109 anos: a biografia epidemiológica dos portugueses nos hospitais públicos — III. Da doença crónica à fragilidade


    Continuação da investigação iniciada aqui e aqui.

    ***

    CAPÍTULO VI — QUANDO O HOSPITAL PASSA A ACOMPANHAR O ENVELHECIMENTO

    Depois dos 60 anos, já não aumenta apenas o número de doentes. Aumenta sobretudo a complexidade de cada doente

    Quando se discute o envelhecimento da população portuguesa e o seu impacte no Sistema Nacional de Saúde afirma-se muitas vezes que os hospitais estão mais sobrecarregados porque existem mais idosos. A afirmação é verdadeira, mas apenas explica uma parte da realidade. A base de dados analisada pelo CORPUS mostra que o fenómeno é substancialmente mais complexo. O envelhecimento não aumenta apenas o número de pessoas internadas, mas altera profundamente a natureza da actividade hospitalar.

    À medida que a idade avança, cada internamento deixa de corresponder, com maior frequência, a um episódio isolado e passa a integrar um percurso clínico prolongado, onde coexistem várias doenças, múltiplos tratamentos e sucessivos regressos ao hospital.

    Foto: D.R.

    Esta transformação começa a tornar-se evidente por volta dos 60 anos de idade. A actividade hospitalar cresce de forma contínua e já não pode ser explicada por uma única patologia dominante. Em 2024, as pessoas com 60 anos registaram mais de 11 mil episódios de internamento. Com mais cinco anos de idade já se aproximaram dos 13 mil, mesmo correspondendo a um universo absoluto menor. Aos 69 anos ultrapassaram os 15 mil episódios, representando um aumento superior a um terço em menos de uma década de vida. Ou seja, não ocorreu qualquer epidemia nesse período nemo surgiu uma nova doença. Aquilo que mudou foi a estrutura biológica da própria população que chega aos hospitais determinada pelas patologias associadas à idade.

    A insuficiência renal continua a ocupar um lugar de grande destaque nesta faixa etária, mas deixa progressivamente de definir, por si só, o perfil epidemiológico destas idades. A seu lado consolidam-se as doenças cerebrovasculares, cresce o número de intervenções relacionadas com a osteoartrose, aumenta o peso das doenças cardiovasculares e multiplicam-se as neoplasias que exigem cirurgia, internamentos programados e tratamentos prolongados. A diversidade clínica passa a ser, ela própria, uma característica desta fase da vida. Enquanto a infância podia ser resumida às infecções respiratórias e a adolescência à apendicite, a sexta e a sétima décadas recusam qualquer simplificação. Cada cama hospitalar passa a contar uma história diferente.

    Esta será, provavelmente, a maior diferença face às etapas anteriores da vida. Durante a infância, um episódio de pneumonia pouco tem que ver com uma amigdalite. Na adolescência, uma apendicite não explica uma fractura do antebraço. Depois dos 60 anos, essa independência desaparece. O mesmo doente pode apresentar insuficiência renal, diabetes, hipertensão arterial, fibrilhação auricular, insuficiência cardíaca e osteoartrose, obrigando ao envolvimento simultâneo de várias especialidades médicas. Os hospitais registam um diagnóstico principal, mas esse diagnóstico representa apenas a porta de entrada para um universo clínico muito mais complexo.

    couple sitting on pathway
    Foto: D.R.

    Também o indicador que distingue internamentos de internados ganha agora uma importância que dificilmente seria perceptível nas idades mais jovens. O número médio de internamentos por pessoa continua a aumentar, revelando que uma parte crescente da actividade hospitalar resulta do acompanhamento repetido dos mesmos doentes. Esta evolução ajuda, de igual modo, a desmontar uma ideia muito repetida no debate público. Quando se afirma que “existem mais internamentos”, tende a imaginar-se um número crescente de pessoas diferentes a ocupar camas hospitalares.

    Os dados mostram, porém, outra realidade: uma parte substancial desse crescimento resulta do facto de as mesmas pessoas regressarem várias vezes ao hospital ao longo do ano, porque a Medicina moderna consegue mantê-las vivas durante muito mais tempo, mas não elimina a necessidade de cuidados continuados.

    Há aqui um paradoxo que merece alguma atenção. Quanto mais eficaz se torna a Medicina, maior tende a ser a pressão sobre os hospitais. À primeira vista, a afirmação parece contraditória. Mas, na realidade, traduz uma das maiores conquistas da saúde contemporânea: muitas das pessoas hoje internadas por insuficiência renal, doença cardíaca, cancro ou acidente vascular cerebral dificilmente sobreviveriam durante tantos anos se estes mesmos dados fossem observados há quarenta ou cinquenta anos.

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    Foto: D.R.

    A melhoria dos tratamentos aumentou substancialmente a esperança de vida. Em contrapartida, aumentou também o número de cidadãos que vivem longos períodos com doença crónica e que necessitam de acompanhamento hospitalar regular. A actividade hospitalar cresce, em parte, porque a Medicina passou a vencer batalhas que anteriormente perdia.

    Existe ainda uma leitura demográfica que poucas vezes acompanha este tipo de estatísticas. O envelhecimento da população portuguesa não significa apenas que existam mais pessoas idosas. Significa também que pertencem às gerações mais numerosas da segunda metade do século XX. À medida que essas gerações avançam na idade, transportam consigo um volume muito superior de necessidades clínicas do que aquele que existia quando Portugal tinha uma estrutura etária mais jovem. A pressão sobre os hospitais resulta, assim, da conjugação de dois fenómenos distintos: vive-se mais tempo e pertencem agora às idades de maior utilização hospitalar gerações muito mais numerosas.

    Talvez por isso a fronteira tradicional dos 65 anos tenha pouca utilidade para compreender aquilo que sucede em contexto hospitalar. Trata-se mais de uma idade administrativa – e agora até mais simbólica –, importante para efeitos de reformas ou de diversos indicadores sociais, mas quase irrelevante do ponto de vista epidemiológico. De facto, os dados não mostram qualquer ruptura aos 65 anos. Mostram antes uma progressão lenta e contínua que começa bastante antes e prossegue durante várias décadas. Ora, a Epidemiologia ignora fronteiras burocráticas, evoluindo de forma gradual, acompanhando o ritmo muito menos disciplinado da Biologia.

    Mas nem esta fase representa o ponto final da transformação. Durante mais de cinquenta anos, as doenças respiratórias perderam progressivamente importância relativa. Pareciam pertencer apenas à infância. Contudo, quando a população ultrapassa os 75 anos, voltam lentamente ao primeiro plano. Não regressam porque o organismo ainda esteja a aprender a defender-se. Regressam sim porque, depois de toda uma vida de envelhecimento, começa a perder essa capacidade. É aí que a biografia epidemiológica dos portugueses revela uma das suas mais inesperadas simetrias.

    CAPÍTULO VII — O REGRESSO DAS DOENÇAS RESPIRATÓRIAS

    Depois de meio século afastadas do topo das estatísticas, as pneumonias regressam. A biologia parece fechar um ciclo.

    Ao longo desta investigação houve uma sucessão constante de protagonistas. Primeiro foram as doenças do período neonatal; depois as bronquiolites, as pneumonias e as amigdalites; seguiu-se a apendicite, mais tarde a gravidez e o parto, depois a insuficiência renal, as doenças cardiovasculares e as neoplasias. À primeira vista, a evolução parece linear, como se cada fase da vida substituísse definitivamente a anterior. Os dados mostram, porém, uma realidade bastante mais interessante. Algumas doenças não desaparecem verdadeiramente. Regressam muitos anos depois, embora por razões completamente diferentes.

    É isso que acontece com a pneumonia.

    Chest x-ray showing bilateral infiltrates and cardiomegaly.
    Foto: CDC.

    Durante a infância, constitui uma consequência natural da imaturidade do sistema imunitário e da intensa circulação de agentes infecciosos entre crianças. A partir da adolescência perde, de forma progressiva, importância relativa, permanecendo durante décadas longe dos primeiros lugares das estatísticas hospitalares. Seria tentador concluir que deixou de representar um problema clínico relevante. Mas a segunda metade da vida encarrega-se de contrariar essa ideia. A partir da segunda metade da década dos setenta, a pneumonia reaparece entre os principais motivos de internamento e volta a assumir um papel central na actividade hospitalar.

    A coincidência dificilmente passa despercebida. A mesma doença que acompanhava os primeiros anos da existência regressa quando a vida se aproxima do seu termo, embora não pelo mesmo motivo. O lactente enfrenta as infecções respiratórias porque o seu sistema imunitário ainda está em desenvolvimento. O idoso enfrenta-as porque esse mesmo sistema perdeu parte da eficácia acumulada ao longo de décadas. Os extremos da vida acabam, assim, por partilhar uma vulnerabilidade comum, apesar de se dever a mecanismos biológicos opostos. Poucas imagens descrevem de forma tão clara a circularidade da Epidemiologia.

    Mas limitar esta fase da vida à pneumonia seria tão redutor como resumir a adolescência à apendicite. Aquilo que verdadeiramente caracteriza estas idades é a convergência de múltiplas fragilidades. A pneumonia raramente aparece isolada, surgindo, com frequência, associada à insuficiência cardíaca, à doença pulmonar obstrutiva crónica, à insuficiência renal, à diabetes, à desnutrição, à perda de autonomia ou às consequências de um acidente vascular cerebral anterior. O internamento deixa de corresponder ao tratamento de uma única doença para passar a representar a gestão simultânea de um conjunto de problemas clínicos que interagem permanentemente entre si.

    grayscale photo of smiling woman in crew-neck T-shirt
    Foto: Alpay Tonga.

    Também as fracturas do colo do fémur começam a assumir um peso crescente. A interpretação destes números exige alguma cautela. À primeira vista, trata-se apenas de um traumatismo ortopédico. Na realidade, uma fractura da anca constitui muitas vezes um marcador de fragilidade biológica. Uma queda que, aos quarenta anos, provocaria apenas uma contusão, pode, aos noventa, desencadear uma sucessão de acontecimentos clínicos que incluem cirurgia, imobilização prolongada, infecções respiratórias, perda de autonomia, necessidade de institucionalização e novos internamentos. A fractura representa, muitas vezes, o início de uma cascata de acontecimentos muito mais complexa do que a lesão óssea propriamente dita.

    Situação similar sucede com as doenças cerebrovasculares. Um acidente vascular cerebral não termina quando termina o internamento. Em muitos casos marca o início de uma longa trajectória de reabilitação, dependência funcional, complicações infecciosas, disfagia, perda de mobilidade e sucessivos regressos ao hospital. A base de dados contabiliza um episódio hospitalar. A realidade clínica prolonga-se frequentemente durante anos.

    Nesta fase, o indicador dos internamentos por internado adquire o seu maior significado. Em muitas destas idades, cada pessoa internada origina, em média, cerca de um internamento e meio durante o mesmo ano. A diferença relativamente à infância é enorme. A criança internada por uma pneumonia regressa quase sempre à sua vida normal. O idoso internado por pneumonia pode regressar semanas depois por insuficiência cardíaca, meses mais tarde por uma fractura e novamente por uma infecção urinária ou uma descompensação metabólica. O hospital acompanha cada vez menos episódios independentes e cada vez mais histórias clínicas prolongadas.

    Existe aqui uma conclusão que importa retirar. Durante muito tempo discutiu-se o envelhecimento da população portuguesa quase exclusivamente em termos demográficos. Contaram-se idosos, calcularam-se índices de envelhecimento e projectou-se a evolução da esperança de vida. Tudo isso continua a ser importante.

    Porém, estes dados sugerem que a verdadeira transformação ocorre dentro dos hospitais. O envelhecimento não altera apenas a idade média da população; modifica profundamente a natureza da Medicina, obrigando a abandonar uma lógica centrada na doença isolada e a adoptar uma abordagem orientada para a multimorbilidade, para a continuidade de cuidados e para a gestão de trajectórias clínicas cada vez mais longas.

    Talvez seja por isso que a grande mudança observada depois dos 75 anos não possa ser resumida a um diagnóstico específico. Aquilo que se torna dominante já não é a pneumonia, nem a insuficiência renal, nem o acidente vascular cerebral. O verdadeiro protagonista passa a ser outro: a fragilidade.

    E é essa fragilidade que define a última etapa da biografia epidemiológica dos portugueses.

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    Foto: Marcelo Leal

    CAPÍTULO VIII — A FRAGILIDADE

    Chega uma idade em que o hospital deixa de tratar doenças isoladas. Passa a tratar a vulnerabilidade do próprio organismo.

    Ao longo desta investigação assente no CORPUS foi relativamente fácil identificar um protagonista para cada etapa da vida. Na infância dominaram as infecções respiratórias. Na adolescência destacou-se a apendicite. A idade adulta foi marcada pela obstetrícia e, mais tarde, pela doença renal crónica. A partir dos 75 anos, porém, essa lógica começa lentamente a perder sentido. Continuam a existir diagnósticos principais, porque a Classificação Internacional de Doenças obriga a identificar uma causa dominante para cada internamento, mas a realidade clínica torna-se progressivamente mais difícil de resumir numa única palavra.

    Aquilo que passa a ocupar o centro da actividade hospitalar já não é uma doença específica. Como se disse, é a fragilidade, que nem sequer constitui um diagnóstico nosológico tradicional. De facto, não corresponde a uma bactéria, a um vírus, a um tumor ou a um órgão que deixou de funcionar. Traduz antes a perda progressiva da capacidade do organismo para responder a acontecimentos que, em idades mais jovens, seriam ultrapassados sem grande dificuldade.

    Nesta fase da vida, uma pneumonia deixa de ser apenas uma infecção respiratória. Uma fractura da anca deixa de representar apenas uma lesão ortopédica. Uma infecção urinária deixa de constituir um episódio relativamente banal. Cada um destes acontecimentos passa a desencadear uma cadeia de complicações cuja origem reside menos na doença inicial do que na redução da reserva fisiológica acumulada ao longo de toda uma vida.

    two men playing chess

    Os dados hospitalares acabam por documentar essa transformação sem nunca utilizarem a palavra fragilidade. Aos 85 anos, a probabilidade de um português necessitar de internamento é várias vezes superior à observada na meia-idade. Aos 90 anos, aproxima-se de um em cada quatro residentes. Aos 95 anos, aproxima-se de um terço da população dessa idade. Mais do que a frequência do internamento, impressiona a intensidade com que muitos destes doentes regressam sucessivamente ao hospital, revelando que a actividade hospitalar deixa de ser determinada apenas pelo aparecimento de novas doenças e passa a acompanhar a evolução continuada das mesmas pessoas. A fronteira entre episódio agudo e doença crónica torna-se cada vez mais difícil de estabelecer.

    Também por essa razão desaparece progressivamente a ideia de especialidade dominante. O internista trata, em simultâmeo, um doente com insuficiência cardíaca, insuficiência renal, diabetes e pneumonia. O ortopedista opera uma fractura da anca sabendo que o verdadeiro desafio começará depois da cirurgia. O neurologista trata um acidente vascular cerebral cuja recuperação dependerá tanto da reabilitação como da prevenção das complicações respiratórias, infecciosas e cardiovasculares. O hospital transforma-se num espaço onde diferentes especialidades deixam de actuar em paralelo e passam inevitavelmente a cruzar-se.

    Existe aqui uma mudança que ajuda igualmente a compreender por que razão a pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde continuará a aumentar nas próximas décadas, mesmo que não ocorra qualquer epidemia de grande dimensão. Durante muito tempo, o principal objectivo da Medicina consistiu em reduzir a mortalidade. Em larga medida, esse objectivo foi alcançado: os portugueses vivem hoje muito mais anos do que viviam há meio século. Mas esse sucesso trouxe consigo um novo desafio. A Medicina passou a cuidar de uma população que sobrevive durante muito mais tempo com doença crónica, dependência funcional e necessidades clínicas permanentes. A actividade hospitalar deixou de crescer apenas porque existem mais pessoas doentes. Cresce porque existem mais pessoas que permanecem vivas durante muitos anos apesar da doença.

    Talvez por isso os hospitais contemporâneos sejam instituições profundamente diferentes daquelas que existiam há cinquenta ou sessenta anos. Continuam a tratar pneumonias, fracturas, acidentes vasculares cerebrais ou insuficiência renal. Mas, acima de tudo, passaram a acompanhar pessoas que acumulam sucessivamente essas doenças ao longo do tempo. A Medicina deixou de vencer apenas episódios clínicos, passando a gerir trajectórias de vida.

    Existe, contudo, uma última leitura que estes números sugerem.

    Ao longo desta investigação jornalística observámos sucessivamente bebés, crianças, adolescentes, adultos jovens, pessoas de meia-idade e idosos. Nenhuma dessas pessoas é a mesma. A base de dados não acompanha indivíduos ao longo da vida. Observa centenas de milhares de portugueses diferentes num único ano civil. Ainda assim, quando esses quase 900 mil internamentos são ordenados pela idade exacta dos doentes, emerge um retrato extraordinariamente coerente da forma como uma população envelhece. Não é a biografia clínica de uma pessoa. É a biografia epidemiológica de um país.

    E talvez seja essa a descoberta mais interessante desta investigação. Porque, no final, os hospitais não registam apenas internamentos. Sem o saberem, registam também a história biológica da sociedade portuguesa.

    Nurse smiling with elderly patient in room
    Foto: D.R.

    CAPÍTULO IX — O HOSPITAL COMO ESPELHO DE UM PAÍS

    No fim, os hospitais mão tratam apenas doenças; falam dos portugueses.

    À primeira vista, esta investigação começou por responder a uma pergunta relativamente simples: quais são as principais causas de internamento em cada idade? A resposta acabou por ser bastante mais ampla. À medida que os quase 900 mil internamentos foram organizados um a um, deixou de ser apenas possível perceber quais as doenças mais frequentes. Tornou-se igualmente possível observar como muda a própria relação entre uma população e os seus hospitais. Essa mudança revela-se muito mais profunda do que a simples sucessão de diagnósticos.

    Ao longo da infância, os hospitais acompanham sobretudo a construção da imunidade. As enfermarias enchem-se de crianças que, através das suas primeiras infecções respiratórias, percorrem um processo biológico comum à esmagadora maioria da população. A adolescência introduz uma realidade completamente diferente. A cirurgia substitui a pediatria, os traumatismos aumentam, a apendicite domina quase uma década e começam discretamente a surgir problemas de saúde mental. Poucos anos depois, o próprio significado do hospital altera-se de novo. Durante cerca de vinte anos, uma parte muito significativa da actividade hospitalar deixa de estar associada à doença para acompanhar um dos acontecimentos mais importantes da vida humana: o nascimento de uma nova geração.

    A segunda metade da existência inicia outra transformação. A insuficiência renal, as doenças cardiovasculares, as neoplasias, a osteoartrose e as restantes doenças crónicas deixam progressivamente de representar acontecimentos isolados para passarem a coexistir na mesma pessoa. O hospital deixa de resolver episódios. Passa a acompanhar percursos clínicos. Finalmente, nas idades mais avançadas, aquilo que se torna dominante já não é uma doença concreta, mas a própria fragilidade do organismo. As pneumonias regressam, as fracturas tornam-se mais frequentes, aumentam os acidentes vasculares cerebrais e multiplica-se a coexistência de patologias que obrigam a um acompanhamento permanente.

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    Foto: Vladimir Fedotov.

    Existe, porém, uma conclusão que ultrapassa a epidemiologia.

    Durante muitos anos, habituámo-nos a olhar para estatísticas hospitalares quase como instrumentos de gestão. Contam camas ocupadas, dias de internamento, tempos médios de permanência, cirurgias realizadas ou episódios de urgência. Tudo isso continua a ser indispensável para administrar um sistema de saúde. Mas esta análise mostra que os mesmos dados podem responder a perguntas muito diferentes. Permitem perceber como envelhece uma sociedade, como evoluem as necessidades clínicas de cada geração e até de que forma a própria medicina transformou a experiência de viver em Portugal.

    Há meio século, uma parte significativa das doenças que hoje ocupam as enfermarias conduzia rapidamente à morte. A insuficiência renal terminal era uma sentença irreversível. Muitos enfartes agudos do miocárdio terminavam fatalmente nas primeiras horas. O acidente vascular cerebral significava, em muitos casos, o fim da autonomia ou da própria vida. Diversas neoplasias eram diagnosticadas demasiado tarde para permitir qualquer tratamento eficaz. Hoje, a realidade é profundamente diferente.

    A diálise prolonga durante anos a vida de milhares de pessoas. A cardiologia de intervenção reduz drasticamente a mortalidade dos enfartes. A trombectomia e a trombólise alteraram o prognóstico de muitos acidentes vasculares cerebrais. A oncologia transformou várias formas de cancro em doenças de longa evolução. Cada um destes progressos representa uma vitória da medicina. Em conjunto, ajudam igualmente a explicar porque razão os hospitais acompanham hoje muito mais pessoas durante muito mais tempo.

    Talvez seja esse o maior paradoxo revelado por esta investigação. A crescente pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde não constitui apenas a consequência do envelhecimento demográfico, mas também uma consequência do sucesso da própria Medicina. Quanto maior é a capacidade para evitar mortes prematuras, maior tende a ser o número de pessoas que vivem décadas com doenças crónicas, necessitando de acompanhamento hospitalar continuado. O aumento da actividade hospitalar representa, por isso, simultaneamente um desafio para o sistema de saúde e um dos indicadores mais claros dos progressos alcançados ao longo das últimas gerações.

    Existe ainda uma última lição que merece ser retirada.

    Ao longo destas páginas seguimos um percurso que começa no nascimento e termina aos 109 anos – a idade dos mais velho internado nos hospitais públicos portugueses em 2024. Nenhuma destas pessoas é a mesma. Os dados analisados correspondem a um único ano e resultam da observação de centenas de milhares de portugueses diferentes. Ainda assim, quando são organizados idade a idade, produzem um efeito inesperado. As fronteiras artificiais entre infância, adolescência, idade adulta e velhice deixam de ser categorias administrativas e passam a revelar transições biológicas concretas, muitas delas invisíveis quando a informação é apresentada em grandes escalões etários.

    dextrose hanging on stainless steel IV stand
    Foto: Marcelo Leal.

    Talvez seja essa a maior contribuição desta investigação. Não descobriu novas doenças. Também não identificou uma epidemia desconhecida. Fez algo simultaneamente mais simples e mais raro: mostrou que os dados públicos ainda podem contar histórias novas quando são observados sob um ângulo diferente.

    No fundo, aquilo que começou por ser uma análise de 883.479 internamentos acabou por revelar algo muito mais amplo. Os hospitais registam entradas e altas, diagnósticos e procedimentos, cirurgias e óbitos. Mas, quando esses milhões de registos são observados em conjunto, deixam de contar apenas a história das doenças. Passam a contar, ano após ano, a história biológica de Portugal.

    ***

    N.D. Veja aqui o relatório final do CORPUS.


  • Calor mediático, mortalidade normal: Verão de 2026 começa sem excesso de óbitos

    Calor mediático, mortalidade normal: Verão de 2026 começa sem excesso de óbitos


    Apesar do histerismo mediático em torno das temperaturas elevadas das últimas semanas, com mapas pintados de vermelho anunciando uma calamidade sanitária iminente, Portugal não registou até agora nenhuma anomalia digna de registo na mortalidade total.

    De acordo com uma análise estatística do PÁGINA UM aos registos diários do Sistema de Informação dos Certificados de Óbito, com critérios científicos bem definidos, os valores da mortalidade mantêm-se, por enquanto, dentro da variação normal esperável para o começo do Verão, sem qualquer excesso persistente que permita falar numa perturbação associada às temperaturas elevadas.

    woman leaning on white concrete surface beside swimming pool during daytime
    Foto: Anna Demianenko.

    Junho foi, aliás, um mês de mortalidade bastante baixa. Registaram-se 8.868 mortes, correspondentes a uma média de 296 óbitos por dia. Em 17 dos 30 dias morreram menos de 300 pessoas; em 22 dias a contagem não ultrapassou os 310; e o valor mais elevado de todo o mês ocorreu em 16 de Junho, com 343 óbitos. Os valores de Junho de 2026 estão mesmo abaixo da média do quinquénio anterior (304 óbitos por dia).

    Estes números contrastam ainda mais com aquilo que sucede habitualmente no Inverno e em parte da Primavera, quando a mortalidade diária pode subir de forma muito mais marcada, por combinação de infecções respiratórias, frio, fragilidade acrescida da população idosa e pressão sobre os serviços de saúde. Para se ter um termos de comparação, a mortalidade média diária em Janeiro passado foi de 440 óbitos, um pouco acima dos 415 óbitos por dia de dezembro passado.

    Um ligeiro aumento verificado nesta segunda-feira, 6 de Julho, quando foram registadas 362 mortes, merece atenção, mas está longe do fenómeno mediático que tem alimentado a imprensa nas últimas semanas. Sobretudo numa situação em que se prevê uma descida das temperaturas nos próximos dias.

    Em todo o caso, a confusão entre um número alto e uma anomalia estatística constitui um dos vícios mais frequentes da cobertura mediática destes episódios. Uma morte não deixa de ser uma morte por estar dentro do esperado; mas a vigilância epidemiológica procura outra coisa: identificar se, num determinado período, morreram mais pessoas do que seria razoável antecipar tendo em conta a época do ano, o padrão de mortalidade daquele ano, a evolução demográfica e as flutuações habituais da série. Não se compara, portanto, um dia de Julho com a média indiferenciada de todos os meses, nem se retira uma conclusão nacional de uma manhã particularmente sufocante em Lisboa, Évora ou Santarém.

    Para identificar anomalias evidentes na última década devido a elevadas temperaturas, a análise do PÁGINA UM restringiu-se ao período entre Junho e Setembro, de modo a evitar a distorção provocada pela mortalidade mais elevada do Inverno. Para cada dia foi calculado um valor esperado, ajustado ao padrão estival da série, ao nível geral de mortalidade de cada ano e à variação do calendário. Depois, em vez de se procurar o dia mais dramático, foram identificados blocos consecutivos de mortalidade elevada.

    Deste modo, um episódio só foi considerado um sinal forte quando se prolongou durante, pelo menos, cinco dias, acumulou um excesso superior a 10% e apresentou um afastamento estatístico suficientemente elevado para excluir a hipótese de simples flutuação casual.

    Calor
    Foto: Tom Prejeant.

    Este método tem uma vantagem que deveria ser óbvia, mas raramente é respeitada fora dos círculos epidemiológicos: não confunde um sobressalto com uma tendência. A mortalidade por calor não aparece obrigatoriamente no dia em que o termómetro atinge a máxima. Na verdade, pode surgir no próprio dia, aumentar durante os dias seguintes e prolongar-se por mais algum tempo, sobretudo entre pessoas já fragilizadas.

    Por outro lado, o calor não é a única variável que mata durante uma vaga de calor. Podem concorrer infecções, falhas de acesso a cuidados, problemas cardiovasculares, poluição atmosférica, medicação, isolamento social, falta de ar condicionado e uma infinidade de circunstâncias particulares que não cabem num título de televisão.

    Desde 2014, período para o qual a série diária do SICO permite uma leitura homogénea, surgem seis blocos estivais realmente relevantes, temporalmente compatíveis com períodos de calor intenso. Não se trata de seis ‘certidões de óbito’ atribuíveis à temperatura, pois a mortalidade total não permite tal salto causal. Trata-se de seis episódios em que o número de mortes se afastou, de forma sustentada, do que seria normal esperar e em que a coincidência temporal com condições meteorológicas severas justifica atenção epidemiológica.

    Praias Portugal people sun bathing on beach
    Foto: Dan Gold.

    O primeiro ocorreu entre 18 e 22 de Junho de 2017. Nesses cinco dias registaram-se 1.721 óbitos, cerca de 392 acima do esperado, ou um excesso próximo de 30%. O período coincide com temperaturas muito elevadas, mas transporta uma dificuldade que impede qualquer simplificação: os incêndios de Pedrógão Grande começaram a 17 de Junho.

    Fogo, fumo, evacuações, acidentes, perturbação de cuidados e mais de uma centena de mortes directamente associadas ao desastre coexistiram com o calor extremo. Quem escrevesse que todo aquele excesso correspondeu a “mortes do calor” estaria a produzir uma frase fácil e estatisticamente frágil. A conclusão séria é outra: verificou-se uma anomalia muito forte de mortalidade num período em que se cruzaram temperaturas extremas e uma tragédia de grandes dimensões.

    O segundo episódio, entre 3 e 9 de Agosto de 2018, apresenta uma configuração muito mais limpa. Foram registadas 2.604 mortes, mais 649 do que o esperado, num excesso de 33,2%. Não se tratou de um dia fora da curva, mas de uma sequência prolongada e excepcionalmente intensa. A mortalidade subiu de forma clara, persistiu e atingiu uma dimensão que torna pouco plausível qualquer explicação baseada em mero acaso estatístico. Esse período constitui, na série diária recente, o sinal estival mais forte compatível com uma vaga de calor.

    Julho de 2020 trouxe outro aumento importante, entre 14 e 23 do mês: 3.782 mortes, cerca de 682 acima do esperado, ou perto de 22%. A interpretação exige, neste caso, também prudência acrescida. Portugal encontrava-se ainda no primeiro ano da pandemia, com alterações profundas nos cuidados de saúde, no recurso aos hospitais, nos comportamentos da população e na própria composição da mortalidade.

    Nesta altura houve ordens da Direcção-Geral da Saúde para se evitar o uso de ar condicionado em lares porque, erradamente, se considerou poder ser um ‘foco de infecção’. O calor pode ter agravado a fragilidade da população e precipitado mortes que, noutro contexto, talvez não ocorressem naquele momento; mas a presença simultânea da pandemia impede que se atribua todo o excesso ao factor térmico. A estatística detecta uma ruptura; a etiologia exige mais do que uma coincidência no calendário.

    O Verão de 2022 deixou dois sinais, um em meados de Junho e outro, ainda mais forte, entre 13 e 19 de Julho. Neste segundo bloco registaram-se 2.852 mortes, mais 566 do que o esperado, correspondendo a um excesso de 24,8%. A persistência e a intensidade do episódio tornam-no especialmente relevante.

    Sol brown field under blue sky during daytime
    Foto: Mick Haupt.

    Agosto de 2023 produziu mais um sinal, embora mais limitado mas consistente: entre os dias 23 e 27 morreram 1.699 pessoas, mais 243 do que o esperado, um excesso de 16,7%. Já entre 30 de Junho e 9 de Julho de 2025 registaram-se 3.515 mortes, cerca de 429 acima da referência estatística, correspondendo a 13,9%. Ambos os períodos ficaram bastante abaixo da ‘violência’ de 2018 ou de 2022, mas não podem ser tratados como simples ruído. Uma análise séria não vive apenas dos grandes picos; deve também reconhecer perturbações mais moderadas quando estas reúnem duração, acumulação e coerência temporal.

    A leitura destes episódios obriga, porém, a introduzir um conceito que raramente chega às notícias sobre calor: o chamado harvesting effect, ou efeito de colheita. A expressão é dura, mas descreve uma realidade demográfica conhecida. Em períodos de calor extremo, uma parte das mortes pode concentrar-se entre pessoas muito frágeis, já expostas a um risco elevado de morrer nos dias ou semanas seguintes. A vaga de calor antecipa essas mortes, provocando um pico abrupto; depois, durante algum tempo, a mortalidade pode cair abaixo do que seria esperado, porque parte da população mais vulnerável já morreu.

    Nada disto diminui a gravidade humana de uma morte antecipada. Ninguém se torna menos morto por ter falecido três semanas antes, nem uma família sofre menos por saber que o seu familiar tinha doença cardíaca, respiratória ou neurológica. A utilidade do conceito é outra: impede que se confunda automaticamente o excesso bruto de uma semana com a perda líquida de vidas depois de se observar o período posterior. Em termos simples, uma onda de calor pode produzir 500 mortes acima do esperado num curto espaço de tempo, mas uma parte desse valor pode ser ‘compensada’, estatisticamente, por uma mortalidade mais baixa nas semanas seguintes.

    A série histórica portuguesa sobre ondas de calor ajuda a compreender esta diferença. O episódio de Agosto de 2003, associado ao calor extremo, teve um pico estatístico muito elevado e um excesso proporcional máximo de 29,2%, mas revelou uma retenção líquida muito menor após a observação dos meses seguintes: parte do excesso inicial foi seguida por um défice de mortalidade.

    Em contraste, o período de 2022 manteve uma parcela muito maior do excesso depois do ajustamento temporal, revelando uma perturbação demográfica mais persistente. Um pico mais alto num determinado dia, ou mesmo numa determinada semana, não significa necessariamente um impacto líquido maior do que outro episódio menos espectacular, mas mais prolongado.

    Essa é também a razão por que a mortalidade por todas as causas deve ser usada como instrumento de vigilância e não como licença para decretar causalidades instantâneas. A série indica que algo anormal aconteceu; não diz, sozinha, se a causa foi o calor, uma infecção respiratória, uma falha no acesso a cuidados, um incêndio, uma pandemia, uma alteração na codificação ou uma combinação de vários factores. Para transformar um sinal estatístico em estimativa causal seria necessário cruzar a informação com idade, distrito, causas de morte, temperatura máxima e mínima, humidade, poluição, circulação viral, internamentos e pressão hospitalar.

    Idosos
    Foto: Matt Bennett.

    O estado actual da série estatística, porém, permite uma conclusão sem ambiguidades: até 6 de Julho, o Verão de 2026 não apresenta excesso sustentado de mortalidade em Portugal. Existem temperaturas altas, existem riscos reais e existe uma subida isolada que deve continuar a ser acompanhada. Falta, por agora, aquilo que define um verdadeiro sinal epidemiológico: persistência, acumulação e afastamento estatístico claro face ao padrão normal.

    Entre o ‘negacionismo climático’ de quem acha que o calor nunca faz mal e o histerismo mediático de quem vê uma hecatombe em cada máxima de 40 graus, os números continuam a exigir a mesma coisa de sempre: prudência, contexto e alguma paciência antes de transformar o termómetro numa certidão colectiva de óbito.


  • Dos 0 aos 109 anos: a biografia epidemiológica dos portugueses nos hospitais públicos — II. Da maternidade à doença crónica

    Dos 0 aos 109 anos: a biografia epidemiológica dos portugueses nos hospitais públicos — II. Da maternidade à doença crónica


    Continuação da investigação iniciada com o texto que aborda os internamentos até à idade pediátrica

    ***

    CAPÍTULO IV — QUANDO O HOSPITAL DEIXA DE TRATAR DOENÇA PARA FAZER NASCER UMA GERAÇÃO

    Durante quase vinte anos, a principal actividade hospitalar já não resulta da patologia, mas da reprodução humana

    Existe uma ideia enraizada na forma como olhamos para os hospitais: imaginamo-los como lugares destinados a tratar doença. A imagem corresponde, em larga medida, à realidade, mas os dados analisados pelo PÁGINA UM No âmbito da plataforma CORPUS mostram uma fase da vida em que essa percepção deixa de ser inteiramente verdadeira.

    Entre o final da adolescência e o início da quarta década vida, a actividade hospitalar portuguesa passa a ser dominada não por uma patologia, mas por um fenómeno fisiológico que acompanha todas as sociedades desde o início da humanidade: a gravidez e o parto.

    woman lying down in a hospital bed
    Foto: Alexander Grey

    A mudança ocorre com ‘naturalidade’, ou seja, devida à biologia e, digamos assim, à sociologia comportamental. A apendicite, que durante cerca de dez anos dominara as estatísticas hospitalares, desaparece rapidamente do topo da tabela. E em seu lugar surgem diagnósticos que, à primeira vista, nem sequer parecem pertencer ao mesmo universo clínico: alterações do líquido amniótico, gravidez prolongada, parto, complicações obstétricas, cesarianas e diversas situações relacionadas com o puerpério.

    O hospital deixa assim, temporariamente, para estas idades e com pendor dominante nas jovens mulheres, de ser sobretudo o lugar onde se corrige uma doença para passar a acompanhar um dos acontecimentos fisiológicos mais importantes da vida humana.

    Os números ilustram bem a dimensão desta transformação. Atendendo aos dados dos internamentos hospitalares de 2024, que serviram para esta investigação do PÁGINA UM, aos 20 anos de idade registaram-se 2.914 episódios de internamento, envolvendo 2.496mulheres.

    woman inside laboratory

    Cinco anos mais tarde, em mulheres de 25 anos, a actividade hospitalar aproxima-se já dos cinco mil episódios. Aos 30 anos, ultrapassa os 7.400 internamentos e, por volta dos 32 anos, atinge o valor máximo desta fase da vida, rondando os 7.500 episódios anuais. Nenhuma epidemia explica esta evolução. Nenhum agravamento súbito do estado de saúde da população lhe está subjacente. Aquilo que cresce é simplesmente o número de gravidezes e de partos concentrados nestas idades.

    Esta constatação possui um significado que vai muito além da obstetrícia. Demonstra que a actividade hospitalar não acompanha apenas a doença, mas os grandes acontecimentos biológicos da vida. O primeiro contacto de quase todos os portugueses com um hospital acontece porque nasceram. Cerca de três décadas depois, muitos regressam para assistir ao nascimento dos seus próprios filhos.

    Vista desta forma, a estatística descreve um curioso movimento circular. Entramos na vida através de uma maternidade e, no caso das mulhres, regressam muitos anos mais tarde para abrir a porta à geração seguinte. Poucas instituições públicas acompanham de forma tão íntima este ciclo.

    a woman laying in a hospital bed with an iv in her hand

    Há, contudo, um aspecto ainda mais interessante. Enquanto os blocos de partos concentram uma parte muito significativa dos internamentos, outras doenças começam lentamente a instalar-se sem chamar a atenção. Permanecem ainda escondidas nas estatísticas pela enorme actividade obstétrica, mas já anunciam aquilo que dominará a segunda metade da vida. Entre elas destaca-se a doença renal crónica, que surge inicialmente de forma discreta entre os diagnósticos mais frequentes e vai ganhando importância ano após ano. A maternidade continua a ocupar o primeiro plano. Nos bastidores, porém, começa a formar-se uma realidade epidemiológica muito diferente.

    Também por essa razão seria um erro interpretar este aumento dos internamentos como um agravamento do estado de saúde da população jovem. A maioria destas admissões hospitalares corresponde a acontecimentos fisiológicos ou a situações clínicas directamente relacionadas com a gravidez. A intensidade da utilização hospitalar aumenta, mas a relação de cada pessoa com o hospital continua relativamente simples. Cada internado gera, em média, pouco mais de 1,17 episódios hospitalares, valor muito semelhante ao observado na adolescência. O hospital continua a acompanhar episódios delimitados no tempo e não percursos clínicos prolongados.

    Talvez esta seja uma das conclusões mais interessantes da investigação. Existe uma tendência para interpretar qualquer aumento da actividade hospitalar como sinónimo de maior doença. Os dados mostram que essa associação nem sempre existe. Em determinadas fases da vida, o crescimento dos internamentos constitui antes a expressão de fenómenos demográficos e biológicos

    person sitting while using laptop computer and green stethoscope near

    Mas esta realidade também não dura para sempre.

    Por volta dos 39 anos, os internamentos relacionados com a gravidez começam a perder importância relativa. Não desaparecem, mas deixam de definir o perfil da actividade hospitalar. Em seu lugar surge uma doença que permanecerá durante décadas no topo das estatísticas e que marcará uma mudança profunda na relação entre os portugueses e o Serviço Nacional de Saúde.

    A partir dos 39 anos, o hospital deixa definitivamente de acompanhar acontecimentos transitórios para começar a acompanhar doenças que, na maioria dos casos, acompanharão os doentes durante muitos anos. E essa mudança ajuda a compreender uma das maiores transformações da Medicina contemporânea: os hospitais tratam hoje menos episódios isolados e acompanham cada vez mais trajectórias de doença.

    CAPÍTULO V — A ENTRADA SILENCIOSA DA DOENÇA CRÓNICA

    Aos 39 anos muda o protagonista das estatísticas. Muda também a relação entre os portugueses e o hospital

    Nenhum médico dirá que os 39 anos constituem uma fronteira biológica. Também não existe qualquer acontecimento fisiológico que explique uma mudança súbita no estado de saúde da população ao entrar na quarta década da vida. Ainda assim, quando quase 900 mil internamentos são distribuídos idade a idade, surge um ponto de inflexão suficientemente nítido para merecer atenção.

    Depois de quase vinte anos em que a actividade hospitalar é dominada pela gravidez, pelo parto e pelo puerpério, aparece pela primeira vez no topo das estatísticas um diagnóstico que permanecerá durante várias décadas: a doença renal crónica, que geralmente acaba associada á hemodiálise.

    doctor holding red stethoscope

    A alteração possui um significado muito mais profundo do que uma simples troca de posições numa tabela. Durante toda a infância e adolescência, e mesmo ao longo da idade fértil, os hospitais responderam sobretudo a acontecimentos relativamente delimitados no tempo. Uma bronquiolite cura-se. Uma apendicite opera-se. Um parto termina com a alta clínica. Contudo, a doença renal crónica pertence a um universo muito diferente. Não representa um episódio, mas um percurso.

    A partir daqui, muitos dos doentes deixam de entrar uma única vez no hospital para resolver um problema concreto e passam a estabelecer com o hospital uma relação que poderá prolongar-se durante anos ou mesmo décadas.

    Os números ilustram essa mudança. Em pessoas com 39 anos registaram-se 6.392 internamentos, envolvendo 5.164 pessoas, das quais 405 tiveram como diagnóstico principal a doença renal crónica. Um ano depois, esse número aumenta para 526. Aos 41 anos, ultrapassa já os 650 episódios. Nos anos seguintes continua a crescer, consolidando uma liderança que atravessará praticamente toda a segunda metade da vida. Poucas patologias apresentam uma persistência semelhante ao longo de tantas idades consecutivas.

    a 3d image of the human body and the structure of the body

    Mas talvez a questão mais interessante seja outra. Porque razão a insuficiência renal consegue manter-se durante tanto tempo entre os principais motivos de internamento? A resposta dificilmente pode ser encontrada olhando apenas para os rins.

    A insuficiência renal representa, em muitos casos, o ponto de chegada de um processo iniciado muitos anos antes: diabetes mellitus, hipertensão arterial, doença cardiovascular, obesidade, alterações metabólicas ou doenças auto-imunes acabam frequentemente por convergir para a deterioração progressiva da função renal. Aquilo que surge registado na estatística como um diagnóstico principal constitui, muitas vezes, a consequência visível de um conjunto muito mais vasto de problemas de saúde.

    Na verdade, sobretudo a partir da quarta década de vida, os hospitais deixam progressivamente de tratar doenças isoladas e começam a acompanhar portadores de várias doenças em simultâneo. A medicina interna, a nefrologia, a cardiologia, a endocrinologia, a oncologia e muitas outras especialidades passam a cruzar-se no mesmo processo clínico. A doença deixa de ser um acontecimento e transforma-se numa condição.

    Foto: D.R.

    Também o indicador que distingue internamentos de internados começa finalmente a revelar toda a sua importância. Enquanto na infância cada criança internada originava pouco mais de um episódio hospitalar, a partir desta fase da vida o número médio de internamentos por pessoa inicia uma subida contínua.

    O crescimento pode parecer discreto quando observado ano a ano, mas torna-se impressionante quando analisado ao longo de três ou quatro décadas. Os hospitais deixam, de forma progressiva, de receber apenas novos doentes e passam cada vez mais a receber os mesmos doentes, sucessivamente, devido à evolução natural das doenças crónicas, às complicações terapêuticas ou à necessidade de tratamentos repetidos.

    Há aqui um aspecto que merece ser sublinhado porque nem sempre integra o debate sobre a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde. Costuma afirmar-se que os hospitais estão sob pressão porque a população envelhece. A afirmação é correcta, mas insuficiente.

    People waiting in a hallway with chairs and chairs

    A pressão não resulta apenas do aumento do número de idosos, mas do facto de cada doente consumir hoje muito mais cuidados hospitalares do que consumia há algumas décadas. E isso não se deve ao facto de a Medicina estar a fracassar, mas, em larga medida, e de modo aparentemente paradoxal, por ter sucesso. Pessoas que antes morreriam de insuficiência renal, enfarte agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral ou cancro ainda em idades precoces vivem hoje muitos mais anos. Essa sobrevivência prolongada traduz-se inevitavelmente em mais consultas, mais cirurgias, mais tratamentos e mais internamentos.

    Entretanto, outros diagnósticos começam a ganhar expressão a partir dos 40 anos. O cancro da mama surge de forma consistente entre as principais causas de internamento feminino, reflectindo não apenas a incidência da doença, mas também a crescente complexidade do tratamento oncológico moderno.

    As doenças das vias biliares mantêm uma presença constante, enquanto a osteoartrose começa discretamente a aparecer entre os diagnósticos mais frequentes. Nenhuma destas patologias domina, porém, de modo isolado, a actividade hospitalar. Em conjunto, anunciam uma mudança profunda: a diversidade clínica aumenta de forma contínua e o hospital deixa de poder ser definido por uma única especialidade dominante.

    woman wearing blue dress

    Talvez seja essa a maior diferença entre a primeira e a segunda metade da vida. Durante a infância, o pediatra consegue antecipar com relativa facilidade aquilo que encontrará nas enfermarias em cada Inverno. Depois dos 40 anos, essa previsibilidade desaparece. Cada cama hospitalar passa a contar uma história diferente. Cada processo clínico reúne doenças que se cruzam, se influenciam mutuamente e obrigam a decisões terapêuticas cada vez mais complexas.

    Mas nem esta transformação representa o ponto final da evolução epidemiológica. À medida que a população entra na sexta década de vida, a doença crónica deixa de ser apenas uma característica de muitos doentes para passar a constituir o retrato dominante de uma geração inteira. É nesse momento que o envelhecimento demográfico deixa de ser uma abstracção estatística e passa a tornar-se visível em praticamente todos os corredores dos hospitais portugueses. Mas isso ficará para a derradeira parte desta investigação do PÁGINA UM a publicar na próxima quarta-feira.

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    N.D. No final desta investigação será anexado o relatório final do CORPUS.