Categoria: Saúde

  • Braço direito de Fauci confessa conspiração para esconder documentos sobre origem da covid-19

    Braço direito de Fauci confessa conspiração para esconder documentos sobre origem da covid-19


    David Morens, assessor sénior durante 16 anos no gabinete de Anthony Fauci no National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID), declarou-se culpado de participar numa conspiração para ocultar registos federais relacionados com investigação em coronavírus e com a origem da covid-19.

    Segundo um comunicado do Departamento de Justiça norte-americano, o antigo braço direito de Fauci admitiu ter usado uma conta privada de Gmail para fugir às regras de transparência e conservação de documentos e ajudar a recuperar uma subvenção ligada a investigação realizada no Instituto de Virologia de Wuhan. Arrisca até cinco anos de prisão.

    David Morens foi o ‘braço direito’ de Fauci, que será condenado a uma pena de até cinco anos. Foto: D.R.

    A confissão foi formalizada na terça-feira num tribunal federal de Maryland. Morens, de 78 anos, declarou-se culpado de conspiração para cometer crimes e defraudar os Estados Unidos. A sentença está marcada para 12 de Novembro e pode levar a uma condenação à prisão até cinco anos.

    O processo remonta à suspensão, pelos National Institutes of Health (NIH), da subvenção Understanding the Risk of Bat Coronavirus Emergence, atribuída pelo NIAID a uma entidade que canalizou parte dos fundos para o Instituto de Virologia de Wuhan. Depois da suspensão, Morens e outros intervenientes combinaram tentar recuperar o financiamento e contrariar a hipótese de uma fuga laboratorial como origem do SARS-CoV-2.

    Segundo os factos agora admitidos, os envolvidos anteciparam pedidos ao abrigo da Freedom of Information Act (FOIA) e decidiram afastar comunicações dos sistemas oficiais. O Gmail pessoal de Morens foi usado para trocar informação interna dos NIH, discutir formas de restaurar a subvenção e fazer chegar informação por canais paralelos a um alto responsável do NIAID.

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    Contas do Gmail foram usadas intencionalmente para evitar pedidos de documentação ao abrigo das leis de acesso a dados oficiais. Foto: Stephen Phillips.

    O caso tinha sido revelado em Maio de 2024 por uma investigação da Câmara dos Representantes e foi então noticiado pelo PÁGINA UM, o único órgão de comunicação social em Portugal que destacou este caso. E-mails obtidos pelo Congresso mostravam Morens a dizer que preferia usar Gmail porque o correio oficial era sujeito a pedidos FOIA e que apagaria mensagens que não quisesse ver publicadas no New York Times.

    Estes documentos expuseram ainda a proximidade a Peter Daszak, presidente da EcoHealth Alliance, organização que recebeu financiamento do NIAID e subcontratou investigação ao laboratório de Wuhan. E foram aspectos bastante analisados num audiência na Câmara de Representantes no dia dia 22 de Maio de 2024.

    Numa das mensagens, Morens escreveu a Daszak que podia enviar material para o Gmail privado de “Tony” — referência a Fauci — ou entregar-lho pessoalmente, acrescentando que o então director do NIAID era “demasiado esperto” para deixar colegas enviarem-lhe material susceptível de criar problemas. Noutro e-mail, falava num “canal secreto” para fazer chegar informação a Fauci.

    Anthony Fauci em 29 julho 2026. Foto: D.R.

    Fauci compareceu perante a Câmara dos Representantes em Junho de 2024 e negou ter participado em qualquer esquema para esconder ou destruir documentos. Morens também negara que o uso de contas privadas tivesse como objectivo contornar as regras de transparência. A confissão desta semana altera, pelo menos quanto a Morens, a natureza do caso: as suspeitas sustentadas em e-mails passaram a integrar uma admissão de culpa perante um tribunal federal.

    Anthony Fauci não foi acusado no processo de Morens, mas apenas por uma circunstância jurídica decisiva: em 19 de Janeiro de 2025, Joe Biden concedeu-lhe um perdão “total e incondicional” por quaisquer crimes federais que pudesse ter cometido ou em que pudesse ter participado entre 1 de Janeiro de 2014 e essa data, desde que relacionados com as funções exercidas no NIAID, na task force da Casa Branca para a covid-19 ou como conselheiro médico do Presidente.

    O alcance do perdão fecha, assim, a via de acusação federal para eventuais crimes abrangidos cometidos durante o período em que ocorreram os factos agora confessados por Morens.

    Fauci livrou-se deste processo por via de um perdão de Joe Biden assuimido em 19 de Janeiro do ano passado.

    Esse perdão não impediu, porém, o Congresso de investigar Fauci nem cobre eventuais crimes posteriores a Janeiro de 2025. Aliás, no passado dia 29 de Julho, Fauci compareceu sob intimação perante a Comissão de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado e invocou a Quinta Emenda mais de uma centena de vezes, recusando responder a perguntas sobre a origem da covid-19 e investigação biológica de risco. A própria resolução do Senado recorda expressamente que o perdão de Biden abrange o período entre 2014 e 19 de Janeiro de 2025.

    O presidente da comissão, o republicano Rand Paul, considerou que Fauci não podia invocar risco de auto-incriminação relativamente a factos cobertos pelo perdão e ordenou-lhe que respondesse. Fauci manteve a recusa.

    No passado dia 6 de Agosto, a comissão aprovou, por oito votos republicanos contra cinco democratas, uma resolução para o considerar em desacato ao Congresso. Paul enviou depois ao Departamento de Justiça um pedido para ponderar um procedimento criminal contra Fauci pela recusa de responder — uma conduta ocorrida já em 2026 e, portanto, fora do período abrangido pelo perdão de Biden.

    Laboratório de virologia de Wuhan: um acaso ou uma origem da pandemia? Fonte: D.R.

    O quadro é, por isso, singular: o braço direito de Fauci durante a pandemia confessou uma conspiração para esconder documentos federais sobre investigação em coronavírus, enquanto uma eventual acusação federal contra o antigo director do NIAID por actos praticados no mesmo período esbarra no perdão preventivo concedido por Biden. Já uma eventual infracção decorrente da recusa de responder ao Senado em 2026 não estaria coberta por esse perdão.

    A confissão de Morens não demonstra, por agora, que o SARS-CoV-2 tenha mesmo saído de um laboratório de Wuhan, mas mostra já algo muitíssimo grave: um alto funcionário do organismo que financiava investigação em coronavírus admitiu ter participado num esquema para esconder comunicações oficiais enquanto procurava recuperar financiamento ligado a Wuhan e contrariar a hipótese de fuga laboratorial.

    ***

    Para saber o que está em causa na investigação da Comissão de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado a Anthony Fauci ,encontra toda a informação em detalhe nesta página criada por José Maria Gonçalves, colaborador do PÁGINA UM: https://faucis-indictment.fly.dev/

  • Tétano despareceu do ‘mapa sanitário’: sem mortes desde 2013 e sem internamentos desde 2022

    Tétano despareceu do ‘mapa sanitário’: sem mortes desde 2013 e sem internamentos desde 2022


    O tétano desapareceu dos hospitais portugueses. Não é ainda possível dizer que desapareceu do território — e provavelmente nunca será possível, porque a bactéria que o provoca permanece no ambiente —, mas os números hospitalares no universo do Serviço Nacional de Saúde (SNS) chegaram finalmente ao zero: nenhum internamento em 2022, nenhum em 2023 e nenhum em 2024. E, recuando mais dois anos, encontra-se apenas uma excepção, em 2021. Em 2020 também não houve qualquer caso.

    A conclusão resulta de uma análise do PÁGINA UM na sua plataforma CORPUS, a partir da Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), da Administração Central do Sistema de Saúde. Não se trata, portanto, de uma estimativa construída sobre uma amostra nem de uma compilação de casos publicados na literatura médica. O universo trabalhado pelo Corpus compreende 38,5 milhões de episódios hospitalares registados no SNS entre 2000 e 2024.

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    Foto: Claudio Cesaro.

    Para identificar os casos de tétano foram pesquisados os internamentos em que a doença surge como diagnóstico principal, respeitando a mudança dos sistemas de codificação: códigos 037 e 771.3 no ICD-9-CM e A33, A34 e A35 no ICD-10-CM/PCS. O relatório do Corpus contabiliza 188 internamentos ao longo dos 25 anos, com 22 mortes intra-hospitalares, o equivalente a uma letalidade global de 11,7%, dentro dos valores referenciados pela literatura científica.

    Esta é uma mudança de escala extraordinária para uma doença que, há apenas um quarto de século, ainda tinha presença regular nos hospitais e foi mesmo um flagelo em grande parte do século XX, conhecida por causar espasmos que aparentavam ‘possessão demoníaca’, devido a uma neurotoxina libertada pela bactéria Clostridium tetani.

    Em 2000 foram registados 25 internamentos no SNS e, no ano seguinte, chegaram aos 29, o máximo da série analisada pelo PÁGINA UM. A queda tornou-se depois persistente: no final da primeira década deste século, os casos já se contavam por unidades e, desde 2009, nunca mais se regressou aos dois dígitos. A partir de 2015, com a única excepção de um pequeno ressalto em 2018, passou a haver no máximo um internamento anual.

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    Foto: Bret Kavanaugh

    Olhando para a mortalidade causada pelo tétano na segunda metade do século XX, os números mais recentes são extraordinários. Quando, em Fevereiro de 1962, o Estado Novo tornou obrigatória a vacinação contra o tétano, justificou a medida com números que hoje parecem pertencer a outro país: em 1955 tinham morrido 334 portugueses por tétano e, mesmo depois de campanhas de imunização, ainda se tinham registado 264 mortes em 1960.

    A vacinação antitetânica tornou-se, assim, obrigatória em 1962, embora fosse com o primeiro Programa Nacional de Vacinação, preparado em 1965 e operacionalizado a partir daí, que se passou para uma estratégia universal, gratuita e organizada de imunização. Uma revisão publicada em 2017, com dados da Direcção-Geral da Saúde, mostra bem o ponto de partida: na década de 1956 a 1965 foram notificados 3.923 casos de tétano e registados 2.625 óbitos, uma mortalidade de 67%. Meio século depois, no período de 2006 a 2015, tinham sido notificados apenas 33 casos, embora ainda com 15 mortes.

    Por isso, o primeiro zero de hospitalizações por tétano constitui um marco histórico. Depois do derradeiro episódio de 2021, seguiu-se o que nunca se observara na série: três anos consecutivos sem um único internamento por tétano.

    Embora se possa falar, em termos simplistas, de eliminação, não se mostra correcto falar em erradicação, porque as palavras têm significado epidemiológico. O Clostridium tetani, a bactéria responsável pela doença, forma esporos extremamente resistentes que estão disseminados no ambiente, sobretudo no solo, podendo sobreviver durante anos. O tétano também não se transmite de pessoa para pessoa.

    A Organização Mundial da Saúde (OMS) não dispõe, por isso, de uma certificação de erradicação do tétano geral comparável à que existe para doenças cuja cadeia de transmissão humana pode ser interrompida. O conceito formal internacional de eliminação aplica-se ao tétano materno e neonatal, definido pela OMS como menos de um caso de tétano neonatal por mil nados-vivos em cada distrito.

    Portugal não pode, portanto, declarar que expulsou o Clostridium tetani do território. Pode, isso sim, constatar que a doença foi praticamente eliminada enquanto problema de saúde pública hospitalar, algo que esta série de 25 anos mostra. A bactéria continua debaixo dos nossos pés; os doentes é que deixaram de chegar aos hospitais.

    Foto: D.R.

    A própria OMS assinala que, nos países que mantêm durante décadas coberturas elevadas com vacinas contendo toxóide tetânico, a incidência da doença se torna muito baixa. O perfil dos doentes portugueses mostra, aliás, quase como uma fotografia histórica, quem ficou para trás nesse processo. O tétano hospitalar em Portugal tornou-se sobretudo uma doença de mulheres idosas. Entre os 187 episódios não neonatais individualizados no levantamento, 63% correspondem ao sexo feminino. E 21 das 22 mortes — nada menos do que 95% — ocorreram em pessoas com 75 ou mais anos. A totalidade dos óbitos verificou-se acima dos 60 anos.

    Existe uma explicação histórica plausível para esta assimetria. As gerações mais velhas chegaram à idade adulta antes da universalização da vacinação, mas os homens beneficiaram adicionalmente da imunização associada ao serviço militar obrigatório, enquanto muitas mulheres, sobretudo de meios rurais, permaneceram sem uma primovacinação completa. Assim, uma doença habitualmente associada a ferimentos, contacto com o solo e actividades agrícolas acabou por adquirir em Portugal um perfil aparentemente paradoxal: mais mulheres do que homens, e sobretudo mulheres muito idosas.

    Também geograficamente há uma marca desse Portugal mais envelhecido e rural. Porto, Aveiro, Braga e Viseu concentraram, em conjunto, 56% dos internamentos registados ao longo da série. O distrito do Porto apresentou o maior número absoluto, seguido de Aveiro, enquanto Lisboa surgiu em terceiro lugar. Mas seria abusivo transformar estes valores numa espécie de mapa do risco actual: boa parte dos episódios ocorreu nos primeiros anos da série, quando a epidemiologia da doença era muito diferente da actual, e os números distritais tornam-se demasiado pequenos para permitir grandes conclusões sobre diferenças de letalidade.

    A concentração dos casos nos grandes hospitais conta outra parte da história. São João, no Porto, Coimbra e São José, em Lisboa, surgem entre as unidades com mais internamentos ao longo dos 25 anos, uma distribuição compatível com a necessidade de referenciação para centros com capacidade de cuidados intensivos. Porque, se o tétano se tornou quase invisível nas estatísticas, continua a ser tudo menos uma doença ligeira quando aparece. Basta olhar para os últimos casos.

    Entre 2014 e 2024, o Corpus conseguiu individualizar 12 episódios de internamento. Nenhum terminou em morte, o que poderia dar uma falsa aparência de benignidade. Porém, a realidade clínica diz o contrário: todos foram admissões urgentes, a permanência média no hospital chegou aos 52 dias, sete doentes tiveram de ser submetidos a ventilação mecânica durante pelo menos 96 horas consecutivas e seis necessitaram de traqueostomia. O internamento mais prolongado durou 146 dias, quase cinco meses.

    Em 2014, uma mulher de 87 anos, residente em Setúbal, chegou ao hospital com tétano associado a um ferimento no pé. O quadro evoluiu com falência respiratória aguda, perturbação renal e septicémia estreptocócica. Foi entubada, permaneceu sob ventilação mecânica prolongada e teve de ser submetida a traqueostomia. Ao fim de 34 dias ainda não regressou a casa: teve alta para outra instituição.

    O tétano continua a ser, sobretudo em países subdesenvolvidos, e e com baixas taxas de vacinação, um grave flagelo, sendo uma causa comum de morbidade e mortalidade em crianças e jovens adultos em algumas regiões mundiais, mas particularmente em neonatos, causando cerca de 257.000 mortes neonatais por ano (7% de todas as mortes neonatais). Em Portugal, o último caso de tétano neonatal registou-se em 1996.

    Um segundo episódio, também de uma mulher de 87 anos e igualmente residente em Setúbal, prolongou-se por 50 dias e incluiu pneumonia por Pseudomonas, polineuropatia e necessidade de ventilação; o próprio padrão de codificação admite que possa corresponder ao seguimento de um caso grave anterior.

    No ano seguinte, outra mulher, de 80 anos, permaneceu 65 dias internada em Lisboa. O tétano surgia associado a uma infecção pós-traumática e o quadro incluiu movimentos involuntários, mioclonias e espasmo da laringe. Foi entubada, ventilada durante mais de 96 horas e submetida a traqueostomia. Sobreviveu e conseguiu regressar a casa.

    Mas é em 2018, último ano em que se observou um pequeno ressalto da doença, que os registos mostram de forma particularmente crua aquilo que um simples “caso de tétano” pode representar.

    Foto: D.R.

    Uma mulher de 69 anos, de Bragança, esteve internada durante 79 dias. Além do tétano, o episódio hospitalar inclui uma paragem cardíaca, pneumonia, infecção urinária e uma encefalopatia hipóxico-isquémica moderada. Sobreviveu e teve alta para casa. Outra mulher, de 83 anos, residente no Porto, ficou hospitalizada durante 146 dias. Foram quase cinco meses de internamento, com espasmos, alterações respiratórias e desidratação, além de entubação, ventilação mecânica prolongada e traqueostomia.

    Ainda nesse ano, uma mulher de 78 anos permaneceu 86 dias hospitalizada e necessitou igualmente de ventilação prolongada, traqueostomia e alimentação entérica. Entre os diagnósticos aparece uma fractura de Colles, que poderá ter funcionado como porta de entrada da bactéria. Noutro episódio, uma ferida aberta do antebraço surge associada ao quadro de tétano. São precisamente estas situações aparentemente vulgares — uma queda, uma ferida, uma laceração — que tornam a doença tão insidiosa quando a pessoa não está protegida.

    E depois chega-se ao último caso de toda a série. Em 2021, uma mulher de 79 anos, residente no distrito de Aveiro, foi internada com tétano após uma laceração na perna direita com presença de um corpo estranho. Ficou 79 dias no hospital. Necessitou de ventilação mecânica durante pelo menos 96 horas, acesso venoso central para antibioterapia, nutrição entérica e uma traqueostomia percutânea. Quando teve alta, ainda não foi para casa: seguiu para outra instituição. Depois dela, a série apaga-se. Zero em 2022. Zero em 2023. Zero em 2024.

    Nos anos 60, ainda morriam mais de 200 pessoas por ano em Portugal por causa d tétano. Foto: D.R.

    É justamente a violência dos derradeiros episódios que dá verdadeira dimensão àqueles zeros. Não se trata do desaparecimento estatístico de uma doença que pouco fazia aos seus doentes. Trata-se de uma infecção capaz de transformar uma ferida aparentemente banal em dois, três ou quase cinco meses de internamento, com tubos, ventiladores, traqueostomias, infecções secundárias e risco efectivo de morte.

    A OMS continua a classificar o tétano como uma emergência médica que exige tratamento hospitalar, imunoglobulina antitetânica, cuidados agressivos da ferida, fármacos para controlar os espasmos, antibióticos e vacinação. E há uma particularidade que desmonta outra ideia intuitiva: apanhar tétano e sobreviver não imuniza. Quem recupera continua susceptível e deve ser vacinado.

    Também por isso o sucesso português não deve ser confundido com o desaparecimento do risco. Na União Europeia e no Espaço Económico Europeu, o tétano continua a surgir todos os anos. O mais recente relatório epidemiológico do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças(ECDC), divulgado no final de Julho, contabilizou 73 casos em 2024.

    A vacinação contra o tétano é a principal causa da redução da incidência da doença, uma vez que os esporos da bactéria permanecem disseminados no ambiente e não podem ser erradicados. Foto: D.R.

    Entre os 67 doentes cujo desfecho era conhecido, 19 morreram — uma letalidade de 28%. Os adultos com 65 ou mais anos foram novamente o grupo mais afectado, e o ECDC relaciona a epidemiologia actual sobretudo com menores níveis de vacinação ou perda de imunidade nas populações envelhecidas. Este relatório aponta, convém referir, dois casos de tétano em 2021 e 2023 para Portugal, mas que não terão chegado aos hospitais públicos.

    A comparação tem, naturalmente, uma limitação metodológica: o ECDC trabalha com casos notificados pelos países, enquanto o levantamento do CORPUS se restringe a internamentos no SNS com tétano como diagnóstico principal. Não são exactamente a mesma unidade de observação. Os dados portugueses também não permitem excluir casos eventualmente tratados exclusivamente no sector privado. E, no detalhe dos episódios recentes, a provável porta de entrada da bactéria é inferida a partir dos diagnósticos secundários codificados, podendo não estar identificada em todos os processos.

    Mas nenhuma dessas cautelas altera o essencial: enquanto a Europa ainda registou dezenas de casos e 19 mortes em 2024, nos hospitais do SNS português o contador permaneceu no zero pelo terceiro ano consecutivo. Em todo o caso, à escala mundial, o tétano está ainda mais longe de pertencer aos livros de História.

    Ana Paula Martins: com dados que nunca revelou, e que agora estão na plataforma CORPUS, a ministra da Saúde prefere nem comentar a eliminação do tétano em Portugal. Foto: D.R.

    A OMS estima que, em 2021, mais de 7.700 recém-nascidos morreram de tétano neonatal, embora este número represente uma redução de 84% relativamente a 2000, em larga medida, à expansão da vacinação. Em Julho de 2026, oito países ainda não tinham alcançado a meta internacional de eliminação do tétano materno e neonatal.

    O PÁGINA UM tentou obter um comentário da ministra da Saúde, Ana Paula Martins, sobre este assinalável sucesso da medicina e da saúde pública portuguesas. Até ao fecho desta edição, porém, o Ministério da Saúde preferiu celebrar a eliminação do tétano em Portugal com uma medida de eficácia comprovada: o silêncio.

  • Reinternamentos cardíacos após miocardite subiram 62% entre jovens internados em 2021

    Reinternamentos cardíacos após miocardite subiram 62% entre jovens internados em 2021


    Quase um em cada oito crianças, adolescentes e jovens adultos com menos de 30 anos cujo primeiro internamento por miocardite ocorreu em 2021 voltou ao hospital, nos três anos seguintes, por uma doença cardíaca. Nesse grupo de doentes — aquilo a que, em epidemiologia, se chama uma coorte — a taxa de reinternamento atingiu 11,8%, um valor 62% superior ao observado, em conjunto, nos grupos equivalentes de 2017, 2018 e 2019, antes da pandemia, de acordo com uma investigação do PÁGINA UM com recurso aos dados da plataforma CORPUS.

    Embora não existam ainda provas de causalidade, este sinal mostra-se muito relevante porque surge no mesmo período em que também aumentaram os próprios internamentos por miocardite entre os mais jovens.

    boy wearing white shirt and black shorts carrying backpack standing on black concrete road between vehicles and trees during daytime
    Foto: Jesús Rodríguez.

    Conforme o PÁGINA UM já revelara recentemente, no grupo dos 18 aos 30 anos, considerando ambos os sexos, os internamentos passaram de 152 em 2019 para 252 em 2022, um acréscimo de 66%. Nos homens com menos de 30 anos, a série mensal apresenta uma subida visível a partir de Julho de 2021, sustentada durante 2022, permanecendo os valores de 2023 e 2024 acima do nível anterior à pandemia.

    O aumento de internamentos por miocardite entre os jovens e, entre aqueles que tiveram o primeiro episódio em 2021 — com uma proporção superior a regressar posteriormente ao hospital por problemas cardíacos — ocorre precisamente no ano em que a campanha de vacinação contra a covid-19 foi alargada à generalidade dos adultos jovens e, mais tarde, aos adolescentes, incluindo menores saudáveis.

    Sem que tal situação prove que são efeitos secundários da vacinação contra a covid-19 — os dados hospitalares não permitem sequer saber quais destes doentes estavam vacinados e o Infarmed, liderado há anos por Rui Santos Ivo, recusa-se a fazer farmacovigilância sobre matérias sensíveis —, em todo o caso torna-se difícil justificar que, cinco anos depois, continue por fazer em Portugal um estudo que permita separar o eventual efeito das vacinas do da infecção pelo SARS-CoV-2 e de outras causas.

    Detailed image of ECG electrodes on a patient's chest, capturing a medical procedure.
    Foto: Pavel Danilyuk.

    De 7,3% para 11,8%

    Estes dados do PÁGINA UM através da plataforma CORPUS partiram, recorde-se, da Base de Dados de Morbilidade Hospitalar da Administração Central do Sistema de Saúde. Do ponto de vista metodológico, a análise encetada pelo PÁGINA UM identificou os homens com menos de 30 anos cujo primeiro internamento com miocardite como diagnóstico principal ocorreu entre 2017 e 2022. Cada doente foi depois acompanhado através de um identificador pseudonimizado, permitindo saber se voltou a ser internado nos anos seguintes com uma doença do aparelho circulatório como diagnóstico principal.

    A definição obriga a uma precisão importante: os reinternamentos contabilizados não são necessariamente novas miocardites. São, sim, internamentos cardíacos posteriores em pessoas que tinham sido inicialmente hospitalizadas com uma miocardite. Por isso, os números são sobretudo um indicador da morbilidade cardíaca posterior daqueles doentes.

    Em 2017, apenas cinco dos 112 jovens internados com miocardite regressaram ao hospital nos três anos seguintes, uma taxa de 4,5%. Em 2018 foram 10 em 111, ou seja, 9,0%; em 2019 foram igualmente 10, num total de 121, isto é, 8,3%; e em 2020 seis em 83, o que significa 7,2%. No grupo de 2021, porém, 18 dos 153 jovens foram reinternados, o que dá uma taxa de 11,8%, a mais elevada de todas as coortes com três anos completos e comparáveis de acompanhamento.

    Juntando os três anos anteriores à pandemia — 2017, 2018 e 2019 —, foram reinternados 25 de 344 jovens, correspondendo a 7,27%. A subida para 11,76% em 2021 representa um acréscimo relativo de quase 62%. Face apenas a 2017, o salto é ainda superior: de 4,5% para 11,8%, ou cerca de 164%.

    Refira-se ainda que se fez um outro exercício, através da plataforma CORPUS: acompanharam-se os 112 jovens do grupo de 2017 — antes da pandemia — durante sete anos, e não apenas três. Até 2024, somente oito tinham sofrido algum reinternamento cardíaco, correspondendo a 7,1%.

    Significa isto que os jovens que tiveram a primeira miocardite em 2021 acumularam, em apenas três anos, uma taxa de reinternamento cerca de 65% superior àquela que o grupo de 2017 atingiu em sete anos.

    cardiologia
    Foto: Marta Branco.

    Além disso, dos oito doentes da coorte de 2017 que acabaram por regressar ao hospital ao longo desses sete anos, cinco já o tinham feito nos primeiros três. O relatório conclui que a maior parte dos reinternamentos ocorre nos primeiros anos depois do episódio inicial, o que dá maior robustez à comparação entre grupos com janelas iguais de três anos.

    Para os casos de 2022 existem apenas dois anos de acompanhamento. Ainda assim, dos 221 jovens internados naquele ano com miocardite, 20 já tinham sido novamente internados por doença cardíaca, ou seja, 9,0%. O valor não deve ser directamente comparado com os 11,8% de 2021 porque dispõe de menos um ano de observação e, por essa razão, estará subestimado.

    Há ainda um caso extremo no grupo de 2021: um dos jovens acumulou 12 reinternamentos entre 2022 e 2024, todos com códigos de miocardite, cardiomiopatia ou pericardite. O relatório admite que alguns possam corresponder a transferências entre serviços contabilizadas como episódios distintos, mas assinala que o padrão é compatível com doença inflamatória cardíaca recorrente.

    Doctors and nurses assist a patient in a modern operating room.
    Foto: Pavel Danilyuk.

    O primeiro sinal já estava nos internamentos

    Estes resultados aprofundam aquilo que o PÁGINA UM já vinha mostrando sobre a evolução da miocardite entre os jovens. Entre 2019 e 2022, os internamentos hospitalares com miocardite como diagnóstico principal cresceram 44% no conjunto da população, de 378 para 544, mas o aumento chegou aos 66% entre os 18 e os 30 anos, de 152 para 252 casos. Em 2022, esta faixa etária representava já 46,3% de todos os internamentos por miocardite.

    O padrão é ainda mais sugestivo quando observado mês a mês nos homens com menos de 30 anos: a subida torna-se visível a partir de Julho de 2021 e mantém-se durante o ano seguinte.

    O caso das miocardites mostra que houve algo que interferiu neste aumento, porque a pericardite, por outro lado, não acompanhou a tendência. Entre os jovens dos 18 aos 30 anos foram registados 140 internamentos em 2019 e apenas 135 em 2022. A diferença é relevante porque a literatura internacional identificou precisamente a miocardite, sobretudo em rapazes e homens jovens, como o principal sinal cardíaco raro associado às vacinas de mRNA.

    Vacinação dos adolescentes avançou apesar das reservas internas na Ordem dos Médicos

    O contexto de 2021 não se limita ao arranque da vacinação dos adultos jovens. Nesse Verão, a campanha foi progressivamente estendida aos adolescentes. E, como o PÁGINA UM revelou mais tarde, essa decisão ocorreu num ambiente em que nem sequer existia unanimidade dentro das próprias estruturas médicas quanto à vacinação de menores saudáveis.

    Em Agosto e Outubro de 2021, o Colégio da Especialidade de Pediatria da Ordem dos Médicos elaborou pareceres sobre a vacinação contra a covid-19 em menores. Segundo documentos obtidos pelo PÁGINA UM apenas depois de uma batalha judicial, um desses pareceres não recomendava de forma generalizada a vacinação de crianças e adolescentes saudáveis, defendendo uma abordagem diferenciada segundo o risco individual. Esses documentos não foram então divulgados publicamente pela Ordem dos Médicos.

    O PÁGINA UM teve de recorrer ao Tribunal Administrativo para lhes aceder. Em Fevereiro de 2024, o jornal noticiou que o tribunal obrigara a Ordem dos Médicos a revelar os pareceres que tinham permanecido ocultos desde 2021.

    Ana Paula Martins, actual ministra da Saúde, ao lado de Miguel Guimarães., antigo bastonário da Ordem dos Médicos e actual deputado do PSD. Foto: D.R.

    A ocultação ocorreu durante o mandato de Miguel Guimarães, então bastonário da Ordem dos Médicos, que, apesar de ser urologista, assumia uma posição fortemente favorável à vacinação contra a covid-19 mesmo em jovens saudáveis. Uma publicação oficial da própria Ordem, de Dezembro de 2021, classificava as vacinas como um “sucesso” e defendia que era crucial “manter o foco no processo de vacinação”.

    Por causa da acção de Miguel Guimarães, os pais de adolescentes e crianças foram assim impedidos de conhecer em tempo útil a posição técnica que não recomendava a vacinação indiscriminada de menores saudáveis.

    Miguel Guimarães abandonaria entretanto a liderança da Ordem e entrou directamente na política partidária. Foi eleito deputado pelo PSD pelo círculo do Porto, primeiro na XVI Legislatura e novamente na XVII, mantendo-se actualmente sentado na bancada social-democrata e integrando, entre outras, a Comissão Parlamentar de Saúde.

    Miguel Guimarães integra a Comissão da Saúde do Parlamento, que tem sempre menorizado os efeitos adversos das vacinas. / Foto: A.R.

    Risco associado às vacinas é conhecido desde 2021 mas menorizado

    A possibilidade de miocardite após vacinas de mRNA não é já uma hipótese controversa, sendo um efeito adverso reconhecido pelas autoridades reguladoras, embora politicamente menorizado.

    Em 2021, a Agência Europeia de Medicamentos até concluiu existir uma relação causal possível entre a ocorrência de miocardites (e também de pericardites) e as vacinas Comirnaty, da Pfizer/BioNTech, e Spikevax, da Moderna, mas destacando que eram casos muito raros de miocardite e pericardite, especialmente em homens jovens e com maior frequência depois da segunda dose.

    Um grande estudo realizado com registos de 23,1 milhões de habitantes da Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia encontrou precisamente maior risco após a segunda dose das vacinas de mRNA. Entre os homens dos 16 aos 24 anos, estimou cerca de 5,6 casos adicionais de miocardite por 100 mil vacinados após a segunda dose da Pfizer e 18,4 por 100 mil após a segunda dose da Moderna. O PÁGINA UM escreveu sobre esse estudo em Junho de 2022.

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    Foto: Mufid Majnun

    Porém, não têm sido muito estudadas as consequências a médio e longo prazo de quem sofreu essas miocardites. Uma investigação francesa de âmbito nacional acompanhou 4.635 pessoas entre os 12 e os 49 anos internadas com miocardite, das quais 558 tinham desenvolvido a doença nos sete dias posteriores a uma vacina de mRNA.

    Globalmente, estes doentes tiveram um prognóstico cardiovascular mais favorável do que aqueles com miocardites de outras origens, mas os autores defenderam um acompanhamento clínico prolongado.

    Os resultados portugueses dos reinternamentos, agora revelados pelo PÁGINA UM, ganham interesse científico e político, porque apesar de não se provar que foi a vacinação contra a covid-19 a provocar a subida observada em 2021 e 2022, certo é que a subida foi evidente e forte. E aumentou também bastante a proporção que voltou posteriormente ao hospital por doença cardíaca.

    CORPUS é uma plataforma de análise desenvolvida pelo PÁGINA UM a partir da Base de Dados de Morbilidade Hospitalar do SNS, que reúne cerca de 38,5 milhões de episódios hospitalares entre 2000 e 2024. Permite explorar, em linguagem natural, padrões de internamento, diagnósticos, evolução temporal, características demográficas e reinternamentos, produzindo análises e relatórios a partir de dados agregados e anonimizados.

    Para determinar a causa seria necessário fazer aquilo que o Ministério da Saúde recusa fazer: cruzar o histórico clínico dos doentes com os registos nacionais de vacinação e de infecção, identificando a vacina administrada, número de doses, datas, infecções anteriores ou posteriores, comorbilidades e características clínicas da miocardite.

    Esse trabalho de investigação, necessária e justa, permitiria saber quantas miocardites ocorreram pouco depois de uma vacinação, quantas depois de uma infecção, quantas sem relação temporal com nenhuma das duas e, sobretudo, se o prognóstico de longo prazo difere entre esses grupos. Ana Paula Martins, ministra da Saúde, pode ordenar que se execute isso. Ou não.

  • Covid-19: Hospitalizações de jovens por miocardites dispararam no período da vacinação em massa

    Covid-19: Hospitalizações de jovens por miocardites dispararam no período da vacinação em massa


    Esta é a primeira quantificação usando dados oficiais sobre um dos temas mais sensíveis no período pandémico e envolvendo a vacinação de adolescentes e jovens adultos. Os internamentos por miocardite nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde aumentaram de forma acentuada a partir de 2021, precisamente no período em que Portugal avançou para a vacinação em massa contra a covid-19, atingindo em 2022 um máximo de 561 episódios — o valor mais elevado de uma série que recua ao ano 2000.

    A quantificação foi apurada pelo CORPUS, plataforma de dados em saúde pública do PÁGINA UM, disponível desde Julho e que permite analisar de forma integrada os registos da Base de Dados de Morbilidade Hospitalar relativos aos internamentos nos hospitais públicos entre 2000 e 2024.

    Foto: D.R.

    A análise cronológica, desagregada por grupos etários e por sexo, realizada pelo PÁGINA UM, revela um sinal forte de crescimento abrupto entre adolescentes e adultos jovens do sexo masculino — precisamente os grupos em que a literatura científica e as autoridades reguladoras vieram a identificar maior risco de miocardite após a administração de vacinas de mRNA contra a covid-19.

    Os registos hospitalares portugueses não permitem, porém, estabelecer a causa de cada episódio, nem separar as miocardites eventualmente associadas à vacinação das relacionadas com infecção por SARS-CoV-2 ou com outras etiologias.

    A série da Base de Dados de Morbilidade Hospitalar da ACSS mostra, todavia, que a miocardite está longe de ser um problema cardíaco surgido com a pandemia. E até já se observava uma tendência de crescimento de longo prazo, influenciada, entre outros factores, pela melhoria da capacidade diagnóstica e pela utilização crescente da ressonância magnética cardíaca para detecção destes problemas.

    Em 2000 contabilizaram-se 69 internamentos para todas as idades; em 2020 foram já 281, num ano marcado pela forte contracção da actividade hospitalar.

    Mas foi a partir de 2021 que a curva mudou claramente de patamar. Em 2022, os 561 internamentos representaram um aumento de cerca de 57% face à média anual de 358 registada entre 2015 e 2019 e corresponderam quase ao dobro dos internamentos observados em 2020.

    Em termos relativos e absolutos, foi nos rapazes entre os 12 e os 17 anos que a ruptura se tornou mais evidente. Entre 2000 e 2019 registavam-se, em média, cerca de oito internamentos por ano. Passaram para 31 em 2021, 38 em 2022 e 45 em 2023; em 2024 recuaram para 27, mas este número continuava a ser mais de três vezes superior à média histórica. Nas raparigas da mesma idade foram apenas três casos em 2021, sete em 2022, cinco em 2023 e quatro em 2024.

    Nos homens dos 18 aos 30 anos, grupo em que já se observava uma tendência ascendente antes da pandemia, o salto é também bastante expressivo. Tinham ocorrido 129 internamentos em 2019, seguindo-se uma descida para 75 em 2020. Depois surgiram 147 em 2021 e 213 em 2022; nos dois últimos anos da série continuaram elevados, com 150 em 2023 e 168 em 2024.

    Somando os dois sexos, os jovens entre os 18 e os 30 anos passaram de 95 internamentos em 2020 para 186 em 2021 e 253 em 2022. Saliente-se que a predominância masculina, porém, era já anterior à covid-19 e atravessa toda a série, sendo uma característica epidemiológica conhecida da própria miocardite. Mas agravou-se no período de vacinação.

    A desagregação mensal dos internamentos entre os 18 e os 30 anos torna ainda mais visível a mudança de patamar ocorrida a partir de 2021. Em 2019 registavam-se, em média, 12,7 internamentos por mês, valor que caiu para 7,9 em 2020. Em 2021, a média quase duplicou face ao ano anterior, para 14,8 casos mensais, com uma subida especialmente pronunciada no segundo semestre e um máximo de 27 internamentos em Setembro. O pico surgiu em 2022, quando a média atingiu 21 internamentos por mês, com 27 casos em Fevereiro e novamente em Novembro. Nos dois anos seguintes houve uma descida, mas sem regresso aos níveis de 2020: a média manteve-se em 14,3 internamentos mensais em 2023 e 14,9 em 2024, acima também do valor observado em 2019.

    Mais casos, mas internamentos mais curtos

    Há, contudo, um dado que impede uma leitura simplista do aumento, embora a necessitar de maior estudo. A análise do PÁGINA UM procurou saber se a explosão do número de internamentos nas idades jovens foi acompanhada por um agravamento comparável da evolução hospitalar imediata. E a resposta é negativa: em média, os internamentos tornaram-se relativamente curtos.

    Nos rapazes dos 12 aos 17 anos, a demora média no hospital foi de 3,7 dias em 2021, de 4,6 em 2022, de 3,6 em 2023 e de 4,7 em 2024. Nos homens entre os 18 e os 30 anos os valores oscilaram apenas entre 4,5 e 4,8 dias, mas aqui as diferenças com anos anteriores é mais pequena (cerca de um dia a menos). A média global de todos os internamentos, que fora de 6,6 dias em 2020, baixou para 5,1 em 2021 e situou-se entre 5,5 e 5,8 dias nos três anos seguintes.

    Em todo o caso, a letalidade hospitalar foi também muito baixa nestas idades. Entre 2021 e 2024 não morreu nenhum adolescente dos 12 aos 17 anos internado com miocardite; entre os 18 e os 30 anos registaram-se apenas dois óbitos nas tabelas da ACSS durante esses quatro anos. O único óbito recente entre adolescentes ocorreu em 2020, portanto antes da vacinação contra a covid-19.

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    Foto: Mateo Hernandez Reyes

    Estes números são compatíveis com uma menor gravidade aguda média dos casos adicionais — ou com a identificação e internamento de uma maior proporção de formas ligeiras, graças a uma maior vigilância e capacidade diagnóstica. Mas um internamento de quatro dias não significa que, depois da alta, o coração tenha regressado integralmente ao estado anterior. É aqui que os estudos de acompanhamento adquiriram particular importância.

    FDA admite que sequelas de longo prazo continuam por esclarecer

    A existência de uma relação causal entre as vacinas de mRNA e casos de miocardite é cada vez mais uma evidência para as próprias autoridades reguladoras, embora haja ainda adeptos da vacinação massiva que procurem negar os problemas. A Agência Europeia de Medicamentos recomendou em Julho de 2021 que miocardite e pericardite fossem incluídas como efeitos adversos da Comirnaty, da Pfizer/BioNTech, e da Spikevax, da Moderna, sendo o risco particularmente associado aos homens jovens.

    Em Junho do ano passado, a Food and Drug Administration – a autoridade norte-americana de segurança alimentar e de fármacos – foi mais longe e obrigou à actualização da informação de segurança das vacinas de mRNA. Com base nas formulações usadas em 2023-2024, estimou cerca de oito casos de miocardite ou pericardite por milhão de doses entre os seis meses e os 64 anos, aumentando para cerca de 27 casos por milhão nos homens dos 12 aos 24 anos, sobretudo nos primeiros sete dias depois da vacinação.

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    Foto: Daria.

    Mas a actualização da FDA contém outro elemento relevante para a leitura dos dados portugueses. Num estudo de acompanhamento de cerca de 300 pessoas que desenvolveram miocardite após uma vacina de mRNA, as ressonâncias magnéticas cardíacas continuavam frequentemente a mostrar, cerca de cinco meses depois, alterações compatíveis com lesão do músculo cardíaco. Em alguns doentes houve melhoria, mas não em todos. E a FDA reconhece expressamente que não se conhece ainda o significado prognóstico dessas alterações nem as potenciais sequelas cardíacas de longo prazo.

    A investigação entretanto publicada mantém esta dualidade. Num acompanhamento prospectivo australiano divulgado em 2025, 35% dos doentes avaliados entre 12 e 18 meses depois da miocardite pós-vacinal ainda referiam sintomas. Ao mesmo tempo, a evolução clínica global foi considerada favorável: houve poucas novas hospitalizações e nenhuma morte no período de seguimento.

    Um grande estudo francês, publicado no JAMA, chegou a uma conclusão semelhante por outra via: aos 18 meses, os doentes com miocardite atribuída às vacinas de mRNA apresentavam menos complicações cardiovasculares do que os doentes com miocardites convencionais, embora alguns, maioritariamente homens jovens previamente saudáveis, continuassem a necessitar de acompanhamento médico meses depois da alta.

    DGS e muitos médicos aconselharam a vacinação de adolescentes e jovens sem medirem consequências. Foto: captura de ecrã.

    Vacina, infecção ou ambas? Os dados portugueses não dizem

    Também não se pode esquecer que a própria infecção por SARS-CoV-2 provoca miocardite, embora os dados agora revelados mostrem que o aumento de casos nos jovens ocorreu sobretudo quando se iniciou a vacinação. Embora haja estudos científicos que tenham encontrado, para o conjunto da população, um risco maior após a infecção do que depois da vacinação, essa comparação muda consoante a idade, o sexo, o número da dose e a vacina utilizada.

    Por exemplo, num estudo inglês publicado na Circulation, nos homens com menos de 40 anos o excesso de miocardites após a segunda dose da Moderna foi superior ao observado depois de uma infecção por SARS-CoV-2 naquele subgrupo. Infelizmente, apesar dos registos hospitalares indicarem se o internamento teve a miocardite como diagnóstico principal, não existe informação que permita cruzar cada internamento com a vacinação e com as infecções anteriores.

    Em todo o caso, uma pesquisa específica de reacções adversas a vacinas víricas, efectuada também pelo PÁGINA UM, encontrou 127 episódios em 2021, todos como diagnóstico secundário. Em todo o caso, o código utilizado nos registos não distingue as vacinas contra a covid-19 das restantes vacinas víricas. Mas convinha que esse estudo se realizasse.

    Gouveia e Melo foi um dos grandes incentivadores da vacinação dos menores. Foto: captura de ecrã.

    Recorde-se que, em Portugal, apesar dos avisos de alguns pediatrias, incluindo dois pareceres do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos ‘engavetada’ pelo então bastonário Miguel Guimarães (agora deputado do PSD), a Direcção-Geral da Saúde cedeu a pressões comerciais e políticas, acabando por recomendar a vacinação de adolescentes e jovens adulto saudáveis contra a covid-19, mesmo apesar do muito baixo risco da doença para estes grupos etários.

    NOTA — O relatório completo do CORPUS, a plataforma de dados em saúde pública do PÁGINA UM, pode ser consultado aqui. Uma parte substancial da plataforma é de acesso gratuito, incluindo os estudos e relatórios já publicados, os principais painéis de consulta, mapas e diversos indicadores sobre hospitalização e mortalidade. O registo permite explorar mais informação disponível na base, que reúne cerca de 38 milhões de registos hospitalares do SNS entre 2000 e 2024. As funcionalidades mais avançadas — designadamente pesquisas complexas, cruzamentos e comparações aprofundadas, exploração estatística, elaboração assistida de relatórios e a possibilidade de interagir directamente com a base de dados através de perguntas em linguagem natural — estão reservadas à modalidade paga CORPUS Pro. Os novos utilizadores podem experimentar estas funcionalidades durante um período gratuito de sete dias, antes de decidirem se pretendem subscrever o serviço. O CORPUS continuará a incorporar novos dados, ferramentas de análise e funcionalidades.

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  • Pagamentos são tema tabu:  Fundação Francisco Manuel dos Santos teceu uma vasta rede de relações com as chefias dos media

    Pagamentos são tema tabu: Fundação Francisco Manuel dos Santos teceu uma vasta rede de relações com as chefias dos media


    A Fundação Francisco Manuel dos Santos é uma instituição privada altamente sedutora. E, no mundo dos media, essa capacidade de sedução não se exerce apenas através de estudos que chegam às redacções, de parcerias com empresas de comunicação social ou de programas produzidos com jornais, rádios e televisões. A Fundação também acarinha jornalistas — muitos jornalistas. E, sobretudo, jornalistas no activo, incluindo directores, subdirectores, directores-adjuntos, editores e outras figuras com responsabilidades editoriais em alguns dos principais meios de comunicação portugueses.

    Chama-os aos seus palcos para moderarem debates e entrevistarem convidados, publica alguns como autores de livros, promove depois essas obras em conferências, podcasts e conversas públicas e abre-lhes ainda espaço para assinarem textos no seu próprio portal. O resultado é uma teia de relações continuadas entre uma fundação privada com forte presença no debate público e profissionais que, simultaneamente, participam na selecção, enquadramento e divulgação da informação que chega diariamente ao público.

    Depois da sua demissão do Expresso, em 2019, Pedro Santos Guerreiro, actual director executivo da CNN Portugal, colaborou activamente com a Fundação Francisco Manuel dos Santos, que regista 34 conteúdos, quase todos em 2020. Foto: captura de ecrã.

    Um levantamento exaustivo do PÁGINA UM às páginas públicas da FFMS identificou 39 registos de participação de jornalistas em eventos da Fundação, 22 dos quais em funções de moderação. E muitos são ‘figuras públicas’ em funções editoriais. Carlos Daniel, director do Centro de Produção do Norte da RTP, moderou o Fronteiras XXI De que escola precisamos? e é também a voz de uma série de documentários co-produzida pela FFMS e pela RTP, que a Fundação apresenta com 22 episódios. António Costa, fundador e director do ECO, conduziu em 2019 a apresentação pública dedicada à sustentabilidade financeira e social do sistema de pensões. E David Dinis, então director-adjunto do Expresso, moderou, também em 2019, a apresentação e o debate de um estudo sobre instituições e qualidade da democracia.

    A sucessão de nomes mostra que não estamos perante uma lista ocasional de convidados. Catarina Carvalho, fundadora e directora da Mensagem de Lisboa e antiga directora do Diário de Notícias, moderou pelo menos cinco debates da Praça da Fundação só em 2021. Joana Petiz, no período em que acumulava a direcção do Dinheiro Vivo com a subdirecção do Diário de Notícias, moderou sessões sobre financiamento das PME e sobre pensões. Pedro Santos Guerreiro, director-executivo da CNN Portugal, entrevistou especialistas na série O país que se segue, composta por 20 episódios.

    Graça Franco, directora de informação da Renascença entre 2009 e 2020 e presidente do Conselho Editorial da Euronews, participou em programas da Fundação. Helena Garrido, antiga directora do Jornal de Negócios, moderou a apresentação de um estudo sobre infra-estruturas. Luís Rosa, redactor principal do Observador, participou em debates, assinou o livro 45 Anos de Combate à Corrupção e voltou a surgir noutros formatos da Fundação. Percursos semelhantes ligam à FFMS Bárbara Reis, antiga directora e actual redactora principal do Público; António José Teixeira, que dirigiu a SIC Notícias e o Diário de Notícias e integrou a direcção de informação da RTP; e Margarida Vaqueiro Lopes, antiga subdirectora da Visão e editora da Exame, hoje subdirectora do Diário de Notícias e directora-executiva do Dinheiro Vivo. E, mais recentemente, Ricardo Costa, antigo director do Expresso e da SIC, e actual administrador de conteúdos da Impresa, tem marcado presença como moderador de eventos de prestígio.

    São inúmeros os jornalistas com destaque editorial que surgem com o logotipo da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Foto: captura de ecrã.

    Os livros — numa área de Publicações dirigida por António Araújo, administrador da FFMS, presença habitual como cronista em jornais — tornam esta aproximação simultaneamente mais visível e mais duradoura. Uma consulta do PÁGINA UM ao catálogo da Fundação apurou 25 créditos de autoria ou co-autoria atribuídos a jornalistas em 23 títulos distintos: 17 Retratos, quatro Ensaios, um livro de dados e uma colectânea.

    Há muitos exemplos de jornalistas no activo. Rui Frias, com um longo percurso no Diário de Notícias, assinou O Jornal; Helena Tecedeiro, editora-executiva do Diário de Notícias, publicou A Francofonia em Portugal, Está bem e recomenda-se; Margarida Vaqueiro Lopes escreveu Marcas Que Fazem Portugal; João Pedro Henriques, agora jornalista no Expresso, é autor de Revolução Inacabada, O que não mudou com o 25 de Abril; e Pedro Prostes da Fonseca, jornalista que dirigiu a redacção de Meios & Publicidade, assinou Dependência Digital.

    A lista inclui ainda Liberdade e Informação, de José Manuel Fernandes, antigo director do Público e publisher do Observador; a Coleção 10 Anos da Fundação — Pensar o Tempo Comum, que inclui textos de jornalistas como Bárbara Reis, Teresa Firmino e José Vítor Malheiros; Rússia e Europa: Uma Parte do Todo, de José Milhazes; Portugal e o Tempo, de Fernando Correia de Oliveira; e Tira o Disco e Toca ao Vivo, A indústria musical em Portugal, de João Gobern.

    Intensificação das relações da FFMS com chefias de órgãos de comunicação social ocorreu durante a presidência de Gonçalo Saraiva Martins, actual ministro da Reforma Administrativa. Foto: captura de ecrã.

    Ana Cristina Pereira, jornalista do Público, publicou em Maio de 2026 Portugueses Ciganos, Cinco séculos de resistência e participou depois em debates e apresentações promovidos pela Fundação em torno da obra. João Pedro Pincha, também jornalista do Público, fez percurso semelhante com Ruído, Lisboa, uma cidade que não se cala.

    Esta relação não termina quando o livro chega às livrarias. Pelo contrário: muitas vezes é aí que começa uma segunda circulação. O Jornal, de Rui Frias, passou da colecção Retratos para um debate na Feira do Livro de Lisboa, com Bárbara Reis e Catarina Carvalho, moderado por Filipa Melo. Marcas Que Fazem Portugal, de Margarida Vaqueiro Lopes, levou a autora a uma conversa pública e a um episódio do programa Da Capa à Contracapa. A Francofonia em Portugal, Está bem e recomenda-se, de Helena Tecedeiro, percorreu caminho semelhante: livro, podcast e debate público.

    A Fundação tem criado, assim, um circuito editorial próprio: escolhe temas, encomenda ou edita obras, promove-as através dos seus canais e parcerias e volta a convocar os autores para outros formatos públicos. Neste cenário, um jornalista pode entrar pela porta de um livro e regressar como orador; pode moderar um debate e surgir depois como autor; pode escrever para um órgão de comunicação social e, em paralelo, participar nos conteúdos editoriais da própria Fundação.

    Ricardo Costa: FFMS escolhe a dedo quem modera eventos de prestígio. Foto: captura de ecrã.

    A dimensão desta máquina editorial está longe de ser residual. Em 2025, a FFMS publicou 27 livros. A colecção Ensaios já ultrapassou 150 números, enquanto a colecção Retratos ronda a centena. Segundo informação pública da própria Fundação, os seus livros já tinham ultrapassado os dois milhões de exemplares nas mãos dos portugueses.

    Nos livros existe, além disso, uma dimensão económica incontornável — mas aqui é necessário distinguir o que a documentação prova daquilo que apenas permite perguntar. O artigo 91.º do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, na versão consolidada actualmente em vigor, estabelece que «o contrato de edição presume-se oneroso» e prevê diferentes modalidades de retribuição. A norma não demonstra, porém, que todos estes jornalistas-autores tenham recebido dinheiro da Fundação, nem permite conhecer os termos concretos de cada relação contratual. A FFMS não quis indicar valores que paga a cada um os autores, incluindo jornalistas a títulos de direitos de autor..

    As contas da FFMS mostram, ainda assim, uma escala financeira da actividade editorial bastante apreciável. Em 2025 foram executados 1,35milhões de euros na rubrica “Publicações”. O relatório anual esclarece, noutro ponto das contas, que os custos de projectos incorporam a maioria dos gastos associados aos projectos e publicações e que a rubrica de “Trabalhos especializados” inclui bens e serviços directamente afectos à produção de publicações e à realização de eventos. Mas estas contas públicas não permitem decompor o valor global de modo a saber quanto correspondeu à edição e produção, quanto a outros serviços e, sobretudo, quanto foi eventualmente destinado à remuneração individual dos autores.

    Sem qualquer preocupação comercial, FFMS tem sido um palco para edição de obras de jornalistas.

    O portal da Fundação acrescenta ainda uma terceira porta de entrada para os jornalistas. O levantamento do PÁGINA UM identificou 32 conteúdos classificados pela própria FFMS como artigos e assinados por 14 jornalistas. Andrea Cunha Freitas, jornalista do Público na área de Ciência; Teresa de Sousa, jornalista especializada em assuntos europeus; Marta Portocarrero, jornalista multimédia; Ana Catarina André, da Sábado; António Costa, director do ECO; e António José Teixeira estão entre os profissionais que assinaram textos publicados na plataforma.

    Muitos desses conteúdos correspondem a análises, entrevistas, opiniões, rubricas ou excertos de livros. Mas, independentemente da classificação editorial adoptada pela Fundação, o conjunto reforça uma característica da FFMS que ultrapassa a simples disponibilização de estudos: a Fundação tornou-se também uma plataforma editorial própria, alimentada regularmente por jornalistas que trabalham ou trabalharam nos órgãos de comunicação social portugueses.

    A parte menos transparente desta rede é a económica, sobretudo nos eventos, colaborações e parcerias com os media. Os relatórios e páginas públicas consultados permitem conhecer os órgãos envolvidos, os convidados, os moderadores, os programas e, em muitos casos, resultados de audiência. Não permitem, porém, reconstruir de forma individualizada os fluxos financeiros: quanto foi pago por cada parceria, em que condições, ou se determinados moderadores e oradores receberam honorários — e, em caso afirmativo, quanto receberam.

    Apesar das suas responsabilidades editoriais na RTP, entre moderações e narrações de documentários em co-produção da FFMS, o jornalista Carlos Daniel conta com 40 conteúdos registados no site desta instituição. Fonte: captura de ecrã.

    O PÁGINA UM procurou esclarecer precisamente a dimensão económica destas relações, mas a presidente da FFMS, Fátima Barros, não respondeu às questões colocadas. Entre outras informações, perguntou-se que contratos são celebrados com os autores dos livros, quanto recebem em direitos de autor ou outras remunerações, que valores são pagos a jornalistas por artigos, moderações, entrevistas, podcasts ou participação em debates, quanto receberam individualmente vários dos responsáveis editoriais identificados neste levantamento e que montantes foram pagos, entre 2023 e 2025, aos diferentes órgãos de comunicação social parceiros.

    Foi ainda pedido a decomposição dos 1,352 milhões de euros gastos em Publicações em 2025 e questionou-se a Fundação – que está abrangida por um regime de transparência similar à Administração Pública pelos benefícios fiscais decorrentes da utilidade pública – sobre a possibilidade de tornar públicos contratos, protocolos, tabelas de remuneração ou, pelo menos, os valores agregados pagos por autor, moderador, orador, órgão de comunicação social e projecto. Nenhuma destas questões foi esclarecida.

    E aqui surge uma espécie de versão mediática do velho “preso por ter cão e preso por não ter”. Se directores, subdirectores, editores e outros responsáveis editoriais recebem dinheiro para escrever livros, moderar debates ou participar em iniciativas de uma fundação – associado a um grande grupo económico de distribuição alimentar – que investe milhões de euros na produção e promoção de conhecimento e mantém parcerias com os próprios meios onde trabalham, a existência, natureza e dimensão desses pagamentos são obviamente relevantes para avaliar potenciais conflitos de interesses e deveriam ser transparentes.

    Fátima Barros, presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos: apesar de uma instituição privada de utilidade pública ter deveres de transparência, não parece mostrar tanta simpatia por jornalistas que fazem perguntas incómodas. Fonte. D.R.

    Mas, se nada recebem, a situação não deixa automaticamente de merecer escrutínio: torna-se legítimo perguntar por que motivo tantos profissionais com cargos de responsabilidade editorial oferecem então, de modo repetido, o seu tempo, o seu nome, a sua reputação e a sua capacidade de comunicação a uma instituição privada, participando gratuitamente na valorização dos seus livros, estudos, eventos e marca.

    Receber não prova dependência; trabalhar de graça também não prova proximidade imprópria. Mas uma concentração tão extensa de relações entre a FFMS e quem ocupa lugares de decisão nos media exige, num caso como no outro, transparência — precisamente aquela que a ausência de respostas da Fundação impede de assegurar.

  • Para financiar entidade privada, Universidade Nova de Lisboa pagou 9,85 milhões por edifícios que nunca passaram para o seu património

    Para financiar entidade privada, Universidade Nova de Lisboa pagou 9,85 milhões por edifícios que nunca passaram para o seu património


    A Universidade Nova de Lisboa (NOVA) pagou 9,85 milhões de euros por dois edifícios do Campus de Carcavelos, mas nunca recebeu formalmente os imóveis. Pelo menos desde 2020, os blocos continuam juridicamente no património da Fundação Alfredo de Sousa, uma entidade privada criada exclusivamente para apoiar a NOVA School of Business and Economics, conhecida como NOVA SBE.

    As contas de 2025 confirmam que a Fundação recebeu a totalidade do preço acordado, embora a escritura nunca tenha sido realizada. Nesse mesmo relatório, a administração admite que o processo de constituição da propriedade horizontal já terminou e que estão reunidas as condições para a transmissão. Mesmo assim, não apresenta qualquer data e limita-se a dizer que a escritura será celebrada quando o assunto estiver “articulado e alinhado com a NOVA SBE”.

    Campus de Carcavelos da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, conhecida por NOVA SBE. Foto: D.R.

    A data exacta do contrato-promessa não é revelada nas contas. Aquilo que os documentos permitem demonstrar é que a operação já existia em 2020. Nesse ano, a Fundação retirou os dois edifícios da rubrica contabilística “Edifícios e outras construções” e passou-os para “Outros activos correntes”, porque previa concretizar a escritura “no curto prazo”. Quase seis anos depois, o curto prazo transformou-se numa espera sem fim.

    Quatro milhões acima do valor contabilístico

    Os imóveis que a NOVA pagou por 9,85 milhões de euros continuam registados nas contas da Fundação por 5.808.698 euros. A diferença ascende a 4.042.302 euros: o preço pago pela NOVA é quase 70% superior ao valor contabilístico dos edifícios.

    Valor contabilístico não significa necessariamente valor de mercado. Um imóvel pode estar inscrito pelo custo histórico, deduzido das depreciações, e valer bastante mais no momento da venda. Mas, tratando-se de uma transacção entre uma universidade pública e uma fundação privada estreitamente relacionada com uma das suas faculdades, seria elementar demonstrar como se chegou ao preço.

    Nem a Fundação nem a Reitoria facultaram ao PÁGINA UM qualquer avaliação imobiliária, memória de cálculo ou documento que permita perceber se os 9,85 milhões correspondem ao valor de mercado, se incluem equipamentos e infra-estruturas comuns ou se incorporam outras contrapartidas destinadas a financiar a Fundação.

    Quando a escritura for finalmente celebrada, a Fundação poderá reconhecer uma mais-valia contabilística superior a quatro milhões de euros: elimina do passivo a obrigação de 9,85 milhões perante a NOVA e retira do activo edifícios registados por apenas 5,81 milhões. O ganho não significa que a NOVA pague novo dinheiro nessa data; significa que a Fundação já recebeu um preço muito superior ao valor por que mantém os imóveis nas suas próprias contas.

    Quase dez milhões entraram; quase nada resta em caixa

    O pagamento integral continua registado no passivo da Fundação como um adiantamento por conta da venda. Porém, os 9,85 milhões de euros não ficaram guardados numa conta à espera da transmissão. Em 31 de Dezembro de 2025, a Fundação tinha apenas 1,25 milhões de euros em caixa e depósitos bancários.

    Miguel Pinto Luz foi administrador da Fundação Alfredo de Sousa desde 2017 até Março de 2024, tendo assumido a presidência em Abril de 2021. Foto: D.R.

    A diferença não demonstra, por si só, qualquer utilização irregular. O dinheiro é fungível e pode ter sido aplicado na construção e manutenção do Campus, no pagamento de fornecedores, na amortização dos empréstimos ou no financiamento da própria actividade. Mas demonstra que a verba antecipada pela NOVA foi absorvida pela tesouraria geral da Fundação. As contas não identificam o destino concreto do dinheiro nem revelam que tenha sido paga qualquer remuneração à NOVA pela utilização, durante anos, de quase dez milhões de euros.

    A operação é ainda mais peculiar porque os edifícios representam apenas cerca de 9% dos activos da Fundação, mas quase três quartos dos seus activos correntes. Quando forem transmitidos, sairão do balanço 5,81 milhões de euros em imóveis, mas desaparecerá também um passivo de 9,85 milhões. O efeito líquido será um reforço patrimonial superior a quatro milhões de euros.

    Uma fundação privada para servir uma faculdade pública

    A Fundação Alfredo de Sousa foi constituída em Novembro de 2015 e reconhecida como entidade de utilidade pública em 2020. É uma instituição privada, mas não possui uma missão genérica ou autónoma: os seus estatutos determinam que a actividade se encontra orientada exclusivamente para apoiar o desenvolvimento e o funcionamento da NOVA SBE.

    Negócios pouco transparentes na Fundação Alfredo de Sousa com mecanismos de relação com a Universidade Nova de Lisboa bastante estranhos. Foto: D.R.

    As entidades instituidoras são a própria Faculdade de Economia, o Município de Cascais, a Jerónimo Martins, o Banco Santander Totta e a Arica, sociedade ligada à família Soares dos Santos. O fundo patrimonial foi constituído através de 12,31 milhões de euros em dinheiro e de uma entrada em espécie de 9,78 milhões, correspondente ao direito de superfície cedido pelo Município de Cascais sobre o terreno onde foi construído o Campus.

    A Fundação concentrou a angariação dos donativos privados, o financiamento e a construção do novo Campus. Depois da inauguração, passou a assegurar a gestão do complexo, a sua manutenção e a exploração económica dos espaços. Arrenda o Campus à NOVA SBE e à NForumExecutivos e gere contratos relativos à residência universitária, estacionamento, ginásio, supermercado, restauração, cafetarias, agência bancária, clínica e outros operadores comerciais.

    A entidade foi presidida a partir de 2021 por Miguel Pinto Luz, actual ministro das Infra-estruturas e Habitação. O governante assumiu então a liderança da Fundação numa fase em que a construção estava concluída e a prioridade passava a ser a gestão do Campus e a captação de novos fundos para a NOVA SBE.

    Terrenos do Campus de Carcavelos foram cedidos pela autarquia de Cascais, Foto: D.R.

    Rui Diniz preside actualmente ao conselho de administração, que integra ainda Alexandra Brandão, António Casanova, António Nogueira Leite, Francisco d’Almeida, Inês Oom de Sousa, Henrique Soares dos Santos, Nuno Piteira Lopes e Vera Pinto Pereira. A composição inclui membros indicados pelo Conselho de Curadores e pelos antigos alunos, bem como representantes da NOVA SBE, do Grupo Jerónimo Martins, da família Soares dos Santos e da Câmara Municipal de Cascais

    A Faculdade paga; a Fundação devolve

    O modelo financeiro produz um circuito difícil de compreender sem uma leitura consolidada. A NOVA SBE paga rendas, condomínio e serviços à Fundação. A Fundação utiliza essas receitas para manter o Campus, pagar fornecedores, juros e amortizações dos empréstimos, mas também entrega dinheiro à própria NOVA e à Faculdade sob a forma de donativos, bolsas e financiamento de projectos.

    Em 2025, a Fundação entregou cerca de 2,1 milhões de euros à NOVA SBE para fins educacionais e científicos. A maior parcela, 1,43 milhões, destinou-se ao projecto Arica, que financia a implementação e a actividade corrente da Biblioteca Teresa e Alexandre Soares dos Santos. Outros 488 mil euros foram canalizados para o Westmont Institute of Hospitality and Tourism, 165 mil euros corresponderam ao donativo institucional anual à Faculdade e cerca de 56 mil euros foram atribuídos em bolsas.

    Uma parte significativa destas verbas não provém directamente das rendas pagas pela Faculdade. A Fundação recebe donativos consignados por mecenas a projectos específicos e transfere-os para a NOVA SBE à medida que as despesas são realizadas. Funciona, nesses casos, como intermediária entre os financiadores privados e uma escola pública.

    Ainda assim, o resultado é um sistema em que a Faculdade paga à Fundação para ocupar e utilizar o Campus e a Fundação volta a financiar a Faculdade. As contas não apresentam qualquer estudo que demonstre quanto custa esta intermediação, que vantagem financeira líquida gera ou se a gestão directa do Campus pela NOVA seria mais cara.

    O lucro de 2025 foi salvo pelo Fisco

    A Fundação encerrou 2025 com um lucro de apenas 84.566 euros, depois de ter apresentado um prejuízo de 291.386 euros em 2024. A administração apresenta a passagem para terreno positivo como prova da “solidez operacional” do modelo, mas o indicador que mede a actividade antes de depreciações e juros piorou: o EBITDA caiu de 2,59 milhões para 2,43 milhões de euros.

    O resultado final melhorou porque as depreciações e amortizações diminuíram 274 mil euros e o encargo financeiro líquido caiu cerca de 262 mil euros. A Fundação afirma que certos activos chegaram ao fim da vida útil contabilística, deixando de ser depreciados, mas não identifica quais são esses bens, quanto custaram ou que parcela da redução corresponde a cada activo.

    Também a queda dos juros está insuficientemente explicada. A dívida bancária diminuiu apenas 1,3 milhões de euros, de 11,7 para 10,4 milhões, mas os juros brutos caíram 378 mil euros, de 973 mil para 595 mil. A redução da dívida, por si só, não explica uma quebra de quase 39% nos juros. A descida da Euribor e a estrutura dos empréstimos terão contribuído, mas as contas não apresentam uma reconciliação que separe cada efeito. Os swaps, apesar de continuarem a reduzir o custo financeiro, renderam menos em 2025 do que no exercício anterior.

    Mesmo com menores depreciações e juros, a Fundação teria regressado ao prejuízo sem uma receita extraordinária da Autoridade Tributária. O litígio remontava ao IVA das obras de construção do Campus, realizadas entre 2015 e 2017. A Fundação considerava aplicável a taxa reduzida de 6%, enquanto a Autoridade Tributária sustentava a incidência de 23% e recusou um reembolso de 594.772 euros. A Fundação venceu o processo, cuja decisão favorável transitou em julgado em 2021, mas só recebeu o capital em Maio de 2025.

    O reembolso principal melhorou a caixa, mas não os resultados, porque já estava reconhecido como crédito sobre o Estado. O que salvou as contas foram 161.452 euros de juros indemnizatórios, reconhecidos como rendimento de 2025 após uma sentença judicial e pagos pela Autoridade Tributária em Janeiro de 2026.

    Sem esse rendimento extraordinário, o lucro de 84.566 euros transformar-se-ia num prejuízo próximo de 77 mil euros. Ou seja, a única excepção positiva depois de anos de resultados acumulados negativos não nasceu de uma recuperação da exploração do Campus: nasceu, em termos decisivos, da derrota do Fisco em tribunal.

    Os chamados “outros rendimentos” subiram de 1,12 milhões para 1,40 milhões de euros, mas a composição confirma a fragilidade da melhoria. Incluem 711.576 euros de reconhecimento contabilístico de antigos donativos destinados à construção, 505.668 euros de refacturação de electricidade e água e 183.837 euros de outros ganhos, onde se encontram precisamente os juros indemnizatórios. Grande parte da subida não representa nova receita recorrente ou aumento efectivo da rentabilidade. Em todo o caso, os prejuízos acumulados situam-se em quase 8,2 milhões de euros.

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    Dinheiro do pagamento dos edifícios já ‘voou’ quase todo. Foto: Igal Ness

    Silêncio em plena guerra entre a Reitoria e a NOVA SBE

    A Fundação Alfredo de Sousa não respondeu às questões enviadas pelo PÁGINA UM sobre o contrato-promessa, a avaliação dos imóveis, as datas dos pagamentos, a utilização dos 9,85 milhões, o atraso da escritura, a queda das depreciações e a situação de tesouraria.

    A Reitoria também não esclareceu qualquer um destes pontos. Limitou-se a informar o PÁGINA UM de que está a investigar um conjunto de entidades ligadas à NOVA, entre as quais se encontrará a Fundação Alfredo de Sousa. Não indicou, porém, o objecto, o âmbito, os responsáveis ou o prazo dessa averiguação.

    O silêncio surge em plena guerra institucional entre a Reitoria e a NOVA SBE. Paulo Pereira, investigador oriundo da NOVA Medical School e antigo vice-presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, foi eleito reitor em Setembro de 2025 e novamente em Maio deste ano, depois de um tribunal ter determinado a repetição do processo eleitoral.

    A relação com a Faculdade de Economia entrou em ruptura depois de o reitor determinar que todas as unidades orgânicas utilizassem também a designação oficial em português. Pedro Santa Clara, professor da NOVA SBE e principal impulsionador do Campus de Carcavelos, classificou a decisão como um “acto hostil” e defendeu que a Faculdade deveria abandonar a NOVA. A possibilidade de separação chegou a ser discutida publicamente, embora a direcção da escola tenha depois negado estar em curso qualquer “divórcio institucional”.

    Paulo Pereira, liderava um grupo de investigação dedicado à proteostase celular e à comunicação intercelular na Faculdade de Ciências Médicas, quando foi eleito reitor da Universidade Nova de Lisboa em Outubro do ano passado. As suas relações com a NOVA SBE têm sido de ‘cortar à faca’. Foto: UNL.

    No meio deste conflito, a Reitoria tem agora pela frente um problema muito mais concreto do que o nome da Faculdade: uma universidade pública entregou 9,85 milhões de euros a uma fundação privada por dois edifícios que continuam, há anos, no património do vendedor.

    A pergunta é simples e continua sem resposta: quando receberá a NOVA aquilo que já pagou — e com que avaliação aceitou entregar mais quatro milhões de euros do que o valor por que os imóveis permanecem registados nas contas da Fundação?

  • Os heróis menorizados da pandemia: técnicos auxiliares de saúde tiveram quase quatro vezes o risco de infecção dos médicos

    Os heróis menorizados da pandemia: técnicos auxiliares de saúde tiveram quase quatro vezes o risco de infecção dos médicos


    Durante a pandemia, bateram-se palmas sobretudo aos médicos e aos enfermeiros. Em Portugal, em particular, muitas vezes a Ordem dos Médicos – então liderada pelo agora deputado social-democrata Miguel Guimarães – colocava-se em bicos de pés para receber aplausos. Muitos médicos quiseram transformar-se em heróis, como Filipe Froes, Gustavo Carona e Nelson Pereira – que até lançaram livros –, Ricardo Mexia, Baptista Leite e Tato Borges.

    Mas uma investigação europeia agora publicada mostra uma realidade menos confortável para a narrativa pública daqueles meses: antes da chegada da variante Ómicron, os trabalhadores auxiliares e de apoio foram o grupo profissional que apresentou o maior risco de infecção por SARS-CoV-2 por estarem mais expostos: cerca de quatro vezes (3,86) superior ao dos médicos.

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    Foto: Hush Naidoo Jade Photography.

    Para quem conhece os corredores dos hospitais, este maior risco acaba por não surpreender, mas releva uma classe profissional fulcral, mas nem sempre devidamente valorizada. Constituem, na verdade, os trabalhadores que, no quotidiano hospitalar, lavam, alimentam, mudam camas, transportam, mobilizam e permanecem fisicamente junto dos doentes, muitas vezes durante períodos muito superiores aos contactos clínicos dos médicos.

    Esta conclusão consta do estudo “Factors associated with SARS-CoV-2 infection among healthcare workers: a European multicentre cohort study, May 2021–April 2024”, publicado na revista científica BMC Infectious Diseases, integrada no grupo editorial Springer Nature, um dos mais conceituados a nível mundial.

    A investigação acompanhou 3.253 profissionais de saúde de 18 hospitais europeus, recorrendo a questionários semanais e a testes PCR realizados semanal ou quinzenalmente. Os investigadores dividiram a observação em três fases distintas da pandemia: período pré-Ómicron, com 1.395 participantes; período de predominância pandémica da Ómicron, com 2.056; e fase posterior, com 1.254.

    Foram detectadas, respectivamente, 53, 600 e 249 infecções por SARS-CoV-2. Cerca de 80% dos participantes eram mulheres, 42% eram enfermeiros ou auxiliares de enfermagem e 22% médicos.

    A diferença entre categorias profissionais destacou-se sobretudo na primeira fase da pandemia. Tomando os médicos como grupo de referência, os investigadores calcularam para os trabalhadores de apoio e auxiliares uma razão de riscos instantâneos (hazard ratio) de 3,86, embora com um intervalo de confiança largo. A diferença deixou de apresentar significância estatística nas fases seguintes.

    O estudo não contabilizou minuto a minuto o contacto físico de cada trabalhador com os doentes, mas o resultado ganha relevo perante a própria divisão de tarefas nos hospitais, que se aplica a outras doenças: enquanto o médico observa, diagnostica e prescreve, boa parte do contacto corporal continuado — higiene, alimentação, mudança de roupa e camas, mobilização, transporte e assistência básica — cabe aos auxiliares. A primeira linha da pandemia não se resumia, portanto, às batas brancas que concentraram as homenagens públicas.

    Outro aspecto relevante deste estudo foi ter determinado que o factor mais fortemente associado ao risco de infecção dos profissionais de saúde não apareceu dentro do hospital, mas em casa. Antes da Ómicron, um profissional de saúde que tivesse contacto doméstico com uma pessoa infectada apresentava um risco 4,05 vezes superior de contrair SARS-CoV-2. Esse aumento baixou para 1,76 vezes durante a fase pandémica da Ómicron e para 1,37 posteriormente, deixando neste último período de ser estatisticamente significativo.

    Pelo contrário, o contacto conhecido com doentes de covid-19 no hospital, a realização de procedimentos geradores de aerossóis e o simples exercício de funções com contacto directo com doentes não surgiram associados, de forma estatisticamente significativa, a maior risco. Isto não significa que trabalhar junto de infectados fosse inócuo: na verdade, pode reflectir a utilização de máscaras, equipamentos de protecção, protocolos e cuidados acrescidos nos contextos em que o perigo era conhecido.

    Portugal aparece neste trabalho através de investigadores do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge e de colaboradores ligados a unidades de Viseu e da Madeira, mas os resultados não podem ser apresentados como portugueses.

    Os 18 hospitais incluídos na análise pertenciam a nove países — Croácia, Estónia, Grécia, Irlanda, Itália, Letónia, Polónia, Roménia e Espanha — e nenhum se situava em Portugal. O estudo também não permite determinar o local exacto de cada contágio e algumas exposições foram declaradas pelos próprios profissionais.

    Porém, deixa documentada uma desigualdade que dificilmente passou para a memória pública da pandemia: entre aqueles que lavavam, alimentavam, transportavam e acompanhavam os doentes estavam trabalhadores que receberam muito menos protagonismo do que os médicos, embora, antes da Ómicron, apresentassem um risco de infecção quase quatro vezes superior.

  • Comissão independente acusa Tribunal de Contas de não fornecer dados completos sobre contratos públicos especiais

    Comissão independente acusa Tribunal de Contas de não fornecer dados completos sobre contratos públicos especiais


    A Comissão Independente de Acompanhamento e Fiscalização das Medidas Especiais de Contratação Pública (CIMEC) acusou o Tribunal de Contas de não lhe ter fornecido o número e o valor dos contratos abrangidos pela fiscalização prévia, nem ter transmitido de forma estruturada os dados relativos a esses negócios. A falha, revelada no 9.º Relatório Semestral da Comissão, divulgado esta sexta-feira, terá impedido a entidade fiscalizadora de realizar uma análise completa de um regime que, desde 2021, já abrangeu procedimentos com um preço-base acumulado superior a 1.451 milhões de euros.

    A CIMEC explica que o Tribunal de Contas apenas lhe remeteu, de forma estruturada, os dados introduzidos pelas entidades adjudicantes na plataforma eContas, relativos sobretudo a contratos inferiores a 750 mil euros. Porém, “os dados sobre os contratos MEC abrangidos pela fiscalização prévia do TdC não foram transmitidos de forma estruturada”, impossibilitando uma análise com o mesmo grau de detalhe. A Comissão acrescenta que solicitou expressamente o número e o valor dos contratos submetidos a fiscalização prévia até ao nono semestre de vigência das medidas especiais, mas esses elementos “não [foram] disponibilizados”, conforme consta numa nota da página 119.

    Foto: D.R.

    Nas conclusões, a linguagem torna-se ainda mais inequívoca. “À luz da insuficiência dos dados disponibilizados pelo TdC”, afirma a CIMEC, “resultou inviabilizada uma análise completa dos dados totais relativos às MEC”, por não terem sido incorporados os contratos sujeitos a fiscalização prévia. Assim, a Comissão conseguiu confirmar 359 contratos remetidos ao Tribunal de Contas no segundo semestre de 2025 por entidades públicas, mas admite que poderão existir outros, precisamente os de maior valor sujeitos ao visto prévio.

    Esta falta de colaboração não será alheia à guerra política e institucional que se trava em torno dos poderes do Tribunal de Contas. O relatório não estabelece qualquer ligação entre os dois factos, mas a coincidência surge quando o Parlamento aprecia, na especialidade, a proposta do Governo para uma profunda reforma da lei orgânica daquele órgão. O Executivo pretende elevar para 10 milhões de euros o limiar da fiscalização prévia e admite que a alteração retirará do visto mais de 90% dos procedimentos actualmente abrangidos.

    O Tribunal de Contas, por seu lado, sustenta que a proposta rompe com o modelo constitucional de controlo externo e calcula uma redução próxima de 60% da despesa previamente fiscalizada. Em Julho, entregou à Assembleia da República mais de 50 propostas de alteração ao diploma.

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    Foto: Ivan Henao

    O tom crítico no interior do relatório contrasta com o agradecimento colocado nas páginas iniciais do documento, onde a CIMEC enaltece a “estreita colaboração, sempre pronta e útil” do Tribunal de Contas e identifica a sua presidente, Filipa Urbano Calvão, e a directora-geral, Conceição Ventura. Mais de uma centena de páginas depois, a Comissão esclarece que os dados relativos aos contratos submetidos a fiscalização prévia não lhe foram enviados e que, por opção do Tribunal de não os integrar na plataforma eContas, a análise permanece “fragmentária e dependente de um apuramento e tratamento casuísticos”.

    A CIMEC foi criada em 2021 para acompanhar e fiscalizar os procedimentos realizados ao abrigo das Medidas Especiais de Contratação Pública (MEC)e a execução dos respectivos contratos, controlando sobretudo o cumprimento das exigências de transparência e imparcialidade. As MEC permitem, alegadamente, acelerar a contratação em áreas consideradas prioritárias, entre as quais fundos europeus e PRR, habitação, tecnologias de informação, saúde, apoio social, gestão de combustíveis e aquisição de determinados bens agroalimentares.

    Apesar da designação de “independente”, a Comissão não nasceu fora do circuito político e administrativo. Dos seus cinco membros, três são eleitos pela Assembleia da República, incluindo a presidente, um é designado pelo Mecanismo Nacional Anticorrupção e outro pelo IMPIC, instituto público responsável pela regulação dos mercados públicos e que fornece à CIMEC parte substancial da informação analisada.

    Foto: A.R.

    A actual presidente, Sara Younis Augusto de Matos, foi eleita pelo Parlamento, tal como Cláudia Viana e Jorge Mendes Pedrosa; Fernando Xarepe Silveiro foi indicado pelo Mecanismo Nacional Anticorrupção e António Pires de Andrade pelo IMPIC. A independência prevista na lei corresponde, assim, ao exercício funcional do mandato, não a uma composição exterior aos órgãos políticos e administrativos do Estado.

    Mesmo incompleta, a radiografia traçada neste relatório mostra a dimensão financeira deste regime especial de contratação, que facilita contratações ao arrepio das regras da livre concorrência e do uso adequado de verbas públicas. Desde a entrada em vigor das MEC até ao final de 2025, o IMPIC registou 4.321 procedimentos, com um preço-base global de 1,45 mil milhões de euros. A maioria, num total de 2.656, respeitou a projectos financiados ou co-financiados por fundos europeus, representando 61,5% dos procedimentos e 420,6 milhões de euros. Os 1.043 procedimentos associados ao PRR ascenderam a 147,6 milhões.

    A concentração mais expressiva surgiu nas empreitadas de concepção-construção. Apenas 98 procedimentos, equivalentes a 2,3% do total, somaram 681,3 milhões de euros, ou 47% de todo o preço-base das medidas especiais, apesar de este regime ter vigorado somente entre Dezembro de 2022 e Outubro de 2025. No segundo semestre de 2025 foram lançados mais 22 procedimentos desta natureza, no valor de 51,3 milhões.

    Sara Augusto de Matos, presidente da CIMEC, foi indicada pelo Partido Socialista. Foto: captura de ecrã de uma audiência no Parlamento em Maio de 2026.

    Neste relatório, a Comissão colocou ainda sob suspeita concorrencial 299 procedimentos. Segundo o relatório, a correlação entre o número de entidades convidadas e o número de propostas efectivamente recebidas poderá justificar uma análise “individual ou sistémica” pela Autoridade da Concorrência e pelo IMPIC. A CIMEC não identifica, porém, os casos concretos, embora relembre ter detectado em relatórios anteriores situações que indiciavam inobservância das exigências de transparência e imparcialidade e práticas susceptíveis de “falsear as regras de concorrência”.

    O efeito da flexibilização das regras surge também quantificado. Só no segundo semestre de 2025, 177 procedimentos para empreitadas de obras públicas, com um preço-base de 69,4 milhões de euros, decorreram por consulta prévia simplificada. Sem as MEC, por apresentarem valores iguais ou superiores a 150 mil euros, teriam obrigatoriamente seguido procedimentos mais abertos à concorrência. No semestre anterior tinham sido apenas 71, no valor de 30,5 milhões. A própria Comissão assinala um aumento significativo no número e no valor destes procedimentos “menos abertos à concorrência”.

    O mesmo regime foi usado em 111 procedimentos de aquisição de bens móveis, no valor de 15,85 milhões de euros, e em 73 aquisições de serviços, no valor de 11,24 milhões. Todos ultrapassavam 75 mil euros e, fora das medidas especiais, teriam de decorrer através de modalidades mais concorrenciais. A consulta prévia simplificada não corresponde a um ajuste directo, porque exige o convite a pelo menos cinco entidades, mas continua a ser um procedimento fechado: a entidade adjudicante escolhe previamente quais as empresas autorizadas a disputar o contrato.

    Entre os 359 contratos que conseguiu confirmar no segundo semestre de 2025, a CIMEC contabilizou 103,5 milhões de euros, mais 54% em número e mais 26,3% em valor do que no semestre anterior. A consulta prévia simplificada precedeu 268 contratos — 74,7% do total —, no valor agregado de 56,4 milhões de euros.

    As próprias bases oficiais nem sempre contam a mesma história. Num ponto do relatório não aparecem contratos celebrados ao abrigo do regime especial de concepção-construção; noutro surgem seis contratos dessa natureza, remetidos ao Tribunal de Contas, no valor de 17,38 milhões de euros. A CIMEC classifica a situação como uma “discrepância no registo dos dados”.

    A Comissão encontrou ainda sete procedimentos indevidamente classificados como MEC depois da revogação daquele regime e comunicou o erro ao IMPIC. Mantém também nas estatísticas um concurso para a construção de um navio multifunções para a Marinha Portuguesa, com preço-base de 94,5 milhões de euros, que reconhece ter sido erradamente registado como execução do Programa de Estabilização Económica e Social, inflacionando artificialmente os valores dessa categoria.

  • Donos do Pingo Doce registam influência nos media: 4.751 notícias valeram 165 milhões

    Donos do Pingo Doce registam influência nos media: 4.751 notícias valeram 165 milhões


    Comprar um jornal continua a ser a forma mais visível — e também a mais ‘rudimentar’ — de um grupo económico adquirir influência mediática. O proprietário fica identificado, o investimento aparece nas contas e qualquer conflito entre os seus interesses empresariais e a linha editorial do órgão de comunicação social pode, pelo menos em teoria, ser escrutinado. A relação de poder deixa impressões digitais.

    A Sonae seguiu esse caminho quando criou o Público, em 1990 – e já meteu 53 milhões de euros no diário. O Observador nasceu e cresceu com um capital distribuído por empresários, gestores e sociedades de investimento. Nunca deu lucro. Marco Galinha procurou ganhar projecção através da Global Media, grupo que chegou a controlar títulos como o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias, O Jogo e a TSF, e no qual o Grupo Bel passou a deter uma posição dominante. Está em falência técnica, com dívidas ao Estado e sem contas mostradas de 2025.

    A presença de jornalistas e responsáveis de órgãos de comunicação social em eventos da Fundação Francisco Manuel dos Santos é uma constante. A fundação não revela pagamentos, mas quantifica impacto mediático. Foto: captura de ecrã.

    Mário Ferreira constitui outro exemplo. Depois de construir um império ligado ao turismo e aos cruzeiros, tornou-se o rosto empresarial da Media Capital, dona da TVI e da CNN Portugal. Em 2025, a Media Capital avançou ainda para a imprensa escrita, comprando 98,21% da Newsplex, proprietária do Nascer do SOL e do jornal i, pelo preço simbólico de um euro, assumindo responsabilidades perante a Autoridade Tributária e a Segurança Social.

    A própria Jerónimo Martins, um dos grandes grupos empresariais portugueses, também ensaiou uma entrada directa neste universo. Em 2024, através da Recheio SGPS, participou no aumento de capital da empresa proprietária do Observador, investindo 750 mil euros e ficando com 4,99% do capital. Mas a retalhista fez questão de dizer que não previa reforçar a posição, por os media não constituírem uma área estratégica de investimento. (jornaldenegocios.pt)

    Essa pequena participação no Observador – que até fica aquém do limite de obrigação de transmitir essa posição no Portal da Transparência dos Media – constitui, aliás, um pequeno desvio em relação à estratégia que tem norteado a família Soares dos Santos. Na verdade, a estratégia de influência da Jerónimo Martins não passa por comprar jornais, assumir prejuízos, nomear administradores ou aparecer na ficha técnica. Passa por uma via mais limpa, mais respeitável e bastante mais eficaz: a Fundação Francisco Manuel dos Santos.

    Parcerias com órgãos de comunicação para conteúdos informativos, como o programa da Rádio Renascença ‘Da Capa à Contracapa”, são frequentes, mas a Fundação não revela quanto paga à rádio da Igreja Católica. A Lei da Rádio não permite este tipo de parcerias se houver pagamentos.

    A Fundação não surge como accionista de redacções. Surge como produtora de conhecimento. Mas o seu próprio Relatório Anual de 2025 mostra uma realidade bem mais sofisticada: a instituição tem estado a transformar-se numa plataforma de produção, distribuição e medição de agenda mediática.

    No capítulo dedicado aos media, a Fundação afirma que o objectivo dos seus policy papers e barómetros consiste em “maximizar o impacto” das recomendações na formulação de políticas públicas, aumentar a visibilidade junto do público, dos decisores políticos e dos líderes de opinião. O relatório acrescenta que foram desenvolvidas “parcerias estratégicas robustas” com meios de maior impacto e “acções de aproximação orgânica aos jornalistas”, destinadas a posicionar os conteúdos da Fundação como referências imediatas nas pesquisas e análises das redacções. Por outras palavras, a Fundação não pretende apenas divulgar estudo, mas sim influenciar a agenda mediática para, através dela, influenciar políticas públicas. E usa uma rede tentacular de parcerias com a imprensa e jornalistas.

    A notícia como retorno financeiro

    O ponto mais revelador surge na forma como a Fundação mede as suas relações com a imprensa. Vai até ao ínfimo pormenor. Em 2025, contabilizaram 4.751 notícias sobre a sua actividade, quase metade das quais em meios de maior alcance. Essas publicações foram avaliadas em 165 milhões de euros de AAV — valor publicitário equivalente, isto é, uma estimativa de quanto custaria comprar em publicidade o espaço ocupado por essas notícias.

    Fundação patrocina documentários de informação da RTP. Não revela montantes, mas apresenta-se como co-produtor. No caso de documentários e programas de actualidade informativa podem colocar-se questões legais se houver participação de jornalistas. Foto: captura de ecrã.

    Este indicador não representa dinheiro recebido nem pago. Também não prova que as notícias tenham sido compradas. Mostra, contudo, que a Fundação olha para a cobertura jornalística como um activo económico mensurável. A notícia deixa de ser apenas notícia e passa a ser retorno.

    A comparação com as próprias contas é elucidativa. Em 2025, a Fundação recebeu 8,617 milhões de euros em doações, quase tudo proveniente das sociedades da família fundadora. Nesse mesmo ano, registou 368 mil euros em “publicidade e comunicação”. Segundo esta métrica escolhida pela própria Fundação, a exposição obtida nos media correspondeu a mais de 19 vezes o financiamento anual recebido e a quase 450 vezes a despesa contabilizada em publicidade e comunicação. Qualquer director de marketing sonharia com um retorno desta escala. Mas também qualquer director de um órgão de comunicação social deveria perguntar-se que tipo de dependência institucional se cria quando uma entidade privada consegue converter os media numa caixa de ressonância tão eficiente.

    Os números descem depois ao maior detalhe. Um único policy paper sobre automação e inteligência artificial no mercado de trabalho português originou 184 notícias e mais de seis milhões de euros de AAV. O Barómetro do Turismo gerou 82 notícias e 5,3 milhões de euros. O Barómetro do Poder Local somou 139 notícias e 4,5 milhões. A actualização do estudo Portugal Desigual apareceu em 186 notícias, avaliadas em quase quatro milhões de euros. Tudo contabilizado numa gigantesca máquina registadora de supermercado.

    A linguagem ‘pragmática’ do Relatório de Actividades de 2025 da Fundação Francisco Manuel dos Santos chega a ser surpreendente pela sinceridade de abordagem. Dezenas de jornalistas e antigos surgem no site da fundação como tendo ‘colaborações’.

    Nem os comunicados escapam à contabilidade da influência. Os “Retratos dos Municípios”, divulgados em Setembro e enquadrados no contexto das eleições autárquicas, produziram 542 notícias e quase 30 milhões de euros de AAV. O comunicado sobre pobreza valeu 165 notícias e mais de 3,5 milhões. O do Dia da Mulher gerou 152 notícias e 3,3 milhões. Os comunicados do Dia do Trabalhador e do Dia do Ambiente valeram 2,2 milhões cada.

    Poucas instituições privadas conseguem transformar um comunicado de imprensa em centenas de notícias. Menos ainda conseguem fazê-lo em temas com impacto directo no debate político, social e económico.

    Parcerias com quase todos

    A Fundação não depende apenas da boa vontade das redacções. Na verdade, tem montado uma rede de parcerias que atravessa praticamente todo o sistema mediático português. Em 2025, colaborou com RTP1 e RTP3, TVI e CNN, SIC e SIC Notícias, CMTV e NOW. Na imprensa, esteve presente no Expresso, no Jornal Económico e na revista Domingo, do Correio da Manhã. Na rádio, manteve programas na Renascença e avançou com uma parceria com o Observador.

    No Observador nota-se, em particular, como funcionam as relações entre a Fundação e a imprensa: existem notícias sobre estudos mas também parcerias com conteúdos pagos.

    A lista de protocolos e parcerias em vigor no final do ano é ainda mais extensa: CNN, CMTV, Jornal de Negócios, Jornal Económico, Jornal Expresso, Jornal Público, NOW, Observador, Rádio Comercial, Rádio Renascença, RTP, SIC, SIC Notícias e TVI. A Fundação está, assim, simultaneamente dentro da televisão pública, dos canais privados, das televisões de informação, da imprensa económica, da imprensa generalista, das rádios e das plataformas digitais.

    Na CMTV e no NOW, os programas da série Falar Global e os retratos da Pordata somaram 404 emissões ao longo do ano. A Fundação atribui-lhes 17 milhões de espectadores e 17,5 milhões de euros de AAV. No NOW, foram ainda transmitidos oito programas da série Global 5.0, com entrevistas a autores dos seus estudos, barómetros e policy papers.

    Na SIC, SIC Notícias e Expresso, os barómetros da Fundação foram convertidos em peças no Jornal da Noite, debates televisivos, artigos online, entrevistas e textos na edição impressa. O resultado global foi avaliado em quase 10 milhões de euros de AAV e 2,4 milhões de espectadores em televisão. Na TVI, a Fundação levou autores dos seus livros ao programa Dois às 10, num registo assumidamente adaptado ao daytime, para alcançar o público mais amplo possível. A operação chegou, segundo o relatório, a 3,5 milhões de pessoas.

    ‘Parcerias’ com a Impresa implica a garantia de debates em programas de informação, o que sugere ingerência de uma fundação no conteúdo editorial de um órgão de comunicação social. Neste caso, quando a presidência da Fundação Francisco Manuel Santos era ocupada pelo actual ministro Gonçalo Saraiva Matias (na foto), estava em curso um programa sobre as cinco décadas de democracia. A Fundação não revela quanto pagou à Impresa. Foto: captura de ecrã.

    Na Rádio Renascença, os programas Da Capa à Contracapa, A Fundação Dá Que Pensar e A Fundação Sugere alcançaram mais de sete milhões de pessoas. No Observador, o podcast Eu posso ser…, produzido a partir de uma colecção da Fundação sobre saúde mental, chegou a 190 mil pessoas e teve 1,4 milhões de visualizações em vídeos promocionais.

    No Jornal Económico, a parceria consistiu na publicação mensal de artigos, em papel e online, escritos por autores de ensaios e retratos da Fundação. No Expresso, a colecção Desconectados, composta por quatro livros oferecidos com o semanário, teve impacto não apenas editorial, mas também comercial: nas quatro semanas em que o jornal saiu com livros da Fundação, as vendas aumentaram 10% face às edições anteriores.

    A Fundação produz o estudo, escolhe os especialistas, define o momento de divulgação, assegura a parceria, coloca o conteúdo no órgão de comunicação social, mede a audiência, calcula o valor publicitário equivalente e avalia o impacto. Depois repete o processo no ano seguinte. Isto não é simples assessoria de imprensa, mas uma perfeita máquina de produção de agenda.

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    Foto: D.R.

    Influência sem telefonema

    Dominar a agenda não significa escrever cada notícia. Também não exige censura, telefonemas ameaçadores ou directores amestrados. Funciona de forma mais subtil. A Fundação oferece temas, dados, autores, grafismos, bases estatísticas, podcasts, rubricas, documentários e livros. Os media, fragilizados financeiramente, recebem conteúdos prontos, marcas de prestígio, audiências, vendas acrescidas e, em muitos casos, parcerias que ajudam a preencher grelhas, páginas e plataformas digitais. O incentivo é óbvio. O risco também.

    Quando uma fundação ligada à família que controla a Jerónimo Martins se torna parceira de quase todos os grandes grupos de media, a independência editorial passa a depender menos de declarações formais e mais da capacidade concreta das redacções para separarem jornalismo, promoção institucional e interesses comerciais.

    Nada prova que uma notícia negativa sobre o Pingo Doce ou a Jerónimo Martins tenha sido travada por causa da Fundação, embora se encontrem muito poucas na imprensa generalista e especializada, mas seria ingénuo fingir que esta rede não produz um dividendo reputacional indirecto. A família Soares dos Santos deixa de aparecer apenas associada à distribuição alimentar, aos preços, aos fornecedores, às relações laborais ou aos lucros. Surge agor sobretudo ligada ao conhecimento, à democracia, à educação, à saúde mental, à pobreza, à inteligência artificial, ao poder local e às políticas públicas.

    Aliás, a própria Fundação proclama actuar com independência face a poderes públicos e privados, ideologias, correntes de opinião e credos. Também afirma que os seus projectos devem garantir pluralidade de opiniões, liberdade crítica e independência de análise. O problema não está, porém, na proclamação, mas sim na opacidade das relações com os media.

    Foto: D.R.

    O PÁGINA UM dirigiu à presidente do Conselho de Administração da Fundação Francisco Manuel dos Santos, Fátima Barros, um conjunto alargado de perguntas sobre estas parcerias. Perguntou quanto foi pago a cada órgão de comunicação social, que contrapartidas financeiras ou materiais estão previstas, como se garante a separação entre departamentos comerciais e redacções, se todos os conteúdos são claramente identificados perante o público e se as 4.751 notícias incluem conteúdos cuja divulgação estava contratualmente prevista.

    Foi ainda solicitado esclarecimento sobre a metodologia usada para chegar aos 165 milhões de euros de AAV e sobre os benefícios reputacionais indirectos para a Sociedade Francisco Manuel dos Santos, a Jerónimo Martins e o Pingo Doce.

    Fundação respondeu sem responder

    Em suma, as questões eram simples e de inequívoco interesse, tanto mais que a Fundação Francisco Manuel dos Santos é uma entidade privada com estatuto de utilidade pública, o que significa que, de acordo com a Lei-Quadro do Estatuto de Utilidade Pública, tem o dever de “assegurar a transparência da gestão através da possibilidade de acesso aos documentos relativos à sua gestão financeira e patrimonial a quem demonstrar ser titular de um interesse direto, pessoal, legítimo e constitucionalmente protegido, aplicando-se subsidiariamente, com as adaptações necessárias, o regime de acesso aos documentos administrativos”.

    Fátima Barros, actual presidente do Conselho de Administração da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Foto: FFMS.

    As respostas recebidas mostram, contudo, uma fraca predisposição da Fundação para ser questionada. Sem serem assumidas pessoalmente por Fátima Barros nem subscritas individualmente por qualquer responsável, as respostas ao PÁGINA UM surgiram sob a forma de comunicação institucional, num tom pouco compatível com a serenidade e a abertura que se esperariam de uma fundação que proclama transparência, independência e compromisso com o debate público.

    Limitando-se a invocar a sua missão, os seus estatutos, os mecanismos de fiscalização internos ou institucionais, e ainda informação já constante do Relatório Anual de Actividades e Contas de 2025, a resposta, longe de cordial, aparentou incómodo com o escrutínio jornalístico, recusando discriminar verbas ou assumir a dimensão financeira de parcerias que, em muitos casos, envolvem necessariamente recursos, produção, espaço editorial, tempo de antena ou vantagens comerciais.

    E mais: chegou ao ponto de “solicitar” a publicação integral da sua posição, “e sem quaisquer cortes ou comentários interpolados“, como se o direito ao contraditório conferisse à entidade escrutinada qualquer poder sobre a edição, extensão ou enquadramento da notícia — uma pretensão reveladora de preocupante falta de noção sobre a liberdade de imprensa. O PÁGINA UM revela em anexo a troca de mensagens, onde pode ser lido integralmente o texto da Fundação, mas apenas para ficar patente a ausência de respostas concretas.

  • Bill Gates: documentos revelam acesso a dados “Top Secret” e ligação a Fauci

    Bill Gates: documentos revelam acesso a dados “Top Secret” e ligação a Fauci


    Por que motivo um investidor privado teve, durante anos, uma credencial de acesso a informação secreta nos Estados Unidos? E de que forma usou a sua influência e a informação privilegiada a que teve acesso? Estas são apenas algumas das questões que se levantam depois de serem conhecidos documentos que revelaram que o magnata Bill Gates manteve uma credencial de acesso a informação secreta nos Estados Unidos, entre 2014 e 2021.

    A revelação surgiu no âmbito da investigação de uma comissão do Senado norte-americano a Anthony Fauci, o estratega da gestão da pandemia nos Estados Unidos. Os documentos também mostraram a existência de uma ligação próxima entre Bill Gates e “Tony” — nome pelo qual Gates trata Fauci em e-mails obtidos pela comissão —, que chegou a rever e editar um livro que o milionário publicou durante a pandemia.

    Bill Gates / Foto: D.R.

    As revelações estiveram em destaque durante uma audiência no Senado dos Estados Unidos a Anthony Fauci. O senador Rand Paul, presidente da Comissão de Segurança Interna e Assuntos Governamentais, adicionou aos registos uma carta do Departamento de Energia que confirma que Bill Gates teve uma autorização de segurança “Q” entre 2014 e 2021.

    Uma credencial “Q ” é uma autorização de alto nível emitida pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos. Corresponde, em termos gerais, a uma autorização “Top Secret” e permite ao seu portador, mediante necessidade de conhecimento, o acesso a informação classificada como “Muito Secreta”, “Secreta” e “Confidencial”, incluindo “Dados Restritos”, “Informação de Segurança Nacional” e “Dados Anteriormente Restritos”. É equivalente a uma credencial “Top Secret” do Departamento da Defesa dos Estados Unidos.

    A revelação ganhou particular relevância porque Gates era, durante a pandemia, um cidadão privado sem qualquer cargo formal no governo dos Estados Unidos, mas manteve contactos frequentes com responsáveis políticos e de saúde e participou em discussões internacionais sobre a resposta mundial à covid-19. Isto enquanto a Fundação Bill & Melinda Gates detinha investimentos e interesses na área da Saúde, designadamente em farmacêuticas e biotecnológicas.

    Além dos financiamentos e parcerias com empresas do sector da saúde e das farmacêuticas, a Fundação Gates exerce ainda a sua enorme influência global na Saúde através de doações à Organização Mundial de Saúde e financiando a lobista GAVI e a CEPI (Coalition for Epidemic Preparedness Innovations), criada em 2017.

    Um dos investimentos da Fundação foi feito em 2019, com a compra de 55 milhões de dólares em acções da biotecnológica BioNTech, equivalente a 18,10 dólares por acção, com a justificação de que queria que a empresa desenvolvesse produtos destinados à prevenção e ao tratamento da SIDA da tuberculose. Em 2020, a BioNTech aliou-se à gigante norte-americana Pfizer para desenvolver uma nova vacina mRNA contra a covid-19. As acções dispararam.

    No terceiro trimestre de 2021, a Fundação Gates vendeu a maioria das acções que detinha na BioNTech quando os títulos superavam os 300 dólares, depois de os títulos atingirem o máximo histórico. O negócio gerou mais-valias de centenas de milhões de dólares à Fundação. Em Novembro desse ano, Gates defendeu as vacinas numa entrevista, mas apontou que não evitavam a transmissão do vírus tinham uma durabilidade curta. Assim, é legítimo levantar dúvidas sobre se Gates ou a sua fundação possuíam informações privilegiadas antecipadas sobre a eficácia real das vacinas mNRA.

    Foto: D.R.

    Não se sabe ao certo que tipo de informação secreta foi vista por Gates. Mas é certo que um dos homens mais influentes do sector privado teve durante sete anos uma autorização de segurança do Departamento de Energia, que permaneceu válida até 2021 — precisamente durante a pandemia de covid-19. O que essa autorização lhe permitia efetivamente fazer ou conhecer continua, pelo menos publicamente, por esclarecer.

    Durante a recente audição a Fauci na comissão do Senado, o senador Rick Scott questionou Fauci sobre a relação com Gates e sobre o eventual papel deste nas políticas relativas à pandemia. Fauci recusou responder, invocando a Quinta Emenda da Constituição numa eventual táctica judicial para evitar cometer perjúrio. Fauci – que beneficiou de um perdão atribuído pela administração Biden para eventuais crimes cometidos entre 2014 e 2025 — acabou por ser acusado de desobediência ao Congresso pela recusa em responder às questões na sua audição.

    Contudo, este não é o único problema detectado pela comissão. É que Gates e a sua Fundação tinham a porta aberta junto dos principais decisores de Saúde e pesquisa do governo norte-americano. E era igualmente próximo de Fauci, que chegou a servir como editor pessoal de um livro que o magnata publicou na pandemia.

    Documentos e e-mails divulgados pelo senador republicano Rand Paul revelaram que Bill Gates enviou a Anthony Fauci, em Janeiro de 2022, o manuscrito do livro “How to Prevent the Next Pandemic” (“Como Prevenir a Próxima Pandemia“) antes de o entregar à editora, pedindo-lhe que o lesse e sugerisse alterações.

    Fauci respondeu cinco dias depois com alterações registadas no texto. O então responsável do NIAID revelou ainda que entregara confidencialmente o manuscrito integral ao seu conselheiro David Morens, que leu todos os capítulos e apresentou comentários.

    Recorde-se que David Morens foi formalmente acusado de vários crimes, por ter ocultado ou apagado e-mails oficiais e contornado as regras da Lei da Liberdade de Informação (FOIA). O antigo conselheiro sénior de Fauci, também foi acusado de ter conspirado para proteger financiamentos públicos atribuídos pelo NIAID de Fauci à EcoHealth Alliance, de Peter Daszak — que terá conduzido pesquisa perigosa de manipulação de coronavírus no laboratório em Wuhan, local onde foi detectado inicialmente o SARS-CoV-2.

    Mas, segundo os e-mails, há registo de que anteriormente, em Abril de 2020, Gates já tinha pedido a Fauci comentários sobre o memorando “Pandemic I: The First Modern Pandemic“, que foi publicado naquele mesmo mês.

    De resto, tornou-se evidente a proximidade existente entre Gates e Fauci e entre a sua Fundação e as instituições federais, como o NIAID e o National Institutes of Health (NIH).

    Note-se que, ao contrário do que foi veiculado extensivamente por governos e pelos media, nunca existiu um verdadeiro consenso científico na estratégia de gestão da pandemia de covid-19, já que muitos cientistas e médicos de topo foram censurados, intimidados e silenciados. Alguns receberam mesmo ameaças de morte, designadamente o epidemiologista mais conceituado e citado do Mundo, John Ioannidis, que se opôs aos confinamentos, e os três autores da Declaração de Great Barrington, que propuseram, em 2020, uma resposta ponderada e proporcional à pandemia.

    Sob a “batuta” de Fauci, os Estados Unidos seguiram uma resposta radical à pandemia assente no fecho de escolas e de negócios, uso intensivo de máscara facial, imposição abusiva de vacinas e censura de cientistas e médicos cujas posições divergiam das “oficiais”. Os media foram aliados de Fauci nesta estratégia. Em países como os Estados Unidos, as vacinas foram impostas às populações como a “resposta” para se poder “abrir a economia” e “voltar ao normal”.

    Na Suécia — um dos países do mundo com mais sucesso na gestão da pandemia —, a gestão da pandemia foi ponderada e proporcional. Em geral, as escolas mantiveram-se a funcionar, tal como a maioria dos negócios e actividades, sem a imposição genérica do uso de máscara facial.

    Contudo, já antes da pandemia havia questões em torno da influência de Gates e da sua Fundação junto das políticas de Saúde nos Estados Unidos.

    A Fundação Bill & Melinda Gates é um dos grandes financiadores da Organização Mundial de Saúde.
    / Foto: D.R.

    Num dos e-mails, em 2018, quando o diretor dos NIH perguntou, com urgência, quais eram as ligações da sua agência à Fundação Gates, a resposta foi que a fundação tinha financiado componentes dos NIH. No dia 25 de Maio de 2018, Francis Collins enviou um e-mail a Fauci e a outros altos responsáveis: “Por razões que não posso explicar agora, preciso de respostas às seguintes questões: 1) estamos a conceder subsídios à BMGF [Fundação Bill & Melinda Gates] (presumo que não); 2) quais são os nossos actuais projetos de colaboração com a BMGF?”. Francis Collins queria as respostas até à tarde de Sábado.

    A análise interna dos NIH concluiu que a fundação nunca tinha apresentado uma candidatura a um financiamento dos NIH, mas que “a BMGF financiou vários componentes dos NIH”. Nesse Domingo, Collins voltou a escrever. Convocado para uma reunião na Sala Oval cuja agenda não lhe tinha sido indicada, relatou que Gates estava a promover directamente junto do Presidente uma vacina universal contra a gripe e perguntou: “Isto está de alguma forma coordenado ou o Bill está a agir por conta própria?”

    Mais tarde, Collins disse a Melinda French Gates que tinha passado o seu mandato a aproximar os NIH da Fundação Gates. Em 8 de Outubro de 2021, poucos dias depois de anunciar a sua demissão, Collins escreveu num e-mail: “Foi um privilégio trabalhar com a Fundação Bill e Melinda Gates ao longo destes 12 anos, e fico satisfeito por ter tido a oportunidade de aproximar ainda mais os nossos esforços na área da saúde global.”

    Também se ficou a saber, pelos documentos, que a DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency) deu à Fundação Gates um briefing privado sobre quatro programas militares relacionados com ameaças biológicas. A 3 de Maio de 2022, o Gabinete de Tecnologias Biológicas da DARPA realizou uma sessão de 90 minutos na sede da agência para o Bioinnovation Accelerator da fundação, abrangendo vários programas da agência.

    Todos estes factos e documentos deixaram no ar questões desconfortáveis sobre o nível de intromissão de entidades privadas nas políticas de Saúde nos Estados Unidos. Mas, mais do que isso, levantam dúvidas sobre quem, além de Gates, teve (ou tem) acesso a informação secreta nos Estados Unidos, incluindo informação sobre o desenvolvimento de armas biológicas e biodefesa, e qual o tipo uso que faz dos dados, designadamente nos mercados financeiros, para proveito próprio. Este ponto é relevante também para outros magnatas que podem ter acesso a informação privilegiada “Top Secret“, designadamente Elon Musk, Jeff Bezos ou Mark Zuckerberk.

    Fauci na audição na comissão do Senado no dia 29 de Julho de 2026. / Foto: D.R.

    Isto porque ter acesso a segredos de Estado relacionados com energia ou biociências enquanto se financiam pesquisas, e se desenvolvem produtos e fármacos cria um cenário onde os limites entre o interesse nacional e o lucro de fundos privados se tornam indistinguíveis. E não se trata apenas da questão dos lucros, mas também da “fome” que alguns magnatas podem ter de querer ser forças de influência junto de governos e organizações internacionais. No limite, quando tem de ser gerir uma pandemia, esta combinação pode revelar-se fatal.

    No caso de Bill Gates, esta é mais uma polémica em que se vê envolvido, depois do escândalo sobre o seu relacionamento com o pedófilo Jeffrey Epstein, que envolveu também a sua fundação. Uma análise independente externa, encomendada pela Fundação Gates, concluiu que dirigentes e funcionários da fundação — incluindo Bill Gates — reuniram-se com Epstein cerca de 30 vezes entre 2011 e 2014, quando o pedófilo já tinha uma condenação na Justiça nos Estados Unidos. Bill e Melinda Gates acabaram por se divorciar em 2021.

    Para saber o que está em causa na investigação da Comissão de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado a Anthony Fauci ,encontra toda a informação em detalhe nesta página criada por José Maria Gonçalves, colaborador do PÁGINA UM: https://faucis-indictment.fly.dev/